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Revista Katálysis

On-line version ISSN 1982-0259

Rev. katálysis vol.21 no.2 Florianópolis May/Aug. 2018

http://dx.doi.org/10.1590/1982-02592018v21n2p336 

ESPAÇO TEMÁTICO: FRONTEIRA, MIGRAÇÕES, DIREITOS SOCIAIS E SERVIÇO SOCIAL

Planos migratórios na Cracolândia de São Paulo na década de 1990

Migratory Plans in Cracolândia of São Paulo in the 1990s

1 Universidade Federal do ABC, Programa de Pós-Graduação em Ciências Humanas e Sociais, São Bernardo do Campo, SP, Brasil (UFABC)

Resumo

O presente artigo tem como intenção apresentar o tema migração na Cracolândia de São Paulo, partindo de resultados quantitativos em comparação com as trajetórias e utilizando a metodologia da história social em conjunto com a história oral. Para a realização deste trabalho, partiu-se da seguinte questão: o quadro de vulnerabilidade social e de frustração com o plano imigratório dos migrantes na Cracolândia foi acarretado mediante a dependência química ou é resultado das circunstâncias por eles encontradas na cidade de São Paulo? De acordo com os resultados da pesquisa percebe-se que a dependência química é apenas um entre vários fatores, não sendo possível responsabilizar apenas o consumo de drogas como responsável pela frustração dos planos migratórios. As questões apresentadas neste trabalho são audaciosas, no entanto, não buscam responder às trajetórias de vidas na Cracolândia, o que seria contra as inúmeras dinâmicas existentes no fluxo.

Palavras-chave: Cracolândia; Decepção; Migração; Plano; Trajetória

Abstract

The purpose of this article is to present the theme of migration at Cracolândia in the city of São Paulo. This is the name of a downtown region with a high concentration of crack addicts. The study is based on quantitative data, a comparison of trajectories and uses the social history and oral history methodologies. The study began with the question: was the situation of social vulnerability and frustration with the immigration plan of migrants in Cracolândia brought about by narcotic dependence or is it the result of circumstances they encountered in the city of São Paulo? The study found that chemical dependence is only one of various factors, and cannot be held solely responsible for the frustration of migratory plans. The issues presented in this study are audacious, however, they do not aim to fully explain the life trajectories of the people interviewed in Cracolândia, which would go against the countless dynamics existing in the flow.

Keywords: Cracolândia; Deception; Migration; Plan; Trajectory

Introdução

Embora a Cracolândia de São Paulo seja um assunto abordado constantemente pela mídia, é perceptível a construção de uma imagem desumanizada dos sujeitos ali inseridos. Suas trajetórias, histórias, sentimentos, emoções, desejos em muitos casos são anulados e reduzidos apenas ao uso abusivo de drogas. Esta lógica reverte-se em violência sobre a imagem destes sujeitos e legitima a violência física por eles sofrida. Porém, a existência destas pessoas ultrapassa o uso abusivo de drogas, apresentando seres humanos dotados de histórias e de toda complexidade abrigada pela a vida em sociedade.

Este artigo tem como objeto de pesquisa o sujeito migrante encontrado na Cracolândia. Foi possível traçar os perfis de quatro dessas pessoas por meio de entrevistas, para assim, obter algumas respostas às perguntas que motivaram esta pesquisa, tais como: o quadro de vulnerabilidade social e de frustração com o plano imigratório por parte dos migrantes encontrados na Cracolândia foi acarretado mediante a dependência química ou é resultado das circunstâncias por eles encontradas na cidade de São Paulo na década de 1990? A dependência química é causa ou resultado do desgosto com os planos migratórios? Com o aporte destas perguntas é possível compreender o processo vivido por alguns desses migrantes até a Cracolândia.

Para a produção deste artigo, foram empregadas a história social e a história oral como metodologia. Ainda que tenha havido muita dificuldade para a realização de tal abordagem, a história oral desempenhou o papel de tratar a questão proposta por este artigo, ajudando na melhor compreensão da vida, do cotidiano e da memória dos migrantes e procurando relacionar as construções peculiares, as dinâmicas da vida e da organização em sociedade. Seguindo uma busca por romper com qualquer tipo de generalização (DELGADO, 2006), é possível entender os significados das suas experiências, da vida, tradições e culturas inseridas na própria Cracolândia, relativizando conceitos e pressupostos.

