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Psicologia em Estudo

Print version ISSN 1413-7372On-line version ISSN 1807-0329

Psicol. estud. vol.11 no.1 Maringá Jan./Apr. 2006

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-73722006000100009 

ARTIGOS

 

Habilidades sociais parentais e o relacionamento entre pais e filho1

 

Parents social skills and the parent-child relationship

 

 

Fabiana CiaI; Camila de Sousa PereiraII; Zilda Aparecida Pereira Del PretteIII; Almir Del PretteIV

IPsicóloga e Doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Educação Especial da Universidade Federal de São Carlos-UFSCar
IIPsicóloga e Mestranda no Programa de Pós-Graduação em Educação Especial da Universidade Federal de São Carlos-UFSCar
IIIPsicóloga, Doutora pela Universidade de São Paulo, Professora Titular do Departamento de Psicologia da UFSCar, Docente e Orientadora do Programa de Pós-Graduação em Educação Especial da UFSCar e do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da USP/Ribeirão Preto. É bolsista de Produtividade em Pesquisa do CNPq
IVPsicólogo, Doutor pela Universidade de São Paulo, Professor Titular Voluntário do Departamento de Psicologia da UFSCar, Docente Orientador do Programa de Pós-Graduação em Educação Especial da UFSCar e docente externo do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da USP/Ribeirão Preto. É bolsista de Produtividade em Pesquisa do CNPq

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

O presente estudo teve por objetivos: (a) comparar/correlacionar indicadores do repertório de habilidades sociais e do envolvimento dos pais na educação dos filhos e (b) comparar mães e pais nos dois conjuntos de medidas. Participaram deste estudo 22 mães e 13 pais que tinham um filho na 1asérie. Ambos os pais preencheram o questionário Qualidade da Interação Familiarna Visão dos Pais e o Inventário deHabilidades Sociais (IHS-Del-Prette). A análise dos dados indicou que não houve diferença na intensidade do envolvimento de mães e pais com os filhos e que os cônjuges com maior repertório de habilidades sociais apresentaram maior envolvimento na educação dos filhos. Tais resultados são tomados como sugestivos da importância do repertório de habilidades sociais educativas dos pais para maximizar o desenvolvimento infantil e da necessidade de programas nessa área junto aos pais, visando melhorar a qualidade de seu relacionamento com os filhos.

Palavras-chave: habilidades sociais, habilidades sociais educativas, relacionamento pais-filhos


ABSTRACT

The present study aimed at: (a) comparing/correlating indices of social skills repertoire and  parents involvement in the upbringing of their children and (b) comparing fathers and mothers in the two set of indices. The sample was composed of 22 mothers and 13 fathers who had children in the 1st grade at primary school. Both parents filled in the questionnaires Quality of Family Interaction from the Parents Perspective and the Social Skill Inventory (HIS- Del Prette). Data analysis showed no difference in involvement intensity of both parents with their children. Parents with better social skills repertoire were more involved in their children's upbringing. Such results suggest that the parents' social educative skills repertoire is very important in order to maximize the child development and also points to the need of wider programs in this area involving parents and aiming at improving the quality of the relationship with their children.

Key words: Social skills, social educative skills, parents-children relationship.


 

 

O campo teórico-prático do Treinamento de Habilidades Sociais (THS) compreende um conjunto de procedimentos aplicáveis à superação de déficits comportamentais e busca, de um lado, minimizar dificuldades interpessoais e, do outro, maximizar comportamentos socialmente competentes (Del Prette & Del Prette, 1999). A interação entre indivíduo e ambiente social está na base da construção das relações sociais; portanto, pessoas socialmente habilidosas são capazes de promover interações sociais mais satisfatórias (Caballo, 1996).

