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HortEnsiA: adaptação transcultural do Garden Resource, Education, and Environment Nexus e estudo fatorial de validação

HortEnsiA: cross-cultural adaptation of the Garden Resource, Education, and Environment Nexus and factorial validation study

Resumo

Introdução

As hortas escolares como ambiente educador, reconhecidamente, têm desempenhado importantes mudanças nas atitudes dos estudantes. Porém, apesar dos aspectos positivos já descritos, não há no Brasil um instrumento que avalie a adesão da escola às propostas da horta escolar.

Objetivo

O presente estudo objetivou traduzir, adaptar transculturalmente e validar o instrumento Garden Resource, Education, and Environment Nexus (GREEN), após autorização da autora Kate Gardner Burt.

Método

O processo de operacionalização da adaptação transcultural baseou-se nos procedimentos sugeridos pela Organização Mundial da Saúde. O estudo psicométrico foi realizado por Análise Fatorial Exploratória.

Resultados

O instrumento traduzido e adaptado transculturalmente foi respondido por 123 servidores de 93 escolas do município do Rio de Janeiro. Ao longo do processo da adaptação transcultural do instrumento original em inglês “GREEN”, foi criado o constructo “HortEnsiA” (Horta, Ensino e Ambiente).

Conclusão

A avaliação psicométrica aponta a necessidade de uma melhor organização da gestão e das atividades sociais ligadas à horta na escola. A partir da participação de técnicos agrícolas na construção e aplicação do instrumento “HortEnsiA”, observou-se que a presença desses profissionais pode contribuir para a otimização da implementação e uso da horta como ambiente educador.

Palavras-chave:
horta; escola; questionário; validação

Abstract

Background

School gardens as an educational environment, admittedly, have played important changes in the attitudes of students. However, despite the positive aspects of the implementation of school gardens are recognized, there is no instrument in Brazil to assess school adherence to the proposal.

Objective

This study aimed to carry out the cross-cultural adaptation of the Garden Resource, Education, and Environment Nexus (“GREEN”) tool, and to validating it for the Brazilian reality.

Method

The process of operationalizing of cross-cultural adaptation was based on the procedures suggested by the WHO. The psychometric study was carried out by exploratory factor analysis.

Results

The translated and cross-culturally adapted tool was applied to 125 civil servant respondents from 93 schools in the city of Rio de Janeiro. Throughout the process of transcultural adaptation of the original English “GREEN” tool, the “HortEnsiA” construct was created and properly adapted to Brazilian Portuguese.

Conclusion

The psychometric assessment points to a better organization of management and social activities related to the school garden at school. It was observed that the participation of agricultural technicians in the construction and application of the “HortEnsiA” tool can contribute to optimize the use of the school garden as an educational environment in the Brazilian reality.

Keywords:
green garden; school; questionary; validation

INTRODUÇÃO

A definição do termo “horta escolar” se dá de acordo com os seus objetivos. A “horta pedagógica” objetiva integrar um programa educativo coordenado e previamente estabelecido, além de contribuir para a integração dos conteúdos das disciplinas tradicionalmente oferecidas. A “horta de produção” visa complementar a alimentação escolar ao fornecer hortaliças e frutas, permitindo uma alimentação saudável. Quando a horta na escola objetiva atender aos objetivos anteriores, ela é denominada “horta mista”11 Brasil. Ministério da Saúde. Manual para escolas - HORTA: a escola promovendo hábitos alimentares saudáveis. Brasília: FUNSAUDE/ Departamento de Nutrição com o Departamento de Política de Alimentação e Nutrição, Secretaria de Políticas de Saúde do Ministério da Saúde; 2001..

A horta escolar é reconhecida como uma das estratégias capazes de apresentar resultados positivos para a promoção da alimentação saudável, uma vez que: sua existência e aplicação adequadas podem estar associadas a uma série de benefícios para o desenvolvimento infantil, com repercussões na vida adulta, já a horta pode oferecer uma oportunidade prática de conexão entre alimentos, ambiente e comunidade, além de ser um instrumento de participação e mobilização social, o qual aborda várias dimensões escolares, integrando diferentes aspectos que contribuem para a formação integral dos alunos e do próprio ambiente escolar, exercendo uma forma de educação na qual os estudantes podem ver o resultado das suas ações e decisões22 Brasil. Portaria Interministerial nº 1.010, de 8 de maio de 2006. Institui 110 as diretrizes para a promoção da alimentação saudável nas escolas de educação infantil, fundamental e nível médio das redes públicas e privadas, em âmbito nacional. Diário Oficial da União, Brasília, 9 maio de 2006..

Professores de escolas com hortas implementadas destacam como benéficas as mudanças nas atitudes das crianças não só em relação à alimentação, mas também no que se refere à maior consciência ambiental, ao espírito de comunidade, ao trabalho em equipe, à autoconfiança, ao voluntarismo e às habilidades motoras33 Robinson-O’Brien R, Story M, Heim S. Impact of garden-based youth nutrition intervention programs: a review. J Am Diet Assoc. 2009;109(2):273-80. http://dx.doi.org/10.1016/j.jada.2008.10.051. PMid:19167954.
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,44 Gaglianone CP, Taddei JAAC, Colugnati FAB, Magalhães CG, Davanço GM, Macedo L, et al. Nutrition education in public elementary schools of São Paulo, Brazil: the Reducing Risks of Illness and Death in Adulthood project. Rev Nutr. 2006;19(3):309-20. http://dx.doi.org/10.1590/S1415-52732006000300002.
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. Porém, um estudo brasileiro realizado com educadores e estudantes de oito escolas públicas de São Paulo verificou a ausência de apoio dos diretores e demais integrantes das escolas a essas ações55 Ozer EJ. The effects of school gardens on students and schools: conceptualization and considerations for maximizing healthy development. Health Educ Behav. 2007;34(6):846-63. http://dx.doi.org/10.1177/1090198106289002. PMid:16861584.
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, mostrando que nem todos percebem a importância desse tema. Não existem estudos que façam referência às hortas escolares no município do Rio de Janeiro, apesar de a Coordenadoria de Projetos de Extensão da Secretaria Municipal de Educação enfatizar a implantação e a manutenção das hortas nas escolas públicas do município, por considerá-las como um ambiente educador.

