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Educação e Pesquisa

versão impressa ISSN 1517-9702

Educ. Pesqui. vol.36 no.1 São Paulo abr. 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S1517-97022010000100003 

ARTIGOS

 

Operando com conceitos: com e para além de Bourdieu

 

 

Zaia Brandão

Pontifícia Universidade Católica

Correspondência

 

 


RESUMO

O objetivo principal do artigo é destacar a importância de operar com conceitos, aceitando os desafios postos pela realidade empírica. Para isso, foi tomado como referência o material empírico produzido pelas pesquisas desenvolvidas pelo Grupo de Pesquisas em Sociologia da Educação — SOCED/PUC-Rio. Bourdieu, em várias ocasiões, questionou a leitura meramente teórica de seus conceitos. "Pôr em jogo as coisas teóricas" foi a recomendação do autor em várias ocasiões. Neste texto, buscamos exemplificar os desdobramentos da experiência de operar com os conceitos desse pesquisador, focalizando dois aspectos principais: as condições de transformação do habitus; e os contornos empíricos do capital cultural entre elites escolares estudadas em instituições de prestígio do Rio de Janeiro. No caso do estudo do capital cultural, ficou evidente a proposta dele de trabalhar "com e contra os autores". Em que pese o valor da obra desse autor da Sociologia da Educação, o delineamento empírico do capital cultural, em sua vasta obra, é credor da realidade francesa nas décadas em que desenvolveu suas pesquisas. Para operar com o conceito de capital cultural de forma adequada aos desafios empíricos que enfrentamos, recorremos a autores que tematizaram as transformações no campo cultural para além da perspectiva das fronteiras entre a alta cultura e cultura popular analisadas por Bourdieu.

Palavras-chave: Habitus — Capital cultural — Transformações — Práticas culturais — Elites escolares.


 

 

Há cerca de uma década, o grupo de pesquisa que coordeno — Grupo de Pesquisas em Sociologia SOCED/PUC-Rio — vem desenvolvendo um programa de pesquisa focalizando processos de escolaridade1. A principal vertente teórico-metodológica dessas investigações tem sido a sociologia de Pierre Bourdieu. Em sua vasta obra, dois temas de suma importância para a sociologia da educação têm sido privilegiados: processos de socialização e processos de produção das distinções sociais.

O estudo de Bourdieu (1989), além de árduo, exige um investimento permanente, sobretudo quando se trabalha na perspectiva sugerida pelo autor de "pôr em jogo as coisas teóricas". Trata-se de uma obra que oferece um conjunto inesgotável de possibilidades de trabalho (empírico) e reflexão (teórica). Aliás, seu denso instrumental teórico-conceitual aplicado a um amplo elenco de objetos empíricos apresenta-se como um constante desafio aos pesquisadores que investem em objetos análogos em outros contextos espaciais e temporais.

A maioria das análises equivocadas sobre a obra de Bourdieu decorre, a meu ver, quer de leituras meramente teóricas, quer de leituras pretensamente "ortodoxas", pois o próprio autor assinalou a importância de trabalhar com e contra os autores numa posição inequívoca de rechaço às ortodoxias.

Neste texto, procuro descrever alguns dos desdobramentos da apropriação da obra de Bourdieu pelo nosso programa de pesquisas:

• Lições de pesquisa;
• Operando com os conceitos — algumas hipóteses sobre a transformação do habitus;
• Com e para além de Bourdieu — novas possibilidades de se operar com o capital cultural.

 

Lições de pesquisa

Para Bourdieu, no social tudo é relacional. As implicações desse postulado teórico da sociologia bourdiana têm sido valiosas, na medida em que coloca o pesquisador em condições de perceber com maior rigor as características específicas dos objetos de estudo. Nessa lógica, o enquadramento do objeto é produzido de forma a permitir perceber a sua posição relativa no conjunto de objetos semelhantes, o que possibilita avaliar, de forma mais acurada, o seu sentido (valor, significado, pertinência) em uma determinada configuração do social.

A proposta bourdiana de pôr em jogo as coisas teóricas, por sua vez, obriga o pesquisador a operar com os conceitos, ou seja, usá-los como ferramentas de construção dos fenômenos empíricos que constituem o foco da investigação. É, portanto, o avesso de uma prática acadêmica ainda frequente, em que discursos teóricos antecedem e se articulam a objetos de estudo pré-construídos. O resultado mais comum da sobrevaloração das referências teóricas é o "efeito teoria" (Bourdieu, 1989, p. 47) que leva o pesquisador a enxergar o que já se predispunha a encontrar, ou seja, torna-se a antítese da atividade de pesquisa que se propõe problemas e questões a serem verdadeiramente pesquisados. A recorrência dos quadros teóricos que antecediam as pesquisas — tão comum no início da pós-graduação no Brasil — e impunham-se sobre os objetos de pesquisa foi uma expressão bastante comum desse equívoco. No texto "Teoria como hipótese" (Brandão, 2002), a autora desenvolve essa reflexão referindo-se à pesquisa, entre nós, e explicita o significado operacional das teorias numa perspectiva bastante próxima da proposta por Bourdieu.

