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Educação e Pesquisa

Print version ISSN 1517-9702On-line version ISSN 1678-4634

Educ. Pesqui. vol.29 no.1 São Paulo Jan./June 2003

http://dx.doi.org/10.1590/S1517-97022003000100005 

Metodologia de análise de ferramentas computacionais segundo os princípios da lógica operatória

 

Methodology for the analysis of computational tools according to the principles of operative logic

 

 

Patricia Alejandra Behar; Deise Bortolozo Pivoto; Fabiana Santos da Silveira; Gretel Siblesz

Universidade Federal do Rio Grande do Sul

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

O presente estudo é um dos resultados obtidos pelo grupo de pesquisa que realiza a Análise de Ambientes Computacionais, do ponto de vista da lógica operatória, no Nuted – Núcleo de Tecnologia Digital aplicada à Educação Faced/UFRGS.
Utiliza-se a lógica operatória piagetiana como base teórica para a construção de uma metodologia de análise de ferramentas computacionais. Portanto, foi preciso definir os conceitos utilizados no método proposto em forma de quadro. Em primeiro lugar, investigou-se a teoria do sujeito individual, no que se refere à sua estrutura e função simbólica, reinterpretando esses conceitos no objeto. Nesse caso, o objeto é a ferramenta computacional de uso individual.
A partir desse estudo, foi possível construir o modelo geral de interação de um sujeito qualquer com uma ferramenta computacional, para depois analisá-la operatoriamente. Em um segundo momento, foi introduzida a teoria do sujeito coletivo e construído o modelo interativo do mesmo com a ferramenta computacional de uso coletivo. Esses modelos construídos são utilizados para visualizar a interação e identificar, tanto na ferramenta quanto no usuário, as operações lógicas ou infralógicas e os agrupamentos de classes ou relações, de acordo com os espaços topológicos euclidiano e projetivo. É importante fazer essa distinção, pois há ferramentas que suportam apenas operações do tipo individual e, outras, operações coletivas/cooperativas.
Logo, pela aplicação desses modelos, poderá ser identificado o nível operatório em que um sujeito deve se encontrar para interagir com um ambiente computacional, assim como a estruturação e reestruturação dessas operações durante a própria interação.

Palavras-chave: Lógica operatória – Informática - Ferramentas computacionais.


ABSTRACT

The present study is a result of the efforts of a research group from NUTED – Núcleo de Tecnologia Digital aplicada à Educação (Center of Digital technology Applied to Education) at FACED/UFRGS, which works on the Analysis of Computer Environments from the viewpoint of operative logic.
Jean Piaget's operative logic is employed as the theoretical basis for the development of a methodology for the analysis of computational tools. The concepts used in the proposed method had to be defined in matrix form. Firstly, the theory of the individual subject was investigated with respect to its structure and symbolic function, reinterpreting these concepts in the subject. The object here is the computational tool for individual use.
From this study, it was possible to build the general interaction model of any subject with a computational tool, and then to analyze it operatively. After that, the theory of collective subjects was introduced, and the model of its interaction with a tool of collective use was built. These models are used to visualize the interaction and identify, both in the tool and in the user, the logical and/or infralogical operations, as well as the groups of classes and/or relations according to the Euclidian and projective topological spaces. It is important to make such distinction because there are tools that support only operations of the individual type, whereas others support collective/cooperative operations.
Therefore, from the application of these models the operatory level at which a subject must find him/herself to interact with a computational environment can be identified, and also the structuring and restructuring of those operations during the interaction itself.

Keywords: Operative logic – Computing – Computational tools.


 

 

O presente estudo é parte integrante de um projeto de pesquisa interdisciplinar que integra os pressupostos da teoria piagetiana, a ciência da computação e a informática na educação. Essas áreas de conhecimento são utilizadas como instrumentos potenciais na construção de um método de análise lógico-operatória de ferramentas computacionais.

Essa metodologia foi construída na forma de um quadro, no qual foram colocadas as estruturas das operações mentais, lógicas e infralógicas e os agrupamentos de classes ou relações que podem ser desenvolvidas pelo sujeito ao interagir com o objeto que, nesse caso, é o ambiente computacional. Metodologia que utiliza conceitos piagetianos, definidos a seguir nesta abordagem.