Com o intuito de criar referências para a implementação de um programa de hortas escolares bem integrado às demais atividades da escola, foram descritos três principais componentes a serem avaliados66 Burt KG, Koch P, Contento I. Development of the GREEN (Garden Resources, Education, and Environment Nexus) tool: an evidence-based model for school garden integration. J Acad Nutr Diet. 2017;117(10):1517-27.e4. http://dx.doi.org/10.1016/j.jand.2017.02.008. PMid:28389106.
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: 1) área física adequada para a horta e para as atividades a serem desenvolvidas; 2) inclusão do tema no currículo formal (incluindo o “fazer com as próprias mãos”); 3) envolvimento dos familiares, profissionais da escola e toda a comunidade. Anterior a esta proposta, não havia uma ferramenta para identificar o quanto a escola aderiu ao programa de horta escolar. Por esse motivo, Burt et al.66 Burt KG, Koch P, Contento I. Development of the GREEN (Garden Resources, Education, and Environment Nexus) tool: an evidence-based model for school garden integration. J Acad Nutr Diet. 2017;117(10):1517-27.e4. http://dx.doi.org/10.1016/j.jand.2017.02.008. PMid:28389106.
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desenvolveram um instrumento, aplicado em Nova Iorque, para avaliar a integração escola-horta (GREEN - Garden Resource, Education, and Environment Nexus), em que os componentes descritos por Ozer55 Ozer EJ. The effects of school gardens on students and schools: conceptualization and considerations for maximizing healthy development. Health Educ Behav. 2007;34(6):846-63. http://dx.doi.org/10.1177/1090198106289002. PMid:16861584.
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foram considerados em quatro domínios: Recursos e apoio, Área física, Vivência dos estudantes e Comunidade escolar.

No Brasil, cerca de 40% das escolas possuem hortas77 Massarani FA, Citelli M, Canella DS, Koury JC. Healthy eating promoting in a Brazilian sports-oriented school: a pilot study. PeerJ. 2019;7(59):e7601. http://dx.doi.org/10.7717/peerj.7601. PMid:31523523.
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, porém não há nenhum instrumento validado que avalie a adesão da escola à horta implementada, fato que dificulta a avaliação de programas que promovem instalação e manutenção de hortas e/ou jardins nas escolas como meio de melhorar não só a qualidade da alimentação dos estudantes, como observado por Massarani et al.77 Massarani FA, Citelli M, Canella DS, Koury JC. Healthy eating promoting in a Brazilian sports-oriented school: a pilot study. PeerJ. 2019;7(59):e7601. http://dx.doi.org/10.7717/peerj.7601. PMid:31523523.
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, mas também o aprendizado e a convivência88 World Health Organization. Process of translation and adaptationof instruments [Internet]. Geneva: WHO; 2015 [citado em 2020 Jun 1]. Disponível em: http://www.who.int/substance_abuse/research_tools/translation/en/
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. Por este motivo, o presente estudo visa traduzir, adaptar transculturalmente e validar o instrumento GREEN. Esse instrumento não possui versão em português e não foi validado para a realidade brasileira. As principais vantagens do seu uso são: a forma de distribuição de questões relevantes para diversos fatores que podem influenciar o uso da horta como ambiente educador e ser um único instrumento simples e autoaplicável, facilitando sua utilização em grandes grupos.

MÉTODOS

O presente estudo foi realizado no município do Rio de Janeiro e contou com o apoio da Coordenadoria de Projetos de Extensão da Secretaria Municipal de Educação, sendo desenvolvido em quatro etapas: adaptação transcultural, aplicação do instrumento, validação de constructo e caracterização das escolas. Participaram: técnicos agrícolas (n = 13), professores ligados à área de Nutrição (n = 4) e professores ligados à área de Educação (n = 3). As escolas participantes eram da 1ª a 11ª Coordenadoria Regional de Educação (CRE) (n = 93). Cada coordenadoria é responsável pelas políticas relacionadas às suas regiões geográficas específicas, tendo como principais objetivos: coordenar, orientar e supervisionar escolas oferecendo suporte de recursos humanos, administrativos e pedagógicos para a viabilização das políticas da secretaria.

O processo de operacionalização da adaptação transcultural foi fundamentado nos procedimentos sugeridos pela OMS99 Field AP. Discovering statistics using SPSS. 6th ed. Los Angeles: SAGE Publications; 2009. Exploratory factor analysis. Chapter 17.. O uso do instrumento GREEN foi autorizado pela autora Kate Gardner Burt. O estudo psicométrico foi realizado por Análise Fatorial Exploratória (AFE).