A recusa dos monismos metodológicos é, a meu ver, uma proposta profundamente adequada ao caráter sempre provisório das pesquisas em decorrência da complexidade dos objetos sociais. As oposições quantitativo x qualitativo, estrutura x história, questionários x entrevistas, micro x macro são falsas e respondem muito mais pela "arrogância da ignorância" (Bourdieu, 1989, p. 25) do que pela adequação teórico-metodológica ao problema sob investigação. A impossibilidade de se esgotar a análise de um objeto social por um único ângulo é uma questão de ordem epistemológica e não metodológica. Não se trata tampouco de ir de um polo ao outro (por exemplo, do "microssocial" ao "macrossocial") numa perspectiva linear de continuidade, mas sim de presumir a complexidade dos objetos de estudos no campo das ciências sociais e de procurar trabalhar na perspectiva do jogo de escalas (Revel, 1998). Somente articulando diferentes escalas de observação podem-se aumentar as condições de inteligibilidade dos fenômenos sociais em suas múltiplas configurações e constantes transformações (Collins, 2008). As diversas angulações, a que podem estar sujeitos os objetos de estudo no campo das ciências sociais, não precisam necessariamente ser desenvolvidas por todas as pesquisas no campo das ciências sociais. A interlocução com pares, com base em uma cuidadosa revisão bibliográfica, pode perfeitamente evidenciar o que se ganha ou perde com as opções teórico-metodológicas que orientaram um determinado projeto de investigação.

A perspectiva da auto-objetivação permanente é outra das lições de pesquisa que ajuda o pesquisador a corrigir, a tempo, os vieses de pesquisa decorrentes das suas "adesões mais profundas e mais inconscientes, justamente aquelas que, muitas vezes constituem o 'interesse' do próprio objeto estudado para aquele que o estuda..." (Bourdieu, 1989, p. 51). Segundo Bourdieu, este é um dos exercícios mais difíceis da arte da pesquisa e ao mesmo tempo o mais necessário. Todo o pesquisador insere-se em um campo de lutas (acadêmico/científico) em que o interesse em "ganhar" corre o risco de sobrepor-se ao interesse no conhecimento. "Jogar para a plateia" não é incomum, pois desenvolver alianças e ser reconhecido (acolhido) pelos pares pode tornar-se mais importante do que debater, discordar ou criticar, práticas essas necessárias ao aperfeiçoamento do trabalho de pesquisa e, consequentemente, ao avanço do conhecimento.

 

Operando com os conceitos

Na perspectiva de operar com os conceitos, o pesquisador (Bourdieu, 1989) se previne

[...] contra o fetichismo dos conceitos e da 'teoria', que nasce da propensão para considerar os instrumentos 'teóricos', habitus, campo, capital etc., em si mesmos, em vez de os fazer funcionar, de os pôr em ação. (p. 27)

O habitus, o mais "popular" dos conceitos de Bourdieu, tem sido alvo da maior parte das críticas, pois a ele se atribui frequentemente um caráter mecânico e inescapável de produtor da "reprodução" social. Bourdieu ressaltou, entretanto, inúmeras vezes, que a noção de habitus visava marcar uma ruptura com a filosofia intelectualista da ação, que se fundava no pressuposto do caráter racional de toda a ação verdadeiramente humana. Consequentemente ele priorizou a análise das razões práticas, aquelas que do seu ponto de vista são as mais frequentes na vida social: as que incorporadas socialmente permitem aos agentes agir segundo o "senso do jogo", ou seja, agir no espaço social (sociedade) de acordo com as regras do jogo social (que podem variar segundo os diferentes campos) sem necessidade de, a cada momento, recorrer à razão para decidir o que fazer. Ao focalizar em sua sociologia as razões práticas, o autor não nega a ação racional, mas simplesmente enfatiza o peso das razões práticas geradas pelo habitus na vida social:

O habitus é um operador de racionalidade, mas de uma racionalidade prática, imanente a um sistema histórico de relações sociais e, portanto transcendente ao indivíduo. (Bourdieu; Wacquant, 1992, p. 26)

Bourdieu (1979) chama a atenção para a indissociável relação entre os campos e os habitus. O habitus é um saber agir aprendido pelo agente na sua inserção em determinado campo. Cada campo, estruturado diferencialmente de forma relativamente autônoma em relação a outros, define-se por uma lógica particular de funcionamento, que estrutura as diversas interações que nele ocorrem, definindo objetivos específicos a serem alcançados para que os agentes possam manter ou incrementar suas posições relativas na luta concorrencial naquele espaço. Nesse sentido, cada campo funciona como um espaço de possibilidades — como um "jogo" em que nas "tomadas de posição" dos agentes decorrem das suas posições relativas na estrutura do campo, e cujas estratégias (sens du jeu) estarão relacionadas, simultaneamente, aos meios disponíveis (capitais) e aos objetivos a alcançar (conservar ou transformar a posição que detém no campo).

As "estruturas" do campo são importantes na formação do habitus, mas a ação dos agentes não é completamente determinada por elas. Bourdieu assinala o "sentido do jogo" nas ações sociais: ao jogar, os agentes desenvolvem a capacidade de responder às exigências das regras do campo em que estão inseridos; mas as jogadas cobrem apenas um elenco de alternativas, passíveis de serem ampliadas pela possibilidade das improvisações regradas geradas pelos habitus.

 

Hipóteses sobre transformação do habitus

Os agentes só conseguem participar do "jogo" se dotados de um mínimo de capital específico2 do campo em que se situa. Os campos, por onde os agentes circulam levados pela necessidade de estar no jogo social, são o locus onde operam, capitalizam-se e alteram-se os habitus em consequência da mobilização de tipos diferentes de capital. Em cada campo predomina um capital específico (artístico, científico, religioso...) que funciona como uma moeda própria daquele campo, cuja posse é a condição para que os agentes continuem no jogo (social) e nele possam, em virtude de suas jogadas, acumular mais desse capital específico. Os "lances" e as "jogadas" vão depender do volume e da estrutura global do capital acumulado pelos agentes em suas experiências anteriores nos diferentes campos em articulação com o capital específico daquele determinado campo. Essa movimentação dos agentes (trajetórias/estratégias) no espaço social — atravessando os diferentes campos com relações e permanências diferenciadas segundo os interesses que os mobilizam (sempre consistentes com os habitus de que são dotados) — repercute na modificação da estrutura e do volume de capitais dos diferentes agentes.

