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Revista Brasileira de Educação

Print version ISSN 1413-2478
On-line version ISSN 1809-449X

Rev. Bras. Educ.  no.23 Rio de Janeiro May/Aug. 2003

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-24782003000200001 

EDITORIAL

 

 

A discussão sobre as relações entre cultura, culturas e educação invadiu a área pedagógica contemporânea, trazendo para o cenário educacional o conjunto de debates que tem ocupado boa parte das teorizações nas ciências humanas e sociais. Esses são tempos em que as grandes narrativas ou sistemas explicativos que davam sustentação às noções clássicas de verdade, razão, identidade e objetividade, tão caras ao pensamento pedagógico, encontram-se sob intenso fogo cruzado e rigoroso escrutínio; em que as próprias idéias de progresso e emancipação estão sendo descartadas, juntamente com o eclipsar das utopias; em que mudanças históricas - especialmente aquelas operadas em direção a uma nova forma de capitalismo, com repercussões muito concretas em nossas vidas - fazem com que o mundo seja cada vez mais visto como contingente, diverso, instável, superficial, descentrado, imprevisível. Nesses tempos, levar em frente projetos educativos ou educacionais é uma tarefa que se reveste de grande complexidade, constituindo-se em desafio permanente tanto para docentes, como para pesquisadoras e pesquisadores da educação.

Inteiramente inscritas nestas instabilidades, e profundamente perpassadas por elas, encontram-se as discussões relativas à cultura ou às culturas. A composição deste número especial da Revista Brasileira de Educação pretendeu apresentar um panorama dessas movimentações na educação, optando, para isso, por incluir uma gama de artigos que tanto focalizem os contornos de campos de pesquisa que vêm se dedicando de modos muito peculiares a esta problemática, como abordem as questões específicas de grupos culturais que têm emergido como preocupação para a educação do final do século XX e início do atual.

Nosso objetivo foi oferecer aos leitores e leitoras da Revista Brasileira de Educação um conjunto de textos que abordasse as questões culturais sob óticas contemporâneas, procurando dar conta dos variados matizes de conflitos sociais e culturais que caracterizam esses tempos. Foi nossa intenção que os textos contemplassem perspectivas locais e internacionais, e que pudessem mostrar a fecundidade das abordagens, problematizações e reflexões que vêm emergindo.

Como membro da Comissão Editorial da Revista Brasileira de Educação, foi-me confiada a tarefa de organizar este número especial, o que muito me honrou, ao par de trazer-me grandes preocupações decorrentes da compreensão da complexidade de tal intento. Na condição de pesquisadora associada da ANPEd e participante ativa das lides investigativas no meio acadêmico brasileiro da educação, senti-me apta para o empreendimento; contudo, face à amplitude e à variada gama de matizes dessa produção, espalhada pelo país, bem como à invisibilidade de boa parte da mesma, minha sensação foi de incapacidade. Ciente das dificuldades e entusiasmada com o projeto, apresentei ao Conselho Editorial, por ocasião da 25ª Reunião Anual da ANPEd, em outubro de 2002, proposta preliminar de composição deste número. Após as apreciações feitas e acolhendo as sugestões, desde então dediquei-me ao empreendimento. Ao longo deste período, contei sempre com a incansável colaboração, apoio e incentivo do colega Osmar Fávero. Quando aqueles terríveis fatores restritivos como prazos, dificuldades de comunicação com colegas latino-americanos (e brasileiros de regiões mais distantes), ou mesmo incompatibilidade de sistemas operacionais de computadores insistiam em se interpor ao andamento do projeto, lá estava o Osmar com suas sábias e experientes palavras, seguidas de eficientes iniciativas, procurando me tranqüilizar.

O número que agora apresentamos é o resultado desse esforço. O conjunto de artigos que integram esta coletânea é, finalmente, o panorama que conseguimos compor sobre o foco temático escolhido. Certamente, ele expressa uma seleção que, superados os fatores já mencionados e consideradas as limitações de extensão, está fortemente marcada por minha ótica, pela forma como meu olhar constituiu uma perspectiva de abordagem das aproximações entre cultura, culturas e educação. Este é um conjunto possível; não o melhor, muito menos o único, mas aquele que pudemos compor neste momento.

