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Educação e Pesquisa

versão impressa ISSN 1517-9702

Educ. Pesqui. v.32 n.2 São Paulo maio/ago. 2006

http://dx.doi.org/10.1590/S1517-97022006000200009 

EM FOCO: HISTÓRIAS DE VIDA E FORMAÇÃO

 

As histórias de vida em formação: gênese de uma corrente de pesquisa-ação-formação existencial*

 

Life histories in formation: genesis of a movement of existential action-formation-research

 

 

Gaston Pineau

Université de Tours

Correpondência

 

 


RESUMO

O texto faz um sobrevôo histórico contemporâneo sobre a emergência das práticas multiformes que trabalham com histórias de vida no período de 1980 a 2005. Três períodos se destacam nesse histórico: um período de eclosão (os anos de 1980), um período de fundação (os anos de 1990) e, finalmente, um período de desenvolvimento diferenciador (os anos de 2000). Essa eclosão será interpretada como uma corrente de pesquisa-ação-formação existencial às voltas com 25 anos de vida. Vinte e cinco anos é pouco na escala da história. É, contudo, suficiente para provocar problemas de construção de sentido e de comunicação intergeracional, que serão discutidos neste artigo, a partir de questões como as que seguem: Quais práticas auto-reflexivas de construção histórica geram ou não, mais ou menos conscientemente, essa corrente? Como, ao lado de outras tendências (biográfica, autobiográfica, relatos de vida), essa corrente se inscreve em um movimento biorreflexivo de construção de novos espaços conceituais para trabalhar o crescimento multiforme de problemas vitais inéditos? A nosso ver, na sua modesta escala, ela pode contribuir para fazer de suas práticas uma arte poderosa de autoformação da existência ou, ao contrário, de submissão, conforme permite ou não aos sujeitos apropriarem-se do poder de refletir sobre suas vidas e, desse modo, ajudá-los a fazer delas uma obra pessoal.

Palavras-chave: Autobiografia — Existência — História de vida — Movimento biográfico — Pesquisa-ação-formação.


ABSTRACT

The text presents an overview of the contemporary history of the emergence of multiform practices dealing with life histories in the 1980-2005 period. Three periods can be highlighted within this history: a period of eruption (the 1980s), a period of foundation (the 1990s), and finally a period of differentiating development (the 2000s). The eruption will be interpreted as a movement of existential action-formation-research dealing with its 25 years of life. Twenty-five years is little in terms of history. It is, however, enough to cause problems of construction of meaning and inter-generational communication, which shall be discussed in this article starting from issues such as the following: Which self-reflective practices of historical construction produce or do not produce, more or less consciously, this movement? How, next to other trends (biographical, autobiographical, life stories), this movement is inscribed in a bio-reflective school of construction of new conceptual spaces to work with the multiform growth of novel vital problems? In our view, in its modest scale, this movement can contribute to turn its practices into a powerful art of self-formation of the existence or, otherwise, of submission, depending on whether or not we allow subjects to incorporate for themselves the power to reflect upon their lives and, in so doing, help them to turn their lives into personal realizations.

Keywords:Autobiography — Existence — Life history — Biographical movement — Action-formation-research.


 

 

Sobrevôo histórico contemporâneo (1980-2005)

Tomando como indicadores de construção histórica as datas da edição de produções escritas ou audiovisuais, assim como as de fundação de associações, de redes e de diplomas de formação, três períodos se destacam na história do movimento das histórias de vida de 1980 a 2005: um período de eclosão (os anos de 1980), um período de fundação (os anos de 1990) e, finalmente, um período de desenvolvimento diferenciador (os anos de 2000, cf. Quadro 1). Aqui fazemos um sobrevôo histórico sobre a emergência das práticas de trabalho com histórias de vida nesse período1.

 

 

Eclosão nos anos de 1980

Ao considerar os escritos públicos editados como indicadores de acesso à historicidade, a obra franco-quebequense Produire sa vie: autoformation et autobiographie (Pineau, 1983) publicada em Montreal e em Paris, em 1983, marca para o mundo francófono a eclosão da corrente das histórias de vida em formação. A quarta capa apresenta essa obra, assinada por Marie Michèle, jovem quebequense de 35 anos e Gaston Pineau, 44 anos, franco-quebequense, à época, pesquisador na Faculdade de Educação Permanente da Universidade de Montreal, com a seguinte afirmação:

O estudo dos animais em cativeiro elucida muito pouco seu comportamento real. O dos ensinamentos não revelaria mais a aprendizagem fora do ensino, na vida, pela experiência, no trabalho? Aprendizagens que as ciências da educação relegam à categoria do 'cabe tudo', da educação informal ou não formal? É necessário então mudar os modos de abordagem e as lentes conceituais para esclarecer esse 'resíduo' que constitui o continente quase inexplorado da educação permanente em que cada pessoa produz sua vida.

Esse volume saiu do cativeiro. Apresenta a primeira utilização sistemática da abordagem autobiográfica para explorar o processo de autoformação na vida cotidiana e comum.

