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Educação e Pesquisa

Print version ISSN 1517-9702

Educ Pesq vol.27 no.1 São Paulo Jan./June 2001

http://dx.doi.org/10.1590/S1517-97022001000100004 

Caminhos cruzados: educação e gênero na produção acadêmica

 

Fúlvia Rosemberg
Fundação Carlos Chagas e PUC-SP

Correspondência:
Fúlvia Rosemberg
Fundação Carlos Chagas
Av. Prof. Francisco Morato, 1565
05513-900 - São Paulo – SP
e-mail: frosemberg@fcc.org.br

 

 

Resumo

O artigo discute a produção acadêmica contemporânea brasileira sobre educação e gênero (ou mulheres) a partir da análise de três fontes de dados: a base de teses e dissertações de programas de Educação filiados à ANPEd no período 1981-1998; o diretório de pesquisadores(as) Quem pesquisa o quê em Educação: 1998; e seis coleções de revistas especializadas em Educação e Estudos Feministas (de gênero).
A análise do catálogo da ANPEd (1999) evidencia um aumento de teses/dissertações em números absolutos no período, uma concentração em certas universidades, de autoria e de orientação majoritariamente feminina. Tal perfil da produção acadêmica é confirmado, no geral, pelos dados sobre pesquisadores(as) incluídos(as) no diretório organizado pela ANPEd.
Quanto à temática, nota-se dispersão e ausência relativa de questões que compõem a agenda educacional contemporânea. Teses e dissertações focalizam mais a condição feminina que o sistema educacional numa perspectiva de gênero. Esta particularidade foi também notada nas revistas especializadas em Educação. Por seu lado, as revistas feministas dão muito pouco espaço ao tema e disciplina da Educação. Daí os caminhos cruzados entre Educação e Estudos sobre a Mulher ou Gênero.
O artigo conclui destacando os possíveis efeitos deletérios de tal fragilidade acadêmica no plano das propostas atuais sobre igualdade de gênero na educação.

Palavras-chave

Educação – Gênero – Mulher(es) – Produção acadêmica.

 

Crossing paths: education and gender in academic production

Abstract

The article discusses the contemporary Brazilian academic production on education and gender (or women) from the analysis of three sources: the 1981-1998 database of theses and dissertations of graduate programs affiliated to ANPEd (Brazilian Research Association in Education), the researchers directory Quem pesquisa o quê em Educação: 1998, [Who researches what in Education: 1998] and six collections of specialized journals in Education and Feminist Studies (gender).
The analysis of ANPEd’s 1999 catalog makes clear an increase in the absolute number of theses/dissertations in that period, a concentration of works from some universities, and a largely feminine authorship and supervision. The same profile is broadly confirmed by the data of researchers included in ANPEd’s directory.
With respect to the themes of work, dispersion and a relative absence of issues of the contemporary educational agenda can be noticed. Theses and dissertations tend to focus on the feminine condition rather than on a gender perspective of the education system. This feature was also noted in specialized journals in Education. In their turn, feminist periodicals dedicate little space to the theme and subject of Education. Hence, the crossing paths of Education and Women or Gender Studies.
The paper concludes by highlighting the possible detrimental effects of such academic frailty on the level of current proposals about gender equality in education.

Keywords

Education- Gender- Women - Academic production.

 

 

O tema educação das mulheres ou educação e gênero vem concitando a atenção de pesquisadores(as) e especialistas em diferentes países do mundo, inclusive no Brasil, especialmente durante os anos 1990. Assim, por exemplo, desde a Conferência Educação para Todos, realizada em 1990 em Jomtien, as grandes conferências mundiais realizadas sob a égide da ONU na última década – como as de Desenvolvimento (Copenhague), de População (Cairo), da Mulher (Pequim) – incluíram o tema em sua pauta (REPEM, 1997).

No plano acadêmico destaco, por exemplo em cenário internacional, a inclusão do tema igualdade dos sexos em educação e formação no grande evento francês Biennale de l’Éducation em 1996, e que deu origem ao livro editado por Nicole Mosconi (1998). Na introdução desse livro, Mosconi tece as seguintes considerações:

Após um primeiro período que se poderia denominar de "apagão" (black-out no original), quando a variável sexo era completamente ausente, ou tratada como variável secundária (...), surge, com a ascensão do neo-feminismo e do aumento de mulheres pesquisadoras e universitárias, um período de crítica epistemológica (...) [na educação]. Enquanto no período precedente, o ponto central era a forte correlação entre origem social e sucesso escolar, o período posterior evidenciou um fato paradoxal: um melhor aproveitamento escolar das moças, pois as moças das classes populares apresentam rendimento escolar equivalente ao dos rapazes de classe média, ao mesmo tempo [em que se observa] a persistência de uma intensa diferenciação sexual nos ramos de estudos. (1998, p. 16-17)

Para apoiar tais informações, Mosconi (1998) cita o já famoso livro Allez les filles, da dupla de autores sobejamente citada no Brasil nos anos 1970 e 1980, Baudelot e Establet, naquele momento referida ao paradigmático livro L’école capitaliste en France (1971), metáfora perfeita para a mudança de foco assinalada por Mosconi (1998).

No Brasil da era dos apagões, se o black-out sobre o tema educação/gênero/ mulher não mais ocorre (Sponchiado, 1997; Rosemberg, 2001), o cenário ainda é muito insatisfatório. Assim Rosemberg e colaboradoras (1990), apoiadas em levantamento bibliográfico que localizou 755 títulos publicados no período 1975-1989 sobre educação formal da mulher brasileira, assinalaram:

a tematização persiste sendo educação da mulher e não educação e relações de gênero; grande parte das pesquisas educacionais ignoram o conhecimento que vem sendo acumulado na área de estudos sobre a mulher; a área de estudos sobre mulher/gênero tem produzido pouca reflexão teórica (e mesmo informações empíricas) sobre a educação (...). Há um fosso entre ambas as áreas de produção de conhecimentos. São dois guetos que coexistem, ignorando-se quase que totalmente. As interações são fortuitas e ocasionais, tanto na literatura reflexiva sobre o conhecimento produzido, quanto na própria produção atual de estudos e pesquisas. O que marca e dá o tom é a separação. ( 1990, p. 9)

Tendo sido incitada a visitar o tema para um balanço sobre os aportes dos estudos de gênero em face dos dilemas da educação brasileira, fui a campo orientada pela pergunta: teria a década de 1990 alterado o cenário descrito anteriormente?