Assim, as possibilidades de transforma ção dos habitus podem ser pensadas (i) a partir da movimentação e das lutas travadas dentro de um campo e (ii) pela circulação entre diferentes campos sociais. Além disso, a transformação do habitus pode ocorrer também por um trabalho de análise reflexiva (portanto racional) sobre as próprias disposições como assinalou Bourdieu e Wacquant (1992).

(i) Lutas que produzem mudanças

Bourdieu entende o campo como um local de lutas concorrenciais que visam conservar ou transformar as relações de forças ali presentes. Dessa forma, o campo é um lugar de mudanças permanentes. Como afirma Louis Pinto (1998):

Pierre Bourdieu jamais comparou um campo a um jogo de forças cegas. Num campo existem reais possibilidades de transformação, mas que são muito diferentes conforme a posição ocupada (p. 10)

Ou seja, os agentes, em virtude de sua dotação de capital (volume e estrutura), fruto de sua trajetória e da posição que ocupam no campo, têm uma propensão a se orientarem, seja em direção à conservação da distribuição do capital entre os agentes (hierarquias), seja no sentido de subverter essa distribuição. Considerando que o habitus se forma a partir da inserção do agente com as disposições necessárias para se manter nos jogos que se travam nos campos sociais, as mudanças das posições no campo e as transformações do volume e da estrutura de capitais implicam em modificações no próprio habitus.

No interior de cada campo, a hierarquia estabelecida é continuamente contestada e os princípios que sustentam a estrutura do campo podem ser desafiados e colocados em questão. Para Bourdieu e Wacquant (1992), os agentes atuam — por intermédio de categorias de percepção e de apreciação social — sobre a situação que os determina, mas nunca estão livres dos condicionamentos sociais que produzem o habitus. Não existe, portanto, um sujeito a priori, a-histórico, que não seja, em alguma medida, determinado pelo social. No mundo social, há estruturas objetivas, independentes da consciência e da vontade dos agentes, que são capazes de orientar ou impor-se sobre as práticas e/ou representações dos indivíduos. Assim, as práticas sociais não são ações mecânicas produzidas pelas estruturas sociais, mas o resultado das transformações dos habitus decorrentes das relações estabelecidas pelos agentes em sua mobilização no interior dos campos específicos, e pelas redes de relação que constroem ao circular pelos campos no espaço social3.

O habitus [...] sendo produto da história, é um sistema de disposições abertas que não cessa de ser afrontado por experiências novas e, portanto, não cessa de ser afetado por elas. Ele é durável, mas não imutável. (p. 108)

(ii) A movimentação pelo espaço social

A necessidade de avançar no conhecimento empírico do processo de transformação permanente das disposições duráveis (habitus) levou-nos a formular algumas hipóteses sobre as condições das conversões e reconversões dos habitus.

Uma das hipóteses relaciona-se à extensão e à frequência da movimentação dos diferentes agentes pelo espaço social: os agentes em função de seus habitus (adquiridos sob determinadas condições de vida e de acordo com uma particular trajetória social) têm maior ou menor probabilidade de circular e jogar nos diferentes campos. Por sua vez, a maior ou menor circulação pelos campos sociais com condições de permanência — ou seja, de atuar nos campos — dependerá do grau de complexidade dos habitus. Nossa hipótese é que a variedade de capitais presentes na estruturação dos habitus, decorrente do trânsito e das jogadas dos agentes em vários campos, proporcionaria uma maior plasticidade aos habitus. Tal condição se desdobraria em uma crescente e mais pronta possibilidade de conversão ou reconversão das disposições para pensar, agir, sentir e gostar, revestindo-as de roupagens cada vez mais plurais, complexas e distintas4. Nesse processo, a "durabilidade5", uma das características dos habitus, torna-se mais difícil de ser apreendida.

As condições de acumulação de capital são proporcionais às oportunidades de jogo que os agentes encontram nos campos sociais. Essas oportunidades, entretanto, não parecem ser circunstanciais ou aleatórias, pois estão normalmente balizadas pelo volume e pela estrutura de capital dos agentes em relação às condições (de volume e estrutura de capitais) dos demais agentes envolvidos no jogo em um campo específico, pois como vimos, para Bourdieu, "no social tudo é relacional".

Dessa perspectiva, a aquisição e a acumulação de capitais específicos (econômico, linguístico, científico, esportivo etc.) implicam em condições objetivas de estabelecer relações com os demais agentes num determinado campo. Essas ações são dependentes das posições relativas do conjunto dos agentes naquele campo específico (que tendem a guardar certa homologia com as posições alcançadas em outros campos) e conferem a cada agente um "sentido do jogo" mais ou menos adequado às condições de transformação ou manutenção das posições relativas dentro dos campos. É lógico que quanto maior o volume do capital, maiores serão as condições dos agentes de dominar o jogo. No entanto, é importante lembrar que, na perspectiva dinâmica das relações habitus/capitais-campos, nenhuma conquista de posição em determinado campo é definitiva, pois o espaço social é constituído por um conjunto de campos que, embora relativamente autônomos, se inter-relacionam, criando uma sobredinâmica que se impõe sobre os campos específicos.

A complexifica ção do habitus dos agentes que circulam e "jogam" em vários campos hipoteticamente ofereceria maiores condições da sua diversificação estrutural e, consequentemente, do volume total do capital. Assim, agentes dotados de habitus complexos, em princípio, têm otimizadas as chances de alcançar posições sociais mais elevadas no espaço social. Num sentido inverso, certos grupos de agentes que, em virtude das condições sociais de vida, têm menos oportunidades de atuar e circular por diferentes campos teriam estrutura e volume de capitais mais simples e, portanto, encontrariam diminuídas as suas chances de formação de habitus mais complexos.

