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Brazilian Journal of Poultry Science

Print version ISSN 1516-635XOn-line version ISSN 1806-9061

Rev. Bras. Cienc. Avic. vol.2 no.2 Campinas May/Aug. 2000

http://dx.doi.org/10.1590/S1516-635X2000000200005 

Efeito da Adição do Antioxidante BHT e do Armazenamento Sobre a Qualidade da Farinha de Carne e Ossos Para Frangos de Corte

Effects of the Addition of BHT and Storage on the Quality of Meat and Bone Meal for Broiler Chickens

 

 


Autor(es) / Author(s)

Racanicci AMC1
Menten JFM2
Iafigliola MC1
Gaiotto JB1
Pedroso AA1

1- Estudante de pós-graduação do curso de Ciência Animal e Pastagens da Escola Superior de Agricultura "Luiz de Queiroz" – ESALQ/USP

2- Profo Titular do Departamento de Produção Animal – Escola Superior de Agricultura "Luiz de Queiroz" – ESALQ/USP

Correspondência / Mail Address

José Fernando Machado Menten

Departamento de Produção Animal / ESALQ – USP
Av. Pádua Dias, 11 - CP 09
13.418-900 - Piracicaba/SP - SP - Brasil

e-mail: jfmmente@carpa.ciagri.usp.br

Unitermos / Keywords

farinha de carne e ossos, antioxidante, rancidez oxidativa, subprodutos de origem animal, frangos de corte.

meat and bone meal, antioxidant, oxidative rancidity, animal by-product, broiler.

Observações / Notes

Projeto financiado pela FAPESP.

RESUMO

Este estudo foi desenvolvido com a finalidade monitorar a qualidade da farinha de carne e ossos (FCO), durante o armazenamento prolongado (10 semanas), e avaliar os efeitos da adição do BHT (500mg/kg) a esta farinha. Um lote fresco de FCO (41,12% PB e 9,14% EE) foi dividido em seis partes iguais, sendo uma não tratada (CONTROLE) e as demais tratadas com BHT em diferentes tempos de armazenamento (nos dias 0, 7, 14, 21 e 28: BHT/0, BHT/7, BHT/14, BHT/21 e BHT/28, respectivamente). As FCO foram armazenadas em ambiente diariamente monitorado e sua qualidade foi avaliada por amostragens semanais, com determinação do índice de peróxidos, cujo nível máximo obtido foi de aproximadamente 80meq/kg (CONTROLE). A partir da 4ª semana de armazenamento, foi conduzido um experimento com frangos de corte alimentados por 42 dias com rações à base de milho e farelo de soja, contendo cerca de 4% das FCO armazenadas. Foram utilizados 1.440 pintos de um dia, machos, distribuídos num delineamento em blocos casualizados, com 6 tratamentos e 6 repetições. Os resultados médios obtidos para peso vivo, ganho de peso, consumo de ração, conversão alimentar, mortalidade e refugagem e fator de produção foram submetidos à análise da variância e as médias dos tratamentos foram comparadas ao CONTROLE através do teste de Dunnett. As variáveis estudadas, em geral, não foram afetadas pelos tratamentos (p>0,05), indicando que, neste estudo, o uso da FCO oxidada ou das FCO protegidas pelo BHT, não influenciaram o desempenho das aves.

 

