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Revista Brasileira de Educação

versão impressa ISSN 1413-2478versão On-line ISSN 1809-449X

Rev. Bras. Educ.  n.25 Rio de Janeiro jan./abr. 2004

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-24782004000100015 

NOTA DE LEITURA

 

Francisco Gomes de Matos

Professor aposentado da UFPE, Comissão de Direitos Humanos Dom Hélder Câmara E-mail: fcgm@hotlink.com.br

 

 

SCHWEBEL, Milton. Remaking america's three school systems: now separate and unequal. Lanham, Maryland and Oxford: The Scarecrow Press, 2003, 277p.

Uma das características distintivas da educação nos Estados Unidos é o cultivo de uma aguçada criticidade a respeito das teorias e práticas ali vigentes. Assim, no léxico educacional norte-americano, encontramos o conceito-chave de pedagogia crítica, definida por Henry A. Giroux como a reconstrução da imaginação social a serviço da liberdade humana (cf. verbete Critical pedagogy, em The literacy dictionary, edição da International Reading Association, 1995, p. 49).

Muitos são os questionadores dos sistemas escolares estadunidenses, como pode ser evidenciado pela consulta à bibliografia, particularmente em língua inglesa, mas poucos são os autores cuja formação e competência interdisciplinares assemelham-se às de Milton Schwebel, educador-psicólogo de renome internacional, até recentemente editor da revista pioneira em Psicologia da Paz: Peace and Conflict, Journal of Peace Psychology, publicada pela Lawrence Erlbaum. Este volume, do professor emérito e decano da Faculdade de Educação da New York University e do Programa de Pós-Graduação em Educação de Rutgers University, é uma contribuição expressiva e inovadora aos estudos críticos sobre (des)igualdade educacional e programas de renovação/melhoria de sistemas escolares.

Antes de descrever a organização e o alcance da obra, destaco três crenças de Schwebel, subjacentes a sua filosofia educacional eminentemente humanizadora: "Openness and disclosure offer the best chance of maintaining a democratic society" (p.32) - Abertura e franqueza oferecem a melhor possibilidade de manter-se uma sociedade democrática e "Love, the most precious human attribute" (p.65)- Amar, o atributo humano mais precioso (tradução minha).

"A nation with an ever-rising educational level can be a more creative and productive society…" (p. 234) - Uma nação com um nível educacional crescente pode ser uma sociedade mais criativa e produtiva (tradução minha).

O título do livro prepara os leitores para uma bem concebida e realizada viagem crítica por sistemas educacionais e tipos de reforma educacional, no contexto norte-americano. Além de anunciar, no título, sua intenção autoral: refazer os três sistemas educacionais americanos, Schwebel acrescenta um subtítulo reveladoramente explicativo: Atualmente distintos e desiguais (tradução minha). Ao Prefácio (3 p.), seguem-se 14 capítulos (de 8 a 30 páginas), Referências (14 páginas), Índice de autores e assuntos (12 p.) e Nota biográfica (1p.)

Os títulos dos capítulos, aqui traduzidos, revelam como o autor de Piaget in the classroom e de Who can be educated? conduz seus leitores à proposta schwebeliana de integração de três sistemas escolares: Os sistemas educacionais de que dispomos. O que as comparações internacionais efetivamente revelam; Até que ponto valoriza-se a educação universal de alta qualidade? Diferenças sociais nos objetivos da educação; Diferenças entre os três sistemas escolares; Diferenças na ação familiar (destaque-se um relato sobre a experiência sueca, p. 74-78); A influência da mediação familiar; Tipos de reforma educacional: centrada em padrões e centrada no mercado; Tipos de reforma educacional: centrada na equidade e na comunidade; O futuro: cinco programas de reforma; O estigma social e a falta de identificação com a escola (destaque-se breve seção referente à violência pessoal e estrutural, na qual Schwebel argumenta que a falta de vínculo afetivo dos aprendizes para com sua escola é fruto da violência estrutural (institucional) que ocorre em tantas escolas); Meias-medidas não dão certo (saliente-se o questionamento da recente legislação federal americana sobre o ensino de primeiro e segundo graus, particularmente no que concerne à aplicação de testes anuais de leitura e matemática, a partir de 2005 e de ciências, no ano seguinte), Rumo a um sistema integrado: o que se deve fazer; Dando início às mudanças.

As referências - em inglês, com exceção de uma em francês, de autoria de Alfred Binet - abrangem livros, artigos e outros tipos de textos publicados no ano 2000. Uma omissão: o questionador livro da educadora americana Linda Darling-Hammond, The right to learn. A blueprint for creating schools that work (San Francisco: Jossey-Bass Publishers, 1997). No Índice, vários conceitos importantes do pensamento educacional contemporâneo: engajamento de educandos, qualidade de vida, redistribuição da riqueza, avaliação. Em suma, um livro provocador, bem redigido e argumentado por um dos pioneiros da Psicologia da Paz. Poderá ser relevante, não apenas para quem estuda as mudanças em sistemas educacionais mas, principalmente, para os que, como Schwebel, acreditam na construção de uma sociedade mais justa, na qual se exerça uma cidadania esclarecida e acima de tudo questionadora.

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