O THS engloba vários conceitos, entre os quais se destacam os de habilidades sociais e de competência social. Conforme Del Prette e Del Prette (2001a), o termo habilidades sociais refere-se ao conjunto de classes e subclasses comportamentais que o indivíduo apresenta para atender às diversas demandas das situações interpessoais; já a competência social deve ser entendida como a capacidade do indivíduo de organizar pensamentos, sentimentos e comportamentos em um desempenho que atenda adequadamente às demandas do ambiente social, supondo os seguintes critérios de avaliação: “consecução dos objetivos, manutenção ou melhora da auto-estima e da qualidade da relação, equilíbrio de ganhos e perdas entre os parceiros da interação, respeito e ampliação dos direitos humanos” (Del Prette & Del Prette, 2001a, p. 34).

As situações interpessoais podem ocorrer em diversos contextos, como, por exemplo, o familiar, o de lazer, o escolar e o profissional. Em cada contexto esperam-se determinados desempenhos, que, por sua vez, exigem um amplo repertório de habilidades sociais do indivíduo. A infância é um período decisivo para o aprendizado de habilidades sociais (Del Prette & Del Prette, 1999), e por isso o contexto familiar, o envolvimento e o desempenho dos pais são fundamentais para o estabelecimento de relações educativas que efetivamente promovam o desenvolvimento social dos filhos.

Conforme observam Garcia-Serpa, Del Prette e Del Prette (s.d.), as condições familiares de educação dos filhos têm sido referidas em termos de práticas parentais, entendidas como “padrões relativamente estáveis de comportamentos ou procedimentos que os pais utilizam na relação com os filhos”. Sobre os desempenhos dos pais nessa tarefa, Del Prette e Del Prette (2001a, p.95) propõem a análise das práticas a partir do conceito de habilidades sociais educativas (HSE), definindo-as como “aquelas intencionalmente voltadas para a promoção do desenvolvimento e da aprendizagem do outro”. No contexto familiar das relações pais-filhos, o desempenho dos pais é representado por uma variedade de habilidades sociais educativas que podem influenciar o repertório comportamental dos filhos. Analisando especificamente essas habilidades, Silva (2000) identificou como cruciais as de: (a) diálogo; (b) expressão de sentimentos de agrado e desagrado; (c) expressão de opiniões e a solicitação adequada de mudança de comportamento; (d) cumprir promessas; (e) entendimento do casal quanto à educação do filho e à participação de ambos os progenitores na divisão de tarefas educativas; (f) "dizer não", "negociar" e "estabelecer regras"; (g) "desculpar-se".

A importância da qualidade da relação pais-filhos sobre o desenvolvimento das crianças tem sido atestada por muitos estudos nos últimos anos. Alguns deles correlacionam práticas educativas inadequadas a problemas no desenvolvimento cognitivo e social e no desempenho acadêmico dos filhos (Gomide, 2003). Por exemplo, pesquisas indicam que crianças na idade escolar, com pouca interação com ambos os pais, apresentam menor desenvolvimento cognitivo e mais problemas de comportamento (Anselmi, Piccinini, Barros, & Lopes, 2004; Stocker, Richmond, Low, Alexander, & Elias, 2003). Em relação à influência da interação familiar sobre o desempenho acadêmico dos filhos, alguns autores (Hill & Taylor, 2004; Newcombe, 1999) mostram que as crianças com melhor desempenho acadêmico têm pais e mães mais envolvidos, afetuosos e verbalmente sensíveis, que evitam o uso de punições e restrições.

Esses estudos sugerem que o repertório de habilidades sociais gerais, e mais especificamente o de habilidades sociais educativas dos pais, pode influenciar a intensidade e a qualidade do envolvimento destes com os filhos e, portanto, o tipo de prática educativa que adotam na relação com eles. Por outro lado, os pais que apresentam dificuldades interpessoais certamente podem comprometer a qualidade desse relacionamento, além de oferecer modelos inadequados de desempenhos sociais para os filhos (Bolsoni-Silva, Del Prette, & Del Prette, 2000; Del Prette & Del Prette, 1999). A exposição da criança a práticas parentais pouco construtivas ou a sua privação de envolvimento afetivo com pais e mães constituem fatores de risco para o desenvolvimento da criança, aumentando sua vulnerabilidade a eventos ameaçadores externos ao seu ambiente familiar (Marturano, 2004; Pacheco, Alvarenga, Reppold, Piccinini, & Hutz, 2005). Em contrapartida, pais socialmente habilidosos, que estabelecem um ambiente familiar acolhedor, organizam contextos favoráveis aos mecanismos de resiliência e de proteção diante de fatores ameaçadores a que usualmente as crianças estão expostas (Del Prette & Del Prette, 2005; Yunes, 2003).