Castorina (1982), referindo-se aos estudos de Piaget, afirma que a lógica operatória estuda as estruturas de conjunto da lógica natural própria do sujeito, mediante o aparato teórico da lógica formal. Portanto, entende-se que a lógica é a culminação de um longo processo de construção, que se apóia nos processos naturais da inteligência das crianças e dos adultos e, ainda, que a lógica dos lógicos é um produto reconstrutivo das estruturas da lógica natural. Assim, a lógica operatória pode ser definida como a construção intermediária entre ambas, com o intuito de descrever essa lógica natural por meio da construção de modelos formais.

Além disso, o autor define as operações, como ações interiorizadas, reversíveis e coordenadas em uma estrutura total suscetível de voltar ao ponto de partida e fazer composição com outras ações (Castorina, 1982). Portanto, todo ato representacional, que é parte integrante de uma trama organizada de atos conexos, é uma operação.

Quando se trabalha com ferramentas computacionais, é preciso se levar em conta que podem ser realizadas múltiplas operações, e que estas, em muitas ocasiões, não são realizadas somente pelo sujeito. O computador ou, mais especificamente, a ferramenta também tem uma lógica interna na sua estrutura funcional e operacional, da qual o sujeito deverá se apropriar para poder interagir com a mesma (Antunes, 1993). No entanto, às vezes, a ferramenta não permite ao sujeito executar certas operações. Nesse caso, poderia ser interpretado que ela não permite desenvolver a lógica do sujeito da forma mais natural possível. Isso ocorre com a manipulação de ambientes com interatividade restrita (ou nula), sistemas com pouca funcionalidade ou sistemas muito fechados que não se adaptam ao desenvolvimento lógico do sujeito. Não é possível exigir que uma ferramenta seja tão aberta que permita fazer todas as ações interiorizadas de um sujeito. Mas, o importante é que ela ofereça ao usuário o desenvolvimento de um número máximo de operações possíveis para que se torne válida a interação com um ambiente computacional, ou seja, que o usuário possa construir estruturas operatórias por meio dessa experiência.

Além disso, é preciso enfatizar, neste estudo, o conceito de estrutura em Piaget, que se torna imprescindível no momento em que se usam as ferramentas computacionais para realizar a análise operatória do sujeito. Para tanto será utilizada como base a interpretação de Boden (1983). O programa (pertencente ao computador), nesse caso o objeto de interação, constitui-se de um conjunto finito de regras com infinito poder gerativo e, cada um dos diferentes casos a que pode dar origem, de acordo com as circunstâncias, é explicado pela explicitação de como pode ser gerado pelo sistema de regras. O que se integra à descrição realizada por Piaget de uma explicação estruturalista, como sendo aquela em que "o real é agora interpretado ou explicado como um caso do possível (...)". O requisito prévio computacional da aprendizagem consiste, por exemplo, num sistema ativo de estruturas de processamento de informação pelo qual é possível construir, analisar, comparar, selecionar e manipular, entre outras ações, informações variadas de um modo cada vez mais adequado e equilibrado. Logo, fica claro que a análise a ser realizada sobre as ferramentas parte do conceito de estrutura e não da ótica da teoria da equilibração de Piaget, como será visto adiante.

Portanto, partindo da perspectiva piagetiana e enfatizando a lógica operatória, um dos objetivos do quadro construído é identificar nas ferramentas computacionais operações lógicas e infralógicas, agrupamentos de classes ou relações que poderiam auxiliar no desenvolvimento do raciocínio lógico dos usuários. Análise que deveria ser realizada em paralelo, por meio dos métodos da análise clínica de Piaget que, no entanto, não serão abordados neste estudo. Além disso, poderá servir como um importante instrumento para auxiliar professores e pesquisadores na avaliação de softwares e groupwares (ferramentas de uso cooperativo). Sob a ótica do objeto, tais avaliações permitem aprimorar o projeto e desenvolvimento de softwares educacionais. Assim, elas poderiam auxiliar significativamente no processo de desenvolvimento representativo e operatório dos usuários.

Portanto, para identificar as relações ou operações envolvidas, viu-se a necessidade de criar um modelo de interação Sujeito (usuário) Û Objeto (ambiente computacional), apresentando todos os elementos que fazem parte dela. No caso do sujeito, destaca-se a importância de atentar para os dois tipos de interação identificados: o sujeito individual e o coletivo. O objeto (computador) trata tanto da ferramenta computacional quanto da representação computacional realizada pelo usuário, como será detalhado a seguir.

