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Educação e Pesquisa

Print version ISSN 1517-9702

Educ. Pesqui. vol.38 no.3 São Paulo July/Sept. 2012  Epub June 19, 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S1517-97022012005000013 

Criatividade no contexto educacional: análise de publicações periódicas e trabalhos de pós-graduação na área da psicologia

 

Creativity in educational context: analysis of periodical publications and graduate works in the field of psychology

 

 

Talita Fernanda da Silva; Tatiana de Cássia Nakano

Pontifícia Universidade Católica de Campinas

Correspondência

 

 


RESUMO

Atualmente, o número de estudos sobre criatividade desenvolvidos no contexto educacional vem-se ampliando, dada a constatação de sua importância tanto para os avanços almejados na educação, quanto para o desenvolvimento do estudante. Nesse sentido, o presente estudo teve como objetivo investigar a produção científica sobre criatividade no contexto educacional dos últimos quinze anos (1995-2009), por meio da análise de publicações periódicas e trabalhos de pós-graduação na área da psicologia. Após consulta a quatro bancos de dados, 82 trabalhos foram analisados em relação ao ano de publicação, à região do país a que pertence o pesquisador, ao nível do trabalho, à temática abordada e ao tipo de pesquisa, de amostra e de instrumentos utilizados. Os resultados mostraram, de maneira geral, um crescimento no número de publicações a partir do ano 2000. A maior parte dos trabalhos vem sendo desenvolvida por pesquisadores das regiões Sudeste e Centro-Oeste; a maioria deles é de cunho empírico, com foco de investigação, em primeiro lugar, na população adulta e, em segundo, na população infantil, envolvendo principalmente professores de ensino fundamental e seus alunos. Dentre os instrumentos que têm sido empregados para avaliação da criatividade no contexto educacional destacam-se o Inventário de barreiras à criatividade pessoal, os Testes de Pensamento Criativo de Torrance e a Checklist de barreiras à promoção da criatividade em sala de aula. A análise demonstrou que, embora se possa notar um aumento no número de trabalhos desenvolvidos no ambiente escolar, lacunas ainda existem em relação a estudos que investiguem essa característica em amostras minoritárias (alunos com deficiência, alunos com altas habilidades, idosos em universidades de terceira idade, espaços não formais de aprendizagem).

Palavras-chave: Educação escolar - Produção científica - Estado da arte - Psicologia.


ABSTRACT

Currently, the number of studies on creativity implemented in the educational context is increasing, as more and more its importance is highlighted for both the advancements intended for education and for the student's development. Thus, the purpose of this paper is to investigate the scientific production on creativity in the educational context along the last fifteen years (1995-2009), by analyzing periodical publications and graduate works in the field of psychology. After consulting four databases, 82 works were analyzed in relation to their year of publication, the area of Brazil the researchers is located in, the level of the work, the subject it deals with and the type of research, sample and tools utilized. The results showed that, in general, the number of publications increased after 2000. Most works have been developed by researchers in the Southeast and Center-West regions; most of them if of empirical nature, with an investigation focus firstly on adult population and, secondly, on the infantile population, involving mainly high-school teachers and their students. Among the tools that have been employed for assessment of creativity in the educational context, the following are the highlights: Inventory of barriers to personal creativity, Creating Thinking Tests by Torrance and the Checklist of barriers to the promotion of creativity in the classroom. The analysis has shown that, although an increase can be noticed in the number of works implemented in the school environment, gaps still exist in relation to studies investigating this characteristic in minority samples (disabled students, students with high skills, the elderly in universities for senior citizens, non formal learning spaces).

Keywords: School education - Scientific production- State-of-the-art - Psychology


 

 

Devido à importância da criatividade para o desenvolvimento pessoal, essa característica vem-se constituindo como tema de interesse de pesquisadores em diferentes áreas, podendo-se citar, dentre elas, a psicologia, a educação, a filosofia e as artes. Tradicionalmente, sua investigação tem enfocado quatro aspectos, relacionados à pessoa, ao processo, ao produto e ao ambiente criativo (ALENCAR, 1995; ALENCAR; FLEITH; BRUNO-FARIA, 2010; AMABILE, 1983; EYSENCK, 1999; WECHSLER, 2008), dado o fato de que a interação entre esses fatores pode facilitar a realização pessoal e profissional do indivíduo (WECHSLER, 1998, 1999).

Dentre os contextos em que a criatividade vem sendo investigada, a escola tem ganhado destaque, de maneira que, em diferentes países, nota-se um número cada vez maior de educadores que tem destacado a importância de se promover um ambiente que favoreça o seu desenvolvimento (ALENCAR; FLEITH, 2008; FLEITH; ALENCAR, 2008; MARTINEZ, 2002). Isso porque, historicamente, o desafio da educação tem sido reconhecer a diversidade de alunos que se encontram nos sistemas de ensino, em termos de ritmos, estilos, interesses e potencialidades (DAVID et al., 2011), a fim de permitir que um maior número possa beneficiar-se de contextos educacionais que favoreçam um desenvolvimento pleno. Nesse sentido, os estudos reforçam a necessidade de se propiciar e estimular a capacidade criativa dos estudantes em todos os níveis de ensino (KAUFMAN; BEGHETTO; POURJALALI, 2011; NAKANO; WECHSLER, 2006a).

