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Psicologia em Estudo

versão impressa ISSN 1413-7372

Psicol. estud. vol.15 no.1 Maringá jan./mar. 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-73722010000100017 

ARTIGOS

 

Produtividade, necessidade e afetividade: justiça distributiva e empatia em jovens brasileiros

 

Productivity, necessity and affectivity: distributive justice and empathy in brazilian youth

 

Productividad, necesidad y afectividad: justicia distributiva y empatía en jóvenes brasileños

 

 

Leonardo Rodrigues SampaioI; Cleonice Pereira CaminoII; Antonio RoazziIII

IDoutor em Psicologia Cognitiva, Professor Adjunto II da Fundação Universidade Federal do Vale do São Francisco, Brasil
IIDoutora em Psicologia, Professora titular da Universidade Federal da Paraíba, Brasil
IIIDoutor em Psicologia do Desenvolvimento, Professor Associado I da Universidade Federal de Pernambuco, Brasil

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Ao longo dos anos, os pesquisadores vêm estudando a influência do desenvolvimento cognitivo e de diferentes variáveis sociodemográficas e culturais sobre os julgamentos distributivos, porém o estudo da influência do desenvolvimento afetivo sobre noções de justiça distributiva não tem constituído uma preocupação dos pesquisadores. Procurando preencher esta lacuna, o objetivo principal desta pesquisa foi investigar se a empatia influenciava significativamente as decisões distributivas de 107 jovens. A justiça distributiva foi avaliada através de uma situação-problema que envolvia um contexto empresarial, e a empatia, por meio da Escala Multidimensional de Reatividade Interpessoal – EMRI. Nos resultados, observou-se que as dimensões afetivas da empatia influenciaram a distribuição de dinheiro entre os personagens da situação-problema. Estes resultados foram discutidos à luz das teorias de Piaget e Hoffman e dos dados de pesquisas anteriores.

Palavras-chave: Justiça distributiva; empatia; moralidade.


ABSTRACT

Throughout the years, researchers have studied the influence of cognitive development and social-cultural variables over distributive justice judgments. However, the study of the influence of affective development over distributive justice has not constituted a concern of the researchers. Looking for to fill this gap, the main objective of this research was to investigate if empathy influenced the distributive decisions of 107 participants. Distributive justice was evaluated through a problem-situation that involved an organizational context, and the empathy by means of Escala Multidimensional de Reatividade Interpessoal - EMRI. In the results, it was observed that the affective dimensions of empathy had influenced the money distribution between the characters of the problem-situation. These results had been discussed in the light of Piaget's and Hoffman's theories, and data of previous research.

Key words: Distributive justice; empathy; morality.


RESUMEN

Lo largo de los años, los investigadores han estado estudiando la influencia del desarrollo cognitivo y de diferentes variables socio demográficas y culturales sobre los jueces distributivos. Sin embargo, el estudio de la influencia del desarrollo emocional en los conceptos de justicia distributiva no ha sido una preocupación de los investigadores. Buscando llenar este vacío, el objetivo principal de esta investigación fue investigar si la empatía influyó significativamente en las decisiones de 107 jóvenes brasileños. La justicia distributiva se evaluó por medio de una situación-problema en un contexto empresarial, y la empatía a través de la Escala Multidimensional de Reatividade Interpessoal - EMRI. En los resultados, se observó que las dimensiones emocionais de la empatía influyeron en la distribución de dinero entre los caracteres da situación-problema. Estos resultados fueron discutidos a la luz de las teorías de Piaget y Hoffman, y los datos de estudios anteriores.

Palabras-clave: Justicia distributiva; empatía; moral.


 

 

A noção de justiça distributiva está relacionada à maneira como as pessoas avaliam a distribuição de bens positivos (renda, liberdade, oportunidades) ou negativos (punições, sanções) na sociedade e tem sido objeto de estudo de diversos campos do saber, como a Filosofia, Sociologia e Psicologia. No que se refere especificamente aos estudos psicológicos, observa-se que o interesse pela justiça distributiva é mais forte entre psicólogos sociais (Adams, 1965; Deutsch, 1975) e psicólogos do desenvolvimento (Damon, 1980; Piaget, 1932/1994), os quais têm produzido diversas teorias para explicar como as pessoas fazem julgamentos distributivos.

Entre as teorias mais conhecidas destaca-se a de Adams, a qual defende que, em seus julgamentos distributivos, as pessoas buscam a igualdade proporcional, utilizando um princípio distributivo universal, chamado de princípio da equidade (Adams, 1965). Através deste, os indivíduos buscam estabelecer um equilíbrio entre a quantidade de contribuições (inputs) que alguém oferece e o total de bens a ser distribuído (outcomes), comparado à proporção entre inputs e outcomes de outros indivíduos nas mesmas condições.

