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Educação e Pesquisa

versão impressa ISSN 1517-9702versão On-line ISSN 1678-4634

Educ. Pesqui. vol.44  São Paulo  2018  Epub 14-Maio-2018

http://dx.doi.org/10.1590/s1678-4634201844002001 

ENTREVISTAS

Gênero e história da educação: itinerários de Rebecca Rogers1

Diana Vidal2 

Rafaela Rabelo2 

2- Universidade de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil. Contatos: dvidal@usp.br, rafaelasilvarabelo@hotmail.com

Resumo

Professora, desde 2006, de um dos mais prestigiados departamentos de educação franceses (Université Paris Descartes), Rebecca Rogers tem sua trajetória acadêmica marcada pelos estudos sobre mulheres e gênero, traçados sempre na relação com a história da educação. Nascida nos Estados Unidos da América, fez sua carreira na Europa, em particular na França. Cursou o doutorado na École des Hautes Études en Sciences Sociales, sob a orientação de Dominique Julia. Iniciou a atividade docente na University of Iwoa. Em 1994, obteve uma posição na Université de Strasbourg como maitre de conference. Em 2015, assumiu a presidência da International Standing Conference for the History of Education (ISCHE), sociedade científica internacional de maior relevância na área de história da educação. Sua formação e trânsito na arena educativa, bem como as escolhas teóricas e metodológicas são abordadas nesta entrevista, que se estende ainda sobre as relações tramadas com pesquisadoras brasileiras em projetos realizados nas Faculdades de Educação da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP e Universidade de São Paulo. Os debates atuais sobre gênero emergentes na esfera pública na França e os desafios enfrentados pela investigação histórico-educativa, seja na dimensão de uma história transnacional da educação, seja na consolidação de um campo de pesquisa também emergem no discurso de Rebecca Rogers. Este rol de temáticas torna a entrevista densa em problematizações, abrindo um leque de interrogações que instigam o leitor na sua reflexão acerca do cenário político e acadêmico internacional.

Palavras-Chave: História da Educação; Gênero; Formação profissional; História transnacional; Biografia; International Standing Conference for the History of Education (ISCHE)

Apresentação

Fonte: Arquivos pessoais da entrevistada.

Figura 1 Foto da entrevistada 

Professora, desde 2006, de um dos mais prestigiados Departamentos de Educação franceses (Université Paris Descartes), Rebecca Rogers tem sua trajetória acadêmica marcada pelos estudos sobre mulheres e gênero, traçados sempre na relação com a história da educação. Nascida nos Estados Unidos da América, fez sua carreira na Europa, em particular na França. Cursou o doutorado na École des Hautes Études en Sciences Sociales, sob a orientação de Dominique Julia, um estudioso da Idade Moderna. Iniciou a atividade docente na University of Iwoa. Em 1994, obteve uma posição na Université de Strasbourg como maitresse de conference. Em 2015, assumiu a presidência da International Standing Conference for the History of Education (ISCHE), sociedade científica internacional de maior relevância na área de História da Educação.

Seu reconhecimento como especialista em história da educação e gênero e sua atuação como docente na Université Paris Descartes credenciaram-na para integrar o grupo responsável pelo desenho da proposta da Cité du Genre, implementada em novembro de 2015. Essa estrutura virtual congrega diferentes iniciativas em gênero desenvolvidas no âmbito de treze instituições de ensino superior, sendo quatro delas universidades, consorciadas na Université Sorbonne Paris Cité (USPC). No seio desse consórcio e nas relações de colaboração que estabeleceu com a USP, emergiu o projeto Women and Innovation in Teaching, investigação conjunta entre pesquisadores e pesquisadoras franceses, liderados por Rebecca Rogers, e pesquisadoras da FEUSP, sob coordenação de Diana Vidal3.

Com o objetivo de elaborar biografias de mulheres que inovaram a educação em São Paulo e na França, no arco temporal de um século (entre 1860 e 1960), o projeto pretende acumular documentação escrita e visual, além de produzir vídeos, disponibilizando todo o material on-line como subsídio a futuras pesquisas, mas também a práticas de docência em diferentes níveis de ensino4. Em seu segundo ano de realização, a pesquisa conjunta tem favorecido o intercâmbio acadêmico, a partir de organização de comunicações coordenadas em congressos internacionais em Paris e Buenos Aires, bem como coligido um substantivo volume de fontes e fomentado análises comparadas.

O intercâmbio intelectual de Rebecca Rogers com o Brasil, no entanto, é anterior e começou com sua participação em projeto temático, sob responsabilidade de Águeda Bittencourt, realizado na UNICAMP, com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo - FAPESP, intitulado Congregações católicas, educação e estado nacional no Brasil. Dessa parceria derivou seu único título em português Congregações femininas e difusão de um modelo escolar: uma história transnacional, publicado na revista Pro-Posições, Campinas, v. 25, n. 1, p. 55-74, jan./abr. 2014. (ROGERS, 2014).

Na entrevista que se segue, algumas dessas tópicas são expandidas. As duas primeiras questões exploram os contatos iniciais de Rebecca com os estudos sobre mulheres e gênero e as atividades que desenvolveu na exploração desses interesses de pesquisa. É a construção da intelectual e do seu referencial teórico desdobrado em publicações que se apresentam ao leitor, permitindo acompanhar um percurso que, se bem esteve sempre fiel à história da educação feminina na França oitocentista, como assim o define Rebecca, sofreu percalços e foi se redefinindo ao longo de 35 anos de presença no campo no rumo de uma história transnacional da educação.

