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Revista Brasileira de Educação

versão impressa ISSN 1413-2478versão On-line ISSN 1809-449X

Rev. Bras. Educ. vol.21 no.66 Rio de Janeiro jul./set. 2016

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-24782016216628 

EDITORIAL

EDITORIAL

Antonio Carlos Rodrigues de Amorim1 

Carlos Bernardo Skliar2 

Cláudia Ribeiro Bellochio3 

Laura Cristina Vieira Pizzi4 

Marcelo Andrade5 

Marcus Levy Bencostta6 

Maria da Conceição Passeggi7 

Marília Gouvea de Miranda8 

1Universidade Estadual de Campinas, Campinas, SP, Brasil

2Facultad Latinoamericana de Ciencias Sociales, Cidade Autônoma de Buenos Aires, Argentina

3Universidade Federal de Santa Maria, Santa Maria, RS, Brasil

4Universidade Federal de Alagoas, Maceió, AL, Brasil

5Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, RJ, Brasil

6Universidade Federal do Paraná, Curitiba, PR, Brasil

7Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Natal, RN, Brasil

8Universidade Federal de Goiás, Goiânia, GO, Brasil

Como aprendemos?" Essa tem sido uma inquietante questão para educadores, filósofos, psicólogos, antropólogos, sociólogos e neurologistas que se propõem a compreender e explicar processos cognitivos, sociais e afetivos envolvidos nessa essencial experiência do humano. E, se a natureza e a diversidade desses processos são amplamente estudadas pelas mais diferentes abordagens, é porque incidem direta ou indiretamente sobre comportamentos, hábitos, crenças e valores com inegáveis repercussões sociais e históricas.

No primeiro artigo deste número da Revista Brasileira de Educação (RBE), Christoph Wulf, da Freie Universität Berlin, articula antropologia e filosofia por uma instigante perspectiva. Em seu texto, intitulado "Aprendizagem cultural e mimese: jogos, rituais e gestos", o autor defende que a capacidade humana de agir em sociedade é adquirida por mimetismo, mediante diferentes processos culturais de aprendizagem, presentes nos jogos, rituais e gestos. Assim, tomada em seu sentido amplo, "a aprendizagem cultural é aprendizagem mimética". A mimese é primeiramente analisada de um ponto de vista histórico e filosófico e, em seguida, discutida a partir do exemplo de um ritual do cotidiano que expressa a aprendizagem do saber prático nos processos miméticos.

Seguem-se, assim, três artigos em que a aprendizagem está relacionada à avaliação. O texto "Caracterização da avaliação da aprendizagem nas salas de recursos multifuncionais para alunos com deficiência intelectual", de Alexandra Ayach Anache e Dannielly Araújo Rosado Resende, apresenta uma minuciosa descrição dos processos, critérios e contingências da avaliação de aprendizagem desses alunos. As autoras observam que a avaliação da aprendizagem escolar é tomada como sinônimo de avaliação do desempenho acadêmico e que as dificuldades ou identificação de comportamentos inadequados constituem os critérios para o encaminhamento e a avaliação dos alunos com deficiência intelectual. O artigo "Escala de estratégias e motivação para aprendizagem em ambientes virtuais", de Andrea Carvalho Beluce e Katya Luciane de Oliveira, tem por objetivo apresentar uma escala de estratégia de ensino, de aprendizagem e de motivação em ambientes virtuais. Trata-se de um estudo psicométrico orientado para as especificidades de ambientes virtuais e, como tal, propõe um instrumento de medida e diagnóstico. O próximo texto articula aprendizagem e avaliação, "Prevenção e remediação das dificuldades de aprendizagem: adaptação do modelo de resposta à intervenção em uma amostra brasileira", no qual Roselaine Pontes de Almeida, Carolina Julien Mattar de Toledo Piza, Thiago da Silva Gusmão Cardoso e Mônica Carolina Miranda questionam programas baseados na resposta à intervenção (RTI) e discutem resultados de uma pesquisa que tem por finalidade adaptar esse modelo de "prevenção e remediação das dificuldades de aprendizagem" ao contexto brasileiro como uma alternativa para a avaliação e intervenção com alunos com essas necessidades.

O artigo de Fernando Augusto Treptow Brod e Sheyla Costa Rodrigues, "O conversar como estratégia de formação contínua na tutoria da educação profissional a distância", trata da mediação pedagógica do tutor em cursos a distância da Rede e-Tec. A pesquisa constatou a necessidade de maior interação entre professores tutores e professores pesquisadores, assim como de aprofundamento da discussão sobre a atuação da tutoria. Diante desses resultados, os autores sugerem a normatização de uma rede de conversação colaborativa entre professores tutores e professores pesquisadores como proposta de formação contínua.

Um segundo conjunto de cinco artigos contempla, por sua vez, a educação superior. O primeiro artigo desse conjunto, "Responsabilidade social da educação superior: mapeamento e tendências temáticas da produção científica brasileira (1990-2011)", de Adolfo Ignacio Calderón, Cleber Fernando Gomes e Regilson Maciel Borges, apresenta um estado da arte da produção científica sobre a responsabilidade social da educação superior (RSES) com base em teses e dissertações defendidas no Brasil em diferentes áreas, no período de 1990 a 2011. O artigo discorre sobre os três eixos temáticos identificados: gestão universitária, aspectos teórico-conceituais e normativos e formação universitária. Ao constatar que a temática é mais estudada nos programas de pós-graduação stricto sensu em administração, os autores sugerem algumas hipóteses para elucidar uma menor incidência em educação. O segundo artigo, "Docência em mestrado profissional: registros de percepções e práticas em (re)construção", de Marlise Heemann Grassi, Miriam Ines Marchi, Rogério José Schuck e Silvana Neumann Martins, trata das "realidades epistemológicas, as competências, as habilidades e as perspectivas de professores do mestrado profissional em ensino de ciências e matemática", descrevendo e discutindo as concepções relativas a vários aspectos da atuação como docentes nessa modalidade de mestrado.