Apesar de esta teoria ter exercido importante papel no campo da Psicologia Social por mais de 20 anos, diversos autores questionaram o princípio da equidade, afirmando que ele reflete mais o pensamento econômico das sociedades ocidentais capitalistas do que uma estrutura cognitiva universal propriamente dita (Deutsch, 1975). Nesta direção, outros teóricos consideraram que a justiça distributiva deveria ser analisada não apenas em função da equidade, mas, também a partir de uma abordagem multidimensional, que contemplasse a existência de múltiplos princípios distributivos, os quais poderiam ser aplicados isoladamente ou em conjunto, a depender da situação (Ng & Allen, 2005).

Ademais, autores como Piaget (1932/1994) e Damon (1980) propuseram uma perspectiva psicogenética do desenvolvimento sociomoral e demonstraram que para crianças pequenas a noção de justiça distributiva está atrelada ao respeito unilateral, o que as faz considerar que as decisões mais justas são aquelas baseadas nas determinações das figuras de autoridade. Em suas pesquisas, Piaget e Damon demonstraram ainda que, à medida que diminuíam os efeitos da coação adulta e as crianças descentravam-se cognitivamente, havia uma tendência a que diferentes princípios distributivos fossem utilizados nas situações de interação social.

No que se refere ao campo de estudos na atualidade, existe um amplo corpo de pesquisas (Assmar & Ferreira, 2005; Kristjánsson, 2004; Sampaio, Camino & Roazzi, 2007; Wong & Nunes, 2003), demonstrando que as pessoas usam diferentes tipos de princípios (igualdade, produtividade e necessidade) para avaliar e tomar decisões distributivas, e que a noção de justiça distributiva tende a se transformar à medida que ocorrem avanços na habilidade de tomada de perspectiva. Outros estudos (Hutz, Conti & Vargas, 1994; Jackson, Messe & Hunter, 1985; Leventhal & Lane, 1970) evidenciaram que homens defendem e usam mais frequentemente princípios que valorizam o esforço e a contribuição pessoal dos envolvidos, enquanto as mulheres tendem a preferir princípios que garantam o bem-estar da maioria da população ou que favoreçam pessoas mais necessitadas. Neste caso, considera-se haver uma relação entre esses dados e o que foi proposto por Carol Gilligan (Gilligan, 1982) a respeito das diferenças no desenvolvimento sociomoral de homens e mulheres.

A revisão de literatura feita por Sampaio (2007) evidenciou ainda que, apesar de autores como Piaget (1932/1994), Hoffman (1987; 1991) e Eisenberg (2000) terem considerado que a afetividade era um componente crucial para o desenvolvimento sociomoral, poucos estudos (Batson et al., 1995; Batson et al., 2003; Sampaio et al., 2008) foram realizados para investigar como aspectos da vida afetiva influenciavam os julgamentos distributivos, o que demonstra haver uma lacuna empírica no campo de estudos da justiça distributiva.  

A esse respeito, destaca-se a afirmação de Hoffman (1987, 1991) de que, embora a relação entre justiça distributiva e empatia não seja tão óbvia quanto a relação entre empatia e cuidado, ela existe, pois, ao optar por um princípio de distribuição ou outro, o indivíduo pode estar preocupado com a forma como a distribuição repercutirá na vida das pessoas envolvidas. Neste sentido, haveria uma clara relação entre a escolha de princípios distributivos e a de sentimentos empáticos: os princípios de igualdade e necessidade – que têm um componente afetivo mais forte – poderiam ser ativados quando alguém empatizasse com pessoas em situação de desvantagem; já o princípio da equidade poderia ser ativado quando o sujeito empatizasse com pessoas que trabalham duro e se esforçam muito.

Avaliando a influência que a empatia poderia exercer sobre a escolha de princípios morais, Hoffman (1987, 1991) julgou que os afetos empáticos ativariam os princípios de que alguém já dispunha, ou então colaboraria na construção de outros, fornecendo uma base afetiva e motivacional para sua utilização. A despeito de considerar a possibilidade de que a empatia e os princípios morais fossem ativados independentemente, a coocorrência dos dois fatores aumentaria a possibilidade de que ambos, conjuntamente, afetassem o julgamento moral em situações futuras.

Partindo das hipóteses levantadas por Hoffman (1991), Batson et al. (1995) demonstraram que a mobilização de componentes empáticos diante de uma situação na qual esteja envolvido um dilema moral com tema relacionado à justiça é capaz de enviesar as decisões e julgamentos distributivos das pessoas. Outros dados do estudo de Batson et al. (1995) evidenciaram que quanto mais similares eram as preocupações em ser justo e sentir empatia, mais difícil e perturbadora era a tomada de decisão dos respondentes, o que indicou a presença de um conflito real entre justiça e altruísmo, decorrente da empatia.

Considerando-se os dados de pesquisa anteriores e a lacuna empírica supracitada, elaborou-se um estudo cujo principal objetivo foi analisar se a empatia exercia influência significativa sobre as decisões distributivas de jovens brasileiros. Além disto, buscou-se investigar se o sexo estava relacionado à maneira como os participantes distribuíam dinheiro entre personagens de uma situação fictícia.

