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Revista Brasileira de Zootecnia

Print version ISSN 1516-3598On-line version ISSN 1806-9290

R. Bras. Zootec. vol.36 no.5 suppl.0 Viçosa Sept./Oct. 2007

http://dx.doi.org/10.1590/S1516-35982007000700017 

MONOGÁSTRICOS

 

Influência da restrição de água e ração durante a fase pré-inicial no desempenho de frangos de corte até os 42 dias de idade

 

Effect of water and feed restriction during pre-starter phase on the performance of broiler up to 42 days of age

 

 

Lisiane Fernandes SoaresI; Andréa Machado Leal RibeiroII; Antônio Mário Penz JúniorII; André GhiottiIII

IDepartamento de Bioquímica e Microbiologia da UTFPR, Campus Dois Vizinhos, Estrada da Boa Esperança, Km 04, s/n Dois Vizinhos - PR
IIDepartamento de Zootecnia - Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre - RS
IIIBolsista de Iniciação Científica - Departamento de Zootecnia - Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre - RS

 

 


RESUMO

Dois experimentos foram conduzidos para avaliar a influência da restrição de água e ração durante a fase pré-inicial no desempenho de frangos de corte e no desenvolvimento dos órgãos (coração, fígado, moela e intestinos). Em cada experimento utilizaram-se 480 pintos machos, Ross, distribuídos em cinco níveis (0, 10, 20, 30 e 40%) de restrição de água ou de ração durante os primeiros sete dias de idade. As aves foram alimentadas com a mesma dieta, em composição nutricional, em todos os tratamentos. Com restrição de água ou de ração, foram observadas reduções lineares no desempenho nos primeiros sete dias de idade e redução absoluta do peso dos órgãos, no entanto, o peso relativo não foi alterado, com exceção da moela, cujo peso relativo aumentou com a restrição. Após os 7 dias de idade, verificou-se crescimento compensatório dos frangos, sobretudo na semana subseqüente à restrição (8 a 14 dias). Aos 42 dias, as aves apresentaram peso corporal semelhante, independentemente do tipo de restrição. Nas aves sob restrição de água, a conversão alimentar no período de 8 a 14 dias de idade foi melhor nas aves submetidas a restrição prévia, enquanto, entre aquelas sob restrição de ração, essa diferença não ocorreu. O percentual de hematócrito sanguíneo aumentou linearmente aos 7 dias de idade com o aumento da restrição hídrica e aos 3 dias idade, com o aumento da restrição de ração. Em ambos os experimentos, não houve influência das restrições na uniformidade do lote e no rendimento de carcaça e dos cortes. O consumo de água foi mais independente que o consumo de ração, pois apresentou menor redução quando as aves estavam sob restrição de ração.

Palavras-chave: aves, crescimento compensatório, matéria seca


ABSTRACT

Two experiments were conducted to evaluate the influence of water and feed restriction during the pre-starter phase on the broilers performance and organs development (heart, liver, gizzard and intestines). In each experiment, a 480 males Ross chicks was allotted to a five levels (0, 10, 20, 30 and 40%) of water or feed restriction during the first seven days of age. The broilers were fed with the same diet, in nutritional composition, in all treatments. With water or feed restriction, it was observed a linear reduction in the performance during de first seven days of age and reduction in absolute organs weight, however the relative weight (RW) was not affected, except for gizzard that increased with restriction. After 7 days of age, it was observed a compensatory gain of the broilers, over all in the subsequent week (8 to 14 days). At 42 days, the birds showed similar body weight independently of the type of restriction. In the birds under water restriction, the feed conversion in the period from 8 the 14 days of age was better birds submitted to previous restriction, while, among those under ration restriction, this difference did not occur. Percentage of blood hematocrit linearly increased at 7 days of age with the increase of water restriction, and at three days of age with feed restriction. In both experiments there was no influence of the restrictions in the lot uniformity and in carcass and parts yield. The water intake was more independent than feed intake, therefore showed lower reduction when the birds were under feed restriction.