O terceiro artigo, de autoria de Adair Mendes Nacarato, já em seu título questiona "A parceria universidade-escola: utopia ou possibilidade de formação continuada no âmbito das políticas públicas?". O texto aborda a formação docente e as políticas públicas voltadas para os programas de formação propostos pelo Ministério da Educação (MEC). Considera constructos teóricos elaborados nas últimas décadas pela pesquisa educacional e o modo pelo qual estes têm sido apropriados e ressignificados pelas políticas públicas, para em seguida apresentar resultados de uma pesquisa realizada no âmbito do programa Observatório da Educação (OBEDUC), na qual acena para a possibilidade de uma parceria universidade-escola que estimule a reflexão e a crítica dos professores sobre essas políticas públicas. Nelson Cardoso Amaral, no quarto artigo, "A educação superior brasileira: dilemas, desafios e comparações com os países da OCDE e do BRICS", analisa vários indicadores do contexto brasileiro - privatização, taxas líquidas e brutas de escolarização, limites socioeconômicos à expansão tanto pública quanto privada, relação candidatos/vagas, vagas não preenchidas - e os compara aos indicadores de diversos países-membros da OCDE e do BRICS. Constata os grandes desafios que o Brasil deve enfrentar para que possa atingir os parâmetros da OCDE e sugere algumas condições necessárias para torná-los possíveis. Esse conjunto de artigos sobre educação superior se encerra com o artigo de María Luisa Castro Estrada, María José Rodriguez Rejas e Emiliano Urteaga Urías, "Abrir las aulas: el vínculo entre docencia, investigación y vinculación comunitaria", que relata uma experiência de trabalho na Universidad Autónoma de la Ciudad de México, integrada por professores e estudantes. O objetivo dos autores é apresentar sua concepção de aula aberta: "um vínculo entre formação, investigação e cooperação comunitária". A estratégia de abertura das aulas tem dois eixos principais: a interdisciplinaridade e a cooperação comunitária. O artigo considera, ainda, as possibilidades de investigação e transformação dos espaços urbanos e nos convida a repensar o sentido da universidade na atualidade com base na concepção de aula aberta.

O último artigo deste número, "Ética na pesquisa com crianças: ausências e desafios", de Natália Fernandes, analisa essa importante questão para pesquisadores que se dedicam ao estudo de crianças. Dialogando com a sociologia da infância, o artigo discorre sobre vários aspectos relacionados a essa temática. Para tanto, apresenta um levantamento do debate sobre o assunto na área e lembra alguns desafios a serem enfrentados para tornar possível "uma ética viável" na investigação com crianças. Assinala que isso implica pensar, entre outras, as questões do poder que se estabelecem entre adultos e crianças, as hierarquias protocolares e sua contribuição para a invisibilidade epistemológica das crianças nas pesquisas e a forma como se preserva a autoria de crianças e de adultos na análise, interpretação e produção dos dados.

Na seção Resenha, Maria Cecília Mollica comenta a coletânea Os doze trabalhos de Hércules: do oral para o escrito, organizada por Stella Maris Bortoni-Ricardo e Veruska Ribeiro Machado, cujos capítulos retratam alguns dos numerosos obstáculos enfrentados pela educação escolar, em particular os que se referem aos processos de aprendizagem e ensino da leitura e da escrita.

Nesta edição da RBE, que destacou temáticas como aprendizagem, educação superior e ética na pesquisa, é reiterada a preocupação da revista em contribuir para a divulgação das investigações da área, acolhendo distintas abordagens e perspectivas de análise. Expressa com isso seu permanente esforço para a consolidação e o aprofundamento de questões candentes da realidade educacional brasileira, entre elas a (recente) institucionalização de uma Base Nacional Comum Curricular (BNCC), valendo-se da qualificação do debate cada vez mais necessário. Em 2015, a Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação (ANPEd) e a Associação Brasileira de Currículo (ABdC) manifestaram, por meio de uma Exposição de Motivos, suas profundas divergências com relação à proposta da BNCC, apresentada à consulta pública. Para as associações signatárias, os conceitos de currículo, avaliação, direitos do estudante à aprendizagem e de trabalho do professor que fundamentam a BNCC não garantem a valorização e o direito à diversidade, contrariando os interesses de uma escola pública universal, gratuita, laica e de qualidade para todos. Nesse contexto, as discussões travadas sobre essa questão demonstram quão significativas têm sido as contribuições da pesquisa educacional para a fundamentação do debate e para a crítica dos rumos da educação no país.

Por fim, cabe o registro de que o presente número marca a transição na editoria da RBE. Carlos Eduardo Vieira conclui seu período de seis anos de trabalho, sendo três deles como editor de seção (2010-2013) e três como editor (2013-2016). Antonio Carlos Amorim conclui seu mandado como editor de seção (2013-2016) e assume, a partir deste número, a posição de editor da RBE. Assim, desejamos registrar o reconhecimento ao trabalho do editor que deixa a RBE e saudar o novo editor, que tem pela frente o desafio de manter a RBE como uma das referências da divulgação e da circulação da pesquisa educacional.

Com a expectativa de que este número contribua para subsidiar novos estudos e embates na área, desejamos boa leitura a todos!

Rio de Janeiro, julho de 2016

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