 

Método

Amostra

A amostra foi constituída de 107 jovens da cidade de Petrolina – PE, com idades variando de 14 a 20 anos (M = 16,88; d.p. = 1,78), de ambos os sexos (masculino = 52; feminino = 55) e estudantes de escolas públicas e particulares, que se dispuseram a participar voluntariamente da pesquisa.

Instrumento

Os julgamentos distributivos foram acessados por meio de uma situação-problema na qual os respondentes ouviam uma história e em seguida eram solicitados a opinar sobre a distribuição de um total de R$ 3.150,00 (três mil, cento e cinquenta reais) entre nove personagens (TR1, TR2, TR3, TR4, TR5, TR6, TR7, TR8 e TR9) que haviam trabalhado juntos em uma mesma tarefa. À época em que o estudo foi realizado R$ 3.150,00 equivaliam a exatamente nove salários mínimos e a delimitação deste montante foi feita considerando a possibilidade de que os participantes levassem em conta o salário mínimo como um critério para distribuir o dinheiro entre os personagens. Em relação a cada personagem, eram fornecidas informações sobre seu nível de produtividade e sobre seu nível de necessidade, as quais funcionavam como condicionantes na história. Utilizou-se um delineamento 3 x 3, considerando três níveis da variável produtividade (os personagens trabalhadores produziam 50, 100 ou 200 pontos em uma indústria) e três níveis da variável necessidade (os personagens trabalhadores tinham nenhum, três ou seis filhos para sustentar). A delimitação dos níveis de produtividade e da quantidade de filhos foi arbitrária, mas buscou-se garantir que entre um nível e outro houvesse uma diferença de 100% no valor absoluto, a fim de que as diferenças entre estes fossem mais evidentes.

Com vista a facilitar a resolução da situação-problema, foram utilizados bonecos estilizados de cartolina que representavam os personagens e nos quais apareciam o nível de produtividade e a quantidade de filhos de cada trabalhador. Os respondentes receberam miniaturas de cédulas de R$ 5, 10, 50 e 100 para indicar quanto cada personagem deveria receber.    

Para avaliar a empatia, foi utilizada a Escala Multidimensional de Reatividade Interpessoal – EMRI, elaborada por Davis (1983) e adaptada por Ribeiro, Koller e Camino (2002). O EMRI é um instrumento tipo lápis e papel que mensura a empatia a partir de duas dimensões afetivas (consideração empática e angústia pessoal) e uma cognitiva (tomada de perspectiva). A dimensão da consideração empática (CE) está relacionada aos sentimentos dirigidos para o outro e à motivação para ajudar pessoas em necessidade, perigo ou desvantagem; a de angústia pessoal (AP) avalia as sensações afetivas de desconforto, incômodo e desprazer dirigidas para o self, quando o indivíduo testemunha ou imagina o sofrimento de outrem; já a dimensão de tomada de perspectiva (TP) mede a capacidade cognitiva do indivíduo de se colocar no lugar de outras pessoas, reconhecendo e inferindo o que elas pensam e sentem (Escrivá, Navarro & Garcia, 2004; Siu & Shek, 2005).

Cada dimensão é mensurada por meio de sete sentenças, as quais o respondente avalia através de escalas likert com cinco graus (1 = não me descreve bem; 5 = descreve-me muito bem). Os escores brutos de cada subescala são utilizados para avaliar o nível de tomada de perspectiva (TP), angústia pessoal (AP) e consideração empática (CE), enquanto o nível geral de empatia (EMRI) é obtido pelo somatório dos escores nessas três dimensões.

Para fins de análise, as pontuações dos participantes foram categorizadas em três níveis, tomando-se como referência os escores mais altos e mais baixos obtidos no EMRI e em suas subescalas na amostra investigada:

  • EMRI: baixo (escores de 35 a 51), médio (de 52 a 61) e alto (de 62 a 71);
  • TP: baixo (escores de 13 a 23), médio (de 24 a 29) e alto (de 30 a 35);
  • CE: baixo (escores de 7 a 12), médio (de 13 a 16) e alto (de 17 a 20);
  • AP: baixo (escores de 6 a 13), médio (de 14 a 20) e alto (de 21 a 25);

Procedimentos

Após o cumprimento das exigências éticas previstas na Resolução 196/96 (CNS) e na Resolução 016/2000 do Conselho Federal de Psicologia e a aprovação desta pesquisa pelo Comitê de Ética especializado foi dado início à coleta de dados desta pesquisa.

No primeiro momento os participantes ouviam a história e indicavam como o dinheiro deveria ser dividido entre os nove trabalhadores, colocando as miniaturas de cédulas sob cada boneco. No segundo momento, os respondentes preencheram o EMRI e, por fim, forneceram alguns dados sociodemográficos

solicitados pelo pesquisador. Todos os participantes foram entrevistados individualmente, em ambientes reservados

Análise dos dados

Considerando-se a distribuição amostral (não normal), o tamanho da amostra e a variância observados nos dados, optou-se pela utilização de estatísticas não paramétricas (testes de médias e correlações) para as análises dos dados. Todas estas foram feitas por meio do software SPSS (versão 11).

