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Educação e Pesquisa

versão impressa ISSN 1517-9702versão On-line ISSN 1678-4634

Educ. Pesqui. vol.44  São Paulo  2018  Epub 19-Jul-2018

http://dx.doi.org/10.1590/s1678-4634201844175560 

ARTIGOS

Efeitos longitudinais da socialização política nos comportamentos de participação de jovens 1

Mariana Rodrigues2 

Isabel Menezes2 

Pedro D. Ferreira2 

2 - Universidade do Porto , Porto , Portugal . Contatos: mrodrigues@fpce.up.pt ; imenezes@fpce.up.pt ; pferreira@fpce.up.pt

Resumo

Este artigo parte da premissa de que a socialização política juvenil na contemporaneidade se baseia em processos dinâmicos que emergem da ação e interação simultâneas de diferentes contextos e agentes sociais, constituindo oportunidades de aprendizagem cívica e vivência democrática que influenciam as experiências juvenis de participação cívica e política. Assim, este estudo explora os efeitos longitudinais da interação entre a família, pares, mídia e associação escoteira no ativismo político, participação cívica e participação cívica online de jovens. Recorrendo a um estudo longitudinal de painel, o mesmo coorte de 473 jovens escoteiros(as) portugueses(as), com idades entre os 14 e os 22 anos, foram observados em três momentos separados por seis meses, entre janeiro de 2014 e março de 2015. Uma série de análises de modelos de crescimento latente permitiram analisar os efeitos da combinação dos agentes de socialização política quer nos níveis iniciais quer nas trajetórias de mudança das formas de participação. Os resultados obtidos demonstram não só a interdependência entre os vários agentes de socialização com que os(as) jovens se relacionam no cotidiano, mas também as influências que estes exercem variam consoante o tipo de participação. O ativismo político é influenciado significativamente pelos pares e pela associação escoteira. O desenvolvimento da participação cívica é potenciado pela associação escoteira e pela mídia (televisão e rádio). A participação online é essencialmente fomentada pela mídia (internet, televisão e rádio) e pelas discussões interpessoais sobre assuntos políticos.

Palavras-Chave: Socialização política; Participação cívica e política; Estudo longitudinal; Jovens

Introdução

A educação, independentemente do contexto, sempre teve uma função de socialização, que se manifesta nas diversas experiências através das quais nos tornamos membros e participantes de ordens sociais, econômicas, culturais e políticas específicas ( BIESTA, 2009 ). Durante a transição da juventude para a vida adulta, particularmente a partir dos 14 anos ( AMADEO et al., 2002 ), os(as) jovens desenvolvem as suas identidades políticas e padrões de comportamento que sustentam a cultura política através de processos que são comumente designados de socialização política (e.g., EASTON; DENNIS, 1969 ; GUTMANN, 2003 ). Após algum tempo de ausência na produção científica, esses processos adquiriram um novo relevo, em parte, despoletado pelas transformações na cultura política democrática ocorridas nas últimas décadas, ao nível da participação cívica e política dos(as) cidadãos(ãs) mais jovens (AMNÅ et al., 2009). Antes de mais, convém distinguir ambos comportamentos participativos. Sumariamente, enquanto a participação política diz respeito às ações que visam influenciar direta ou indiretamente os processos e as instituições políticas a vários níveis, a participação cívica refere-se às ações que procuram contribuir para a resolução de problemas e para o bem-estar das comunidades ( VERBA et al., 1995 ).