 

Conceitos básicos para o estudo operatório de ferramentas computacionais

Neste estudo, é preciso caracterizar as operações que podem ser executadas pelo sujeito em diferentes ambientes computacionais, o que resulta numa espécie de "mapeamento" dessas operações. Portanto, são apresentadas e analisadas as operações lógicas e infralógicas, – incluindo os agrupamentos de classes ou relações, identificados nas ferramentas computacionais. Além disso, destaca-se como estrutura organizacional dessa metodologia a idéia de noções espaciais envolvidas nas operações e relações infralógicas. O que se deve à ligação da evolução da representação do espaço com o desenvolvimento das estruturas operatórias do sujeito.

Segundo Castorina (1982), os agrupamentos1 são as estruturas de conjunto mais elementares da lógica operatória, usadas para traçar formalmente as operações do pensamento. Trata-se de uma estrutura operatória, ou seja, são estruturas de pensamento que servem de modelo para as operações lógicas e infralógicas, organizando, portanto, as operações de classificação, seriação, correspondência, entre outras. Os agrupamentos são caracterizados por uma reversibilidade restrita às ações, exibindo pouca mobilidade. Os elementos de um agrupamento podem ser classes ou relações e, de acordo com essa divisão, se encontram organizados no quadro de análise das operações construído neste estudo.

As operações lógicas tratam de objetos individuais, invariantes, limitando-se a agrupá-los ou relacioná-los sem considerar as relações espaciais e temporais envolvidas. São operações do tipo seriação, classificação, entre outras.

As operações infralógicas, por sua vez, são operações espaço-temporais que consistem em ligar as partes componentes de um todo e reuni-las em um todo contínuo. Nessas operações se reúnem ou separam as partes componentes de um objeto, de acordo com a posição espacial que este ocupa, dando lugar às operações de medida.

Piaget e Inhelder (1993) sustentam que, na construção e representação do espaço, são considerados três tipos de relações: as topológicas, projetivas e euclidianas.

Relações topológicas: são as operações mais elementares do espaço topológico. Suas relações são construídas entre partes vizinhas de um mesmo objeto ou entre um objeto e sua vizinhança imediata. Isso ocorre de modo contínuo e sem referência às distâncias, onde as relações são caracterizadas pela representação intuitiva. Assim, um espaço topológico é uma reunião contínua de elementos, deformáveis por estiramento ou contrações, e não conservam retas, distâncias e ângulos. Nas noções topológicas, a criança não chega, portanto, à construção de um sistema de figuras estáveis ou de relações entre figuras.

Relações projetivas: requerem um maior grau de elaboração, pois determinam e conservam as posições reais das figuras, umas em relação às outras. Para isso, exigem que seja fixado um ponto de referência para localizar os elementos. Segundo Piaget e Inhelder,

(...) as operações projetivas desempenham, em sua gênese, um papel fundamental na coordenação geral do espaço (...). Esse sistema de referência projetiva não conserva ainda as distâncias e as dimensões como um sistema de coordenadas, mas as posições relativas dos elementos da(s) figura(s) uma(s) em relação às outras, o todo relacionado com um observador determinado ou com um plano comparável ao seu quadro visual. É a intervenção do observador ou do "ponto de vista" em relação ao qual as figuras são projetadas que, psicologicamente, constitui o fator essencial desse relacionamento (...). (1993, p. 488)

Portanto, são as relações que englobam as noções de direita, esquerda, em cima, embaixo, na frente, atrás, etc.

Relações euclidianas: demandam alto grau de abstração, pois determinam e conservam suas distâncias recíprocas (coordenadas). Segundo Antunes et al. (1993), a construção psicológica do espaço euclidiano se dá pela construção de um sistema de coordenadas vertical e horizontal. Essa construção inicia com a compreensão das medidas espontâneas e vai até a noção de conservação, comprimento e distância. Dessa forma, permitem a construção de um sistema de figuras estáveis ou de relações entre figuras, tal como um sistema de coordenadas que determinam as posições relativas e as distâncias.

A seguir, são apresentados os modelos construídos em relação aos sujeitos envolvidos na interação com o ambiente computacional, assim, como todos os elementos que fazem parte da mesma. Esses conceitos foram utilizados como base para a construção da metodologia de análise, isto é, um mecanismo de identificação de operações/relações em diversos ambientes computacionais.

 

O sujeito individual e o sujeito coletivo

É importante fazer essa diferenciação entre sujeito individual ou coletivo pois, apesar de o modelo de interação sujeito x usuário ser constituído essencialmente por operações, é de suma importância identificar nas ferramentas se estas suportam apenas operações do tipo individual ou operações coletivas/cooperativas (no caso de analisar ambientes como Netmeeting, MSChat, ambientes virtuais de aprendizagem, entre outros).