Além das habilidades sociais parentais, estudos têm evidenciado a relevância da participação de ambos os pais na educação de seus filhos (Fagan & Iglesias, 1999; Verschueren & Marcoen, 1999). Até pouco tempo atrás a mulher tinha total responsabilidade pelos cuidados dos filhos; porém, com a sua inserção no mercado de trabalho, os padrões de criação da prole se modificaram. O homem não apenas está sendo o provedor, mas participa, com a mulher na educação e cuidados dos filhos. Este maior envolvimento do homem parece estar sendo benéfico tanto para a mulher quanto para os filhos, que podem obter maior apoio e sofrer menos riscos de ser negligenciados. Por isso, as investigações sobre práticas parentais deveriam focalizar não somente a atenção da mãe, mas também a dos pais e a divisão dos papéis parentais em sua influência no desenvolvimento dos filhos (Oliveira, Frizzo, & Marin, 2000; Oliveira, Marin, Pires, Frizzo, Ravanello, & Rossato, 2002; Pacheco, Teixeira, & Gomes, 1999; Weber, Prado, Viezzer, & Brandenburg, 2004).

Considerando a importância das habilidades sociais dos pais (mãe/pai) para o envolvimento e a qualidade na relação educativa com os filhos, a escassez de estudos focalizando especificamente as habilidades sociais educativas e a participação de cada cônjuge na educação dos filhos, este estudo teve por objetivos: (a) comparar/correlacionar indicadores do repertório de habilidades sociais e do envolvimento dos pais na educação dos filhos e (b) comparar cada cônjuge nos dois conjuntos de indicadores de auto-relato.

 

MÉTODO

Participantes

A amostra se constituiu de 22 mães e 13 pais, com pelo menos um filho cursando a 1a série do Ensino Fundamental. O critério para participação dos pais foi ter um filho cursando a 1a série do Ensino Fundamental e ser considerada de família normativa. A média de idade das crianças foi de 7 anos e três meses, sendo 54,3% do sexo feminino e 45,7% do sexo masculino. A média de idade dos cônjuges era de 36 anos. Todos os respondentes eram casados, tendo uma média de 2,1 filhos. O grau de escolaridade das mães caracterizou uma amostra de 9,1% com 1º grau incompleto, 31,8% com 1º grau completo, 54,6% com 2º grau completo e 4,5% com 3º grau completo. Já com relação aos pais a amostra foi de 15,4% com 1º grau incompleto, 15,4% com 1º grau completo, 23,1% com 2º grau incompleto, 38,4% com 2º grau completo e 7,7% com 3º grau incompleto. Considerando-se a renda familiar das mães, 45,5% variavam entre um e dois salários-mínimos, 40,9% entre dois e quatro salários-mínimos e 13,6% entre quatro e seis salários-mínimos. Entre os pais, 38,5% variavam entre um e dois salários-mínimos e 61,5% entre dois e quatro salários-mínimos.

Local da coleta de dados

A coleta de dados ocorreu em sala isenta de ruídos de uma escola SESI, localizada em uma cidade de médio porte do interior do Estado de São Paulo. Apesar de gratuita, esta escola pode ser considerada particular, porque toda a rede escolar é mantida por indústrias. A escolha desse local ocorreu porque se trata de uma instituição de ensino que tem como meta prioritária a de manter relacionamento sistemático com as famílias dos alunos.

