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Educação e Pesquisa

versão impressa ISSN 1517-9702versão On-line ISSN 1678-4634

Educ. Pesqui. vol.44  São Paulo  2018  Epub 01-Mar-2018

http://dx.doi.org/10.1590/s1678-463420180144174612 

ARTIGOS

Arte, escola e museu: análise de uma experiência em arte/educação no Museu Universitário de Arte - MUnA

Gustavo Cunha de Araújo1 

1- Universidade Federal do Tocantins, Tocantinópolis, TO, Brasil. Contato: gustavocaraujo@yahoo.com.br

Resumo

A partir de uma perspectiva teórica e empírica, o artigo analisa uma experiência em arte/educação desenvolvida com estudantes da rede pública de ensino na cidade de Uberlândia, Minas Gerais, no Museu Universitário de Arte - MUnA. De abordagem qualitativa e de caráter descritivo e interpretativo, a pesquisa constatou que o contato com museu de arte possibilita ao estudante não apenas ampliar o seu conhecimento de mundo, mas enriquecer sua formação cultural e melhorar a sua capacidade de expressão, além de possibilitar aos estudantes uma melhor interação com o meio social em que vivem. O conhecimento em arte é um aprendizado que começa na observação de uma obra de arte, da sua leitura e da prática artística. As leituras e comportamentos que cada estudante tem ao apreciar uma obra de arte estão relacionados à sua experiência com diferentes manifestações artísticas. É indispensável que escolas, professores de arte e ações educativas em museus sejam importantes mediadores para a produção do conhecimento em arte aos estudantes. Construir esse conhecimento a partir do acesso constante a esses espaços artísticos e educacionais, além do desenvolvimento de atividades artísticas nesses espaços, possibilita ao estudante elevar a sua compreensão da cultura nacional. Verificamos, ainda, que os estudantes produziram trabalhos artísticos significativos durante a ação educativa no museu, o que contribuiu para que ampliassem sua experiência com a arte.

Palavras-Chave: Arte e educação; Museu de arte; Experiência artística; Cultura

Introdução

A partir de uma perspectiva teórica e empírica, o artigo tem como principal objetivo analisar uma experiência em arte/educação desenvolvida com estudantes da rede pública de ensino na cidade de Uberlândia, Minas Gerais, por meio do contato com obras de arte contemporâneas no Museu Universitário de Arte - MUnA. Esta pesquisa, de abordagem qualitativa e de característica descritiva e interpretativa2, foi desenvolvida com alunos de duas turmas do último ano do ensino fundamental - 9° ano -, totalizando 51 alunos, de uma escola3 da rede pública de ensino localizada na cidade de Uberlândia, Estado de Minas Gerais. Como instrumentos para coleta e análise dos dados, foi utilizada a observação in loco da pesquisa de campo realizada no museu e aplicação de questionários semiabertos, de 5 (cinco) questões cada - sendo três fechadas e duas abertas -, aos estudantes sujeitos desta pesquisa.

Na primeira parte deste trabalho, são desenvolvidas brevemente algumas reflexões sobre o ensino de arte em espaços de educação não formal - museus -, com o objetivo de contextualizar este estudo. Em seguida, é apresentada a aula de campo realizada no MUnA, na intenção de descrever e analisar uma experiência em arte/educação desenvolvida com estudantes do ensino fundamental a partir do contato com obras de arte contemporâneas, em consonância com a ação educativa realizada nessa instituição. A parte seguinte se refere à análise dos questionários - semiabertos - aplicados aos alunos sobre a aula em questão. Por fim, são apresentadas algumas conclusões sobre o estudo realizado.

Arte e museu: algumas reflexões

No percurso histórico da humanidade as pessoas buscam se dialogar com o mundo tendo na arte um meio profícuo para produzir e disseminar novas ideias e conhecimentos. Já não é novidade de que a arte pode ser encontrada com facilidade nas vias públicas urbanas por meio de grafites, em arquiteturas de monumentos públicos, nos festivais musicais, performances teatrais, entre tantos outros meios. Contudo, não basta apenas ver, é preciso olhar, apreciar a arte para que se possa compreender as intenções do artista e produzir leituras e interpretações significativas da obra.

A linguagem expressiva da arte tem a força de interrogar padrões, valores, concepções e gostos; ela exige a reflexão. Diante dela nos deparamos, por exemplo, com vários conceitos de belo e feio, e por eles podemos pensar nos valores que contornam nossas vidas e imprimem identidades e pertencimentos. (JOHANN, 2015, p. 07).

Segundo Barbosa (2012, p. 33) a arte na educação tem como principal objetivo formar o ser humano que conhece, aprecia e decodifica a obra de arte, já que, “uma sociedade só é artisticamente desenvolvida quando ao lado de uma produção artística de alta qualidade há também uma alta capacidade de entendimento desta produção pelo público”, ou seja, a arte tem papel fundamental no progresso cultural de qualquer sociedade.

Fróis (2011) considera que nos dias atuais os museus vêm passando por mudanças, que afetam os processos de visitas, acessos e conhecimento das obras de arte. Talvez seja uma forma de atingir públicos antes “inatingíveis”, que até então, nunca tiveram contato com a arte ou condições de frequentarem esses lugares. Através de ferramentas virtuais como a internet, ver coleções de arte de alguns dos principais museus do mundo se tornou mais acessível nos dias atuais. Para esse teórico, essas transformações permitem as pessoas a ampliarem o entendimento do papel desses lugares na contemporaneidade.

No entanto, há pesquisadores que concebem museus de arte como verdadeiras enciclopédias da história da arte, como é o caso do teórico Lara Filho (2013, p. 64), que realça que as exposições artísticas são exemplos de “manifestação dos museus perante seus públicos”.

