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Revista Brasileira de Zootecnia

Print version ISSN 1516-3598

R. Bras. Zootec. vol.28 no.3 Viçosa May/June 1999

http://dx.doi.org/10.1590/S1516-35981999000300013 

Exigência nutricional de metionina+cistina para galinhas poedeiras de ovos brancos e marrons, no segundo ciclo de produção. 1. características produtivas*

 

Nutritional requirements of methionine+cystine by white-egg and brown-egg layer hens in the second production cycle. 1. productive traits

 

 

Breno Augusto Campolina BarbosaI; Paulo Rubens SoaresII; Horacio Santiago RostagnoII; Martinho de Almeida e SilvaIII; Luiz Fernando Teixeira AlbinoII; Altair Soares das GraçasII

IZootecnista e Mestre em Zootecnia pela UFV
IIProfessor da Universidade Federal de Viçosa - Campus UFV - 36571-000 - Viçosa, MG
IIIProfessor da Universidade Estadual do Norte Fluminense - Campos dos Goitacazes, RJ

 

 


RESUMO

Um experimento foi realizado para estabelecer as exigências nutricionais de metionina+cistina (Met+Cis) por galinhas poedeiras de ovos brancos e marrons, no segundo ciclo de produção. Duzentas e vinte oito poedeiras Lohmann Selected Leghorn e 288 poedeiras Lohmann Brown submetidas à muda forçada na 76ª semana de idade foram usadas. Foi usado delineamento experimental inteiramente casualizado. Os tratamentos consistiram de duas marcas de poedeiras e seis níveis de metionina+cistina, com seis repetições e oito aves por unidade experimental. As aves foram alimentadas com ração basal contendo 2751 kcal EM/kg, 14,20% PB e 0,484% de metionina+cistina, suplementada com seis níveis de DL-metionina (0; 0,05; 0,10; 0,15; 0,20; e 0,25 %). Produção de ovos (%), massa de ovo (g/ave•dia), peso de ovo (g), conversão alimentar e consumo de ração (g/ave•dia) foram avaliados. As poedeiras leves apresentaram melhores índices de produção, massa de ovos e conversão alimentar e as semipesadas, maior peso dos ovos e consumo de ração. Os níveis crescentes de Met+Cis influenciaram produção e massa de ovos, peso médio dos ovos, consumo de ração, conversão alimentar. As exigências de metionina+cistina, estimadas por meio do modelo quadrático, foram 0,692 e 0,655%, para poedeiras de ovos brancos e marrons, respectivamente, que correspondem ao consumo diário por ave de 0,785 e 0,779 g de met+cis, respectivamente. Estes resultados eqüivalem a 0,649 e 0,612% de met+cis digestível, para poedeiras de ovos brancos e marrons, respectivamente.

Palavras-chave: exigência nutricional, metionina+cistina, poedeiras de ovos brancos e marrons, segundo ciclo de produção


ABSTRACT

An experiment was conducted to establish the nutritional requirements of methionine+cystine (Met+Cys) for white-egg and the brown-egg layers hens in the second production cycle. Two hundred and twenty eight Lohmann Selected Leghorn and 288 Lohmann Brown laying hens were submitted to forced molting at the 76 weeks of age, were used. A completely experimental randomized experimental design was used. The treatments consisted of two egg laying strains and six Meth+Cys levels, with six replicates and eight birds per experimental unit. The birds were fed a basal diet with 2,751 kcal ME/kg, 14.20% CP, and .484% methionine+cystine, supplemented with six levels of DL-methionine (0, .05, .10, .15, .20, and .25%). Egg production (%), egg mass (g/bird•day), egg weight, feed intake (g/bird•day) and feed:gain ratio were evaluated. The white-egg layer hens presented better production index, egg mass and feed:gain ratio, and the brown-egg layer hens, better egg weight and feed intake. The increasing levels of Meth+Cys influenced the production characteristics, egg mass, average egg weight, feed intake and feed:gain ratio. The methionine+cystine requirements, estimated by quadratic model, were .692 and .655% for white-egg and brown-egg layer hens, respectively, which correspond to a daily intake per hen of .785 and .779g of Meth+Cys, respectively. These results correspond to .649 and .612% of digestible met+cys for the white-egg and the brown-egg layer hens, respectively.

Key Words: nutritional requirement, methionine+cystine, white-egg and brown-egg layer hens, second production cycle


 

 

Introdução

A muda forçada, prática muito antiga, tem sido utilizada com o objetivo de reduzir os custos de substituição do plantel. MYANO (1993) cita que anualmente 22 milhões de aves são submetidos à muda forçada no Brasil.

