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Revista Brasileira de Educação

Print version ISSN 1413-2478On-line version ISSN 1809-449X

Rev. Bras. Educ. vol.23  Rio de Janeiro  2018  Epub Sep 03, 2018

http://dx.doi.org/10.1590/s1413-24782018230048 

Artigo

Burnout e depressão em professores do ensino fundamental: um estudo correlacional

AGOTAMIENTO Y DEPRESIÓN EN LOS MAESTROS DE PRIMARIA: UN ESTUDIO CORRELACIONAL

NILSON ROGÉRIO SILVAI 

ALESSANDRA TURINI BOLSONI-SILVAII 

SONIA REGINA LOUREIROIII 

IUniversidade Estadual Paulista, Marília, SP, Brasil

IIUniversidade Estadual Paulista, Bauru, SP, Brasil

IIIUniversidade de São Paulo, Ribeirão Preto, SP, Brasil

RESUMO

Objetivou-se verificar a prevalência de burnout e depressão em professores do ensino fundamental e investigar possíveis correlações entre burnout, depressão, variáveis sociodemográficas e organizacionais. O estudo foi realizado em escolas públicas municipais e participaram 100 professoras do 2º ao 5º ano. Para a coleta de dados foram utilizados o Questionário Geral - Professores; o Inventário da Síndrome de Burnout - ISB; e o Questionário sobre Saúde do/da Paciente - PHQ-9, específico para identificação de depressão. As professoras tinham idade média de 41,95 anos (dp=9,91), a maioria (80%) era casada e trabalhava até 30 horas semanais (61%). Quanto ao burnout, foi identificada a prevalência de 29%, sendo constatado distanciamento emocional (40%), exaustão emocional (37%), desumanização (22%) e realização pessoal (11%). A depressão foi identificada em 23% dos professores, além de correlações positivas e fortes entre a depressão e as dimensões do burnout.

PALAVRAS-CHAVE: burnout; depressão; professores; ensino fundamental

RESUMEN

Este estudio tuvo como objetivo determinar la prevalencia de agotamiento y depresión en los profesores de primaria e investigar las posibles correlaciones entre el agotamiento, la depresión, demográficos y variables organizacionales. El estudio se llevó a cabo en las escuelas públicas, con la asistencia de 100 docentes del segundo al quinto año. Para la recolección de datos se utilizaron el Cuestionario General - Los maestros; síndrome de agotamiento por el Trabajo - ISB; y para la depresión del Cuestionario de Salud/Paciente - PHQ-9. Los maestros tenían una edad promedio de 41,95 años (DE=9,91), la mayoría (80%) se casó, trabajar hasta 30 horas por semana (61%). Con respecto al agotamiento se identificó prevalencia del 29%, las dimensiones del distanciamiento emocional se encontró en un 40% de los maestros, agotamiento emocional (37%), la humanización (22%) y el cumplimiento (11%). La depresión se identificó en el 23% de los profesores, y las correlaciones positivas y fuertes entre la depresión y el agotamiento de las dimensiones.

PALABRAS CLAVE: agotamiento; la depresión; los maestros; la escuela primaria

INTRODUÇÃO

Nos últimos anos, tem-se verificado um crescimento significativo de transtornos mentais nos trabalhadores em geral, particularmente em professores, sendo referido um conjunto de fatores determinantes e/ou contributivos para tal adoecimento. Entre esses fatores destacam-se o aumento do ritmo de trabalho, a diminuição do efetivo de professores, o acréscimo de tarefas e novas responsabilidades assumidas, além de cobrança excessiva por resultados (Assunção e Oliveira, 2009), atividades repetitivas, relações interpessoais prejudicadas com alunos, ambiente conturbado, diminuição da autonomia do professor, insuficiência de materiais e equipamentos e salas de aula em situação precária (Araújo e Carvalho, 2009). Em pesquisa, Cezar-Vaz et al. (2015) referiram-se ainda à necessidade de maior reconhecimento profissional dos professores pela direção, pais e alunos, o que poderia atuar como proteção à saúde mental desses profissionais.

Em relação aos números de prevalência de transtornos mentais comuns em professores, Araújo e Carvalho (2009) verificaram, em seu estudo na Bahia, índices de 20,1 a 45,5% em escolas particulares e de 18,7 a 55,4% nas públicas, com maior ocorrência no gênero feminino, apresentando valores compreendidos entre 20 e 56,8% na comparação com o masculino. Com variação entre 11,2 e 35,6%, os transtornos mentais revelaram-se significativos e associados às atividades que exigiam maior demanda psicológica (pressão) e permitiam pouco controle sobre o trabalho. Trabalho de Vedodato e Monteiro (2008) identificou em Campinas e em São José do Rio Pardo, municípios no interior de São Paulo, a taxa de 20,9% de transtornos mentais em professores de escolas estaduais de ensino fundamental e médio.