 

Resultados

Quantidade de dinheiro alocada para os personagens

As análises demonstraram que TR4 recebeu a maior quantidade de dinheiro (M = 447,42; d.p. = 80,40) e que TR3 recebeu menos dinheiro (M = 263,97; d.p. = 76,36) que os demais personagens trabalhadores. O teste de Wilcoxon indicou que as quantidades médias de dinheiro alocadas para os dois personagens diferem significativamente das médias de todos os outros personagens (p < 0,01). A figura 1 ilustra como o dinheiro foi distribuído, de maneira geral, entre os personagens da situação-problema.

 

 

O teste de Kruskal Wallis indicou que o sexo dos respondentes exerceu influência significativa sobre as quantidades de dinheiro dadas a TR1 (H = 11,11; g.l. = 1; p < 0,01), TR2 (H = 5,98; g.l. = 1; p = 0,01), TR4 (H  = 4,77; g.l. = 1; p = 0,02), TR5 (H = 11,58; g.l. = 1; p < 0,01), TR7 (H = 14,40; g.l. = 1; p < 0,01) e TR9 (H = 5,41; g.l. = 1; p = 0,02) . Como demonstra a tabela 1, as mulheres deram mais dinheiro a TR1, TR2 e TR5 que os homens, enquanto os homens deram mais a TR4, TR7 e TR9 que as mulheres.

 

 

 

Relações entre empatia e justiça distributiva

Ao se processarem análises de correlação (teste de Spearman) entre as subescalas da EMRI e o dinheiro distribuído entre os trabalhadores, constatou-se a existência de correlações positivas entre o nível geral de empatia (EMRI) e o dinheiro dado a TR1 (s =.30; p < 0,01) e TR5 (s = .19; p = 0,04), entre o nível de consideração empática (CE) e o dinheiro dado TR1 (s = .33; p < 0,01), TR2 (s = .24; p = 0,01) e TR5 (s = .32; p < 0,01), e entre o nível de angústia pessoal (AP) e o dinheiro dado a TR1 (s = .24; p = 0,01), TR2 (s = .22; p = 0,02) e TR5 (s = .20; p = 0,04). Por outro lado, observaram-se correlações negativas entre o EMRI e o dinheiro dado a TR4 (s = -.24; p = 0,01) e TR7 (s = -.32; p < 0,01), entre CE e o dinheiro dado a TR4 (s = -.20; p = 0,04), TR7 (s = -.28; p < 0,01) e TR9 (s = -.32; p < 0,01), e entre AP e o dinheiro dado a TR7 (s = -.38; p < 0,01) e TR9 (s = -.21; p = 0,03).

Ao se comparar a quantidade de dinheiro dada aos personagens por indivíduos com diferentes níveis de empatia (EMRI) por meio do teste de Kruskal-Wallis, constatou-se que respondentes com nível baixo de empatia deram menos dinheiro a TR1 (H = 5,12; g.l. = 1; p = 0,02) e a TR5 (H = 4,71; g.l. = 1; p = 0,03) que os de nível médio e os de nível alto (H = 7,82; g.l. = 1; p < 0,01 e H = 3,58; g.l. = 2; p = 0,05, para TR1 e TR5, respectivamente); que os de nível médio deram mais dinheiro a TR2 que os de nível baixo (H = 5,19; g.l. = 1; p = 0,02); e que os participantes com nível baixo de empatia deram mais dinheiro a TR4 (H = 9,30; g.l. = 1; p < 0,01) e a TR7 (H = 9,35; g.l. = 1; p < 0,01) que os de nível médio e alto (H = 3,97; g.l. = 1; p = 0,04 e H = 12,23; g.l. = 1; p < 0,01, para TR4 e TR7, respectivamente).

No que se refere à consideração empática (CE), observou-se que respondentes com nível baixo de CE deram mais dinheiro a TR4, TR7 e TR9 que os de nível alto (H = 5,50; g.l. = 1; p = 0,02, H = 4,00; g.l. = 1; p = 0,04 e H = 4,23; g.l. = 1; p = 0,04, respectivamente) e que os de nível alto, por sua vez, deram mais dinheiro a TR2 e TR5 que os de nível baixo (H = 5,26; g.l. = 1; p = 0,02 e H = 5,76; g.l. = 1; p = 0,01, respectivamente).  Por outro lado, a angústia pessoal e a tomada de perspectiva não exerceram influência sobre a distribuição de dinheiro entre os personagens.

A tabela 2 mostra como foi feita a distribuição do dinheiro entre TR1, TR2, TR4, TR5 e TR7, de acordo com o nível geral de empatia (EMRI) e de consideração empática (CE) dos respondentes.