As três questões seguintes enfocam temáticas de caráter mais historiográfico e explicitam decorrências práticas da investigação acadêmica. É aqui que encontramos a referência à Cité du genre, aos projetos realizados em colaboração com o Brasil, em especial sobre o em andamento com a FEUSP, e uma reflexão acerca do método biográfico e do lugar dos estudos sobre gênero na história da educação francesa da atualidade. No que concerne a este último elemento, Rebecca reitera o diagnóstico de que ainda muitos estudantes de pós-graduação terminam seu doutorado sem terem tido qualquer discussão sobre gênero em sua formação. Utilizam categoria de classe social em seus trabalhos, mas raramente a combinam com gênero e mais escassamente ainda com raça. Destaca, entretanto, que debates recentes sobre educação têm colocado em evidência a importância do conceito de gênero na França. Simultaneamente, a emergência de movimentos sociais (o caso de le mariage pour tous / casamento para todos) tem oferecido oportunidade para a atuação de especialistas de gênero no cenário público.

A entrevista é concluída com duas indagações sobre a ISCHE, discorrendo acerca das iniciativas em curso e dos desafios a enfrentar. A ISCHE emerge não apenas como um espaço de troca acadêmica e de intercâmbio científico, mas também lugar de sociabilidade, convívio e construção de afetos, de modo a criar laços duradouros na consolidação de uma comunidade internacional de pesquisadores em história da educação. Nesse sentido, Rebecca realça a importância da participação nos congressos promovidos anualmente. Coloca em relevo, ainda, a recente criação da Coleção Global histories of education, em associação com a editora Palgrave Macmillan, coordenada por Diana Vidal, membro do Comitê Executivo da ISCHE.

Dentre os desafios, realça três: a questão linguística, o fomento a novos pesquisadores e o desequilíbrio entre florescimento da investigação acadêmica em história da educação e a supressão de cadeiras da disciplina nas instituições de formação em diferentes países. No que concerne ao primeiro aspecto, reconhece a necessidade de não se contentar com a acepção de inglês como língua franca, esforçando-se a entidade por estimular o diálogo multilíngue, ao menos nos quatro idiomas oficiais (inglês, francês, espanhol e alemão). Acredita que garantir o futuro da ISCHE implica estimular a formação de novos quadros, o que tem significado conceder apoio à participação de jovens investigadores em conferências e insistir na oferta de ambientes acolhedores às novas gerações. Por fim, demonstra-se otimista quanto à manutenção do vigor da ISCHE e da pesquisa em história da educação no mundo.

Ao final da entrevista, uma seleção de livros e artigos publicados por Rebecca Rogers, alguns deles em open access, serve de convite à continuidade deste diálogo com uma intelectual de renome nos estudos sobre gênero e história da educação e uma pesquisadora engajada no debate público e na promoção do campo acadêmico.

Com a palavra, Rebecca Rogers.

Entrevista

Como você resumiria seus interesses de pesquisa e você pode nos contar em que você está trabalhando atualmente?

De várias formas eu mantive-me muito fiel aos meus interesses iniciais de pesquisa ao longo dos últimos 35 anos: a história da educação feminina no século XIX na França. Eu também tenho me mantido fiel a uma forma de abordar essa história, favorecendo uma aproximação sociocultural que explora as características sociais de alunas5 e professoras ao mesmo tempo em que busca situá-las em relação a representações culturais da aprendizagem feminina. Mas, claro, os objetos que estudo hoje e as perguntas que faço são influenciadas por debates atuais do campo assim como por minhas experiências docentes. Como resultado, meus projetos atuais têm assumido uma natureza mais transnacional e comparativa à medida que aprendo mais sobre a educação feminina e sobre o ensino ministrado por mulheres fora da França em um contexto intelectual onde a história global está cada vez mais em voga.

Ao longo do último ano eu tive mais tempo para pensar sobre minha pesquisa graças a um semestre sabático concedido por minha universidade. Como escolhi passar o período sabático em uma universidade nos Estados Unidos – a Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill – usei meu tempo lá para conversar com pesquisadores da minha área, para frequentar conferências, para ler e para planejar a direção que gostaria que minha pesquisa tomasse. Todavia, não passei muito tempo em arquivos buscando novas fontes visto que meus arquivos estão principalmente na França. Esta foi uma escolha. Foi uma escolha, claro, baseada em minha necessidade de ter tempo para refletir em meus projetos, o tipo de tempo que geralmente não tenho quando estou em meu ambiente de trabalho onde docência e encargos administrativos preenchem meus dias.

Mas deixe-me ser mais específica em relação ao que estou trabalhando atualmente. Ao longo do último ano eu finalizei tanto a edição de um volume quanto um artigo para uma edição especial sobre a história da educação popular. O volume intitulado Women in international and universal exhibitions, 1876-1937 , foi publicado pela Routledge este ano. Minha coeditora neste projeto, Myriam Boussahba-Bravard, é uma especialista em sufragismo britânico. Esse livro é o resultado de um projeto coletivo interdisciplinar que, de certa forma, me distanciou da educação feminina, mas não completamente.