Para dar conta da empreitada, selecionei três tipos de fontes para analisar: teses e dissertações defendidas em programas filiados à ANPEd; o diretório Quem pesquisa o quê em Educação: 1998 (Velloso, 1999), elaborado pela ANPEd; coleções de revistas especializadas em Educação e em Estudos Feministas (ou de gênero ou sobre mulher).

Relatarei, a seguir, o que encontrei em cada tipo de fonte.

 

Teses e dissertações em Educação

O ponto de partida para este tópico foi a dissertação de mestrado de Justina Inês Sponchiado – Docência e relações de gênero: um estudo de dissertações e teses defendidas em instituições brasileiras no período de 1981 a 1995 –, defendida em 1997 junto ao Programa de Pós-Graduação de História e Filosofia da Educação, da PUC-SP, sob orientação de Nereide Saviani, que partiu da análise do banco de dados de teses e dissertações defendidas em programas filiados à ANPEd.

Para este meu trabalho, havia planejado apenas atualizar a pesquisa de Sponchiado (1997) para o período ulterior à pesquisa mencionada (1996-1998). Porém, ao manusear a base de dados da ANPEd, percebi que Sponchiado (1997) não havia acionado todos os índices disponíveis e nem o maior número possível de termos/descritores para captar a temática que nos interessa. Por exemplo, apoiando-se exclusivamente no índice de descritores, Sponchiado (1997) observou, judiciosamente, que a base de dados ainda não havia incorporado a palavra-chave GÊNERO! Porém, ao acionar o índice "título e descritor", localizei 29 teses/dissertações que trazem o termo gênero no título.1Assim, apesar de ter-me inspirado na dissertação de Sponchiado (1997), tive que, além de atualizar sua análise, refazer parte do percurso.2

Estudos sobre mulher(es), condição feminina, identidade feminina, feminismo, papéis femininos, sexismo; estudos sobre homens, masculinidade(s) hegemônica(s)ou não, identidade masculina, papéis masculinos, dominação masculina, machismo; estudos de gênero, identidade de gênero, papéis de gênero, subordinação/dominação de gênero; relações sociais de sexo, patriarcado foram expressões ou termos (por vezes empregados ingenuamente) que encontrei na literatura e que remetem a uma pluralidade de conceitos e enfoques teóricos, muito distantes da unanimidade. Tal diversidade pode ser entendida como sinal de fragilidade ou de dinamismo social e teórico de estudos sobre mulher/gênero, ou, ainda, da falta de consenso como assinala Flax (1992).

Interpreto, porém, a multiplicidade de descritores e termos que encontrei no arquivo como indício de que o campo de conhecimentos ainda não está constituído, pois autores(as) e organizadores(as) da base de dados parecem não dispor de indicadores claros para identificar o novo recorte (Quadro 1). É inevitável a sugestão de inclusão do descritor gênero na base de dados e de uma atenção especial de autores(as) aos descritores selecionados, ao indexarem teses e dissertações, especialmente depois da disponibilidade de um tesauro em português sobre gênero elaborado por Bruschini e colaboradoras (1997).

 

 

Estados da arte sobre a pesquisa brasileira em Educação são unânimes em afirmar que sua base institucional contemporânea são os programas de pós-graduação sediados nas universidades (Campos & Fávero, 1994; Cunha, 1991; Gatti, 1983; Warde, 1993; Velloso, 1999). Apesar de os programas de pós-graduação em Educação serem os principais focos de produção acadêmica sobre a disciplina, daí a escolha da base de dados da ANPEd como principal fonte para este levantamento, é necessário destacar, de início, que esta associação não é total, pois: nem todas teses/dissertações sobre educação são produzidas em programas de pós-graduação em Educação;3 nem todas as teses/dissertações produzidas em programas de pós-graduação em Educação são sobre educação. Nos levantamentos aqui referidos, por exemplo, tanto Sponchiado (1997) quanto eu mesma localizamos inúmeros títulos aparentemente muito distanciados de um recorte da Educação (o uso de "aparentemente" decorre do fato de que essas conclusões basearam-se exclusivamente na análise de títulos e resumos e da imensidão do campo da Educação se aí incluirmos todos os temas e subtemas da educação permanente), tendo sido acolhidos em programas de pós-graduação em Educação. Aspecto crucial que será tratado ao final do tópico.

No período sob exame – 1981 a 1998 – localizei, usando a multiplicidade de índices e termos/descritores mencionados, 233 teses/dissertações referindo-se ou tratando de mulher/relações de gênero.4 Sponchiado (1997), analisando a progressão do número de teses e dissertações sobre o tema que localizou na base de dados da ANPEd, qualifica a área como candente. Este qualificativo pode ser usado se atentarmos exclusivamente para a progressão em números absolutos. Se é verdade que encontramos um aumento do número de teses e dissertações sobre mulher/relações de gênero indexadas no catálogo da ANPEd, esse crescimento parece decorrer da expansão da pós-graduação em Educação mais do que, digamos, do vigor do tema na área.

Com efeito, a proporção de teses/dissertações sobre o tema, no cômputo geral da produção discente pós-graduada em Educação, não apresenta curva ascendente, mas denteada em torno dos extremos 1,1% (1990 e 1992) e 4,1% (1987). Assim, o perfil da distribuição de teses e dissertações sobre mulher/relações de gênero por ano, no transcorrer do período, não evidencia o crescimento progressivo que a grande área Educação apresenta (Tabela 1, Gráfico 1).