Paul Thompson articula sobre a contribuição da história oral aplicada como metodologia de pesquisa:

[...] a história oral pode dar grande contribuição para o resgate da memória nacional, mostrando-se um método bastante promissor para a realização de pesquisa em diferentes áreas. É preciso preservar a memória física e espacial, como também descobrir e valorizar a memória do homem. A memória de um pode ser a memória de muitos, possibilitando a evidência dos fatos coletivos. (THOMPSON, 1992, p. 17).

A utilização da história oral como ferramenta possibilitou conhecer mais sobre o objeto de estudo. A oralidade é indispensável para a realização da pesquisa sobre vertentes teóricas na área da história social, destacando a memória espacial. As entrevistas aqui são apenas uma pequena parte das memórias de vários sujeitos, mas ao mesmo tempo é a memória de muitos do coletivo que envolve a Cracolândia.

As entrevistas foram realizadas com pessoas entre 40 e 55 anos que migraram nos anos 1990. Todas as três entrevistas abordaram o tema migração. Os nomes dessas pessoas foram alterados como uma forma de preservar suas identidades.

A década de 1990: migração e o desemprego

Os temas Cracolândia e imigração são contíguos, porém, não se pode correr o risco de delegar aos imigrantes a existência da Cracolândia, ou o que ela seja, decorrente de planos imigratórios frustrados. Mas, a proposta deste artigo é entender como ocorreu a trajetória desses imigrantes na cidade de São Paulo na década de 90 e o que os levou a estarem na Cracolândia.

O Brasil entrou na década de 1990 com muitos problemas econômicos para serem resolvidos com a alta da inflação, a desvalorização da moeda, a falta de poder de compra, o desemprego, a desigualdade social e a péssima distribuição de renda sendo os principais problemas que se apresentavam para a recente democracia brasileira (FAUSTO, 2013; CARVALHO, 2016). As migrações de regiões mais pobres estão associadas a processos imigratórios de inclusão e exclusão. A cidade de São Paulo durante um longo período foi um lugar de atração para muitos migrantes, mas na década de 1990 este processo já havia chegado a uma saturação, algo que possibilitou, por exemplo, o estabelecimento de outras redes migratórias com variados destinos.

Segundo Baeninger (2005), as migrações de outras regiões do Brasil na década de 1990 para a cidade de São Paulo ainda eram comuns principalmente por conta da memória histórica que se estabeleceu com o tempo. Porém, muitos outros migrantes já fixados na cidade, por conta do desemprego e das condições vividas, passaram a se deslocar para outras regiões, como a grande São Paulo. A cidade de São Paulo passa a ser um lugar de entradas e saídas constantes, mas continua sendo o maior polo de recepção de imigração.

A década de 1990 também é considerada como a década do retorno, com muitos migrantes retornando aos seus locais de origem por conta das dificuldades e adversidades. As cidades passaram por uma reestruturação produtiva pertencente a uma lógica de competição entre os espaços urbanos e as consequências são a redução da necessidade de mão de obra não qualificada, a expulsão de categorias humanas indesejáveis e a busca da migração de mão de obra qualificada. Harvey (1992, p. 267) indica que na acumulação flexível o que acontece é a expulsão dos indesejáveis e a busca dos desejáveis, ou seja, os qualificados para a produção capitalista que se utiliza tanto da migração como do desemprego como forma de gerar a competição espacial, caracterizando tanto o desemprego, tanto em São Paulo como em outras regiões, e o incentivo à migração como processos inerentes ao modo de produção capitalista.

Cracolândia e migração

De acordo com o Levantamento do Perfil de Usuários de Drogas na Região da Cracolândia, pesquisa solicitada pela Coordenadoria de Políticas sobre Drogas (COED) e pela Secretaria de Desenvolvimento Social do Estado de São Paulo e realizada pela Consultora do Programa de Desenvolvimentos das Nações Unidas (PNUD), das 1861 pessoas na Cracolândia em 2017, quase a metade eram migrantes.