Investigar sobre a presença de mulheres nas exposições internacionais e universais foi uma oportunidade de pensar sobre como as mulheres faziam uso desses lugares fundamentais de modernidade para expressar suas aspirações. Em outras palavras, queríamos reunir nesse livro um grupo de autores que enfatizaria o papel das mulheres enquanto protagonistas, ao invés de espectadoras ou objetos, no âmbito das feiras mundiais e consideraria em que medida a participação afetou suas vidas, ou os projetos nos quais elas estavam envolvidas. Os trabalhos analisam mulheres individuais, mas também grupos que se encontraram em congressos organizados ao longo das exposições. A educação feminina assim como a questão da aprendizagem feminina figura proeminentemente em alguns dos capítulos.

Eu fiquei especialmente interessada, por exemplo, por um capítulo escrito por Teresa Pinto que mostra como os produtos da educação industrial das moças portuguesas encontraram seu caminho até as exposições e os relatórios oficiais no final do século e, depois, como esses produtos desaparecem nas histórias impressas sobre a participação portuguesa nas exposições do início do século XX. Na Exposição Nacional do Centenário no Rio de Janeiro (1908) 6 , por exemplo, os trabalhos de renda das garotas estavam proeminentemente em exibição na exposição portuguesa, no entanto, os inspetores de educação técnica que escreveram os relatórios e as primeiras histórias sobre educação técnica não fazem referência a isso. Tampouco os historiadores em suas pesquisas.

Esse capítulo ecoa trabalho, realizado por mim, que desafia a memória histórica que temos de como mulheres professoras das colônias usavam as feiras industriais e exposições universais para conseguir apoio para os cursos de suas escolas. Assim como Teresa Pinto, fui capaz de traçar como os produtos da formação vocacional das moças atraíam interesse internacional e eram vistos como um sinal da forma como professoras francesas participaram na “missão civilizadora”. Mas também, em uma perspectiva mais pragmática, essas exposições eram uma forma de ganhar dinheiro para as escolas de moças. Não podemos esquecer que essas exposições desempenhavam um papel na diplomacia cultural internacional, mas também eram espaços onde objetos eram vendidos e onde negócios ganhavam uma reputação em uma economia turística emergente.

Olhar para as exposições internacionais é, portanto, uma forma de eu pensar acerca de conectar a educação feminina a uma reflexão a respeito de como representações dessa educação são usadas politicamente (tanto por mulheres quanto por organizadores), como a discussão sobre a educação feminina era parte de debates internacionais (no âmbito dos congressos de educação) e como os produtos da educação feminina (principalmente trabalhos manuais artesanais como bordados ou tapetes) adentraram a economia global.

Esse projeto estimulou-me a voltar especificamente para o estudo da escolarização profissional ou vocacional feminina, pensando não apenas nas habilidades que eram ensinadas às moças, mas também no mercado de trabalho em que elas adentravam com essas habilidades. Esse é o tópico de um artigo que eu finalizei na última primavera para uma revista francesa (Revue d’Histoire du XIXe Siècle), o qual examina a diversidade de instituições vocacionais para moças que emergiram na França e na Argélia nos anos 1860.

O que me interessava nesse artigo era notar a importância da discussão sobre a formação vocacional feminina em um momento na França em que um grande número de reformas educacionais estava ocorrendo. Ainda, eu queria enfatizar que uma vasta gama de grupos com diferentes ideologias políticas argumentava a favor da importância de preparar as moças para o trabalho: reformadores socialistas, feministas, mas também freiras católicas e os economistas liberais presentes no governo. Talvez, o mais intrigante para mim, no entanto, foi perceber que esse tipo de debate sobre preparar moças para um futuro além da maternidade estava acontecendo por toda a Europa: na Grã-Bretanha, na Bélgica, na Alemanha, na Itália, na Rússia, etc. Isso fez-me pensar a respeito de momentos específicos em que iniciativas similares emergem por toda a parte. É intrigante questionar as razões. Em meu texto, baseio-me em artigos dos anos 1860 do primeiro jornal feminista britânico, The Englishwoman’s Journal , para mostrar que, naquele momento, as mulheres britânicas estavam interessadas também em mapear, para exercer a docência, a existência de escolas profissionais para moças no continente.

Você poderia falar mais especificamente sobre esta questão da circulação de informação e seu interesse acerca das metodologias e categorias analíticas subjacentes ao seu trabalho mais recente? Como você vê a contribuição da sua pesquisa para questões mais amplas do campo?

Por um longo tempo tenho interessado-me em desnacionalizar a minha aproximação à história da educação feminina. Eu tentei inicialmente fazer isso em meu segundo livro, From de salon to the schoolroom (2005), de duas formas. Primeiramente, mostrei como reformadores e políticos usaram exemplos estrangeiros para argumentar a favor ou contra mudanças na escolarização feminina francesa, ao discutirem, por exemplo, sobre o desenvolvimento de escolas secundárias, ou coeducação nas escolas.

O meu argumento, nesse caso, era de que as reformas educacionais dependiam retoricamente de exemplos do que estava acontecendo em outros lugares, mas também de que os reformadores precisavam do impacto das comparações internacionais para defender mudanças, de modo muito semelhante ao uso dos resultados das avaliações do Programme for International Student Assessment - PISA para provocar mudanças nos currículos de alguns países na atualidade.