Discursos políticos e acadêmicos sobre uma alegada crise nos comportamentos juvenis de participação têm proliferado, tendendo a relevar os baixos níveis de compromisso, interesse e envolvimento dos(as) jovens na esfera pública (e.g., AMADEO et al., 2002 ; PUTNAM, 2000 ). Paralela e paradoxalmente, têm surgido evidências empíricas que demostram a emergência de novas dinâmicas nas culturas participativas juvenis. Em detrimento das convencionais formas de participação (e.g., a participação eleitoral, partidária e corporativa), os(as) jovens contemporâneos(as) tendem a agir recorrendo a formas de participação mais individuais, diversas e expressivas e, simultaneamente menos institucionalizadas e hierarquizadas, tais como assinar petições, ocupar edifícios ou partilhar conteúdos políticos numa rede social (e.g., EKMAN; AMNÅ, 2012 ; HARRIS; WYN; YOUNES, 2010; MENEZES et al., 2012 ; NORRIS, 2002 ). Importa valorizar quer a pluralidade de juventudes, atendendo às suas diferenças culturais e sociodemográficas, quer a diversidade de possibilidades de ação que caracterizam o fenômeno da participação na contemporaneidade (e.g., SHERROD; TORNEY-PURTA; FLANAGAN, 2010; MENEZES et al., 2012 ).

Assim, ao investigar as experiências educativas através das quais os(as) jovens desenvolvem diferentes direções nas suas formas de participação na vida social, é essencial não negligenciar o papel ativo dos(as) mesmos(as) nos seus processos de socialização política. Ou seja, abandonando uma concepção dos mesmos enquanto objetos passivos de socialização externa, incapazes de agir em conformidade com as suas necessidades e interesses (AMNÅ et al., 2009). Mais do que meros processos de transmissão unilateral, os processos educativos constituem práticas intersubjetivas, nas quais os indivíduos envolvidos influenciam e são influenciados por meio da interação social. Convém, portanto, reconhecer que a socialização política não está confinada ao contexto escolar, pois os(as) jovens aprendem sobre a cultura política democrática através do envolvimento em práticas e processos quotidianos enquanto cidadãos ( BIESTA, 2008 , 2011 ).

A influência de agentes de socialização política na participação dos jovens

A produção científica no campo da socialização política no que concerne ao papel de diferentes agentes de socialização é extensa, de seguida serão apresentados sucintamente os efeitos da família, pares, associação escoteira, mídia 3 e da interdependência entre os mesmos nos comportamentos juvenis de participação.

Assim, a família tem sido descrita como tendo um importante papel nos processos de socialização política juvenil (e.g., FLANAGAN; SHERROD, 1998 ). Nomeadamente os(as) jovens que discutem frequentemente assuntos políticos no seio familiar tendem a revelar níveis mais elevados de consumo de conteúdos noticiosos, conhecimento político, competências de comunicação pública e serviço comunitário (McINTOSH; HART; YOUNISS, 2007). Os(as) jovens que experienciam o envolvimento ativo dos pais ou outros familiares em questões cívicas e políticas das suas comunidades, tendem a demonstrar mudanças positivas nos seus comportamentos de participação ( ROKER et al., 1999 ).

A influência da família tende a diminuir com o tempo, mais propriamente quando os(as) jovens começam a desenvolver a sua autonomia e a explorar outros ambientes que os rodeiam, os pares constituem também uma fonte de influência ( RUBIN et al., 2008 ). As discussões políticas entre pares permitem aos(às) jovens desenvolverem as suas opiniões e competências políticas, afetando positivamente os seus comportamentos de participação ( QUINTELIER, 2015 ; VERBA et al., 1995 ). Ter amigos e pares ativos cívica e politicamente, por exemplo, através do voluntariado, da participação em organizações políticas e da organização e envolvimento em campanhas e outros eventos políticos também revela um impacto favorável na participação juvenil ( ROKER et al., 1999 ; ZHOU, 2009 ).

As associações voluntárias desempenham um papel inegável na socialização política dos(as) jovens membros (e.g., FLANAGAN, 2004 ; PUTNAM, 2000 ), que são descritos como mais envolvidos cívica e politicamente do que os não membros (e.g., VERBA et al., 1995 ). Porém, diferentes associações voluntárias afetam diferentemente os comportamentos de participação, por exemplo, as organizações culturais, deliberativas e de ajuda são mais bem-sucedidas na estimulação da participação política dos jovens do que grupos expressivos, ético-religiosos e juvenis ( QUINTELIER, 2008 ).