Entre os problemas de saúde mental descritos em professores, destacam-se o burnout e a depressão. O decreto n. 3.048, anexo II, de 6 de maio de 1999, emitido pela Secretaria da Previdência Social do Ministério da Previdência Social, reconhece o burnout como doença laboral, sendo denominada síndrome do esgotamento profissional (Brasil, 1999). A definição mais consensual na literatura considera o burnout uma síndrome composta de três dimensões: exaustão emocional, diminuição da realização pessoal e despersonalização (Maslach e Jackson, 1981). De forma breve, podem-se conceituar assim as dimensões:

  • a exaustão emocional caracteriza-se como uma perda marcada e progressiva de energia para as atividades laborais, com consequente esgotamento físico e mental;

  • a despersonalização tem como foco o prejuízo na capacidade relacional com as pessoas e no cumprimento de metas;

  • a diminuição da realização pessoal expressa-se por um julgamento negativo das próprias capacidades perante as demandas a serem cumpridas, com a autoestima e a autoconfiança prejudicadas.

Pode-se apontar um conjunto de possíveis fatores para o surgimento da síndrome de burnout, que envolve tanto características individuais e organizacionais (Benevides-Pereira, 2008; Carlotto, 2011) quanto características sociais, com destaque para o baixo suporte social e familiar (Maslach, Schaufeli e Leiter, 2001). O burnout é a uma combinação de esgotamento crônico e atitudes negativas em relação ao trabalho, com efeitos danosos para a saúde e a produtividade, podendo favorecer perdas diárias, exaustão e autodestruição, além da probabilidade de enfraquecer o acesso a recursos usuais na atividade exercida, no engajamento e na utilização das habilidades do trabalhador (Bakkera e Costa, 2014). Destaca-se ainda como complicador a possibilidade de diagnóstico impreciso e/ou fundamentado em comorbidades com transtornos de comportamento e mentais, tais como a depressão e a ansiedade, o que contribui para a subnotificação do burnout (Batista et al., 2011).

Estudos de prevalência de burnout em professores têm sido realizados no Brasil e no mundo por meio da utilização de instrumentos rastreadores. Benevides-Pereira, Yamashita e Takahashi (2010) avaliaram 101 professores do ensino fundamental de Maringá, Paraná, utilizando o Inventário de Sintomatologia de Estresse (ISE) e o Maslach Burnout Inventory (MBI) e constataram que a maioria dos avaliados apresentou sintomas de estresse (físico, 51,5%, e psicológico, 53,5%). Nesse mesmo estudo, no que se referem às dimensões de burnout, 36,6% dos professores apresentaram exaustão emocional, despersonalização em 31,7% e diminuição de realização pessoal para 36,6%. Carlotto (2011) identificou em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, ao avaliar 881 professores de escolas públicas e privadas dos 3 níveis de ensino utilizando o MBI, níveis elevados de exaustão emocional em 5,6%, despersonalização em 0,7% e baixa realização profissional em 28,9%. Em estudo conduzido em 6 estados do Sudeste do Brasil, com 100 professores do ensino médio de seis escolas públicas, Santana et al. (2012), utilizando o MBI, verificaram altos níveis de despersonalização, com prevalência de 31,8%, alta exaustão emocional em 47,1% e diminuição da realização pessoal para 80% dos participantes. Mesquita et al. (2013) realizaram estudo que contou com 357 professores do ensino médio e fundamental da rede pública de ensino de São Luís, Maranhão, com o Inventário de Sintomas de Stress Adulto de Lipp (ISSL) e o MBI, quando identificaram burnout com níveis moderados para exaustão emocional, apresentando índice de 81,22% e despersonalização de 62,71%. Estudos acerca da síndrome de burnout realizados em outros países também revelaram significativas taxas de prevalência de burnout em professores. Pedditzi e Nonnis (2014) estudaram 882 professores dos ensinos primário e secundário da Itália, utilizando o MBI, identificaram altos níveis de exaustão emocional (33,8%), despersonalização (28,3%) e realização profissional (8,2%). Chennoufi et al. (2012), em pesquisa com 398 professores de escolas públicas do ensino secundário da Tunísia, utilizando o MBI, constataram que 21% dos participantes apresentaram burnout, sendo o nível moderado em 16,4% e o grave em 4,6%; exaustão emocional alta foi identificada em 27,4%; 16,1% apresentaram alta despersonalização e 45,5% manifestaram diminuição da realização pessoal. Na China, Wang et al. (2015) avaliaram com o MBI 559 professores de escolas primárias e secundárias, tendo notado exaustão emocional em 11,98%, despersonalização em 5,5% e baixa realização pessoal em 26,85%.