Os dados obtidos pela pesquisa indicam que em 2017 cerca de 11,76% dos usuários de crack migraram do interior do estado de São Paulo; já o número de pessoas que migraram de outros Estados brasileiros é de 30,88%. Foram também divulgados dados de pessoas procedentes de outros países, totalizando 2,94%.

A somatória geral de migrantes na região da Cracolândia de São Paulo é de 45,58%; o que corresponde quase à metade das pessoas encontradas na Cracolândia no ano de 2017.

Outra condição que afeta os integrantes da Cracolândia é a impossibilidade de auxílio vindo de familiares e amigos. De acordo com a pesquisa, cerca de 59,8% dos integrantes da Cracolândia, mesmo que desejassem, estão impossibilitados de retornarem para suas terras de origem e 44% não possuem contato com suas famílias. Diante destes números, de tantas explicações possíveis a respeito da Cracolândia e do uso abusivo de drogas, é possível observar a frustração dos imigrantes em relação à terra de destino. As dificuldades encontradas e a impossibilidade de execução do plano imigratório são questões que marcaram a vida dessas pessoas, sendo o uso abusivo de drogas apenas um dos problemas de suas existências.

Fonte: Levantamento do Perfil de Usuários de Drogas na Região da Cracolândia (SÃO PAULO, 2017).

Gráfico 1 Procedência dos Dependentes Químicos na Região da Cracolândia 

Nas entrevistas empregadas nesta pesquisa é perceptível a força exercida pelas redes de migração sobre aqueles que desejam migrar. As redes podem ser variadas e são fontes de informações para aqueles que pretendem sair em busca de novas condições de vida e de trabalho. Por intermédio das redes são estabelecidos vínculos entre aqueles que se foram e os que ficaram. Em muitos casos, as informações veiculadas são interpretadas a partir de uma visão idealizada do lugar para o qual se deseja migrar. Os que ficam em seus locais de origem pressupõem a realidade do seu lugar de destino a partir dos exemplos que aos seus ouvidos chegam por meio das redes, produzindo verdades absolutas acerca do local de destino nos quais grupos locais passam a acreditar.

Os exemplos dos migrantes que regressam com histórias de êxitos e possibilidades propõem facilidades de execução dos planos migratórios que criam na comunidade local, similarmente, o impulso de partir em busca de melhores condições. Os que regressam para visitar seus parentes e familiares tornam-se referências vivas, visíveis e com forte capacidade de convencimento acerca dos benefícios provenientes da migração.

Aplicadas aos fenômenos migratórios, aposta-se que as redes fornecem contextos sociais de referência para o indivíduo que deseja emigrar, tornando-se assim um instrumento valioso para estudar a ação social, já que elas são capazes de condicionar comportamentos (TRUZZI, 2008, p. 208).

Desta forma, as redes aplicam-se como um instrumento de testemunho vivo do sucesso migratório. Por meio de exemplos de regressos são produzidas a esperança, as expectativas e as estratégias de execução dos planos de migração e de possibilidades de alcançar os objetivos com a migração (SAYAD, 1998, 2000). Joaquim1 migrou do Ceará para São Paulo em 1979 com a intenção de lograr melhores condições de vida. Com apenas 17 anos, como ele mesmo diz, veio “com a cara e a coragem” para São Paulo sem estabelecer previamente nenhum contato na cidade. No entanto, o que o motivou a tomar a inciativa de migrar foram as redes que se formaram por intermédio dos regressos de São Paulo:

Eu ouvia falar que São Paulo era bom né. Todo mundo estava vindo para São Paulo trabalhando arrumando emprego. Passava dois ou três anos, o cara ia para o norte e chegava lá com dinheiro isso e aquilo outro. Aí o pessoal falava: filho de fulano está bem lá. Aí eu pensei, eu também vou para esse lugar. Todo mundo busca dinheiro lá, já é fácil assim eu vou também né. Eu vou para lá também pegar dinheiro lá. Mas, quando eu cheguei aqui já estava, a crise estava feia viu. Já não tinha o dinheiro que o pessoal pensava que tinha não. (JOAQUIM, 55 anos).