 

 

 

 

Além disso, comparando com outros temas já pesquisados na mesma base de dados, a fatia referente à educação da mulher/relações de gênero parece reduzida: Giglio (1998) encontrou 12% de teses/dissertações sobre formação docente referentes ao período 1986-1995; Eloisa Candal Rocha (1999) identificou 292 teses/dissertações sobre educação infantil (4,6%) no período 1983-1996. Porém, sua posição é vantajosa quando comparada ao recorte educação e relações raciais conforme levantamento de Luiz Gonçalves e Petronilha B. G. Silva (2000), que identificaram apenas vinte dissertações/teses sobre esse tema.

O balanço sobre teses/dissertações defendidas em programas de pós-graduação brasileiros em Educação, efetuado por Maria Malta Campos e Osmar Fávero (1994), destaca três pontos cruciais, além da consolidação da área, que detecto, também, da mesma forma que Sponchiado (1997) o fizera, para o tema em questão: desproporção entre dissertações e teses; distribuição desigual pelo território nacional e divulgação precária dos resultados (Quadro 2). Observamos, então, aqui também, prevalência de dissertações sobre teses, realizadas no Sul/Sudeste do país, de autoria e sob orientação de mulheres.5

 

 

A análise da distribuição de freqüência de teses e dissertações pelas universidades mais profícuas mostra uma certa defasagem na posição ocupada quando se compara a produção geral em Educação à produção específica sobre o tema educação da mulher e relações de gênero. Com efeito, apesar de ter localizado teses e dissertações sobre o tema em 30 (81,1%) das 37 universidades catalogadas pela ANPEd, 72% da produção concentra-se em nove universidades, situadas predominantemente no eixo Sul/Sudeste (exceção advém da UFPb). Porém, as campeãs de produção de teses e dissertações sobre o tema (em números absolutos e percentuais) nem sempre ocupam posição equivalente no campo amplo da Educação (Tabela 2).

 

 

Isto é, poderíamos falar em focos de produção discente sobre educação da mulher e relações de gênero: a UFRGS, sem dúvida, é a grande campeã; a PUC-SP, com o maior percentual frente à produção discente dos programas em Educação, seguidas da USP, da UFMG e PUC-RGS. Dentre elas, merece destaque a UFRGS, que apresenta o perfil mais constante de produção ao longo do período 1981-1998. Foram poucos os anos (81, 82, 85, 86, 88, 92, 97) em que essa universidade não tenha levado à defesa uma dissertação ou tese sobre o tema. Além disso, a UFRGS tem contado em seu quadro docente com professores(as) orientadores(as) profícuos(as) no geral e relativamente constantes na orientação de teses e dissertações sobre o tema educação da mulher e relações de gênero (Tabela 3).

 

 

Se algumas docentes, como Nara Maria Guazzelli Bernardes e Guacira Lopes Louro, ostentam fluxo de orientações mais condizente com um ritmo de "especialista",6 outros docentes imensamente profícuos orientaram teses e dissertações sobre educação da mulher e relações de gênero em ritmo bissexto, decorrência possível de um perfil mais "generalista". Ponto importante a considerar sobre o impacto desse perfil de produção: certa dispersão que dificulta a constituição de linhas de pesquisa com continuidade e aprofundamento teórico, além de, provavelmente, obscurecer a visibilidade da produção acadêmica em Educação na área de estudos sobre mulher/relações de gênero, questão discutida adiante.

Analisando a evolução da produção no período 1981-1995 por universidades, Sponchiado (1997) distinguiu três grupos: um primeiro grupo no qual a maior produção se concentra no período inicial, decaindo ou desaparecendo posteriormente (UFPb e UNIMEP, além do programa de Psicologia da Educação da PUC-SP); um segundo grupo, no qual a maior produção concentra-se no meio do período (UNICAMP e UFCE); e um terceiro grupo, no qual a produção se inicia ou se concentra após 1991 (UFRJ, UFSC, UFBa, UFGO, UNB, UFAM e PUC-Petrópolis).

Apesar da necessidade de aprofundar a investigação (por exemplo, cruzando o fluxo de defesa com a época de criação de mestrados e doutorados e o número de aposentadorias), o perfil traçado por Sponchiado (1997) parece constituir mais um indício de que o tema ainda não esteja consolidado nos programas de pós-graduação em Educação.

O perfil da produção de teses e dissertações sobre o tema não parece, pois, divergir do perfil traçado por Rosemberg sobre os estudos sobre mulher/relações de gênero em geral (e não apenas em Educação):

Há algumas evidências de que a temática mulher/gênero tenha se infiltrado na universidade, não sendo monopólio de algumas poucas especialistas (...) a expansão tem ocorrido pelas brechas provocadas pela própria institucionalização das humanidades da universidade brasileira (...) fragilidade decorrente do ainda pequeno número de acadêmicas. Uma tese, uma bolsa mais longa no exterior [acrescento agora, uma aposentadoria] podem interromper temporariamente as atividades de certos núcleos. Ainda somos muito poucas atuando numa rede cuja trama vem sendo tecida informalmente, sugerindo desenho imprevisível (...). Há indícios de renovação das acadêmicas. Continuamos sendo procuradas por jovens mestrandas, muitas delas interessadas nos estudos sobre mulher/gênero e que tiveram uma vivência educacional bastante diversa das veteranas. (1993, p.221, 222, 223, 224)

Notam-se agora, porém, alguns poucos indícios de constituição de especialistas: uma mesma autora produzir, no período, uma dissertação de mestrado e uma tese de doutorado sobre educação da mulher/relações de gênero, indicando consolidação de trajetória acadêmica. Detectamos (o plural, aqui refere-se ao estudo de Auad, 1998), também, casos de "conversão": uma mesma autora produzindo um mestrado fora da temática e um doutorado na temática. Dada a juventude de alguns doutorados, considero prematuro vaticinar um futuro. Considero, porém, relevante que nos preocupemos com a progressão acadêmica de pesquisadores(as) sobre o tema, visando à consolidação de linhas de pesquisa, condição sine qua non para o acúmulo dos conhecimentos.