Key words: birds, compensatory growth, dry matter


 

 

Introdução

Na produção avícola, a deficiência no fornecimento de água pode ocasionar crescimento retardado, falta de uniformidade e problemas de saúde em frangos de corte (Counotte, 2003). A água contribui em diversos processos vitais, como digestão (hidrólise de proteínas, gorduras e carboidratos), absorção e circulação de nutrientes para respiração, temperatura corporal e funcionamento do sistema nervoso. Atua ainda no transporte de hormônios, na lubrificação das articulações e na visão e audição (Lloyd et al., 1978; Nilipour & Butcher, 1998).

O desenvolvimento do trato gastrintestinal durante os primeiros estádios pós-eclosão é muito importante. Segundo Dibner (1996), frangos de corte passam por uma grande modificação ao eclodirem e têm pouco tempo de adaptação desde o início da vida pós-embrionária para expressar todo o seu potencial genético. Entre os fatores que podem interferir no crescimento inicial desses animais, destacam-se a qualidade e a quantidade de água e de alimento disponível. Nitsan et al. (1991) relataram que o peso dos órgãos responsáveis pela digestão em frangos de corte aumenta de forma linear durante os primeiros 15 dias após o nascimento. O adequado fornecimento de alimentos e água na primeira semana de vida torna-se, portanto, essencial para o bom desempenho dos frangos ao longo do período de criação.

Aves sem acesso à água, até mesmo por poucas horas, especialmente em ambientes quentes, interrompem o crescimento e podem apresentar maior susceptibilidade a doenças (Nilipour & Butcher, 1998). Sabe-se que restrição de água propicia a redução no consumo de alimento (Brooks, 1994; Larbier & Leclercq, 1994). Quando a água é oferecida à vontade, as aves desenvolvem um padrão bem característico de ingestão de alimento. Qualquer fator que interfere na ingestão de água altera a ingestão de alimento e vice-versa (Macari, 1995).

A restrição é sempre vista como uma influência negativa no crescimento dos frangos. No entanto, as restrições alimentares, em curto espaço de tempo e em uma fase que permita a recuperação dos frangos, têm resultado em um fenômeno chamado crescimento acelerado, que contribui para melhores resultados econômicos na criação. Esse crescimento acelerado está relacionado, provavelmente, à redução nas exigências de energia de manutenção das aves durante a restrição alimentar (Plavnik & Hurvitz, 1985). Ainda assim, verifica-se inconsistência nos resultados de várias pesquisas, principalmente quanto ao consumo de ração e à existência de crescimento acelerado. Do mesmo modo, em virtude da intensa relação do consumo de água com consumo de alimento, a restrição de água também poderia resultar em fenômenos posteriores de crescimento acelerado.

Este trabalho foi realizado com o objetivo de avaliar a importância do fornecimento de água e de ração nos primeiros sete dias de idade de frangos de corte e a influência da restrição de água ou de ração no desempenho, no crescimento compensatório, no teor de matéria seca dos tecidos, no hematócrito e no rendimento de carcaça dessas aves no período pós-restrição de água ou de ração até os 42 dias de idade.

 

Material e Métodos

Dois experimentos foram realizados no Laboratório de Ensino Zootécnico da UFRGS no ano de 2004. Em cada experimento foram utilizados 420 pintos machos, de 1 dia de idade, da linhagem Ross 308. As aves foram criadas em salas climatizadas, em quatro baterias, cada uma com dez gaiolas de 0,73 m2 , equipadas com dois bebedouros do tipo infantil e um comedouro tipo calha. Aos 21 dias de idade, os animais foram transferidos para gaiolas de 0,84 m2, providas de comedouros e bebedouros do tipo calha.