Imaginemos duas situações polares para pensar o problema em tela:

• Os agentes que, por origem social, desde a constituição dos habitus primários, encontram-se expostos a uma pauta de socialização marcada pela experiência familiar de participar do "jogo social" em uma grande variedade de campos (escolar, cultural, econômico, religioso, político...) acostumam-se com o constante trânsito por campos sociais. A partir desses trânsitos, ampliam-se suas condições de adaptação para agir conforme regras diferenciadas (dos campos). O exercício permanente de conversões e reconversões de capitais para se adequarem às exigências e motivações específicas dos jogos sociais em que se envolvem (nos diferentes campos) tende a dotar esses agentes com uma estrutura mais flexível de capitais. É lógico que essas trajetórias — ao produzirem uma plasticidade maior às formas de agir, pensar e sentir — tendem a facilitar a acumulação e diversificação de capitais desde cedo.

• Outros agentes, também por origem social, acabam submetidos a um processo de socialização familiar em que as rotinas diárias lhes oferecem poucas condições de circulação social: os familiares acordam entre 5 e 6 horas da manhã, gastam de uma a duas horas de condução até o trabalho; trabalham durante oito horas em atividades no mais das vezes repetitivas e manuais que, além disso, oferecem poucas condições de interações sociais diversificadas (no sentido de trocas sociais ampliadoras do universo simbólico e material), almoçam, normalmente, no próprio local de trabalho e ao final do dia gastam de uma a duas horas de volta para a casa, onde enfrentam os mesmos problemas e tensões cotidianas que procuram esquecer em frente da televisão ou com um grupo de amigos da vizinhança, antes de ir dormir e recomeçar a rotina diária. É óbvio que as disposições duráveis ou habitus desse grupo de agentes são forjadas em sua grande parte na situação familiar (onde se constituem os habitus primários) e, secundariamente, nas relações com a vizinhança e no trabalho, cujos pares provavelmente experimentam as mesmas restrições à diversificação das experiências. A posição social ocupada no campo do trabalho e as exigências de sobrevivência dominam o cotidiano desse grupo de agentes e os remetem a jogadas sociais, em grande parte bastante previsíveis, que dificilmente fomentam estratégias sociais com probabilidades de levá-los a deslocamentos ascensionais mais amplos6.

Confrontadas as duas situa ções, percebe-se que, no primeiro caso, haveria, em princípio, maiores oportunidades de transformações dos habitus para enfrentar o "jogo social", enquanto que, no segundo caso, os agentes submetidos a situações cotidianas e estilos de vida, sempre mais assemelhadas às dos familiares e vizinhos, teriam, em princípio, menos oportunidades para a ampliação do volume e estrutura de capitais dos seus habitus.

Por fim, outro modo de modificar as disposições adquiridas dependeria de um trabalho de análise reflexiva, a ser desenvolvido pelo próprio agente. Nesse sentido, a pesquisa sociológica desempenharia um papel crucial, pois segundo Bourdieu (1990),

[...] é através da ilusão de liberdade em relação às determinações sociais que se dá a liberdade de se exercerem as determinações sociais. [...] Paradoxalmente, a sociologia liberta libertando da ilusão de liberdade, ou, mais exatamente, da crença mal colocada nas liberdades ilusórias. A liberdade não é um dado, mas uma conquista, e coletiva. (p. 28)

A liberdade — que será sempre relativa — poderia assim ser alcançada por um trabalho de reapropriação dos determinantes. É nesse sentido que, em outra ocasião, o autor fala que a tarefa da sociologia é desnaturalizar e desfatalizar o mundo social (Bourdieu; Wacquant, 1992), o que permitiria perceber por onde passariam as possibilidades de transformação.

 

Com e para além de Bourdieu: novas possibilidades de se operar com o capital cultural

As respostas ao survey desenvolvido pelo grupo de pesquisa em nove escolas de prestígio no Rio de Janeiro — composto de três questionários: alunos, famílias e professores — indicaram práticas sociais e culturais desses públicos, que incorporavam cada vez mais elementos da cultura de consumo, distanciando-se da lógica e do conteúdo das práticas sociais das elites culturais estudadas por Bourdieu na França das décadas de 1960 e 1970.

Uma primeira análise dos dados levou-nos a indagar quais seriam as características e os padrões de distinção das práticas culturais e estilos de vida dos segmentos superiores das hierarquias sociais em relação aos segmentos das camadas populares. Esse objetivo implicou em ir para além de Bourdieu, a fim de compreender o surgimento de outros padrões de cultura, entendidos como outras maneiras de ver, ler, perceber e representar o mundo social (Martín-Barbero, 1998). Nesse movimento em direção aos contornos e conteúdos das práticas sociais da população que investigávamos, uma característica ficou evidente como aquela que, ao menos inicialmente, garantiria novos padrões de distinção — o volume de capital informacional dos agentes que estudávamos.

 

Recriando cenários distintivos: a força do capital informacional

Uma das dimensões mais relevantes na caracterização do grupo estudado, no campo das práticas culturais, é o acesso à informação. A qualidade da vida social nos espaços urbanos, crescentemente complexos das grandes metrópoles — como o Rio de Janeiro —, demanda um tipo de conhecimento permanentemente atualizado que articule o nível local aos cenários mundiais/globais. Por outro lado, essa articulação se faz necessária para poder compreender e significar o cotidiano, assim como para desenvolver estratégias a partir da antecipação de cenários futuros de curto prazo.