Adaptação transcultural

O estudo semântico foi realizado segundo a orientação da OMS99 Field AP. Discovering statistics using SPSS. 6th ed. Los Angeles: SAGE Publications; 2009. Exploratory factor analysis. Chapter 17.. O processo de adaptação transcultural consistiu no cumprimento do protocolo preestabelecido, composto por cinco etapas: tradução; painel de especialistas; retrotradução; pré-teste e entrevista cognitiva; versão final.

O foco deste método está centrado no estabelecimento das equivalências conceituais e transculturais, em detrimento da literal/linguística. A sequência seguida, está brevemente descrita abaixo:

1) Tradução: foi realizada por um tradutor profissional, com experiência com termos da área em questão e com a mesma língua materna que a da cultura-alvo, no caso o português (Brasil). Isso ocorreu na tentativa de assegurar que o instrumento em adaptação incorporasse linguagem adequada ao público de destino, reduzindo possíveis falhas na comunicação;

2) Painel de especialistas: com o objetivo de reparar possíveis problemas linguísticos, o instrumento traduzido foi apresentado a especialistas para adequação de palavras, expressões, conceitos inadequados ou imprecisos. Desta fase participaram cinco professores que dominavam as duas línguas envolvidas na adaptação do instrumento, participaram da etapa de tradução do instrumento original e possuíam conhecimento sobre conceitos de saúde e construção de instrumentos;

3) Retrotradução: foi realizada por empresa especializada em tradução, com tradutores independentes que possuíam como língua materna a do instrumento original (inglês) e desconheciam o objeto a ser retraduzido. Nesta etapa, os esforços se concentraram no estabelecimento das equivalências conceitual e cultural. As discrepâncias entre as duas versões foram discutidas entre os pares, e a etapa, repetida três vezes, até que o comitê assumiu que a versão final era satisfatória porque atingiu o nível de qualidade desejado;

4) Pré-teste e entrevista cognitiva: desta fase participaram 13 professores da rede municipal de ensino e técnicos agrícolas com experiência na área em questão, todos maiores de 18 anos. Durante esta fase, foi solicitado que os participantes informassem as palavras e/ou expressões consideradas impróprias ou inaceitáveis e sugerissem termos alternativos para as modificações necessárias.

5) Versão final: produto decorrente de todas as interações descritas, destinado à aplicação nas escolas.

Aplicação do instrumento traduzido

O instrumento traduzido e adaptado transculturalmente foi aplicado em 123 respondentes servidores de 93 escolas do município do Rio de Janeiro, as quais contemplam todas as CREs. As respostas de acordo com a função dos participantes (Administração ou Ensino), considerando os domínios propostos pelo instrumento GREEN, foram comparadas aplicando o teste t-independente.

Estudo psicométrico

Os pressupostos teóricos utilizados66 Burt KG, Koch P, Contento I. Development of the GREEN (Garden Resources, Education, and Environment Nexus) tool: an evidence-based model for school garden integration. J Acad Nutr Diet. 2017;117(10):1517-27.e4. http://dx.doi.org/10.1016/j.jand.2017.02.008. PMid:28389106.
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para a elaboração do constructo “HortEnsiA” permitiram conceituá-lo com a feição: “hortas escolares como ambiente educador”. Esse conceito foi desenvolvido durante a reunião destinada ao cumprimento da equivalência operacional99 Field AP. Discovering statistics using SPSS. 6th ed. Los Angeles: SAGE Publications; 2009. Exploratory factor analysis. Chapter 17., pré-teste e entrevista cognitiva, realizada na primeira fase do presente estudo.

A validade do constructo foi realizada por meio da Análise Fatorial Explanatória. O teste Kaiser-Mayer-Olkin (KMO) foi estimado para avaliar a adequação da amostra para análise fatorial, utilizando o ponto de corte ≥ 0,501010 Brown TA. Confirmatory factor analysis for applied research. New York: The Guilford Press; 2006., sendo considerado como excelentes os valores > 0,801111 Hair JF Jr, Black WC, Babin BJ, Anderson RE & Tatham RL. Análise multivariada de dados. 6ª ed. Porto Alegre: Bookman; 2009..

A estrutura fatorial exploratória do constructo “HortEnsiA” foi verificada por meio da Análise de Componentes Principais (ACP). A fim de estabelecer o número de componentes, optou-se pela regra Kaiser-Guttman, que recomenda que autovalores (eigenvalues) sejam > 1. Uma vez definido o número de componentes, deu-se continuidade à análise utilizando-se da Análise de Fator Principal (AFP), tendo como estimador a razão de verossimilhança - likelihood ratio (LR). Analogamente à ACP, foi utilizada a regra Kaiser-Guttman, que, neste caso, permite identificar o possível número de dimensões do constructo. Ao modelo restrito a n fatores, foi aplicado o método de rotação oblíqua Promax. A matriz de entrada e a matriz padrão (saída) foram geradas e examinadas. Além disso, as cargas fatoriais foram analisadas segundo o critério de nível mínimo para a interpretação da estrutura fatorial ≥ 0,50, uma vez que são tidas como significantes (σ = 0,05) para amostras de tamanho igual a 1201212 Bonfim CB, Santos DN, Menezes IG, Reichenheim ME, Barreto ML. Um estudo sobre a validade de constructo da Parent-Child Conflict Tactics Scale (CTSPC) em uma amostra populacional urbana do Nordeste brasileiro. Cad Saude Publica. 2011;27(11):2215-26. http://dx.doi.org/10.1590/S0102-311X2011001100015. PMid:22124499.
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. Cargas fatoriais negativas indicam associações inversas. Foram consideradas variáveis com cargas cruzadas aquelas com cargas fatoriais similares em dois ou mais fatores em uma mesma variável e cuja diferença entre as cargas fosse < 0,101313 Maroco J. Análise de equações estruturais: fundamentos teóricos, software & aplicações. Pêro Pinheiro: Report Number; 2010.. A variância do erro (uniqueness) (1 - comunalidade) foi considerada adequada quando ≤ 0,701111 Hair JF Jr, Black WC, Babin BJ, Anderson RE & Tatham RL. Análise multivariada de dados. 6ª ed. Porto Alegre: Bookman; 2009.,1212 Bonfim CB, Santos DN, Menezes IG, Reichenheim ME, Barreto ML. Um estudo sobre a validade de constructo da Parent-Child Conflict Tactics Scale (CTSPC) em uma amostra populacional urbana do Nordeste brasileiro. Cad Saude Publica. 2011;27(11):2215-26. http://dx.doi.org/10.1590/S0102-311X2011001100015. PMid:22124499.
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.

