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Revista Brasileira de Educação

versão impressa ISSN 1413-2478versão On-line ISSN 1809-449X

Rev. Bras. Educ. v.11 n.32 Rio de Janeiro maio/ago. 2006

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-24782006000200014 

RESENHAS

 

 

Antonio Carlos R. Amorim

Universidade Estadual de Campinas, Faculdade de Educação E-mail: acamorim@unicamp.br

 

 

TOBIN, Kenneth; ELMESKY, Rowhea; SEILER, Gale. Improving urban science education, new roles for teachers, students and researchers. USA: Rowman & Littlefield Publishers Inc., 2005, 346p.

A superfície da capa é uma montagem fotográfica. Alternando espaços com o título em cores amarelas, brancas e de fundo negro, há quadrados e retângulos de tamanhos diferentes, de onde aparecem as imagens. Fragmentos de uma fotografia que está ampliada na parte inferior da capa: um estudante afrodescendente olhando ao microscópio, em um laboratório que aparece ao fundo, desfocado, juntamente com a figura do professor, também da mesma etnia. Os fragmentos são ora desfocados, ora nítidos, como se estivéssemos olhando a fotografia ao microscópio. É interessante, como convite à leitura, esse jogo entre o visível e o enunciável que a capa discursa.

A alusão ao olhar investigativo com o auxílio do aparato técnico, na construção da realidade, entre nebulosidades e nitidez, é uma abertura a adentrar na coletânea de textos que Kenneth Tobin e colaboradores produziram a respeito do trabalho que realizaram, na Filadélfia, em escolas urbanas nas quais estudam a maioria dos estudantes "african american". Esses estudantes, segundo a coletânea, vivem em condições de pobreza e, em parte, nos guetos ou grupos "de rua".

A aposta, na obra, nos fragmentos que são focados/desfocados pelas lentes da investigação traz também resultados na forma de organização dos textos: a coletânea é aberta com um patchwork de perspectivas a respeito dos papéis dos estudantes como pesquisadores dentro do projeto coordenado por Kenneth Tobin, professor na The City University of New York. Ele iniciou sua carreira como professor de ciências e de matemática no ensino médio e, paralelamente aos projetos na universidade, desenvolve o que em parte se expressa neste livro: a aprendizagem de professores em trabalhar nas escolas secundárias urbanas.

Nas dez primeiras páginas que configuram o prefácio, podemos escutar os estudantes dizendo suas experiências mais marcantes como investigadores no projeto, destacando-se as contribuições para diminuir a evasão, a maior participação nas decisões curriculares, o trabalho com metodologias de investigação e o estímulo a pensar. Os organizadores da coletânea explicitam que apresentar um prefácio com perspectivas, sentimentos e idéias dos estudantes marca o que consideram essencial para a discussão em torno do ensino de ciências nas escolas urbanas: o encontro de uma escola que lhes confira identidade, sensação e reconhecimento de estarem dentro da nação americana. Para isso, é fundamental conhecer exemplos das suas diferentes histórias socioculturais e, mais importante, fazer dessas diferenças o movimento da organização estrutural, afetiva e de aprendizagem nas escolas urbanas.

Elegendo uma frase - "The world waitin" (O mundo esperando), do rap Sickin, composto por dois estudantes - como lema/tema para o contexto dos 17 capítulos que compõem a obra, os organizadores reforçam que a liberdade, tão simbólica para representar os Estados Unidos, nunca poderá ser obtida através do silêncio e também apostam que a juventude americana afrodescendente está pronta para participar engajada na sociedade.

É possível querer, pelo prefácio, que o livro participe da produção discursiva em que ensino de ciências, poder, sociedade e transformação se conectariam tendo as culturas urbanas americanas como contexto ou centralidade. Isso não é surpreendente, pois Kenneth Tobin é editor da recém-lançada revista Cultural Studies of Science Education.

Destaco que esse querer do prefácio se associa aos matizes em evidência no Brasil com os quais se delineiam os estudos culturais em suas interfaces com a educação e para os quais, com raras exceções, as pesquisas sobre educação em ciências têm-se colocado à margem e olhado com estranheza. O livro que é assunto desta resenha é, por linhas outras, uma aproximação potente entre ensino de ciências e estudos culturais. Pode ser, inclusive, um convite às avessas para conhecer e interessar-se pelo que já tem sido produzido no Brasil, com outros tipos de conexões.

Apostar na centralidade da cultura e nos processos de significação que são produzidos em determinados contextos históricos e discursivos é parcialmente o que os capítulos da coletânea realizam. A política cultural que os autores buscam evidenciar não se engendra nas relações entre saber e poder ou mesmo em processos de (des)construção das representações culturais, o que, em minha análise, é uma opção que pouco potencializa as discussões recentes e importantes para, principalmente, pensar as ciências como representações culturais.