A vida leva. Mas onde e como? É na exploração desse continente obscuro da autoformação ao longo da vida que esse livro tenta avançar. Ele situa: a autoformação como apropriação de seu poder de formação (parte I); adota um método: o das histórias de vida (parte II); e o aplica a uma vida bem comum: a de uma dona de casa (parte III).

Sem dúvida, esse livro teria permanecido isolado se não tivesse sido acompanhado, no mesmo ano, pela formação de uma rede: História de vida e autoformação, na época do primeiro simpósio internacional de pesquisa-formação em educação permanente na Universidade de Montreal. O primeiro círculo de pioneiros constituiu-se com Pierre Dominicé e Christine Josso, da Universidade de Genebra; Guy de Villers, da Universidade Nova de Louvain; Bernadette Courtois e Guy Bonvalot, da Associação de Formação Profissional de Adultos (AFPA) da França; e Gaston Pineau, da Universidade de Montreal. António Nóvoa da Universidade de Lisboa também estava lá, assim como Matthias Finger. Em 1988, estes publicaram O método (auto)biográfico e a formação.

Em 1984, a revista francesa Education Permanente lançava um número duplo (72-73) intitulado Les histoires de vie entre la recherche et la formation. Esse número serviu para preparar em 1986 um colóquio sobre as histórias de vida na Universidade de Tours, na França. A obra de 1989, Histoires de vie, coordenada por Pineau e Jobert (1989), publicou os principais elementos em dois tomos – Tomo I: Utilisation pour la formation, e Tomo II: Approches multidisciplinaires. O primeiro apresenta umas cinqüenta práticas de história de vida de acordo com os seguintes espaços de eclosão:

  • Nos diferentes setores profissionais: formação de formadores de adultos, formação de educadores, orientação profissional, empresa, gerência e desenvolvimento de espaços coletivos, pesquisa sobre a evolução dos saberes profissionais.
  • Com diferentes atores sociais: jovens... e velhos, excluídos da história (analfabetos, proletários, emigrados, prisioneiros).
  • Para diferentes finalidades: reconhecer aquisições, construir projetos, explorar processos de formação.

Essas eclosões multiformes e multitópicas, tanto nos setores profissionais e faixas etárias como nas ciências humanas e sociais, foram realizadas por contrabando, apesar do diktat2 dos feudos científicos que, à época, as taxavam de ilusão biográfica. Na realidade, essas práticas projetaram não apenas os 'objetos sociais' que ousaram tomar a palavra como sujeitos. Além disso, esses sujeitos falavam deles e queriam escrever suas vidas para buscar sentido nisso. Como se essa vida pudesse ter um e como se eles — sujeitos — pudessem conhecê-lo! Inadmissível e ilusória pretensão para os doutores em ciências humanas e sociais daquela época, que pretendiam construir um saber objetivo sem sujeito.

Entretanto, além das ilusões e desilusões possíveis e mais do que uma evolução sociobiográfica, essas práticas parecem trazidas por uma revolução bioética de vagas amplas e profundas. O Tomo 2, Approches pluridisciplinaires, analisa essas práticas como indicadoras de uma crise paradigmática histórica: emergência de novas práxis socioformadoras projetando, nas fronteiras das instituições, novos interlocutores em busca de novas situações de interlocução e de escritura, para tratar seus problemas vitais pós-modernos de orientação e de formação profissional e também existencial.

Três atores-autores apresentam suas práxis socioformadoras, então emergentes, na primeira parte do Tomo II: René Barbier (1989) — "La recherche-formation existentielle " —; Vincent de Gaulejac (1989), — "La socioclinique" —; e Henri Desroches (1989), — "L'autobiographie raisonnée comme maïeutique de projet". As partes seguintes isolam e desenvolvem cinco grandes tipos de problemas, constituindo essa crise de transição paradigmática entre os modelos herdados esgotados e os novos em construção dispersa:

  • Problemas metodológicos de tratamento (Clapier-Valladon), de pesquisa-formação (Dominicé), de análise sociológica (Chevalier).
  • Problemas socioinstitucionais de individualismo (Catani), de ética (Bourgeault), de inserção organizacional (Bonvalot, Courtois).
  • Problemas de linguagem: preâmbulo e contrato (Chaufrault-Duchet), análise do relato de formação (Chéné), estudos lingüísticos (N. Guenier).
  • Problemas de temporalidades: história e projeto (Boutinet), dimensão temporal da pessoa (Ferrasse), ciclos de vida (Riverin-Simard).
  • E finalmente problemas epistemológicos: categorias cognitivas da prática e historicidade (Pharo), sistema pessoal de produção de saber (J. Legroux), discursos psicanalíticos (Villers), hermenêutica (Arouca) e implicações socio-epistemológicas do método (Finger).