A comunalidade é um índice útil para avaliar o quanto de variância em dada variável é explicado pela solução fatorial. Valores de comunalidades expressivos indicam que uma grande quantidade de variância em uma variável foi extraída pela solução fatorial. As comunalidades com menores valores mostram que uma grande parte da variância de uma variável não é explicada pela estrutura fatorial1111 Hair JF Jr, Black WC, Babin BJ, Anderson RE & Tatham RL. Análise multivariada de dados. 6ª ed. Porto Alegre: Bookman; 2009.. Comunalidades com valores < 0,50 não têm explicação suficiente para representar a quantidade de variância explicada pela solução fatorial1212 Bonfim CB, Santos DN, Menezes IG, Reichenheim ME, Barreto ML. Um estudo sobre a validade de constructo da Parent-Child Conflict Tactics Scale (CTSPC) em uma amostra populacional urbana do Nordeste brasileiro. Cad Saude Publica. 2011;27(11):2215-26. http://dx.doi.org/10.1590/S0102-311X2011001100015. PMid:22124499.
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.

A validade fatorial convergente foi avaliada pela Variância Média Extraída (VME), a qual representa o percentual médio de variação explicada pelas variáveis referentes ao constructo, variando entre 0 e 1. Valores de VME ≥ 0,50 sugerem que os itens compartilham de elevada variância em comum22 Brasil. Portaria Interministerial nº 1.010, de 8 de maio de 2006. Institui 110 as diretrizes para a promoção da alimentação saudável nas escolas de educação infantil, fundamental e nível médio das redes públicas e privadas, em âmbito nacional. Diário Oficial da União, Brasília, 9 maio de 2006..

A validade fatorial discriminante é dada pela comparação entre a raiz quadrada da VME do fator e as correlações com outros fatores do sistema. Se a raiz quadrada da VME de um fator for maior do que as correlações entre este e os demais fatores, a referida validade discriminante será confirmada1111 Hair JF Jr, Black WC, Babin BJ, Anderson RE & Tatham RL. Análise multivariada de dados. 6ª ed. Porto Alegre: Bookman; 2009.,1313 Maroco J. Análise de equações estruturais: fundamentos teóricos, software & aplicações. Pêro Pinheiro: Report Number; 2010..

Para a verificação da consistência interna de cada dimensão, foram utilizados o alfa de Cronbach e seus intervalos de confiança (IC = 95%), sendo considerado para pesquisas exploratórias valor aceitável de 0,601313 Maroco J. Análise de equações estruturais: fundamentos teóricos, software & aplicações. Pêro Pinheiro: Report Number; 2010.. Para o cálculo do intervalo de confiança, foi empregado o método bootstrap com 5.000 replicações.

As análises foram realizadas no software STATA/SE 12.

Avaliação das escolas

Para caracterizar as escolas que participaram do estudo, foi aplicado o sistema de escore proposto por Burt et al.66 Burt KG, Koch P, Contento I. Development of the GREEN (Garden Resources, Education, and Environment Nexus) tool: an evidence-based model for school garden integration. J Acad Nutr Diet. 2017;117(10):1517-27.e4. http://dx.doi.org/10.1016/j.jand.2017.02.008. PMid:28389106.
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, que estabelece o somatório dos escores por dimensões, classificando a adesão da escola à horta como: pouca integração = 0 a 19; integração moderada = 19 a 38; muita integração = 38 a 57 pontos. Foi testada a normalidade dos dados utilizando o teste de Kolmogorov-Smirnov, assim como realizada a análise descritiva das variáveis por meio de medidas de frequência relativa. Adicionalmente, a partir da pontuação obtida pelas escolas, foram calculados os valores para os percentis 25, 50 e 75 com o intuito de explorar possíveis novos pontos de corte.

RESULTADOS

As sugestões e alterações de termos e expressões do instrumento original foram consideradas após: a comparação das traduções, a reunião com os especialistas e a retrotradução. A redefinição de alguns termos ocorreu em função de expressões com certo grau de dificuldade para a tradução ou de pouco uso habitual no idioma português (Brasil) e foi baseada em ampla discussão. Os processos de tradução, retrotradução e adaptação podem ser visualizados resumidamente no Quadro 1. As principais alterações ocorreram nos domínios A1, A3 e A5.