Apesar de a criatividade ser valorizada, o que se nota é que poucas tentativas têm sido feitas para avaliar a extensão em que ela é estimulada ou inibida no ambiente escolar (FLEITH; ALENCAR, 2005), embora se possa notar, nos últimos anos, um crescimento de pesquisas nesse contexto (NAKANO; WECHSLER, 2007). Dessa forma, a escola tem sido estudada por vários autores (ALENCAR, 1986; SILVA, 1999; TORRANCE; SAFTER, 1999) como um contexto facilitador da expressão criativa, sendo que, dentro dela, o ponto que tem gerado o maior número de trabalhos de pesquisa e práticas de intervenção é constituído, segundo Martinez (1997), pelo papel da escola e pela percepção que os professores possuem acerca dessa característica.

Embora ainda haja uma lacuna de estudos que relacionem criatividade e aprendizagem, principalmente devido à recentidade no surgimento de pesquisas voltadas à investigação da criatividade no ambiente educacional, presentes no Brasil somente a partir da década de 1990 (FLEITH; ALENCAR, 2006), os resultados que foram obtidos até o momento têm apontado, segundo Wechsler e Nakano (2011), a existência de diversos modos para identificar a criatividade em alunos, professores e currículo escolar, assim como permitiram enfocar e testar diferentes alternativas para estimular o seu desenvolvimento. Do mesmo modo, ainda segundo as autoras, tais resultados possibilitaram entender que existem diversas barreiras ou bloqueios à expressão criativa.

A presença dessas barreiras pode ser compreendida diante da organização do sistema educacional brasileiro, o qual, segundo Guzzo (2002), não favorece o desenvolvimento integrado de crianças e adolescentes, decorrência do fato de que os professores muitas vezes não se sentem estimulados para interagirem de maneira criativa, diferenciada e adequada. Essa situação também é ressaltada por Oliveira (2007), cujo trabalho verificou que os educadores têm apontado a falta de capacitação, a formação inicial e o tradicionalismo pregado pela escola como elementos que acabam inibindo sua criatividade. Dessa maneira, a escola parece não estar preparada para desenvolver e estimular o potencial criativo dos alunos, visto principalmente que, dentre as características descritoras de pessoas criativas, encontram-se, muitas vezes, características indesejadas e até punidas pelos professores, tais como questionamento, divergência do que é tradicional, tendência a correr riscos. Valoriza-se o aluno obediente, padrão, conformista e sociável (ALENCAR; RODRIGUES, 1978).

Torna-se importante, assim, destacar o papel que os professores exercem no desenvolvimento criativo, reforçando-se a necessidade de que eles tenham conhecimento da maneira pela qual essa capacidade desenvolve-se, a fim de estarem preparados para identificar esses comportamentos e estimular os alunos em direção às suas possibilidades máximas (NAKANO, 2009). Por esse motivo, Ribeiro e Fleith (2007) reforçam a necessidade de se repensar a estrutura curricular de cursos de licenciatura, de modo que esta passe a incluir a criatividade como uma ferramenta de trabalho necessária para a formação docente, pois se tal característica não for minimamente valorizada nos cursos de formação, dificilmente será implementada por esses novos profissionais em sua prática.

Segundo Alencar (1995), o que a escola propõe como objetivos a alcançar, em termos de aprendizagem e ensino, poderá favorecer ou, pelo contrário, dificultar o desenvolvimento do potencial criador, considerando-se que fatores tanto intrapessoais, como interpessoais, individuais ou sociais, exercem um impacto significativo na produção criativa do indivíduo e da sociedade. Dessa forma, podemos verificar que o desenvolvimento e a expressão da criatividade não dependem somente dos esforços do próprio indivíduo, sendo também importante o contexto social em que o indivíduo se acha inserido (NAKANO; WECHSLER, 2006b), bem como as condições presentes no lar e, posteriormente, na escola.

Entretanto, convém salientar que, na atualidade, uma das maiores polêmicas em relação à distribuição da criatividade na população continua a ser a que classifica esse construto em duas formas diferenciadas: a criatividade cotidiana (Little c) e a alta criatividade (Big C). De acordo com a percepção de alguns pesquisadores (BAHIA; NOGUEIRA, 2005; BEGHETTO; KAUFMAN, 2007; DAVIS, 1999; KAUFMAN; BEGHETTO, 2009), o primeiro tipo encontra-se presente em qualquer indivíduo, sendo descrito como uma criatividade que nos permite resolver problemas diários. Já o segundo tipo só estaria presente em um número reduzido de indivíduos, que acabam por se destacar em sua área de atuação.

A polêmica envolvendo tal tipo de classificação da criatividade situa-se no fato de que ela acaba por criar consequências importantes na promoção desse construto, visto que grandes diferenças podem ser notadas entre educadores que acreditam que todos os indivíduos possuem um potencial criativo passível de ser desenvolvido e aqueles que creditam essa característica a alguns poucos indivíduos excepcionais. Segundo David (2008), se aceitarmos somente essa última hipótese, a definição de criatividade seria restringida e passível de mérito apenas aos criadores que tenham proeminência ou fama, de forma que, por esse motivo, torna-se preferível que os programas educacionais amparem-se na perspectiva do little c e em sua possibilidade de desenvolvimento.