ABSTRACT

The objectives of this study were to assess the variation in quality of meat and bone meal (MBM) during an extended storage period (10 weeks) and evaluate the effects of the antioxidant BHT on the oxidative stability of MBM and the performance of broilers fed diets containing these MBM. A freshly produced batch of MBM (41,12% protein and 9,12% fat) was divided in six portions. One portion was stored with no BHT added (CONTROL) and the others were treated with 500mg BHT/kg at day 0 (BHT/0), 7 (BHT/7), 14 (BHT/14), 21 (BHT/21) and 28 (BHT/28). The quality of MBM was measured through weekly samplings and the peroxide value (IP) was the main parameter analysed. After four weeks of storage, a feed trial was carried out using 1,440 male RossXRoss day-old chicks raised in floor pens in an experiment with six treatments and six replicates. The birds were fed ad libitum corn-soybean diets formulated to contain 4% MBM. Results of 42d liveweight, feed intake, feed:gain ratio and mortality and culling were submitted to analysis of variance. Treatment means were compared to CONTROL using Dunnett’s test. Although rancidity was observed in MBM during storage, the levels of IP found (maximum 80meq/kg) did not affect bird performance. In general, the performance of broilers was not affected (p>.05) by feeding MBM oxidized or preserved with BHT.


 

 

INTRODUÇÃO

Na indústria avícola, os custos de alimentação representam cerca de 70% dos custos totais de produção; em decorrência disso, a farinha de carne e ossos (FCO) tem sido o principal subproduto de origem animal utilizado nas rações como uma alternativa para redução desses custos, por ser uma fonte alternativa de fósforo, cálcio, aminoácidos essenciais e energia.

No entanto, as condições físicas de processamento (temperatura e pressão utilizadas no cozimento e secagem) da FCO, bem como a composição e a qualidade inicial das matérias-primas utilizadas na sua fabricação variam muito entre os fabricantes (Dolz & De Blas, 1992; Parsons et al., 1997). Isso constitui a maior fonte de variação que influencia a qualidade do produto final e também representa uma desvantagem para a utilização da FCO como ingrediente de rações animais.

A gordura da FCO é a principal responsável pela energia fornecida pela farinha e apresenta quantidades expressivas de ácidos graxos insaturados; praticamente 50% dos ácidos graxos consistem dos ácidos oléico e linoléico (Dolz & De Blas, 1992; NRC, 1994). É por este motivo que a FCO é considerada um produto muito suscetível às reações de rancidez oxidativa (Quiñones, 1995; Scott et al., 1982; Valenzuela & Nieto, 1995).

A oxidação é um processo inerente ao organismo animal e extremamente importante no seu metabolismo; contudo, ao mesmo tempo em que o oxigênio é essencial, sua presença também é perigosa em função da possibilidade da ocorrência de reações de oxidação, um processo de difícil controle, que pode causar a destruição de componentes importantes dos alimentos, como ácidos graxos essenciais, vitaminas lipossolúveis e pigmentos, além de danos às estruturas celulares e aos tecidos animais (Adams, 1999).

Inúmeros estudos comprovaram os efeitos deletérios do consumo de produtos oxidados no desempenho animal (Bartov & Bornstein, 1972; Cabel et al., 1988; Dibner et al., 1996; Lin et al., 1989; Robey & Shermer, 1994), bem como a eficácia da adição de antioxidantes para aliviar esses efeitos.

O objetivo deste trabalho foi acompanhar as variações de qualidade da FCO durante um período prolongado de armazenamento (10 semanas), avaliar o efeito da adição do antioxidante BHT (butil hidroxitolueno, C15H24O) na FCO e o desempenho de frangos alimentados com rações contendo essas FCO após o armazenamento.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Este estudo foi conduzido no Departamento de Produção Animal da ESALQ/USP, em Piracicaba/SP. Um lote fresco de 400kg de FCO, fornecido pela Indústria Agroquímica Braido S/A (Itupeva/SP), foi armazenado em fábrica de rações na forma de 6 sub-lotes, sendo que um deles foi armazenado sem adição do antioxidante e os demais, tratados com 500mg de BHT/kg de farinha em diferentes tempos de armazenamento. Tanto a composição como a qualidade inicial desse lote podem ser observados na Tabela 1.

