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Educação e Pesquisa

versão impressa ISSN 1517-9702

Educ. Pesqui. vol.36 no.1 São Paulo abr. 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S1517-97022010000100001 

EDITORIAL

 

 

Educação e Pesquisa inicia 2010 com novidades e comemorações. No último dia 7 de abril, foi lançado um número especial comemorativo dos dez anos da nova fase de nossa revista, intitulado Educação na contemporaneidade: desafios, dificuldades e perspectivas teóricas, apresentando um quadro amplo de questões hoje em debate, com artigos de autores que são referência em suas temáticas, tanto brasileiros quanto estrangeiros. Fundada em 1975, com o nome de Revista da Faculdade de Educação, Educação e Pesquisa passou a ter o novo formato e nome em 1999, constituindo-se, assim, num dos mais antigos periódicos da área de Ciências Humanas em circulação no Brasil.

Paralelamente a essas comemorações, a partir de fevereiro deste ano, passamos a integrar o sistema SciELO de submissão on line de artigos, o que significa inicialmente um esforço de adequação tanto de autores, quanto de editores e pareceristas ao formato eletrônico de envio de manuscritos e avaliação. Contudo, estamos convencidos de que esse esforço resultará num processo mais rápido e, ao mesmo tempo, mais transparente de seleção dos textos a nós enviados, o que poderá beneficiar não apenas os autores, mas a qualidade editorial de Educação e Pesquisa.

Neste número, apresentamos ao leitor treze artigos que, em sua diversidade temática, teórica e metodológica, refletem parte da riqueza do debate educacional em nosso país. Em A invenção do Emilio como conjectura: opção metodológica da escrita de Rousseau, Carlota Boto nos oferece uma instigante reflexão sobre a obra publicada inicialmente em 1762. A hipótese defendida pela autora é a de que Emilio não é apenas um livro sobre educação, mas que Rousseau procurava, na infância de maneira geral, vestígios do homem em estado de natureza e, assim, a figura do Emilio seria um método para operar o pensamento.

Podemos fazer um paralelo dessas reflexões com aquelas presentes no artigo de Zaia Brandão, no qual a autora também dialoga com um importante intelectual francês – neste caso Pierre Bourdieu –, destacando sua maneira de pensar. O artigo, Operando com conceitos: com e para além de Bourdieu, convida o leitor a refletir sobre a importância de utilizar os conceitos em constante diálogo com a realidade empírica. Baseando-se em uma longa trajetória de investigações desenvolvidas por seu grupo de pesquisas, Zaia Brandão focaliza as condições de transformação do habitus e os contornos empíricos do capital cultural entre elites escolares do Rio de Janeiro, com o objetivo de dialogar com esses conceitos da forma como foram originalmente formulados.

Vem da Colômbia a contribuição de Tania Pérez Bustos por meio do artigo intitulado Aportes feministas a la Educación popular: entradas para repensar pedagógicamente la popularización de la ciencia y la tecnologia. A autora desenvolve uma reflexão pedagógica sobre a popularização da ciência e da tecnologia, elemento tantas vezes considerado central para o desenvolvimento econômico. Baseada numa leitura feminista da ideia de educação popular proposta por Paulo Freire, destaca o papel das experiências de vida de homens e mulheres no desenvolvimento de práticas educativas capazes de efetivamente popularizar a ciência e a tecnologia para além de uma episteme científica única, androcêntrica e vinculada aos ideais ocidentais de universalidade e neutralidade.

Na interface entre ciência e arte, Francisco Romão Ferreira apresenta suas reflexões a partir de disciplina oferecida no Programa de Pós-Graduação no Ensino de Ciências da FIOCRUZ (Fundação Osvaldo Cruz), cujo objetivo central é identificar e contrapor diferentes referenciais teóricos que possibilitem pensar os padrões de interação entre a educação, a arte e a ciência no campo da saúde. No artigo Ciência e arte: investigações sobre identidades, diferenças e diálogos, o autor destaca o potencial dessa articulação para o processo de ensino-aprendizagem, tendo por base um pensamento crítico sobre os processos artísticos e científicos.

O diálogo entre áreas distintas também é a tônica do texto de Eloiza Gurgel Pires: A experiência audiovisual no contexto dos espaços educativos: possíveis intersecções entre educação e comunicação. Seu embasamento em amplo arsenal teórico, originário de diferentes campos do conhecimento, permite uma visão alargada sobre a contemporaneidade e as questões significativas dos campos da educação e da comunicação, especialmente aquelas relacionadas aos estudos de educação para as mídias.

No mesmo campo de interface, o artigo Circulação de textos midiáticos entre alunos de escola pública básica, de autoria de Juvenal Zanchetta Junior, descreve características da leitura de temas midiáticos por alunos da escola pública básica do estado de São Paulo, delineadas a partir de pesquisa qualitativa em duas escolas periféricas de município localizado no interior do estado. Entre os aspectos destacados, está o assentamento da informação de imprensa na escola, mas com repercussão fragmentada, não integrada ao cotidiano pedagógico e circunstancial na vida dos alunos. Os temas que recebem maior atenção circulam pela televisão, mediados pela família ou pelos pares, mas não pelo professor. O autor conclui com sugestões para o tratamento de suportes, textos e temas midiatizados na escola, considerando os recursos disponíveis e o contexto escolar.