Em panorama complementar à reflexão anterior, Arrais (2013) considera que no século XX os museus tiveram um reconhecimento maior enquanto espaços educativos. Pensamento esse semelhante no que tange a relação entre arte e educação enfatizada por Selli (2013, p. 41-42): “a cada ano os museus brasileiros vêm se aperfeiçoando no que diz respeito a receber o público, oferecer serviço de mediação, promover oficinas, cursos, atualização de professores e tantas outras coisas.”

Numa perspectiva histórica e atemporal, os museus foram constituídos para a preservação patrimonial, comunicação e educação, sendo esta última, uma temática que vem crescendo significativamente em pesquisas nacionais e internacionais sobre educação em museus, a partir de diferentes abordagens metodológicas, com foco em aspectos pedagógicos, educacionais e aprendizagens não formais (MARANDINO, 2015).

Nesse sentido, a acessibilidade ao museu e a disponibilidade de seu acervo ao público - incluindo estudantes e professores - são apenas uma das formas de corroborar o seu papel social na contemporaneidade, pois, “somente assim, o museu atende seu papel de prestar serviço ao ensino de seus espectadores, reafirmando-se como uma instituição cultural e educacional”. (PINTO, 2012, p. 87). Com efeito, preservar a cultura de um povo, possibilitar a interação entre a obra de arte e o seu público, produzir conhecimento e disseminá-lo, também podem ser outros exemplos de seu papel social na atualidade.

À luz dessas reflexões sobre o papel social e educacional dos museus, Pérez e Gordillo (2011, p. 49) compreendem que “Las instituciones culturales, uno de los principales ejes de la educación no formal, se han de entender como un espacio didáctico y comunicacional a favor de la educación permanente dentro de la sociedad”. Ou seja, os museus de arte são considerados como um dos principais espaços educativos e culturais na sociedade contemporânea.

É importante assinalar que arte e educação se constituíram como importantes objetos de estudo nas últimas décadas no Brasil, com forte influência estrangeira. Para Loponte (2012), pesquisas sobre essa relação cresceram no Brasil consideravelmente após a década de ١٩٧0, sendo publicados em livros, artigos em periódicos científicos, anais de eventos, dissertações e teses, principalmente após a criação de cursos de graduação e pós-graduação na área de artes e educação que problematizam questões relacionadas a essas duas áreas. Concomitante a esse momento, é preciso ressaltar também o surgimento de eventos científicos importantes que divulgam no país a produção intelectual no campo da arte e da educação, com destaque para a CONFAEB4, a ANPAP5 e a ANPED6, contribuindo proficuamente para novas formas de se discutir, analisar e pensar a arte na sociedade.

Na esteira desse pensamento, Martins (2011) afirma que mesmo os setores educativos terem surgidos nos museus no final do século XIX, as pesquisas científicas sobre a educação em museus aumentaram consideravelmente apenas nos anos de 1970, o que contribuiu para compreender a relação entre os museus e seus públicos e, consequentemente, para a ampliação do diálogo entre o campo museal e o educacional.

Barbosa (1998) sublinha que a experiência em arte do professor pode influenciar a experiência em arte do aluno, embora o estudante ache interessante ou não, significativo ou não a escolha feita pelo docente. Sobre esse assunto, Iavelberg (2003, p. 12) assim se pronuncia: “o professor deve conhecer a natureza dos processos de criação dos artistas, propiciando aos estudantes oportunidades de edificar ideias próprias sobre arte”.

Segundo Dewey (2010, p. 109) não apenas a arte local, mas conhecer a arte de outros povos possibilita ao indivíduo ampliar a sua compreensão de cultura. Assim, “a experiência ocorre continuamente, porque a interação do ser vivo com as condições ambientais está envolvida no próprio processo de viver”. Nesse sentido, a experiência não é apenas individual, mas uma contínua interação com o meio social. Desse modo, a experiência pode ser entendida como “uma questão de interação do organismo com o seu meio, um meio que é tanto humano quanto físico”. (DEWEY, 2010, p. 430).

Depois dessa breve discussão teórica para situar a discussão que este texto propõe, apresento a seguir as análises da aula de campo desenvolvida no Museu Universitário de Arte – MUnA, a partir de uma experiência em arte/educação.

Uma experiência em arte/educação no Museu Universitário de Arte - MUnA

Os dados coletados desta pesquisa ocorreram durante as observações realizadas nas aulas de Arte na escola pesquisada com estudantes de duas turmas do 9° ano do Ensino Fundamental, bem como no decorrer da aula de campo que ocorreu no museu com a participação desses mesmos alunos e do professor dessa disciplina. No que se refere aos questionários, os mesmos foram aplicados aos discentes na aula de Arte nessa escola, uma semana após a visita ao MUnA.

Alves (2015) esclarece que visitar virtualmente um museu de arte não substitui, de fato, a experiência presencial, pois as sensações e emoções serão outras. Entretanto, foi com o Art Project a partir de 2011 que visitar um museu de arte sem sair de casa teve um avanço significativo na arte e educação e, consequentemente, para o campo das artes visuais, por meio da utilização de metodologias educativas como computadores, vídeos e internet. Nessa perspectiva, apropriamos do conceito de museu digital de Arrais (2013, p. 91) ao descrever como sendo “qualquer iniciativa digital dentro ou fora da internet com o objetivo de aproximar a arte do cidadão, preservando a memória e o patrimônio”.