Mesmo assim, cabe enfatizar que, como o quadro aborda basicamente operações do tipo individuais, serão apresentados alguns exemplos de operações coletivas com o fim de informar a diferenciação que deve ser feita na identificação das operações nas referidas ferramentas, na presente abordagem.

 

O sujeito individual

Quando um sujeito interage com um objeto (computador), e não é identificada nenhuma situação de cooperação entre este e outros, isto é, a representação do conhecimento se dá de forma individual e, portanto, o ambiente computacional é caracterizado como sendo de uso individual, esse sujeito é denominado, nesta abordagem, de sujeito individual.

O sujeito individual é apresentado como sendo formado pelas seguintes estruturas:

 

 

Na figura 1, as setas indicam as relações entre as diferentes estruturas que formam o sujeito. Esse modelo2 foi desenvolvido de acordo com os conceitos de Piaget e Inhelder (1993) e revela que o fator mental do sujeito é formado por três aspectos indissociáveis: o estrutural (cognitivo), o energético (afetivo) e os sistemas de símbolos (simbólico).

As estruturas afetivas dizem respeito aos valores do sujeito. As cognitivas se referem ao objeto em si, ou seja, são as responsáveis pelas operações realizadas em relação aos objetos, por exemplo, classificações, medições, seriações, soma, subtrações, etc. E, finalmente, as estruturas simbólicas são as que dão significado representativo aos objetos, utilizando, para isso, os sinais, isto é, a linguagem.

Portanto, a partir das setas da figura acima, pode-se dizer que as estruturas afetivas se referem aos valores (EA (V)) e é de acordo com estes que o sujeito opera com objetos (EA (V,O)) e também com a expressão de valores por meio de idéias (EA (V,L)). As estruturas cognitivas podem operar em relação aos objetos (EC (O)) independentemente dos valores e da linguagem. As estruturas simbólicas se referem à linguagem em si do sujeito (ES (L)), e à que relaciona esta com os objetos (ES (L,O)) e com os valores ((ES (L,V)).

Além das operações que podem ser realizadas em relação aos valores, objetos ou linguagem, as regras estão também inseridas nas estruturas afetivas, cognitivas e simbólicas do sujeito individual. Portanto, estas últimas se referem à coordenação das ações em relação aos valores, objetos e à linguagem.

Quando um sujeito interage com uma ferramenta computacional, ele passa a lidar não somente com sua estrutura interna, mas também com a própria estrutura funcional da ferramenta com a qual está interagindo. Portanto, nessa (inter)ação o sujeito entra em contato com as operações inerentes ao objeto em questão. Logo, este também tem suas próprias operações para manipulá-lo e suas próprias regras de funcionamento, às quais o usuário deve se adaptar ou apreender. Portanto, se um sujeito consegue trabalhar de forma harmoniosa com um objeto qualquer, isso quer dizer que a sua estrutura (operações e regras) é compatível com a estrutura do próprio objeto de manipulação.

Portanto, pode-se definir o modelo de um sujeito individual S(x) em interação com um determinado ambiente computacional (C = computador, objeto da interação) como na figura 2.

 

 

Esta figura pode ser interpretada da seguinte forma: um sujeito qualquer (S) utiliza uma ferramenta computacional (FC) para manipular a sua representação (RC) que diz respeito a um determinado valor (V), objeto (O) e/ou linguagem (L) de estudo (V,O,L). A composição da ferramenta e a da sua representação computacional formam o objeto de interação que, nesse caso, é o computador (C).

Esses conceitos deram origem aos elementos necessários para a construção do modelo de interação que é utilizado para a realização da análise operatória de ferramentas computacionais de uso individual e coletivo.

Segundo Behar (1999), quando um sujeito tem que utilizar algum tipo de ferramenta computacional para representar qualquer coisa, ele é levado a pensar sobre o seu pensar para, então, poder transcrever ou manifestar as suas idéias. No momento em que tem que expressar de forma escrita ou figurada o seu pensamento, ele pode refletir sobre o mesmo e, muitas vezes, até mesmo reestruturá-lo, construir ou reconstruir sua imagem mental. Esse processo pode levar o sujeito à construção de novos conhecimentos, mas tudo irá depender da maneira como o sujeito se relaciona com o ambiente. É por essa razão que foi utilizada a seta bidirecional que liga os valores, objetos e linguagem ao computador. Como a imagem mental do sujeito é inerente às estruturas, pela interação com a ferramenta ou com a representação computacional, essa imagem pode ser alterada constantemente.