 

 

No primeiro dia do experimento, um sub-lote foi homogeneizado juntamente com o BHT em um misturador em "Y", com capacidade de 30kg. O restante da FCO permaneceu ensacada e foi armazenada sobre tablados de madeira, em local coberto, seco, bem ventilado e fora do alcance da luz, reproduzindo as condições de uma fábrica de rações. A cada 7 dias, um sub-lote foi sendo tratado com antioxidante, até que, no final de 4 semanas, os 5 sub-lotes de FCO estivessem preservados. Os sub-lotes de FCO tratados com BHT nos dias 0, 7, 14, 21 e 28 (a partir da data do recebimento), bem como o lote não tratado, permaneceram armazenados durante 10 semanas com monitoramento diário das condições de temperatura e umidade relativa do ar. As médias das máximas e mínimas no período foram 25 e 17oC de temperatura, e 79 e 52% de umidade, respectivamente.

Semanalmente, durante todo o período de armazenamento da FCO, foi coletada uma amostra de cada um dos sub-lotes tratados e do não tratado. As amostras foram coletadas em diversos pontos de todos os sacos armazenados, formando uma amostra por tratamento. Essas amostras foram encaminhadas imediatamente após a coleta para o laboratório bromatológico, onde foram feitas as análises de umidade, teste de rancidez, índice de peróxidos e acidez. As análises de umidade, índice de peróxidos e acidez foram efetuadas conforme a metodologia descrita pelo Compêndio (1998). Para a análise da rancidez utilizou-se a reação de Kreiss, de acordo com o método do Instituto Adolfo Lutz (1976). A qualidade da FCO foi avaliada através dos resultados dessas análises, sendo o índice de peróxidos (IP), o parâmetro principal dessa avaliação.

A partir da 4ª semana de armazenamento da FCO, foi conduzido um experimento utilizando 1.440 pintos de um dia, machos, da linhagem AgRoss, em um delineamento em blocos casualizados, com 6 tratamentos e 6 repetições. Os tratamentos foram o CONTROLE (ração com FCO armazenada sem BHT), BHT/0, BHT/7, BHT/14, BHT/21 e BHT/28 (rações com FCO armazenada e tratada com BHT nos dias 0, 7, 14, 21 e 28, respectivamente). As aves receberam ração e água à vontade durante todo do período experimental.

As rações das fases inicial (1 a 21 dias), crescimento (21 a 35 dias) e final (35 a 42 dias) foram formuladas à base de milho e farelo de soja, sendo a FCO utilizada como única fonte de fósforo suplementar (cerca de 4% de adição de FCO). As rações foram formuladas para conter 22,0, 21,0 e 19,5% de PB e 3.000, 3.050 e 3.100kcal/kg de EM, respectivamente (Tabela 2) e as exigências de aminoácidos essenciais atenderam às relações aminoácidos:lisina propostas por Rostagno et al. (1996).

 

 

As variáveis de desempenho estudadas foram o peso vivo (PV), ganho de peso (GP), consumo de ração (CR), conversão alimentar (CA), mortalidade e refugagem (MR) e fator de produção (FP). Os resultados foram obtidos através de pesagens semanais das aves. Os dados referentes ao período de 1 a 42 dias foram submetidos à análise de variância, utilizando-se o GLM do SAS (Statistical Analyses System, 1989) e as médias foram comparadas ao tratamento CONTROLE através do teste de Dunnett em nível de significância de 5%.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Os efeitos do armazenamento prolongado e da adição do BHT sobre o IP da FCO armazenada podem ser observados na Tabela 3 e na Figura 1. Praticamente, não se verificaram alterações nos resultados das análises semanais de umidade e de acidez da FCO armazenada com ou sem antioxidante durante o decorrer do período de armazenamento. Os resultados variaram de 6,32 até 8,71% para a umidade e de 0,03 a 1,45ml/100g para a acidez (dados não apresentados).