Os tratamentos no experimento 1 foram constituídos de níveis crescentes (0, 10, 20, 30 e 40%) de restrição de água no período de 1 a 7 dias de idade e no experimento 2, de níveis crescentes de restrição de ração no mesmo período. Os consumos de água e de ração na primeira semana foram estimados em um lote de seis repetições, 14 aves/repetição, com peso inicial similar ao das aves experimentais, alojado no mesmo local com três dias de antecedência ao período experimental. Os valores de consumo de água ou de ração deste lote (à vontade) foram usados como referência para constituir as restrições impostas às aves experimentais.

Foi utilizada a mesma dieta comercial em todos os tratamentos, conforme a fase de criação. A dieta pré-inicial forneceu 3.100 kcal EM/kg, 21% PB, 1% Ca, 0,5% P disponível, 1,26% Lis total e 0,94% de Met+Cis total. As dietas inicial e de crescimento, respectivamente, tiveram 3.180 kcal EM/kg, 20% PB, 1% Ca, 0,45 P disponível, 1,17% Lis total, 0,9% Met+Cis total, 3.200 kcal EM/kg, 19,5% PB, 0,95% Ca, 0,45% P disponível, 1,03% Lis total e 0,82% Met+Cis. A água fornecida aos animais foi considerada potável pelo Laboratório de Análise de solos da UFRGS.

Água e ração foram fornecidas uma vez ao dia, para todos os animais, sempre no mesmo horário e foram medidas o consumo e a quantidade fornecida diariamente até os 7 dias de idade. No experimento de restrição de água, foi medida a perda de água por evaporação dos bebedouros para correção na quantidade consumida. Após os 7 dias de idade, o consumo de ração foi calculado semanalmente e não houve mais medição de consumo de água. Os frangos foram pesados semanalmente até os 42 dias de idade. Semanalmente, uma ave de peso médio por repetição foi sacrificada para determinação do peso corporal e do teor de matéria seca dos órgãos coração, proventrículo, moela, intestinos delgado e grosso e fígado+vesícula. As pesagens dos órgãos foram feitas imediatamente após o abate. Os intestinos delgado e grosso, o proventrículo e a moela tiveram seus conteúdos esvaziados antes da pesagem. A partir dos pesos absolutos, foram calculados os pesos de órgãos relativos, utilizando-se como denominador o peso vivo da ave.

Para estudar o percentual de hematócrito, o sangue foi coletado de uma veia da asa de uma ave de cada repetição (6 aves/tratamento), diretamente em um microcapilar aos 3, 7, 14, 21, 28, 35 e 42 dias de idade. Ao completar 42 dias de idade, as aves foram abatidas após jejum de 8 horas; foram pesadas individualmente, sangradas por dois ou três minutos, escaldadas a uma temperatura de 60ºC, depenadas com depenadeira elétrica semi-automática e evisceradas manualmente. As carcaças foram resfriadas em água com gelo durante aproximadamente 40 minutos, simulando um chiller (resfriamento realizado na indústria), e em seguida foram pesadas para obtenção do peso de carcaça resfriada, sem gordura abdominal, sem pés e sem cabeça. Depois, foram separados e pesados individualmente os cortes peito, dorso, coxas, pernas e asas de cada ave. O rendimento de carcaça e dos cortes foi obtido dividindo-se o peso das partes pelo peso da carcaça.

O delineamento experimental utilizado foi o inteiramente casualisado (DIC), com cinco tratamentos, cada um com seis repetições. A análise de variância, a comparação de médias pelo teste Tukey e a análise de regressão foram feitas utilizando o módulo GLM do programa Statistical Analysis System (SAS, 2001).

 

Resultados e Discussão

No experimento de restrição de água, a restrição foi efetivamente imposta de acordo com os níveis propostos. O consumo de ração foi afetado linear e negativamente, confirmando a relação direta entre essas duas variáveis. Com a restrição, houve também decréscimo linear no peso corporal e no ganho de peso (GP) (Tabela 1). Viola (2003), em experimento para avaliação dos mesmos níveis de restrição de água, porém até os 21 dias de idade, também observou redução linear no consumo de alimento. A conversão alimentar (CA), no entanto, não foi afetada pela restrição de água na primeira semana, o que difere do resultado obtido por Viola (2003), que observou, para o mesmo período, que a CA piorou à medida que os níveis de restrição aumentaram.