Este estudo centra a sua atenção numa associação escoteira portuguesa. O escutismo é retratado como tendo um impacto positivo a vários níveis, entre os quais, no sentido de serviço à comunidade ( PROCTOR, 2009 ). Apesar de não ser reconhecido por socializar e envolver os(as) jovens na política, como outros contextos associativos, o contexto escoteiro fomenta o desenvolvimento de relevantes competências políticas ( QUINTELIER, 2008 ). A duração e a intensidade do envolvimento nos contextos associativos têm impacto no desenvolvimento psicopolítico dos(as) jovens, potenciando os seus níveis de participação ( DENAULT; POULIN, 2009 ; GARDNER; ROTH; BROOKS-GUNN, 2008). O impacto da participação dos(as) jovens em contextos associativos depende também da qualidade desenvolvimental das suas próprias experiências. Isto exige que o contexto possibilite experiências reais de ação e reflexão aos jovens em questões significativas das suas comunidades, num ambiente de interação com a diversidade (FERREIRA; AZEVEDO; MENEZES, 2012 ). Assim, a elevada qualidade das experiências de participação constitui um preditor significativo das mudanças nos comportamentos de participação ( AZEVEDO, 2009 ).

Recentemente, a literatura tem realçado o impacto da mídia e da tecnologia no envolvimento dos(as) jovens na política, demonstrando que os seus comportamentos de participação podem ser influenciados pelas leituras, análises e discussões dos conteúdos noticiosos políticos que consomem no quotidiano (e.g., McLEOD, 2000 ; BRITES, 2015 ). Os meios de comunicação tradicionais, como os jornais, revistas e televisões enfrentam alguns desafios na promoção da participação dos jovens ( McLEOD et al., 2010 ). De acordo com McLeod e colegas (2010), o consumo dos jornais e revistas, nas suas versões impressas, padece com o declínio na leitura junto das populações mais jovens. O consumo televisivo e radiofônico é mais comum do que o consumo de materiais jornalísticos impressos entre as comunidades juvenis, contudo as limitações da televisão e da rádio residem nos próprios conteúdos. Apesar dos esforços para a capacitação dos(as) jovens para a utilização profícua dos seus conteúdos, os meios tradicionais tendem a não ser tão eficientes quanto a internet e outras tecnologias de comunicação em rede, no que concerne à informação e mobilização dos(as) jovens para a participação na esfera pública.

Os estudos que combinam simultaneamente os efeitos de diferentes agentes de socialização política nos comportamentos de participação mostram que a influência de cada contexto pode mudar ao longo do tempo, dependendo da interação com outros contextos em que os(as) jovens se inserem (WILKENFELD; LAUCKHARDT; TORNEY-PURTA, 2010; AMNÅ et al., 2009). Por exemplo, as conversas interpessoais e discussões sobre assuntos políticos em diferentes contextos (família, pares, internet e organizações) podem exercer influências mútuas nos processos de socialização política ( McLEOD, 2000 ).

Perante esse enquadramento, este artigo pretende colmatar três grandes lacunas na investigação: conceitualizar e medir o constructo da participação atendendo à diversidade de formas e contextos ( MENEZES et al., 2012 ); analisar os processos de socialização política numa perspectiva longitudinal; e integrar simultaneamente diferentes agentes nos modelos explicativos dos processos de socialização política (AMNÅ et al., 2009). Assim, este artigo explora os efeitos da interação de diversos agentes de socialização (família, pares, mídia e associação escoteira) no desenvolvimento ao longo do tempo do ativismo político (e.g., participar num protesto), da participação cívica (e.g., realizar voluntariado) e da participação cívica online (e.g., discutir assuntos políticos no Facebook) de jovens.