 

O sujeito coletivo

A representação de conhecimentos de vários membros de um grupo, por intermédio de uma determinada ferramenta computacional, facilita a troca de informações, o confronto de idéias, a reflexão sobre o próprio pensamento dos sujeitos envolvidos e a cooperação. Em outras palavras, pode-se dizer que um ambiente que possibilita a comunicação/interação entre sujeitos pode promover o "crescimento cognitivo" em conjunto.

As trocas entre os pensamentos dos sujeitos e a cooperação são indispensáveis para agrupar as operações num todo coerente. O sujeito, ao fazer intercâmbios com seus pares, deve conseguir abarcar a presença dos outros pontos de vista e perspectivas diferentes das suas (Piaget, 1973).

Sendo assim, o sujeito que interage e executa tais trocas, se diferencia do sujeito individual e passa a ser chamado, nesta abordagem, de sujeito coletivo. Da mesma forma a ferramenta envolvida nesse processo de construção coletiva de conhecimentos, que suporta o trabalho em grupo, é considerada uma ferramenta de uso coletivo.

Portanto, baseando-se nas idéias de Behar (1999), observa-se que os mesmos elementos encontrados na interação individual se repetem na interação interindividual, com a diferença que, nesta última, é preciso levar em conta o aspecto social. Dessa forma, denomina-se sujeito coletivo "os sujeitos que se encontram no processo interativo, levando em conta suas estruturas afetiva, cognitiva e simbólica".

A autora também estabelece que a linguagem coletiva utilizada é uma composição de linguagens individuais que o grupo utiliza como meio de comunicação. Os valores construídos pelas interações no grupo se relacionam a este como um todo e não mais aos sujeitos de forma individual. Os objetos de manipulação são coletivos, criando uma nova totalidade na qual são refletidas as estruturas cognitivas, que operam sobre objetos individuais.

O modelo interativo S-(V,O,L)-C apresentado na figura 2 pode ser estendido para o sujeito coletivo (S1 + Sn)-(V,O,L)-C, como mostrado na figura 3.

 

 

Antes de caracterizar o sujeito coletivo, que foi delimitado neste estudo, é preciso defini-lo de forma abrangente.

Na presente interpretação, um sujeito coletivo nada mais é do que um conjunto de sujeitos que fazem parte de um todo com características próprias construídas ou reconstruídas pelo trabalho em grupo, e que se refletem no mesmo. Isso quer dizer que em um sujeito coletivo podemos encontrar vários sujeitos coletivos, isto é, outros grupos e, esses grupos, que nada mais são do que outros sujeitos coletivos, são formados por outras equipes de sujeitos, e assim por diante. No último nível, estariam os sujeitos individuais. Esquematicamente esta idéia pode ser vista na figura 4.

 

 

Logo, um sujeito coletivo sempre poderá ser formado por outros sujeitos coletivos, ou seja, na definição deste está envolvido o conceito de recursividade. Neste estudo somente será levado em conta os dois primeiros níveis da árvore, como mostrado na figura 4.

Portanto, o sujeito coletivo pode ser visualizado da seguinte forma:

 

 

Nesse caso, também se pode afirmar que, além das estruturas afetivas, cognitivas e simbólicas de cada um dos sujeitos individuais envolvidos no processo interativo, também existem essas mesmas estruturas no plano coletivo, como pode ser ilustrado pela figura 6.

 

 

As estruturas coletivas, quando já consolidadas como grupo, são tratadas da mesma forma como no nível individual, ou seja, estão incluídas nas estruturas, nas operações e nas regras em relação aos valores, objetos e linguagem. Em outras palavras, se um sujeito coletivo é composto pelos sujeitos S(x) e S(y), [Sc = S(x) + S(y)], isso quer dizer que: Sc = EA(c) + EC (c) + ES (c); onde "+" é a notação para uma estrutura composta, não simplesmente a soma, nem a justaposição.

Assim, utilizando o mesmo raciocínio da interação individual para o plano interindividual, estende-se a este último os conceitos até aqui demonstrados junto com os modelos construídos. Portanto, o mesmo ocorre com as operações e relações estabelecidas no quadro de análise (próximo capítulo deste estudo). Ou seja, as operações do sujeito individual e do sujeito coletivo são as mesmas, por essa razão não se fará uma distinção explícita destas. No entanto, ressalta-se o diferencial de que, no sujeito coletivo, conforme aborda Behar (1998),

têm que ser coordenadas as estruturas de, no mínimo, dois sujeitos e, além disso, as operações e as regras das estruturas do mesmo têm que ser combinadas com a estrutura do objeto de interação

Que, neste caso, está se referindo à ferramenta computacional.

