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Revista Brasileira de Educação

Print version ISSN 1413-2478

Rev. Bras. Educ.  no.20 Rio de Janeiro May/Aug. 2002

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-24782002000200013 

RESENHAS

 

 

Edil Vasconcelos de Paiva

Faculdade de Educação da UERJ. FRANKLIN, Adrian. Animals & modern cultures. Londres: Sage Publications, 1999.

 

 

WOODS, Peter (1996). Investigar a arte de ensinar. Tradução de Maria Isabel Real Fernandes de Sá e Maria José Álvarez Martins. Porto: Porto Editora, 1999, 224p.

Peter Woods é professor na Escola de Educação da Universidade Aberta, na Inglaterra. O meu primeiro contato com esse autor foi com o estudo etnográfico de uma escola secundária - The divided school (1979) -, no qual apresentou uma análise de experiências e métodos de alunos e professores na adaptação à escola, oferecendo um relato detalhado e penetrante da vida escolar, do ponto de vista dos alunos, professores e pais. Dos trabalhos mais citados de Woods, destacam-se: Sociology of the school: an interactionist view point (1983); Inside schools: ethnography in educational research (1986); Teachers skills and strategies (1990) e Creative teachers in primary schools (1995). O autor faz no livro Investigar a arte de ensinar, uma continuação de Inside schools, uma revisão do posicionamento da etnografiaquanto à pesquisa em educação, de perspectivas atuais de investigação e de seus trabalhos nos últimos dez anos. Em minha opinião, esse livro apresenta contribuições significativas para enriquecer a bibliografia sobre enfoques e abordagens metodológicas da pesquisa em educação e de modo específico sobre as abordagens etnográficas interacionista e histórica pouco discutidas na bibliografia de pesquisa em educação disponível no país. Destacam-se ainda as contribuições do autor às discussões do trabalho colaborativo entre pesquisadores e professores e à utilização da pesquisa ao serviço do ensino.

Woods introduz o livro focalizando o pesquisador e a importância primordial das "realidades pessoais", tanto para a escolha e orientação da investigação como para o investigador. Sua história pessoal e carreira de pesquisador ilustram tais considerações. Situa a adoção que fez da etnografia na descoberta da sociologia interpretativa, fazendo sua defesa com base ontológica e epistemológica no interacionismo simbólico. O modo como as pessoas sentem e o modo como interpretam e constroem significados são partes integrantes desta abordagem que ofereceu ao autor os instrumentos intelectuais para explorar a interação social em contexto escolar e buscar compreender a "arte do ensino". Expõe, então, sua visão de realidade objetiva que só imperfeitamente pode ser alcançada.

No capítulo 1, Woods examina a questão do ensino como ciência e como arte e se detém na revisão de características de uma abordagem artística do ensino (p. 34-42), destacando, dentre outras, a emoção e a criatividade. Identifica o ensino como "uma atividade complexa que desafia qualquer tentativa monolítica de caracterização" (p.42) e conclui que a divisão entre ciência e arte é de certa forma artificial. Tendo como referência a atividade do professor que pode, em um dia típico de trabalho, fornecer exemplos de ciência, arte, trabalho técnico, administrativo e outros, defende a existência de forte componente artística no ensino. Tal defesa parece sugerir que, na realidade, o autor estabelece as dimensões ciência e arte no trabalho do professor, negando, de certo modo, a artificialidade apontada anteriormente para tal divisão.

As premissa subjacentes ao interacionismo simbólico, que do ponto de vista do autor continua a proporcionar contribuições importantes para a compreensão do funcionamento da sociedade e da educação, são apresentadas no capítulo 2. Na perspectiva interacionista, os indivíduos interpretam os estímulos e essas interpretações, continuamente revisadas à medida que os eventos vão sucedendo, modelam suas ações. No centro do interacionismo, está a rejeição ao modelo de conduta de estímulo-resposta que se incorpora aos argumentos metodológicos do positivismo. O interacionaismo questionou a natureza do conhecimento e, concentrando-se nos processos, fez aumentar o interesse pelos estudos do cotidiano. Grande parte desse capítulo (p.52-70) é dedicada ao exame das implicações metodológicas do interacionismo simbólico. Foram identificados dilemas da atuação do pesquisador envolvido na interação, na interpretação e na organização de significados. O autor focaliza pontos fortes do interacionismo, suas virtudes e por que a etnografia interacionista continua a ser relevante na pesquisa em educação, sem entretanto dar destaque às críticas já bastante conhecidas em relação a essa abordagem, como, por exemplo, a sua limitação a fenômenos de imediaticidade interpessoal e o fato de não considerar questões de poder e dominação. Ainda nessa parte, é abordada a questão da construção da teoria, apontando críticas feitas às pesquisas qualitativas por serem descritivas e se limitarem ao "como", em lugar de incluir questões relacionadas ao "porquê". Destaca a investigação guiada teoricamente desde o seu início; a descrição etnográfica baseada na teoria e a análise comparativa como meio de fazer avançar o desenvolvimento da teoria de forma rigorosa. A etnografia é vista como forma de investigação que conduz à reelaboração teórica que transforma as concepções sobre a realidade estudada.