Nesse raciocínio, a importância do uso de tecnologias nas aulas de Arte é destacada por Ana Mae Barbosa:

Com a atenção que a educação vem dando às novas tecnologias na sala de aula, torna-se necessário não só aprender a ensiná-las, inserindo-as na produção cultural dos alunos, mas também educar para a recepção, o entendimento e a construção de valores das artes tecnologizadas, formando um público consciente. (BARBOSA, 2010, p. 111).

A compreensão sobre as novas tecnologias da comunicação aplicadas ao ensino de arte nos últimos anos pode ser utilizada para auxiliar o aluno na fomentação de um espírito crítico e que possibilite a ele o desenvolvimento da capacidade de analisar esteticamente uma obra de baixa qualidade e outra de boa qualidade artística (Barbosa, 2010). Esse pensamento está em consonância com Arrais (2013, p. 89-90) ao entender que: “é incontestável o potencial do uso das tecnologias na arte-educação. Todavia a informática tem assimilado e desenvolvido cada vez mais recursos imagéticos aos conteúdos em que prevaleciam os textos escritos”.

Nas aulas de Arte com estudantes do 9° ano do ensino fundamental foram apresentados e discutidos com eles textos acadêmicos sobre a arte e o museu, de autores como Alves (2015) e Barbosa (2012). Em uma das aulas, os alunos foram convidados pelo professor a irem ao laboratório de informática da escola para pesquisar museus virtuais, em especial, o Art Project, do Instituto Cultural da Google do país - Brasil, que reúne milhares de obras de arte de diversos museus do mundo, possibilitando qualquer pessoa que tem acesso à internet se aproximar e interagir “virtualmente” com a obra (ARRAIS, 2013).

Assim, numa das aulas anteriores a essa visita, os alunos foram ao laboratório de informática realizar a pesquisa em museus digitais por meio da mediação do professor de Arte, os estudantes se depararam com diferentes museus e obras, para que pudessem conhecer um pouco mais da história da arte universal. Nesse momento, os discentes anotaram numa folha separada alguns desses museus que foram encontrados na pesquisa virtual, como o museu do Louvre, na França e o Museu de Arte de São Paulo, entre outros. No entanto, alguns estudantes se mostraram dispersos durante a pesquisa, mas a maioria buscou realizar as atividades propostas pelo professor. Após a pesquisa virtual, que durou uma aula de 50 (cinquenta) minutos, os estudantes voltaram para a sala de aula e o professor explicou a importância de conhecerem museus de arte, para a compreensão da cultura brasileira e de outros países.

Contudo, na aula anterior à visita ao museu, o professor da disciplina de Arte orientou os estudantes sobre os principais procedimentos que deveriam ser seguidos durante a visita ao museu, como, por exemplo, evitar lanches no interior desse espaço, bem como não tocar em obras de artes, ao não ser que as obras possibilitassem essa interação com o público.

Na aula subsequente foi realizada a pesquisa de campo com as turmas do 9° ano do ensino fundamental. É oportuno enfatizar que alguns estudantes foram pela primeira vez a um museu de arte. O museu escolhido foi o Museu Universitário de Arte - MUnA, que fica localizado no centro da cidade de Uberlândia, Minas Gerais. Esse museu é parte integrante da Universidade Federal de Uberlândia (UFU). A escolha do museu se deu devido a dois fatores: ser de fácil localização e acesso, e de oferecer a comunidade interna e externa, diversas ações educativas ao longo do ano referentes às exposições artísticas que recebe em fluxo contínuo.

De acordo com informações do próprio MUnA, coletadas pessoalmente com a gestão do museu e por meio da internet - site do museu -, esse espaço foi criado na década de 1970 e é um órgão complementar do Instituto de Artes da Universidade Federal de Uberlândia - IARTES/UFU, coordenado pelo Curso de Artes Visuais. O museu é constituído por espaços expositivos, a saber: galeria e mezanino; auditório com 60 (sessenta) lugares; oficina de artes voltada para ações educativas e cursos ofertados à comunidade; por um acervo de obras de arte modernas e contemporâneas, além de sala de conservação e restauro. Possui ainda arquivos com documentos oficiais sobre a história do museu e de seu acervo.

O MUnA tem como objetivo formar profissionais para as artes visuais, em consonância com as atividades de ensino, pesquisa e extensão desenvolvidas pela UFU. Atividades como cursos de desenhos, pinturas, fotografias, gravuras entre outros; seminários, palestras e exibição de filmes ocorrem frequentemente ao longo do ano no museu, atraindo um público variado de diferentes idades, inclusive, estudantes de escolas públicas e privadas, de diversos lugares da cidade e também de outras localidades.

Assim, ao levá-los para a aula de campo no MUnA os estudantes foram encaminhados, primeiramente, ao auditório do museu, para que pudessem receber as primeiras orientações sobre como seria a aula de campo e as atividades realizadas naquele dia. Uma professora do curso de Artes Visuais da UFU e monitores do museu se encarregaram de informar aos alunos, exercendo o papel de mediadores. Em seguida, os estudantes foram encaminhados para ver as exposições que ocorriam nessa instituição, os quais ficaram surpresos com as obras de arte contemporâneas presentes, como podem ser vistos nas figuras 1 e 2:

Fonte – Registro do Pesquisador.

Figura 1 Alunos na exposição de artes no MUnA. 

Fonte – Registro do Pesquisador.

Figura 2 Alunos na exposição de artes no MUnA. 

Os alunos caminharam nos espaços do museu observando atentamente as obras de arte ali expostas, sempre acompanhados por algum monitor e da professora da universidade que coordenava a ação educativa.