Analisando a literatura referida, verificou-se que com professores de diferentes níveis de ensino de escolas públicas e privadas, com diferentes peculiaridades culturais, as taxas identificadas tendiam a ser altas, embora variáveis. Assim, apesar de destoantes, os números de prevalência identificados caracterizam os professores como um grupo profissional vulnerável à presença do burnout. Verificaram-se, ainda, diversos estudos que abordaram o burnout em associações com outras variáveis como o estresse (Benevides-Pereira, Yamashita e Takahashi, 2010; Mesquita et al., 2013); estresse e condições organizacionais do trabalho (Cezar-Vaz et al., 2015; Chennoufi et al., 2012; Llorens-Gumbau e Salanova-Soria, 2014; Pedditzi e Nonnis, 2014; Wang et al., 2015), relações interpessoais e a carga de trabalho (Droogenbroeck, Spruyt e Vanroelen, 2014). Outras variáveis também foram abordadas, como o gênero ­(Carlotto, 2011), identificado em maior prevalência em mulheres; variáveis organizacionais como a carga horária de trabalho (Carlotto, 2011; Cezar-Vaz et al., 2015; Santana et al., 2012) a presença variáveis ambientais com o ruído (Carlotto, 2011), além de variáveis como o baixo salário (Cezar-Vaz et al., 2015). Adicionalmente, nota-se que algumas pesquisas verificaram associação de burnout com ansiedade (Cezar-Vaz et al., 2015) e estresse (Benevides-Pereira, Yamashita e Takahashi, 2010), transtornos que a exemplo da depressão são relevantes, embora estudos envolvendo a avaliação da depressão em conjunto com burnout ainda sejam escassos.

A depressão, de acordo com o DSM-V (American Psychiatric Association, 2014), é caracterizada como um transtorno mental em que ocorre alteração significativa do humor ou afeto, sendo comum a associação com a incapacidade funcional e a diminuição da qualidade de vida. Como sintomas comuns são referidas a tristeza, a apatia, a diminuição de motivação, interesse e concentração, além de cansaço aparente, aumento ou redução do sono e de apetite, sentimento de culpa e autoestima e autoconfiança prejudicadas.

Dados da World Health Organization (2017) revelam que mais de 300 milhões de pessoas no mundo sofrem de depressão, com aumento de 18% no período de 2005 a 2015.

Gontijo, Silva e Inocente (2013), em estudo de revisão sobre a depressão e docência, relataram que se trata de um problema para professores em âmbito nacional, nos diferentes níveis de ensino, sendo influenciado por fatores como a idade, a carga de trabalho, o número de alunos (quanto maior, menor a realização e maior o desencanto pelo trabalho), os trabalhos em turno, a violência escolar, as relações interpessoais no trabalho, com pais e alunos e condições de organização do trabalho.

Na literatura nacional, verificou-se que poucos estudos acerca da temática foram conduzidos. Strieder (2009) investigou professores das redes municipal e estadual de Santa Catarina, utilizando o Inventário de Depressão de Beck e notou depressão em 25% dos professores da rede municipal e em 37,5% dos que trabalhavam na estadual. Batista et al. (2013), em pesquisa com professores do ensino fundamental de João Pessoa, Paraíba, perceberam, utilizando o Inventário de Depressão de Beck, que 51% apresentaram depressão. Scandolara et al. (2015) pesquisaram 106 professores do ensino fundamental e médio de escolas públicas estaduais de Francisco Beltrão, Paraná, e constaram que 21,7% apresentaram indicadores de depressão. A literatura também apresenta um conjunto de estudos que investiga a depressão em associação com outras variáveis. Em pesquisa realizada na Itália com 113 professores de escolas públicas do país, Borrelli et al. (2014) identificaram que a depressão correlacionou-se positivamente com a demanda de trabalho e negativamente com o apoio social, e referiram ainda que a saúde mental dos professores esteve significativamente associada à alta demanda de trabalho e ao baixo apoio social. Droogenbroeck, Spruyt e Vanroelen (2014) estudaram as relações interpessoais e a carga de trabalho relacionada diretamente ao ensino e a outras atividades, focalizando o burnout e a autonomia em professores experientes (idade acima de 45 anos). Identificaram que as relações interpessoais se associaram com o burnout em ambas as atividades (as quais se relacionaram com a exaustão emocional), sendo a autonomia mais associada à carga de trabalho das atividades não diretamente de ensino.

Analisando os estudos referidos, verificou-se relevante índice de depressão em professores, a qual se mostrou associada a outras variáveis, como gênero (Bermejo-Toro e Prietro-Ursúa, 2014); demanda de trabalho e apoio social (Borrelli et al., 2014); relações interpessoais (Droogenbroeck, Spruyt e Vanroelen, 2014).

Um questionamento que se configura diz respeito à discussão sobre a possível sobreposição entre depressão e burnout, tema permeado de controvérsias (Bianchi, Schonfeld e Laurent, 2015). Pocinho e Perestrelo (2011) e Pliegera et al. (2015) consideram que no burnout a dificuldade marcante se expressa na vida profissional, podendo as vidas pessoal e social não serem afetadas, enquanto no caso da depressão ocorre um comprometimento em todas as esferas da vida do sujeito. Para Pocinho e Perestrelo (2011), uma característica diferencial importante é que na depressão é comum o sentimento de culpa, enquanto no burnout o comum é a fúria diante da ineficiência profissional. Em estudo realizado por Gil-Monte (2012) com 700 trabalhadores, o autor constatou que a avaliação da culpa é um importante indicador a ser considerado para discriminar indivíduos com burnout. No entendimento dos autores mencionados, burnout e depressão referem-se a estados distintos, com características peculiares. Em contrapartida, Bianchi, Schonfeld e Laurent (2015) consideram que tal distinção é frágil na literatura, havendo pouca clareza se o estágio final do burnout difere do estágio da depressão clínica, questionando a definição dominante sobre burnout. Os autores consideram até mesmo que a exaustão e a despersonalização podem ser mais bem conceituadas como respostas depressivas a ambientes ocupacionais inadequados do que como componentes de outra entidade. Bianchi e Schonfeld (2016) investigaram associações do burnout com o estilo cognitivo depressivo, avaliando 1.386 professores de escolas públicas dos Estados Unidos, e relataram que indivíduos com burnout têm características que se assemelham às do mundo cognitivo depressivo, considerando o burnout uma síndrome depressiva.