Essa diferenciação de problemas no foco da crise paradigmática não deve deixar esquecer que seu tratamento invoca, freqüentemente, uma abordagem sistêmica complexa. Na maior parte do tempo, esse tratamento não pode ser feito apenas de forma analítica e interna. Ele se choca com as interdependências entre problemas, que determinam em grande parte sua dificuldade. Essas ligações essenciais, imprecisas e fluidas constituem a característica específica dos problemas ligados a crises paradigmáticas, multiformes e em múltiplos níveis. O tratamento delas leva ao que Kuhn chama de pesquisas não ordinárias, extraordinárias, alterando elementos instituídos de pesquisa ordinária: sujeitos, objetos, objetivos, meios.

Essa dinâmica de pesquisa não ordinária impulsionou esse período de eclosão das histórias de vida em formação, como práticas multiformes de ensaio de construção de sentido por meio de fatos temporais vividos pessoalmente. Práticas existenciais de pesquisa-ação-formação, nas fronteiras das organizações, disciplinas científicas, divisões sociais e técnicas do trabalho. Elas tentam articular o que está dividido, juntar e dar sentido a elementos e eventos interníveis de trajetos erráticos, caóticos.

Essa dinâmica de fundo utópico, porém vital, tomou inicialmente a forma de redes, depois de associações que, combinando encontros e produções, abriram os anos de 1990 como período de fundação.

 

Fundações e associações dos anos de 1990

Os anos de 1990, além de uma série de produções que diversificam a expressão do movimento, suscitaram a criação de associações variadas que visaram definir, catalisar e provocar sinergia dos elementos emergentes nas redes regionais, nacionais e internacionais, tal como abaixo descritas.

L'Association Internationale des Histoires de Vie en Formation (ASIHVIF)

A primeira criação, em 1990-1991, é a da Association Internationale des Histoires de Vie en Formation – ASIHVIF. Essa formalização associativa foi longamente debatida. Ela não correria o risco de matar ou refrear a força criativa informal das redes?

Por fim, ela foi julgada preferível para sair de uma cultural convivial e fechada do núcleo inicial e abrir-se para uma comunicação intergeracional. Esse trabalho coletivo e cooperativo de formação e de formalização dos implícitos alimentou esses dez primeiros anos, tendo se baseado tanto sobre o continente – a construção identitária da associação – quanto sobre o conteúdo – análise das práticas, histórias de qual vida? De quem? Como?

A construção identitária da associação foi, forçosamente, o projeto dos cinco primeiros anos. Encontros de muito trabalho em Paris, Genebra, Louvain, Tours permitiram elaborar não apenas os regulamentos internos e procedimentos de adesão, mas especialmente uma carta ética que define o objeto/objetivo da Associação e as relações do formador, pesquisador, daqueles que intervêm com aqueles que desejam fazer sua história de vida. Essa redefinição das relações entre profissionais e atores sociais parece ser o desafio nevrálgico da passagem para os relatos de vida em formação do paradigma clássico da ciência aplicada para o do ator reflexivo.

Essa carta foi elaborada felizmente ao vivo, em confrontação com os outros campos operacionais trabalhados mais ou menos coletivamente pelos membros da associação. Esses campos podem ser reagrupados em quatro grandes conjuntos:

  • A análise de práticas e grupos de formação: presentes nos cinco primeiros anos, eclipsados nos cinco anos seguintes para reaparecerem de maneira nova, desde 2003, com vistas à análise de práticas. Retomar os grupos de formação, entre outros motivos, para dar suporte à comunicação intergeracional sempre delicada parece prioritário.
  • A questão 'do quem' das histórias de vida, de si, de um indivíduo, de um coletivo, de um grupo específico — mulheres, por exemplo, ou migrantes. As produções coletivas marcaram esse projeto: Histoires de vie collective et éducation populaire (Coulon, Le Grand, 2000); Souci et soin de soi. Liens et frontières entre histoires de vie, psychothérapie et psychanalyse (Niewiandomski; Villers, 2002); Histoires de vie au féminin. Onze québécoises se racontent (2002).
  • A questão de qual vida? Sensível? Inter-geracional? Passagens interetárias? Da infância? Dos finais de vida? A abertura das aprendizagens para todas as idades e em todos os setores da vida mostra que esse projeto está apenas esboçado. Desde 2003, um grupo bastante ativo trabalha nesse projeto interetário e intergeracional.
  • Finalmente, a questão do como debater métodos, disciplinas de referência e até a transdisciplinariedade. Colóquios importantes elaboraram esse campo: em Rennes, 1998, "Histoires de vie et dynamiques langagières"; em Angers, 2001, "Enjeux anthropologiques du récit biographique". O conceito da antropoformação atualmente mobiliza os trabalhos.

Os anos de 2000 provocaram um importante trabalho de refundação da associação, inscrevendo-se, como veremos, em um necessário caminho auto-reflexivo temporal para conduzir, da melhor forma possível, a construção histórica.