É importante destacar que as obras de artes expostas no museu foram selecionadas a partir do Edital de seleção de exposições publicado pelo MUnA em 2014 – “Edital Exposições 2015”, que visa selecionar artistas nacionais e estrangeiros para exporem seus trabalhos ao longo do ano seguinte. Essa seleção ocorre anualmente.

Nesse momento os alunos foram divididos em pequenos grupos, orientados por cada um desses monitores e pela coordenadora da ação educativa, para analisar e “ler” as obras de artes visuais. Alguns alunos olhavam atentamente, perguntando aos monitores sobre de quem era a obra, a técnica utilizada; enquanto outros olhavam rapidamente. Porém, foi possível verificar que a maioria dos discentes se interessou pelas exposições.

As exposições são em si um ambiente de aprendizagem, no qual se podem conhecer as intenções curatoriais, as narrativas construídas, os percursos planejados. E o aluno precisa ser informado sobre fatos e ações contidos em uma montagem de exposição e que tipo de ordenação pode-se vivenciar em uma visita. (IAVELBERG; GRINSPUM, 2014, p. 05).

Na etapa seguinte, os alunos foram levados para a oficina localizada no próprio museu, para realizarem uma atividade prática sobre as exposições, também coordenada pelos monitores e pela coordenadora. É importante frisar que o professor de Arte da escola acompanhou a todo instante os alunos nos espaços do museu. Nessa ação educativa, os monitores pediram aos alunos que recortassem em diferentes tamanhos pequenos papéis coloridos, entregues aos discentes, e que escrevessem quais sentimentos as exposições traziam para eles. Assim, alguns estudantes relataram sentimentos como “alegria”, “tristeza”, “estranheza” entre outros. Todavia, teve alunos que descreveram não entenderem o que determinadas obras - desenhos, fotografias, livros de artistas entre outras - queriam dizer.

Embora haja uma profícua contribuição no campo das artes de estudos e pesquisas sobre a leitura visual, Barbosa (2010) esclarece que é importante destacar essa leitura em espaços de educação não formal, por possibilitar ao indivíduo o contato com a obra de arte original, o que favorece o desenvolvimento de sua experiência com as artes. Para essa pensadora, o professor ou arte-educador tem papel fundamental nesse processo ao mediar nos alunos, de diferentes faixas etárias, a compreensão e leitura da obra de arte.

Nesse sentido, ressalta-se que o arte-educador, na escola, também planeje levar os alunos a museus e outros espaços expositivos. Isso permitirá, evidentemente, que os estudantes tenham experiências de leitura de imagens a partir de obras originais, assim como tenham um verdadeiro encontro com a arte e ampliem repertórios de conhecimentos. (BARBOSA, 2010, p. 149-150).

Ou seja, a capacidade de compreensão do público com a obra de arte está relacionada com as suas experiências artísticas, as suas vivências com diferentes objetos de arte ao longo da vida. É importante a utilização de metodologias adequadas sobre leitura da obra de arte realizadas nesses espaços pelos estudantes e o público em geral, para que possam construir interpretações significativas das exposições, elevando seus entendimentos da cultura.

Subjacente a esse momento, compartilhamos do pensamento de Braga, Madalosso, e Schlichta (2015) a respeito da relação entre professor e aluno no processo de ensino e aprendizagem:

A tarefa do professor de artes é de um mediador capaz de articular os saberes e as experiências dos alunos com os novos saberes e práticas demonstrados. Quer dizer, trata-se de um processo relacional, dinâmico e interdependente em que o professor ajudará o aluno a aprender, a aprender a pesquisar e a avaliar o que se está pesquisando. (BRAGA; MADALOSSO; SCHLICHTA, 2015, p. 23-24).

Nas figuras 3 e 4, é possível observar alguns momentos do processo criativo dos alunos no que se refere aos trabalhos produzidos na oficina de artes do MUnA, durante a ação educativa:

Fonte – Registro do Pesquisador..

Figura 3 Alunos na produção artística no MUnA. 

Fonte – Registro do Pesquisador..

Figura 4 Alunos na produção artística no MUnA. 

Posteriormente, os mesmos papéis entregues aos estudantes iriam se transformar em arte pelos próprios alunos. Nesse percurso criativo, diferentes objetos foram criados: desde uma pipa produzida a partir dos papéis recortados até cartazes, cartas e objetos tridimensionais, construídos a partir de colagens, dobraduras e recortes feitos pelos próprios discentes. Mesmo alguns alunos terem apresentado algumas dificuldades em criar os objetos, conseguiram produzi-los a partir da orientação dos monitores e da coordenadora da ação educativa. A criatividade dos alunos estava evidente nos trabalhos realizados. Os estudantes levaram aproximadamente quarenta minutos para finalizarem essa atividade, que foi realizada em grupos de aproximadamente, cinco alunos.

Cabe salientar que durante as mediações realizadas com os alunos no museu de arte a equipe da ação educativa têm o importante papel de selecionar os conteúdos das obras com os quais os estudantes estão tendo contato naquele momento, alguns inclusive, pela primeira vez. Desse modo, os estudantes podem ter condições de compreender os processos técnicos e artísticos das obras visuais presentes, importante para uma aprendizagem em arte mais significativa.

Em sintonia com as figuras 3 e 4, as figuras 5 e 6 mostram outros momentos da aula de campo desenvolvida no MUnA:

Fonte – Registro do Pesquisador.

Figura 5 Alunos na exposição de artes no MUnA. 

Fonte – Registro do Pesquisador.

Figura 6 Alunos na exposição de artes no MUnA. 