Embora não exista consenso sobre burnout e depressão serem manifestações distintas ou sobrepostas, alguns estudos investigaram as possíveis associações entre elas. Na Espanha, Bermejo-Toro e Prietro-Ursúa (2014), em estudo com 71 professores do ensino médio em Madri, utilizaram o CBP-R, o Inventário de Depressão de Beck e o Check List 90 R e variáveis sociodemográficas e não encontraram diferentes padrões de estresse, burnout, depressão e absenteísmo entre professores de ambos os gêneros, entretanto as professoras apresentaram maior frequência de problemas psiquiátricos. Pliegera et al. (2015), com uma amostra de 397 participantes na Alemanha, utilizando o MBI e o Inventário de Depressão de Beck, identificaram uma relação estreita entre depressão e estresse da vida, de forma mais significativa que burnout e estresse da vida.

Analisando os estudos conduzidos, verificou-se que, em geral, eles investigaram algumas variáveis em associação com o burnout, com a depressão e as condições de trabalho, mas não avaliaram essas três variáveis de forma simultânea, o que se configura em uma lacuna na qual se insere o presente estudo, que tem como possível contribuição ampliar as possibilidades de compreensão dessa temática complexa, podendo favorecer a proposição de práticas preventivas e interventivas em saúde mental direcionadas aos professores.

OBJETIVOS

Teve-se como objetivo geral verificar a prevalência de burnout e de depressão em professores do ensino fundamental, bem como investigar possíveis correlações entre burnout, depressão, variáveis sociodemográficas e organizacionais.

MÉTODO

O estudo foi apreciado e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (Unesp), conforme parecer CAAE 43187115.6.000.5398, n. 1.021.194 de 09 de abril de 2015. As escolas e as professoras foram informadas a respeito dos objetivos do estudo, da ausência de prejuízos ou danos decorrentes da participação e do compromisso de sigilo em relação às informações obtidas na pesquisa. A participação foi voluntária, mediante assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, o qual foi apresentado de forma verbal, por escrito e por meio da leitura em conjunto. Adotou-se um delineamento transversal, correlacional.

PARTICIPANTES

O estudo foi realizado em municípios da região central do interior do estado de São Paulo, tendo como fonte de dados a rede pública municipal de ensino, especificamente as escolas de ensino fundamental. Foram contatadas 25 escolas, das quais 13 aderiram à pesquisa. Participaram do estudo 100 professoras, provenientes de uma amostra de conveniência, composta de docentes de ensino fundamental de escolas municipais do 2º ao 5º ano. Como critérios de inclusão da amostra foram considerados: ser do sexo feminino, ter experiência de, pelo menos, dois anos no magistério; e como critério de exclusão estar lecionando na escola atual há menos de seis meses, estar há menos de um ano da aposentadoria, ter tido licença-saúde no último ano, por um período superior a 30 dias.

INSTRUMENTOS

Para a coleta de dados, foram utilizados três instrumentos, conforme descrito:

  1. Questionário Geral - Professores: trata-se de um instrumento construído para os objetivos do estudo, com a finalidade de fazer um levantamento de aspectos relativos às condições organizacionais do trabalho abordando: dados pessoais e ocupacionais (atuação profissional, formação, tempo de docência, tempo de atuação na escola, principais atividades desenvolvidas); e condições de trabalho (ambiente de trabalho, quantidade de horas trabalhadas, número de alunos por sala);

  2. O Inventário da Síndrome de Burnout - ISB: trata-se de um instrumento proposto por Benevides-Pereira (2007), que tem por objetivo avaliar a síndrome de burnout em qualquer categoria profissional. O ISB compreende 35 itens organizados em 2 blocos, sendo o primeiro composto de 16 questões que avaliam os aspectos relativos aos fatores antecedentes e organizacionais, comumente indicados pela literatura como desencadeantes ou moduladores de processos de estresse ocupacional e, consequentemente, burnout. O segundo bloco, composto de 19 questões, compreende a avaliação da síndrome e as dimensões: exaustão emocional, distanciamento emocional, desumanização e realização pessoal. Os itens apresentam afirmações que são expressas por uma escala Likert de 5 pontos que na primeira parte permitem que as respostas sejam graduadas pela frequência de ocorrência: de 0 como nunca a 4 como muito frequentemente; e, na segunda parte, de 0 a 4, sendo 0 nunca e o 4 todos os dias. Para a Parte I do instrumento, as notas consideradas de corte variam entre 22 e 26 pontos para a dimensão Condições Organizacionais Positivas (COP), e a ocorrência de notas menores que essas médias são indicadoras de problemas. No que se refere às Condições Organizacionais Negativas (CON), é considerada a pontuação média de 8 a 13 pontos, sendo notas maiores que 13 pontos indicadores de problemas. Na Parte II do ISB, no que se refere às notas de corte, a exaustão emocional compreende médias de 4 a 9; o distanciamento emocional, de 2 a 6; a desumanização, de 4 a 7; e a realização pessoal, de 10 a 15. Dessa forma, as notas superiores a 9 para exaustão, a 6 para distanciamento emocional, a 7 para desumanização e as notas inferiores a 10 para realização pessoal se apresentam como indicadores de problemas. De acordo com o manual, para ser considerado burnout, existem dois critérios: Critério 1 é necessário elevada exaustão emocional + distanciamento emocional ou desumanização; Critério 2 elevada exaustão emocional + baixa realização pessoal + elevado distanciamento emocional ou desumanização.