As associações e redes nacionais e regionais

A ASIHVIF correspondeu a uma necessidade de associação internacional das emergências, mas não a necessidades locais e até nacionais de conexão de iniciativas. Foram os suíços que fundaram, em primeiro lugar, em 1992, a Association Romande des Histoires de Vie em Formation (ARHIV). Depois os quebequenses, em 1994, instituíram o Reseaux Québécois pour les Histoires de Vie (RQPHV), uma fórmula leve, mas muito produtiva, de pesquisa-ação-formação. A reunião, em setembro de cada ano, realiza um simpósio, seguido geralmente de uma publicação: Pratiques des histoires de vie. Au carrefour de la formation de la recherche et de l' intervention (Desmarais; Pilon, 1996); Le Je et le Nous en histoire de vie (Bourdages; Lapointe; Rhéaume, 1998); Le pouvoir transformateur du récit de vie. Acteur, auteurs et lecteur de sa vie (Chaput; Giguère; Vidricaire, 1999); Histoires de liens, histoires de vie. Lier, délier, relier (Leaheu; Yelle, 2003).

Na França, algumas regiões sentiram a necessidade de criar uma associação própria: Histoire de Vie Grand Ouest (HIVIGO), Histoire de Vie Sud Ouest (HIVISO), Association de Recherche et d' Etudes sur les Histoires de Vie (AREHIVIE, Bretanha).

A coleção história de vida em formação

Em 1996, foi iniciada uma coleção em Paris - Histoire de vie et formation - para abrir um espaço de publicação para as produções que se multiplicam. Essa coleção visa construir uma nova antropologia da formação, abrindo-se para as produções que buscam articular história de vida e formação. Ela comporta duas séries correspondentes aos dois aspectos, diurno e noturno, do trajeto antropológico. A série Formação abre-se para os pesquisadores sobre a formação, inspirando-se nas novas antropologias para compreender o que é inédito das histórias de vida. A série História de vida, mais narrativa, reflete a expressão direta dos atores sociais às voltas com o correr da vida ao darem uma forma e um sentido a ela. Em 2006, já há mais de 60 obras publicadas, por volta de 30 em cada série.

 

Desenvolvimento diferenciado no início dos anos de 2000

Um estudo sobre as inovações coletivas, com base na utilização criativa e cooperativa da internet por seus usuários (Cardon, 2006), ressalta três círculos de inovações de base cooperativa que podem ajudar a apreender esse desenvolvimento diferenciado no início dos anos de 2000: o círculo dos iniciadores, o dos contribuidores e, entre os dois primeiros, o dos inovadores/reformadores.

  • O primeiro círculo central foi constituído pelo núcleo dos iniciadores dos anos de 1980: ele agrupa os pioneiros da inovação. Em nosso caso, esses pioneiros no mundo francófono começam a ser traduzidos, conectando-os com o que emerge em outros países: Learning from our lives (Dominicé, 2000), Experiência da vida e formação (Josso, 2002), Temporalidades na formação (Pineau, 2004). Entretanto esses pioneiros começam a se aposentar. Essa partida põe o problema da renovação, deles e do movimento. Esse problema não deve ser minimizado. Ele poderia dificultar fortemente o movimento se não fosse tratado de forma criativa e se não existissem os dois outros círculos de inovação.
  • O segundo círculo, o mais externo, é chamado de nebulosa dos contribuidores. No nosso caso, são as inúmeras pessoas e os inúmeros grupos que, fora da associação, contribuem para a utilização das histórias de vida em formação, pesquisa ou intervenção, para sua difusão e também para o seu desenvolvimento metodológico, ético e epistemológico. Dessa nebulosa de contribuidores, sobressaem-se particularmente os autores de memórias, teses e obras. Esses atores que se tornam autores contribuem muito para o desenvolvimento quantitativo e qualitativo da corrente. No final de seu livro, La formation au coeur des récits de vie: expériences et savoirs universitaires, Christine Josso (2000) levanta uma bibliografia de envergadura de 300 títulos de histórias de vida em formação e 400 para as ciências humanas — em francês, inglês, alemão, italiano, espanhol e português.

Enfim, entre os dois círculos de inovadores — os iniciadores e os contribuidores —, estão os criadores afinando e instituindo a intuição dos iniciadores à luz de suas próprias e do aporte dos contribuidores. A dinâmica associativa pode entrar em sinergia com esses inovadores-criadores, com a condição de favorecer a autonomia e a criação de cada um por meio de ligações flexíveis de inter e trans-ações.

No início dos anos de 2000, viu-se o aparecimento do primeiro diploma universitário com as histórias de vida, o DUHIVIF (Nantes, 2000) e as primeiras revistas — Chemins de formation au fil du temps (Nantes, 2000) e Histoires de vie (Rennes, 2001). Uma nova coleção apareceu em Paris: L'ecriture de la vie (2004). As conexões com associações européias se reforçam: Life History and Biographical Research Network, de la Société Européenne pour la Recherche en Formation des Adultes (ESREA). Laços com a América do Sul se multiplicam e pesquisas internacionais surgem.

 

Gênese de uma corrente de pesquisa-ação-formação ou de uma simples técnica de formação, de informação ou de intervenção?