Em segundo lugar, defendi que a educação feminina francesa no século XIX causou um impacto muito além da França metropolitana. Mapeei esse impacto ao estudar as professoras francesas que partiram com o objetivo de estabelecer escolas nas colônias francesas (na Argélia e na África ocidental francesa) assim como na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos. Nesses países protestantes, freiras francesas estavam a frente de um esforço missionário de converter protestantes, criando para elites femininas internatos que haviam adquirido reputação devido à qualidade da educação francesa que ofereciam. Minha inspiração teórica na referida investigação veio da leitura de pesquisas sobre o Império Britânico, principalmente o trabalho de Catherine Hall, que enfatiza tão belamente as interligações entre metrópole e colônia.

Não me referi à minha abordagem como sendo transnacional naquele momento (eu estava escrevendo em 2003). Paulatinamente, no entanto, encontrei-me adotando o rótulo de história transnacional para descrever minhas histórias da educação em que pedagogas francesas ou professoras deixam a França para investigar escolas em outros lugares ou para elas mesmas fundarem escolas enquanto mantinham contato com o país de origem. Esse foi o objeto de minha primeira publicação em uma revista brasileira, Pro-Posições , em 2014, Congregações femininas e difusão de um modelo escolar: uma história transnacional.

História transnacional também é o foco de dois ensaios que submeti para volumes coletivos no último ano. Minhas contribuições para ambos volumes lidam com história transnacional ou conectada e são intituladas: Conversation s about the transnational: reading and writing the empire in the history of education e French Nuns go International: rereading histories of girls education through a political and transnational lens.

Em ambos ensaios estou interessada em como a compreensão de uma abordagem transnacional desafia-nos enquanto historiadores a pensar para além das abordagens nacionais. No caso da educação em particular, estou surpresa com uma longa tradição de debates internacionais sobre uma ampla gama de temas (pedagogia, o papel da educação feminina, coeducação etc.) e estou instigada a observar os efeitos em diferentes contextos nacionais de tais debates que cruzam barreiras linguísticas.

Além disso, estou também muito interessada em como modelos de escolarização específicos são modificados quando transplantados para outros lugares. As freiras francesas, em particular, levaram um modelo de educação em internatos ao redor do mundo (inclusive no Brasil). O que acontece a esse modelo ao longo dos anos, à medida que professoras são recrutadas nesses países ou programas educacionais franceses e se deparam com os desafios de um contexto cultural diferente?

Obviamente, esses artigos dedicam-se e são estimulados por interesses atuais em uma gama de metodologias que desafiam a orientação nacional de muitas pesquisas em história da educação; história transnacional, história conectada, história entrelaçada ou história global. Estou menos interessada em atribuir um rótulo à minha própria abordagem que em encorajar pesquisadores a considerarem como atores internacionais olhavam para fora de seus países de origem em busca de inspiração, a prestarem atenção em como ideias e atores viajavam através de fronteiras nacionais e como ideias sobre educação eram traduzidas em outros contextos e a considerarem como tais viagens modificavam realidades sociais.

Recentemente, escutei uma palestra de Antônio Nóvoa, em Genebra, em que ele defendeu brilhantemente as formas pelas quais tal perspectiva nos permite comparar e reler nosso material histórico com um olhar diferente. Acredito que essa atenção às circulações transnacionais oferece uma forma fecunda de reler histórias nacionais, mas também nos alerta enquanto pesquisadores para a importância de seguir os debates intelectuais em nosso campo para além das nossas comunidades nacionais.

Quando iniciei um projeto colaborativo e interdisciplinar sobre a história da coeducação no início dos anos 2000, estava ciente de importantes livros sobre o assunto na Alemanha, Grã-Bretanha e Estados Unidos, mas nada havia sido publicado na França. Então, quando comecei a aprender mais sobre essa história, percebi que pedagogos franceses no final do século XIX se basearam no exemplo americano de coeducação tanto para defender quanto para criticar sua adoção na França. Desde o começo, os debates sobre coeducação estavam tramados em debates internacionais.

Acima de tudo, no entanto, acredito que minha incursão por discussões internacionais sobre as características da educação feminina oferece uma forma de trazer mulheres e a categoria analítica gênero para a linha de frente. Ao lançar a atenção para as formas que a educação vocacional feminina assumiu como um objeto de discussão por toda a Europa nos anos 1860, por exemplo, eu desafio historiadores da educação franceses a adotarem uma perspectiva de gênero para o desenvolvimento do sistema público de educação.

Você poderia falar mais sobre o lugar que o gênero ocupa na história da educação na França hoje?

Sem dúvida eu sou, na França, o nome associado com a aproximação entre abordagem de gênero e história da educação, enquanto minha predecessora Françoise Mayeur tornou o estudo sobre educação feminina legítimo nos anos 1970 e 1980. Françoise Mayeur, todavia, desconfiava do que ela entendia como inclinações feministas da história das mulheres e nunca adotou as visões da história de gênero, o que a maioria dos pesquisadores franceses inicialmente via como uma importação americana.