  3. Questionário sobre Saúde do/da Paciente - PHQ-9: é um instrumento que foi adaptado do PRIME-MD por Spitzer et al. (1994) para o diagnóstico para transtornos mentais voltado para serviços de saúde, com ênfase em cuidados primários. O PHQ-9 é um módulo de rastreamento de depressão baseado nos critérios diagnósticos para desordem de depressão maior do DSM-IV, que permite o rastreamento de sinais e sintomas da depressão maior atual, bem como classificar a gravidade de ocorrência. Constitui-se de nove itens, avaliados por meio de uma escala ordinal que mensura a frequência dos sinais e sintomas da depressão nas últimas duas semanas (0=nenhuma vez; 1=vários dias; 2=mais da metade de dias; 3=quase todos os dias). Para a obtenção do escore total, realiza-se o somatório dos itens, os quais variam de 0 a 27, e para fins de detecção de indicadores positivos da depressão maior são considerados valores maiores ou iguais a 10 (Kroenke, Spitzer e Williams, 2001; Spitzer, Kroenke e Williams, 1999). No presente estudo, considerar-se-á como presença de depressão os indicadores correspondentes à classificação de gravidade moderada, moderada severa e severa.

No Brasil, foi conduzido um estudo psicométrico com o PHQ-9, sendo a entrevista clínica estruturada para o DSM-IV utilizada como instrumento padrão ouro, e os resultados identificados revelaram que a nota de corte maior ou igual a 10 como mais apropriada para rastrear a depressão. Obteve-se efetividade diagnóstica de 0,999, com curva ROC (AUC) de 0,998 (p<0,001), sensibilidade (S) de 1,00, especificidade (E) de 0,98, valores preditivos positivo de 0,97 e negativo de 1,00 (Osório et al., 2009). A versão em português utilizada no presente estudo foi traduzida pela Pfizer.

PROCEDIMENTOS

COLETA DE DADOS

Foi realizado contato inicial com a Secretaria da Educação, apresentado os objetivos da pesquisa e solicitada autorização para o acesso às instituições de ensino e as escolas municipais de ensino fundamental. Mediante a autorização da secretaria, procedeu-se ao contato inicial com a direção das escolas e, naquelas em que ocorreu a concordância, ao agendamento de uma reunião para apresentação presencial do estudo, convite e explicitação da autorização para a coleta de dados.

Após essa etapa, deu-se o contato com as professoras para a apresentação dos objetivos e convite à participação; ao aceitarem participar da pesquisa as professoras assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido e agendaram um horário para a avaliação, combinou-se o local para a realização da coleta de dados, na escola ou residência do professor, sendo que em todas as situações procurou-se manter boas condições de conforto e privacidade. Em uma sessão individual, foram preenchidos os instrumentos Questionário Geral - Professores, ISB e Questionário sobre a Saúde da Paciente - PHQ-9. As avalições foram realizadas pelo primeiro autor e por uma bolsista de mestrado, a sessão teve duração média de 40 minutos, com variação de até 20 minutos.

TRATAMENTO E ANÁLISE DE DADOS

Foi realizada a codificação dos instrumentos de acordo com as normas técnicas, considerando os critérios propostos pelos instrumentos. Para a análise dos dados, foram considerados os indicadores obtidos por meio dos instrumentos utilizados, de acordo com as normas de correção de cada instrumento. Realizou-se análise estatística descritiva, para as variáveis contínuas (cálculo da média e desvio padrão), para as categorias (frequência e porcentagem). Com o objetivo de verificar as associações entre as variáveis abordadas no estudo, a saber: indicadores de burnout, depressão, características sociodemográficas, organizacionais e de formação acadêmica, foram realizadas análises por meio de testes de correlação de Pearson, adotando-se nível de significância de p≤0,05.

RESULTADOS

A presente seção apresenta as características sociodemográficas de formação acadêmica e de condições organizacionais do trabalho da amostra estudada, os índices de frequência de burnout e depressão, bem como a correlação entre burnout e depressão com as variáveis demográficas e organizacionais.

A Tabela 1 apresenta as características sociodemográficas, de formação acadêmica e de condições organizacionais do trabalho da amostra.