Instrumentos

Questionário da Qualidade da Interação Familiar na Visão dos Pais (Cia, D'Affonseca & Barham, 2004 – Ver Anexo 1): é composto por três escalas, do tipo Likert: (a) comunicação (verbal e não verbal) entre pais e filhos; (b) participação dos pais nos cuidados com os filhos; (c) participação dos pais nas atividades escolares, culturais e de lazer dos filhos.

Inventário de Habilidades Sociais, IHS-Del-Prette (Del Prette & Del Prette, 2001b) - é um instrumento de auto-relato, composto por 38 itens que descrevem situações de interação social em diferentes contextos (trabalho, lazer e família), solicitando-se ao respondente que estime a freqüência com que reage a uma situação descrita em cada item, em uma escala tipo Likert que varia de 0 (nunca ou raramente) a 4 (sempre ou quase sempre) e avalia cinco fatores: (a) enfrentamento e auto-afirmação com risco; (b) auto-afirmação na expressão de sentimento positivo; (c) conversação e desenvoltura social; (d) auto-exposição a desconhecidos e situações novas; (e) autocontrole da agressividade. Trata-se de um instrumento aprovado pelo Conselho Federal de Psicologia, com estudos psicométricos que atestam sua validade e confiabilidade.

Procedimento de coleta de dados

O contato com as mães e os pais foi realizado pela primeira autora, que explicou os objetivos da pesquisa e as atividades a serem desenvolvidas. Os interessados assinaram um termo de consentimento livre e esclarecido referente à pesquisa e receberam, então, o instrumento Qualidade da interação familiar na visão dos pais e as orientações quanto ao seu preenchimento e no sentido de responderem ao questionário com base em seu relacionamento com o filho, estudante da 1ª série do Ensino Fundamental. Em seguida foi aplicado o IHS-Del-Prette, o qual foi respondido separadamente pelos cônjuges, levando um tempo  médio de 20 minutos.

Tratamento de dados

As respostas de mães e pais ao questionário Qualidade da interação familiar na visão dos pais foram organizadas em escores e analisadas estatisticamente segundo medidas de tendência central e dispersão. Com estes dados, também foram realizadas análises dos itens que poderiam compor uma escala, no contexto deste estudo, verificando-se a consistência interna (Alpha de Cronbach). Os resultados obtidos no IHS-Del-Prette foram analisados considerando o escore total e os escores fatoriais. Estes escores foram avaliados de acordo com o sexo dos participantes e classificados em: repertório deficitário, bom repertório e repertório bem-elaborado de habilidades sociais.

A relação entre o repertório de habilidades sociais e o envolvimento dos cônjuges na educação dos filhos foi verificada por meio do teste de correlação de Pearson (p<0.05). Para comparar os dados de mães e pais foi utilizado o teste-t de Student (p<0,05).

 

RESULTADOS

Os resultados a seguir comparam o envolvimento dos cônjuges na educação de seus filhos e o repertório de habilidades sociais entre eles, sendo apresentados em três conjuntos: (1) indicadores de envolvimento de mães e pais com seus filhos; (2) escores de habilidades sociais de mães e pais e (3) relações entre medidas de envolvimento dos cônjuges com o repertório de habilidades sociais de cada um deles.

Indicadores de envolvimento de mães e pais com seus filhos

Os dados da Tabela 1 apresentam os resultados dos valores médios obtidos por ambos os pais nos conjuntos de itens relacionados à participação na educação dos filhos.

 

 

A maioria dos cônjuges relatou que se comunicava com os filhos e que estes se comunicavam com eles usando todas as formas incluídas neste estudo e com uma freqüência quase diária. Impor limites e lidar com transgressão de regras foram as habilidades que apresentaram diferenças significativas na freqüência média com que foram referidas pelos cônjuges. Os pais (M=270,4, dp=96,5) relataram que impunham limites ao filho com uma freqüência significativamente maior do que as mães (M=168,8, DP=107,7; t(33)=2,32, p<0,05). As mães (M=205,1, dp=80,2) relataram que os filhos desafiavam suas regras com uma freqüência significativamente maior do que os pais (M=93,2, dp=68,6; t(33)=2,82, p<0,01).

