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Perspectivas em Ciência da Informação

versão On-line ISSN 1981-5344

Perspect. ciênc. inf. vol.18 no.2 Belo Horizonte abr./jun. 2013

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-99362013000200002 

ARTIGOS

 

Periódicos brasileiros de Ciências Sociais e Humanidades indexados na base SciELO: características formais1

 

Brazilian scientific journals in Social Sciences and Humanities indexed by SciELO database: formal aspects

 

 

Solange Maria dos SantosI; Daisy Pires NoronhaII

IGraduada em Biblioteconomia. Mestre em Ciência da Informação pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. Doutoranda do Programa de Pos-Graduação em Ciência da Informação da ECA/USP Bibliotecária do Programa Scientific Electronic Library Online (SciELO)
IIBibliotecária pela Escola de Biblioteconomia e Documentação de São Carlos. Mestre e Doutora pela Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo. Professora Doutora do Departamento de Biblioteconomia e Documentacao da Escola de Comunicacoes e Artes da USP. Professora senior do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da ECA/USP

 

 


RESUMO

A pesquisa realizada caracteriza-se como exploratória e descritiva e analisa as características formais dos periódicos científicos brasileiros, da área de Ciências Sociais e de Humanidades, indexados na base SciELO. A análise ancorou-se principalmente nos critérios de qualidade extrínsecos de 73 títulos de periódicos, referentes: às entidades editoriais, à periodicidade e tempo de existência, às fontes de indexação, às instruções aos autores e aos critérios de avaliação dos artigos. Os resultados revelam que, com relação às características extrínsecas, os periódicos dessas áreas têm evoluído significativamente e já não estão mais tão distantes, em termos de aspectos formais dos periódicos de outras áreas com maior tradição de publicação em periódicos científicos. No entanto, é imprescindível considerar que, ainda, há aspectos importantes que devem ser aperfeiçoados, a fim de possibilitar que esses periódicos possam dar um salto qualitativo ainda maior.

Palavras-chave: Periódicos científicos; Periódicos de Ciências Sociais e Humanidades; Características formais; SciELO.


ABSTRACT

This research is an exploratory and descriptive study that analyzes Brazilian scientific journals in the social sciences and humanities fields, indexed by SciELO database. The analysis was performed with 73 titles and mainly based on the criteria of extrinsic quality of journals related to: editorial entities, periodicity, duration, indexing databases, instructions to authors and criteria for articles evaluation. The results show that considering extrinsic aspects, these journals have improved significantly, and in terms of formal aspects are no longer so far apart from journals which have strong tradition of communicating scientific results in scholarly journals. However, it is essential to consider that there are still important aspects that need to be enhanced to allow these journals achieve a quantum leap even higher.

Keywords: Scientific journals; Scientific journals in Social Sciences and Humanities; formal aspects; SciELO.


 

 

1 Introdução

Na ciência, o compartilhamento do conhecimento com a sociedade se dá mediante sua comunicação. Fazendo uso de seus meios e canais, os cientistas apresentam os resultados de suas pesquisas à comunidade de pares e esses os avaliam, reconhecem e legitimam (GARVEY; GRIFFITH, 1979).

O advento do periódico científico deu-se na segunda metade do séc. XVII, como meio de comunicação dos cientistas da época, com artigos breves, nos moldes das "cartas científicas". Com o aumento no volume dessas correspondências, aliado à crescente clientela interessada em novas realizações, surge a ideia de agrupá-las em formato impresso e distribuí-las aos cientistas de todo o mundo. A partir da publicação dos primeiros títulos Journal des Sçavants (janeiro de 1665) e Philosophical Transactions of the Royal Society of London (março de 1665), o periódico passa a causar gradativas e notáveis implicações na comunicação científica (MEADOWS, 1999).

Nesse contexto, os periódicos científicos constituem fóruns privilegiados para anunciar resultados, submeter a produção a julgamento e receber contribuições, isto é, possibilitam a continuidade do processo evolutivo do conhecimento. Hoje, além da grande importância na disseminação de informações, na institucionalização dos conhecimentos, na consagração e legitimação da produção científica, o periódico é, também, um dos principais canais para veiculação dos novos saberes produzidos pelas diferentes comunidades.