É apenas a partir do início dos anos 2000 que a história de gênero começou a ser aceita mais amplamente dentro da comunidade de historiadores e o uso do termo gênero deixou de precisar ser explicado toda vez que alguém o usa. Fui a primeira a publicar sobre educação feminina na revista francesa Histoire de l’Education , em 2003 (sobre professoras mulheres) e em 2007 (sobre a educação feminina). Quando Mineke van Essen e eu editamos a primeira publicação sobre professoras mulheres, nós incluímos uma tabela que relacionava o número de artigos sobre professoras mulheres editados na maior parte das revistas em história da educação do campo. Entre 1976 e 2003, History of Education (Grã-Bretanha) publicou 29 artigos sobre professoras mulheres; a revista canadense Historical Studies in Education/Revue de Histoire de l’Education havia publicado 21 artigos desde 1989, enquanto que Histoire de l’Education nunca havia publicado um artigo sobre o assunto desde sua criação em 1978!

Em 2007, meu artigo sobre o estado da arte sobre a educação feminina explicava para o leitor francês como a análise de gênero abriu novas áreas de exploração. Mostrei especificamente como pesquisadores têm usado gênero para explorar questões sobre a construção histórica das identidades de gênero, sobre a natureza de gênero do conhecimento, sobre a história da coeducação. Percebi também que enquanto agora entendemos muito bem como a educação constrói representações de feminilidade, raríssimos estudos têm usado educação para estudar a história da masculinidade!

Essa questão apareceu pouco depois que fui contratada como professora no departamento de educação na Universidade Paris Descartes, que está entre os mais antigos e mais prestigiados departamentos de educação na França. É sem dúvida digno de nota que eu tenha sido contratada em parte por causa da minha especialidade em gênero em história da educação, e não apesar disso , como foi o caso quando fui recrutada na Universidade de Strasbourg, em 1994. As coisas mudaram e o número de teses de doutorado que estou orientando sobre gênero na história da educação é um sinal de que o tema atingiu novas formas de legitimidade.

Abordagens de gênero em geral ainda continuam a ser uma minoria nos estudos históricos da educação e muitos alunos de pós-graduação ainda podem terminar suas teses sem terem tido qualquer curso que lide especificamente com a forma como gênero estrutura o sistema educacional, molda as identidades de alunos e professores e opera na articulação entre educação e trabalho. Os alunos pensam analiticamente sobre a classe social, porém, mais raramente combinam tal análise com gênero e ainda menos frequentemente raça emerge enquanto uma categoria analítica nas histórias da educação francesas.

Tenho argumentado em artigos que isso é, em grande medida, o produto de um discurso republicano universalista sobre educação na França que emergiu durante as reformas educacionais da Terceira República, nos anos 1880, e tem permanecido amplamente inconteste até recentemente.

Em suma, pode-se dizer que a influência de Pierre Bourdieu permanece fortemente dominante ou de Michel Foucault, por seu estudo do processo disciplinar, enquanto historiadoras do gênero, como Joan Wallach Scott, ou teóricas de gênero, como Judith Butler, apenas recentemente têm se tornado mais conhecidas graças a traduções francesas nos últimos dez anos. Classe e poder frequentemente aparecem em estudos como se fossem sem gênero, apesar dos estudos que mostram como gênero opera na construção das relações de classe e como poder opera de maneira generificada.

Mas, como acabei de mencionar, há sinais claros de que as coisas estão mudando e que as abordagens de gênero – com moderação – estão até mesmo na moda. Vários dos debates contemporâneos em educação têm trazido à luz a utilidade de gênero como categoria de análise (quando pensamos sobre a presença de alunas com véu nas escolas, por exemplo). Ao mesmo tempo, movimentos sociais recentes têm atraído a atenção da mídia para a teoria de gênero.

Durante os protestos católicos massivos contra a lei de 2013 conhecida como Le mariage pour tous (casamento para todos) – permitindo que homossexuais se casassem – polemistas conservadores culparam a teoria de gênero por ameaçar os fundamentos da família francesa. Redes sociais principalmente fizeram circular informações falsas sobre professores de escolas primárias adotando teoria de gênero, importada dos EUA, em suas salas de aula e em seus livros didáticos visando a ensinar jovens garotos e garotas que biologia não era destino.

O medo predominante era que professores esquerdistas (e feministas) estivessem ameaçando a virilidade de jovens rapazes ao encorajar a homossexualidade. Em certa medida, a virulência dos ataques públicos contra a teoria de gênero abriu um espaço intelectual que permitiu especialistas em gênero como eu explicar como gênero oferece uma forma de examinar criticamente a história do sistema escolar francês e as atitudes sobre educação. Os ideais de igualdade que os franceses têm em alta consideração foram implementados apenas muito recentemente para garotas com a generalização da coeducação em 1975.

Durante a maior parte dos últimos dois séculos, moças foram educadas em escolas separadas; nas escolas secundárias elas recebiam uma educação que as preparavam para serem mães, não profissionais como seus irmãos. No contexto desses mesmos debates públicos, eu era frequentemente convidada a falar no rádio e o livro de ilustrações que publiquei com Françoise Thébaud, em 2010, foi reeditado para atender ao interesse público em compreender como normas de gênero têm condicionado a educação das moças desde o começo da Terceira República (nos anos 1870).

Que tipo de efeito este debate tem tido no amparo institucional para os estudos de gênero?