Ambos os cônjuges apontaram alta participação nos cuidados com os filhos. Ao comparar a participação entre mães e pais, verificou-se a existência de diferença significativa na média de participação das mães (M=4,2, dp=1,0; M=4,1, dp=1,1, respectivamente) quando comparada à participação dos pais (M=3,2, dp=1,5 M=3,0 dp=1,3, respectivamente), em relação a impor horário de deitar-se (t(33)=2,25, p<0,05) e em controlar a higiene do filho (t(33)=2,70, p<0,01). Os pais (M=4,6, dp=1,2) participavam com uma freqüência significativamente maior do que as mães (M=3,5, dp=1,4) em passear com o filho (t(33)=2,67, p<0,01).

Considerando-se a escala de participação dos pais nas atividades escolares, culturais e de lazer dos filhos, ambos relataram participar destas atividades quase diariamente. As mães participavam com maior freqüência nas atividades de pedir para o filho organizar objetos pessoais e incentivar o filho a assumir responsabilidades por tarefas escolares. Os pais participavam com maior freqüência em incentivar o filho a assumir responsabilidades por tarefas escolares e a ler.

Ao comparar a participação das mães com a dos pais nesta escala, verificou-se diferença significativa na média de freqüência, em que as mães (M=325,8, dp=165,7) apresentaram maior participação do que os pais (M=218,2, dp=121,5) em pedir para o filho organizar objetos pessoais (t(33)=2,08, p<0,05) e os pais (M=255,1, dp=146,7) apresentaram maior participação do que as mães (M=159,7, dp=144,9) em brincar com o filho (t(33)=2,31, p<0,05).

Escores de habilidades sociais de mães e pais

A Tabela 2 compara o repertório de habilidades sociais das mães com o dos pais.

Ambos os cônjuges apresentaram no escore geral e nos escores fatoriais um bom repertório de habilidades sociais, quando comparados à amostra de referência do mesmo sexo (Del Prette & Del Prette, 2001b). Somente no Fator 5 (Autocontrole da agressividade) o escore médio das mães situou-se como bom e o dos pais como deficitário, porém estatisticamente não houve diferença significativa entre ambos.

Relações entre medidas de envolvimento dos cônjuges com o repertório de habilidades sociais de cada um deles

A Tabela 3 mostra a relação entre as medidas de envolvimento dos cônjuges na educação dos filhos e os escores de habilidades sociais de ambos.

 

 

As três escalas que avaliaram o envolvimento de ambos os pais com seus filhos (comunicação entre pais e filhos, participação dos pais nos cuidados com os filhos e participação dos pais nas atividades escolares, culturais e de lazer dos filhos) foram positiva e significativamente correlacionadas com o repertório de habilidades sociais da mãe. Duas dessas escalas (comunicação entre pais e filhos e participação dos pais nas atividades escolares, culturais e de lazer dos filhos) estavam positiva e significativamente correlacionadas com o repertório do pai.

A Tabela 4 apresenta a relação dos escores fatoriais que compõem o IHS-Del-Prette com os indicadores de envolvimento dos cônjuges com seus filhos.

 

 

O Fator 1, Enfrentamento e auto-afirmação com risco, não apresentou correlação com as medidas sobre o envolvimento dos cônjuges com seus filhos. Já o Fator 2, Auto-afirmação na expressão de sentimento positivo, apresentou correlação significativa e positiva com as três escalas que avaliaram o envolvimento dos cônjuges com seus filhos. A escala de participação dos pais nos cuidados com os filhos foi a que apresentou menor correlação com os fatores do IHS-Del-Prette.