 

Alguns exemplos de operações coletivas

No quadro apresentado à página 65 e seguintes, não foram abordadas muitas operações coletivas, pois não é a intenção neste estudo se estender nelas. Mas, por uma questão de ilustração, para entender de forma mais clara a distinção realizada entre o sujeito individual e coletivo e, consequentemente, as suas respectivas operações, fez-se necessário essa breve abordagem, a título de exemplificação.

No caso da ferramenta Microsoft Net-meeting 2.0 Beta 4 (relação controlador/colaborador):

– Chamada; Receber conferência: para receber uma conferência do NetMeeting. Quando o usuário receber uma conferência, não precisa chamar ninguém. As outras pessoas podem ingressar e sair, como fariam em uma sala de bate-papo de um serviço qualquer. O usuário pode configurar a conferência de modo que os chamadores sejam aceitos automaticamente ou de modo que se possa filtrar os chamadores. A conferência permanecerá ativa até que o usuário se desligue. Como se pode observar, trata-se de uma ação do tipo individual que reflete no coletivo, uma vez que o usuário estará ativando uma opção que permite, durante todo o tempo em que ele está utilizando a ferramenta, que participantes entrem ou saiam da conferência. Portanto, trata-se de um canal aberto para que se iniciem operações compartilhadas do sujeito coletivo.

– Ferramentas; Compartilhar Aplicativo: se o usuário compartilhar, por exemplo, uma janela do Windows Explorer, como Meu Computador, ou uma pasta do seu computador, estará compartilhando todas as janelas do Windows Explorer que estiverem abertas. Além disso, uma vez que o usuário tenha compartilhado uma janela do Windows Explorer, todo o aplicativo que ele iniciar enquanto estiver na conferência, será também automaticamente compartilhado com os participantes da conferência. Se este não quiser que outras pessoas da conferência assumam o controle do aplicativo que ele compartilhou, deve ativar no menu Ferramentas, a opção Trabalhar sozinho (janela individual de trabalho).

– Ferramentas; Iniciar colaboração: para trabalhar com um aplicativo compartilhado por outra pessoa. O usuário pode assumir o controle do aplicativo clicando duas vezes na janela do aplicativo (valor poder). Esse sujeito será definido como colaborador e quem abriu o aplicativo será o controlador.

– Ferramentas; Transferência de arquivo; Enviar arquivo: um sujeito pode enviar um arquivo para os participantes que desejar da sua conferência. Para enviar um arquivo para uma única pessoa, o usuário deverá clicar no ícone para aquela pessoa com o botão direito do mouse e, em seguida, clicar em Enviar arquivo. Ele também pode arrastar o arquivo pela lista de pessoas da conferência e pode especificar a pasta em que os arquivos estão armazenados quando as pessoas os enviarem para ele.

 

Operações lógicas e infralógicas do quadro de comunicações do Netmeeting

É um tipo de whiteboard com recursos para desenho e escrita cooperativa, isto é, é uma ferramenta computacional cooperativa tanto de desenhos quanto de textos ou, ainda, das duas coisas misturadas. Possui vários recursos para serem utilizados de forma cooperativa.

 

Operações coletivas:

– Arquivo; Novo: quem abre um arquivo novo é o chamado controlador. Isto é, o usuário que abrir o arquivo tem poder (valor) sobre o mesmo, operação do tipo (V,O). Apesar de compartilhá-lo com todos os participantes da conferência que, nesse caso, serão usuários colaboradores, no momento em que o controlador decide se desligar, todos são automaticamente desconectados.

– Qualquer participante pode abrir um trabalho previamente elaborado e guardado na memória do sistema. No momento de abrir o arquivo, o participante terá que operar em cima de uma operação do tipo (L,O), porque o objeto (arquivo) já possui uma linguagem (nome) relacionado a ele.

– A operação de Sair (sai do quadro de comunicações) é uma ação individual e se reflete sobre o coletivo, já que se o participante que estiver saindo for o controlador, todos os outros usuários serão desconectados automaticamente. Se for um colaborador, somente este será desligado da conferência.