Esse sobrevôo contemporâneo de produções e criações institucionais, representando as histórias de vida em formação, pleiteia, por sua interpretação como indicadoras da gênese de uma corrente de pesquisa-ação-formação existencial, mais do que a de uma simples técnica pedagógica nova. Novas técnicas e abordagens metodológicas, biográficas e autobiográficas aparecem, mas trabalhadas por questões de fundo axiológicas, epistemológicas e éticas. Quem faz a história de vida de quem? Por quê? Para quê? Com o quê? Quando? Até onde? Em função de que regras e de quais saberes?

Essas questões entrelaçam-se de modo insolúvel e definitivo do ponto de vista lógico. Porém, elas impeliram e impelem há 25 anos, no curso dos anos e dos eventos, um movimento socioeducativo de pesquisa-ação-formação que parece inscrever-se na difícil passagem do paradigma da ciência aplicada ao do ator reflexivo. E nessa passagem, esse movimento pode pesar muito. Sua aposta biopolítica é a da reapropriação, pelos sujeitos sociais, da legitimidade de seu poder de refletir sobre a construção de sua vida. Essa vida não é completamente pré-construída. E ela é muito complexa para ser construída unicamente pelos outros. Novas artes formadoras da existência são inventadas. Foucault as denomina de as artes da existência:

Por elas, é preciso entender práticas refletidas e voluntárias pelas quais os homens não somente se fixam regras de conduta, mas buscam transformar a si próprios, a se modificar em seu ser singular e a fazer de sua vida uma obra que traz certos valores estéticos e respondem a certos critérios de estilo. (1984, p. 12)

Pelo que sabemos, Foucault não fala de história de vida, salvo por si próprio, para justificar seu arriscado empreendimento:

O desafio seria o de saber em que medida o trabalho de pensar sua própria história pode livrar a mente do que ela pensa silenciosamente e permite-lhe pensar de outro modo. (1984, p. 15)

Ele nomeia esse trabalho de libertação de 'exercício filosófico' e reata, desse modo, com a arte do parto de si, desenvolvida pela bios3 socrática e retomada individualmente até o século XVIII pelos que mais vigorosamente ultrapassaram fronteiras. No século XVIII, foi ultrapassado um limite nessa produção auto-biográfica, que faz entrar maciçamente a vida de notáveis na história. Essa entrada maciça medeia o exercício filosófico e o romantiza, mas acompanha a ultrapassagem do limiar de modernidade biológica apontada por Foucault.

Neste início de milênio, a vida que busca entrar na história não é mais somente a dos notáveis, mas a de todos aqueles que, querendo tomar suas vidas na mão, se lançam nesse exercício, reservado até aqui à elite. Com que direito? A vulgarização dessa arte singular é taxada de ilusão biográfica por alguns (Bourdieu, 1986) e de revolução biográfica por outros (Sève, 1987). Esse movimento de entrada da vida na história é, portanto, duplo e ambivalente: é aquele de todas as vidas, mas também de todos os viventes. Um outro limiar da modernidade biológica está em vias de ser ultrapassado? Em direção a que história?

 

Práticas auto-reflexivas de construção histórica às voltas com 25 anos de vida

Vinte e cinco anos de existência de histórias de vida em formação é pouco na escala da vida da humanidade. Porém, já é muito para uma corrente socioeducativa às voltas com a mudança de gerações, entre outras.

O suficiente, porém, para se perder. Amplamente demais, em todo o caso, para que sejam necessárias cadeias reflexivas e que se desenvolva justamente uma dinâmica histórica de construção de sentido. Caso contrário, trata-se de uma sucessão justaposta de elementos e de eventos que não atualiza as ligações passadas nem as futuras. Ligações de geração e de intergeração, de formação e de transmissão construindo uma duração específica. Para perdurar e se desenvolver, o movimento deve aplicar a si mesmo, coletivamente, o que exalta nos outros. Ele deve construir sua historicidade, isto é, deve desenvolver competências temporais específicas de concepção e de gestão de seu futuro. Vinte e cinco anos de vida não se transformam automaticamente em história. É preciso, como disse Paul Ricoeur, articulá-lo narrativamente, ou seja, refletir sobre essa vida, dizê-la e, sobretudo, escrevê-la.

Práticas auto-reflexivas de construção de sentido já pontuaram esses 25 anos de vida, orientando e, portanto, começando a construir um devir específico, uma história. Em 1990, a passagem de rede interpessoal informal para associação internacional formal foi efetuada em grande parte graças a uma operação coletiva de produção audiovisual. Essa produção permitiu aos principais interessados que se exprimissem, que se entendessem e que se vissem sobre o que os havia conduzido às histórias de vida, sobre suas práticas e sobre suas posições diante dos grandes problemas levantados: subjetividade e ética; história e projeto; metodologia. Oito vídeos de uma hora estão disponíveis na Universidade de Nantes: os dois primeiros tratam da história das histórias de vida nas ciências sociais e na formação de adultos. Os vídeos 3 e 4 apresentam um amplo leque de sua utilização (uma encruzilhada de práticas) e uma análise mais detalhada de quatro práticas. Os dois seguintes tratam de dois grandes problemas centrais: relato, subjetividade e ética (nº 5), tempo e história. Os vídeos 7 e 8 são de caráter mais metodológico. Em 1996, um vídeo de uma hora e meia apresenta uma síntese dessas oito produções.