 

 

Para aprofundar as análises acerca das relações entre empatia e julgamento distributivo, decidiu-se comparar as quantidades de dinheiro dadas a personagens que tinham o mesmo número de filhos, mas níveis diferenciados de produtividade, para observar se haveria diferenças nestas quantidades e se estas estariam relacionadas aos níveis de empatia (EMRI), consideração empática (CE), tomada de perspectiva (TP) e angústia pessoal (AP) dos participantes. Estas comparações levaram à organização de seis grupos, cada um composto de três personagens: Grupo 1 (G1): TR3(F0.P50), TR6(F0.P100) e TR9(F0.P200); Grupo 2 (G2): TR2(F3.P50), TR8(F3.P100) e TR7(F3.P200); Grupo 3 (G3): TR5(F6.P50), TR1(F6.P100) e TR4(F6.P200); Grupo 4 (G4): TR3(F0.P50), TR2(F3.P50) e TR5(F6.P50); Grupo 5 (G5): TR6(F0.P100), TR8(F3.P100) e TR1(F6.P100); Grupo 6 (G6): TR9(F0.P200), TR7(F3.P200) e TR4(F6.P200).

De acordo com este esquema, em G1, G2 e G3 a quantidade de filhos dos personagens é a mesma (nenhum, três e seis, respectivamente), ao passo que há variações no nível de produtividade. Já em G3, G4 e G5 o inverso é verdadeiro, ou seja, mantém-se constante o nível de produtividade (50, 100 e 200, respectivamente), mas varia a quantidade de filhos dos trabalhadores em cada grupo. Consideraram-se como variáveis dependentes as diferenças na quantidade de dinheiro alocada para os personagens de um mesmo grupo, e como variáveis independentes os níveis de EMRI, TP, CE e AP. As diferenças em cada grupo foram testadas por meio do teste de Friedman (ANOVA não paramétrica) e do teste de Wilcoxon, o qual foi utilizado como um post-hoc test.

As análises demonstraram que houve variação significativa (p < 0,01) no dinheiro dado aos trabalhadores de G1, G2 e G3 por respondentes com nível baixo e médio de empatia, enquanto os de nível alto só variaram significativamente a quantidade de dinheiro distribuída em G1 (χ2 = 9,38; g.l. = 2; p < 0,01) e G3 (χ2 = 9,13; g.l. = 2; p = 0,01). Por outro lado, em G4, G5 e G6 houve variações significativas para os respondentes dos três níveis de empatia (p < 0,001); porém o teste de Wilcoxon demonstrou que não houve diferença significativa no dinheiro dado a TR7 (F3.P200) e TR9 (F0.P200) por respondentes com nível alto de empatia.

O teste de Friedman indicou que os respondentes dos três níveis de consideração empática (CE) distribuíram de maneiras diferentes o dinheiro entre os personagens de G1, G2 e G3 (p < 0,01), ou seja, que, de maneira geral, houve diferenças significativas na quantidade de dinheiro dada aos personagens nestes grupos.

Por outro lado, esse mesmo teste demonstrou que apenas os de nível médio e alto de CE deram quantidades significativamente diferentes de dinheiro aos personagens de G4 (χ2 = 43,60; g.l. = 2; p < 0,01 e χ2 = 34,04; g.l. = 2; p < 0,01, respectivamente), G5 (χ2 = 38,96; g.l. = 2; p < 0,01 e χ2 = 28,84; g.l. = 2; p < 0,01, respectivamente) e G6 (χ2 = 52,12; g.l. = 2; p < 0,01 e χ2 = 26,63; g.l. = 2; p < 0,01, respectivamente), o que indica que as distribuições dos participantes com baixo nível de CE não foram afetadas por variações nas quantidades de filhos, mas apenas por diferenças na produtividade dos personagens. 

      A tomada de perspectiva parece não ter influenciado significativamente a distribuição em função dos níveis de necessidade e produtividade, uma vez que as análises indicam que tanto os respondentes de nível baixo como os de nível médio e alto variaram significativamente (p < 0,05) o dinheiro dado aos personagens de todos os grupos.

      Quanto à angústia pessoal (AP), observou-se que os de baixo e médio nível distribuíram diferentemente o dinheiro entre os personagens de G1 (χ2 = 17,57; g.l. = 2; p < 0,01 e χ2 = 40,09; g.l. = 2; p < 0,01, respectivamente), G2 (χ2 = 24,66; g.l. = 2; p < 0,01 e χ2 = 26,83; g.l. = 2; p < 0,01, respectivamente) e G3 (χ2 = 21,44; g.l. = 2; p < 0,01 e χ2 = 37,24; g.l. = 2; p < 0,01, respectivamente), e que os participantes com alto nível de AP distribuíram diferentemente apenas em G3 (χ2 = 7,72; g.l. = 2; p = 0,02). Mais especificamente, constatou-se que eles diferiram na quantidade de dinheiro dado a TR1 (F6.P100) e TR4 (F6.P200) [Z = -2,38; p = 0,01] e no dinheiro dado a TR4 e TR5 (F6.P50), mas não no dinheiro dado a TR5 e TR1. Respondentes nos três níveis de AP distribuíram quantidades diferentes entre os personagens de G4, G5 e G6 (p < 0,01). 