Nas últimas décadas, tem-se presenciado um considerável crescimento da quantidade de periódicos científicos, em diferentes suportes e em diversas áreas do conhecimento. No entanto, nem todas as áreas e disciplinas valorizam e utilizam os periódicos da mesma maneira, isto é, a forma de comunicação dos achados por esse veículo, não é tão relevante para as Ciências Sociais e Humanas quanto o é para muitas outras Ciências, como as Exatas e as Naturais. Sabe-se que uma das características das áreas de Ciências Sociais e de Humanidades é a valorização do livro como a mais alta forma de publicação. Mueller (1999), ao investigar a produção científica de pós-doutores apoiados pela Capes, relata que nas Ciências Exatas, Biológicas e da Saúde, as pesquisas tendem a ser comunicadas preferencialmente em periódicos; nas Engenharias, a preferência é por eventos e seus respectivos anais; os livros e capítulos aparecem como significativos apenas para os pesquisadores das Ciências Sociais Aplicadas, Humanas e da área de Linguística. De qualquer forma, o artigo de periódico científico, como recurso na divulgação da ciência, vem sendo, cada vez mais, cobrado nas avaliações e planejamentos aos  quais são submetidos pesquisadores, departamentos, instituições, áreas do conhecimento.

Esse quadro vem sendo delineado pelos constantes estudos nos quais os periódicos das diversas áreas são objeto de avaliação, por parte dos gestores e financiadores das atividades científicas, em vários países. O interesse está em se obter, mediante a avaliação das publicações, indicadores sobre a produtividade que facilite tanto a tomada de decisão quanto a distribuição e a alocação de recompensas e recursos.

Por essa razão, a avaliação dos periódicos tem se tornado, nos últimos anos, um instrumento muito utilizado tanto pelas agências de fomento, para definição de apoio aos mesmos, como pelos principais sistemas  internacionais para a inclusão de títulos em seus bancos de dados. São os processos de avaliação que certificam e conferem prestígio às publicações, fornecendo, à comunidade acadêmica e científica, subsídios para que possa identificar os periódicos que melhor sirvam a seus interesses.

Muitos estudos já foram realizados no escopo da avaliação de periódicos, contudo, tanto no Brasil quanto na América Latina, poucos trabalhos se dedicaram à análise dos periódicos da área de Ciências Sociais e de Humanidades. Dentre os estudos já realizados, destacam-se alguns voltados à análise de uma subárea ou disciplina específica: Yamamoto et al. (2002), na área de Psicologia; Hayashi et al. (2006), na área de Educação Especial. No contexto institucional, há o destaque de Gruszynski (2007), que analisa títulos publicados pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Diante do exposto, o presente artigo tem por objetivo realizar um mapeamento das  principais características formais dos periódicos científicos brasileiros das áreas de Ciências Sociais e de Humanidades, de modo a conhecê-los em maior profundidade, e contribuir com para o processo de melhoria e adequação dessas publicações.

1.1 Aspectos formais das publicações científicas

Na Ciência moderna, a normalização dos procedimentos é imprescindível para a transmissão correta do conhecimento científico, pois garante a universalidade e reprodutibilidade das pesquisas científicas. A normalização é especialmente necessária, nas publicações científicas, e deve ser aplicada tantos aos aspectos formais, relacionados com sua estrutura física, quanto ao seu conteúdo.

A normalização, como atividade reguladora, permite unificar formatos e procedimentos, facilita o registro, a transferência das informações possibilitando a recuperação eficiente de documentos em sistemas de informação, além de garantir a padronização que facilita o uso e a disseminação do conteúdo.

É evidente que é a qualidade do conteúdo que efetivamente determina a excelência de uma revista científica, no entanto, todas as instituições indexadoras e reguladoras de publicações científicas incluem a normalização como um dos critérios para registro e inclusão em suas bases de dados.

Dentre os principais aspectos que precisam ser considerados na normalização de uma publicação estão: os extrínsecos (forma), os intrínsecos (conteúdo). Os aspectos extrínsecos, relativos aos requisitos da apresentação física da publicação, envolvem a normalização das legendas, das afiliações dos autores, dos títulos, dos resumos, das palavras-chave, do sumário, do expediente, do registro ISSN, das instruções aos autores e da periodicidade. Para cada um desses itens, há uma norma que deve ser obedecida em todos os fascículos, garantindo, assim, a identidade formal da revista e a recuperação de seus artigos.