No período de 8 a 14 dias, imediatamente após a restrição de água, foi observado maior consumo de água entre as aves submetidas a restrição prévia (Tabela 2). Esse aumento foi proporcional ao nível de restrição anterior, conforme indica a regressão linear. O consumo de ração continuou afetado pela restrição de água da semana anterior. No entanto, quando calculado proporcionalmente ao peso metabólico, foi maior no grupo com restrição de 40% (1,60 kg/kg0,75) em comparação àquele sem restrição (1,30 kg/kg0,75). Esse é um comportamento típico de animais em crescimento compensatório. Leu et al. (2002) observaram que aves sob restrição de ração quando alimentadas à vontade podem apresentar inicialmente maior consumo inicial de ração (hiperfagia) em virtude do estado fisiológico que se encontram. Apesar de o ganho de peso nesta fase não ter apontado relação de regressão clara com a retrição de água do período anterior, os dados comprovam que o grupo com 40% de restrição, que na primeira semana apresentou ganho de peso 41% inferior ao do grupo controle, alcançou aos 14 dias 7,4% a mais de ganho de peso.

A conversão alimentar melhorou de forma linear nas aves com maior restrição de água no período anterior. O peso corporal continuou linear e negativamente reduzido pela severidade da restrição. O crescimento compensatório tem a vantagem de modificar o padrão de crescimento das aves, principalmente porque no período de restrição o peso corporal dos animais é reduzido, diminuindo também a exigência de nutrientes de mantença. Na fase de realimentação, essa modificação resulta em maior eficiência de uso dos nutrientes para o crescimento (Doyle & Leeson, 1997), o que explica os melhores índices de conversão alimentar.

Na análise do período de 1 a 21 dias (Tabela 2), não houve diferença entre os níveis de restrição de água para o consumo de água, o ganho de peso e o peso corporal. O consumo de ração (CR), no entanto, permaneceu negativamente relacionado à restrição da primeira semana e a conversão alimentar continuou positivamente influenciada pela RAg, como verificado na semana imediatamente posterior à restrição. Apesar de não-significativa, houve uma diferença de mais de 40 g no peso corporal entre as aves submetidas a restrição de 40% e aquelas controle (sem restrição), o que sugere serem necessários mais que 14 dias para a recuperação do peso corporal padrão.

No período de 22 a 42 dias (Tabela 2), a restrição prévia de água não influenciou o consumo de ração, o ganho de peso ou o peso corporal. No entanto, a conversão alimentar nos frangos submetidos a restrição de água continuou melhorando de forma linear, conforme a magnitude da restrição. Esse resultado evidencia a ocorrência de crescimento compensatório, como observado por Lawrence & Fowler (2002) e Fontana et al. (1993).

Do mesmo modo que não houve diferenças no peso corporal aos 42 dias, também não houve diferença no rendimento de carcaça e dos cortes (Tabela 3). Segundo Doyle & Leeson (1997), os efeitos do crescimento compensatório na composição da carcaça ainda não estão bem definidos. Resultados de pesquisas sugerem que a restrição no início da vida das aves reduz o teor de gordura da carcaça na idade de abate uma vez que a restrição reduz a hiperplasia dos adipócitos (Plavnik & Hurwitz, 1985). Entretanto, este fato não foi confirmado neste experimento. Os elevados coeficientes de variação para gordura abdominal dificultam qualquer conclusão com significado biológico sobre esta variável.

O coeficiente de variação do peso corporal foi medido até o período de 21 dias para verificar a uniformidade dos lotes. Esperava-se encontrar menor uniformidade com o aumento do nível de restrição, como se observa nos animais a campo, em virtude da dominância de frangos maiores na posse pela água. Os resultados, porém, não indicaram aumento de desuniformidade dos lotes e apresentaram coeficientes de variação bastante semelhantes entre os níveis de restrição. Provavelmente as condições experimentais apresentaram poucos desafios a ponto de causar disparidade de peso entre as aves, pois a área de bebedouro recomendada para frangos de corte é de 2,5 cm lineares de bebedouro calha por ave (Avisite, 2005) e neste experimento a área foi de 3,5 cm por ave, ou seja, 40% superior ao recomendado, fato que pode ter colaborado para a maior uniformidade dos lotes.