Iniciamos com quatro estudos que expressam tentativas de formular e dar encaminhamento às questões e problemas contemporâneos da cultura no âmbito da educação. O primeiro artigo, de autoria de Alfredo Veiga-Neto, constitui-se em contribuição no sentido de situar nossa discussão, de fornecer subsídios para que se possa pensar os debates deste número à luz dos contextos que abrangem a proveniência e a emergência do conceito de cultura, na Modernidade, bem como os desdobramentos posteriores, que levam à crise e ao estilhaçamento da visão moderna de mundo.

O segundo e o terceiro são trabalhos que traçam os delineamentos e as contribuições de dois novos campos ao debate das imbricações entre questões culturais e a educação. Reinaldo Matias Fleuri esboça a movimentação denominada intercultura, vislumbrando-a tanto como uma perspectiva epistemológica, quanto como um objeto de estudo interdisciplinar e transversal, direcionado à teorização e tematização da complexidade e da ambivalência, nos processos de significação cultural intergrupais e intersubjetivos. No terceiro estudo, as peculiaridades do campo dos Estudos Culturais, suas aproximações com a educação e a pedagogia, bem como as conseqüências deste encontro são abordadas no artigo que escrevi juntamente com Rosa Hessel Silveira e Luis Henrique Sommer.

O artigo de Nilda Alves procura recuperar a importância dos estudos do cotidiano para que se possa compreender como a cultura e seus artefatos de todo tipo estão encarnados nos "praticantes", através das diversas redes em que estão enredados. A autora recorre a imagens de origens diversas para nos mostrar as "marcas" que diversos aparatos e vivências do dia-a-dia em certos espaçostempos imprimem em todos nós.

Contribuições à discussão da dramática implicação dos racismos na educação brasileira podem ser encontradas nos artigos de Nilma Lino Gomes sobre cultura negra e educação, e de Maria Helena Paes sobre a educação indígena. Nilma faz um alerta para a dimensão política da inclusão da cultura negra na educação, ressaltando que não se pode mais negligenciar a persistente presença do racismo que coloca esta cultura no lugar do exótico e do folclore. Por sua vez, Maria Helena, instigada por suas pesquisas, nos traz novas reflexões acerca da educação indígena, as quais incidem sobre as formas como nos acostumamos a lidar com a diferença. É provável que acaloradas discussões surjam dessas abordagens.

Três artigos nos introduzem ao fecundo, complexo e plurifacetado debate sobre juventude e culturas juvenis. O texto de Rossana Reguillo, que aqui incluímos com sua autorização e em língua espanhola, nos apresenta uma oportuna e fecunda agenda para questionar as formas como, no campo cultural, têm-se abordado as culturas juvenis. Em seqüência, somos convidados por Elizabete Garbin a navegar em chats da internet, para conhecer este novo território de construção identitária de jovens. Um surpreendente nicho, entranhado no mundo digital, virtual, em que não há fronteiras, nem distâncias, em que novos códigos comunicativos são criados, e em que as conversas prescindem de imagens reais. Parafraseando um ditado, é ler para tentar compreender! Alinhado a este, o trabalho de Rosângela Soares e Dagmar Meyer problematiza a revista MTV, Music Television, para discutir possíveis relações entre educação, cultura da mídia, juventude e sexualidade juvenil.

Finalmente, dois artigos nos ajudam a pensar caminhos para a educação escolar que contemplem as culturas e os diferentes contextos culturais. Jacinto Ordóñez Peñalonzo nos fala da educação latino-americana a partir de uma perspectiva centroamericana - a costarriquenha -, discutindo as culturas de fronteira. Antonio Flavio Barbosa Moreira e Vera Maria Candau, por sua vez, pensam em caminhos a partir de suas vivências junto ao professorado e às escolas brasileiras e defendem a necessidade de currículos pautados por justiça curricular.

Três resenhas, focalizando um artigo e dois livros atuais pertinentes ao tema deste número, completam este conjunto.

Tendo em vista que esta é a revista de uma associação de docentes e pesquisadores, nos sentiremos recompensados se este número especial, além de proporcionar às nossas leitoras e aos nossos leitores momentos gratificantes de leitura e reflexão, puder estimular um amplo diálogo entre nossos pares. Esperamos, também, que a discussão que aqui se esboça, enseje manifestações que possam dar visibilidade àqueles trabalhos que ainda permanecem restritos a certos grupos ou circuitos acadêmicos e institucionais e, mais ainda, que possibilitem a aproximação entre pesquisadores e pesquisadoras com preocupações intelectuais comuns.

 

Marisa Vorraber Costa

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