OLIVEIRA (1993) relata que, além de existirem poucos estudos sobre níveis nutricionais para o segundo ciclo, as tabelas de exigência e os manuais de marcas comerciais não fazem menções das necessidades para o segundo ciclo de produção. Portanto, ROSTAGNO et al. (1996) sugerem que novas pesquisas sejam realizadas a fim de se obter melhor conhecimento das exigências de aves em segundo ciclo de postura. Essas aves tem taxas de produção menores e produzem ovos maiores, aumentando assim a perda de ovos, pois o peso da casca não se altera e fica mais frágil. Assim, são justificadas as preocupações com a qualidade externa dos ovos, principalmente no segundo ciclo de produção.

PETERSEN et al. (1983) sugerem a redução dos níveis de metionina com o objetivo de reduzir o peso dos ovos, diminuindo, assim, os problemas de qualidade externa dos ovos; a mesma afirmação é feita por OLIVEIRA (1992).

A proteína da ração é que mais onera seus custos. A utilização da proteína depende de vários fatores, entre eles a composição aminoacítica e a digestibilidade de seus aminoácidos. A formulação de ração com base apenas na proteína bruta pode induzir a dois erros, subestimar ou superestimar o conteúdo de aminoácidos da ração, podendo, assim, reduzir o desempenho dos animais e ainda onerar os custos da ração.

Com o advento da fabricação industrial de lisina (L-lisina.HCl) e metionina (DL-metionina), vários autores têm sugerido a redução do nível de proteína bruta em rações, suplementadas por aminoácidos sintéticos (BLAIR et al., 1976; WEERDEN e SCHUTTE, 1980; e CARMO, 1981).

Os avanços genéticos das poedeiras comerciais, que cada vez se tornam mais precoces e produtivas, têm exigido revisões constantes das necessidade nutricionais das aves, a fim de se estimarem, com maior precisão, suas exigências em aminoácidos.

Portanto, a presente pesquisa foi realizada com o objetivo de estimar as exigências de metionina+cistina, para poedeiras comerciais leves e semipesadas, no segundo ano de produção, no período de 82 a 97 semanas de idade.

 

Material e Métodos

O experimento foi realizado na seção de Avicultura do Departamento de Zootecnia, do Centro de Ciências Agrárias da Universidade Federal de Viçosa-MG, no período de 05 de março a 16 de setembro de 1996.

Foram utilizadas 576 poedeiras, submetidas à muda forçada na 76ª semana de idade, sendo 288 aves leves da marca comercial Lohmann Selected Leghorn (LSL) e 288 aves semipesadas da marca comercial Lohmann Brown (LB).

As aves foram alojadas durante o período de produção em galpão de postura, de 60 x 9 m, cercado apenas por telas em suas laterais, coberto com telhas de cerâmica em duas águas, com dois conjuntos de quatro fileiras de gaiolas convencionais cada, separadas por corredor central de 2 m, sendo utilizadas apenas duas fileiras centrais de um dos conjuntos. Durante o período de produção o fotoperíodo utilizado foi de 16,5 horas por dia.

Após proceder-se à muda forçada e antes de serem submetidas às rações experimentais, as aves foram distribuídas com a finalidade de se padronizarem o peso corporal e a produção de ovos. Posteriormente, passaram por um período de sete dias de adaptação à ração experimental, seguindo-se o período experimental, que teve a duração de 16 semanas.

As aves tiveram água à vontade em bebedouros de calha de alumínio tipo V, estando este acima do comedouro.

A temperatura do ar e a umidade relativa foram mensuradas por meio de termômetros de máxima e mínima e termohigrômetro, respectivamente, instalados dentro do galpão à altura das aves. As temperaturas médias e absolutas e a umidade relativa do ar registradas durante o período experimental são apresentadas na Tabela 1.

 

 

No início do período experimental as aves tinham 82 semanas de idade, correspondendo à 5ª semana após o início da postura pós-muda forçada, as aves leves nesta data tinham taxa de postura de 83,19% e as aves semipesadas, 78,34%.

Foi utilizado o delineamento experimental inteiramente casualisado, com seis repetições e duas marcas comerciais de poedeiras, com oito aves por unidade experimental.

Os tratamentos consistiram de ração basal com 14,20% de proteína bruta (PB), suplementada com seis níveis de DL-metionina 99% (0,00; 0,05; 0,10; 0,15; 0,20; e 0,25%), resultando em rações com 0,484; 0,534; 0,584; 0,634; 0,684; e 0,734% de metionina+cistina.

