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Revista Brasileira de Zootecnia

Print version ISSN 1516-3598On-line version ISSN 1806-9290

Rev. Bras. Zootec. vol.29 no.5 Viçosa Sept./Oct. 2000

http://dx.doi.org/10.1590/S1516-35982000000500022 

Efeito do Extrato de Urucum na Pigmentação da Gema dos Ovos

 

José Humberto Vilar da Silva1, Luiz Fernando Teixeira Albino2, Mauro José de Souza Godói3

 

 


RESUMO - O trabalho foi realizado para avaliar níveis de adição do extrato de urucum (EU) a uma ração em que o sorgo foi utilizado como principal fonte de energia. Um total de 280 poedeiras no segundo ciclo de produção, 140 Lohmann Selected Leghorn (LSL) e 140 Isa Brown (IB), foi alojado em densidade de duas aves/gaiola e alimentado ad libitum com sete rações. Os tratamentos consistiram de uma ração controle positiva com milho, como principal fonte de energia, e uma ração basal contendo sorgo, como principal fonte de energia, suplementada com seis níveis de EU em 0,0; 0,10; 0,15; 0,30; 0,45; e 0,60%. O delineamento foi inteiramente ao acaso em esquema fatorial 7 x 2 (tratamento e linhagem), com cinco repetições de quatro aves. A adição de EU à ração à base de sorgo melhorou a pigmentação da gema dos ovos linearmente. A linhagem IB apresentou melhor pigmentação da gema dos ovos que a linhagem LSL. Os resultados permitiram concluir que a adição de 0,1% de EU à ração com sorgo promoveu similar pigmentação da gema do ovo que a ração à base de milho.

Palavras-chave: corante natural, pigmentação da gema, urucum

Effect of Anatto Extract Oil on the Egg Yolk Colour

ABSTRACT - The experiment was carried out to evaluate the increasing levels of anatto extract (AE) oil in sorghum-based diets as the main energy source. A total of 280 laying hens in the second production cycle, 140 Lohmann Selected Leghorn (LSL) and 140 Isa Brown (IB), was allotted to a density two birds/pen and full fed seven diets. The treatments consisted of a positive control corn based diet, as principal energy source, and a basal sorghum diet, as principal energy source, supplemented with 0.0, 0.10, 0.15, 0.30, 0.45, and 0.60% of AE. A completely randomized design in a 7 x 2 factorial arrangement (treatment and line), with five replicates of four birds, was used. The egg yolk colour was linearly improved by addition of AE to the sorghum-based diets. The brown-egg layers presented better egg yolk colour than the white-egg layers. The addition of 0.1% AE to the sorghum-based diets produced similar egg yolk colour as the corn based diets.

Key Words: anatto oil extract, egg yolk colour, natural colorant


 

 

Introdução

As rações formuladas para poedeiras comerciais contêm o milho amarelo como principal fonte de energia e de pigmentos naturais, como xantofilas, que contribuem para produção de uma gema de coloração alaranjada. Entretanto, em caso de disponibilidade de sorgo, mandioca, farelo de arroz, milheto, algaroba e adlai, em algumas regiões do país, o produtor deve substituir o milho parcial ou totalmente, em função da necessidade de redução dos custos de produção.

Entretanto, dependendo do nível de inclusão dessas matérias-primas nas rações de postura, pode ocorrer redução severa da coloração da gema, causando a recusa dos ovos por parte dos consumidores, exigindo a adição de corantes artificiais ou naturais à ração. A opção pelos corantes naturais tem aumentado, em virtude das restrições dos consumidores e das legislações dos países que proíbem a adição de corantes sintéticos às rações animais e aos alimentos humanos.

Na Itália, por exemplo, com a proibição do uso de corantes artificiais nos alimentos, o pigmento bixina, extraído do urucum, tem sido adicionado às rações de poedeiras, para conferir coloração à gema do ovo e, assim, colorir as massas (DAMASCENO, 1988).

No entanto, o uso de corantes à base de urucum deve se restringir à substituição dos corantes artificiais, e não como fonte de b-caroteno ou de vitamina A sintética, em virtude da falta de comprovação da atividade vitamínica do produto (VILLELA, 1942; CARVALHO e HEIN, 1989). Há informações que comprovam a ineficácia do urucum como bom pigmentante da pele de frangos de corte (WILLIAMS, 1989).