O crescimento do ecletismo dos gostos e das práticas das classes superiores e a segmentação do meio cultural das classes populares constituem as duas faces de uma mesma realidade, a saber, a dificuldade crescente a equiparar os grupos sociais com repertórios de práticas e de preferências unificadas e homogêneas, no momento mesmo em que as desigualdades econômicas entre estes grupos vão, sobretudo se reforçando. Esta desunificação das culturas de classe, em um contexto de desigualdades crescentes, manifesta a importância específica e muitas vezes negligenciada dos parâmetros puramente econômicos da estratificação social dos estilos de vida. (Coulangeon, 2004, p. 76)

Essa possibilidade no mundo contemporâneo, no entanto, não é democraticamente distribuída, pois é fortemente condicionada pelas condições socioeconômicas. Está ligada ao uso de novas tecnologias de informação, consideradas não só como um simples meio — pois produzem, armazenam e transmitem o capital-informação —, mas como vias de escoamento e orientação do fluxo de trocas materiais e simbólicas. Ora, o acesso às novas e sofisticadas tecnologias, sempre exigindo substituição e reposição em virtude do rápido incremento tecnológico, implica em tempo, dinheiro e cada vez mais escolaridade, o que mantém o caráter excludente em relação à maior parte dos agentes das camadas populares. Dessa forma,

[...] o capital-informação tende a dividir os homens e mulheres em ricos e pobres em informação, em aqueles que geram valor-informação para o capital e aqueles excluídos do processo de geração, registro, comunicação e consumo de informação-valor. Sociedades que não desenvolvem tecnologias da informação, com todas as relações e agenciamentos sociais nelas envolvidos, tendem não somente a ser subinformadas em relação aos países capitalistas centrais, como também a erigir, dentro de suas fronteiras, divisões ainda mais fundas entre suas minorias um tanto ricamente informadas e suas grandes maiorias pobremente informadas. (Dantas, 2002, p. 198)

No Brasil, as classes médias e altas, razoavelmente supridas de serviços básicos, passam a demandar, conforme esse autor, serviços interativos que lhes deem acesso a novos padrões de comportamentos de consumo e entretenimento (televisão por assinatura, compras on line, tecnologias digitais de vida efêmera, internet etc.). A concentração de grandes corporações no gerenciamento de jornais, revistas, editoras de livros, TV aberta ou paga e Internet tem consequências importantes sobre os gostos e padrões de consumo dos diferentes estratos da população.

Cabe destacar que o capital-informação, analisado por Dantas (2002), gera valor-informação com importantes desdobramentos no plano material, podendo ser convertido em capitais econômico e social. Sobre a especificidade do capital cultural do grupo estudado, consideramos que o capital-informação é capital informacional com propriedades de insumo cultural, funcionando, portanto, como uma dimensão da estrutura do capital cultural7. Desse modo, o capital informacional não só define os novos modos de produção e o fluxo dos capitais, como também as formas de vida dos grupos e das famílias.

O acúmulo do capital informacional evidenciou-se pelos amplos recursos dos agentes que estudamos para assinatura de jornais, revistas, audiência a jornais televisivos, programas de entrevistas, debates e documentários, além do grau de escolarização das famílias e o acesso às escolas investigadas, consideradas entre as melhores do Rio de Janeiro. Esses dados os colocam em uma posição de potenciais disseminadores de opinião no contexto da população brasileira. Os baixos índices de escolaridade no Brasil8, apesar dos esforços da última década de expansão da rede pública de ensino, comprovam o diferencial do grupo estudado, uma vez que as práticas culturais de leitura e consumo, identificadas pelo survey/SOCED, implicam em estilos de vida e níveis de escolaridade bastante elevados para os padrões brasileiros.

 

As transformações nas práticas culturais

Em recente levantamento sobre as práticas culturais dos franceses, Olivier Donnat (2004)9 ressaltou como os gostos e os usos do tempo livre, assim como a variedade dos modos de apropriação das obras e dos produtos culturais, são marcados por uma complexidade de fatores. O autor ressalta que, para além da herança cultural, as práticas culturais podem ser adquiridas à margem do seio familiar e até mesmo em reação a ele. Assim, os jovens tanto podem reproduzir os gostos familiares como os recusar. De fato, o que mais frequentemente encontramos são combinações da herança (ou recusa dela) com outras influências, entre as quais o grupo de pares parece ter uma presença importante. Essa variedade dos gostos seria, portanto, responsável pelas mudanças nos padrões das práticas culturais através das gerações.

Em um texto recente, analisando as formas de transmissão das "paixões culturais10" no contexto francês, Donnat (2004) indica que os pais são a principal fonte dessas paixões.

O fato de que as jovens gerações sejam duas vezes mais numerosas a receber uma paixão no domínio da arte e da cultura – e que dois terços dos parentes que as transmitiram não tenham, eles mesmos, a recebido – dá a medida da difusão do "desejo" de cultura, notadamente no domínio musical, assim como da profunda renovação das condições de sua transmissão. Mas ao mesmo tempo é necessário reconhecer que a cultura continua, em relação aos outros domínios de tempo livre, um lugar onde os mecanismos de reprodução funcionam com maior eficácia e onde as desigualdades, medidas ao início do nível de estudos ou pela origem social, permanecem fortes. (p.14, grifos nossos)

As práticas culturais dos jovens estudados pelo SOCED indicam resultados bastante consistentes com essas observações de Donnat (2003): os filhos parecem seguir e ampliar as experiências dos pais.

Em relação à leitura dos jovens que estudamos, apuramos que 54% afirmaram adorar ir a livrarias e 38% indicaram a leitura como uma de suas atividades prediletas11. Em um país de poucos leitores e se levarmos em consideração a faixa etária desses estudantes (13/14 anos), certamente esse grupo de jovens distingue-se por ter a literatura entre o elenco de suas práticas sociais/culturais.