A análise do cadastro da ANPEd evidencia, ainda, que se trata de uma produção feminina: 92,3% de teses/dissertações são de autoria de mulheres, percentagem que cai para 70% quando se focalizam orientadoras. Esta diferença entre autoria e orientação, possivelmente, reflete características da dominação de gênero do mercado de trabalho: em se tratando de uma área de atuação com predomínio de mulheres, "homens-coringa" galgam, rapidamente, posições de destaque, inversamente ao que ocorre com mulheres em profissões masculinas.7

A análise do banco de dados da ANPEd permite, também, que se apreendam sub-temas prevalentes e emergentes. Comparando-se à produção da década anterior, nota-se o progresso notável da História, associado à produtividade de orientadoras profícuas trabalhando em centros profícuos e que apresentam um perfil próximo ao que Rosemberg (1993) identificara na análise dos curricula vitae de pesquisadoras/docentes da área de estudos da mulher/gênero: uma especialização parcial na temática mulher/gênero, mantendo produção (e possivelmente diálogo) na grande área de origem, neste caso, a História da Educação.

A partir de um olhar mais impressionista sobre a produção dos anos 1990, como se de um vôo de pássaro, configurei o seguinte quadro: mulher e relações sociais de sexo/gênero constitui uma questão acolhida por programas de pós-graduação em Educação que podem, ou não, estimular a produção de teses e dissertações que tratem de problemática considerada relevante pela disciplina; as teses de doutorado constituem novidade dos anos 1990 e é essa década que assiste, de um lado, a maior entrada de homens como autores e enquanto tema (masculinidade) e, de outro, sua menor participação como orientadores.

Na exortação final do balanço sobre Estudos sobre mulher e relações de gênero, Rosemberg destacava, entre outras necessidades: "Há que encontrar estratégias para apoiar, especialmente, o pequeno contingente de mulheres negras educadas, precursoras potenciais de uma nova fase dos estudos sobre mulher/gênero (...)" (1993, p. 224). Nesse passeio a vôo de pássaro por teses/dissertações da década de 1990, foram encontrados alguns títulos sobre etnia/relações raciais, praticamente inexistentes na década anterior.

Esse mesmo passeio permitiu que apreendesse a incorporação de assuntos que têm mobilizado ONGs, organizações multilaterais e mídia: meninos(as) em situação de rua, gravidez adolescente. É paradoxal que a partir do termo "meninas" e "meninos" tenham-se levantado quase que exclusivamente referências a "meninas(os) de rua" (e não alunas/os) e que foram quase inexistentes os títulos que focalizam diretamente os temas/problemas priorizados seja pelo movimento de mulheres (como sexismo no currículo e em livro didático), seja pelo debate nacional em educação (por exemplo, reprovação/atraso escolar), com exceção da formação/atuação docente.

A condição de criança parece não ter mobilizado, ainda (ou muito pouco), a produção acadêmica nacional sobre educação. Estamos longe do movimento observado, por exemplo, na Sociologia da Educação anglo-saxônica ou francófona dos anos 1990, especialmente a partir da difusão de correntes pós-estruturalistas: a concepção de criança como ator social (Sirota, 2001). Raríssimos estudos parecem ter ido à busca do lugar da infância na construção social das relações de gênero no sistema educacional. Ora, 61% da população estudantil brasileira é composta por crianças e adolescentes com até 14 anos de idade.8 E é essa faixa etária que vive a "hora da verdade" da educação brasileira (Fonte: PNAD 99).

Do estudo de Sponchiado, destaco um aspecto de grande relevância: a dispersão temática e abrangência disciplinar de teses/dissertações realizadas em programas de pós-graduação em Educação. A questão não é nova: Warde (1993) havia destacado a fragmentação e pulverização de temas e abordagens em teses/dissertações em Educação; Campos e Fávero (1994, p. 6) descreveram essa produção como "um conjunto bastante heterogêneo no que se refere à qualidade, à cobertura dos temas mais importantes da área, e ao impacto que tem produzido sobre a realidade educacional brasileira".

No campo de estudos de Educação e gênero, porém, tal observação quanto a generalidades constitui apreciação nova. Foi essa abrangência disciplinar que impulsionou Sponchiado (1997) a classificar dissertações e teses em duas categorias: aquelas sobre "educação escolar", que se referem à "prática social que se dá na escola"; aquelas sobre "educação no seu sentido amplo", diria mesmo muito amplo pois se referem ao "processo constitutivo do ser humano" (1997, p. 66). De acordo com tal processo de classificação, a autora encontrou um menor número de teses e dissertações referidas à educação escolar propriamente dita (48,5% do total). Essa primeira constatação é carregada de implicações: há fortes indícios de que um pouco mais da metade de teses e dissertações defendidas sobre mulher/gênero em programas filiados à ANPEd mantém laços frouxos com a disciplina Educação. Portanto, a maioria (51,5%) da produção localizada por Sponchiado (1997) no período 1981-1995 trata de educação em sentido amplo, abrindo em muito o leque de assuntos. Como salienta a própria autora, trata-se tanto de um campo de estudos sobre a "condição feminina" quanto de Educação e gênero. Se me permitem a metáfora, vários programas de Educação poderiam se configurar como "úteros de aluguel". Nessa categoria, os assuntos que prevalecem são aqueles que também prevalecem na área de estudos da mulher/relações de gênero produzidos fora dos programas de pós-graduação em Educação, temas valorizados, ainda, pela prática militante (Sarti, 1988): trabalho, saúde, sexualidade, violência, cultura, movimentos sociais e identidade. Ou seja, um pouco mais da metade de teses e dissertações sobre o tema defendidas em programas de Educação compete com teses e dissertações produzidas em outras áreas disciplinares: Sociologia, Antropologia, História, Psicologia.