Entretanto, ao se tratar do tema da criatividade no ambiente escolar, não devemos restringir o estímulo ao crescimento, a expansão e a expressão das habilidades do aluno ao papel do professor como elemento único desse processo (JOLY, 2001). Para a autora, além disso, são necessárias mais pesquisas sobre criatividade em ambientes educacionais voltadas para a análise e para a intervenção, e baseadas na realidade de ensino brasileira. Nesse sentido, pode-se perceber que a dificuldade na utilização do espaço escolar como local de desenvolvimento da criatividade reside no fato de que, segundo Martinez (2002), para se trabalhar a criatividade na escola, deve-se operar no mínimo em três direções: no desenvolvimento da criatividade dos alunos, da criatividade dos educadores e da criatividade como organização. Revisões da literatura (FLEITH; ALENCAR, 2005; MARTINEZ, 1997; NAKANO, 2009; WECHSLER; NAKANO, 2003) têm apontado que alguns passos já foram dados, mas muito ainda falta até que se consiga efetivamente trazer a criatividade para o ambiente escolar.

Vale aqui ressaltar que, na opinião das autoras, o desenvolvimento da criatividade no âmbito educacional não deve ser visualizado como um esforço restrito somente às escolas, sendo recomendada sua ampliação para diferentes espaços de educação que poderiam compartilhar da função do desenvolvimento de tal fenômeno, como espaços de educação não formal (instalações de alguma entidade assistencial, ONGs, brinquedotecas, centro comunitário, casa paroquial etc.) e espaços informais de aprendizagem (família, pares etc.).

Tais constatações reforçam a importância de avaliar o que tem sido pesquisado e trabalhado em nosso país no que concerne à criatividade no ambiente escolar, de forma que a análise das pesquisas nacionais poderá fornecer-nos importantes dados acerca do caminho que tem sido traçado e dos esforços que ainda precisam ser feitos. Torna-se necessário conhecer os resultados de pesquisas, tanto daquelas que vêm sendo publicadas nos meios científicos como daquelas que vêm sendo desenvolvidas no ambiente acadêmico, a fim de que o conhecimento gerado por elas possa ser incorporado às práticas educacionais brasileiras. Assim, o presente trabalho foi desenvolvido com o objetivo de investigar a produção científica sobre a temática da criatividade no contexto educacional nos últimos quinze anos (1995-2009), por meio do levantamento e da análise de publicações periódicas e trabalhos de pós-graduação na área de psicologia.

 

Método

Material

A fim de traçar um panorama das pesquisas sobre a temática, quatro bases de dados eletrônicas foram consultadas, sendo uma de teses e dissertações (Banco de Teses da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - CAPES1) e outras três de publicações periódicas (Portal de Periódicos Eletrônicos de Psicologia - PePSIC2; Scientific Electronic Library Online - SciELO3; PsycINFO4). Todas as buscas foram limitadas aos últimos quinze anos (período de 1995 a 2009) e feitas a partir das palavras-chave psicologia, criatividade e educação e da combinação entre elas. Salienta-se que a opção por trabalhar separadamente com cada uma das palavras-chave deu-se devido ao fato de que a primeira tentativa de busca pela combinação dos termos criatividade e educação resultou em um número muito pequeno de trabalhos, o que não refletia a realidade das publicações na temática e reduzia as possibilidades de análise. Assim, as autoras decidiram trabalhar separadamente com os termos e, por meio da leitura dos trabalhos encontrados, identificar aqueles que se relacionavam ou abordavam a temática de interesse. Como exemplo, podemos citar a base de dados PePSIC, que, a partir da combinação dos termos, retornou somente 14 artigos, sendo que, após busca individual dos termos, acabou apresentando 60 trabalhos selecionados.

Dessa maneira, foram encontrados 124 trabalhos na base de teses e dissertações (não havendo dados acerca do ano 2010, pois, na ocasião da consulta, essa base não se encontrava atualizada até o ano citado), 60 trabalhos na PePSIC, 57 no SciELO e 72 no PsycINFO, totalizando 189 publicações periódicas.

Procedimento

Após esse levantamento inicial dos trabalhos sobre criatividade disponíveis nas bases de dados, um refinamento da busca foi realizado com o objetivo de identificar aquelas publicações que efetivamente relacionavam-se à investigação dessa característica no contexto educacional. Cada um dos resumos foi lido, sendo excluídos aqueles que não se relacionavam diretamente à temática. Assim, dos 124 trabalhos identificados na base de dados da Capes, 20 foram selecionados para serem analisados. Posteriormente, o mesmo procedimento foi empregado em relação aos artigos, sendo que, dos 189 que retornaram inicialmente, 62 foram selecionados, totalizando 82 trabalhos que foram analisados e categorizados, separadamente em cada base e de maneira geral, em relação ao ano de publicação, à instituição pertencente, à região do Brasil em que está localizada a instituição, ao nível do trabalho (mestrado ou doutorado), à temática abordada e ao tipo de pesquisa (empírico/ teórico), de amostra e de instrumentos utilizados.

 

Resultados e discussão

Com a finalidade de obter informações acerca do ritmo de produção da área, o primeiro dado analisado referiu-se ao ano de publicação dos trabalhos (Tabela 1).

A partir dos dados, pode-se observar que a temática foi pouco investigada até o ano 2000, tendo em vista a pequena quantidade de trabalhos desenvolvidos até então, tanto sob a forma de artigos quanto de teses e dissertações. Após essa data, nota-se um aumento no número de publicações que se mantém até 2010, com exceção do ano 2002, em que uma queda pode ser notada. Cabe ressaltar que, no que se refere ao ano 2010, não foram incluídos trabalhos do tipo teses e dissertações, já que o banco de dados ainda não havia inserido os trabalhos desse ano quando a pesquisa foi realizada. Na tabela, ainda é possível verificar que os anos que apresentaram maior número de trabalhos são 2004, 2006 e 2008, os quais representaram, respectivamente, 13,50%, 15,85% e 12,50% do total de publicações na temática.