Quadro 1
Aplicação da equivalência semântica e modificações realizadas na versão em português do questionário GREEN, após consulta com os especialistas (n = 13) e retrotradução do questionário

A1 Domínio: Recursos e apoio

  • gardening (tradução: jardinagem): optou-se por empregar horta/jardim para que as escolas que não possuem horta, mas que tratam o jardim para alcançar alguns objetivos da implementação da horta, possam ser atendidas;

  • funding (tradução: financiamento): uso do termo “financiamento” em ambiente público poderia causar distorções na relação público e privado, além de haver restrições legais para a entrada de recursos externos na escola, por isso optou-se pelo termo “estratégias para obtenção de recursos”;

  • funds (tradução: fundos): o termo “recursos” foi citado pelos usuários como mais abrangente;

  • money left over from previous years (tradução: recurso financeiro que sobrou de anos anteriores): nas escolas municipais não há sobra de recursos de um ano para outro.

A3 Domínio: Apoio administrativo

  • mental (tradução: mental): aplicação do termo “incentivo moral”, incluído o termo “de gestão”.

A5 Domínio: Estrutura organizacional

Inserido para melhor compreensão dos usuários: O(s) gestor(es) responsável(is) pela tomada de decisão(ões) [aquele(s) que determina(m) como o programa de horta/jardim escolar será implementado e desenvolvido].

  • garden committee (tradução: comitê de jardinagem): empregado o termo “gestores da horta/jardim”;

  • gardeners (tradução: jardineiro): este termo foi excluído, pois não foi considerado adequado para indivíduos que não são necessariamente jardineiros, mas que se propõem a ajudar.

Após todo o processo, não foram observadas diferenças semânticas entre as versões no idioma português (Brasil), assim como na comparação da versão traduzida e retrotraduzida para o idioma inglês.

Resultados do estudo psicométrico

A média dos pontos de acordo com os domínios do instrumento GREEN, distribuindo os participantes como “Administração” (50,4%) ou “Ensino” (51,2%) (n = 123), é apresentada na Tabela 1. Foram observadas menores pontuações no grupo “Ensino” do que no grupo “Administração, nos domínios A, B e C (P = 0,01), tendo uma tendência à similaridade entre os grupos no domínio D (P + 0,051).

Tabela 1
Distribuição dos pontos de acordo com os domínios do instrumento GREEN, considerando os participantes como “Administração” ou “Ensino” (n = 123)

A Tabela 2 permite observar a frequência (%) da pontuação dos participantes de acordo com a classificação da interação (baixa, moderada e elevada) horta/jardim e escola, considerando os itens da escala de domínios do instrumento GREEN (n = 123). Os participantes que classificaram a interação horta/jardim e escola como “baixa” (0 a 19 pontos) apresentaram maior frequência da menor pontuação (1 ponto) nos domínios: A1 (Orçamento e financiamento) e A2 (Redes e organizações parceiras). Os que classificaram a interação como “moderada” (20 a 38 pontos) apresentaram maior frequência da pontuação moderada (2 pontos) nos domínios: A4 (Desenvolvimento profissional), B1 (Planejando e estabelecendo o espaço físico), B2 (Cuidado e manutenção da horta/jardim), B3 (Característica física), B4 (Vitalidade e diversidade dos cultivos), B5 (Avaliação e comentários), C3 (Atividades), C4 (Comprometimento), D1 (Voluntariado e envolvimento parental) e D2 (Eventos sociais). Aqueles que julgaram a interação horta/jardim e escola como elevada (39 a 57 pontos) apresentaram maior frequência da pontuação máxima (3 pontos) nos domínios: A3 (Apoio administrativo), A5 (Estrutura organizacional), C2 (Tempo utilizado na horta/jardim), C4 (Comprometimento) e D3 (Ambiente alimentar).

Tabela 2
Frequência da pontuação nos domínios de acordo com a classificação da interação horta/jardim-escola do instrumento “GREEN” (n = 123)

O teste Kaiser-Meyer-Olkin (KMO) mostrou adequação do tamanho da amostra para análise fatorial. A maioria das variáveis alcançou valores superiores a 0,80, com exceção de “Apoio administrativo” e “Estrutura organizacional”, com valores próximos ao anterior (0,77).

A ACP indicou quatro componentes, com os autovalores: componente 1 = 6,34; componente 2 = 1,61; componente 3 = 1,25; componente 4 = 0,91.

Os resultados da ACP e as razões teóricas66 Burt KG, Koch P, Contento I. Development of the GREEN (Garden Resources, Education, and Environment Nexus) tool: an evidence-based model for school garden integration. J Acad Nutr Diet. 2017;117(10):1517-27.e4. http://dx.doi.org/10.1016/j.jand.2017.02.008. PMid:28389106.
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indicaram o estudo como dois modelos:Modelo 1 e Modelo 2, constrangidos a quatro e três fatores, respectivamente, com rotação oblíqua Promax, tendo em vista que o componente C4 (Comprometimento) apresentou valor aproximado de 1.