Alguns títulos de teses/dissertações pinçados podem exemplificar tal abrangência: Mulher e trabalho: duplo preconceito (Navajas, 1995); O imaginário cultural moderno e a constituição do sujeito adolescente: contribuição ao estudo da adolescência através da análise de uma revista feminina (Souza, 1998); Do destino biológico ao destino social: unidades domésticas gerenciadas por mulheres – 1970/1995 (Nader, 1996).

Se a forma de análise de Sponchiado (1997) – exclusivamente através de títulos, resumos e descritores – recomenda prudência em generalizações, assim mesmo a constatação merece atenção. A partir desses indicadores, Sponchiado caracteriza o campo como estando em constituição.

"Quanto a certa "pulverização" de assuntos, verificada inclusive nas teses, esta pode caracterizar dispersão e falta de acúmulo – e portanto de aprofundamento – mas também pode dever-se às condições de um período (e estamos falando de 15 anos próximos do final do século) em que os olhares se voltam para muitas e diferentes facetas, de uma mesma questão, possibilitando despertar para elementos importantes da compreensão das relações de gênero e das relações sociais no seu sentido amplo. Especialmente no caso dessa temática, parece compreensível que as coisas de dêem dessa maneira por tratar-se de um campo em constituição." (1997, p. 70)

O problema não é a dispersão de qualquer olhar, mas a dispersão de temas, possivelmente na construção do objeto das investigações, que dialogam com áreas de conhecimento fora da Educação.

Daniela Auad (1998), outra jovem pesquisadora que se ateve à análise da produção recente sobre educação e gênero – Formação de Professoras: um estudo dos Cadernos de Pesquisa a partir do referencial de gênero –, relê esta passagem, enriquecendo-a e contrapondo-se, então, a Sponchiado (1997), vindo em defesa do campo:

A presença de gênero em diferentes temas educacionais, a meu ver e contrariamente ao que afirma Sponchiado, indica que já existe um campo de pesquisa em gênero constituído e tal categoria não se confinou a determinado tema educacional, mas é considerada em pesquisas educacionais de variados temas, ainda que estas pesquisas representem uma pequena parcela da produção dos Programas de Pós-Graduação no Brasil. (Auad, 1998, p. 50, grifo meu).

A questão que me parece pertinente nesse debate decorre do sentido que se dê a "considerar" e o que se espera da produção acadêmica. É possível concordar com Auad (1998) se atribuir sentido amplo a considerar, incluindo, até mesmo, o simples mencionar.

Diria que o campo da Educação não ignora a existência de um debate sobre gênero na academia,9 mas que a produção discente pós-graduada em seu conjunto não mostra indícios de um campo estabelecido de conhecimentos na disciplina. Considera-se, menciona-se, refere-se ao debate mulher e relações sociais de sexo/gênero, algumas vezes, do mesmo modo que político pede a bênção a um líder religioso ilustre. A questão que me parece em jogo aqui (ou pelo menos aquela que me mobiliza) é a de saber o quanto a perspectiva de análise mulher e relações de gênero em Educação tem contribuído para compreender dilemas da Educação no Brasil.

Essa imagem do "pedir a bênção" veio-me à cabeça ao efetuar a análise de títulos e resumos de dissertações e teses a partir dos descritores/termos equivalentes a "professora", no feminino, no banco de dados da ANPEd. Essa busca acionou 107 referências. Meu primeiro movimento foi ficar entusiasmada com a "pescaria". Lendo os resumos, dei-me conta que o feminino que substituía o genérico masculino anterior (influência, ou não, do conhecido artigo de Bruschini e Amado de 1988) referia-se, em muitos casos, ao fato de que os sujeitos "empíricos" eram mulheres, como poderiam ser homens ou neutros. Ou genéricos femininos. Sem mais.

Para completar esta análise, detive-me na produção de teses e dissertações sobre mulher/relações de gênero realizadas na Universidade de São Paulo. Localizei dez teses de doutorado e nove dissertações de mestrado, todas de autoria feminina, a maioria defendidas após 1994 e orientadas por mulheres. Diferentemente do que observara para o conjunto nacional, aqui predominaram teses/dissertações versando diretamente sobre temas educacionais. O que marca a produção da USP é o reduzido número de teses/dissertações sobre o tema em face do montante daquelas indexadas no arquivo da ANPEd: 3,2% ou seja 19 teses/dissertações sobre o tema para um total de 595 teses/dissertações indexadas pela ANPEd (a USP responde por 6,8% das teses/dissertações catalogadas pela ANPEd).

 

 

A pesquisa de Blay e colaboradoras (1990) já continha informações, para toda a área de estudos sobre mulher na USP, relativas ao predomínio de doutorados sobre mestrados e à pequena participação da Educação e da Faculdade de Educação na produção de teses/dissertações sobre o tema. Com efeito, das 120 teses/dissertações (mestrado, doutorado e livre-docência) localizadas por Blay e colaboradoras (1990) na USP no período 1985-1989, apenas sete (5,8%) versaram sobre Educação e apenas uma havia sido defendida na Faculdade de Educação! Oxalá o crescimento observado agora possa se manter ou acentuar nos próximos anos!

 

Educação e gênero no diretório de pesquisadores(as)

Em 1997 a ANPEd organizou o diretório Quem pesquisa o quê em Educação: 1998, identificando pesquisadores(as) que atuavam (entre 1991 e 1995) em programas de pós-graduação stricto sensu em Educação que respondiam a três condições no sistema de avaliação da CAPES; programas reconhecidos; cursos novos; cursos ainda sem avaliação. Visando

facilitar o intercâmbio entre pesquisadores em educação no Brasil (...), o diretório indica traços do perfil acadêmico dos pesquisadores e de sua produção, além de informações que permitem uma comunicação entre eles (Velloso, 1999, p.9).

O diretório divulga uma ficha por pesquisador(a) na qual constam seis campos: nome, titulação, áreas de interesse de pesquisa, projetos de pesquisa, publicações (limite de cinco títulos), informações que se referem ao período 1991-1995.