Esta é uma pergunta excelente! O sistema de educação superior francês está passando por várias reformas ultimamente as quais têm favorecido a emergência de novos projetos que são interdisciplinares e colaborativos. Uma vez que gênero é uma categoria analítica amplamente usada no âmbito das ciências sociais e humanidades, ela oferece uma base particularmente útil para tais colaborações. Nos editais europeus e internacionais para projetos, a perspectiva de gênero é quase sempre um valor agregado para um projeto. Para os especialistas que avaliam tais projetos, gênero é visto não apenas como uma posição teórica na moda, mas também conectada a uma agenda política contemporânea para promover igualdade de gênero.

O projeto no qual estamos trabalhando juntas – sobre mulheres e inovação docente – se beneficiou na França diretamente desse clima institucional favorável. Mas também se beneficiou de circunstâncias mais específicas relacionadas à reestruturação do ensino superior em Paris. Minha universidade uniu-se a um consórcio de treze instituições de educação superior (quatro das quais são universidades). Conhecido como Université Sorbonne Paris Cité (ou USPC), esse consórcio tem usado seu orçamento para iniciar empreendimentos colaborativos tanto no ensino quanto na pesquisa, mas também para promover projetos colaborativos com algumas poucas instituições estrangeiras altamente respeitadas, uma das quais a Universidade de São Paulo. Um grupo nosso de especialistas em gênero das diferentes instituições da USPC percebeu isso como uma excelente oportunidade de atrair atenção para o número de pesquisadores envolvidos tanto no ensino quanto no desenvolvimento de pesquisa sobre gênero.

Esse movimento desencadeou a criação da Cité du genre , em novembro de 2015, que se apresentou como uma estrutura virtual agrupando as diferentes iniciativas sobre gênero na USPC. Para o reitor da USPC, bem como para os reitores das diferentes instituições, a Cité du genre era um ótimo exemplo de uma resposta bottom-up para solicitações de mais colaborações interinstitucionais e interdisciplinares.

Eu estava desde o começo no grupo de mulheres que desenhou o projeto para a Cité du genre e que viu o potencial de desenvolvimento de uma base institucional para iniciativas mais colaborativas e com perfil mais elevado. Acho que ajudou o fato de que não sou apenas amplamente respeitada como especialista em gênero em história da educação, mas também que meu reitor me designou, em 2012, para ser a chargée de mission égalité femme/hommes. Na qualidade de responsável pela igualdade em minha universidade, passei os últimos cinco anos não apenas diagnosticando as respectivas posições de mulheres e homens na universidade, mas também defendendo que a habilidade da instituição de estabelecer e manter práticas igualitárias no ambiente de trabalho depende da absorção crítica das pesquisas sobre gênero: em sociologia, antropologia, psicologia, economia e, é claro, educação e história.

Nosso projeto, que explora o papel histórico que mulheres têm desempenhado em projetos inovadores de ensino, é um excelente exemplo dessa interconexão entre análise de gênero e culturas institucionais. Ao confrontar nossas perspectivas francesas e brasileiras, nós também estamos nos engajando no tipo de diálogo transnacional que acho tão produtivo não apenas para aprender sobre o que outros estão fazendo, mas também para entender melhor nosso próprio posicionamento.

Este projeto também tem muito a ver com biografia e a utilidade das abordagens biográficas. Você pode falar um pouco mais sobre isso?

Minha última monografia foi uma biografia sobre Eugénie Luce, uma professora francesa que fundou a primeira escola para garotas muçulmanas em Argel, em 1845 ( A frenchwoman’s imperial story: Madame Luce in Nineteenth-Century Algeria , 2013). Até eu começar a pesquisar sobre Madame Luce, nunca havia interessado-me particularmente por biografia. Eu preciso confessar que agora eu sou uma convertida, visto que amei o tipo de pesquisa investigativa que fiz ao tentar reunir os diferentes aspectos da vida dessa mulher e refletir a respeito das dinâmicas de gênero da memória histórica.

Por que essa mulher, que adquiriu fama por ensinar francês a garotas muçulmanas em meados do século XIX, foi lembrada em 1930 no centenário da conquista francesa da Argélia como a avó da arte argelina ? Como a educação escolar desapareceu no registro histórico em favor da celebração do bordado feminino? Como resultado, desde que comecei a pesquisar sobre Madame Luce, comecei a construir uma série de arquivos biográficos sobre professoras mulheres, a maioria das quais têm recebido muito pouca atenção histórica.

Na França, biografias sobre mulheres pedagogas ou professoras são poucas e dispersas, mas essa abordagem está atualmente bastante em voga à medida que historiadores em muitos países têm se interessado pela virada biográfica. Na história de gênero, essa forma de abordagem tem originado alguns estudos incríveis que se valem das discussões de Judith Butler para pensar sobre como mulheres praticam gênero e jogam com as normas do gênero em suas autoapresentações.

No entanto, ao decidir focar em biografias em nosso projeto franco-brasileiro, nossa ambição é bem diferente, à medida que procuramos acumular documentação (escrita e visual) sobre as vidas de uma série de mulheres cujo trabalho de alguma forma alterou o modo de pensar sobre educação, o conhecimento e a posição das mulheres em relação às expectativas do gênero daquele tempo. Estamos menos interessadas em como essas mulheres vivenciavam gênero que no modo como suas ações ajudaram a moldar realidades educacionais emergentes.