O grupo de pais que respondeu ao questionário afirmou frequentar regularmente shoppings e restaurantes. Livrarias, cinemas e teatros, embora com representação mais baixa, também estão entre as práticas mais escolhidas. A expectativa da equipe de pesquisa era de uma maior frequência às práticas culturais consideradas de 'alta cultura'. No Brasil, ainda persiste — sobretudo entre os setores médios da população nos quais domina a "boa vontade cultural" (Bourdieu, 1979) — o imaginário que identifica a 'alta' cultura com os padrões da tradição europeia, notadamente à francesa (percebendo como superiores práticas culturais relacionadas a museus, música erudita, literatura clássica etc.). Há alguma pesquisa que comprova essa persistência? Pudemos observar, no entanto, que os consumos culturais das frações de elites analisadas sofrem um processo de 'americanização'12. Os destinos das viagens para o exterior, por exemplo, seguem na ordem de preferências: EUA e Canadá, Europa, América Latina13.

Vários autores — Ortiz (1994), Garcia-Canclini (1998) e Sarlo (2002) — já haviam sinalizado uma alteração nos padrões de consumo cultural sob o impacto da mundialização da cultura. Garcia-Canclini (1998) assinalou a diminuição de frequência a espaços públicos relacionados à oferta cultural clássica (livrarias, museus, salas de teatro, cinema e música) em consequência das características de complexificação da vida urbana — disponibilidade de tempo, dificuldades nos deslocamentos e medo da violência. No mesmo sentido, Ortiz (1994) assinalou:

Já não são os valores 'clássicos' que organizam a vida cultural, mas, o que alguns autores chamam de 'cultura das saídas'. A arte de viver não toma mais como referência a 'alta cultura', mas os tipos de 'saídas' realizadas pelos indivíduos – ir ao concerto de rock, à opera, aos restaurantes, ao cinema, ao teatro, viajar de férias. A oposição 'cultura erudita' x 'cultura popular' é substituída por outra: 'os que saem muito' versus 'os que permanecem em casa'. [...] A mobilidade, característica da vida moderna, torna-se sinal de distinção. (p. 211)

Nossos dados empíricos corroboram essas observações. Os dados obtidos sobre frequência a museus e centros culturais são insuficientes para aquilatar o peso que essas práticas têm na vida desses jovens. Verificamos, no entanto, uma baixa frequência em relação aos eventos eruditos (ópera, balé e concertos), visto que, para eles, a opção "nunca frequenta" foi assinalada por 57% dos respondentes.

 

O capital econômico recriaria fronteiras culturais?

A interação do culto com os gostos populares, com a estrutura industrial da produção e circulação de quase todos os bens simbólicos, com padrões empresariais de custo e eficácia, está mudando velozmente os dispositivos organizadores do que agora se entende por "ser culto" na modernidade. (Garcia-Canclini, 1998, p. 63)

As rápidas alterações do campo cultural, especialmente nas últimas décadas, aparecem claramente nos perfis dos agentes estudados, exigindo a ampliação das referências teórico-empíricas da pesquisa, inicialmente muito marcadas pelos trabalhos de Bourdieu. Nestor García-Canclini (1998), Renato Ortiz (1994) e Maria da Graça Setton (2005), entre nós, foram referências fundamentais para a interpretação das peculiaridades do campo cultural no Brasil e na América Latina. Entre os franceses, as contribuições mais recentes de Donnat (2003) e Coulangeon (2004) permitiram que aprofundássemos nossa reflexão sobre os atuais contornos do capital cultural dos grupos que investigamos, assim como sobre a questão dos novos padrões distintivos das elites. Coulangeon (2004), em especial, foi um autor que nos possibilitou articular melhor algumas pontes empírico-teóricas para analisar as conversões de capitais e, muito especialmente, para avaliar o significado atual dos aportes do capital econômico na recriação das distâncias socioculturais.

García-Canclini (1998) já assinalara, no início da década de 1990, que no Brasil e na América Latina não se poderia falar de uma estrutura de classe unificada — e muito menos de uma classe hegemônica, um equivalente local da burguesia dos estudos franceses — em condições de impor ao sistema inteiro sua própria matriz de significações. O desenvolvimento na América Latina teria sido marcado no plano econômico e simbólico por uma multiplicidade de pautas culturais em consequência da permanente tensão entre a tradição patrimonialista e o impulso modernizador. O resultado teria sido um campo simbólico fragmentado, fortemente marcado pela heterogeneidade cultural que formaria um compósito simbólico e econômico com características bastante diferentes daquelas encontradas nos países capitalistas centrais. Mesmo quando a modernização econômica, a ampliação escolar e os sistemas de comunicação de massa procuram promover certa homogeneização dos sistemas sociais, a coexistência de tradições culturais diversas, associadas à intensa criação e difusão de produtos culturais contemporâneos, produzem e reproduzem permanentemente a heteronomia no plano cultural.

Apesar disso, os reflexos da globalização, sob o prisma da massificação cultural e das práticas de consumo, têm sido frequentemente interpretados em seus desdobramentos homogeneizadores. Entretanto, para além da aparência de aproximação das práticas culturais das diferentes camadas sociais, a exploração do nosso material da pesquisa, em diálogo com outros pesquisadores, permitiu indicar que, sob a capa da democratização dos gostos estéticos e das práticas sociais, novas formas de estratificação são reconstruídas, preservando a distância simbólica entre as elites e os setores da população que se situam nos patamares inferiores da estratificação social.