Após três anos de existência, a Associação Regional História de Vida Grande Oeste (HIVIGO) sentiu necessidade de fazer um balanço retrospectivamente para melhor conduzir seu futuro. O vídeo que lhe corresponde está também acessível no mesmo endereço.

Em 1998, o livro Accompagnements et histoire de vie, coordenado por Pineau (1998), nasceu de um colóquio comemorativo, organizado em 1996 na Universidade de Tours, para marcar os 10 anos decorridos desde um precedente que, em 1986, havia operado um primeiro agrupamento dos principais interessados. O último capítulo, de Marie-Christine Josso (1998), relata em particular esses 10 anos de interacompanhamento: "Cheminer avec interrogations et défis posés par la recherche d'un art de la convivance en histoire de vie".

Logo depois, o livro de Alex Lainé (2000), Faire de sa vie une histoire, confronta a gênese da corrente de formação de adultos com a da sociologia clínica. O aguardado livro de Christine Delory-Momberger (2000) Histoires de vie. De l'invention de soi au projet de formation (Anthropos) enraíza as histórias de vida, de modo mais global e remoto, nas escolas filosóficas de descoberta de si, desde a Grécia antiga até os desdobramentos importantes da Lebensphilosophie4 na Alemanha, onde constitui uma disciplina.

Enfim, em 2001, foi efetuada a transmissão da responsabilidade pela ASIHVIF a uma equipe da nova geração, após uma longa e frutífera operação coletiva de retrospectiva/prospectiva. Essa operação permitiu mobilizar novamente as forças em torno de uma dimensão antropológica das histórias de vida a desenvolver.

Na primavera de 2007, eu irei sediar em Tours, França, um colóquio internacional que visa operar um balanço retrospectivo e prospectivo dessa corrente socioeducativa com outras correntes de pesquisa que trabalham o biográfico. Essas correntes de pesquisa-ação-formação não se inscrevem em um movimento de construção de um novo espaço/tempo de pesquisa nas ciências humanas, que poderia ser denominado de biográfico (Delory-Momberger, 2005)?

 

Sobrevôo sobre as correntes do movimento biográfico

Tendo entrado de 'contrabando' no campo das ciências humanas e da formação no início dos anos de 1980, as histórias de vida estão hoje na encruzilhada da pesquisa, da formação e da intervenção onde se entrecruzam outras correntes tentando refletir e exprimir o mundo vivido para dele extrair e construir um sentido. Essas correntes trazem outros nomes: biografia, autobiografia, relato de vida, para citar apenas aqueles que estampam a vida em seu próprio título.

Uma pesquisa terminológica sobre a denominação de diferentes correntes que desde a bios grega tentam construir sentido, a partir das experiências pessoalmente vividas, recenseou mais de uma vintena de termos (Pineau, 2002). Elas podem ser reagrupadas em três subconjuntos de acordo com o que seu título sugere: uma entrada pessoal, temporal ou pela vida.

  • A entrada pelo pessoal constitui o que é chamado de literatura íntima ou aquela "do Eu": confissões, diários íntimos, cartas, correspondências, livros de pensamentos, livros de família, relações...
  • A entrada temporal é também rica de denominações: genealogia, memórias, lembranças, diários de viagem, efeméride, anais, crônica, história.
  • Enfim, a entrada pela própria vida, com ou sem sua raiz grega, bios. Na língua francesa, as denominações desse último subconjunto são as últimas a aparecer: no século XVII, para as biografias; nos séculos XVIII e XIX, para as auto e hagiografias; na última metade do século XX, para os relatos e as histórias de vida.

A aparição dessas formas biográficas nos séculos XVII e XVIII está se aproximando da liberação, nessa época, do que Foucault chama "um limiar de modernidade biológica, isto é, um momento em que a espécie entra como desafio em suas próprias estratégias políticas" (1976, p. 188). Essa aproximação nos faz pensar que a aparição contemporânea dos relatos e das histórias de vida possa ser interpretada como indicadora da liberação de um segundo limiar da modernidade biológica, de uma revolução bioética e biopolítica, remetendo aos indivíduos o encargo de construir sentido com suas vidas.

Procurar construir sentido a partir do vivido coloca problemas não apenas do ponto de vista cognitivo, mas também do ponto de vista ético e político. A proliferação de neologismos acionando o termo grego bio como prefixo — biografização, biocognitivo, bioético, biopolítico — é um indicador lingüístico da construção de novos espaços conceituais, para trabalhar o aumento multiforme e inédito desses problemas vitais. Nesta última parte, gostaria de tentar propor um quadro, em grande escala, das correntes de construção desses novos espaços conceituais.

Esse quadro diz respeito somente às correntes que usam a vida ou o bio em seu título: biografia, autobiografia, relato de vida, história de vida. Porém, elas já se diferenciam segundo a vida que levam em conta: global, singular, plural, educativa, formativa, profissional (Quadro 2).