– Operação infralógica coletiva de partição e adição primitiva (ver explicação detalhada no quadro): a opção do menu Editar, Excluir é uma operação infralógica coletiva de partição primitiva porque se trata de uma ação realizada na conferência por qualquer um dos participantes e somente funciona quando é selecionada uma parte ou toda a representação e este deseja excluí-la. Portanto, esta operação é realizada em cima da representação coletiva e irá alterá-la, excluindo parte da representação. É por essa razão que do total coletivo (toda a representação) irá se excluir parte dela e, portanto, trata-se de uma operação do tipo coletiva.

– No mesmo menu, a opção de Recortar, na qual se faz um recorte de uma área previamente selecionada, também se refere a uma operação coletiva de partição primitiva, já que será tirada uma parte de toda a representação.

– As operações Excluir página (deleta uma página do trabalho), Inserir página antes (insere uma nova página antes da corrente), Inserir página depois (insere uma nova página depois da corrente), tratam de uma parte da representação que tem que ser adicionada ou particionada. Portanto, está se falando de operações infralógicas de manipulação da representação coletiva.

– Operação lógica coletiva de proporção primitiva (ver explicação detalhada no quadro): No menu Exibir, a opção Zoom, é uma operação de zoom com dimensões definidas pelo sistema, que é ativado por um participante, mas que reflete na janela de todos os outros que fazem parte da conferência.

 

Quadro de análise de ferramentas computacionais segundo os princípios da lógica operatória

Utilizando como base as idéias apresentadas e, com o intuito de facilitar a compreensão dos usuários, foi construída uma metodologia de ferramentas computacionais, de acordo com a lógica operatória, em forma de quadro. Esta se refere às possíveis operações que podem ser identificadas no ambiente computacional.

O quadro de análise é composto de cinco campos, explicitados a seguir:

1. Operações ou relações: área destinada à denominação de determinada operação ou relação.

2. Explicação: neste espaço deve ser registrada a explicação formal de cada operação ou relação.

3. Exemplos: área que contém exemplo(s) de cada relação e operação feita na ferramenta computacional.

4. "": este espaço é para registrar se a ferramenta em análise possui ou permite realizar determinada operação.

5. Ferramenta em estudo: espaço a ser preenchido com a análise de como se trabalha determinada operação no ambiente que estiver sendo analisada e identificar qual o tipo de operação.

É preciso enfatizar que é sumamente importante não deixar de colocar nesta última área uma justificativa ou observação das operações que não são desenvolvidas pelo sistema, mas que poderiam vir a auxiliar no desenvolvimento operatório do sujeito quando ele está em interação com a ferramenta. Este dado possibilitará aprimoramentos na ferramenta, no caso dessa análise operatória ser feita no seu ciclo de desenvolvimento. Logo, este quadro auxiliará na implementação de operações durante o projeto e desenvolvimento de sistemas computacionais.

Essas etapas de identificação, explicação, exemplificação, verificação e, por fim, análise, caracterizam-se em procedimentos metodológicos, visto que representam etapas de pesquisa. A estrutura apresentada no quadro foi construída para facilitar a compreensão e análise das diferentes operações, em diferentes ambientes e pelos mais variados sujeitos, ou seja, desde professores, educadores até pesquisadores e projetistas de softwares e groupwares.

O objetivo deste estudo é identificar as operações lógicas e infralógicas e os agrupamentos de classes ou relações dentro dos espaços topológicos euclidiano e projetivo. É preciso enfatizar que não foram abordadas as operações hipotético-dedutivas ou formais que constituem o grupo INRC. Estudo que está em desenvolvimento, cujo resultado será divulgado em um próximo momento.

 

 

Considerações Finais

O presente estudo teve como propósito a concepção de um método de avaliação qualitativo de ambientes computacionais, utilizando a lógica operatória como cerne. Essa metodologia representa um instrumento de identificação e análise das operações lógicas e infralógicas presentes (ou ausentes) em ferramentas computacionais. Pode ser vista como um importante elemento para que a lógica operatória se transforme em um "instrumento norteador" de uso no dia-a-dia de educadores, pesquisadores e projetistas de softwares e groupwares em geral.

Cabe enfatizar a importância que está sendo dada, por meio deste instrumento construído, à lógica operatória no desenvolvimento do conhecimento do sujeito, analisando e trazendo exemplos hipotéticos de operações que existem nas ferramentas e deverão ser manipuladas pelo sujeito. Portanto, este deverá ter domínio delas. Mas, cabe enfatizar, que elas somente poderão ser analisadas no sujeito em interação com o computador, por meio dos métodos da análise clínica de Piaget. Logo, o quadro possibilitaria, aos diferentes sujeitos envolvidos nestes tipos de ambientes, perceber se está ocorrendo ou não uma determinada operação.