Tabela 1: Perfil das professoras quanto a características sociodemográficas, de formação acadêmica e condições organizacionais do trabalho (n=100). 

Idade, média (desvio padrão)
Estado civil, frequência (%) 41,95 (9,91%)
Sem companheiro (solteiro, viúvo, divorciado) 20 (20%)
Com companheiro (casado ou em união estável) 80 (80%)
Formação acadêmica
Pós-graduação, frequência (%)
Sim 12 (12%)
Não 88 (88%)
Tempo de magistério (anos), frequência (%)
1 a 5 19 (19%)
>6 81 (81%)
Condições organizacionais
Tempo na escola (anos), frequência (%)
1 a 5 55 (55%)
>6 41 (41%)
Número de alunos por sala
Até 25 79 (79%)
Acima de 25 21 (21%)
Alunos com NEE, frequência (%)
Sim 42 (42%)
Não 58 (58%)
Trabalha em mais de uma escola
Sim 39 (39%)
Não 61 (61%)
Carga horária semanal
Até 30 horas 61 (61%)
Acima de 30 horas 39 (39%)
Adequação das condições de trabalho
Temperatura
Insatisfatória 65 (65%)
Parcialmente satisfatória/Satisfatória 34 (34%)
Iluminação
Insatisfatória 39 (39%)
Parcialmente satisfatória/Satisfatória 61 (61%)
Ventilação
Insatisfatória 34 (34%)
Parcialmente satisfatória/Satisfatória 64 (64%)
Espaço físico
Insatisfatória 38 (38%)
Parcialmente satisfatória/Satisfatória 62 (62%)
Mobiliário escolar
Insatisfatória 37 (37%)
Parcialmente satisfatória/Satisfatória 61 (61%)

NEE: necessidades educacionais especiais.

A amostra foi composta apenas de professoras com idade média de 41,95 anos (dp=9,91), a maioria (80%) tinha companheiro (casado, amasiado). Com relação à formação acadêmica, apenas 12% cursaram pós-graduação, 81% atuavam no magistério há mais de seis anos (Tabela 1). Quanto às características organizacionais, o número de alunos por sala foi de até 25 (79%), 42% dos professores tinham em suas salas alunos com necessidades especiais, 39% trabalhavam em mais de uma escola, 61% cumpriam carga horária de até 30 horas semanais e, quanto às condições de trabalho (temperatura, ventilação, iluminação, espaço físico e disponibilidade de recursos materiais), a maioria avaliou como parcialmente satisfatória ou satisfatória (acima de 60%).

Observa-se, na Tabela 2, que 77 (77% dos professores não apresentaram depressão e 23 (23% obtiveram escores indicativos de depressão. Considerando o Critério 1, 29% dos professores apresentaram burnout, sendo prevalentes: distanciamento emocional, com 40 (40%), seguido de exaustão emocional, 37 (37%), desumanização, 22 (22%), e apenas 11 (11%) com baixa realização pessoal.

Tabela 2: Prevalência de depressão e de burnout em professoras (Frequência e percentual) (n=100). 

PHQ-9 Com problema Sem problema
23 (23%) 77 (77%)
ISB (Frequência e percentual)
ISB Com problema Sem problema
Condições organizacionais positivas 36 (36%) 64 (64%)
Condições organizacionais negativas 33 (33%) 67 (67%)
Exaustão emocional 37 (37%) 63 (63%)
Distanciamento emocional 40 (40%) 60 (60%)
Desumanização 22 (22%) 78 (78%)
Realização pessoal 11 (11%) 89 (89%)
Critério 1 29 (29%) 71 (71%)

ISB: Inventário da Síndrome de Burnout.

Na Tabela 3 temos os dados relativos às correlações entre burnout, depressão e variáveis demográficas e organizacionais.

Foram verificadas:

  • correlações negativas e fracas entre a idade dos professores e a presença de distanciamento emocional (uma das dimensões do burnout), entre o tempo que o professor leciona na escola e a depressão, e entre depressão e a realização pessoal;

  • correlações positivas e fortes foram verificadas entre a depressão e as dimensões do burnout (exaustão emocional, distanciamento emocional, desumanização), bem como com o Critério 1, que classifica a presença de burnout, e ainda correlações negativas entre depressão e realização pessoal.

Tabela 3: Correlações entre depressão, burnout e variáveis demográficas e organizacionais (n=100). 

Idade Tempo função Tempo escola Carga horária N° de alunos PHQ9 Ex. Emoc Dist. Emoc Desum Real. Pess ISB Criterio1
Idade 1 ,602** ,334** ,004 -,036 -,103 -,112 -,238* -,095 ,139 -,046
Tempo/função 1 ,456** ,130 -,096 -,048 ,018 -,053 ,031 ,110 -,001
Tempo/escola 1 -,004 -,342** -,228* -,195 -,300** -,106 ,162 -,227*
Carga horária 1 -,034 ,071 ,019 ,140 ,111 -,140 ,111
N° alunos 1 ,088 ,052 ,102 ,032 ,007 ,205*
PHQ-9 1 ,669** ,478** ,522** -,213* ,542**
Ex. Emoc 1 ,585** ,615** -,149 ,758**
Dist. Emoc 1 ,720** -,205* ,713**
Desum 1 -,273** ,656**
Real. Pess 1 -,081
ISB_criterio1 1

ISB: Inventário da Síndrome de Burnout.