A normalização das publicações científicas e de seus conteúdos beneficia a todos os agentes envolvidos na produção e difusão do conhecimento: autores, editores de revistas, serviços de tratamento e difusão de informação (índices e bases de dados bibliográficas) e leitores. Esse benefício se traduz em termos de simplificação das tarefas, economia de tempo e custos e, também, em uma melhor transferência de informação. Além disso, o ajuste às normas e padrões de edição científica, não somente favorece a inclusão em bases de dados bibliográficas, como, também, melhora a qualidade dos registros de informação nesses sistemas ao reduzir os erros e ao possibilitar incrementar as citações. 

 

2 Procedimentos metodológicos

A pesquisa realizada caracteriza-se como exploratória e descritiva e o objeto de estudo é representado pelos periódicos das áreas de Ciências Sociais e de Humanidades que, em abril de 2009, eram indexados na coleção SciELO Brasil2. A escolha dos periódicos dessa coleção se deu em função de suas características de acesso aberto, pela disponibilidade de informação online, bem como pela qualidade e o prestígio atribuído a esses periódicos no cenário científico e acadêmico brasileiro.

Na ocasião, foram identificados, na SciELO Brasil, 81 títulos classificados nas áreas de Ciências Sociais e Humanidades[3]. A quantidade total de títulos indexados, nessa coleção, era de 193[4]. Desta forma, ao contrário do que se costuma crer, os periódicos das Ciências Sociais e Humanidades não são minoria na SciELO, já que, nessa ocasião, eles representavam 37,5% dos periódicos da base, percentual equivalente aos das áreas de Ciências Biológicas e da Saúde (37,9%)

Como critérios de seleção dos títulos a serem estudados, optou-se por considerar apenas os periódicos identificados como "correntes". Com isso, foram descartados 8 títulos não-correntes, sendo 6 deles da área de Ciências Humanas e 2 da área de Ciências Sociais Aplicadas. Assim, ao todo, foram analisados 73 periódicos, sendo 50 de Ciências Humanas, 17 de Ciências Sociais e Aplicadas e 6 títulos classificados em ambas as áreas do conhecimento.

Para a análise das características formais foi adotado e, parcialmente modificado, o modelo de avaliação5 apresentado por Bomfá (2003). Sendo assim, foram consideradas as seguintes características extrínsecas: entidades editoriais; periodicidade; tempo de existência; indexação; instruções aos autores (categorização e definição dos tipos artigos, normalização, idiomas de publicação); e critérios de avaliação dos artigos (tipo de arbitragem por pares, critérios para avaliação dos artigos).

Para obtenção dos dados a serem analisados, foram consultadas as informações sobre os periódicos, disponibilizadas pela SciELO, em junho de 2010. Foram examinadas as páginas informativas dos periódicos sobre a política editorial, instruções aos autores, a coleção de fascículos, bem como os próprios artigos.

 

3 Resultados e discussão

A análise das características extrínsecas dos periódicos de Ciências Sociais e Humanidades mostram que, em termos da distribuição do tipo de entidade responsável pela edição do periódico - entidades editoriais, há uma significativa participação do setor acadêmico na sua produção (61,6%). Também, vale destacar a participação das Associações e Sociedades Científicas, com 17 títulos. Juntas, universidades, associações e sociedades são responsáveis por 84,9% dos periódicos de Ciências Sociais e de Humanidades indexados na base SciELO (Tabela 1). Esses resultados confirmam a tendência, identificada em estudo de Mueller (2009), no qual o setor acadêmico predomina como entidade editora dos periódicos das áreas Ciências Humanas, Ciências Sociais e Linguística, Letras e Artes.

 

 

Vale destacar que essas entidades editoriais estão significativamente concentradas nas regiões Sudeste (56 títulos ou 76,7%) e Sul (10 títulos ou 13,7%), que juntas publicam 90,4% dos periódicos indexados na SciELO, ao passo que, as regiões Centro-Oeste (5 títulos) e Nordeste (2 títulos), juntas, são responsáveis pela publicação dos 9,5% restantes.