Se realizarmos uma análise agrupando os estudos em períodos de cinco anos, veremos que, de forma geral, há um aumento nas publicações, visto que, nos cinco primeiros anos pesquisados (1995-2000), foi encontrado um total de 16 publicações, as quais, comparadas com as 67 publicações desenvolvidas nos próximos cinco anos pesquisados (2001-2005), apontam para um acréscimo de 51 publicações (o que representa quase 418% de crescimento). Esse ritmo mantém-se no último período (2006 a 2010), quando são encontrados 39 trabalhos, novamente salientando-se o fato de o último ano ainda não contemplar os trabalhos acadêmicos. Tal análise aponta para uma média de 5,46 estudos por ano considerado.

Esse dado confirma os resultados que vêm sendo obtidos em outros levantamentos gerais sobre a pesquisa em criatividade (NAKANO, 2005; ZANELLA; TITON, 2005), os quais indicam que, nas últimas décadas, há um aumento no número de publicações a respeito da temática. Segundo levantamento de Wechsler e Nakano (2002) envolvendo artigos publicados durante os anos de 1984 a 2002, as autoras notaram que 70% foram realizados e estavam concentrados no período de 1996 a 2001, indicando que o interesse na área parece bastante recente no Brasil. Especificamente em relação à investigação do construto na área da psicologia escolar, um único levantamento de pesquisas foi encontrado, tendo como foco aquelas desenvolvidas com professores (NAKANO, 2009). Na opinião das autoras do presente estudo, esse número ainda vem mostrando-se pequeno diante do leque de possibilidades de investigação na temática e das lacunas que ainda se fazem presentes.

O segundo dado investigado - região do país a que pertencem os pesquisadores - mostrou que a região Centro-Oeste destaca-se com maior número de publicações, tanto nos periódicos (n=38) quanto nas teses e dissertações (n=9), seguida da região Sudeste, que também apresenta grande número de trabalhos (dezoito artigos e sete teses e dissertações). A região Nordeste apresenta um total de dez estudos, sendo oito artigos e dois trabalhos acadêmicos, situação semelhante à apresentada pela região Sul (nove trabalhos, sendo sete artigos e duas teses ou dissertações). Destaque deve ser dado à presença de quatro publicações de pesquisadores internacionais e à ausência de estudos publicados por pesquisadores vinculados a instituições da região Norte do Brasil, de forma que os dados revelam a disparidade com que as pesquisas são realizadas em nosso país. Novamente, os dados concordam com aqueles relatados em revisão feita por Zanella e Titon (2005), que também constataram uma concentração de trabalhos realizados nas regiões Sudeste e Centro-Oeste do Brasil. Uma possível hipótese explicativa ampara-se na constatação de que os pesquisadores que trabalham diretamente com a temática, principalmente os autores de instrumentos para avaliação da criatividade, encontram-se vinculados e centralizados em instituições localizadas nas regiões onde predominaram os trabalhos, notadamente a Pontifícia Universidade Católica de Campinas, na região Sudeste, e a Universidade de Brasília, na região Centro-Oeste.

A análise seguinte buscou investigar a modalidade de trabalho, e os resultados demonstraram que, dos 82 estudos avaliados, a maior parte (75,6%) constitui-se em artigos, outros dezessete são fruto de dissertações de mestrado (20,7%) e três de teses de doutorado (3,7%), de forma que os dados apontam a existência de um interesse de pesquisa mais voltado para estudos pontuais. A análise da natureza dos trabalhos mostra que 80,5% são resultado de pesquisas empíricas e a menor parte (n=16), resultado de estudos teóricos, confirmando dados relatados por Wechsler (1999), cuja revisão de trabalhos sobre criatividade apontou para estudos predominantemente caracterizados como pesquisa aplicada (82%), assim como Zanella e Titon (2005) em relação aos trabalhos de pós-graduação. Diferentemente, Wechsler e Nakano (2002) e Nakano e Wechsler (2007) verificaram que, quando consideradas somente as publicações periódicas, mais da metade das publicações no Brasil sobre criatividade mostraram-se de natureza teórica. Assim, pode-se afirmar que, dependendo do tipo de trabalho (artigo ou acadêmico), os resultados são diferentes. Enquanto na produção acadêmica parece haver uma tendência, apontada nas revisões, de predominância de pesquisas do tipo empírica, a mesma situação não é relatada quando se analisam artigos, nos quais predominam estudos empíricos, embora também possa ser notado importante número de trabalhos teóricos.

Diante da prevalência de estudos do tipo empírico, a quarta categoria analisada visou investigar as amostras utilizadas nesses estudos, as quais foram classificadas de acordo com a faixa desenvolvimental do participante: criança, adolescente, jovem e adulto. A classificação deu-se a partir do critério estabelecido por Bee (1989), segundo o qual a infância corresponderia à idade entre zero e 11 anos de idade; a pré-adolescência e a adolescência iriam dos 12 até aproximadamente os 17 anos de idade; dos 18 até os 25 anos, o indivíduo seria considerado jovem; e, após 26 anos, adulto. Estabeleceu-se ainda uma quinta categoria intitulada não identificado, na qual foram classificados os trabalhos cujo resumo não fornecia claramente dados que permitissem a identificação da amostra ou ainda quando não citavam esse dado. Note-se que alguns estudos trabalharam com mais de uma faixa de idade, de maneira que esses trabalhos acabaram por ser enquadrados em mais de uma categoria. Por esse motivo, a frequência total contabilizada ultrapassa o número total de estudos avaliados.