A ração basal (Tabela 2) foi formulada à base de milho e farelo de soja, para conter 2751 kcal de EM/kg, 14,20% de PB, 0,234% de metionina e 0,484% de metionina+cistina, formulada de modo a satisfazer às exigências nutricionais mínimas, exceto em metionina+cistina, segundo as recomendações de ROSTAGNO (1990).

 

 

Na suplementação de metionina foi utilizada DL-metionina com 99% de pureza, em substituição ao amido de milho, ficando, dessa forma, todas as rações isoprotéicas e isocalóricas em relação as rações basais, com total de 14,2% de PB. As rações foram fornecidas à vontade durante todo o período experimental.

As características avaliadas foram produção de ovos, massa de ovo, peso médio dos ovos, consumo de ração e conversão alimentar.

Os dados obtidos foram submetidos à análise estatística, utilizando-se o programa SAEG, desenvolvido por EUCLYDES (1983).

 

Resultados e Discussão

Foi observada diferença significativa (P<0,05) entre médias de produção de ovos das poedeiras leves e semipesadas, alimentadas com diferentes níveis de metionina+cistina na ração, sendo 78,06 para poedeiras leves e 71,18% para as poedeiras semipesadas. Os níveis de metionina+cistina também influenciaram a produção de ovos (P<0,05), sendo que as aves que receberam suplementação de metionina apresentaram melhores índices de produção em relação às não-suplementadas.

NARVÁEZ SOLARTE (1996), em caso semelhante, atribuiu a menor produção de ovos das aves sem suplementação de metionina à deficiência deste aminoácido. Por sua vez, a redução da produção de ovos nos maiores níveis de metionina+cistina foi atribuída ao aumento excessivo deste na ração, promovendo, assim, imbalanço dos demais aminoácidos, como sugerem HARPER (1956) e HARPER et al. (1970). SCHUTTE et al. (1983) também observaram diminuição na taxa de postura, quando aumentaram o nível de metionina acima do normal. Esta afirmação não ficou evidente nos resultados encontrados e não explica consistentemente os resultados.

NARVÁEZ SOLARTE (1996) verificou efeito da marca comercial (P<0,05) sobre esta característica, sendo que as poedeiras leves mostraram-se superiores às poedeiras semipesadas, com médias de massa de ovo diária de 52,09 e 47,06 g, respectivamente.

Foi verificado efeito quadrático (P<0,05) dos níveis de metionina+cistina sobre a massa de ovo, para as duas marcas comerciais, como pode ser observado na Figura 2.

 

 

 

CALDERON e JENSEN (1990) e NARVÁEZ SOLARTE (1996) relatam também resultados semelhantes em aves alimentadas com rações à base de milho e farelo de soja, suplementadas com metionina+cistina, quando comparadas às alimentadas com rações que não receberam suplementação. Estes resultados, contudo, diferem dos encontrados por SCHUTTE et al. (1983), que não verificaram maior massa de ovo, utilizando diferentes níveis de metionina+cistina.

Para a característica peso médio dos ovos, as poedeiras semipesadas apresentaram maior peso médio (67,08 g) que o das poedeiras leves (66,10 g).

Observou-se efeito quadrático (P<0,05) dos níveis de metionina+cistina sobre o peso médios dos ovos, independente da marca comercial das poedeiras, como pode ser observado na Figura 3.

 

 

Estes resultados estão de acordo com os encontrados por HARMS e RUSSEL (1993), SCHUTTE et al. (1994) e NARVÁEZ SOLARTE (1996), os quais relatam que a suplementação de metionina+cistina na ração influenciou positivamente o peso médio dos ovos. RODRIGUES et al. (1995), utilizando poedeiras de segundo ciclo, também obtiveram maiores pesos médios de ovos para aves que receberam maiores níveis de metionina+cistina. Petersen et al. (1983) obtiveram resultados semelhantes e sugeriram o controle da ingestão de metionina+cistina para controle do peso médio dos ovos.

Foi observada diferença significativa (P<0,05) entre o consumo de ração para as marcas comerciais leve e semipesada, que apresentaram consumos médio de 113,42 e 116,21 g/ave/dia, respectivamente.

O consumo de ração não foi influenciado significativamente pelos níveis de metionina+cistina, para a marca comercial semipesada. Para a marca comercial leve, observou-se efeito quadrático (P<0,05) dos níveis de metionina+cistina, conforme Figura 4.

 

 

 

COLNAGO et al. (1985) não verificaram diferença no consumo de poedeiras leves, no segundo ciclo de produção, alimentadas com rações contendo diferentes níveis de metionina+cistina.

Por sua vez, WALDROUP e HELLWING (1995) encontraram que as aves que receberam o menor nível de metionina+cistina apresentaram menor consumo de ração, diferindo dos resultados obtidos por SCHUTTE et al. (1994), em que as aves que receberam o menor e maior nível de metionina+cistina apresentaram maior consumo.