A periodicidade é um fator importante no que tange à confiabilidade do periódico, uma vez que imprime velocidade ao fluxo de produção e publicação. O atendimento pontual da periodicidade estabelecida é uma prática que reflete a sustentação do fluxo constante dos artigos e demonstra a eficiência da gestão editorial. 

Considerando-se que a periodicidade mínima exigida pela SciELO para os periódicos de Ciências Sociais e de Humanidades é a semestral,  verificou-se que apenas 25 títulos (34,2%) adotam essa periodicidade e, assim sendo, mais de 65% dos periódicos adotam periodicidade superior ao mínimo exigido pela SciELO (quadrimestral, 27 títulos; trimestral, 20 títulos; e mensal, 1 título) (Tabela 2).

 

 

 

É sabido que, nas áreas sociais e humanas, cujo objeto de estudo é a investigação de processos sociais, culturais, psicológicos, etc., a obsolescência da informação não é percebida tão rapidamente. Dessa forma, o resultado obtido sugere que, em termos de periodicidade, ao contrário do que se esperava, os periódicos estudados estão muito mais próximos da "velocidade" de publicação adotada pelas Ciências Naturais, área em que a obsolescência é uma ameaça constante.

Embora não constitua um indicador representativo de qualidade, o tempo de existência do periódico sinaliza tradição e êxito, uma vez que títulos jovens têm maior tendência à descontinuidade ou a sofrer do que Stumpf (1998) denomina de "síndrome dos três fascículos", situação em que o primeiro é publicado com euforia; o segundo, com atraso; o terceiro e último, anos depois.

Esse não parece ser o caso dos periódicos estudados, já que a maior parte deles (72,6%) está concentrada na faixa compreendida entre 11 e 30 anos de existência, além de constarem títulos criados há mais de 50 anos (5 títulos), como exemplo, o periódico Anais da Academia Brasileira de Ciências, criado em 1917. Por outro lado, há uma pequena participação de periódicos mais recentes (6 títulos), sendo de 2004, o mais novo  entre os periódicos estudados. Assim sendo, pode-se considerar que a coleção de periódicos de Ciências Sociais e de Humanidades, indexados na SciELO, se constitui basicamente de títulos tradicionais dessas áreas (Gráfico 1).

 

 

Para um periódico, a indexação em uma base de dados significa reconhecimento de mérito, aval à qualidade de seus artigos e, consequentemente, de seus autores. A indexação contribui para o aumento da visibilidade e disseminação dos periódicos e, quanto maior o número de bases de dados nacionais, regionais ou internacionais nas quais o periódico se encontra indexado, maiores serão as possibilidades de que ele seja acessado, utilizado e citado.

Em geral, as bases de dados utilizam basicamente os mesmos critérios para a seleção dos periódicos (qualidade científica, tipo de conteúdo, regularidade de publicação, corpo editorial, normalização, etc.), o que varia é o grau com que cada um dos critérios é aplicado de acordo com os objetivos, público-alvo e áreas temáticas de interesse de cada uma das bases.

A Tabela 3 apresenta a distribuição dos periódicos das áreas estudadas, segundo indexação em bases de dados, que constavam indicadas, pelos editores, nas páginas dos periódicos na SciELO. As bases que ocupam a primeira posição no quadro geral de indexação são Latindex 6e DOAJ (Directory of Open Access Journals)7, com   98,6% dos periódicos indexados. Tendo em conta a natureza e os objetivos dessas duas bases e, considerando que os títulos aqui analisados estão no contexto latino-americano de acesso aberto, a alta representatividade dos periódicos brasileiros no Latindex e no DOAJ é perfeitamente justificável.

 

 

A representatividade dos periódicos brasileiros e latino-americanos nas mais prestigiosas bases de dados internacionais (Web of Science e Scopus) ainda é pequena, embora, nos últimos anos, tenha ocorrido um aumento da presença nacional nessas bases. No contexto dos periódicos estudados, a base Scopus indexa 52 (71%) dos 73 títulos, sendo responsável por 13,7% das indexações. Já o Web of Science indexa apenas 3 títulos (4,1%), o que corresponde a 0,8% no quadro geral de indexações.