Os resultados demonstraram que a maior parte dos estudos sobre criatividade no contexto educacional vem sendo desenvolvida com adultos (n=39), seguidos de jovens (n=22), crianças (n=17) e adolescentes (n=8). Embora essa prevalência possa parecer inicialmente contraditória ao fato de se estar estudando a criatividade na educação, tal tendência pode ser explicada, segundo Wechsler e Nakano (2003), pelo fato de os professores, principalmente de escolas de ensino fundamental e médio, comporem as amostras mais frequentes nos estudos, indicando que a população de adultos tem sido a mais estudada (52%). Igualmente, Nakano e Wechsler (2007) encontraram adultos como foco da maior parte das teses e dissertações (48,1%), assim como das publicações periódicas (45,3%).

Uma importante observação refere-se à ausência de estudos desenvolvidos com idosos em contexto educativo, visto que, hoje em dia, é grande o número de cursos ligados às universidades de terceira idade, além de outros espaços de educação de jovens e adultos não alfabetizados (cursos supletivos ou de educação a distância), nos quais se poderia encontrar pessoas com mais idade. Essa mesma lacuna é relatada em estudo de Wechsler e Nakano (2002), no qual as autoras afirmam que, indiferentemente ao fato de a velhice também ser considerada uma fase produtiva, essa população não vem sendo enfocada nos estudos sobre criatividade, não aparecendo nos trabalhos de estado da arte. Dessa maneira, as lacunas indicam a importância da realização de diversos estudos sobre a criatividade

em faixas etárias diversificadas, incluindo crianças bem pequenas até adultos, passando por várias idades e níveis de escolaridade, de forma que possa ser mais delineado o percurso da criatividade nas diversas épocas do desenvolvimento humano. (NAKANO; WECHSLER 2006c, p. 216)

A opinião das autoras do presente estudo aponta para o fato de que outras populações, ainda que minoritárias, têm recebido pouca atenção por parte dos pesquisadores, podendo-se citar, como exemplos, alunos com necessidades especiais (nos dois extremos: tanto sob a forma de déficit quanto de altas habilidades), estudantes com dificuldades específicas, portadores de deficiência, estudantes com dificuldades de aprendizagem, professores alfabetizadores de adultos ou, ainda, indivíduos que frequentam cursos de educação a distância. Considerando-se que muito já se conhece acerca da criatividade em estudantes regulares e seus professores, pesquisas com demais populações deveriam ser priorizadas pelos investigadores da área, sendo recomendadas a fim de que a criatividade possa ser compreendida em suas várias formas e contextos de manifestação.

Ainda enfocando as pesquisas empíricas, outra informação analisada visou à identificação das técnicas mais utilizadas nos estudos, apresentadas na Tabela 2. Diversos foram os estudos que fizeram uso de mais de uma técnica para alcançar seu objetivo, as quais foram contabilizadas uma a uma, de forma que, por esse motivo, o número final da frequência ultrapassa a quantidade total de trabalhos analisados.

Como se pode visualizar, os resultados mostraram que houve uma predominância do emprego de instrumentos padronizados (testes, inventários e escalas), presentes em 46,4% dos estudos. É também bastante comum o emprego de técnicas que visam à estimulação e ao desenvolvimento da criatividade (sob a forma de oficinas, programas, cursos e projetos), que são citadas em 14,1% dos trabalhos, além da utilização de entrevista (10,1%). Resultados similares são relatados por Wechsler e Nakano (2002), visto que, em seu trabalho de revisão das publicações brasileiras, os testes foram apontados como as técnicas que mais são utilizadas como medida de criatividade (40%), sendo seguidos por questionários e entrevistas livres (28%), e, logo depois, por observações (13%). Escalas, desenhos e redações livres também têm sido maneiras de avaliar, totalizando 19% das medidas.

Diante da predominância de uso de instrumentos padronizados como forma de avaliação da criatividade, o levantamento foi realizado com a finalidade de conhecer aqueles que mais vêm sendo utilizados nas pesquisas. Os resultados encontram-se disponibilizados na Tabela 3.

De acordo com a tabela, vê-se que dezoito diferentes instrumentos foram utilizados nas investigações sobre criatividade no contexto escolar. Desses, destacam-se o Inventário de barreiras à criatividade pessoal (n=7), os Testes de Pensamento Criativo de Torrance (n=7), o Checklist de barreiras à promoção da criatividade em sala de aula (n=5) e a Escala sobre clima para a criatividade em sala de aula (n=5). Em relação ao segundo instrumento mais utilizado, ressalta-se que ele também obteve destaque no levantamento de Wechsler e Nakano (2002), no qual as autoras verificaram que, dentre os testes mais utilizados nas pesquisas sobre criatividade no Brasil, 65% das pesquisas haviam feito uso desse instrumental, devendo-se chamar a atenção para o fato de que eles foram os primeiros testes para avaliação da criatividade publicados em nosso país, no ano 2002.

