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Revista Brasileira de Educação

versão impressa ISSN 1413-2478versão On-line ISSN 1809-449X

Rev. Bras. Educ. vol.21 no.67 Rio de Janeiro out./dez. 2016

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-24782016216753 

RESENHAS

RESENHAS

Rafael Severiano1 

1Mestre em artes pela Universidade Federal do Pará (UFPA). E-mail: rafael_severiano@yahoo.com.br

ALBUQUERQUE, Maria Betânia Barbosa. Beberagens indígenas e educação não escolar no Brasil colonial. Belém: Fundação Cultural do Pará Tancredo Neves, 2012. 167p.

Beberagens indígenas e educação não escolar no Brasil colonial, quinto livro de Maria Betânia Barbosa Albuquerque, do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade do Estado do Pará (UEPA).

Valendo-se do estudo das beberagens, termo que Albuquerque cunhou para referir-se à prática do consumo de bebidas fermentadas, focalizando, em especial, a prática dos índios Tupinambá1 no Brasil colonial, a autora discute e denuncia a concepção de educação que privilegia os saberes escolares e silencia os diversificados saberes não escolares.

O livro traz em sua capa e contracapa uma gravura de Hans Staden, importante fonte histórica sobre os Tupinambá no Brasil colonial, que representa o momento de preparo das bebidas fermentadas, com as várias etapas retratadas, diversas gerações, inclusive crianças. A imagem parece sintetizar a ideia que a autora discorre no livro: o preparo das bebidas fermentadas pressupunha o domínio de saberes específicos, além de outros que os perpassavam, que circulavam e eram apropriados nesses momentos de preparo e posteriormente nos diversos eventos de consumo das bebidas.

Para Thaís Nivia de Lima e Fonseca, que assina o prefácio do livro, o estudo é pioneiro em relação às questões da educação não escolar em perspectiva histórica, pouco explorada pela historiografia da educação brasileira.

O objetivo geral foi "analisar de que modo as beberagens configuravam-se como práticas educativas ou instâncias de socialização fundamentais na estruturação da vida cotidiana dos Tupinambá" (p. 22). A análise teórica situou-se em estudos antropológicos, históricos, arqueológicos, mas sobretudo em estudos do "campo da educação em sua confluência com história, particularmente, com a história cultural da educação" (p. 23). O estudo é de natureza histórica, baseado em fontes documentais e bibliográficas: relatos históricos sobre a sociedade em questão, bem como estudos históricos e arqueológicos.

O livro está dividido em quatro seções, seguidas pelas considerações finais. Na primeira seção, "Introdução", a autora apresenta a pesquisa com seus problemas, objetivos, aspectos metodológicos e objeto, além de contextualização sobre os Tupinambá colonial.

"Por uma história cultural das plantas e bebidas" é a segunda seção. Nela é feita uma construção teórica que permite ao leitor uma visão ampla sobre as práticas de consumo de bebidas. Para a autora, as práticas de beber inserem-se no contexto do estudo das práticas alimentares, que por sua vez se encontram inseridas no cotidiano dos diferentes grupos humanos. O estudo, segundo Albuquerque, flagra um aspecto das bebidas fermentadas pouquíssimo visibilizado pela historiografia da educação: sua capacidade de mediar saberes, fazer circular valores e afirmar identidades, compreendida pela autora como um modo de educação não escolar.

Na terceira seção, "As beberagens como acontecimentos educativos", são apresentados e discutidos os diversos contextos sociais nos quais se fazia presente o consumo das bebidas fermentadas, bem como os momentos de seu preparo. Nessas ocasiões, diversos saberes eram transmitidos, circulados e apropriados, configurando, assim, uma situação educativa. A autora categoriza as beberagens como eventos socioeducativos, pois propiciavam a transmissão e a aprendizagem dos saberes sociais "a partir da mobilização de discursos acalorados, da entoação de cantigas acompanhadas de danças, instrumentos musicais, ornamentos plumários, pinturas corporais, os quais, juntos, permitiam a coesão social e a afirmação da cultura e seus valores" (p. 116).

Na quarta seção, "Mulheres Tupinambá e os saberes empregados na fabricação do cauim", Albuquerque marca como eminentemente feminino o domínio dos saberes necessários a fabricação das bebidas fermentadas.

A autora entende as beberagens como práticas fundamentais para a transmissão e perpetuação dos saberes indígenas, carregando consigo um conjunto complexo de saberes e técnicas de domínio exclusivo feminino. Interessante é a crítica que Albuquerque faz a determinadas interpretações históricas que, ao enfatizarem os valores masculinos, tendem a desconsiderar os valores femininos.

Ainda nessa seção, a autora apresenta os princípios de classificação baseados em duas categorias, a saber: sexo e idade. Há também uma relação dos tipos de bebidas e os saberes empregados na fabricação de cada uma. Não menos importante são os aspectos referentes à cultura material que envolvia o preparo e o consumo das bebidas.

Como "Considerações finais", Albuquerque apresenta a ideia de que as beberagens eram espaços de profícua circulação e apropriação de saberes, e que a educação possui significados e espaços bem mais variados do que os já consagrados pelos paradigmas tradicionais, podendo ocorrer em diversos lugares e instâncias da vida social, o que, com os referidos paradigmas, torna-se difícil sua visualização.

A autora sinaliza ainda a necessidade de uma mudança na historiografia indígena em relação à análise da condição feminina nessas sociedades - análise estas que tendem a uma visão excessivamente masculina. No caso das bebidas fermentadas, as mulheres são agentes de produção e transmissão dos saberes. Penso que essa visão e necessidade de mudança não se restringem somente à historiografia indígena, mas a todas as áreas que tratam da temática.

Finalizando, o leitor de Beberagens indígenas e educação não escolar no Brasil colonial deve estar pronto para ser surpreendido com as análises feitas, que, como dito anteriormente, problematiza a supervalorização dos saberes escolares e propõe um caminho para muito além destes. A leitura dessa obra instigante, envolvente e perspicaz certamente promoverá diversas reflexões acerca da educação e saberes não escolares. O livro é, em certa medida, um manual de história cultural, educação não escolar e saberes do cotidiano e, ainda, para aqueles que recusam abordagens tradicionais da educação. Dada a dimensão dos saberes dos Tupinambá no Brasil colonial e a quantidade significativa de relatos sobre o assunto, abrem-se diversas possibilidades de pesquisas apoiadas nessa obra.

1Etnia pertencente ao tronco linguístico Tupi-guarani.

Recebido: Abril de 2015; Aceito: Junho de 2015

SOBRE O AUTOR

Rafael Severiano é mestre em artes pela Universidade Federal do Pará (UFPA). E-mail:rafael_severiano@yahoo.com.br

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