Também dedicadas a refletir sobre a circulação e produção de textos na escola, Claudia Rosa Riolfi e Suelen Gregatti da Igreja procuram verificar como ocorre o aprendizado da escrita em aulas de Língua Portuguesa, no ensino médio de setenta escolas públicas na capital de São Paulo, no artigo Ensinar a escrever no ensino médio: cadê a dissertação?. A análise dos dados mostra que a literatura foi o conteúdo privilegiado em metade das aulas, e a gramática, em um quarto delas, com poucos momentos voltados ao ensino da escrita, preferencialmente de texto não dissertativo. Os dedicados à correção coletiva e à reescrita foram praticamente inexistentes e aqueles dedicados a fazer uma reflexão prévia à prática da escrita, raríssimos, o que, no entender das autoras, merece um alerta para os formadores de professores e para os pesquisadores que se dedicam ao ensino da escrita.

A problematização do ensino-aprendizagem nas escolas permanece como temática no texto O professor de filosofia: limites e possibilidades – dinâmica e problematização do ensino-aprendizagem de Anderson Magno da Silva Pimentel e Dawson de Barros Monteiro. Os autores destacam os limites e as possibilidades dos elementos que envolvem o processo pedagógico e a importância do papel do professor, agora de filosofia, no jogo ensino-aprendizagem. A prática docente é repensada com base no pensamento de Hannah Arendt e sua formulação sobre a formação humana e a crise da educação.

Na sequência, três artigos apoiados em campos disciplinares distintos tratam da violência e da difícil inclusão da diferença em escolas públicas brasileiras. Violência em meio escolar:fatos e representações na produção da realidade, de autoria de Caren Ruotti, tem como objetivo central investigar as conexões e os distanciamentos entre a violência em meio escolar e a violência nos bairros de onde provém sua clientela. Por meio de estudo de caso, a autora indica tanto a existência de manifestações de violência próprias da realidade externa, penetrando o interior da escola, quanto o modo como essas representações interferem na conduta dos profissionais da educação. No transcorrer do estudo, mudanças decorrentes de alterações na direção escolar resultaram na produção de novas formas de violência institucional, que excluíam aqueles resistentes às regras rígidas então impostas.

Letícia Portieri Monteiro e Kátia Stocco Smole analisam as modificações ocorridas em uma escola judaica do Rio de Janeiro a partir da implantação e implementação do Programa de Inovação Educativa nas Escolas Israelitas (PIE), que tem por foco os conceitos de aprendizagem ativa e de inteligências múltiplas na concepção de Piaget, Dewey e Gardner. No artigo Um caminho para atender às diferenças na escola, as autoras ressaltam como resultados a motivação, a renovação de conhecimentos e a maior capacidade dos profissionais envolvidos para trabalhar com as diferenças entre os alunos e facilitar o desenvolvimento de sua autonomia.

Em Interação, afeto e construção de sentidos entre crianças na brinquedoteca, Ivone Martins de Oliveira e Ademir Gebara chamam a atenção para o importante papel da brinquedoteca como um lugar de interação entre crianças sem intervenção mais intensa dos adultos – em especial, de duas crianças: um menino com síndrome de Down que vive com sua família e uma menina que mora em um orfanato. Para os autores, trata-se de espaço propício para a problematização e a discutição de aspectos do desenvolvimento infantil, da multiplicidade de sentidos contidos na relação com o outro, acompanhada de ressonâncias afetivas que podem ser variadas e até contraditórias.

Encerramos esse número de Educação e Pesquisa retomando a reflexão ampla sobre o funcionamento do sistema educacional. Esse é o caso da apresentação da pesquisa teórica, de natureza histórica e conceitual, desenvolvida por Gilda Cardoso de Araujo em A relação entre federalismo e municipalização: desafios para a construção do sistema nacional e articulado de educação no Brasil. A autora analisa a configuração e a forma de assimilação das instituições políticas municipais e federativas, indicando a urgente necessidade de formulação de políticas educacionais que permitam constituir um sistema verdadeiramente nacional e articulado de educação, considerando os aspectos históricos e políticos específicos que o federalismo e o municipalismo assumiram no Brasil.

Finalmente, a partir de um estudo de caso realizado em Portugal, Idevaldo da Silva Bodião e João Formosinho exploram alguns aspectos da construção da profissionalidade docente, a partir de entrevistas com quatro professoras de uma escola pública do primeiro ciclo da educação básica localizada na cidade de Braga. A profissionalidade docente na educação básica em Portugal a partir de depoimentos de alguns professores evidencia o isolamento, a solidão, a ausência de acolhimento dos novatos e a formação docente fortemente centrada nas progressões funcionais. Os autores defendem a importância de uma formação profissional docente assentada na lógica dos "professores reflexivos", das "comunidades de aprendizagens" ou dos "intelectuais transformadores", o que implicaria em uma série de providências capazes de efetivar mudanças das práticas curriculares nas escolas públicas.

Como sempre, oferecemos a versão para o inglês de parte dos artigos, tendo como objetivo sua maior divulgação para o público estrangeiro. Nesse número, ficou o destaque para os textos de Carlota Boto, Zaia Brandão e Caren Ruotti, disponíveis on line no site da SciELO também em inglês.

 

Cláudia Pereira Vianna
Marília Pinto de Carvalho