Ressalta-se que, dentre os instrumentos apresentados na Tabela 3, somente sete encontram-se comercialmente disponíveis no Brasil (Escala de Estilos de Pensar e Criar, Pensando Criativamente com Figuras de Torrance, Pensando Criativamente com Palavras de Torrance, Teste de Criatividade Figural Infantil, Teste de Desempenho Escolar, Wisc e Raven); destes, somente os quatro primeiros são voltados especificamente para a avaliação da criatividade, e os outros três visam à avaliação de outros construtos (inteligência e desempenho escolar). Nota-se o grande número de escalas que vêm sendo desenvolvidas para avaliação de diversos aspectos relacionados à criatividade (motivação para aprender, práticas docentes, autopercepção, clima para criatividade, barreiras à criatividade, incentivo à criatividade, nível de criatividade), sendo importante destacar que, ainda que tais escalas apresentem estudos de validade, não encontram-se disponibilizadas comercialmente.

Nesse sentido, Wechsler e Nakano (2002) chamam a atenção para o fato de que instrumentos para a avaliação da criatividade deveriam ser foco de pesquisas que buscassem comprovar suas qualidades psicométricas, considerando-se que uma grande quantidade de escalas e inventários, fruto principalmente de trabalhos desenvolvidos em teses e dissertações, não chegam, efetivamente, à publicação. Mais comumente, esses instrumentos são desenvolvidos como parte dos requisitos para obtenção de título, de maneira que, após o cumprimento da defesa acadêmica, acabam não passando por estudos posteriores para o refinamento de suas características (validade, precisão e normatização), o que inviabiliza sua publicação. Segundo as autoras, a criação de instrumentos psicológicos brasileiros precisa atingir suas etapas finais a fim de ser reconhecida e contribuir para o crescimento da área.

Por fim, o último aspecto observado, referiu-se aos temas pesquisados nos estudos sobre criatividade no contexto de educação. Nessa análise, verificou-se que vários trabalhos enfocaram mais de uma temática, sendo contabilizados em todas as categorias em que pudessem ser enquadrados, de forma a gerar uma frequência total maior do que o número de estudos avaliados. Assim, o agrupamento das temáticas por similaridade de enfoque mostra a presença de seis grandes temas: (1) criatividade no processo de educação; (2) percepção dos professores sobre o uso de sua criatividade em sala de aula; (3) percepção dos alunos em face da criatividade de seus professores; (4) desenvolvimento da criatividade; (5) clima da criatividade em sala de aula; (6) inclusão por meio da criatividade.

Dentre esses, o tema mais trabalhado foi a criatividade no processo de educação (n=32), tendo sido incorporados nessa categoria estudos que apresentavam como temas: processos criativos na escola, criatividade no processo de aprendizagem, criatividade no desenvolvimento das atividades escolares, compreensão da criatividade na escola, criatividade na formação, dentre outros. Percebe-se, dessa forma, uma preocupação bastante presente com a obtenção de informações sobre a importância da criatividade segundo diferentes ângulos (daquele que aprende e daquele que ensina). Isso porque

um dos desafios da escola é criar oportunidades de aprendizagem que favoreçam o desenvolvimento do potencial criativo não só dos alunos, mas também dos professores. (FLEITH, 2011, p. 35)

Entretanto, indiferentemente a essa valorização, tem-se percebido que a criatividade, muitas vezes, não representa um aspecto central no currículo das escolas, de forma que,

na pior das hipóteses, a criatividade pode ser vista como não relevante ou mesmo inapropriada à prática educacional, uma exigência extra, desnecessária, sem incentivo adequado para sua promoção e desenvolvimento. (KAUFMAN; BEGHETTO; POURJALALI, 2011, p. 60)

Dentro dessa temática destacam-se também estudos voltados à formação docente e a estratégias de ensino. Para Wechsler e Nakano (2011), a formação de docentes é essencial na expectativa de aulas mais criativas, as quais se tornarão possíveis caso a criatividade seja estabelecida como uma das prioridades do curso. Entretanto, não é essa situação que tem sido relatada pelos professores. De acordo com Alencar e Rodrigues (1978), os processos de formação docente tendem, na maior parte das vezes, a preparar o profissional para lidar com o aluno padrão, o aluno obediente e o aluno passivo, o que torna compreensíveis as dificuldades que o professor apresenta ao se deparar com alunos bastante criativos ou ao se conscientizar de suas próprias barreiras que impedem a expressão de sua criatividade.

Fleith (2000) salienta que a informação sobre como cultivar a criatividade na sala de aula parece limitada devido à ausência de conteúdos acerca da criatividade durante o processo de formação do professor, de forma que a situação indica uma cultura educacional que não valoriza e nem incentiva a criatividade aplicada à educação. Outra dificuldade refere-se ao fato de que,

embora o valor de se cultivar a criatividade em sala de aula seja reconhecido e almejado por educadores e gestores, nem sempre essa meta se reflete nas práticas pedagógicas implementadas. (FLEITH, 2011, p. 34)

Em seguida, um tema bastante investigado é a percepção dos professores (n=19), o que envolve, prioritariamente, a concepção desses profissionais sobre o construto, sua percepção em relação à sua própria criatividade e às barreiras e dificuldades que encontram em sua formação e prática diária para atuarem criativamente. Nessa categoria, foram inseridos estudos que objetivaram compreender a maneira como o professor pode ser criativo ou usar sua criatividade em sala de aula, assim como pesquisas que visaram identificar o perfil do professor criativo. Tal preocupação foi foco de diversas pesquisas (ALENCAR, 2002, 2010; ALENCAR; FLEITH, 2004; OLIVEIRA; ALENCAR, 2007; SANTEIRO; SANTEIRO; ANDRADE, 2004; WECHSLER, 2008), voltadas ao conhecimento dos comportamentos típicos do professor facilitador e inibidor da criatividade.