 

 

Diferenciações terminológicas

Biografia — escritura da vida de outrem — é considerada como título de uma abordagem: "L'approche biographique" (M. Legrand, 1993).

Os anos de 2000 assistem ao crescimento da utilização do termo Le biographique com Christine Delory-Momberger: Biographie et éducation (2003) e, sobretudo, Histoire de vie et recherche biographique en éducation (2005). No prolongamento da pesquisa biográfica alemã5, ela trabalha para fazer do biográfico um espaço de pesquisa transdisciplinar nas ciências humanas e sociais. Acrescentando-se ainda à herança da escola de Chicago do início do século 20, esse espaço tem raízes históricas e culturais profundas e variadas.

Em educação e formação, os genebrinos especificaram esse espaço com o termo de biografia educativa. Jean-Yves Robin desenvolveu as biografias profissionais: "Biographie professionnelle et formation" (2001). O termo biografia da linguagem intitula um número especial de docentes-pesquisadores em ensino de línguas, de textos e de culturas:

A biografia da linguagem repousa sobre a capacidade do indivíduo de relatar os elementos constitutivos de sua experiência nos domínios lingüístico e cultural. A hipótese [...] é que esse trabalho biográfico permite desenvolver no estudante de línguas a consciência segundo a qual essas aprendizagens lingüísticas ganham ao ser colocadas em relação umas com as outras. (Molinié, 2006, p. 6)

Esses títulos, com o termo biográfico, seguramente a ser completados, são alguns indicadores da construção de um espaço de pesquisa-formação cujos limites e biodiversidade ainda estão pouco vislumbrados.

A autobiografia — escrita de sua própria vida — tem seu pesquisador: Philippe Lejeune, promotor da Associação pelo Patrimônio Autobiográfico. Em oposição à biografia, ela constitui um modelo no qual, no limite, ator e autor se superpõem sem um terceiro mediador explícito. O prefixo 'auto' a aproxima dos outros processos, que utilizam esse prefixo, em relação ao problema do lugar do outro, nessa utilização. Lejeune acaba de publicar um livro síntese de 30 anos de pesquisa sobre a autobiografia: Signes de vie. Le pacte autobiographique II. Ele oberva que

[...] nós podemos esperar nos próximos decênios, uma mudança de mentalidades, maior tolerância, um reconhecimento do interesse e da dignidade do ato autobiográfico. (2005, p. 249)

Eu utilizei esse termo no título de minha primeira pesquisa sobre autoformação – Produire sa via: autobiographie et autoformation (Pineau, 1983). Desroche (1989) nomeou de autobiografia refletida a sua aplicação à formação. Seu peso etimológico, que faz privilegiar a escritura e um investimento pessoal, que pode ser exclusivo, fez-me abandoná-lo pelo conceito mais recente de história de vida, apontando para construção de um sentido temporal, sem privilegiar o meio social e material da construção. No entanto, para além da terminologia, a autobiografia representa um meio pessoal maior, e talvez incontornável, do exercício em um círculo diferente do 'curvar-se (fechar) reflexivo e do desdobrar-se (abrir) narrativo'. Sublinhar 'o interesse e a dignidade do ato autobiográfico' é um contrapeso necessário às pulsões totalitárias de apropriação cognitiva da vida pelos profissionais do sentido.

O relato de vida aponta para a importância da expressão do vivido pelo 'desdobrar narrativo', quer essa enunciação seja oral ou escrita. A aparição e o aumento da expressão no século XX acompanha a revolução técnica das multimídias: o cinema e o vídeo liberam a palavra do (texto) escrito e ampliam os modos de coleta e de tratamento da informação.

Um pioneiro do desenvolvimento do relato de vida na França, Daniel Bertaux, enuncia que "há relato de vida desde que haja descrição na forma de narrativa de um fragmento de experiência vivida" (1997, p. 9). Na formação de professores, Nicole Bliez-Sullerot e Yannick Mevel (2004) sintetizam seus 15 anos de pesquisa-formação no livro intitulado Récit de vie en formation. Jean-Yves Robin explora, juntamente com uma vintena de autores, Le récit biographique em dois tomos: Fondements anthropologiques et débats épistémologiques (tomo I) e De la recherche à la formation. Expériences et questionnements (tomo II).

Em todo um outro setor, aquele da gestão de empresas, um número recente da Revue Française de Gestion — intitulado: Récits de vie et management (vol. 31, nº 159, 2005) — desenvolve o interesse de colocar em forma de relato 'fragmentos de experiência vivida' para a formação de competências e sua transmissão, para a cultura da empresa e, finalmente, para dar sentido à ação coletiva. Os autores traduzem por 'narração' o termo norte-americano storytelling (contar história). Esses títulos são também indicadores da amplitude e da diversidade do movimento de biorreflexividade narrativa, que transborda da biografia no sentido etimológico.