O Modelo 1, constrangido a quatro fatores, abriga no Fator 1 as variáveis “Orçamento e financiamento”, “Redes e organizações parceiras”, “Desenvolvimento profissional” e “Característica física”. Ressalte-se que a primeira se apresentou com carga fatorial no limiar do ponto de corte (0,5219) e variância do erro elevada (0,7722). No Fator 2, estão alocadas as variáveis “Atividades-ações”, “Comprometimento” e “Oportunidade de aprendizagem”, com cargas fatoriais expressivas e variância do erro relativamente baixas. O Fator 3 foi formado unicamente pela variável “Voluntariado e envolvimento”, mas sua carga fatorial muito expressiva (0,8805) justifica uma dimensão no cenário da estrutura fatorial do constructo “HortEnsiA”. No Fator 4, ficaram as variáveis “Apoio administrativo” e “Estrutura organizacional”, com cargas fatoriais também expressivas. A estimativa das cargas fatoriais do Modelo 1 indicou excluir as variáveis “Planejando e estabelecendo o espaço físico”, “Cuidado e manutenção da horta”, “Vitalidade e diversidade dos cultivos”, “Conexão com o currículo”, “Degustação” e “Eventos sociais”, as quais apresentaram cargas cruzadas.

O Modelo 2, constrangido a três fatores, abriga no Fator 1 as variáveis “Atividades-ações” e “Oportunidade de aprendizagem”, com cargas fatoriais expressivas. Estas variáveis fazem parte do Fator 2 no Modelo 1, o qual também recebe a variável “Comprometimento”. No Fator 2, neste Modelo 2, constam as variáveis “Orçamento e financiamento”, “Redes e organizações parceiras”, “Desenvolvimento profissional” e “Características físicas”, com cargas fatoriais adequadas. No entanto, a variável “Orçamento e financiamento”, semelhante ao Modelo 1, apresentou variância de erro muito expressiva (0,7702). No Fator 3, com cargas fatoriais expressivas, alocaram-se as variáveis “Apoio administrativo e “Estrutura organizacional”. O Modelo 2 apresentou cinco variáveis variáveis com carga cruzada: o: “Vitalidade e diversidade dos cultivos”, “Conexão com o currículo”, “Degustação”, “Eventos sociais” e “Ambiente alimentar”. Neste modelo, as variáveis “Planejando e estabelecendo o espaço físico” e “Cuidado e manutenção da horta” não apresentaram cargas fatoriais para representar a estrutura fatorial do constructo “HortEnsiA” (Tabela 3).

Tabela 3
Comunalidade, validade fatorial convergente, validade discriminante, correlação entre fatores, confiabilidade (alfa de Cronbach) do Modelo 1, constrangido a quatro fatores, com rotação oblíqua Promax, relativo ao estudo exploratório “HortEnsiA”, Rio de Janeiro, RJ, 2020

Embora a alocação das variáveis nos fatores no Modelo 2 apresentem razões teóricas subjacentes para corroborar seu êxito, as evidências de mensuração permitem inferir que o Modelo 1 é mais parcimonioso.

Analisando a estrutura fatorial dos Modelos 1 e 2, infere-se que o Modelo 1 se apresenta mais congruente com a teoria que embasa o constructo “HortEnsiA”. O cenário apresentado no Modelo 1 permite nomear os fatores, explicitando as dimensões: Fator 1- dimensão: Gestão estratégica; Fator 2- dimensão: Experiência dos estudantes; Fator 3- dimensão: Comunidade escolar; Fator 4- dimensão: Cenário de gestão.

As comunalidades das variáveis “Orçamento e financiamento” (0,2780), “Planejando e estabelecendo o espaço físico” (0,2128) e “Conexão com o currículo” (0,1416) apresentaram comunalidades com valores muito baixos, mostrando não ter explicação suficiente para revelar a latência do constructo “HortEnsiA”, influenciando os valores da validade fatorial convergente, a qual não foi alcançada (Tabela 3).

A maioria dos fatores alcançou a validade discriminante das dimensões nomeadas no presente estudo, exceto o Fator 4 (Cenário de gestão), o qual abriga as variáveis “Apoio administrativo” e “Estrutura organizacional” (Tabela 3).

O cenário de confiabilidade apresentou-se adequado para os Fatores 1, 2, 4 e para o total do instrumento. Considerando o limite inferior do intervalo de confiança (IC = 95%) do Modelo 1, apenas o Fator1 apresentou-se mais frágil (Tabela 3).

Avaliação das escolas

A classificação das escolas, de acordo com os critérios propostos no instrumento GREEN1414 Ottoni IC, Domene SMA, Bandoni DH. Educação alimentar e nutricional em escolas: uma visão do Brasil. DEMETRA. 2019;14:e38748. http://dx.doi.org/10.12957/demetra.2019.38748.
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, mostrou que 4,8% das escolas apresentavam pouca integração horta-escola, 65,6%, média integração, e 29,6%, muita integração.

O teste de Kolmogorov-Smirnov mostrou distribuição normal dos pontos obtidos pela aplicação do questionário. A fim de ajustar a proposta ao cenário do presente estudo, considerando os valores de pontuação obtidos pelas escolas nos percentis 25, 50 e 75, foram encontrados os seguintes valores: 30, 35 e 39 pontos, respectivamente. Ao classificar-se novamente a pontuação empregando esses valores como pontos de corte para moderada e muita integração, observou-se que: 24% das escolas apresentavam pouca integração, 31,2%, média integração, e 44,8%, muita integração.