Acima de tudo, esse projeto é ancorado em nossas próprias práticas docentes, visto que estamos usando esse projeto colaborativo para formar tanto alunos de mestrado quanto doutorado em pesquisas históricas em educação assim como no uso crítico da abordagem biográfica e de gênero.

Nos últimos dois anos, tenho sido responsável por um seminário de mestrado sobre abordagens biográficas em educação e agora eu irei conectá-lo diretamente com nosso projeto. Este ano, decidi pedir aos meus alunos para contribuírem com o website que a Faculdade de Educação em São Paulo criou para o nosso projeto. Em outras palavras, espero que a pesquisa que peço aos meus alunos para fazerem para as aulas possa contribuir para nosso projeto, ensinando-os no processo que investigação é um projeto colaborativo. Eu amo a ideia de que estudantes em São Paulo e em Paris estarão trabalhando na alimentação de um website em francês e português que traga à vida a trajetória de mulheres educadoras do passado.

Você poderia dizer algo, para concluir, sobre a International Standing Conference for the History of Education (ISCHE) e a sua visão enquanto presidente do que ela representa hoje no campo da história da educação?

É uma grande honra servir como presidente da ISCHE, uma organização que conheço desde o começo de minha carreira profissional. Na verdade, o primeiro congresso do qual participei foi a ISCHE em Praga, em 1990. Descobri o que uma conferência internacional era e, particularmente, descobri um grupo de trabalho permanente em The history of gender and education , no qual falei sobre o papel das ordens religiosas na educação de mulheres francesas modernas. Para esta entrevista, revirei meus arquivos e encontrei os resumos cuidadosamente anotados dos trabalhos apresentados nesse grupo e redescobri os nomes de colegas com os quais eu então desenvolvi em alguns casos trocas entusiasmadas.

O trabalho que apresentei no congresso principal ocorreu em um contexto mais formal e de longe mais intimidador do que as discussões do grupo de gênero. Falei sobre The legacy of Saint-Cyr in the reform of girls’s educacion in France e lembro que me senti muito jovem, inexperiente e amadora à frente de um grande auditório com Willem Frijhoff como um dos participantes da sessão. Desde aquele primeiro congresso, a ISCHE tornou-se minha comunidade internacional de pesquisadores em história da educação de mesma opinião, interessados em troca de ideias em um contexto internacional. Ao longo dos anos, as pessoas que participavam do grupo de trabalho em gênero se tornaram amigas, e participar dos congressos se tornou mais que apenas uma oportunidade de apresentar meu trabalho e descobrir uma nova cidade, mas também uma forma de expandir minhas redes de amigos profissionais.

Como presidente, eu sinto fortemente que esse tipo de sociabilidade intelectual internacional é um aspecto essencial do que a ISCHE é. Quero que tanto os pesquisadores em início de carreira quanto colegas aposentados desejem participar das conferências para aprender sobre o que os outros estão trabalhando, para receber feedback sobre seus próprios trabalhos, para nutrir amizades estabelecidas e criar novos laços.

Todos nós agora temos acesso por meio de recursos digitais ao trabalho uns dos outros, mas nada substitui as conversas face a face durante os almoços e intervalos para café. Ler na tela do computador não cria a mesma sensação de comunidade como dançar juntos nos banquetes da ISCHE! A ISCHE, no entanto, está esforçando-se para ser mais, e o nosso website e projetos digitais refletem como gostaríamos de nos tornar a referência automática para pesquisadores de todo o mundo que procuram aprender sobre ou se dirigir a um público internacional no campo.

Ao fornecer informações sobre nossas próprias atividades e especialmente sobre nossos congressos no passado assim como no futuro, o website da ISCHE busca desenvolver uma comunidade virtual. Com a série de livros da ISCHE Global Histories of Education , pela qual você é responsável, nós vamos um passo adiante ao encorajarmos o tipo de debate global ou transnacional sobre o qual discorri no início desta entrevista. Temos o tipo de membros associados que nos permite fazer conexões necessárias para produzir histórias inovadoras para além dos paradigmas nacionais que podem limitar nossa visão intelectual ou criatividade. Em outras palavras, eu realmente vejo a ISCHE como uma comunidade com o potencial de escrever novas pesquisas para todos nós, assim como desafiar nossas comunidades nacionais a responderem aos desafios de nosso mundo globalizado.

Você pode falar mais sobre estes desafios para o futuro, tanto para a ISCHE e de forma mais geral para a história da educação?

Intelectualmente, o impacto da globalização tem sido muito estimulante e espero que continue assim. Para a ISCHE, isso significa fazer esforços reais para ir além dos sócios europeus e norte-americanos que estavam no cerne da associação, atraindo novos membros de todo o mundo e organizando congressos ao redor do mundo. Mas esse esforço de se tornar uma associação verdadeiramente internacional traz desafios reais, mais obviamente linguísticos. Como uma pessoa que tem o inglês como língua nativa, fico sempre surpresa pela incrível vantagem que isso me dá em um contexto internacional onde o inglês tem se tornado cada vez mais a língua franca. Enquanto presidente da ISCHE, tenho dado continuidade ao empenho de meus predecessores de fazer esforços maiores para apoiar todas as quatro línguas oficiais da ISCHE – inglês, espanhol, francês e alemão – por meio de sessões multilíngues nos congressos com mais tempo disponível para permitir traduções e trocas.