Essa característica é assinalada para o contexto francês hoje:

[...] algumas evidências empíricas impõem, em primeiro lugar, romper com a visão de uma classe dominante unificada pela veneração das obras de cultura erudita. Parece, de fato, que hoje em dia, o estilo de vida das classes superiores se caracterizam menos pela legitimidade cultural das preferências e dos hábitos, do que pelo ecletismo dos gostos e das práticas. (Coulangeon, 2004, p. 60, grifos nossos)

Cabe lembrar que o conceito de capital cultural, cunhado por Bourdieu, fundamentava-se na hipótese desse novo tipo de capital funcionar como uma espécie de retradução do capital econômico em hierarquias culturais naquelas sociedades onde o poder e os privilégios não se traduziriam mais pelas propriedades e pelos títulos de nobreza. O capital cultural produziria assim um poder de distinção mais refinado em virtude de sua dupla arbitrariedade: (1) o desconhecimento do caráter de classe das práticas culturais; e (2) o reconhecimento da cultura das elites como a única legítima.

As transformações do campo cultural, como vimos sobretudo nas últimas décadas do século XX, vêm alterando os padrões das práticas — culturais e sociais — que antes distinguiam os grupos que se situavam nos níveis mais elevados das hierarquias sociais. Tais mudanças, segundo Coulangeon (2004),

[...] fragilizam o modelo da distinção, mas não o desqualificam [...], o ecletismo das classes superiores encarnam, de alguma maneira, a forma contemporânea de uma legitimidade cultural fundada sobre a tolerância estética e a transgressão das fronteiras entre as gerações, os grupos sociais ou as comunidades étnicas, em relação à qual a estratificação social das atitudes permanece muito acentuada. (p. 80, grifos nossos)

Esse ecletismo também pode ser observado nos dados produzidos pelo nosso survey, o que nos levou a enfatizar a análise da estrutura interna do capital cultural dos grupos estudados. Cada vez mais se torna necessário pensar em práticas culturais que se distinguem mais por estilo, intensidade e espaços físicos onde se realizam do que pelos seus conteúdos. É o caso, por exemplo, da frequência a museus (no Brasil ou no exterior), do aprendizado de línguas estrangeiras (em cursos extracurriculares ou em escolas bilíngues), dos títulos universitários (em universidades tradicionais ou nas recém-criadas com a "democratização" universitária), do acesso às informações e ao mundo digitalizado (via escola e mídia ou por meio de viagens e dos incontáveis recursos presentes nos quartos e nas casas dos jovens estudados).

A multiplicidade de recursos de ordem material, cultural, simb ólica e econômica — indicada por uma boa parcela dos estudantes e pais que estudamos — oferece condições muito particulares de ampliação do habitus, acrescendo-lhes condições de manter ou melhorar as posições de distinção relativa que ocupam nos campos sociais.

Essa plasticidade do habitus é, a meu ver, um dos principais trunfos das novas elites para garantir a sua distinção que, por sua vez, ancora-se em padrões de vida e consumo normalmente só acessíveis às camadas sociais que se encontram nos níveis superiores de renda no Brasil, tal como as representadas pelos sujeitos de nosso survey. Tudo nos leva a crer que Coulangeon (2004) está certo ao sublinhar a necessidade de uma maior atenção ao componente propriamente econômico da persistência das distinções na esfera cultural:

O desafio teórico que representam as mudanças observadas na estratificação social dos gostos e das práticas culturais obriga-nos à análise da produção dos efeitos de legitimação em um contexto em que as elites perderam o monopólio de prescrição das normas culturais. A sociedade francesa contemporânea [também a brasileira] aparece, deste ponto de vista, como uma sociedade na qual as desigualdades sócio-econômicas não são mais tão fortemente sustentadas, como no passado, pelas formas de dominação simbólica. (p. 81)

Apesar da flexibilização das fronteiras entre as culturas de classe (Setton, 2005), parece-me que ainda persistem traços distintivos de práticas culturais e estilos de vida, mantendo e reforçando as hierarquias sociais. O material empírico que temos produzido, a partir das investigações da equipe de pesquisa do SOCED, oferece alguns elementos que permitem supor que, também entre nós, está em curso um recrudescimento das barreiras econômicas que se desdobram em estilos de vida e práticas de consumo material e cultural, que se reconfiguram em capital simbólico e poder social.

Os agentes estudados operam com um repertório de práticas sociais que são o resultado de condições privilegiadas de circulação por diferentes campos, onde capitalizam novos recursos com os quais lutam para manter a "distinção" no espaço social. A combinação tempo livre/recursos pesa sempre a favor daqueles que na divisão social do trabalho têm o privilégio de optar pelo trabalho intelectual.

A disponibilidade das tecnologias eletrônico-digitais em âmbito privado, como no caso dos agentes estudados, vem alterando até mesmo o significado de "estar em casa" para esses jovens e suas famílias, que podem estar conectados aos amigos e ao mundo pela internet ou usufruindo um sem número de práticas de lazer cultural. Esse mundo disponível a um toque do controle remoto expressa, de forma eloquente, a separação radical entre as minorias, que usufruem de um padrão de vida só acessível aos estratos superiores das hierarquias sociais, e a grande maioria da população, que sobrevive com menos ou pouco mais de um salário mínimo e cujas informações dependem da mediação quase que exclusiva da TV e do rádio.

 

De dentro e de perto uma nova escala para o olhar14

O trabalho de campo desenvolvido durante dois semestres letivos em três das nove escolas em que foi realizado o survey levou-nos a recorrer a outra escala de investigação. De dentro e de perto, construímos outro desenho teórico-metodológico para que respondesse ao desafio da aproximação das lentes às configurações específicas dos processos de escolarização nas escolas investigadas. Nesse sentido, utilizamos recursos das perspectivas interacionistas de análise, aliando a perspectiva relacional à noção de campo. Optamos por estudos de casos em escolas, que representavam projetos pedagógico-educativos bastantes distintos, e atrairiam públicos que, para além da qualidade de ensino, teriam demandas específicas por valores e estilos de relação pedagógicas para a escolarização dos filhos.