É perceptível que as redes se alimentam a partir de experiências migratórias bem-sucedidas, sendo que esta é a forma como exerce sua força sobre as comunidades locais. Neste ponto, é necessário lembrar que todo ato de migração é motivado pela esperança. Sendo assim, as redes não podem ser apresentadas com a possibilidade do insucesso. Foram essas experiências bem-sucedidas apresentadas pelas redes que motivaram Joaquim, e outros como ele, a migrar de regiões rurais para grandes centros urbanos. Impulsionados pela pobreza local, os migrantes esperam alcançar através do trabalho e do esforço próprio melhores condições de vida. Como já foi mencionado anteriormente, esta prática é incentivada como uma ação inerente ao próprio sistema capitalista.

As redes são fenômenos sociais que podem ser construídos de diversas formas. Um outro exemplo de rede social são os jornais que hoje vêm perdendo cada vez mais espaço para a Internet. No caso a seguir, apresentamos André2, baiano de 45 anos que veio para São Paulo também motivado a encontrar trabalho. Por meio do anúncio de classificados de emprego ele ficou sabendo da vaga de cozinheiro em São Paulo.

Eu vim trabalhar... opá ...1,2,3,4 pera aí daqui a pouco você pergunta.... Eu vim para São Paulo foi, teve um anúncio que vi no jornal: “precisa-se de cozinheiro”. (ANDRÉ, 45 anos).

Os relatos apresentados até aqui fazem parte de um conceito de migração interna com motivações econômicas (ROCHA-TRINDADE, 1995). São categorizadas por deslocamento de regiões agrárias em direção a grandes centros industriais do mesmo Estado-Nação. Geralmente são tratados na bibliografia como fenômenos de êxodo rural:

No caso da mudança definitiva de residência, enquadra-se frequentemente o fenômeno no concorrente designado por êxodo rural, traduzindo o abandono dos campos por parte de uma população que visa uma reconversão da sua atividade, preferivelmente em meio urbano. (ROCHA-TRINDADE, 1995, p. 61).

A migração interna por motivações econômicas tem como finalidade o trabalho que possibilita melhores condições de vida para o migrante e sua família. Este tipo de migração interna não visa uma estadia momentânea, mas permanecer tempo suficiente para estabelecer e finalizar os objetivos que o motivaram a migrar. Nos planos migratórios apresentados identificam-se características similares a esta definição de Rocha-Trindade. Sucessivamente, a possibilidade de regresso está sempre presente, sendo o regresso mais um a alimentar as redes com sua experiência migratória.

O deslocamento de várias pessoas de diferentes estados brasileiros para São Paulo foi comum na história do Brasil durante anos e ainda existem alguns casos. Esses deslocamentos eram motivados pelos altos investimentos na indústria paulistana pelo Estado brasileiro, como um processo inerente ao desenvolvimento do capitalismo no Brasil. Por meio desses investimentos, a cidade de São Paulo alimentava sua economia, criando demandas migratórias e expectativas para aqueles que migravam desde a época de Vargas.

[...] a política trabalhista de Getúlio Vargas que regulamentava algumas reivindicações do operariado, entre elas o salário mínimo. Os salários nas áreas urbanas eram um atrativo à migração inter-regional, pois os ganhos salariais, apesar da legislação federal, eram e são diferenciados. Outro fator significativo é a política migratória, em 1930, para a qual Getúlio Vargas propõe uma lei de cotas, que desestimula a imigração externa. (GOMES, 2006, p. 145).