As histórias de vida — Entrelaçadas a essas correntes do biográfico, autobiográficas e relatos de vida, nós assistimos à eclosão e ao desenvolvimento da corrente que se intitula história de vida para significar, primeiramente, o objetivo perseguido de construção de sentido temporal, sem prejulgar os meios. A determinação desse objetivo de construção de sentido temporal pela história de vida mobiliza alguns e imobiliza outros. Ela abre um horizonte ambicioso que pode ser uma miragem ilusória. A perseguição desse limite, que recua quando se avança, não se pode fazer sem riscos e perigos. Porém, essa busca parece inerente à pulsão vital. É por isso que ela mobiliza explicitamente e gera uma corrente específica.

A diversidade de correntes e contracorrentes é indicadora da força de um movimento. Que o movimento biográfico seja multiforme mais que uniforme é talvez o indício de que a expressão da experiência vivida respeita a complexidade da biodiversidade. No entanto, esse respeito não impede a diferenciação de modelo.

Diferenciações de modelos

Como acabamos de assinalar, essas diferenciações terminológicas apontam, etimologicamente, objetivos e meios diferentes. Com referência ao lugar que o profissional do sentido (pesquisadores–formadores) pode ocupar em relação à utilização da abordagem, com a eclosão de um sujeito social aprendiz, três modelos podem ser extraídos (Pineau; Le Grand, 2002):

  • O modelo biográfico prolonga a relação de lugar disciplinar, separando nitidamente o profissional do sujeito, de acordo com uma epistemologia do distanciamento do sujeito, para construir um saber objetivo. O sujeito é um fornecedor de informações, mas o seu tratamento objetivo é obra quase exclusiva do profissional.
  • O modelo autobiográfico, ao contrário, elimina, no limite, o profissional. A expressão e a construção de sentido são obra exclusiva do sujeito. O outro é reduzido a um papel de auditor ou de leitor que deve mostrar-se bom ouvinte. O outro é eliminado como interlocutor.
  • O modelo interativo ou dialógico trabalha uma nova relação de lugar entre profissionais e sujeitos por uma co-construção de sentido. O sentido não é redutível à consciência dos autores nem à análise dos pesquisadores.

É quase supérfluo mencionar que em formação de adultos, para ligar a aprendizagem ao desenvolvimento, é este o modelo que mais desenvolve os processos de formação do sujeito, que emerge pela pesquisa sobre suas ações vividas. E é, portanto, este que é o mais trabalhado, entre outros, pela ASIHIF.

 

Conclusão

Uma dinâmica intrínseca complexa mobiliza essas correntes. Porém, seu movimento se encerraria depressa, no nó górdio dessas questões complexas, se elas não fossem colocadas e mesmo impostas pelas crises múltiplas dos grandes modelos sociais fornecedores de sentido, sejam eles científicos, políticos, religiosos e até educativos. De bom grado, ou à força, aumenta a parte dos indivíduos na construção de sentido de suas vidas. Até onde irá a inversão? Que formas tomarão as novas divisões de poder-saber, sobre a vida, no curso de toda uma existência às voltas com as mudanças (passagens) interidades e intergeracionais?

A resposta não está predeterminada. Ela se constrói e desconstrói cotidiana e perpetuamente nas fronteiras dos indivíduos e das instituições, nas relações de trocas que se estabelecem. Nesses lugares e momentos estratégicos, tomando mais parte para uns do que para outros, os movimentos socioeducativos representam uma força importante. Seguindo as opções de seus membros, a corrente das histórias de vida em formação pode fazer dessas práticas uma arte poderosa de autonomização ou, ao contrário, de submissão dessas pessoas.

O futuro das histórias de vida se inscreve assim nas oscilações de um desafio bioético tenso entre o paradigma do comando e do controle e aquele da autonomização. Ele é incerto e não resolvido. Porém nessas lutas de poder pelo acesso aos saberes sobre a vida, seu domínio representa um meio vital estratégico para construir sentido e produzir sua vida. (Pineau; Le Grand, 2002, p. 122)

 

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Correpondência:
Gaston PINEAU
e-mail: gaston.pineau@univ-tours.fr

Recebido em 08.03.06
Aprovado em 22.05.06

 

 

Gaston Pineau é professor de Ciências da Educação na Universidade François Rabelais de Tours. Ele é co-fundador da ASIHVIF e autor de várias obras, entre elas, Temporalidades na formação (São Paulo: Triom, 2004) e Les histoires de vie (Paris: PUF, 2002, em colaboração com Jean-Louis Le Grand).
* Tradução de Maria Teresa Van Acker e Helena Coharik Chamlian.
1. Para o enraizamento na grande história das 'bios', remetemos às obras Les histoires de vie: de l' invention de soi au projet de formation (Delory-Momberger, 2000) e Les histoires de vie (Pineau; Le Grand, 2002).
2. Diktat: palavra alemã cuja tradução literal é ditado. Expressão usualmente utilizada para exprimir ditame, regra, instrução. N.R.
3. Bios: vida.
4. Lebensphilosophie: filosofia da vida.
5. O autor utiliza a expressão: la biographie forschung allemande. N.R.