Woods apresenta, no capítulo 3, alguns dos benefícios potenciais para a etnografia oriundos do interesse por uma abordagem pós-moderna que busca fundamentar-se em nova epistemologia, bem como rejeitar princípios racionalistas inerentes à investigação tradicional (a razão, a racionalidade intencional, a verdade última e o abandono do conceito tradicional de "validade", dentre outros). O autor revê abordagens alternativas e formatos de apresentação da investigação, considerando que enriquecem os métodos de investigação existentes, mas não os substituem. As novas formas de abordagem proporcionaram novas formas de apreender subjetividades de um ponto de vista estético e emocional para além de cognitivo; enfatizaram "a relação de proximidade entre os sujeitos e leitores com a investigação e o texto, respectivamente; foi ainda maior o tomar em consideração a subjetividade e o posicionamento do pesquisador como pesquisador (p. 18). O autor reconhece que as novas abordagens dão oportunidade de explorar algumas das áreas sociais que têm estado inacessíveis à investigação social.

O autor explora, nos capítulos 4 e 5, exemplos de aplicação de novas abordagens em investigações qualitativas por ele realizadas. Uma investigação, sobre os efeitos da inspeção escolar nos professores e no seu trabalho, foi levada a efeito em seis escolas primárias durante um período de três anos. O autor fez uso, dentre outras técnicas, de memorandos escritos livremente, buscando explorar os sentimentos do pesquisador relativamente ao que ia sendo descoberto, com o objetivo de "maximizar a compreensão dos pensamentos e dos sentimentos dos professores" (p. 116), bem como do pesquisador, e evidenciar enviezamentos que pudessem afetar a compreensão da situação. A metodologia utilizada na pesquisa que discute "acontecimentos críticos" em educação, ou seja, "formas excepcionais de atividades que ocorrem, de vez em quando, nas escolas e que produzem mudanças radicais nos alunos e, por vezes, nos professores" (p.139), foi apresentada no capítulo 5. A inviabilidade do estudo de um acontecimento "crítico" enquanto ele ocorre, pois tal qualificativo só pode ser atribuído aposteriori, levou o autor a realizar uma etnografia histórica, recorrendo a um conjunto de técnicas qualitativas. "Trata-se da exploração de acontecimentos que ocorreram no passado, utilizando métodos qualitativos e naturalistas que têm por objetivo explorar significados e compreensões e recriar culturas e contextos na maneira evocativa típica da etnografia" (p.141).

No capítulo 6, o autor faz considerações sobre os instrumentos utilizados na escrita (caneta e processador de texto) e a forma pela qual se relacionam ao pesquisador.

No capítulo final, sobre audiências e políticas de divulgação, apresenta exemplos de divulgação macro e micro. No primeiro revê posicionamentos de professores e estudiosos em relação à divulgação de documento do governo "Organização curricular e práticas na sala de aula em escolas primárias: um documento de discussão" que atraiu quer "oposições virulentas, quer apoios entusiásticos" entre os acadêmicos. Outro exemplo é o de um projeto de pesquisa que buscava desenvolver um trabalho de colaboração na escola e que teve início com observação participante em duas turmas e uma concentração posterior em uma delas. Na segunda fase da pesquisa, quando esta seria ampliada e transferida para o contexto da cena escolar onde o diretor detinha a autoridade, um movimento de resistência por parte dos professores impediu que o projeto tivesse continuidade. O autor relata a contextualização da investigação e como o diretor foi visto, pelos professores, sendo capaz de utilizar a investigação como um recurso na sua luta pelo poder. Nessas circunstâncias não foi fácil para o pesquisador abandonar o campo.

A discussão dos casos apresentados sugere a necessidade de que o pesquisador interessado no impacto da sua investigação se responsabilize mais por todas as fases da divulgação. "Os objetivos da investigação e as audiências a quem se destina determinarão a natureza e conteúdo da divulgação e a forma com que ela irá se realizar, podendo ter lugar através da escrita, de palestras, de relatórios, de meios de comunicação social, do professor ou do próprio desenrolar da investigação (p. 193-194).