Verificou-se, ainda, que os periódicos de Ciências Humanas possuem cerca de 5.5 indexações por título, ao passo que os periódicos das Ciências Sociais, obtiveram cerca de 3.6 indexações. Dentre os periódicos de Ciências Humanas, chama atenção o fato de alguns deles serem indexados, também, em bases de dados consideradas referências em áreas como Ciências da Saúde e Ciências da Vida (MEDLINE com 2 títulos, LILACS com 16 títulos e  BIOSIS com 1 título).

Cabe destacar que, dentre as bases indicadas pelos periódicos, constava uma gama de outros tipos de fontes de informação, tais como: catálogos coletivos, diretórios de periódicos, portais de registro, programas de avaliação da produção científica (Ulrich’s, ISSN, CCN, Qualis, etc), dentre outros, que não foram contabilizados como bases indexadoras de periódicos, uma vez que não se destinam a esse fim.

Delineadas pelo corpo editorial do periódico, as instruções aos autores, têm influência significativa na qualidade dos artigos publicados. Por essas normas são conhecidas instruções relativas aos aspectos formais na submissão dos trabalhos, informações claras sobre os tipos de contribuições e os critérios de julgamento aos quais serão submetidos os artigos. As instruções refletem a qualidade almejada pelo corpo editorial, fator que confere autoridade ao periódico.

A análise das instruções aos autores revelou que, dos 73 títulos, apenas 19 (26%) informavam os tipos de artigos aceitos para publicação e/ou apresentavam, nas instruções, a definição dos diferentes tipos de contribuições aceitas. Dentre eles, verificou-se que, além dos tradicionais artigos, grande parte dos periódicos indica publicar resenha (15 títulos), ensaio (8 títulos) e, com menor frequência, foram indicados artigo de revisão e relato de pesquisa (7 títulos). O tipo de contribuição resumo de teses e dissertações foi indicado por apenas 1 dos periódicos. Ao analisar as instruções aos autores, foi possível perceber a existência de grande diversidade de nomenclaturas para os diferentes tipos de contribuições. O emprego dessas nomenclaturas varia de acordo com o conteúdo de cada artigo e com o critério adotado por cada editor. Ao verificar se os periódicos apresentavam definições para os diferentes tipos de documentos aceitos para publicação, constatou-se que apenas 7 (ou 9,5%) dos 73 periódicos analisados apresentam as definições para os diferentes tipos de contribuições aceitas.

Nas instruções aos autores, constam, para 47 títulos, informações sobre a adoção de normas para a elaboração das referências bibliográficas. A norma da ABNT (NBR-6023), é a mais adotada (39 títulos ou 53,4%), seguida pela norma da American Psychological Association (APA), por 7 títulos, e da norma do Grupo de Vancouver (International Committee of Medical Journal Editors - ICMJE), utilizadas por apenas 1 título. O fato de 26 títulos (35,6%) não informarem a adoção de alguma norma para a padronização do periódico, pode ser considerando indício da pouca preocupação com a adequada orientação de seus autores no seguimento de padrões e normas na apresentação dos periódicos. 

Outro aspecto importante abordado nas instruções aos autores dos periódicos científicos é o idioma aceito para a publicação dos trabalhos, elemento decisivo na definição do público-alvo do periódico. Ao analisar os indicadores das áreas de Ciências Sociais e de Humanidades, Nerderhof (2006) relata que, em contraste com outras áreas de pesquisa básica como Química e Física, as Ciências Sociais e as Humanidades costumam apresentar uma tendência significativa à orientação local e regional, com preferência pela publicação em língua materna. Os resultados apresentados corroboram essa afirmação, uma vez que apenas 1 dos periódicos aceita submissão de manuscritos exclusivamente em inglês e 14 títulos (ou 19,2%)  somente aceitam trabalhos escritos em português.  72 títulos (98,6%) têm o português como idioma principal de publicação, no entanto, desses, 58 periódicos (ou 80,6%) também aceitam manuscritos em outros idiomas além do português.

 

 

O sistema de avaliação da produção científica pelos membros da comunidade de referência é, também, conhecido como revisão pelos pares ou sistema de arbitragem. Trata-se de um sistema complexo, que reúne pessoas e atividades diferenciadas, mas complementares, para atingir um objetivo comum: julgar os originais submetidos para publicação. Esse sistema é de grande importância para periódicos de todas as áreas, contribuindo, consideravelmente, no processo de melhoria e finalização dos artigos. Os atores envolvidos nesse processo são os autores, os editores e os avaliadores (HAMES, 2007). Cada componente do processo realiza suas atividades para que o editor possa chegar a um veredicto final, que pode ser: "publicar", "publicar após revisão", ou "não publicar".