Nesse sentido, Patto (1986) e Khouri (1984) indicam a existência de professores mal preparados, desmotivados diante do insucesso do aluno e das condições salariais institucionais que encontram em seu trabalho. Tais fatores, de acordo com Alencar e Martinez (1998), atuariam como barreiras à expressão da criatividade, visto que

o desenvolvimento da criatividade na educação passa necessariamente pelo nível de criatividade dos profissionais que nela atuam. Conhecer as barreiras que enfrentam constitui uma condição necessária para superá-las. (p. 31)

Fleith (2011), por sua vez, questiona

o quanto a escola tem contribuído para preparar o aluno para identificar e solucionar problemas, para integrar e produzir conhecimento e para ter uma visão voltada para o presente e o futuro. (p. 33)

Nesse sentido, Hayes (2004) aponta a necessidade de que os professores sejam convencidos de que a capacidade de ser criativo está ao alcance de todos e que, com perseverança, tempo e compromisso com o processo, os benefícios, para alunos e professores, justificam o esforço. Percepção similar é apresentada por David et al. (2011), ao afirmarem que esse tipo de classificação da criatividade acaba por apresentar importantes consequências quanto à sua promoção, dado que

grandes diferenças são esperadas em relação a educadores que acreditam que todos os indivíduos possuem um potencial criativo passível de ser desenvolvido e em face daqueles que atribuem essa característica somente a alguns poucos indivíduos excepcionais. (p. 24)

Concepções também são o terceiro foco das pesquisas, agora em relação aos alunos (percepção que os alunos possuem a respeito da criatividade do professor), categoria que contou com quinze estudos. Tais pesquisas voltam-se para a investigação de temas relacionados ao uso da criatividade em sala de aula, à avaliação das práticas docentes e à compreensão de criatividade e autoavaliação. Juntamente com as pesquisas relativas ao conhecimento da percepção dos professores, mencionadas anteriormente, estudos dessa natureza adquirem valor, de modo que Wechsler e Nakano (2011) destacam a importância de se traçar um perfil das atitudes e dos comportamentos que mais estimulam a criatividade na sala de aula, como também de se entender as barreiras ou bloqueios existentes na expressão criativa do docente, não apenas segundo sua autopercepção, mas também segundo a de seu alunado. Isso porque, ainda de acordo com as autoras, a importância desse tipo de levantamento ampara-se na possibilidade de obtenção de

informações sobre a importância da criatividade segundo diferentes olhares, ou seja, daquele que ensina e do que participa do processo de aprendizagem. Diferenças existentes nas percepções destes grupos indicam como a criatividade é auto-avaliada pelo docente e como é demonstrada em comportamentos reais nas salas de aulas. (p. 14-15)

Nesse sentido, quando se trata dessas temáticas, um questionamento surge:

por que razão o que se sabe sobre criatividade não chega às práticas dos docentes ou às atividades desenvolvidas no contexto escolar? (SOUZA; PLACCO, 2011, p. 126)

Na visão das autoras, tanta pesquisa e produção em torno do tema não tem revertido em prol da melhoria educacional, estando indiferente à constatação de que a criatividade pode ser o caminho para superação das dificuldades enfrentadas nesse contexto. Embora ainda exista a ideia de criatividade como um fenômeno subjetivo, difícil de ser atingido e incorporado nas práticas educacionais, alguns avanços têm sido notados na área, principalmente relacionados à constatação de que tanto alunos como professores já começam a despertar para o impacto da criatividade e de suas contribuições não apenas para o processo de ensino-aprendizagem, mas também dada a exigência cada vez mais presente de indivíduos e profissionais criativos e inovadores, preparados para lidar com os desafios atuais e com o mercado de trabalho, de forma que importantes ganhos poderão surgir a partir da incorporação desse tipo de visão durante o processo de escolarização.

As inúmeras deficiências percebidas na formação e na atuação de docentes geram questões sobre como resolver esses problemas, envolvendo aquelas relacionadas ao desenvolvimento da criatividade e sua implementação nos diferentes conteúdos curriculares, apontadas por Wechsler e Nakano (2011). Segundo as autoras, essas são questões "que os programas de treinamento para desenvolvimento do pensamento e comportamento criativo tentam responder" (p. 22), de forma que o desenvolvimento da criatividade constituiu-se no quarto tema das pesquisas analisadas. Foram agrupados, nessa categoria, os estudos que fizeram uso de programas, oficinas, cursos e projetos que buscam desenvolver a criatividade do participante, em um total de quatorze trabalhos.

Dada a importância que essa característica vem alcançando em vários contextos, pesquisadores de diversos países deram início a programas de treinamento criativo (DE LA TORRE, 2008) baseados na crença de que a criatividade representa um conjunto de habilidades que podem ser aprendidas ou desenvolvidas por meio do ensino e da prática, principalmente de estratégias e programas orientados a favorecer o pensamento criativo, os quais têm causado repercussão no ambiente escolar. Em termos gerais, as pesquisas apontam para resultados positivos desses programas na vida acadêmica e no desenvolvimento socioemocional dos alunos, independentemente de incluírem ou não modalidades de aceleração e serem implementadas dentro ou fora da sala de aula regular (OLIVEIRA, 2007). No entanto, convém salientar que, segundo Bahia (2008), em um domínio de intervenção tão necessário, as iniciativas de promoção da criatividade precisam ser analisadas e avaliadas tendo em vista não só uma compreensão mais abrangente das variáveis envolvidas, como também uma melhoria da própria intervenção.