Desenho metodológico da pesquisa

Procedimento e amostra

Esta pesquisa adotou um desenho longitudinal de painel, onde o mesmo coorte de participantes foi observado em três momentos separados por seis meses, entre janeiro de 2014 e março de 2015. Foram incluídos na amostra somente os(as) jovens que responderam aos inquéritos por questionário nas três ondas, esta foi composta por 473 jovens escoteiros(as) (62,6% do sexo feminino, M idade = 17,27, DP = 2,18), com idades compreendidas entre 14 e 22 anos, membros de 122 grupos escoteiros do Corpo Nacional de Escutas (Associação Portuguesa de Escoteiros Católicos), a associação voluntária portuguesa mais representativa a operar no campo da educação não formal 4 . Sabendo que a associação escoteira apresenta uma distribuição desigual dos grupos e dos escoteiros(as) ao longo das regiões nacionais, utilizou-se uma amostra probabilística estratificada. Cada região foi considerada como um estrato e, dentro de cada, foi selecionada uma amostra aleatória de grupos escoteiros atendendo ao seu peso relativo a partir do cadastro do Censo do CNE de 2012. Foram excluídos os grupos escoteiros que não possuíam escoteiros(as) dentro da faixa etária do estudo. Após a coleta do consentimento informado e escrito de cada participante (ou respectivos pais ou representantes legais em caso de ser menor de idade), cada um preencheu o inquérito por questionário individualmente em formato papel ou online . Tratando-se de uma administração coletiva, foram escritas instruções estandardizadas de esclarecimento para o preenchimento do questionário, realçando quer o anonimato e a confidencialidade das respostas quer o caráter voluntário da participação no estudo. Cada questionário demorou aproximadamente vinte minutos para ser respondido.

Medidas

Variáveis de controle . O questionário contemplou a coleta de dados sociodemográficos dos(as) participantes, nomeadamente o sexo (0 = feminino; 62,6%), o grupo etário (0 = 14-17 anos; 58,99%) e o estatuto sociocultural na onda 1 (uma variável compósita que resulta da agregação da média de quatro variáveis: ano de escolaridade atual do(a) participante, nível de escolaridade da mãe e do pai do(a) participante e número de livros em casa).

Participação cívica e política. Os comportamentos juvenis de participação foram avaliados através de uma adaptação da escala de ação cívica e política de Lyons (2008) . A análise da dimensionalidade da escala de dez itens foi realizada através de uma análise fatorial exploratória, usando o programa IBM SPSS Estatística 22.0. Atendendo aos resultados, três itens – participar em ações políticas que possam ser ilegais, como pintar paredes, atirar pedras, queimar uma bandeira; votar nas eleições; comprar (ou não comprar) produtos por razões políticas, éticas ou ambientais – foram excluídos por não apresentarem correlações superiores a 0,30 com os itens restantes. A escala de sete itens resultante mostra uma estrutura organizada em três componentes, recorrendo à tipologia desenvolvida por Ekman e Amnå (2012): ativismo político (AP; assinar uma petição; participar numa manifestação ou protesto relacionados com questões sociais ou políticas); participação cívica (PC; fazer voluntariado; usar símbolos ou emblemas para mostrar apoio a uma causa social ou política, como crachás, t-shirts com mensagem; dar ou pedir dinheiro para uma causa ou organização social ou política; e participação cívica online (doravante designada de participação online (PO); escrever ou enviar conteúdos sobre questões sociais ou políticas, como e-mails, blogues, Facebook, YouTube; discutir questões sociais ou políticas com outras pessoas na internet). Os(as) participantes reportaram a frequência com que realizaram cada uma das dessas ações nos seis meses anteriores, usando uma escala de Likert de cinco pontos, sendo 1 = nunca e 5 = muito frequentemente. Atendendo ao coeficiente do alfa de Cronbach, essas variáveis revelaram valores aceitáveis de consistência interna nos três momentos: na onda 1, AP α = 0,53, PC α = 0,62, PO α = 0,63; na onda 2, AP α = 0,72, PC α = 0,68, PO α = 0,79; e na onda 3, AP α = 0,68, PC α = 0,69, PO α = 0,83.