 

Discussão

Os resultados evidenciaram que os dois principais condicionantes (necessidade e produtividade) foram usados pelos respondentes como variáveis a serem ponderadas conjuntamente no momento em que eles estavam tomando suas decisões distributivas. Conforme constatado, ao passo que o personagem TR4 (F6.P200), que tinha os maiores níveis de necessidade e produtividade dentre todos, recebeu a maior quantidade de dinheiro, TR3 (F0.P50), que tinha o menor número de filhos e o mais baixo índice de produtividade, recebeu a menor quantidade de dinheiro. Além disso, de maneira geral, observaram-se diferenças nas quantidades de dinheiro distribuídas entre os personagens em função dos níveis de necessidade e de produtividade. Esses dados indicam que os respondentes foram sensíveis às variações nas características dos personagens e guiaram-se por mais de um princípio distributivo, priorizando ora o mérito, ora o maior nível de necessidade dos trabalhadores, ou ambos.

No que se refere aos efeitos do sexo, observou-se que essa variável exerceu influência significativa sobre a distribuição de dinheiro entre os personagens, no sentido de que as mulheres deram mais dinheiro a TR4 (F6.P50), TR1 (F6.P100) e TR2 (F3.P50) que os homens. Os dois primeiros tinham o maior nível de necessidade e produtividade normal, ou abaixo da exigida pela empresa, enquanto o terceiro tinha uma quantidade média de filhos e um nível de produtividade abaixo do normal. Esses resultados são indicativos de que os julgamentos distributivos das mulheres são norteados por uma preocupação com o cuidado e bem-estar dos envolvidos, portanto há uma priorização dos aspectos ligados à necessidade de quem recebe os outcomes distribuídos, pois elas, mais do que os homens, privilegiaram personagens que tinham mais filhos, mesmo quando estes apresentaram um menor nível de produtividade.

Com base nesses resultados, julga-se que as participantes do presente estudo, ao invés de terem procurado estabelecer uma distribuição equitativa, nos moldes da teoria de Adams (1965), usaram o nível de produtividade para proteger os personagens que haviam ficado abaixo da meta estabelecida pela empresa, dando-lhes uma espécie de ajuda adicional.

Os homens, por sua vez, deram mais dinheiro do que as mulheres aos personagens que conseguiram ultrapassar a meta estabelecida pela empresa [TR4(F6.P200), TR7(F3.P200) e TR9(F0.P200)], o que indica que eles, mais do que elas, preocuparam-se em recompensar aqueles que haviam sido mais eficientes e produzido mais. Estes resultados corroboram as evidências de pesquisas anteriores (Hutz et al., 1994; Jackson et al., 1985; Leventhal & Lane, 1970), reforçando a tese da existência de diferenças de gênero nos julgamentos e comportamentos sociomorais (Gilligan, 1982).

Não foram identificados efeitos significativos da tomada de perspectiva sobre os julgamentos distributivos dos respondentes e, de acordo com os pressupostos teóricos desta pesquisa, tais diferenças realmente não deveriam ocorrer, a menos que houvesse uma diferença maior entre as idades e nos níveis de desenvolvimento cognitivo-afetivo dos participantes. Nessa direção, supõe-se que os efeitos da tomada de perspectiva não tenham ocorrido porque os participantes dessa pesquisa compartilhavam um mesmo nível de habilidade de role-taking, o que os fez ponderar as diferenças nas características dos personagens envolvidos na situação distributiva e coordenar os diferentes níveis de necessidade e produtividade dos trabalhadores.   

Por outro lado, as análises da influência da empatia sobre a justiça distributiva corroboraram a teoria de Hoffman (1987, 1991), pois se constatou que houve correlações positivas entre as dimensões afetivas do EMRI (consideração empática e angústia pessoal) e o dinheiro dado a TR1 (F6.P100), TR5 (F6.P50) e TR2 (F3.P50), e correlações negativas entre  estas e o dinheiro dado a TR9 (F0.P200), TR7 (F3.P200) e TR4 (F6.P200), o que significa que quanto maior o nível de empatia (EMRI), consideração empática (CE) e angústia pessoal (AP), maior foi a tendência dos participantes a priorizar a necessidade dos personagens, em detrimento de sua produtividade.

Pode-se, não obstante, questionar: como explicar a correlação positiva entre os afetos empáticos e o dinheiro dado a TR2 (F3.P50), bem como a correlação negativa destes com o dinheiro dado a TR4 (F6.P200)? Julga-se que os respondentes com maiores níveis de EMRI, CE e AP preocuparam-se em ajudar os trabalhadores que haviam produzido abaixo do estabelecido pela empresa e que possuíam filhos, no caso TR5 (F6.P50) e TR2 (F3.P50), por medo de que os filhos passassem necessidade ou que esses personagens fossem punidos pela empresa. Por outro lado, é possível que estes mesmos respondentes tenham julgado que, por TR4 (F6.P200) ser muito eficiente, não precisaria de ajuda adicional, mesmo tendo seis filhos.

