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Ágora: Estudos em Teoria Psicanalítica

versão impressa ISSN 1516-1498

Ágora (Rio J.) vol.13 no.2 Rio de Janeiro dez. 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S1516-14982010000200011 

RESENHAS

 

Por uma clínica dos afetos

 

 

Andréa Barbosa de Albuquerque

Psicanalista. Doutora em Teoria Psicanalítica pelo IP-UFRJ; membro do Espaço Brasileiro de Estudos Psicanalíticos; psicóloga da Uerj. andreabalbuquerque@yahoo.com.br

 

 

Presença sensível: cuidado e criação na clínica psicanalítica, Daniel Kupermann. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008, 250 p.

Presença sensível reúne ensaios sobre psicanálise, abrangendo diferentes aspectos do ofício de analista: teoria, clínica, formação e inserção institucional. E está dividido em cinco partes: Formação do psicanalista; Clínica e metapsicologia; Trilogia ferencziana; Psicanálise, criação e cultura; e Psicanálise e educação. No horizonte de todos os ensaios, vislumbra-se a preocupação com os destinos possíveis da psicanálise no cenário contemporâneo.

Tratando-se de uma coletânea, cada ensaio pode ser lido independentemente dos outros. No entanto, a leitura em con-junto nos mostra haver uma recorrência de temas e questões que figuram ora como protagonistas, ora como coadjuvantes em cada ensaio, e indicam a consistência do percurso teórico, clínico e político do autor. O modo como Kupermann constrói sua argumentação nos vários ensaios deixa claro que, no campo psicanalítico, essas várias dimensões se encontram inextricavelmente entrelaçadas, amalgamadas por complexas relações transferenciais. A clínica se constitui experiência psicanalítica pelo arcabouço teórico que a sustenta; por sua vez, é a partir dessa experiência - com seus impasses, suas resistências - que são concebidas e redimensionadas as formulações teóricas necessárias à sua constituição. A dimensão política se expressa nas escolhas teóricas, na inserção institucional - dentro e fora do campo psicanalítico - e no modo singular como estas escolhas atravessam o exercício clínico, modulando-o.

Em "Transferências cruzadas", o movimento de institucionalização da psicanálise é problematizado tendo como fio condutor as questões referentes à formação do analista, destacando-se os impasses presentes em diferentes modelos de formação analítica ao longo da história da psicanálise. A dimensão transferencial, presente nas relações institucionais e em suas estratégias de poder, são colocadas em relevo, assim como seus efeitos nas diferentes propostas de formação do analista.

A clínica se faz presente ao se colocar em questão a análise didática e os possíveis efeitos no estilo clínico do analista decorrentes de sua formação. Com o conceito de transferência nômade, Kupermann defende o pluralismo no campo psicanalítico, seja no que se refere às instituições, seja no que diz respeito às escolhas teóricas.

A teoria que norteia a prática clínica é o tema dos cinco ensaios que compõem a segunda e a terceira partes do livro. O espaço concedido à clínica é justificado por Kupermann ao considerar excessiva, na produção teórica psicanalítica, a prevalência de discussões conceituais relativas à metapsicologia em detrimento de questões da prática clínica. A discussão central proposta pelo autor diz respeito à importância atribuída aos aspectos econômicos ao longo do processo analítico, em contraponto a um modelo clínico que, pautado na primeira tópica freudiana, privilegia a dimensão representacional no processo analítico.

"Dor e cura na constituição da clínica freudiana" introduz a discussão clínica. Revisitando os primeiros escritos de Freud sobre a clínica, Kupermann indica as transformações nas concepções freudianas acerca da dinâmica subjacente ao sofrimento psíquico e dos caminhos da cura.

Winnicott e Ferenczi são os autores a quem Kupermann recorre, em "Presença sensível", para desenvolver sua argumentação sobre o papel determinante dos afetos na cena analítica. A aproximação entre Ferenczi e Winnicott é realizada pelo modo como ambos os autores, cada um a seu modo, concebem a cena analítica como um espaço de jogo no qual os afetos que circulam entre analisando e analista constituem o principal recurso terapêutico. Nesta perspectiva, ressalta-se a importância da disponibilidade afetiva do analista na apreensão dos movimentos subjetivos do analisando para o curso do processo analítico. O destino dos afetos do analista no espaço analítico é colocado em foco ao se apresentarem as mudanças na técnica psicanalítica propostas por Ferenczi e, posteriormente, Winnicott, tendo como contraponto o conceito de transferência formulado por Freud no âmbito da primeira tópica.

"Trilogia ferencziana" apresenta, de forma sucinta e consistente, as principais contribuições teóricas e técnicas propostas por Ferenczi a partir dos impasses experimentados em sua clínica com os chamados 'pacientes difíceis'. A importância do pensamento de Ferenczi para a construção da clínica psicanalítica atual se faz particularmente visível se aproximarmos, como propõe Kupermann, as configurações subjetivas e as expressões de sofrimento predominantes na contemporaneidade aos 'casos difíceis' da clínica de Ferenczi. Nesta perspectiva, Kupermann destaca, da obra de Ferenczi, suas reflexões sobre o trauma e suas propostas de inovações técnicas, como a técnica ativa, o princípio do relaxamento, a análise de criança com adulto.

Ao privilegiar o "primeiro Freud" - anterior ao da Interpretação dos sonhos - assim como as contribuições de Winnicott e Ferenczi, Kupermann expressa algumas escolhas teóricas e políticas: a atenção ao sofrimento psíquico e aos impasses clínicos, em contraposição ao que considera "a cultura do teórico" ou "a supremacia do teorismo" (p.68); a afirmação da implicação afetiva do analista em contraposição a uma "neutralidade afetiva (...) em busca de um saber que só considera as representações" (p.79); a preocupação com a dimensão do cuidado na clínica.

Sublimação e criação são o tema dos dois ensaios que compõem a quarta parte do livro. Endossando a concepção de sublimação como "invenção permanente de novos objetos de satisfação erótica e recriação de si" (p.171), Kupermann coloca em questão o quanto o processo analítico pode favorecer - ou dificultar - o movimento criativo dos analisandos. Mais uma vez seu olhar se volta para o analista, indagando, com Ferenczi e Winnicott, acerca da implicação afetiva do analista nesta dinâmica, considerando, em particular, a experiência de desamparo que permeia os processos criativos.

Finalizando a coletânea, o ensaio "Afinal, o que fazer com o Juquinha" amplia as fronteiras da clínica, ao estabelecer um diálogo entre psicanálise e educação, tendo como fio condutor a questão da orientação sexual nas escolas.

A leitura desses ensaios, escritos ao longo de dez anos, permite-nos delinear a aposta do autor na construção do que denomina uma "clínica do sensível": uma prática em que a sensibilidade do analista se volta ao acolhimento do analisando, favorecendo a construção de um espaço compartilhado de circulação de afetos e palavras, propício ao afloramento de movimentos criativos.

 

 

Recebido em 1/7/2010.
Aprovado em 19/7/2010.