Os revisores (referees) geralmente fazem seus comentários de maneira confidencial e suas críticas só ficam disponíveis para o editor e o autor. O anonimato pode ser facultado ao avaliador para evitar constrangimentos e protegê-lo da reação dos autores, quando os trabalhos são rejeitados. Da mesma forma, o nome do autor do trabalho a ser avaliado e a identificação de sua instituição de origem podem ser omitidos.  Esse procedimento, também conhecido como avaliação cega ou blind review, busca evitar influências na decisão do árbitro na apreciação do trabalho. A avaliação que não revela o nome do autor para o avaliador nem o nome do avaliador para o autor é chamada de double blind review.

Ao analisar as informações sobre os tipos de revisão (Gráfico 2), verificou-se que as modalidades mais utilizadas pelos periódicos são, respectivamente: a revisão cega (blind review), adotada por 19,2%, e a revisão duplo cega (double blind review), adotada por 17,8% dos periódicos. Também, foi identificado que é prática comum, dentre esses periódicos (13,7%), a utilização dos membros do conselho editorial no processo de revisão. Por outro lado, cabe destacar que o estudo mostrou que, dos 73 periódicos analisados, 47,9% não informam, nas instruções aos autores, o tipo de revisão adotada na avaliação dos manuscritos. A ausência desse tipo de informação denota certa falta de cuidado na elaboração das instruções aos autores, ao mesmo tempo em que deixa os periódicos vulneráveis a críticas de falta de rigorosidade e/ou de transparência no processo de revisão.

 

 

Uma forma de conseguir aumentar a coerência no julgamento dos especialistas é fornecer instruções detalhadas ou formulários estruturados de avaliação que façam referência aos pontos essenciais que o editor acredita que devam determinar a decisão final de aceitar ou rejeitar o trabalho. Os resultados encontrados mostram que dos 73 periódicos do estudo, somente 3 títulos (4,1%) disponibilizam publicamente os critérios utilizados no processo de avaliação dos artigos; 95,5% (ou 70 títulos) não disponibilizam essa informação.

 

4 Considerações finais

Ainda que, comprovadamente, nem todas as áreas de conhecimento e disciplinas utilizem e valorizem os periódicos da mesma maneira e com a mesma intensidade, essas publicações são importantes instâncias de consagração e legitimação de pesquisas e de pesquisadores, que vem sendo cada vez mais valorizadas em áreas com pouca tradição de publicação nesse tipo de veículo, como no caso das Ciências Sociais e das Humanidades.

O presente estudo permitiu a identificação de algumas das principais características formais dos periódicos científicos brasileiros das áreas das Ciências Sociais e Humanidades, dentre as quais merecem destaque:

a) os periódicos estudados são, em sua maioria, publicados pelo setor acadêmico da região sudeste, adotam periodicidade quadrimestral, com tempo de existência entre 11 e 30 anos;

b)embora a representatividade dos periódicos nacionais em grandes bases de dados internacionais, ainda seja pequena, os títulos analisados gozam de reconhecimento e visibilidade, uma vez que estão indexados em pelo menos outras 2 bases de dados, além da SciELO;

c)ainda se dá pouca atenção à adoção de padrões e normas na apresentação dos periódicos e padronização das referências bibliográficas dos artigos, mesmo estando indexados  em uma base que se propõe a disponibilizar indicadores bibliométricos fundamentados na correta identificação das fontes utilizadas para a elaboração dos artigos;

d) embora vários idiomas sejam aceitos no momento da submissão de manuscritos aos periódicos de Ciências Sociais e de Humanidades, os resultados das pesquisas continuam sendo publicados preferencialmente em Português. Nas Ciências Sociais e Humanidades, a publicação na língua materna é plenamente justificável, mas isso pode ser feito sem que seja necessário abdicar da audiência internacional, que é anseio também, de muitos editores da área. Para os artigos, cujos resultados de pesquisa sejam passíveis de generalização e/ou de interesse para outras partes do mundo, uma alternativa que pode ser bastante benéfica, é a de publicar esses valiosos resultados, na língua materna, para atender a comunidade local, e ao mesmo tempo em inglês, na versão eletrônica, para que esses não sejam ignorados simplesmente por não estarem facilmente acessíveis à comunidade internacional; e