Outros dados demonstraram que houve diferenças significativas nas quantidades de dinheiro distribuídas entre os personagens, em função dos níveis de empatia, consideração empática e angústia pessoal. Mais especificamente, constatou-se que respondentes com alto nível de EMRI deram mais dinheiro a TR1 (F6.P100), TR5 (F6.P50) e TR2 (F3.P50) que os de nível baixo e que os de nível baixo deram mais dinheiro aos trabalhadores com o mais alto índice de produtividade [TR4 (F6.P200) e TR7 (F3.P200)]. Esses resultados confirmam a hipótese de Hoffman (1991) de a empatia estar associada a uma maior preocupação com a necessidade e o cuidado para com as pessoas, em detrimento das suas contribuições pessoais.

De acordo com as teorias de Hoffman (1991) e Davis (1983), dever-se-ia esperar uma associação forte entre consideração empática e o cuidado/necessidade, e isto é justamente o que foi evidenciado nos resultados. Observou-se que participantes com baixo nível de CE deram mais dinheiro aos trabalhadores que haviam atingido o nível máximo de produtividade (200 pontos), enquanto os de nível alto optaram por ajudar quem tinha filhos [TR2 (F3.P50) e TR5 (F6.P50)] mas não havia conseguido trabalhar tanto quanto a empresa exigia. Esses resultados sugerem que participantes com alto nível de angústia pessoal preocuparam-se em ajudar os personagens que haviam produzido abaixo da meta da empresa, o que corrobora a hipótese que a consideração empática tem, efetivamente, poder para mobilizar o comportamento de ajuda em direção a pessoas em situação de sofrimento, angústia ou necessidade (Batson et al., 1995; Davis, 1983; Hoffman, 1987, 1991).

A dimensão afetiva da angústia pessoal parece não ter influenciado tanto as decisões distributivas dos respondentes quanto a consideração empática. Apesar de terem ocorrido correlações negativas entre este construto e o dinheiro dado aos muito produtivos e correlações positivas com o dinheiro dado aos personagens mais necessitados, não houve diferenças significativas nas quantidades de dinheiro dadas aos trabalhadores em função do nível de angústia pessoal. A partir da análise dessas correlações, poder-se-ia inferir que níveis mais altos de AP estariam associados a um comportamento de evitar beneficiar quem tem muita produtividade; contudo, mesmo tendo-se observado que as quantidades médias de dinheiro dadas por sujeitos com baixa angústia pessoal aos personagens com produtividade 200 (TR4, TR7 e TR9) foram superiores às médias dos respondentes com nível médio e alto de AP, os testes estatísticos demonstraram que as diferenças entre essas médias não foram significativas.

Segundo Escrivá et al. (2004) e Davis (1983), a angústia pessoal é um tipo de sentimento empático voltado para o self, sendo mais egoísta que a consideração empática e só se relacionando ao comportamento de ajuda na medida em que traz o alívio da sensação de desconforto para o próprio indivíduo; porém o que se deseja enfocar nesta discussão é a influência dos afetos empáticos sobre a justiça, e não a natureza (egoísta ou altruísta) da motivação produzida pelos diferentes afetos empáticos, até porque a investigação empírica deste tipo de reação afetiva é de difícil operacionalização e qualquer interpretação sobre a motivação envolvida nos comportamentos morais deve ser bastante cautelosa (Batson et al., 1995).

Tomando-se, então, as diferenças na quantidade de dinheiro distribuída entre os personagens como um índice dos julgamentos distributivos, supõe-se que o nível mais elevado de angústia pessoal fez com que os adolescentes evitassem favorecer alguém que fosse mais eficiente no trabalho mas não precisasse de tanto, mas que, por outro lado, essa mobilização afetiva não foi tão forte quanto aquela produzida pela consideração empática, a ponto de ser traduzida em um tratamento diferenciado para com os personagens. É possível também que alguns participantes até tenham pretendido ajudar os trabalhadores que mais precisavam, mas que as sensações de desconforto/incômodo provocadas por altos níveis de angústia pessoal tenham atrapalhado seus julgamentos, fazendo com que eles fossem pouco eficazes na hora de ajudar quem mais precisava.

Esta hipótese baseia-se nos dados apresentados por Hoffman (1987, 1991) acerca do efeito negativo das reações emocionais provocadas pela angústia pessoal sobre os julgamentos sociomorais e na própria análise dos itens utilizados para mensurar esta dimensão no EMRI. Neste caso, observa-se que tais itens estão relacionados a algum tipo de comprometimento na capacidade de tomada de decisão quando o indivíduo se encontra em situações estressantes (Ex: "Em situações de emergência, eu me sinto ansioso e desconfortável"; "Às vezes, eu me sinto desconfortável quando estou no meio de uma situação muito emotiva"; "Estar em uma situação emocional tensa assusta-me").

Nesse caso se põem em discussão as diferentes influências que a consideração empática e a angústia pessoal podem exercer sobre os raciocínios sociomorais, uma vez que, enquanto a consideração empática parece ter, efetivamente, deixado os respondentes mais sensíveis à necessidade dos trabalhadores, o papel da angústia pessoal em relação à justiça distributiva não ficou completamente esclarecido. Neste sentido, faz-se necessária a realização de outras pesquisas para que se possa conhecer melhor a natureza da angústia pessoal e de seu papel empático e para que se tenha maior clareza a respeito de suas relações com o comportamento sociomoral, especialmente no que se refere à cultura brasileira (Ribeiro et al., 2002).