Nesse sentido, Freedman (2010) reforça que é importante dar atenção às experiências externas do indivíduo com esses meios de comunicação visual, por fazerem parte da sociedade, para que as pessoas possam ampliar o conhecimento da cultura a qual estão inseridas, cultura essa manifestada por diferentes formas.

As figuras 7 e 8 mostram outros trabalhos produzidos pelos estudantes no decorrer da ação educativa no museu:

Fonte – Registro do Pesquisador..

Figura 7 Alunos na produção artística no MUnA. 

Fonte – Registro do Pesquisador..

Figura 8 Alunos na produção artística no MUnA. 

Logo após a oficina, foi pretendido novamente aos estudantes que voltassem ao auditório para assistirem um vídeo sobre os museus das universidades, dentre esses, o próprio MUnA. Os vídeos foram apresentados por alunos do curso de Licenciatura em Artes Visuais da UFU. Após esse momento, os estudantes foram questionados pelos monitores e coordenadora da ação educativa sobre a visita, do que acharam e aprenderam durante a aula. Em seguida, foram colhidos de alguns alunos depoimentos gravados em vídeo sobre a aula de campo, que segundo essa coordenadora, tinha o objetivo de mostrar para as futuras escolas que visitariam o museu diferentes olhares sobre as exposições.

Para Iavelberg e Grinspum (2014) é preciso tanto à escola quanto o museu promover situações de aprendizagem que possam contribuir para a construção de conhecimento em arte dos estudantes. Defendem a importância do professor ou arte-educador em mediar à leitura da obra de arte realizada pelo estudante. Com efeito, a experiência em artes visuais que o estudante tiver no museu o acompanhará por toda a vida, podendo ampliar e compartilhar essa vivência com outras pessoas. Além disso, “na vivência artística o aluno pode transfigurar a sua realidade, conhecer e, inclusive, transcender o instituído, elaborar as suas emoções e dar visibilidade as suas percepções”. (JOHANN, 2015, p. 07).

Em adição a essa reflexão, Carvalho; Lopes e Cancela (2015) afirmam que levar os estudantes a museus de arte pode ser considerada, também, uma forma de inclusão social, ao possibilitar a esse público uma formação mais crítica e participativa, visto que “é especialmente por meio da exposição que o público se envolve nos processos de ensino e aprendizagem nos museus”. (MARANDINO, 2015, p. 710).

Martins (2014) compreende que o termo “mediador” diz respeito a professor e educador, que media o aluno durante a experiência em arte. Mas pode se referir, também, aos pais, avós, tios entre outras pessoas, que possibilitam a esse estudante encontros com a arte. Diante disso, é fundamental “oferecer meios para que cada sujeito que participa de uma ação mediadora possa criar, e que sua criação alimente a criação de todos, construindo diálogos que permitam esta ampliação de pontos de vista que tanto enriquece”. (MARTINS, 2014, p. 260). É possível afirmar, portanto, que a prática de mediação no processo de ensino e aprendizagem nesses espaços não pode ser restrita apenas à escola e ao professor, isto é, pode ser ampliada.

No entanto, Barbosa (2016, p. 18) traz o conceito de mediação crítica em museus que, segundo ela, não se refere apenas a conhecer o que pensam os mediadores e educadores, “mas também de saber que ações desencadeiam e quais as bases destas ações”.

Noutro estudo realizado sobre processos de mediação, Braga, Madalosso, e Schlichta (2015) revelaram quatro concepções de mediação com a obra de arte, a saber: mediação entre sujeito-mediador-objeto, se referindo à relação estabelecida entre esses três; mediação como intervenção pedagógica, que se reporta a intervenção do professor no processo de ensino e aprendizagem do aluno; mediação como relação homem-tecnologia, que diz respeito à mediação a partir do uso de ferramentas tecnológicas como a internet; e mediação como metodologia ou ação educativa. Para essas teóricas, esses termos estão relacionados a práticas educativas desenvolvidas em museus de arte, os quais entendemos estarem também relacionados aos processos de ensino e aprendizagem realizados no Museu Universitário de Arte - MUnA durante as exposições artísticas e ações educativas.

Após a gravação dos depoimentos, os estudantes voltaram para a escola. Na aula de Arte que ocorreu uma semana depois, foi solicitado pelo professor de Arte aos estudantes que visitaram o museu, que respondessem um questionário de 5 (cinco) questões abertas, sobre suas impressões da aula de campo. A seguir, apresentamos a análise desses questionários.

Análises dos questionários

Posteriormente à aula de campo realizada com as duas turmas de 9° anos do ensino fundamental de uma escola estadual da rede pública de ensino em Uberlândia, Estado de Minas Gerais, foi entregue pelo pesquisador a todos os estudantes que foram ao Museu Universitário de Arte um questionário semiaberto para que pudessem responder cinco questões - três fechadas e duas abertas - sobre a aula de campo realizada. Dentre essas, destacamos neste artigo as perguntas abertas. É importante assinalar que esse questionário foi aplicado na escola durante a aula de Arte com as duas turmas e, após os estudantes responderem o questionário, os mesmos foram recolhidos pelo pesquisador para que fossem posteriormente analisados. Assim, ao serem indagados sobre o que aprenderam durante essa visita, os alunos assim se posicionaram:

MUnA é um importante centro cultural da cidade de Uberlândia e região. O MUnA abriga exposições de diversos gêneros, além disso, oferece diversos cursos abertos à comunidade e sem custo algum. (A3)7.

Eu vi a paixão que os autores têm com suas obras, o cuidado que tem com elas e as emoções que eles colocam. (A4).

Foi interessante ver as diversas obras de diferentes artistas e a forma na qual eles expressam seus sentimentos, opiniões etc. (A9).