 

DISCUSSÃO

Este estudo mostra que tanto as mães quanto os pais relatam alta freqüência de comunicação com os filhos, bem como de participação nos seus cuidados, e atividades escolares, culturais e de lazer. Tais dados sugerem uma maior parceria do casal na responsabilidade pela educação da prole. O homem parece estar superando o papel de exclusivamente provedor, para assumir um papel de maior atuação na educação dos filhos. Esta alta participação masculina, denominada “nova paternidade”, também foi verificada em outras pesquisas envolvendo a figura paterna (Bertolini, 2002; Cia, D'Affonseca & Barham, 2004; Verschueren & Marcoen, 1999). No geral, esta nova divisão de tarefas, com os cônjuges compenetrados da responsabilidade conjunta nas atribuições familiares, parece resultar em melhor relacionamento entre ambos e destes com os filhos. Além disso, essa mudança pode reverter em uma boa qualidade da interação entre os filhos, favorecendo o desenvolvimento infantil, principalmente no que diz respeito aos aspectos socioemocionais (Atzaba-Poria, Pike & Deater-Deckard, 2004; Del Prette & Del Prette, 2003, 2005; Scaramella & Conger, 2004) e ao desempenho acadêmico (Hill & Taylor, 2004; Newcombe, 1999).

É interessante destacar ainda que o relato de alta freqüência de comunicação com os filhos, apontado pelos cônjuges, pode auxiliar no estabelecimento de um relacionamento seguro deles com a criança, podendo, também, favorecer seus futuros relacionamentos (Verschueren & Marcoen, 1999). Além disso, Bolsoni-Silva e Marturano (2002) apontam a comunicação com os pais como um aspecto favorecedor para a formação de um autoconceito satisfatório dos filhos.

Outro aspecto a ser salientado quanto à comunicação entre pais e filhos foi que as mães relataram, com freqüência significativamente maior que os pais, o comportamento dos filhos de desafiar regras. Isto é indicativo de que os pais destas famílias podem ser responsáveis pelas práticas disciplinares, enquanto que as mães, mesmo trabalhando fora, ficam responsáveis pelos cuidados com os filhos. Culturalmente o pai representa a autoridade e é, conseqüentemente, quem estabelece ou deveria estabelecer as normas e os limites. Na prática, porém, nem sempre ele exerce este papel. Os dados permitem supor que, neste estudo, as mulheres se percebem mais freqüentemente desafiadas pelos filhos, pois no cotidiano são elas que administram as regras e limites, já que os pais exercem essa função “à distância”, portanto se sentiriam questionados. De qualquer forma, o estabelecimento de limites é considerado um componente importante das práticas educativas, principalmente quando associadas a monitoramento, modelação e atividades conjuntas (Alvarenga, 2001; Baraldi & Silvares, 2003; Del Prette & Del Prette, 2005; Gomide, 2003).

Quanto à participação dos cônjuges nos cuidados com os filhos, os relatos indicam atividades diferenciadas - por exemplo, os pais se ocupavam com maior freqüência em proporcionar lazer fora de casa aos filhos e as mães em estabelecer horário de deitar-se e em controlar a higiene. Esta diferença de participação dos cônjuges nos cuidados com os filhos é semelhante aos dados de outras pesquisas, que apontam para uma divisão razoavelmente estruturada de atividades, com o homem se ocupando da parte social e de lazer e as mães dispensando cuidados diários em casa aos filhos (Bertolini, 2002; Verschueren & Marcoen, 1999).

Ambos os cônjuges apontaram alta freqüência em incentivar responsabilidades por tarefas escolares e em incentivar o filho a ler. Esta alta participação tem sido identificada como preditora do sucesso escolar (Cia, D'Affonseca & Barham, 2004) e motivação dos filhos para os estudos (Huntsinger, Jose & Larson, 1998).

Mães e pais apresentaram um bom repertório de habilidades sociais, o que certamente favorece o relacionamento destes com seus filhos (Bolsoni-Silva, Del Prette & Del Prette, 2000; Bolsoni-Silva & Del Prette, 2002; Del Prette & Del Prette, 2001a; Silva, 2000). Tal aspecto fica evidente pela correlação positiva entre o repertório de habilidades sociais dos cônjuges e as medidas do envolvimento entre mães/pais e filhos utilizadas neste estudo. Considerando-se que a família é o primeiro ambiente social da criança, ao emitirem estes comportamentos socialmente adequados com os filhos, mães e pais estão moldando as características comportamentais da criança (Del Prette & Del Prette, 1999; Ingberman & Löhr, 2003), contribuindo para o desenvolvimento saudável da infância, conforme o estilo desenvolvido (Gomide, 2003).