A cidade de São Paulo passou a ser o ponto de chegada de muitos migrantes que tinham como objetivo construir suas vidas na cidade. Porém, o que muitas pessoas encontravam no final da década de 1990 na cidade de São Paulo era totalmente diferente das condições de anos anteriores. A violência era enorme na periferia, local de destino de muitos desses migrantes. A violência causada pelo desemprego e pela desigualdade social consumia (e ainda consome) a cidade de São Paulo, assim como analisado por Gabriel Feltran:

O desemprego estrutural que chegou a 22% na Região Metropolitana de São Paulo no final de 1990, a informalização dos mercados e as altíssimas taxas de lucro das atividades ilegais elevaram os índices de criminalidade violenta. O controle desses mercados emergentes gerava corrida armamentista e uma guerra aberta nas periferias. (FELTRAN, 2012, p. 238-239).

Gabriel Feltran demonstra o que foi vivenciado por Joaquim em sua chegada a São Paulo. Joaquim, ainda adolescente, apenas com 17, motivado pela esperança, procurou por emprego e oportunidades na cidade de São Paulo, mas a realidade por ele encontrada era totalmente diferente do que se esperava. Desempregado acabou indo morar na rua e por fim conheceu a dependência química:

É, foi o desemprego, na época surgiu o desemprego, ficou difícil de arrumar emprego, aí se sabe, a gente na rua parado, não arruma coisa boa só coisa ruim que veio para a gente, né: bebida, droga o que não falta na rua é isso. O processo foi assim, né meu, eu fiquei desempregado, procurando serviço e não encontrava quando saia dali eu andava, andava e andava... parava naquelas praças e encontrava o pessoal bebendo. Ali já começava a bater um papo, um chegava com uma garrafa de pinga e o outro com um cigarro de maconha. Íamos bebendo, fumando e trocando ideia de repente me afundei bastante e quando dei fé já estava envolvido dos pés à cabeça no mundo das drogas. (JOAQUIM).

Após alguns anos, Joaquim conheceu o crack por meio de amigos que falavam constantemente da droga. O que levou Joaquim às ruas não foi a droga, mas o desemprego. O sentimento de frustração, a falta de condição de se sustentar causou a sua marginalidade. A dependência química foi apenas consequência da marginalização, levando-o ao seu primeiro contato com o crack:

Eu conheci o crack por volta de 1989 na Cracolândia, logo quando chegou. Foi uma curiosidade enorme, todo mundo fumando e eu queria fumar também aí comprei e fumei. Gostei e o bagulho é loco viu. A Cracolândia era completamente diferente, funcionava mais maconha e farinha e depois que surgiu o crack que empesteou tudo mesmo. (JOAQUIM).

O desemprego frustrou o plano migratório de Joaquim e seus planos de estabilidade financeira e econômica. Algo muito similar ocorreu com André. Ele não utilizava drogas antes de chegar a São Paulo. Até se manteve um tempo estável, mas logo o desemprego o levou para a rua. Segundo o Levantamento do Perfil de Usuários de Drogas na Região da Cracolândia, 33,58% dos dependentes químicos na região da Cracolândia estavam em situação de rua antes de fazerem uso de drogas.

A condição de marginalidade, pobreza e dependência química afeta a vida das pessoas de tal forma que muitas perdem o contato com suas famílias. André não estabelece contato com sua família há três anos, algo comum para muitos na Cracolândia. Novamente, o Levantamento do Perfil de Usuários de Drogas na Região da Cracolândia demonstra isso em números: 59,8% dos usuários não retornaram para suas casas após estarem em situação de rua.

Fonte: Levantamento do Perfil de Usuários de Drogas na Região da Cracolândia (SÃO PAULO, 2017).

Gráfico 2 Depois de mudar para esta Região, você retornou para sua casa? 

Não procurar familiares e amigos não significa não os ter e nem mesmo que a família não se importa. Mas é derivado da vergonha que as pessoas na Cracolândia sentem por conta da sua situação. Sentem vergonha da situação de rua, de dependência química, dívidas muitas vezes obtidas com familiares, histórias do passado, etc. Estes dados são relevantes e afetam a vida de todos na Cracolândia, mas significativamente afetam a vida do migrante de uma maneira diferente. Foi realizada a seguinte pergunta para dois dos entrevistados: “Por que você não entra em contato com a sua família?” A resposta foi a seguinte: “Como que volta depois que nada dá certo?” (ANDRÉ). Nesta perspectiva, como encarar uma comunidade que depositou uma determinada expectativa no seu plano migratório e não foram alcançadas as expectativas? A resposta de André contém esse tipo de questionamento a pergunta inicial.