Achei muito interessante. Descobri muitas coisas. Aprendi muitas coisas e a que eu mais gostei foi a de fazer artes com cera de abelhas. (A14).

Foi muito bom, gostei de todas as obras de artes. Foi uma aula prática muito boa, aprendi várias coisas. Aprendi como se faz uma atividade construindo em qualquer objeto. (A15).

Foi incrível ver obras de arte. Não sabia que existiam cadernos de artistas e obras com qualquer material. (A16).

Achei ótimo. Aprendi que através de um museu podemos saber de várias coisas que não são ditas no nosso cotidiano. (A23).

Foi uma experiência diferente e divertida ao mesmo tempo. Eu aprendi que podemos conhecer diferentes obras de arte. (A26).

Foi muito bom. Lá podemos ver como que com poucos recursos podemos fazer arte. É um lugar bom pra estudar arte. (A28).

Foi uma experiência diferente e divertida. Aprendi histórias das obras e artistas, aprendi coisas novas que eu não sabia. (A32).

A visita foi superinteressante e educativa. Nessa visita, eu pude ver obras em que os artistas se expressam, e o que eles usam para fazer suas obras. (A44).

Eu achei o museu intrigante e interessante. A habilidade com que os artistas fizeram a arte é extraordinária. Aprendi a admirar um conteúdo artístico com intensidade e, dessa forma, aprendi a ter sentimentos pela arte de acordo com que ela apresenta. (A46).

As declarações dos alunos mostram que a maioria gostou da aula realizada no Museu Universitário de Arte. É recorrente em suas falas expressões referente à arte concebida como cultura e expressão de sentimentos, que se referem a algumas das funções da arte: expressar o sensível e promover o desenvolvimento cultural. No entanto, alguns alunos demonstraram em suas falas que a arte pode ser produzida a partir de qualquer material, o que evidencia o entendimento desse estudante de que é possível produzir arte a partir de um objeto qualquer, o que é bastante característico da arte contemporânea.

Contudo, alguns poucos alunos relataram que não entenderam a aula de campo realizada no museu. Porém, o estudante (A5) nos chamou bastante a atenção por ter afirmado que só foi à aula no MUnA para ganhar nota na disciplina de Arte:

Nada, só fui para ganhar ponto. (A5).

Não entendo nada. (A41).

Eu não entendi nada. (A43).

Eu não entendi nada. (A51).

Pensamos que a principal falta de compreensão de alguns alunos com a aula de campo se remete novamente a dificuldade de compreender algumas obras de arte contemporânea, a recepção da obra, o que foi ressaltado na seção anterior deste trabalho ao analisar o processo criativo desses estudantes. Evidentemente, pode haver outros fatores que tenham colaborado com esse não entendimento por parte de alguns discentes para com a aula, mas, é importante ressaltar que se o estudante não consegue compreender o que vê numa pintura, fotografia, gravura, ou qualquer outro objeto artístico, ele se desinteressa e não se sente motivado a apreciar outras obras, tampouco a querer participar de atividades desenvolvidas em ações educativas. O estudante se interessa por aquilo que lhe chame a atenção, que desperte a sua curiosidade em aprender. E isso, pode estar relacionado com a sua experiência com a arte.

Contudo, o fato que nos parece ainda ser predominante nas escolas de educação básica, principalmente na disciplina de Arte, se refere a problemas no que concernem as leituras de obras visuais realizadas em sala de aula, que podem não estarem acontecendo adequadamente com os alunos, ou por metodologias equivocadas de leituras trabalhadas com os estudantes, ou, ainda, falta de conhecimento por parte do professor em trabalhar essa atividade. Foi possível constatar que alguns poucos alunos perguntaram aos monitores, tanto na visita às exposições quanto na oficina de artes, que não entendiam determinadas obras e o que essas queriam dizer. Esses questionamentos ocorreram ao longo da aula nesse dia. Pensamos que isso possa ter contribuído para que alguns discentes tenham se desinteressado pela aula nesse dia.

Essa constatação vai de encontro com que Martins (2011) ressalta: é preciso ampliar a capacidade de leitura visual, para que as pessoas não fiquem presas às normas acadêmicas da arte ao apreciar uma pintura, fotografia, desenho entre tantas outras linguagens artísticas. Na esteira dessa reflexão, Iavelberg e Grinspum (2014, p. 07) fazem uma importante observação:

Assim como as exposições constituem-se nos principais veículos de comunicação dos museus e, portanto, no ambiente central de aprendizagem, os momentos de leitura de obra de arte em grupo, com a mediação de educadores, consistem no mais importante recurso didático para que a participação autoral dos alunos emerja em falas e interações que podem ser provocadas, instigadas, expandidas e acrescidas de conteúdos mediados pelo educador na medida das possibilidades assimilativas de cada grupo.

Nesse aspecto da leitura da obra de arte em espaços de educação não formal, Martins (2011, p. 315) assim considera: “a mediação cultural pode ser o espaço da conversação, da troca, do olhar estendido pelo olhar de outros que não elimina o do sujeito leitor, seja ele quem for”, e completa esse raciocínio ao afirmar que “o convite da mediação não é a adivinhação ou a explicação, mas a decifração, a leitura compartilhada, ampliada por múltiplos pontos de vista”. Ou seja, a leitura da obra de arte deve se relacionar à mediação cultural desenvolvida em espaços culturais e educativos como museus de arte, visto que “todo aluno que compreende o que lê, deve também interpretar o que vê”. (SELBACH, 2010, p. 102), e, também, deve ser uma mediação crítica, pois, “mediação não é medição, é ação”. (BARBOSA, 2016, p. 18).