Estudos com poedeiras já demonstraram a possibilidade de o urucum, na forma de farinha, melhorar a pigmentação da gema do ovo. CAMPOS (1955) substituiu o milho (30%) pelo adlai (Coix lacrima Jobi, Lin) e suplementou a ração com 1 e 2% de farinha de urucum. O autor sugeriu que a dose de 1% foi suficiente para produção de uma gema pigmentada, mas a dose de 2% produziu gemas de coloração laranja forte, de maior preferência do consumidor brasileiro. Posteriormente, SANCHEZ (1965) recomendou 3% de farinha de urucum em rações em que o milho é substituído em 30 a 50% por alimentos pobres em pigmentos.

ARAYA et al. (1977) obteve cor da gema similar com a adição de 0,003% de Carophyll e dose de 1,06% da farinha da semente de urucum, quando o milho foi substituído pelo sorgo na ração de poedeiras, o que representou escore de 9 a 10 pontos, no leque colorimétrico da Roche.

O sorgo, o quinto cereal em produção no mundo, após o trigo, milho, arroz e cevada (NYACHOTI et al., 1997), custa cerca de 88% do preço do milho e vem se constituindo na mais promissora fonte de energia, em substituição ao milho, em rações de monogástricos. O valor nutricional do sorgo é 95% daquele do milho (FIALHO e BARBOSA, 1997), mas a composição protéica, o perfil e a digestibilidade verdadeira dos aminoácidos (PUPA, 1995) são muito similares aos do milho. O sorgo é mais resistente à seca, porém menos produtivo e mais pobre em pigmentos que o milho (FIALHO e BARBOSA, 1997); o seu uso em rações de poedeiras deve exigir o suprimento de corantes, porque o mercado exige ovos altamente pigmentados (LANCINI, 1994).

O extrato de urucum é um produto industrial obtido pela remoção dos pigmentos da semente de urucum (Bixa orellana L.) diluídos em solução oleosa. O extrato lipossolúvel contém vários pigmentos coloridos, sendo a bixina o principal (DAMASCENO, 1988; MASCARENHAS e STRINGHETA, 1998). Entretanto, desconhece-se qualquer informação sobre o uso deste produto como pigmentante da gema do ovo.

O objetivo deste trabalho foi avaliar o efeito de níveis crescentes do extrato de urucum, em rações em que o sorgo foi usado como principal fonte de energia, sobre o desempenho e a pigmentação da gema dos ovos de duas linhagens de postura comercial.

 

Material e Métodos

O experimento foi conduzido no Setor de Avicultura da Universidade Federal de Viçosa.

Foram utilizadas 280 poedeiras, submetidas à muda forçada na 85a semana de idade, sendo 140 aves leves da marca comercial Lohmann Selected Leghorn (LSL) e 140 aves semipesadas da marca comercial Isa Brown (IB).

As aves foram alojadas durante o período de produção em galpão de postura, de 60 x 9 m, com telas nas laterais à prova de pássaro, coberto com telhas de barro em duas águas, com dois conjuntos de quatro fileiras de gaiolas, separadas por um corredor central de 2 m, sendo utilizadas apenas duas fileiras centrais de cada conjunto. Durante a fase de produção, o fotoperíodo utilizado foi de 16 horas por dia.

No início do período experimental, as aves tinham 90 semanas de idade, correspondendo à 5a semana após o início da postura, após a muda induzida, quando as aves atingiram taxa de postura de 50%.

Foi utilizado delineamento inteiramente ao acaso em esquema fatorial 7 x 2 (sete tratamentos e duas linhagens), com cinco repetições e quatro aves de cada linhagem por unidade experimental.

Os tratamentos consistiram de uma ração controle positivo com milho, como principal fonte de energia, e uma ração basal contendo sorgo, como principal fonte de energia, suplementada com seis níveis de extrato oleoso de urucum (EU) em 0,10; 0,15; 0,30; 0,45; e 0,60%, em substituição ao amido de milho.

As rações (Tabela 1) foram formuladas para conterem os mesmos valores de proteína, energia, fósforo disponível, cálcio, metionina, aminoácidos sulfurosos e lisina (ROSTAGNO et al., 1996), exceto o conteúdo de pigmentos.