Como mencionado anteriormente, o plano migratório prevê um retorno para seu lugar de origem. Mas este retorno deve demonstrar o sucesso do seu plano migratório por meio do que se conseguiu conquistar. O retorno glorioso faz parte do planejamento dos migrantes, e diante disto, a pergunta de André se torna ainda mais significativa. Já Fernando, mineiro de 55 anos, que chegou em São Paulo em 1985 e não tem contato com sua família há mais de 30 anos, afirma categoricamente que o motivo de não entrar em contato com sua família é a vergonha.

Fonte: Levantamento do Perfil de Usuários de Drogas na Região da Cracolândia (SÃO PAULO, 2017).

Gráfico 3 Número de dependentes químicos que perderam o contato com a família 

As falas e os números apresentados demonstram que estas pessoas vivem uma espécie de solidão. Por mais que a Cracolândia seja um lugar de convívio e de relações interpessoais, a solidão faz-se presente na existência destes sujeitos, principalmente daqueles que não têm com quem contar. O cientista social português José Machado Pais (2006) analisa a solidão de diferentes formas e sentidos e a que mais se assemelha com os relatos presentes neste artigo é a solidão da disjunção que é definida por ele como um sentimento recorrente da separação, mas sem deixar de estar próximo, podendo até estar perto de outras pessoas, mas não tendo nenhum tipo de laço afetivo.

Neste caso, o conceito de solidão refere-se a quem, por diferentes razões, é deixado a sós, mesmo estando acompanhado. Aliás, o sentimento de solidão é agudizado pelo facto de ser produto de rejeições compulsivas, embora sutis: A medida que a rejeição adquiriu aterradora regularidade de rotina diária, a solidão passou de infortúnio episódio a condição padrão. Esse sentimento de rejeição não é uma mera questão de baixo autoestima como concorrente se supõe, é sobretudo o reconhecimento da falta de compreensão por parte de quem dela mais reclama. (PAIS, 2006, p. 354).

Além do sentimento de solidão, em algumas trajetórias são visíveis marcas específicas do racismo que deixam rastros nas trajetórias de vida destas pessoas. Em um dos casos apresentados, André afirma não ter conseguido algumas dezenas de empregos por conta de ser negro, algo que sem dúvida marca, marginaliza, fere a autoestima e existência de todos aqueles que são vítimas deste crime:

Eu vim para São Paulo foi, teve um anúncio que vi no Jornal: ‘precisa-se de cozinheiro’. Por dinheiro não. Eu tenho diploma... não, professor de capoeira na minha... não, no meu bairro. Bairro Jardins...eu vi só o dinheiro, paga-se três mil porra... Era, não por que o cara era racista... eu vi o anúncio. Eu entreguei o anúncio na mão dele. E aí... ele falou ‘não tem mais vaga’. Quando eu saí para fora, estava os garçons tudo do lado de fora, estavam em horário de almoço. E ele falou sabe o que? Para mim, o garçom? ‘Não preencheu ainda não, ele só não gosta de negro.’ Sabe o que me deu vontade de fazer? [Respondeu torcendo uma lata que estava em suas mãos]. (ANDRÉ).

Desempregado, marginalizado, inserido em um lugar desconhecido, sem ninguém com quem contar é vítima do racismo. A condição em que se encontram as pessoas na Cracolândia não pode ser definida apenas pela dependência química, mas por uma junção de fatores sociais e econômicos que estão longes de serem solucionados (ADORNO et al., 2013).

Uma lembrança chama atenção no depoimento de André, a memória que insiste, ecoa como um grito que resiste. Esta é a memória que se mistura com a saudade e a solidão. Este é o lugar aonde a memória de André leva: “Já faz três anos, certo, irmão? Três anos nessa miséria sofrendo. Nunca percebi até hoje na minha vida e eu guardo aqui no meu coração o beijo de noite que dei na minha mãe”.