 

 

 

 

Durante o período de armazenamento da FCO, observamos o desenvolvimento crescente do IP no lote CONTROLE, sendo que a partir da segunda semana, o IP já havia ultrapassado 10meq/kg, limite máximo para a FCO, segundo o Compêndio (1998), e atingido o nível mais alto, aproximadamente 80meq/kg, aos 56 dias de armazenamento. Nessa fase, além da formação dos peróxidos, uma série de outras alterações ocorre no material oxidado, inclusive modificações na composição dos ácidos graxos da gordura, comprometimento das vitaminas lipossolúveis e outros compostos, além de mudanças pronunciadas no sabor e no odor do produto (Adams, 1999).

O maior efeito da adição do antioxidante na preservação da qualidade da FCO foi verificado quando o BHT foi adicionado no dia 0 ou 7, pois o IP manteve-se zero até o final do experimento. No entanto, quando o processo de oxidação já havia iniciado (BHT/14, 21 ou 28), a adição de BHT não proporcionou o efeito desejado sobre o IP.

As farinhas armazenadas foram adicionadas às rações em cerca de 4%, conforme a composição das rações apresentada na Tabela 2, e fornecidas às aves para avaliação do desempenho, cujos resultados para o período total de criação (1 a 42 dias de idade) estão apresentados na Tabela 4.

 

 

Os resultados obtidos com o uso de ração contendo FCO tratada com BHT não apresentaram diferenças significativas (p>0,05) para as variáveis CA, MR ou FP, quando comparadas ao CONTROLE. O nível máximo de peróxidos utilizado neste estudo (0,3meq/kg de ração para o tratamento CONTROLE) não foi suficiente para produzir efeitos negativos nessas variáveis; os únicos efeitos significativos detectados foram reduções no PV, CR e GPD do tratamento BHT/28 em relação ao CONTROLE (p<0,05), embora os valores do IP da FCO desse tratamento tenham sido inferiores ao CONTROLE.

Apesar disso, de uma forma geral, não há indicativos de que o uso do antioxidante BHT na FCO, utilizado neste estudo, tenha influenciado o desempenho das aves, uma vez que não observamos diferenças nas variáveis estudadas para os animais que consumiram a ração tratada, comparativamente com a não tratada.

Esses resultados estão de acordo com aqueles obtidos por Cabel et al. (1988), que verificaram pouco ou nenhum efeito da adição de antioxidante sobre PV e CA dos frangos que consumiram rações com níveis baixos de peróxidos (0 a 2meq/kg de ração), abrangendo os níveis utilizados neste estudo (0 a 0,3meq/kg). Segundo os autores, à medida em que os níveis subiram para 4 ou 7meq/kg de ração, foi possível identificar alguma depressão significativa no PV dos frangos aos 21 ou 42 dias de idade.

A qualidade da FCO utilizada deve ter sido a causa principal e mais provável dos baixos níveis de peróxidos nas dietas, uma vez que esta matéria-prima, estável e de boa qualidade, era a única fonte desses compostos nas rações. Não podemos nos esquecer também, que os resultados obtidos para as variáveis estudadas PV, GP, CA, e conseqüentemente FP, foram superiores aos padrões da linhagem em todos os tratamentos, inclusive no tratamento CONTROLE, o que pode ter contribuído para diminuir as diferenças nas comparações entre os tratamentos.

 

CONCLUSÕES

A adição de 500mg/kg de BHT na FCO foi efetiva na prevenção da rancidez oxidativa, quando feita no momento do recebimento da FCO ou depois de 7 dias.

Nas condições deste estudo, a FCO sem adição de antioxidante permaneceu com IP abaixo do padrão máximo permitido (10meq/kg) por pouco mais de uma semana.

Após o início do processo oxidativo na FCO, a adição de BHT pode ou não controlar o seu avanço, dependendo do grau de oxidação da farinha no momento da adição.

Níveis de peróxidos próximos de 80meq/kg na FCO, correspondendo a 0,3meq/kg nas rações de frangos de corte de 1 a 42 dias, aparentemente não foram prejudiciais às aves. Em conseqüência disso, o tratamento da FCO com o antioxidante BHT não trouxe benefícios ao desempenho das aves.

 

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