Outro ponto que merece ser destacado neste trabalho se refere à arte contemporânea. Como é sabido, a arte contemporânea não segue padrões rigorosamente estabelecidos8, ao contrário de outros estilos artísticos como a arte neoclássica do século XVIII e, por isso, algumas obras expostas no MUnA podem ter levado alguns alunos a terem dificuldades em entendê-las. Talvez por estarem “acostumados” com produções artísticas designadas como “belas”, bastante disseminadas pelas mídias sociais, visto que algumas dessas imagens artísticas nos parecem serem encontradas com certa facilidade nos livros didáticos, os quais os alunos têm bastante contato. Ao se depararem com a arte contemporânea, que quebra todo esse paradigma do que é “belo” e canônico na arte, alguns estudantes acham “estranhas”, “diferentes” algumas obras, durante o processo de leitura visual.

A falta de uma formação com qualidade e adequada ao professor de Arte nos dias de hoje em lidar com situações que envolvem leitura de imagem e leitura da obra de arte na sala de aula e a recepção da obra pelo estudante pode influenciar o processo de aprendizagem do discente durante a compreensão de uma obra de arte, por não ter condições de orientar e mediar o aluno nesse importante processo de leitura. Tanto a escola quanto o professor de Arte e os profissionais que atuam em ações educativas em espaços de educação não formal precisam ficar atentos a esse aspecto, pois, ler obra de arte faz parte da formação intelectual do indivíduo.

Na esteira desse pensamento, Loponte (2012) esclarece que não se deve ler uma obra de arte contemporânea com olhos “renascentistas” ou “modernistas”. No entanto, é preciso que seja levado em conta o contexto da obra, quando surgiu, a época em que foi criada entre outros fatores. Cada período da história da arte possui seus pressupostos críticos e estéticos, e na arte contemporânea não é diferente. Isto é, o que era belo no renascimento, pode não ser belo nos dias atuais. E, esse aspecto, foi ressaltado pelos monitores durante a ação educativa no museu, ao destacar essas informações, de contexto da obra, aos estudantes.

Esse culto às noções mais clássicas ou tradicionais da arte, segundo Loponte (2014), é derivado das impressões mais frequentes que ocorrem entre professores e alunos na educação sobre a arte contemporânea. Parece-nos que ainda prevalece uma cultura hegemônica europeia nas aulas de Arte das escolas de educação básica, que influenciam as leituras e os “olhares” de estudantes ao analisarem uma obra de arte durante as atividades pedagógicas realizadas na disciplina de Arte. Diante disso, pensamos que seja importante uma formação docente em arte mais ampliada nos dias de hoje, que possa contribuir para um ensino com mais qualidade nessa disciplina, ao abordar metodologias adequadas de leituras de imagem e leitura da obra de arte, além de estudos de artistas brasileiros, e não somente estrangeiros.

Iavelberg e Grinspum (2014) trazem uma contribuição para essa explicação: a mediação na arte contemporânea vem se pautando na prática da leitura da obra de arte, buscando entender a obra exposta ao público, e não em compreender apenas as intenções do artista.

Alguns estudantes, ao serem perguntados se já visitaram algum museu de arte, relataram sobre a primeira vez em terem ido a um museu:

O museu é muito legal. Eu nunca tinha ido, mas gostei muito da primeira vez que eu fui. Pretendo ir mais vezes. Aprendi que arte pode ser qualquer coisa. (A21).

Foi muito bom, pois aprendi várias coisas. Nunca fui ao museu. Inesquecível. (A22).

Foi muito interessante, porque eu nunca tida ido ao museu. Foi uma sensação diferente. (A27).

Foi uma experiência nova e bem interessante. Nunca tinha ido ao museu antes, gostei muito das obras de arte, da oficina, das palestras. (A31).

Eu nunca tinha ido a museu de arte e, chegando lá, me despertou interesse e curiosidade em ver obras e pinturas de artes com frases de artistas demonstrando seus sentimentos. Eu aprendi várias coisas sobre os artistas, sobre suas histórias, entre outros. (A35).

De acordo com os seus relatos, os alunos que nunca tiveram ido a um museu de arte demonstraram satisfeitos com a aula de campo realizada no Museu Universitário de Arte, onde tiveram a oportunidade de aproximar e ampliar seu conhecimento da cultura artística local, regional e nacional a partir de obras de arte expostas, de diferentes artistas. Sair da sala de aula e ter a oportunidade de conhecer pessoalmente diferentes pinturas, desenhos, gravuras, fotografias, livros de artistas entre outras obras, além da história dos artistas da exposição e da organização das obras no espaço museal, possibilita ao estudante ampliar significativamente sua experiência com as artes visuais, fundamental para a sua formação cultural e na construção de conhecimento.

A ação educativa realizada durante o dia que ocorreu essa aula, bem como a mediação desenvolvida por professores e monitores do museu colaborou para que os estudantes pudessem expressar concepções estéticas da própria arte, ao falarem sobre o museu, motivando-os a quererem voltar a frequentar novamente um museu de arte. Isso ficou evidente em suas falas.

Braga, Madalosso e Schlichta (2015) afirmam que essa mediação em artes visuais vem sem disseminando na educação brasileira nos últimos anos como uma prática constante para a pesquisa em arte e pesquisa em educação, se considerando como importante instrumento de inclusão cultural.