DISCUSSÃO

As atividades propostas pelas hortas escolares são consideradas como um possível método para promover alimentação saudável, e as atividades integradas com o conteúdo das disciplinas e o envolvimento dos profissionais da escola e dos pais ou responsáveis podem contribuir para que os estudantes melhorem seus hábitos alimentares1515 Berezowitz CK, Bontrager Yoder AB, Schoeller DA. School gardens enhance academic performance and dietary outcomes in children. J Sch Health. 2015;85(8):508-18. http://dx.doi.org/10.1111/josh.12278. PMid:26149306.
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. O uso das hortas escolares não é uma novidade no Brasil. A Portaria Interministerial de 2006 (no 1.010) institui diretrizes para promover hábitos alimentares saudáveis na escola, definindo a implementação da horta como uma prioridade1616 Brasil. Ministério da Educação. Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação. Programa Nacional de Alimentação Escolar. Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação. Mapeamento do processo: implantação e implementação do Projeto Educando com a Horta Escolar. Brasília; 2010.. Além desse documento, o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) do Ministério da Educação, em parceria com a Food and Agriculture Organization of the United Nations (FAO), estimulou projetos que objetivem incorporar hábitos alimentares saudáveis e sustentabilidade ambiental como práticas pedagógicas1717 Berezowitz CK, Bontrager Yoder AB, Schoeller DA. School gardens enhance academic performance and dietary outcomes in children. J Sch Health. 2015;85(8):508-18. http://dx.doi.org/10.1111/josh.12278. PMid:26149306.
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. Porém, para o nosso conhecimento, somente um instrumento1414 Ottoni IC, Domene SMA, Bandoni DH. Educação alimentar e nutricional em escolas: uma visão do Brasil. DEMETRA. 2019;14:e38748. http://dx.doi.org/10.12957/demetra.2019.38748.
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visa avaliar a adesão da escola à horta, seguindo critérios como: o conteúdo das disciplinas, a participação dos profissionais da escola e dos responsáveis pelos estudantes. Como o instrumento está redigido em inglês, sua ampla utilização é dificultada, sendo necessária uma adaptação transcultural.

Os instrumentos de avaliação adaptados transculturalmente devem passar por inúmeras etapas que permitam seu uso em uma versão final, em local diferente daquele em que foi construído, respeitando um novo contexto. Porém, este deve assumir as características psicométricas do instrumento original1818 Reichenheim ME, Moraes CL. Operacionalização de adaptação transcultural de instrumentos de aferição usados em epidemiologia. Rev Saude Publica. 2007;41(4):665-73. http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89102006005000035. PMid:17589768.
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. O presente estudo foi dividido em duas etapas: a primeira propõe a adaptação transcultural, e a segunda, a validação do instrumento “HortEnsiA” seguindo o de referência GREEN77 Massarani FA, Citelli M, Canella DS, Koury JC. Healthy eating promoting in a Brazilian sports-oriented school: a pilot study. PeerJ. 2019;7(59):e7601. http://dx.doi.org/10.7717/peerj.7601. PMid:31523523.
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, que visa definir a interação das escolas com a horta escolar.

No presente estudo, o instrumento original passou pela tradução e retrotradução, as quais foram avaliadas por diferentes especialistas da área até alcançar a versão final. Em poucas situações, a correspondência literal de alguns termos pareceu descontextualizada, por isso foram empregadas palavras que garantissem a compreensão de usuários do instrumento. A avaliação dos técnicos agrícolas que participaram da construção e aplicação do instrumento “HortEnsiA” foi de que poucas dificuldades foram identificadas, as quais foram sanadas no instrumento final.

Este é o primeiro estudo a propor uma abordagem avaliativa da implementação de hortas escolares no município do Rio de Janeiro. A partir da comparação da estrutura fatorial do questionário original (GREEN)77 Massarani FA, Citelli M, Canella DS, Koury JC. Healthy eating promoting in a Brazilian sports-oriented school: a pilot study. PeerJ. 2019;7(59):e7601. http://dx.doi.org/10.7717/peerj.7601. PMid:31523523.
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com a desenhada no presente estudo (HortEnsiA), foi possível observar que a variável “Características físicas”, alocada na dimensão “Jardim físico” na versão original, agregou-se à dimensão “Gestão estratégica” (Fator 1). Diferentemente do modelo original77 Massarani FA, Citelli M, Canella DS, Koury JC. Healthy eating promoting in a Brazilian sports-oriented school: a pilot study. PeerJ. 2019;7(59):e7601. http://dx.doi.org/10.7717/peerj.7601. PMid:31523523.
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, os resultados desta pesquisa dividem a dimensão A, “Recursos e apoio”, do cenário GREEN em duas outras dimensões, “Gestão estratégica” (Fator 1) e “Cenário de gestão” (Fator 4), o que leva a crer que exista uma fragilidade da gestão em relação às hortas escolares no município do Rio de Janeiro. Por consequência, a variável “Estrutura física”, que depende de uma visão mais diretiva por melhorias de infraestrutura, migrou para a dimensão “Gestão estratégica” como uma possível resposta da vivência dos professores envolvidos no sistema “HortEnsiA”.

É interessante frisar que a variável “Voluntariado e envolvimento parental” no novo modelo representa de forma única a dimensão “Comunidade escolar”, levando a crer que, no cenário em estudo, as variáveis “Eventos sociais e Ambiente alimentar” não têm sido habitualmente adotadas como estratégias de envolvimento no programa de hortas escolares no município do Rio de Janeiro.