No contexto desse balanço, a análise do diretório (trabalhosa, pois tive acesso apenas à versão em papel da qual não consta índice remissivo de palavras-chave) foi possível graças à inclusão de palavras-chave nos campos sobre projeto e publicações, além, evidentemente, de o campo "áreas de interesse" remeter a recortes temáticos ou teóricos.

Analisei, então, manualmente cada uma das 490 fichas que integram o diretório, identificando aquelas em que os(as) pesquisadores(as) empregam, em qualquer um dos campos pertinentes, palavra-chave associada ao tema estudos sobre mulher/relações de gênero.

Nessa busca localizei 31 pesquisadores(as) que mencionaram algum tipo de produção (projeto ou publicação) ou área de interesse pelo tema em questão, o que significa 6,3% do diretório. No quadro 4, foram destacadas as características prevalentes desse conjunto de fichas.

 

 

Nota-se uma consistência, até certo ponto esperada, com dados e interpretações apresentados a partir da análise da base de dados sobre dissertações e teses: predomínio nítido de pesquisadoras (80,6%); distribuição em poucos programas ou universidades (41,7% dos 36 programas arrolados pelo diretório); posição de destaque assumida pelas UFRGS e UFMG que ostentam o maior número de pesquisadores(as) sobre o tema; dispersão por uma variada gama de palavras-chave e áreas de interesse, com abertura para o conceito de educação em seu sentido amplo (ver quadro 5).

 

 

Deve-se notar, também, que o tema estudos sobre mulher/relações de gênero, no âmbito dos programas de pós-graduação em Educação, constitui "área de interesse" de pesquisa apenas para quinze pesquisadores(as), 3,1% daqueles cadastrados(as) no diretório 1998 da ANPEd, cifra próxima à de teses e dissertações defendidas no período.

 

O tema em revistas acadêmicas

Nesta seção apresentarei e discutirei o que encontrei em revistas acadêmicas: de um lado, o tratamento dado ao tema mulher/relações de gênero em duas coleções de revistas especializadas em Educação; de outro, o tratamento dado à Educação em revistas especializadas em estudos feministas, sobre a mulher ou relações de gênero.

  • Mulher/gênero em revistas da Educação.

Visando ampliar a margem de segurança para avançar na pista lançada por Sponchiado (1997), dada a fragilidade da base empírica, que apoiou-se apenas em resumos de teses/dissertações, efetuei uma análise complementar de duas coleções de revistas com posição reconhecida na Educação: os Cadernos de pesquisa10 da Fundação Carlos Chagas e a revista Educação e realidade da UFRGS. Essas revistas foram escolhidas por sua associação a grupos que vêm tratando, de modo relativamente contínuo, o tema aqui destacado, e porque constam, de seu quadro de pesquisadoras, autoras dentre as mais citadas em teses e dissertações compulsadas por Sponchiado (1997)11.

Procurei, por meio de títulos, descritores e uma leitura (ou releitura), por vezes em diagonal, classificar os artigos sobre mulher/gênero em duas categorias: aqueles específicos e diretos sobre Educação; aqueles sobre outros temas ou remetendo a uma concepção ampliada de Educação, não referindo-se ao sistema de ensino/educação formal.

Evidentemente não estou criticando nem a qualidade nem a pertinência dos artigos publicados nessas revistas. Por exemplo, Educação e realidade publicou uma série de traduções indispensáveis de autores(as) de escol, no campo de estudos de gênero, abrindo e aprofundando o leque de textos teóricos disponível em português sobre gênero. Para memória, destaco o v. 20, nº 2 de jul/dez 1995, que trouxe o trio Scott, Bourdieu e Connel. Minha argumentação, aqui, é que, ao retirar da massa de produção em Educação os estudos e as pesquisas sobre mulher e relações sociais de sexo/gênero no geral, reduzo, sensivelmente (pela metade), a produção específica em Educação.

Além disso, ouso formular a pergunta: seriam os programas de pós-graduação em Educação os espaços institucionais mais adequados para apoiar a realização de teses e dissertações sobre assuntos não-educacionais e que dispõem de um acervo teórico-metodológico amplo e complexo – em debate e embate acirrados – em outras disciplinas? Teriam essas pesquisas chance de competir com aquelas produzidas em contextos universitários de disciplinas tais como a Antropologia, Sociologia, Política, Saúde, por exemplo?

Talvez essa dispersão e generalidade de boa parte da produção acadêmica em Educação possa explicar, parcialmente, a reduzida penetração do tema na área de estudos sobre mulher/relações de gênero,12 que no Brasil, dada sua configuração histórica, evidencia uma forte associação a disciplinas vinculadas às Ciências Sociais.

Focalizei, aqui também, atenção especial à USP, analisando artigos publicados nos 51 números da revista da Faculdade de Educação em suas duas denominações: Revista da Faculdade de Educação e Educação e pesquisa (1975 a 2000). Os resultados foram desalentadores: dos 376 artigos publicados, incluindo dossiês, apenas quatro trataram de temas relativos a mulher/gênero. Ou seja, nem mesmo a produção de teses/dissertações defendidas na própria Faculdade de Educação, no formato de artigos, encontraram, em seu veículo de divulgação, um canal para difusão.13

Portanto, considerei a observação de Sponchiado (1997) uma pista instigante e relevante para procurar entender o desinteresse que tenho observado nos estudos feministas brasileiros (ou de gênero) pelo tema/disciplina da Educação.

  • Revistas especializadas em gênero/feminismo

Outra possibilidade de análise da interação entre as áreas da Educação e estudos sobre mulher e relações de gênero provém das revistas especializadas em gênero/feminismo. Como vimos, tanto os Cadernos de pesquisa quanto a Educação e realidade acolhem, com uma freqüência relativamente alta, artigos sobre mulher e relações de gênero para além da educação. Vejamos, agora, qual o espaço do tema Educação nas publicações feministas e/ou sobre estudos sobre mulher(es) e relações de gênero.