Por outro lado, observando a partir do ponto de vista do objeto, a metodologia apresentada pode ser utilizada para o desenvolvimento de programas mais amigáveis, implementando operações "mais lógicas e, portanto, mais naturais" ao sujeito, ou seja, mais diretas, transparentes e, nesse sentido, fáceis de serem executadas por ele. Atualmente, esse é um assunto de grande destaque, já que a informática ocupa um papel relevante na construção das estruturas cognitivas, afetivas e simbólicas do sujeito, pois este se vê forçado a expressar, por intermédio do computador, suas atividades representativas, operatórias, simbólicas e emocionais.

Os exemplos que foram trazidos nesta abordagem nem sempre foram retirados de versões mais atuais das ferramentas computacionais. Por exemplo, foi utilizado o Netscape, versão 4.5, por estar em português e, portanto, facilitar a identificação, nessa linguagem, das operações em questão.

Atualmente, a metodologia apresentada está sendo utilizada para análise e implementação das operações lógicas e infralógicas e agrupamentos de classes e/ou relações em um Ambiente de Realidade Virtual Cooperativo de Aprendizagem – Arca3.

O próximo passo é o estudo do grupo INRC4 que traz a complementação deste quadro com as operações do período formal e o aprofundamento do estudo no que se refere às operações coletivas.

 

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Endereço para correspondência
Patricia Alejandra Behar
Faculdade de Educação – UFRGS
NUTED – Núcleo de Tecnologia Digital Aplicada à Educação
Av. Paulo Gama, s/n
Prédio 12201 – s. 1002 90046.900
Porto Alegre – RS – Brasil
E-mail: pbehar@terra.com.br

Recebido em 07.06.02
Aprovado em 10.12.02

 

 

Patricia Alejandra Behar é professora-adjunta da Faculdade de Educação (FACED), Pós-Graduação em Informática na Educação (PGIE) e em Educação (PPGEdu) na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, coordenadora do Nuted: Núcleo de Tecnologia Digital aplicada à Educação, http://www.nuted.edu.ufrgs.br – Área de atuação: Informática na Educação, Educação à Distância, Lógica Operatória.
Deise Bortolozo Pivoto é graduada em Pedagogia pela Faculdade de Educação/UFRGS e bolsistas DTI/CNPq do projeto Arca – Ambiente de Realidade Virtual Cooperativo de Aprendizagem, financiado pelo CNPq/CC.
Fabiana Santos da Silveira é graduada em Pedagogia e mestranda do Programa de Pós-Graduação em Educação da UFRGS.
Gretel Siblesz é pedagoga e pesquisadora visitante (da Venezuela) e bolsista do projeto Arca – Ambiente de Realidade Virtual Cooperativo de Aprendizagem, financiado pelo CNPq/CC.
1. Os argumentos também são definidos, segundo Becker (1998), da seguinte forma: "as operações do sub-período das operações concretas – operações diretas, inversa, idêntica e idênticas especiais – constituem uma espécie de grupo a que Piaget chama de argumento. Logo, tudo o que o sujeito fizer durante esse sub-período, o fará de acordo com essa estrutura e com a reversibilidade que a caracteriza".
2. Cabe ressaltar que o modelo utilizado segue os pressupostos apresentados em Behar (1999).
3. Projeto de Pesquisa interinstitucional, financiado pelo CNPq/CC. O Arca é um grupo formado por pesquisadores/professores ligados a Pós-Graduação de Informática na Educação (PGIE) da UFRGS – Universidade Federal do Rio Grande do Sul, à Ulbra – Universidade Luterana do Brasil e UCPel – Universidade Católica de Pelotas. Esse projeto busca o desenvolvimento de um ambiente de aprendizagem apoiado na Internet, para a criação de um mundo virtual no Active Worlds, simulando um laboratório de alimentos para realização de experiências pelos alunos do Curso de Engenharia de Alimentos/UFRGS.
4. No operatório formal constrói-se uma nova estrutura resultante da fusão das estruturas de inversão e de reciprocidade do pensamento concreto. Essa nova estrutura, conhecida como grupo INRC, descreve os mecanismos operatórios fundamentais de transformação das operações proposicionais. São quatro as transformações: Identidade (I); Inversão (N); Reciprocidade (R) e, Correlatividade (C).

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