Observou-se aumento linear do percentual de hematócrito (Tabela 4) conforme aumentou a severidade da restrição aos 3, 7 e aos 28 dias de idade. As equações de regressão também indicaram que aos 7 dias de idade a relação entre hematócrito e desidratação foi maior que aos 3 dias de idade, o que gerou coeficiente de determinação maior (0,42). Considerando a facilidade de mensuração, a análise de hematócrito pode ser uma ferramenta para determinar a campo a desidratação de frangos. Logo após o término da restrição de água, a análise de regressão indicou inversão nos resultados, provavelmente em decorrência do elevado consumo de água neste período pelas aves submetidas a restrição no período anterior. Os dados deste experimento estão de acordo com os descritos por Shlosberg et al. (1998), que também observaram aumento do valor do hematócrito quando os frangos ingeriram menos água, conseqüência da exposição ao frio.

Entre os órgãos avaliados, apenas o peso relativo da moela apresentou relação linear significativa aos 7 dias de idade e elevou (P<0,01) com o aumento da restrição de água, o peso relativo da moela. Os demais órgãos tiveram seus pesos absolutos diminuídos com a restrição de água aos 7 dias de idade, porém, esta diminuição está relacionada ao menor peso corporal, portanto, é uma conseqüência do peso corporal e não dos níveis de restrição diretamente.

Não foram observadas diferenças no teor de MS dos órgãos estudados, indicando que os animais, ainda que sob retrição no consumo de água, tendem a manter a concentração de MS nos órgãos vitais.

Na primeira semana do experimento (Tabela 5) de restrição de ração, o consumo de ração foi coerente com os níveis de restrição adotados e decresceu linearmente conforme aumentou o nível de restrição, assim como o peso corporal e o ganho de peso. O consumo de água também decresceu linearmente, comprovando que não aumenta na falta alimento. Rosa et al. (2000) descreveram que a primeira semana de vida não é um bom momento para aplicar a restrição de ração no intuito de melhorar a produtividade, uma vez que os pintos nesta idade ainda são muito frágeis para suportarem o estresse do jejum. No entanto, uma restrição que reduza o peso corporal das aves em 11 a 12% no final do período de jejum é compatível com a posterior ocorrência de crescimento acelerado. Perdas acima deste valor resultam em redução do peso de abate. Deaton (1995), impondo restrições de 10, 25 ou 40%, observou que somente os frangos sob restrição de 10% recuperaram seu peso corporal. Ao final da restrição (14 dias), essas aves estavam 8% mais leves.

Noy & Sklan (1999) demonstraram que aves que receberam somente água logo após a eclosão apresentaram aumento do peso corporal, mas esse efeito foi transitório e o desenvolvimento dessas aves foi inferior ao daquelas que receberam alimento (Noy & Sklan, 1999). Conseqüentemente, espera-se que aves que iniciam o consumo mais cedo e que são alimentadas por um período maior apresentam crescimento melhor (Nir & Levanon, 1993).

A conversão alimentar não foi influenciada pela restrição no fornecimento de ração. Susbilla et al. (1994), ao contrário, observaram melhor conversão em frangos criados com restrição dos 5 aos 11 dias de idade, com oferta de somente 50% da ração.

Na primeira semana após o término da restrição de ração (Tabela 6), os frangos dos grupos com restrição de 10, 20 e 30% já haviam ultrapassado o ganho de peso do grupo controle, no entanto, aos 14 dias, os pesos não haviam se igualado.