O estudo de caso fornecia-nos um campo de observação privilegiado para formular uma interpretação mais detalhada dos projetos educativos, da autoimagem institucional (representações dos estudantes, pais, direção, professores e equipes pedagógico-administrativas), dos organogramas, dos estilos de gestão e liderança, do clima escolar, do perfil de docentes, dos modelos curriculares, da distribuição do tempo escolar, da arquitetura (distribuição dos espaços), da utilização de espaços específicos – como bibliotecas, laboratórios, salas ambientes, auditório, capelas etc. – das relações interinstitucionais, dos trabalhos sociais, das atividades extracurriculares, da divulgação da imagem institucional (nas páginas das escolas na internet, em folhetos, na mídia...) etc.

Atenção e vigilância epistemológica guiaram nossas observações em três níveis:

• O da auto-objetivação (Bourdieu, 1989) dos pesquisadores em relação ao processo de trabalho no campo, às expectativas, estratégias, percepções e sentimentos durante o período de observações;

• O das interações com e entre os agentes escolares no campo, nas situações de entrevistas e nas apresentações da pesquisa nas instituições;

• O do registro das múltiplas linguagens, fossem elas expressões de distribuições espaciais e simbólicas, decorativas (indicando valorações diferenciais das atividades e dos subgrupos institucionais) ou linguagens acionadas pelos agentes estudados em diferentes contextos e situações, indicando horizontalidades ou assimetrias nas estruturas de poder institucional.

A análise documental foi desenvolvida na ótica da análise de conteúdos, que permite identificar a frequência com que apareceram certos temas, ideias e palavras em um texto, buscando avaliar de forma mais objetiva o peso relativo de determinadas questões, ideias e valores, quer em documentos, projetos e programas institucionais, quer em entrevistas desenvolvidas com os agentes escolares (diretores, coordenadores, técnicos escolares ou professores).

Os dados construídos desde o survey foram sempre relacionados com dados mais gerais do sistema educacional no Brasil (SAEB, ENEM, INEP) para elucidar as especificidades dos casos estudados. Portanto, a abordagem relacional, com todo o equipamento conceitual proposto por Bourdieu, e as referências sobre estratificação e mobilidade social no Brasil (Pastore; Valle; Silva, 2000) foram fundamentais para a interpretação dos aspectos distintivos dos agentes e das instituições investigados.

Com este artigo, procurei descrever algumas estratégias utilizadas (pelo SOCED) em equipe para desenvolver uma "tradução empírica dos conceitos" na perspectiva sugerida por Bourdieu de "pôr em jogo as coisas teóricas".

 

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Correspondência:
Zaia Brandão
Rua Clarice Lispector 159
22753-180 – Itanhangá – RJ
E-mail: zaia@puc-rio.br

Recebido em 18.06.09
Aprovado em 06.10.09

 

 

Zaia Brandão, durante duas décadas, investigou a escolarização das camadas populares. Atualmente investiga elites escolares, focalizando as estratégias de escolas de prestígio no desenvolvimento das disposições (habitus) escolares que viabilizam o bom desempenho dos estudantes. Menção Honrosa do XXIII Premio Jovens Cientistas (2008) pela sua atuação na formação de pesquisadores.

1. Dois subitens deste artigo – Hipóteses sobre a transformação dos habitus e Com e para além de Bourdieu – basearam-se em textos publicados anteriormente no Boletim SOCED (http://www.maxwell.lambda.ele.puc-rio.br/cgi-bin/db2www/PRG_1168.D2W/INPUT) com a colaboração, respectivamente, de Helena Altmann e Maria Elena Martinez.
2. "[...] a lógica específica de cada campo determina aquelas que funcionam neste mercado, que são pertinentes e eficientes no jogo considerado, que, na relação com este campo funcionam como capital específico, e desta forma, como fator explicativo das práticas. [...] a posição social e o poder específico que os agentes obtêm em um campo particular dependem, sobretudo do capital específico que eles podem mobilizar" (Bourdieu, 1979, p. 127).
3. Expressão utilizada por Bourdieu como sinônima de sociedade para indicar o caráter relativamente autônomo dos campos que compõem o mundo social.
4. No sentido de distinguir, diferenciar, hierarquizar e, portanto, "manter distâncias".
5. Núcleo permanente ou estrutura básica do habitus.
6. Para uma leitura diferente sobre as condições de ampliação das "jogadas" em campo adverso dos setores populares, consultar Lahire, 1997.
7. Bourdieu também utiliza a expressão "capital informacional" como equivalente a capital cultural. No contexto deste texto, no entanto, utilizamo-la como um dos componentes da estrutura do capital cultural.
8. Os brasileiros têm em média 5,7 anos de escolaridade (PNAD/IBGE, 2000).
9. O autor levantou dados sobre leitura de jornais, revistas, livros, frequência a cinemas, teatros, concertos, museus, eventos esportivos, tempo diante da TV, audiência radiofônica, discos etc.
10. Os dados dessa pesquisa de Donnat indicam que mais de um terço dos 5200 indivíduos com idade acima de 14 anos interrogados declarou ter recebido de seu meio familiar uma atividade que tem importância em sua vida, uma "paixão", seja de domínio cultural, lazeres científicos, línguas estrangeiras etc.
11. No entanto, cabe assinalar que 22% dos estudantes investigados afirmaram que acham difícil ler livros até o fim.
12. O termo "americanização" refere-se à orientação e à incorporação de práticas e bens da indústria cultural dos EEUU como serviços de informação, entretenimento e turismo.
13. Cabe destacar o último lugar das preferências para a América Latina, indicando o processo de internacionalização das elites com opção pelos países do 1º mundo.
14. A expressão em itálico foi cunhada por José Guilherme Cantor Magnani (2002) em artigo sobre etnografia urbana.

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