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Revista Brasileira de Educação

Print version ISSN 1413-2478

Rev. Bras. Educ.  no.20 Rio de Janeiro May/Aug. 2002

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-24782002000200014 

RESENHAS

 

 

Rossano André Dal-Farra

Professor da ULBRA. Doutorando do Programa de Pós-Graduação em Educação da UFRGS

 

 

FRANKLIN, Adrian. Animals & modern cultures. Londres: Sage Publications, 1999.

A relação entre homens e animais remonta a períodos longínquos da história e faz-se presente em uma grande variedade de espaços culturais, com significações bem diversificadas. Não apenas na mídia impressa e eletrônica, mas também nos livros didáticos, nos estudos de ciências, de geografia e nos textos utilizados para leitura e interpretação, na área de língua portuguesa, as referências aos animais apresentam representações iconizadas pela cultura e relacionadas à questão das identidades. De certa maneira, esse é o tema central do livro que passamos a comentar.

Professor da Universidade da Tasmânia, Adrian Franklin afirma, no livro Animals & modern cultures, que o interesse na relação entre animal e homem tem aumentado nos últimos anos no âmbito político e intelectual, atingindo diferentes ramos do conhecimento como a zoologia, a sociologia, a geografia, a medicina veterinária, a sociobiologia, a psicologia, a história e a filosofia. O livro, segundo as palavras do autor, traz um olhar crítico sobre as abordagens até hoje utilizadas para estudar a relação entre animal e homem, procurando estimular visões mais críticas sobre ela na Modernidade.

Franklin procura abordar na obra os olhares moderno e pós-moderno sobre os animais, englobando as atividades de lazer como a caça e a pesca, os zoológicos e o ecoturismo, assim como a utilização de animais de estimação e também a indústria de produção animal, apresentando uma complexa rede de representações de animal e de produção de identidades.

A ligação do homem com os animais não é algo unívoco e homogêneo, e sim se caracteriza como uma relação fragmentária e permeada por aspectos de gênero, etnia, nacionalidade, classe e aspectos regionais diversos. Se, por um lado, temos uma ampliação da inserção dos animais de companhia (pets) na vida urbana, ocorrendo uma crescente tendência de relações mais próximas e carregadas de sentimento, por outro lado, na indústria de produção de alimentos de origem animal, observamos uma tentativa de maximização da utilização dos animais como recurso.

Ao longo do século XX, principalmente nas últimas três décadas, a tendência de estabelecer relações mais amorosas com os animais ficou cada vez mais difícil de ser conciliada com o aumento da demanda por carne, com as técnicas empregadas para obter uma otimização dos animais de produção, bem como com a maior popularidade da caça e da pesca como esportes, e com a expansão da utilização de animais em experimentos científicos. Esse paradoxo pode muito bem ser associado ao olhar que coloca o animal não como uma categoria indivisível, mas como um elemento presente no campo de produção de significados. O autor aborda também o aumento da utilização terapêutica dos animais, caracterizando a maior diversidade de possibilidades na relação entre animal e homem, assim como pela presença de limites zoológicos mais amplos de envolvimento, contemplando espécies variadas (p. 46). A maior amplitude das espécies criadas no ambiente doméstico pode ser observada pela criação não apenas de animais "fofinhos" e "bonitos", como cães e gatos, mas também de iguanas, diferentes espécies de roedores, tradicionalmente associados com "impureza" e "doenças", e até mesmo de insetos, como aranhas.

Considerando a trajetória histórica das mudanças dos sentimentos do homem em relação à vida selvagem, era de se esperar, segundo Franklin, que a caça e a pesca tivessem diminuído consideravelmente no século XX, especialmente nas últimas décadas. No entanto, tais esportes permaneceram populares no Ocidente e, até mesmo, tiveram um crescimento no período, talvez por estarem vinculados a discursos nostálgicos e românticos e ao mesmo tempo serem formas de lazer movidas por "forças modernas", especialmente em determinados países (p. 105).

Outra faceta importante da relação entre animal e homem diz respeito à utilização de animais na agroindústria.

Com as transformações na produção de alimentos de origem animal, as representações de animais de fazenda alteraram-se a partir da modernidade, desvinculando-se gradativamente da produção em escala reduzida em que todas as fases envolvendo criação, abate e processamento do produto eram realizadas no mesmo local , passando posteriormente para o aumento da produção em massa, caracterizando superabundância e mais recentemente sendo marcada pelas preocupações com o consumo exagerado e com a contaminação. Em termos de representação, os animais de fazenda deixaram de ser um ícone de segurança e saúde e tornaram-se símbolos de risco, de doenças e de poluição. No entanto, as "antigas" representações ainda se encontram nos produtos culturais (filmes, livros) destinados às crianças, devido à "impossibilidade" de colocar e traduzir estas novas representações nas histórias infantis (p. 127).

A respeito dos animais no discurso ecológico, Franklin afirma que, mesmo havendo grupos destinados à defesa do bem-estar animal bem constituídos já no século XIX, grande parte das organizações com essa finalidade surgiu a partir dos anos de 1970; no entanto, muitas delas têm em comum apenas isto a defesa dos animais , pois são caracterizadas por ações oriundas de diferentes representações de animal (p.185). O autor cita Tester, para quem a ampliação dos direitos dos animais representa uma construção social, que tem permitido, nos últimos anos, uma relação de maior respeito à vida, atingindo diferentes âmbitos do cenário social, até mesmo o sistema jurídico. A construção dos direitos dos animais acompanhou esse discurso de preocupação com esses seres, permitindo que eles tenham melhores condições de sobrevivência, mesmo com as contradições entre representações de animal de companhia e as representações de animal na produção e na experimentação animal (p. 181). A própria Declaração dos Direitos dos Animais em Bruxelas foi assinada pelos membros da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco), em 27 de janeiro de 1978, definindo, por exemplo, que o homem não pode atribuir-se o direito de exterminar os outros animais ou explorá-los, tendo o dever de colocar sua consciência a serviço dos outros animais, embora as contradições supracitadas façam parte do ambiente cultural da contemporaneidade.

E, para situar como se produzem as identidades frente a essas múltiplas representações de animal, Franklin (p. 98) lembra Giddens, para quem cada indivíduo faz escolhas através de seus estilos de vida, ou seja, pelo conjunto mais ou menos integrado de práticas que segue, não somente porque tais práticas suprem as suas necessidades, mas porque elas dão suporte a uma narrativa particular de sua própria identidade.

As contribuições da obra de Adrian Franklin para uma discussão sobre as formas como as representações de animal se constituíram nas culturas em que nos inscrevemos, bem como sobre as transformações que aí se verificam é, no mínimo, instigante. Para a educação escolar, particularmente no que se refere à educação científica, as repercussões são extremamente significativas, implicando uma historicização das relações entre animais e seres humanos.