Os capítulos do livro estendem a política pelos meandros da dialética da urbanidade, ou seja, a partir da discussão de códigos das ruas, sinais e indícios de identidades dos sujeitos que vivem da/na/com a cidade; jogo de disputas, disparidades e contradições marcam as relações sociais que acontecem nas escolas. Política da reprodução social? Talvez. Referências a Bourdieu e Paulo Freire indicam-nos as ênfases em opressão, em resistência e em sistema de compartilhamento de códigos sociais. Uma síntese desses enfoques é a produção de sentidos para o conceito de agenciamento (distinto dos significados nas filosofias da diferença) cujo efeito é mobilizar os sujeitos tanto naquilo que lhes é pessoalmente constitutivo (experiências, consciência, valores) quanto na libertação das estruturas sociais externas, opressoras e produtoras de desigualdades. Em várias passagens, por entre os capítulos da obra, acentua-se a relevância do diálogo, do trabalho coletivo, dos papéis das diferenças culturais e dos diferentes níveis de representação para os fenômenos que são estudados em aulas de ciências.

Em linhas que não se aproximam da compreensão radical de ciências como culturas, o livro tem sua radicalidade ramificada e conectada em outro substrato: ao estudar ciências aprende-se a respeito da constituição das identidades culturais. O efeito dessa radicalidade está longe de ser a redenção da cisão entre conceito científico e contexto cultural. Não é esse retorno que difere. As ciências, como objeto histórico disciplinar, apresentam-se como um dos conhecimentos cujo não aprendizado gera exclusão em várias instâncias participativas da sociedade.

O livro não coloca em suspensão a relevância de aprender ciências, mas apodera-se de discursos do campo sociológico - que pouco ainda afetam grande parte das pesquisas em educação em ciências - a respeito da seleção, organização e principalmente contextualização dos conhecimentos. A produção curricular nas escolas urbanas, nos dizeres dos capítulos do livro, deve ser conhecida pelos movimentos singulares que estudantes, professores e pesquisadores realizam no trabalho cotidiano. Reforça-se, contudo, o papel de controle das instituições na contemporaneidade.

São prostitutas, rappers, professores e professoras iniciantes, linhas de pesquisa, conceitos científicos, organizações espaço-temporais das escolas que nos passam, aos leitores, também no "fino ajuste" do foco do microscópio, imagem marcante da capa e superfície de espalhamento das palavras dentro do livro. Esse espalhar das palavras encontra, em alguns capítulos, a forma de narrativas, especialmente quando são professores a contar suas experiências com estudantes.

Não são, entretanto, "micronarrativas", nas quais pulsem as singularidades no encontro com as experiências universais, que as transcendam a partir dos objetivos das lentes da pesquisa. Mas há possibilidades de fazê-lo. Grande parte dos textos são traçados de metodologias etnográficas, nas quais são apresentados os diálogos, os contextos e as posições da diferença na produção discursiva. Essas metodologias são um esforço, no livro, de gerar a mesma predicação que o microscópio deseja fazer - ampliar para ver o detalhe e perder-se do contexto. Assim, fugindo da micro e da macroanálises, as autobiografias, as edições de vídeo e os relatos reflexivos das experiências criam um espaço do meio (meso), híbrido, de passagem. Esse meio, passagem, também é política que gira, como câmeras de circuito fechado, pela questão "A cada momento, o que foge numa sociedade?".1 Há, portanto, um plano de multiplicidades que o livro expõe, e que sua leitura nos permite capturar e nela sermos capturados. É importante destacar que nesse plano não se escolheu fugir à disciplina. O livro é a respeito de educação em ciências. Apresentar-se contendo a disciplina é submeter o plano ao ritmo, indolência e violência de um conceito, e é também perfurar esse conceito até que dele saia o seu excesso de barbárie e de fluxos controlados. É impossível negar para superar, lidar com o avesso, pois é sempre dobra.

A discussão a respeito de culturas que o livro traz, e nelas centraliza as análises, é contraponto ao disciplinamento que os conhecimentos científicos escolares já fazem, de espaços e tempos da vida, do pensamento e da escrita (sistematize, organize, interprete, analise, realize reflexões!) dos corpos, das subjetividades, das expectativas, dos sonhos, das memórias. O que o livro insiste em afirmar é que as abordagens culturais, em variadas nuances, quando se juntam são uma multidão, por vezes impessoal, que constantemente têm de (con)viver com a disciplina. Uma vez mais é importante afirmar que a política cultural se efetua em aglutinações do tipo disciplina-controle-cultura-libertação. Nessa direção, abre um caminho profícuo de diálogo com perspectivas pós-estruturalistas e pós-modernas que têm sido motivo de pouco interesse do campo da pesquisa em educação em ciências no Brasil.

O livro é um argumento, longe de ser consensual, de que é apenas com a existência da disciplina, em nunca querer se estabilizar com/em ela, que o plano pode ser de fuga. Por isso ensino de ciências.

 

 

1 Deleuze, Gilles e Guattari, Félix. Mil platôs; capitalismo e esquizofrenia. Rio de Janeiro: Editora 34, 1996, v. 3, p. 79.

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