Do acervo de periódicos indexados na Biblioteca Ana Maria Poppovic, da Fundação Carlos Chagas, selecionei três para análise14 : Caderno espaço feminino, Cadernos Pagu e Estudos feministas (Tabela 5). Os resultados da busca foram pífios: pouquíssimos artigos sobre Educação (14 ao todo nas três revistas). Afora esses artigos, a Educação aparece em resenhas, na transcrição de documentos e, secundariamente, como menção em artigos sobre trabalho associada ao tema da capacitação profissional, profissionalização e na transcrição de relatos de depoentes adultas sobre sua própria experiência educacional quando crianças!

 

 

 

 

Uma análise dos artigos publicados pelas revistas (Quadro 6) sugere que o tema da Educação aparece associado a outros temas que têm merecido destaque (raça/etnia, masculinidade) e em vários artigos estrangeiros, produzidos e referentes a países estrangeiros (especialmente provenientes do encontro Brasil, França, Canadá realizado e publicado em 1994 pela Revista estudos feministas).15

 

 

Há um campo aberto para investigação: a sub-representação decorre do quê? De uma inibição da disciplina da Educação que não submeteria sua produção a essas revistas? Concorrência desequilibrada dado o peso da produção "generalista" em Educação não competitiva em face da produção dos programas especializados nas disciplinas de Ciências Sociais? Idiossincrasias das revistas especializadas? Discriminação? Desconhecimento? Agenda feminista nacional e internacional?

Mesmo que timidamente e com muita precaução, levanto mais uma pista para tentar compreender o relativo afastamento das áreas: a auto-referência das pesquisas sobre mulher e relações de gênero. Em outras palavras, o "adulto-centrismo". Mulheres adultas estudam mulheres adultas. Assim, uma análise atenciosa dos artigos sobre ou mencionando a Educação publicados nas três revistas sugeriu-me que eles se referem, especialmente, à educação relacionada a mulheres adultas: docentes, cientistas, etc.

Se o sujeito do feminismo brasileiro foi, em seu início, a mulher trabalhadora (Sarti, 1988), talvez seja possível afirmar que desde então, mesmo com a ampliação de recortes (saúde/direitos reprodutivos, violência, cultura, identidade/subjetividade), o foco continua sendo a mulher adulta ou as relações de gênero da ótica da vida adulta, com abertura, atual, para a terceira idade, o envelhecimento.16 Daí o uso do qualificativo auto-referência: a inovação dos anos 1970, nos termos fixados como sujeito-objeto de pesquisa em Ciências Humanas e Sociais, deu visibilidade a nós mesmas, mulheres adultas. Quando mulheres adultas brancas feministas abriram espaço para a diversidade, ela veio por intermédio de mulheres negras e homens... adultos(as).

Além disso, a interpenetração entre o feminismo como atuação militante e estudos sobre mulher/relações de gênero deve ser levada em conta, para que se compreenda este quadro, particularmente no Brasil (Sarti, 1988; Rosemberg, 1993). Isto significa atentar para a pequena importância (e pobreza) dada à Educação na agenda feminista brasileira, características compartilhadas, aparentemente, com outros países latino-americanos (González, 2000; Stromquist, 1996). Tem sido difícil ao movimento e teoria feministas enfrentar o desafio de interpretar, simultaneamente, um modelo de dominação de gênero e indicadores de escolaridade que apontam igualdade de acesso/permanência no sistema escolar entre homens e mulheres ou mesmo superioridade feminina, especialmente nos países subdesenvolvidos.

Em síntese: este balanço, amplo em extensão, mas ainda preliminar, sobre a produção de conhecimentos relativos à Educação, mulher e relações de gênero parece indicar pequeno avanço da década de 1990 em relação à década anterior. Talvez essa retaguarda ainda pouco estruturada explique, pelo menos em parte, a pobreza das análises de situação, de agendas e de metas a serem atingidas no plano das políticas educacionais sob a ótica da igualdade de oportunidades de gênero.

Nas "considerações finais" do artigo Estudos sobre mulher e educação: algumas questões sobre o magistério, Cristina Bruschini e Tina Amado (1988) afirmaram: "Apesar de não ter sido feita uma pesquisa exaustiva, parece claro, a esta altura, que os estudos sobre mulher e os estudos em educação pouco têm-se beneficiado dos conhecimentos acumulados em uma e outra área" (p.11). E concluem mais adiante:

Boas idéias não faltam, o que é preciso é que a eliminação da discriminação de gênero seja assumida como questão prioritária por mestres e mestras, acadêmicos e acadêmicas, e elaboradores(as) de políticas públicas. (Bruschini & Amado, 1988, p. 12).

Dez anos mais tarde, outra pesquisadora, Daniela Auad (1998), ao final de sua dissertação na qual analisou dez artigos publicados pelos Cadernos de pesquisa sobre formação de professoras, constatou "carência" de comunicação entre os enfoques da Educação e de gênero.

Apontar carências e exortar sua superação são práticas constitutivas do estilo pesquisador(a) engajado(a). Porém, se compartilhamos algum tipo de objetivo geral – no caso, a democratização da educação em sua formulação mais ampla –, nossa dimensão humana nos coloca numa complexa trama de jogos de poder, de alianças e contra-alianças, e de opções políticas e teóricas, por vezes, divergentes (reais ou camufladas) que podem desfazer a unanimidade. Assim, Pedro não lê (ou não cita) Maria, que não lê (ou não cita) Joana, que prefere ler (ou citar) John, que escreveu quase a mesma coisa que João, que não foi lido (ou citado) por Joana.

Esta corrente da "má vontade" pode se hipertrofiar quando entre João, Joana, John e Maria distribuímos o governo e setores técnicos da administração pública, organizações internacionais (ou multilaterais) e o movimento social. Isto é, atores sociais que participam, mais intensamente que acadêmicos(as), da elaboração das agendas de políticas sociais.