Os resultados produzidos a partir das comparações dos grupos de trabalhadores (Grupos G1, G2, G3, G4, G5 e G6) indicam que tanto a produtividade quanto a necessidade influenciaram significativamente as decisões de indivíduos com baixo e médio nível de angústia pessoal, mas que os de nível alto, por sua vez, variaram as quantidades de dinheiro distribuídas em função da produtividade apenas quando o nível de necessidade era o máximo possível, ou seja, quando os personagens tinham seis filhos [TR5 (F6.P50), TR1 (F6.P100) e TR4 (F6.P200)]. Estes resultados sugerem que indivíduos com alto nível de angústia pessoal só adotaram um segundo critério distributivo quando as pistas situacionais tornaram-se muito evidentes e só após terem esgotado as possibilidades de aplicação do primeiro critério distributivo, o qual era, neste caso, a necessidade.

Outros dados provenientes das comparações nos grupos de trabalhadores demonstraram efeitos significativos da consideração empática sobre a justiça distributiva. Mais especificamente, constatou-se que quando o nível de necessidade era mantido constante, mas havia variação na produtividade, os respondentes dos três níveis de consideração empática (CE) distribuíam diferentemente o dinheiro entre os personagens com mesmo número de filhos. Por outro lado, quando havia um mesmo nível de produtividade, mas havia variação na quantidade de filhos dos personagens, apenas os que tinham nível médio e alto de CE mudavam significativamente a maneira de distribuir o dinheiro.

Esses resultados indicam que, independentemente do nível de CE, os participantes foram sensíveis às diferenças na produtividade e buscaram distribuir o dinheiro de acordo com a produção de cada um, mas que apenas aqueles com nível médio e alto levaram em consideração também o nível de necessidade dos trabalhadores. Em outras palavras, a motivação produzida por maiores níveis de consideração empática fez com que os adolescentes usassem ambos os tipos de informação disponíveis na situação-problema (necessidade e produtividade) como variáveis importantes de serem ponderadas durante os julgamentos distributivos.

É importante sinalizar que o fato de a situação-problema envolver um contexto empresarial e a distribuição de dinheiro pode ter influenciado significativamente os resultados deste estudo, uma vez que questões ligadas ao mérito foram bastante evidenciadas nessa situação. Outra questão que pode ter influenciado os resultados é o fato de a amostra ter sido composta por jovens estudantes de diferentes níveis socioeconômicos, os quais, muito provavelmente, nunca tenham tido que lidar com um dilema distributivo desta natureza. Em estudo anterior, Sampaio (2007) observou que os julgamentos distributivos também podem ser influenciados pelo contexto socioeconômico do respondente, fazendo com que haja preferência por princípios distributivos que se relacionam à sua atual situação. Nessa direção, sugere-se que pesquisas posteriores investiguem se em contextos que envolvem a distribuição de outros tipos de bens a empatia também exerce influência sobre os julgamentos distributivos, assim como sua relação com outras variáveis psicossociais durante tais julgamentos.

Outra limitação do presente estudo decorre do fato de se ter utilizado uma medida autoavaliativa da empatia, a qual não possibilita analisar com quem o respondente está empatizando. Ademais, cita-se que, de acordo com os estudos de Ribeiro et al. (2002) e Sampaio (2007), as relações entre consideração empática e angústia pessoal não estão bem-esclarecidas no contexto brasileiro, pois em ambos os estudos foram encontrados resultados diferentes daqueles observados em outros países (Davis, 1983). Nessa direção, sugere-se que sejam realizados mais pesquisas no Brasil para aperfeiçoar a EMRI e para desenvolver outros instrumentos, bem como para compreender como os diferentes tipos de sentimentos empáticos se relacionam durante a adolescência e início da vida adulta.

Por fim, considera-se que, apesar das limitações decorrentes do delineamento adotado e das análises empregadas, os dados produzidos no presente trabalho são importantes para a compreensão das relações entre aspectos socioculturais e de desenvolvimento na construção da noção de justiça distributiva e na constituição da vida sociomoral. Nesta direção, julga-se que esses resultados demonstram que, mesmo em um contexto cultural no qual se valorizam extremamente a competitividade e a produtividade, a noção de justiça distributiva pode ser fortemente influenciada pela afetividade. Assim, os resultados obtidos neste estudo reforçam a justificativa de que os aspectos ligados à vida afetiva, especialmente aos sentimentos empáticos, devem ser levados em consideração nas pesquisas que se proponham a investigar o desenvolvimento sociomoral.

 

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Endereço para correspondência:
Leonardo Rodrigues Sampaio
Colegiado de Psicologia
Universidade Federal do Vale do São Francisco-UNIVASF
Av. José de Sá Maniçoba, s/n, Centro, CEP: 56304-205, Petrolina - PE, Brasil
E-mail: leorsampaio@yahoo.com.br

Recebido em 12/11/2008
Aceito em 19/12/2009