e) as instruções disponibilizadas aos autores são pouco informativas e não auxiliam, de forma satisfatória, autores e revisores. Acredita-se que disponibilizar os critérios utilizados pelos revisores, no processo de avaliação dos artigos, pode conferir maior transparência ao processo de revisão e auxiliar os autores no processo de submissão e adequação de seus trabalhos. Ao mesmo tempo, a disponibilização dos critérios utilizados pode facilitar o processo de revisão, minimizando a submissão de trabalhos que não estejam adequados e alinhados à missão do periódico.

A avaliação das características extrínsecas permitiu revelar que os periódicos científicos brasileiros, das áreas das Ciências Sociais e das Humanidades, têm evoluído significativamente e já não estão mais tão distantes, em termos de aspectos formais, dos periódicos de outras áreas com maior tradição de publicação em periódicos científicos. No entanto, é necessário considerar que, ainda, há aspectos importantes que devem ser aperfeiçoados, para possibilitar que esses periódicos brasileiros, dessas áreas, possam dar um salto qualitativo ainda maior, alcançando mais prestígio e maior visibilidade, tanto nacional como internacional.

 

Referências

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Recebido em30.03.2012
Aceito em 15.05.2013

 

 

1 Parte da Dissertação de Mestrado "Perfil dos periódicos científicos de Ciências Sociais e de Humanidades: mapeamento das características extrínsecas", PPGCI, ECA/USP, set. 2010. Uma versão do artigo foi apresentada no XIII Encontro Nacional de Pesquisa em Ciência da Informação (XIII ENANCIB 2012), de 28 a 30 de outubro, Rio de Janeiro, 2012.
2 Com o objetivo de contribuir para melhorar a qualidade dos periódicos, SciELO Brasil caracteriza-se por ser uma coleção multidisciplinar de revista científicas nacionais em acesso aberto. O desenvolvimento da coleção é assistido por comitê consultivo, que adota rigorosos critérios de avaliação tanto para o ingresso quanto para a permanência na coleção (os periódicos são avaliados quanto aos aspectos de caráter científico; processo de arbitragem por pares, composição do conselho editorial, periodicidade, tempo de existência, pontualidade de publicação, normalização, citações recebidas, dentre outros).
3 A SciELO Brasil adota, para a classificação de seus periódicos, a tabela das áreas do conhecimento definida pelo CNPq,  contemplando as seguintes áreas: Ciências Exatas e da Terra, Ciências Biológicas, Engenharias, Ciências da Saúde, Ciências Agrárias, Ciências Sociais Aplicadas, Ciências Humanas, Linguística, Letras e Artes e outros.
4 Os periódicos SciELO podem ser classificados em mais de uma área do conhecimento, portanto, o total resultante da soma dos periódicos é de 216, que é maior que o total de periódicos de fato indexados.
5 O modelo de Bomfá (2003) para análise de periódicos no todo analisa as revistas com base em: critérios de normalização (Legenda Bibliográfica, Endereço completo, registro ISSN, Periodicidade, indexação e Referências), instrução aos autores (instrução sobre a elaboração de artigos, originalidade, idioma, número de páginas, idioma do sumário, instrução para elaboração das referências) e avaliação dos artigos (apresentação dos critérios para avaliação de artigos e arbitragem por pares).
6 Latindex é um sistema regional de informação bibliográfica de revistas científicas, técnico-profissionais e de divulgação, editadas na América Latina e Caribe, Espanha e Portugal, que tem como objetivo primordial melhorar a qualidade das revistas científicas produzidas nesses países.
7 O DOAJ é um diretório de periódicos de acesso aberto, selecionados por sua qualidade científica. Estão incluídos títulos de todas as áreas do conhecimento e de todas as regiões do mundo, dentre eles os das coleções SciELO.
8 Os periódicos podem estar indexados em mais de uma base, por essa razão, o total resultante da soma dos periódicos incluídos nas bases é maior que o total de periódicos estudados.

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