Nesse sentido, uma pesquisa de levantamento com a finalidade de verificar a forma como os programas de treinamento em criatividade têm sido implementados e os resultados que vêm sendo obtidos, visando traçar um quadro dos ganhos resultantes desse tipo de programa, foi desenvolvida por Nakano (2011). Os resultados permitiram, de acordo com a autora, verificar que a maior parte dos programas aponta resultados positivos e ganhos provenientes desse treinamento quando se comparam grupos experimentais e de controle, sendo a maior parte deles desenvolvida junto a estudantes do ensino fundamental. A análise das pesquisas aponta diferentes possibilidades de incentivo e treino da criatividade a partir de técnicas diferenciadas, de instrumentais e planejamentos diversificados. Também Fleith (2011) sugere a necessidade de se dar continuidade a pesquisas que investiguem efeitos do treinamento em criatividade a médio e longo prazo, com o objetivo de verificar em que medida esses efeitos mantêm-se ao longo do tempo.

Por fim, foram encontrados outros dois agrupamentos com menor número de trabalhos: clima da criatividade em sala de aula (n=6) e utilização da criatividade no auxilio da inclusão social (n=2), sendo os últimos voltados à investigação de como a criatividade pode ser usada pelos pais em beneficio da inclusão social de seus filhos deficientes. Como já citado anteriormente, a investigação desse construto junto a populações minoritárias tem-se constituído em um grande desafio aos pesquisadores, dadas as lacunas que ainda permanecem na literatura.

Vale aqui ressaltar um dado que foi observado durante a análise dos trabalhos. Vê-se que as pesquisas sobre criatividade no contexto educacional ficam muito limitadas à sua investigação no contexto formal, uma vez que todos os estudos encontrados, sem exceção, foram desenvolvidos ou enfocaram o estudo da criatividade nesses espaços formais, especificamente nos ensinos fundamental e médio, embora também sejam presentes pesquisas relativas ao ensino superior (em nível de graduação e pós-graduação). São ausentes as investigações sobre criatividade em contextos de educação não formal, ou seja, naqueles espaços que têm foco educativo, mas que, no entanto, não são estruturados em relação a aspectos como idade ou série, conforme definição de Laranjeira e Teixeira (2008).

 

Considerações finais

O conhecimento das tendências presentes nos estudos sobre criatividade no contexto educacional aponta para um crescente interesse por parte dos pesquisadores e para uma área que pode beneficiar-se dos resultados de pesquisas, principalmente daquelas voltadas ao desenvolvimento da criatividade em sala de aula, tanto nos professores como nos alunos, em contextos educativos não formais, e daquelas que visam à eliminação dos principais entraves à expressão criativa.

Embora seja notável o número de trabalhos que vêm sendo desenvolvidos no ambiente escolar, estudos que investiguem essa característica em amostras minoritárias ainda se fazem necessários (alunos com deficiência, alunos com altas habilidades, idosos em universidades de terceira idade, espaços não formais de aprendizagem, educação a distância), conforme anteriormente destacado. Vale ressaltar que os espaços de educação não formal poderiam ser mais explorados, uma vez que se constituem em espaços que se utilizam de recursos diferenciados para se atingir a educação, podendo, dessa maneira, também contribuírem para o desenvolvimento da criatividade.

Considerando-se que o presente trabalho limitou-se a estudar as pesquisas desenvolvidas na área da psicologia, o levantamento das publicações sobre a temática em outras áreas é recomendado, dado o fato de que esse fenômeno tem sido também abordado por diferentes práticas e perspectivas teóricas, nas mais diversas áreas do conhecimento, como as artes, a filosofia, a educação e a comunicação, dentre outras. O conhecimento gerado a partir da somatória desses estudos poderia ser utilizado no sentido de se ter uma visão global de como a criatividade vem sendo enfocada na educação. Como limitação da pesquisa, salienta-se que somente bases de dados eletrônicas foram consultadas, de forma que inúmeras publicações na área podem não ter sido encontradas, dada a recentidade da inserção das revistas em tais bases.

Espera-se que o conhecimento gerado a partir desses estudos possa contribuir para a expansão da criatividade a todos os níveis de ensino, de forma a atender todos os possíveis envolvidos. Somente assim ela poderá ser incorporada em cada indivíduo, de maneira que seus benefícios possam ser ampliados para todos os contextos em que este se encontra inserido, contribuindo para seu crescimento e sua realização pessoal.

Espera-se que a revisão da produção científica em criatividade e educação consiga ter respondido, ao menos em parte, às questões levantadas no início do trabalho acerca da possibilidade de a criatividade ser identificada e desenvolvida nesse contexto. As várias pesquisas publicadas na área da psicologia apontam para uma resposta positiva ao demonstrarem os diversos focos possíveis de trabalho, bem como os ganhos que podem ocorrer como resultado de sua estimulação no ambiente escolar, por meio do envolvimento dos vários agentes que atuam em tal contexto.

 

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Correspondência:
Talita Fernanda da Silva
Programa de Pós-Graduação em Psicologia
Pontifícia Universidade Católica de Campinas
Av. John Boud Dunlop, s/n
13060-904 - Campinas/SP
talita_fs@ig.com.br

Recebido em: 17.09.2011
Aprovado em: 09.04.2012

 

 

Talita Fernanda da Silva é psicóloga e mestranda em Psicologia (bolsista CNPq).

Tatiana de Cássia Nakano é doutora em Psicologia e docente do programa de pós-graduação stricto sensu em Psicologia da Pontifícia Universidade Católica de Campinas.

 

 

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