Os consumos de ração e de água não diferiram entre os níveis de restrição. No entanto, quando o consumo de ração foi calculado proporcionalmente ao peso metabólico obtido aos 8 dias de idade, observou-se maior consumo no grupo com 40% de restrição (1,70 kg ´ kg0,75) em comparação àquele sem restrição (1,37 kg ´ kg0,75). Esse resultado está de acordo com o obtido por Yu & Robinson (1992), que afirmaram que, ao final do período de restrição, as aves tendem a consumir maior quantidade de ração que as aves alimentadas sem restrição. A conversão alimentar não diferiu entre os níveis de restrição. Lawrence & Fowler (2002), no entanto, afirmaram que a eficiência na utilização da energia metabolizável aumenta no período de reinício da alimentação, uma vez que a exigência de mantença é reduzida no período de restrição. Esses autores sugeriram que neste período o consumo de alimento é maior em relação ao peso corporal, fato explicado pela maior capacidade digestiva do animal durante a fase de realimentação, atribuída à maior ingestão e ao maior espaço relativo disponível no trato digestório (Hornick et al., 2000; Lawrence & Fowler, 2002).

Os níveis de restrição nos primeiros 21 dias (Tabela 6) influenciaram linear e negativamente os consumos de ração e de água, o ganho de peso e o peso corporal aos 21 dias. Apesar da recuperação verificada na semana de 8 a 14 dias, aos 21 dias ainda não foi possível a total compensação das perdas impostas na primeira semana. Sabe-se que o tempo de realimentação é importante para as aves recuperarem seus pesos (Lawrence & Fowler, 2002). Todas as variáveis tiveram comportamento negativamente associado à severidade da restrição de ração. No entanto, a conversão alimentar não foi influenciada pelas restrições alimentares. Plavnik & Hurwitz (1988) constataram que frangos sob restrição alimentar na fase inicial de vida apresentaram melhor conversão alimentar aos 45 dias. Acar et al. (2001) não registraram diferenças na conversão alimentar no período de 21 a 49 dias de idade em aves submetidas à restrição de 75% da EM durante 4 a 11 dias de idade.

Do mesmo modo que no experimento 1, o coeficiente de variação do peso corporal medido até o período de 21 dias para verificar uniformidade não indicou aumento de desuniformidade dentro das repetições.

No período de 22 a 42 dias, as diferenças decorrentes da restrição de ração aplicada na primeira semana de vida desapareceram, comprovando total recuperação das aves (Tabela 6). Dados semelhantes foram observados experimentalmente por Vargas Jr. et al. (1995). No entanto, no estudo de Acar et al. (2001), a restrição de 25% da EM no período de 4 a 11 dias de idade resultou em frangos 4% menores ao abate. Sugeta et al. (2002), aplicando restrições quantitativas de 30 ou 70% da ração, também verificaram piora no peso e no rendimento de carcaça das aves sob restrição de 70%, sem diferença significativa na conversão alimentar.

A restrição de ração não influenciou os rendimentos de carcaça, de peito e de coxa (Tabela 7). Por outro lado, o rendimento de perna aumentou com a restrição de ração, ao contrário do rendimento de asa, embora com R2 muito pequenos. O percentual de gordura na carcaça não foi alterado pela restrição de ração. Yu & Robinson (1992) relataram que, em alguns trabalhos, animais submetidos a restrição alimentar apresentaram menor teor de gordura abdominal. Deaton (1995), com restrição alimentar de 40% para frangos dos 7 aos 14 dias de idade, observou redução de gordura abdominal nos animais sob restrição quando comparados aos animais do tratamento controle. No entanto, os autores reproduziram este experimento mais duas vezes e não observaram esse efeito novamente. Plavnik & Hurwitz (1985) aplicaram restrição alimentar durante seis dias na primeira semana de vida dos frangos e observaram mesmo peso à idade de abate e porcentagem de gordura abdominal significativamente menor. Summer et al. (1990) não observaram redução da porcentagem de gordura abdominal ao aplicarem restrição alimentar no período dos 7 aos 14 dias de idade (restrição de 25 ou 50%). De acordo com Doyle & Leeson (1997), a restrição de ração atrasa a hiperplasia dos adipócitos, mas não impede sua hipertrofia, podendo resultar em aumento da gordura corporal.