Os estudantes e o público em geral que frequentam esses espaços, ao terem o contato real com a arte, precisam receber orientações sobre os artistas e as exposições que ocorrem nesses lugares. São aspectos essenciais para que as pessoas elevem seu conhecimento cultural e sua experiência com a diversidade artística. Diante disso, é importante ressaltar que “fazer a mediação entre o público e a obra é ensinar arte.” (IAVELBERG, 2003, p. 77). Em complementação a essa reflexão sobre arte e museu, destacamos novamente nessas análises o pensamento de Mirian Celeste Martins que corrobora nossas reflexões:

Consideramos que a ação mediadora não se dá apenas com boas propostas; também se dá com materiais educativos, com objetos propositores, com um bom site, com uma boa formação dos educadores que atuam, com uma equipe acolhedora. E na escola, do mesmo modo, cabe ao professor favorecer acesso cultural, construir curadorias educativas que ampliem o repertório de seus alunos oferecendo acesso não só à arte, mas também ao patrimônio cultural. (MARTINS, 2014, p. 261-262).

Subjacente a essa reflexão, Pérez e Gordillo (2011, p. 51) afirmam: “através de esta experiencia, la educación artística nos ofrece una gran variedad de miradas, la mirada del alumno y la mirada del artista, miradas a la institución cultural y sobre todo, a su contenido”. Assim, instituições culturais como os museus de arte podem possibilitar ao indivíduo diferentes olhares sobre a produção artística e cultural, o que implica numa diversidade de interpretações da realidade que podem ser desenvolvidas a partir do contato direto com a arte, ampliando o campo de leitura do indivíduo. Com efeito, “a visita a um museu abre a possibilidade de ressignificar o olhar para as coisas que nos cercam, na mesma medida que nos desloca para outra cultura, outro tempo.” (PINTO, 2012, p. 82).

Nesse sentido, pensamos que o acesso a museus de arte deve ser ampliado por meio de ações educativas que possibilitem acesso tanto da escola quando do público em geral. Mídias de comunicação social como a internet utilizada para a mediação virtual em museus possibilita uma aproximação on-line com a arte universal e a diminuir a distância entre a cultura erudita do grande público. Contudo, nada substitui o contato real com as obras de arte, em sua forma genuína.

Considerações finais

O Museu Universitário de Arte - MUnA recebe frequentemente exposições artísticas de diferentes regiões do Brasil e de artistas internacionais. Oferece ao público uma diversidade de cursos voltados para as artes e ações educativas referentes às exposições que recebem ao longo do ano, possibilitando aos visitantes, em especial estudantes, um contato mais próximo com a arte.

As análises realizadas nesta pesquisa possibilitaram compreender que o conhecimento em arte é um aprendizado que pode começar a partir da observação de uma obra de arte, da leitura e da prática artística. Além de possibilitar aos estudantes uma melhor interação com o meio social em que vivem, o conhecimento artístico amplia a compreensão do mundo e melhora a capacidade de expressão. A disciplina de Arte na escola deve proporcionar aos estudantes essas experiências, que podem ser ampliadas a partir de visitas a museus de arte, exposições de artistas entre outras manifestações culturais.

O contato com o museu de arte possibilitou aos estudantes não apenas ampliar o seu conhecimento de mundo, mas enriquecer sua formação cultural e a se tornarem mais participativos. Contudo, é preciso que a escola e professores possibilitem condições de acesso aos alunos a esses espaços educativos, para que esses lugares não fiquem apenas restritos como meras imagens em livros didáticos. É indispensável tanto a escola quanto professores de Arte e pessoas ligadas às ações educativas em museus serem importantes mediadores para esse processo de construção de conhecimento, ao oferecer condições para que os estudantes possam aprender a compreender um objeto artístico e apreciá-lo.

Construir esse conhecimento a partir do acesso constante a esses espaços artísticos e educacionais, além do desenvolvimento de atividades artísticas nesses espaços, pode possibilitar ao estudante elevar a sua compreensão da cultura nacional. Foi verificado, ainda, que os estudantes produziram trabalhos artísticos significativos durante a ação educativa no museu, o que contribuiu para que ampliassem sua experiência com a arte.

É importante dizer, portanto, que a partir da experiência em arte/educação analisada, os comportamentos e as leituras realizadas pelos estudantes ao apreciarem uma obra de arte estão relacionados à sua experiência com diferentes manifestações artísticas. Embora alguns alunos tenham apresentado dificuldades em compreender visualmente determinadas obras, conseguiram produzir significativos trabalhos de arte durante a ação educativa e a se expressarem com clareza e amplitude em suas falas quando foram perguntados sobre o que aprenderam na aula de campo, apresentando suas interpretações e concepções estéticas da própria arte.

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2- Cf. Erickson, Frederick. Qualitative methods in research on teaching. Michigan: the Institute for Research on Teaching, 1985.

3- Para preservar o anonimato da escola pesquisada, utilizamos apenas o termo “escola” para designá-la no decorrer deste artigo.

4- Congresso da Federação de Arte/Educadores do Brasil.

5- Associação Nacional de Pesquisadores em Artes Plásticas.

6- Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação.

7- As identidades dos alunos foram preservadas, respeitando seus anonimatos e obedecendo aos procedimentos éticos estabelecidos para a pesquisa científica.

8- Cf. REY, Por uma abordagem metodológica da pesquisa em artes visuais. In: BRITES, B.; TESSLER, E. (Org.). O meio como ponto zero: metodologia da pesquisa em artes visuais. Porto Alegre: UFRGS, p. 123-140, 2002.

Recebido: 18 de Janeiro de 2017; Revisado: 07 de Março de 2017; Aceito: 21 de Março de 2017

Gustavo Cunha de Araújo é doutorando em Educação pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho – UNESP, campus de Marília. É professor da Universidade Federal do Tocantins.

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