As variáveis “Apoio administrativo” e “Estrutura organizacional”, alocadas originalmente na dimensão A, “Recursos e apoio”, tomaram tal importância, que, na visão dos respondentes envolvidos na horta, seria exigida outra dimensão, ora denominada “Cenário de gestão”. Mais uma vez se pode inferir pela fragilidade da gestão das escolas estudadas com a horta em relação ao modelo “GREEN” original. É importante destacar que as variáveis “Planejamento e estabelecimento de espaço físico”, “Cuidado e manutenção da horta” e “Vitalidade e diversidade de cultivo” não alcançaram cargas fatoriais que justificassem sua presença no modelo para explicar o constructo “HortEnsiA”, podendo ser considerado um sinal de fragilidade nas estratégias de gestão aplicadas no cenário em estudo.

Na dimensão C, “Experiência dos estudantes”, nomeada igualmente nos modelos “GREEN” e “HortEnsiA”, foram valorizadas pelos respondentes as variáveis “Ações realizadas pelos estudantes no jardim”, “Comprometimento” e “Oportunidade de aprendizagem”. Porém, a ausência das variáveis “Conexão com o currículo” e “Degustação” permitiu considerar que o programa de horta escolar, na verdade, não faz parte integral das atividades curriculares; e mais, que aulas com atividades culinárias com uso dos alimentos colhidos nas hortas não fazem parte da rotina escolar, considerando o currículo de forma mais ampla. Embora as variáveis “Planejamento e estabelecimento de espaço físico”, “Cuidado e manutenção da horta” e “Vitalidade e diversidade de cultivo” não tenham atingido cargas fatoriais que as incluíssem no modelo “HortEnsiA”, são pontos importantes para os técnicos agrícolas e podem ser considerados como aspectos determinantes para o sucesso do sistema “HortEnsiA”, devendo ser incluídos em futuras abordagens. Essas afirmativas foram ratificadas pela análise de frequência da pontuação nos domínios de acordo com a classificação da interação horta/jardim-escola do instrumento “GREEN”. Em resumo, segundo os respondentes, as escolas têm competência para implantar e manter as hortas, mas o incentivo financeiro, as redes e as parcerias não colaboram para a maior adesão das escolas à horta. Essas afirmativas ficaram também demonstradas na estrutura fatorial do modelo “HortEnsiA”, quando comparado ao modelo “GREEN”.

Os índices psicométricos obtidos durante a análise de dados pela AFE mostraram evidências de validade discriminante, mas a validade convergente apresentou-se menos parcimoniosa. Este achado pode ter sido consequência da não inclusão de algumas variáveis no modelo “HortEnsiA”, como discutido anteriormente. No entanto, a confiabilidade avaliada pelo alfa de Cronbach (estimativa de ponto) mostrou consistência interna das dimensões da estrutura fatorial modelada, considerando-se pesquisa exploratória1313 Maroco J. Análise de equações estruturais: fundamentos teóricos, software & aplicações. Pêro Pinheiro: Report Number; 2010.. Estes achados indicam a possibilidade do uso do novo instrumento denominado “HortEnsiA” para a avaliação da interação da escola com a horta em escolas brasileiras. Deve-se ressaltar que o conjunto de participantes foi composto por escolas que apresentam diferenças em seus espaços físicos e áreas geográficas, o que pode ter contribuído para produzir fragilidades apontadas nas dimensões referentes ao perfil de gestão.

Em conclusão, a adaptação transcultural do instrumento “GREEN” para ser usado em português como “HortEnsiA” foi adequada. A avaliação psicométrica aponta para uma melhor organização de gestão e de atividades sociais ligadas à horta na escola. A partir da participação de técnicos agrícolas na construção e aplicação do instrumento “HortEnsiA”, observou-se que a presença desses profissionais pode contribuir para otimizar o uso da horta como ambiente educador dentro da realidade brasileira.

A iniciativa da aplicação do instrumento “HortEnsiA” pode partir de qualquer membro da comunidade escolar que esteja diretamente ligado à horta, que conheça suas dificuldades e benefícios e garanta que a avaliação será empregada para atender a demandas dos usuários. O instrumento “HortEnsiA” é o primeiro a estabelecer componentes críticos para integrar e organizar uma horta escolar. Não existe um único ou “correto” modelo de horta escolar; os componentes podem ser operacionalizados de maneiras diferentes para produzir um modelo bem integrado entre escola e horta.

AGRADECIMENTOS

Os autores agradecem aos técnicos agrícolas, pela participação na elaboração e aplicação dos questionários; à Coordenação de Aperfeiçoamento de Nível Superior - Brasil (CAPES) - Código de financiamento 001; à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ) - processo E-26/110.119/2013; e à designer Carolina Correa Koury do Valle, pelo desenvolvimento do logotipo.

  • Como citar: Koury JC, José MER, Carvalho AB, Canella DS, Lanzillotti HS. HortEnsiA: adaptação transcultural do Garden Resource, Education, and Environment Nexus e estudo fatorial de validação. Cad Saúde Colet, 2023; Ahead of Print. https://doi.org/10.1590/1414-462X202331010159
  • Trabalho realizado no Instituto de Nutrição da Universidade do Estado do Rio de Janeiro - Rio de Janeiro (RJ), Brasil.
  • Fonte de financiamento: Coordenação de Aperfeiçoamento de Nível Superior - Brasil (CAPES) - Código de financiamento 001, e a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro - FAPERJ [processo E-26/110.119/2013]. Os financiadores não exerceram qualquer influência sobre o desenho de estudo, coleta e análise de dados, decisão de publicação ou redação do manuscrito.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    13 Fev 2023
  • Data do Fascículo
    2023

Histórico

  • Recebido
    01 Jun 2020
  • Aceito
    20 Fev 2021
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