Tudo que podemos fazer enquanto associação para promover conhecimento de investigação em uma ampla gama de idiomas é crítico para o futuro. Esta foi uma das minhas preocupações ao criar a sala de história da educação no website , em que pedi a pesquisadores da Bélgica, França, Argentina e Canadá para falarem sobre suas pesquisas sobre educação e o corpo. Os vídeos que produzimos estão em francês, inglês e espanhol com legendas em inglês para permitir que todos acompanhem.

Um segundo desafio que eu levo muito a sério é promover a história da educação entre estudantes de doutorado e pesquisadores em início de carreira. Aqui, novamente, acredito que o interesse atual em questões globais ou transnacionais torna o nosso campo mais excitante para jovens pesquisadores que cresceram em um mundo globalizado. Mas precisamos ter certeza de que nossa associação é acolhedora e atrativa, o que significa proporcionar um ambiente intelectual estimulante e encorajador em nossos congressos.

Também precisamos pensar criativamente sobre como fazer jovens pesquisadores se envolverem com a comunidade. Foi isso que motivou a cooptação de uma pesquisadora em início de carreira para o comitê executivo da ISCHE. Tenho perseguido e ampliado iniciativas nesse sentido no congresso anual: organizando momentos em que pesquisadores em início de carreira podem encontrar com pesquisadores estabelecidos; painéis sobre publicações e eventos sociais que criam uma sensação de comunidade. Começando este ano com o congresso em Buenos Aires, também fornecemos verba de viagem para ajudar jovens pesquisadores a participar do congresso. Nosso objetivo é sermos capazes de proporcionar cada vez mais esse tipo de apoio no futuro, assim como responder às suas necessidades específicas ou aspirações. Uma sugestão na qual estamos trabalhando é um painel sobre métodos destinado a pesquisadores em início de carreira.

Por último, fiquei muito surpresa, em meu encontro com os presidentes de associações nacionais em Buenos Aires neste verão, que muitas comunidades nacionais estão bastante ansiosas sobre o futuro institucional da história da educação em seus países. Diferente do Brasil, onde a história da educação ainda floresce nas universidades e departamentos de educação, muitos colegas relatam o desaparecimento gradual da história no currículo de educação e da pouca legitimidade da educação nos departamentos de história. Pessoalmente, baseada em minha própria experiência, tenho uma visão mais otimista do futuro; não apenas tenho um grupo dinâmico de doutorandos, mas encontro ou me correspondo com vários jovens interessados na história da educação ao redor do mundo.

Além disso, na ISCHE, sinto que tenho o privilégio de dialogar com vários pesquisadores interessantes e criativos e aprecio bastante os estudos que leio em nossa revista internacional, Paedagogica Historica . Minha impressão pessoal, nascida da minha inserção institucional binacional e meu envolvimento na ISCHE, é que sou parte de uma comunidade particularmente dinâmica de pesquisadores. Mas sei que isso não necessariamente se traduz em empregos em instituições e cada contexto nacional é diferente. Nesse ponto, acho que precisamos pensar criativamente na ISCHE sobre como explorar com sucesso nossas discussões intelectuais vibrantes na forma de lobby para a continuidade e mesmo o crescimento da relevância da história da educação nas instituições educacionais ao redor do mundo. Não tenho soluções fáceis, mas acredito que estamos coletivamente bem posicionados para ajudar membros individuais e grupos nacionais nesta tarefa.

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3- Compõem a equipe brasileira as professoras da FEUSP Maurilane Biccas; Paula Vicentini; Rita Gallego; Vivian Batista da Silva; Dislane Zerbinatti de Moraes e Katiene Nogueira da Silva, além da Pós-doutoranda Rafaela Rabelo, e as doutorandas Ariadne Ecar; Fernanda Franchini; Fabiana Munhoz; Josiane Marques e Claudineia Avanzini, além de Rachel Abdala, professora da Universidade de Taubaté - UNITAU, e Wiara Alcantara, professora da Universidade Federal de São Paulo - UNIFESP. A equipe francesa é formada por maitresse de conference Gabrielle Houbre (Université Paris Diderot), Depoilly Sévrerine (Espe de Paris-Université Paris 4), Laurent Gutierrez (Université Prais Ouest Nanterre), Marianne Thivend (Université Lyon 2) e Emmanuelle Picard (ENS Lyon), e estudantes de doutorado da Université Paris Descartes Véra Léon, Geneviève Pezeu, Sébastien-Akira Alix, Hayarpi Papikyan e Marie-Elise Hunyadi.

5- Quando, pelo contexto da fala, está claro que se trata de mulheres, usamos o feminino. Nas demais situações, optamos pelo masculino genérico, evitando a fórmula o(a), os(as), em favor da maior legibilidade. No entanto, estamos cientes dos questionamentos que esta opção pode trazer, daí fazermos este alerta (Nota da tradução).

6- Exposição Nacional Comemorativa do 1º Centenário da Abertura dos Portos no Brasil (Nota da tradução).

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A tradução ao português foi feita por Rafaela Rabelo e contou com a revisão de Diana Vidal.

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