A gordura abdominal não parece ser a mais recomendada como critério de verificação da deposição de gordura nas aves, visto que variações decorrentes da dificuldade de sua retirada da carcaça podem influenciar os resultados. Segundo Bazis et al. (1996), a gordura corporal seria a mais recomendada para esta comparação, uma vez que as aves apresentam quantidade significativa de deposição subcutânea de gordura. Sugeta et al. (2002), avaliando o total de gordura corpórea, observaram que os frangos sob restrição alimentar de 70% tiveram menor teor de gordura total em comparação aos frangos sob 30% de restrição ou alimentados à vontade.

Aos 3 dias de idade, observou-se efeito da restrição alimentar no aumento do percentual de hematócrito (Tabela 8). No entanto, esse resultado não persistiu estaticamente até os 7 dias de idade, período no qual os frangos também ingeriram menor quantidade de água. Verificando o consumo de água em relação ao de ração, constatou-se que os animais sob restrição de 30 ou 40% consumiram proporcionalmente mais água, o que justifica essa ausência de diferença no valor de hematócrito.

Comparando os pesos relativos dos órgãos analisados (peso do órgão/peso corporal), somente o peso da moela aos 7 dias de idade aumentou com a restrição de ração ( = 4,97+0,107x; Prob = 0,0001; R2 = 0,37). Os pesos dos demais órgãos não diferiram, embora tenham diminuído proporcionalmente com a diminuição no peso corporal na análise dos pesos absolutos.

Na Figura 1 é possível observar a evolução das vilosidades dos 7 aos 21 dias experimentais de acordo com os níveis de restrição de água (experimento 1). As fotos indicam diferença visual entre as vilosidades no intestino das aves sem restrição controle e daquelas sob 40% de restrição de água. Nas aves criadas com água à vontade, as vilosidades apresentaram-se com aspecto mais liso e arredondado, enquanto o aumento da restrição parece ter aumentado as alterações na superfície, resultando em vilosidades mais achatadas e enrugadas. O dano causado pela restrição até os 7 dias de idade parece permanecer até os 21 dias, sem recuperação da integridade da mucosa. Essa observação confirma os relatos de Maiorka et al. (2001), que verificaram efeito prejudicial da restrição de água e de ração sobre a mucosa intestinal em frangos de corte e corroboram os dados de desempenho, que comprovaram que até os 21 dias as aves sob restrição não haviam se recuperado totalmente.

 

 

As fotos dos experimentos 1 e 2 foram similares, exceto pelo fato de que não há diferenças visuais entre as vilosidades do intestino das aves criadas sem restrição e o daquelas sob 40% de restrição alimentar. Portanto, neste estudo, são apresentadas somente as fotos dos obtidas com os dois níveis extremos de restrição (Figura 2).

 

 

Conclusões

Os consumos de água e ração são altamente correlacio-nados em frangos de corte, uma vez que a restrição de um afeta o consumo do outro componente, embora a restrição de água tenha maior influência na redução do consumo alimentar. Tanto a restrição de água quanto a de ração na primeira semana de vida afetam o desempenho e o peso de órgãos, porém, a proporcionalidade entre o peso dos órgãos e o peso corporal se mantém, com exceção da moela, que aumenta proporcionalmente ao peso. No entanto, as aves submetidas à qualquer forma de restrição, em condições experimentais, tiveram capacidade de recuperação do desempenho aos 42 dias e apresentaram crescimento compensatório, sobretudo na semana subseqüente à restrição. Os dados de hematócrito são um parâmetro adequado de avaliação da desidratação em frangos de corte.

 

Literatura Citada

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Recebido: 1/9/2006
Aprovado: 18/4/2007

 

 

Correspondências devem ser enviadas para: lisianesoares@utfpr.edu.br

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