Nas entrevistas apresentadas, o uso abusivo de drogas não foi o responsável pela frustração dos planos migratórios, pela situação de risco e de rua. Mas, o uso abusivo de drogas foi a consequência da falta de expectativa de vida e da decepção com os planos construídos por estas pessoas. A droga apresentou-se após o desengano com o plano migratório e com a falta de oportunidades. São pessoas solitárias que em muitos casos não têm com quem contar na vida. São trajetórias marcadas pela violência, pelo racismo de raça e de classe, pelo abandono3, tanto pela família como pelo Estado. Estas pessoas estão inseridas em uma situação absoluta de risco, sendo que a dependência química acentua ainda mais esta fragilidade social. O racismo, a solidão e a vergonha são sentimentos presentes que marcam a existência dessas pessoas.

Considerações finais

Neste artigo foram apresentados alguns casos de migrantes na região da Cracolândia de São Paulo e, por meio destes, o objetivo foi traçar uma linha próxima entre a Cracolândia e os planos migratórios. Os dados apresentados do Levantamento do Perfil de Usuários de Drogas na Região da Cracolândia demonstraram que é possível construir problemas de pesquisa relacionando o tema Cracolândia e migração, já que o número de migrantes na região é significativo.

As fontes utilizadas apresentaram a possibilidade de responder às perguntas que motivaram a produção do artigo: O quadro de vulnerabilidade social e de frustração do plano migratório, dos migrantes na Cracolândia foi acarretado mediante a dependência química ou é resultado das circunstâncias por eles encontradas na cidade de São Paulo? A dependência química é causa ou resultado da decepção com o plano migratório? A partir das fontes orais, dos números apresentados e da bibliografia levantada é possível apontar que a situação de risco encontrada pelos indivíduos na Cracolândia não teve como procedência a dependência química, sendo que não é viável aplicar esse resultado a todos os sujeitos. Esta talvez possa não ser a realidade da maioria na Cracolândia, mas faz coro com a experiência de uma parte significativa e deve ser levada em consideração, pois, somente desta forma, a sociedade civil e a comunidade política (Organizações Não Governamentais (ONGs), poder público, assistentes sociais, educadores, políticos, etc.) serão capazes de propor soluções efetivas ao combate da desigualdade social, ao desemprego, à desesperança, e não às pessoas.

Por fim, o trabalho buscou analisar a possibilidade de uma pesquisa que abordasse os seguintes temas: frustração com planos migratórios, desigualdade social e Cracolândia. Os relatos apresentados até aqui demonstram como as histórias de vida destes migrantes foram marcadas pela falta de acesso ao emprego e a condições mínimas de vida que assolaram o Brasil na década de 1990.

Referências

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Notas

1Joaquim, homem, 55 anos de idade, nascido e crescido no Ceará. Durante 38 anos viveu no centro de São Paulo, fazendo uso abusivo de drogas. Esteve lá quando a região do centro de São Paulo ainda era conhecida como a Boca do Lixo e presenciou quando o crack apareceu nas ruas até o surgimento da Cracolândia.

2André, 45 anos, nascido na Bahia. Chegou em São Paulo aos 20 anos e está há três anos na Cracolândia.

3Esse abandono aqui mencionado pode ser tanto do dependente químico para com a família como o da família para com o dependente químico.

Agência financiadora Não se aplica.

Aprovação por Comitê de Ética e consentimento para participação Termo de livre consentimento assinado pelos entrevistados.

Consentimento para publicação Não se aplica (pois os dados pessoais dos sujeitos não são divulgados).

Received: September 19, 2017; Accepted: February 08, 2018

UFABC Alameda da Universidade, s/nº - Bairro Anchieta São Bernardo do Campo - São Paulo - Brasil CEP: 09.606-045

Ednan Silva Santos

ednan.santos@ufabc.edu.br ou ednansilva@hotmail.com Pós-graduação lato sensu em Filosofia e História Contemporânea pela Universidade Metodista de São Paulo Mestrando em Ciências Humanas e Sociais pela Universidade Federal do ABC (UFABC)

Contribuição dos autores

Não se aplica.

Conflito de interesses

Não há conflito de interesses.

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