Os maiores consumos foram observados no nível de 0,634%, para poedeiras semipesadas, com consumo diário por ave de 121 g. Para poedeiras leves, o maior consumo foi observado nas aves que receberam ração contendo 0,584% de metionina+cistina, com consumo diário por ave de 116 g. Estes resultados eqüivalem ao consumo de 16,56 g de PB/dia/ave para poedeiras leves e 17,42 g de PB/ave/dia para poedeiras semipesadas.

NARVÁEZ SOLARTE (1996) concluíram que o maior consumo de ração das aves que receberam rações com níveis mais baixos de metionina+cistina é explicado pela ação reguladora do consumo pela metionina, proposta por CHEE e POLIN (1978), em função da variação da magnitude dos níveis de metionina+cistina, produzindo imbalanço aminoacítico, alterando o perfil aminoacítico plasmático do animal e ativando os mecanismos reguladores do apetite.

A diminuição do consumo das aves que receberam ração com níveis mais baixos de metionina+cistina causou redução no consumo de proteína bruta e do próprio aminoácido, agravando possível deficiência de metionina+cistina.

Houve efeito significativo (P<0,05) da marca comercial sobre a conversão alimentar. As poedeiras semipesadas apresentaram média superior às poedeiras leves, sendo 2,250 para conversão alimentar g de ração/g de ovos produzidos para poedeiras leves e 2,428 para poedeiras semipesadas.

Houve efeito quadrático (P<0,05) dos níveis de metionina+cistina sobre a conversão alimentar expressa em g de ração/g de ovos produzidos pelas aves de ambas as marcas comerciais, sendo as melhores conversões observadas nas aves que tiveram suplementação de metionina+cistina na ração.

Estes resultados de melhoria na conversão alimentar são semelhantes aos encontrados por SCHUTTE et al. (1983), KUANA et al. (1988) RODRIGUES et al. (1996) e NARVÁEZ SOLARTE et al. (1996). Este efeito deve-se ao melhor equilíbrio aminoacítico da ração.

 

Tabela 3 - Clique para ampliar

 

Tabela 4 - Clique para ampliar

 

Na Tabela 5, são apresentadas as equações de predição das exigências nutricionais em metionina+cistina, determinadas por regressão quadrática, visando melhor produção e massa de ovo, peso médio de ovos e conversão alimentar.

Na Tabela 6, é apresentado o resumo das exigências nutricionais em metionina+cistina total, digestível e exigência em mg/dia, para algumas características produtivas.

A exigência de metionina+cistina digestível verdadeira foi estimada por meio da metionina+cistina total e da digestibilidade verdadeira da metionina+cistina, segundo ROSTAGNO et al. (1996).

Considerando as respostas de desempenho das poedeiras e as características avaliadas, respeitando-se o ajuste estatístico, bem como a interpretação biológica, pode-se sugerir, para poedeiras no segundo ciclo de produção de 82 a 97 semanas de idade, exigência de 0,692 e 0,655% de metionina+cistina na ração, correspondendo a consumo diário de 782 e 760 mg de metionina+cistina/ave/dia, para poedeiras leves e semipesadas, respectivamente.

Em termos de metionina+cistina digestível, as poedeiras leves requerem 731 mg de metionina+cistina digestível na ração e as semipesadas, 711 mg de metionina+cistina na ração.

As exigências encontradas neste trabalho foram superiores às encontradas por NARVÁEZ SOLARTE (1996), ROSTAGNO et al. (1996), ZOLLITSCH (1996) e NRC (1994), que utilizaram poedeiras em primeiro ciclo para estimar as exigências, e maiores também que as encontradas por COLNAGO (1985) e RODRIGUES (1996), que utilizaram poedeiras em segundo ciclo de produção, porém, esses autores utilizaram outra marca poedeiras comerciais.

Ao contrário do esperado, as poedeiras semipesadas foram menos exigentes que as leves, possivelmente por apresentarem produção de ovos e massa de ovos diário inferiores às poedeiras leves.

 

Conclusões

As exigências nutricionais de metionina+cistina foram estimadas em 0,692 e 0,655% para poedeiras leves e semipesadas, respectivamente, correspondendo a consumos diários de 0,795 e 0,799 g de metionina+cistina/ave.

 

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Recebido em: 12/02/98
Aceito em
: 03/11/98

 

 

* Parte da Tese apresentada à UFV, pelo primeiro autor, como parte das exigências para obtenção do título Mestre em Zootecnia. Financiada pela FAPEMIG.