 

 

 

 

As rações e a água foram fornecidas à vontade durante todo o período experimental. As características avaliadas foram produção de ovos, peso médio dos ovos, massa de ovos, consumo de ração, conversão alimentar e pigmentação da gema dos ovos avaliada por meio do leque colorimétrico da Roche.

Os dados obtidos foram submetidos à análise estatística, utilizando-se o programa Sistema de análises estatísticas e genéticas - SAEG (UNIVERSIDADE FEDERAL DE VIÇOSA - UFV, 1982).

 

Resultados e Discussão

Não houve efeito da adição do EU (Tabela 1) sobre a produção e o peso dos ovos, entretanto, nas rações com sorgo como principal fonte de energia, a adição do EU melhorou de forma linear (P<0,01) a pigmentação da gema (Figura 1).

 

 

Como era esperado, o grupo de aves alimentadas com a ração contendo sorgo sem o EU produziu gemas com fraca pigmentação, enquanto a adição de 0,10% de EU resultou em pigmentação similar à obtida com a ração contendo milho como principal fonte de energia.

Resultados semelhantes foram obtidos por CAMPOS (1955), usando farinha de urucum em rações nas quais o milho foi substituído em 30% pelo adlai (Coix lacrima Jobi, Lin). A adição de 2% do produto produziu gemas de coloração laranja mais forte que a obtida com a adição de 1%, sendo esta cor a preferida do consumidor brasileiro. SANCHEZ (1965) também recomendou o uso de 3% de farinha de urucum em rações em que o milho foi substituído em 30 e 50% por alimentos pobres em xantofilas.

As linhagens diferiram na capacidade de pigmentar a gema, sendo que as poedeiras semipesadas foram mais eficientes (P>0,05). Este resultado pode estar relacionado a diferenças na taxa de digestão, absorção e deposição de pigmentos do urucum na gema.

Segundo KLASSING (1998), a deposição de pigmento em tecidos específicos é dependente da quantidade apropriada na dieta, da taxa de deposição no tecido em crescimento e da capacidade da ave em digerir, absorver e metabolizá-lo. A etapa limitante do aproveitamento de um pigmento é o ataque hidrolítico de esterases intestinais específicas, com baixa digestão, quando o pigmento está esterificado aos ácidos graxos de cadeia longa. Os carotenóides livres são absorvidos juntamente com os ácidos graxos dissolvidos nas micelas e transportados por lipoproteínas no sangue.

Como a pigmentação da gema é uma característica importante para valorização e aceitação do ovo pelos consumidores e fabricantes de massas, linhagens com esta característica devem resultar em melhor preço pago pelo ovo aos produtores.

As rações controle e as com 0; 0,10; 0,15; 0,30; 0,45; e 0,60% apresentaram, respectivamente, custos de R$0,229; 0,217; 0,224; 0,228; 0,238; 0,248; e 0,259/kg. Como a ração representa 75% do custo total de produção, concluiu-se que a adição de 0,10 a 0,15% de EU à ração foi economicamente mais viável. O uso de níveis mais elevados nas rações de poedeiras depende do pagamento diferenciado do ovo pelo grau de pigmentação da gema.

A adição de níveis acima de 0,40% de extrato de urucum à ração contendo sorgo (Figura 1) produziu pigmentação da gema dos ovos semelhante à obtida com aves caipiras de 8,5-9,0 (SILVA1, dados não-publicados) pontos de escore no leque da Roche. Este resultado sugere a possibilidade de produção do ovo tipo caipira em condições de criação comercial, resultando, aparentemente, em valorização e maior aceitação dos ovos por parte dos consumidores.

 

Conclusões

A adição de 0,1% do extrato de urucum às rações de poedeiras contendo 40% de sorgo resulta em pigmentação da gema dos ovos similar à obtida com rações contendo milho como fonte de energia. Poedeiras semipesadas produzem gemas com pigmentação superior às poedeiras leves.

 

Referências Bibliográficas

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Recebido em: 05/10/99
Aceito em: 15/02/00

 

 

1 Departamento de Agropecuária - CFT/UFPB - Bananeiras - PB - CEP 58.220-000. E.mail: jvilar@cft.ufpb.br

2 Professor DZO/UFV - Viçosa - MG - Brasil.

3 Zootecnista - Técnico do DZO/UFV.

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