DISCUSSÃO

Em relação às taxas de burnout, outros estudos conduzidos no Brasil obtiveram resultados diversos, por exemplo apresentando valores inferiores, tais como o de Carlotto (2011), que percebeu exaustão emocional elevada nos três níveis de ensino (5,6%), despersonalização (0,7%) e baixa realização profissional (28,9%). Outros estudos com professores dos ensinos fundamental e médio, como o de Mesquita et al. (2013), mencionaram valores superiores, com prevalência de exaustão emocional (81,22%) e despersonalização (62,71%). Santana et al. (2012) perceberam em professores do ensino médio altos níveis despersonalização (31,8%), alta exaustão emocional (47,1%) e diminuição da realização pessoal (80%). Em outros países, valores similares foram identificados por Pedditzi e Nonnis (2014) em professores do ensino médio, verificando exaustão emocional (33,8%), despersonalização em (28,3%) e realização pessoal (8,2%). Chennoufi et al. (2012) constataram: burnout em 21%, exaustão emocional em 27,4%, alta despersonalização em 16,1% e realização pessoal em 45,5% dos professores do ensino médio. Wang et al. (2015), na China, constataram exaustão emocional (11,98%) e despersonalização (5,5%).

Nesse sentido, os dados da literatura revelaram números significativos de ­burnout, os quais guardam similaridades como os achados do presente estudo: 29% dos professores apresentaram burnout, com as dimensões de distanciamento emocional (40%), exaustão emocional (37%), desumanização (22%) e realização pessoal (11%).

Quanto ao burnout, faz-se necessário destacar que existe uma relação entre as dimensões da síndrome, com a possibilidade de comprometimento em várias dimensões, pois na exaustão emocional, a sobrecarga de trabalho experimentada pelo professor pode prejudicar o exercício da função docente, que pode ser agravada pela diminuição da autoconfiança e pela avaliação negativa de suas capacidades, com diminuição da realização pessoal, o que, por sua vez, pode resultar em um processo de desvinculação com a qualidade do ensino oferecido ao aluno, expresso pela despersonalização. ­Carlotto (2011) considera a exaustão emocional nos professores preocupante, uma vez que pode interferir na motivação, no interesse e na criatividade. Dessa forma, pode haver comprometimento no processo de elaboração e planejamento de aulas, podendo causar alterações no seu engajamento nas atividades de ensino e prejuízo na relação com os alunos, fato agravado pela manutenção do professor em salas de aula. Llorens-Gumbau e Salanova-Soria (2014), em estudo com professores do ensino médio, apontaram a necessidade de ações de intervenção no ambiente escolar, considerando a adoção de estratégias que se constituam como facilitadores no contexto do trabalho, que estimulem o engajamento e permitam autoeficácia no trabalho, mencionando a necessidade do trabalhador entrar em uma espiral positiva, com eliminação de obstáculos.

Dessa forma, além de possível interferência na qualidade de ensino dos alunos, quando da presença de burnout, há prejuízo na forma de se relacionar com as pessoas, em princípio no trabalho, mas com possibilidades de extensão para a vida pessoal e afetiva, podendo favorecer o desenvolvimento da depressão, conforme sugerido por Bianchi e Schonfeld (2016). Já para Shin et al. (2013), em estudo com professores dos ensinos médio e superior na Coreia, o burnout constitui uma fase inicial no desenvolvimento da depressão nos professores, sendo que este poderia resultar em sintomas de depressão e não o contrário. Embora não haja consenso sobre a presença da depressão no início ou no fim do burnout e sobre a relação de contingência, há indicativo de inter-relação entre as duas manifestações.

Em relação à prevalência de depressão, podem-se mencionar estudos com resultados similares aos da presente pesquisa, a qual verificou depressão em 23% dos professores. Como o estudo de Strieder (2009), que identificou em 25% dos professores da rede municipal e em 37,5% da estadual, e de Scandolara et al. (2015), com professores dos ensinos fundamental e médio, que constaram o índice de 21,7%. Já Batista et al. (2013) revelaram percentuais superiores de prevalência em sua pesquisa, verificando depressão em 51% dos professores do ensino fundamental. É provável que tais divergências tenham relação com peculiaridades das amostras.

Em relação ao estudo correlacional entre burnout, depressão e variáveis sociodemográficas e organizacionais, em que foram verificadas várias correlações positivas e fortes, dado que também tem suporte em estudos prévios. Bianchi, Schonfeld e Laurent (2014) constaram que 90% dos professores identificados com burnout também preencheram os critérios diagnósticos para a depressão, dos quais 92% pontuaram em 15 ou mais itens no PHQ-9.