Talvez não seja necessário insistir mais sobre a dificuldade de penetração da produção acadêmica nas instâncias que mais diretamente dispõem de poder na elaboração e implantação da agenda de políticas públicas. Aqui, as "carências de comunicação" são mais notáveis, na medida em que os tempos de produção/intervenção e os estilos de comunicação se distanciam em muito, além das diferenças entre pesquisa fundamental e pesquisa aplicada (tema aparentemente mais discutido nas Ciências Biológicas que nas Ciências Humanas).

Em outro trabalho (Rosemberg, 2001), apontei o quanto a agenda contemporânea de metas e estratégias sobre igualdade de oportunidades de gênero na Educação tem sido inadequada e insuficiente para certos países, como o Brasil, que apresentam igualdade de acesso e progressão para homens e mulheres (esta última com ligeiro predomínio feminino), associada a intensa desigualdade econômica e racial. Como atuar para superá-la com poucas pesquisas, tão dispersas e canais bloqueados de divulgação?

 

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Recebido em 12.07.01
Aprovado em 21.08.01

 

Fúlvia Rosemberg é pesquisadora da Fundação Carlos Chagas e professora no Programa de Pós-Gradução em Psicologia Social da PUC-SP.

 

 

1. Enquanto termo (e não conceito) o sentido pode variar: Uma das teses indexadas refere-se ao termo no sentido de "gênero humano".

2. Para o período coberto por ambas pesquisas, o número de referências localizadas divergiu: assim, no período 1981-1995, Sponchiado (1997) localizou 122 referências a teses e dissertações e eu localizei 142. Esta diferença pode decorrer tanto de caminhos diversos percorridos na pesquisa (índices e descritores/palavras-chave), quanto de um possível envio tardio para a base de dados de informações sobre teses/dissertações defendidas, pois analisei uma versão mais atualizada do arquivo da ANPEd.

3. Por exemplo, no levantamento efetuado por Blay e colaboradores (1990) sobre teses defendidas na USP no período 1985-1985, o tema educação foi identificado em sete delas, sendo que seis dentre elas foram defendidas em programas não filiados à ANPEd.

4. Apesar de trabalho minucioso na base de dados da ANPEd, é possível que outros(as) pesquisadores(as) localizem um número diferente de teses e dissertações se empregarem outros procedimentos, como por exemplo, a leitura de todos os 8.688 resumos indexados.

5. O referido relatório (Campos & Fávero, 1994) também menciona, de passagem, a prevalência de mulheres na pós-graduação em cursos de Ciências Humanas e Sociais. A grande proporção de mulheres como autoras, portanto, pós-graduandas em nossas universidades, associada ao período de vida familiar em que se encontram (idade de procriação), leva-me a apontar a necessidade de que as agências de fomento tratem com seriedade, humanidade e eqüidade a questão da licença-maternidade, questão omitida nos debates contemporâneos sobre eficiência da pós-graduação e da agenda feminista para a educação.

6. Ambas integram o Grupo de Estudos de Educação e Relações de Gênero (GEERGE).

7. Nesse caso, a literatura norte-americana refere-se a "teto de vidro", limite invisível que delimita a ascensão das mulheres; no caso dos homens, refere-se a "escada rolante de vidro", que impulsiona a ascensão masculina (Williams, 1995).

8. Algumas indicações recentes de mudança no cenário: as revistas Educação e realidade (vol. 25, nº 1, dez-jul 2000) e Educação e pesquisa (vol. 26, nº 2, jan-jun 2000) publicaram núcleos temáticos sobre infância, a primeira mais de uma perspectiva da análise do discurso (Os nomes da Infância), a segunda de uma perspectiva da História (Infância na História).

9. Algumas realizações da ANPEd nos últimos anos, a meu ver, atestam esse reconhecimento, tais como o curso ministrado por Guacira Lopes Louro em 1997.

10. Na apresentação dos Cadernos de pesquisa encontra-se a seguinte caracterização da revista: "revista de estudos e pesquisas em Educação publicada desde 1971, tem como objetivo divulgar a produção acadêmica sobre educação, gênero e raça, propiciando a troca de informações e o debate sobre as principais questões e temas emergentes na área".

11. Nicole Mosconi (1998), na introdução do livro Égalité des sexes en éducation et formation, efetua um interessante balanço da produção francesa, mostrando o tardio envolvimento das Ciências da Educação francesas com temas e perspectivas de estudos feministas/da mulher: final dos anos 1980. É do início dos anos 1990 que datam os estudos franceses de fôlego: Mosconi (1989), Baudelot e Establet (1992), Duru-Bellat (1990). Sua análise da Revue française de pédagogie (1982 a 1996) evidencia, também, uma pequena produção de artigos sobre o tema: 6%, ou uma média de um por ano! (Mosconi, 1998).

12. Não estou querendo simplificar o complexo tema da produção e divulgação de conhecimentos, especialmente de novos temas e abordagens que também ajudam a criar e recriar espaços de poder, dentro e fora da universidade. Propus-me a levantar apenas uma pista no plano "operacional" da competição pela divulgação de conhecimentos.

13. Os artigos foram: de Ruy Nunes (1976), Angela Merici, o renascimento e a educação; de Elza Nadai (1991), A educação de elite e a profissionalização da mulher brasileira na Primeira República; de Marília P. de Carvalho (1995), A história de Alda: ensino, classe, raça e gênero; de George Noblit (1993), Poder e desvelo na sala de aula.

14. A análise consistiu no exame de toda a coleção de cada revista, destacando a presença ou ausência do tema Educação em todas as seções. Agradeço a colaboração das bibliotecárias para o levantamento preliminar cujo resultado coloco à disposição dos(as) interessados(as), como também a seleção efetuada na base de dados e no diretório de pesquisadores(as) da ANPEd.

15. A Revista estudos feministas publicará em 2001 um dossiê sobre Educação e gênero.

16. O número 13 dos Cadernos Pagu "Gênero em gerações" (1999), diferentemente do que esperaria um(a) leitor(a) mais distraído(a), trata exclusivamente de idosos(as) e envelhecimento. O tema mereceu, também, um dossiê em Estudos feministas (v. 5, nº 1, 1997)