Levando-se em conta a relação entre os cinco fatores que compõem a escala de habilidades sociais e as medidas do envolvimento entre cônjuges e filhos, pôde-se verificar que a assertividade das mães e dos pais (F1) não influiu no envolvimento destes com seus filhos, possivelmente, porque, no contexto cultural brasileiro, é aceitável que ambos os pais expressem seus direitos e apontem aos filhos seus direitos e deveres. Além disso, a relação entre pais e filho, normalmente, não se configura como um “enfrentamento com risco”. Por outro lado, o F2, que diz respeito à auto-afirmação na expressão de sentimento positivo, estava correlacionado com as três medidas que avaliaram o envolvimento de ambos os pais com seus filhos. De fato, é esperado socialmente que mães e pais expressem sentimentos positivos (carinho, cuidado, atenção) nas interações com seus filhos, favorecendo a qualidade do relacionamento.

Ë interessante ressaltar que a escala de participação dos pais nos cuidados com os filhos foi a que apresentou menor correlação com os fatores que compõem o Inventário de Habilidades Sociais. Examinando-se os itens das três medidas utilizadas neste estudo para aferir o envolvimento de ambos os pais com seus filhos, pode-se afirmar que esta é a única que, necessariamente, não requer interação direta entre pais e filhos. Verifica-se, por exemplo, quando os pais contam com outras pessoas para que os filhos tenham contato com os pares ou com adultos externos ao círculo familiar.

 

CONCLUSÃO

Este estudo levantou questões acerca do repertório de habilidades sociais de ambos os pais que podem influenciar na intensidade e, possivelmente, na qualidade do relacionamento entre ambos os pais com seus filhos. Pôde-se verificar que, quanto maior o repertório de habilidades de ambos os pais, maior a freqüência de comunicação e de participação nos cuidados e nas atividades escolares, culturais e de lazer dos filhos. Conclui-se, também, que três fatores do Inventário de Habilidades Sociais (auto-afirmação na expressão de sentimento positivo; conversação e desenvoltura social e auto-exposição a desconhecidos e situações novas) apresentaram maior relação com as medidas de envolvimento dos cônjuges com seus filhos.

Tais resultados realçam a importância do repertório de habilidades sociais de ambos os pais para a condução de práticas educativas com os filhos. Pode-se inferir que programas planejados para promoverem habilidades sociais dos pais poderiam ter um impacto significativo na maximização desse relacionamento e deveriam ser vistos como necessários quando um ou ambos os pais apresentam repertório deficitário. Essa proposta é coerente com as constatações de vários pesquisadores que afirmaram benefícios para toda a família quando ambos os pais participam de intervenção que focaliza aspectos de habilidades sociais (Adams, 2001; Bolsoni-Silva, Del Prette & Del Prette, 2000).

Embora este estudo tenha sido conduzido com uma amostra pequena de pais e restrito a apenas uma escola, os resultados confirmam alguns dados da literatura e sugerem pesquisas com amostras ampliadas, considerando diferentes estratos sociais. Estudos longitudinais seriam também indicados para monitorar a influência do repertório de habilidades sociais educativas de ambos os pais sobre a qualidade do relacionamento mães/pais e filhos ao longo do desenvolvimento infantil.

 

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Endereço para correspondência
Fabiana Cia
Centro de Educação e Ciências Humanas, Departamento de Psicologia, Laboratório de Interação Social/LIS
Rodovia Washington Luís, Km 235,
caixa postal: 676
CEP 13565-905, São Carlos-SP
E-mail: fabianacia@hotmail.com

Recebido em 04/04/2005
Aceito em 21/07/2005

 

 

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