Considerando também as variáveis sociodemográficas e organizacionais no presente estudo, em que foram verificados fatores como idade, tempo na função, tempo na escola, carga de trabalho e número de alunos, identificaram-se apenas correlações negativas fracas com a idade e o tempo de docência na escola. A associação da depressão ao burnout foi verificada, por exemplo, em estudo de Gomes e Quintão (2011), em Portugal, os quais perceberam que os professores com maior carga horária de trabalho apresentaram níveis mais elevados de depressão, mas não foi observada relação com o burnout e com a escala de satisfação da vida. As mulheres apresentaram maiores médias para exaustão emocional e despersonalização, menor carga semanal de aulas e lecionar no ensino superior associaram-se com maior satisfação com a vida. Ressalta-se que vínculo mais estável, atuação em níveis de ensino iniciais e elevada carga semanal resultaram em maior prevalência de depressão. Os níveis iniciais de ensino também foram associados com maior prevalência de exaustão emocional. Índices menores de exaustão emocional e despersonalização e maior realização pessoal foram associados a maior satisfação com a vida; e elevada exaustão emocional, alta despersonalização e baixa realização pessoal se associaram com maior prevalência de depressão. Bianchi, Schonfeld e Laurent (2015), em pesquisa na França, constataram que o desequilíbrio entre esforço e recompensa e o excesso de trabalho foram preditores tanto do burnout quanto da depressão.

Verificou-se a influência de variáveis como a idade dos professores, que pode ter atuado de forma positiva para evitar distanciamento emocional e o longo tempo que lecionam na escola pode estar funcionando como fator que diminui a possibilidade de surgimento da depressão.

CONCLUSÕES

Esta pesquisa investigou correlações entre burnout, depressão e variáveis demográficas e organizacionais, que foram abordadas de modo integrado, possibilitando ampliar a compreensão advinda de estudos prévios que as analisaram de forma isolada.

Constataram-se associações entre burnout e depressão, identificando correlações positivas e fortes para a exaustão emocional, distanciamento e desumanização, o que faz pensar na possibilidade de influência mútua de uma condição de adoecimento a outra, bem como a correlação negativa entre depressão e realização pessoal, denotando que quanto maior for a satisfação com o trabalho, menores as possibilidades de desenvolvimento da depressão.

Assim, foi possível perceber que professoras que apresentam burnout podem também manifestar depressão, bem como verificar que fatores como idade podem diminuir a possibilidade de desenvolvimento de distanciamento emocional e que o maior tempo de exercício profissional na escola pode funcionar como fator que minimiza a possibilidade de manifestação da depressão. A investigação do burnout, da depressão e das caraterísticas pessoais e organizacionais elucidou as relações entre tais variáveis, contribuindo para uma melhor compreensão das condições de saúde mental dos professores.

Destacam-se como limites do estudo a amostra de conveniência, de uma única região do estado, o delineamento transversal e o uso de instrumento que avaliou a depressão atual, enquanto rastreador. Como pontos positivos, destacam-se o uso de instrumentos aferidos, a coleta por meio de procedimentos sistemáticos e a combinação de múltiplas variáveis.

Os índices de burnout e depressão verificados no estudo foram similares aos achados na literatura pesquisada e revelaram que os professores constituem um grupo vulnerável, o que requer medidas de prevenção que favoreçam o bem-estar desses profissionais. Dadas as implicações e as responsabilidades do trabalho dos professores do ensino fundamental, tais medidas, indiretamente, podem ser protetoras também com as crianças. Destaca-se que, pela característica relacional da atividade docente que envolve contato direto com a população alvo do seu trabalho, professores acometidos por burnout e depressão, além de terem a própria saúde prejudicada, podem também interferir no relacionamento e nas atividades de ensino com os dos alunos. Tanto o burnout quanto a depressão podem afetar a motivação do professor, o seu engajamento e sua capacidade relacional, requisitos estes essenciais para a atividade docente, o que impõe a necessidade de ações de enfrentamento dessa problemática. Tais ações precisam contemplar aspectos pessoais, visto que algumas dessas características são fatores que predispõem ao adoecimento, bem como levar em consideração o contexto do trabalho (ambiente, infraestrutura, organização da atividade exercida e relacionamentos interpessoais). O ambiente de trabalho favorável e as relações pessoais positivas podem atuar como fatores protetores e impedir e/ou dificultar o adoecimento de professores. Em contrapartida, na presença de fatores pessoais predisponentes, condições de trabalho desfavoráveis e relações prejudicadas, condições estas que podem ser consideradas obstáculos ao bom desempenho profissional, constituem-se como meio incipiente para o surgimento de problemas de saúde mental por parte dos professores. Medidas de prevenção que estimulem o trabalho e o engajamento podem minimizar as dificuldades e favorecer o desempenho das atividades docentes.

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Recebido: 16 de Maio de 2017; Aceito: 14 de Agosto de 2017

SOBRE OS AUTORES

Nilson Rogério Silva é doutor em educação especial pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Professor da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP). E-mail: nilson@marilia.unesp.br

Alessandra Turini Bolsoni-Silva é doutora psicologia pela Universidade de São Paulo (USP). Professora da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP). E-mail: bolsoni@fc.unesp.br

Sonia Regina Loureiro é doutora em psicologia clínica pela Universidade de São Paulo (USP). Professora da mesma instituição. E-mail: srlourei@fmrp.usp.br

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