Foram selecionados da literatura três indicadores para medir o efeito de cada agente de socialização política em análise neste estudo longitudinal.

Associação escoteira: i) duração de envolvimento na associação (pergunta aberta; variando de 0 a 17 anos); ii) intensidade de envolvimento na associação (item único; variando de 1 = pouco envolvido(a) ativamente a 5 = muito envolvido(a) ativamente); e iii) qualidade da experiência de participação (variando entre 1 = muito baixa qualidade a 5 = muita elevada qualidade). A escala da Qualidade das Experiências de Participação ( FERREIRA; MENEZES, 2001 ) foi transformada numa variável compósita que resulta do cálculo da média dos oito itens que representam as dimensões de ação e reflexão que caracterizam as experiências de participação. Os(as) participantes foram inquiridos(as) em relação à frequência com que realizaram um conjunto de atividades de ação (procurar informação em livros, nos meios de comunicação social ou junto de pessoas com mais experiência; participar em atividades, como recolha de donativos ou alimentos, campanhas ambientais, abaixo-assinados, debates; organizar atividades, como recolha de donativos ou alimentos, campanhas ambientais, abaixo-assinados, debates; tomar decisões sozinho(a) ou em grupo) e de reflexão (havia diferentes pontos de vista em discussão; os conflitos de opinião davam origem a novas formas de ver as questões; eram abordados problemas reais e/ou do teu cotidiano; a participação era muito importante para mim). Focados nas suas experiências no âmbito das atividades escoteiras, os(as) respondentes indicaram com que frequência realizaram cada uma destas atividades nos últimos seis meses, utilizando uma escala de cinco pontos, sendo 1 = nunca e 5 = muito frequentemente. Essa variável revelou uma boa consistência interna nas três coletas: onda 1 QEP α = 0,86; onda 2 QEP α = 0,75; e onda 3 QEP α = 0,83.

Cada um dos indicadores, apresentados em seguida, é constituído por um item único que foi avaliado pelos(as) participantes usando uma escala de cinco pontos, sendo 1 = discordo totalmente e 5 = concordo totalmente.

Família: i) discussão de problemas sociais e assuntos políticos com os pais ou familiares próximos; ii) prática de voluntariado dos pais ou familiares próximos; e iii) envolvimento social, cívico e político dos pais ou familiares próximos (por exemplo, são membros da Prefeitura ou da Câmara Municipal, de associações locais, de partidos políticos etc.) ( PORTER, 2013 ).

Pares: i) discussão de problemas sociais e assuntos políticos com os amigos; ii) prática de voluntariado dos amigos; e iii) participação dos amigos em atividades sociais, cívicas ou políticas (por exemplo, são membros de uma associação de defesa dos direitos humanos ou dos animais ou juventudes partidárias etc.) ( PORTER, 2013 ).

Mídia: i) acompanhamento de notícias políticas em jornais e revistas; ii) visionamento de programas televisivos e/ou radiofônicos que abordam questões políticas; e iii) acompanhamento de informação política que circula na internet ( MENEZES et al. 2012 ).

Em termos de interpretação dos resultados, pontuações mais elevadas nos itens representam níveis mais elevados nos respectivos constructos em análise.

Procedimento e análise estatística dos dados

Com a finalidade de explorar o efeito dos quatro agentes de socialização política nas três formas de participação, quer no momento inicial (onda 1) quer ao longo do tempo, foram conduzidas uma série de análises de modelos de crescimento latente recorrendo ao programa IBM SPSS Amos 23.0. Esse tipo de modelo é uma aplicação dos modelos de equação estrutural, que permitem considerar tanto as mudanças intraindividuais no comportamento ao longo do tempo, como as diferenças interindividuais nestas mudanças. Essa técnica estatística possibilita também analisar a influência de preditores externos que possam explicar essa variabilidade quer ao nível dos valores de partida (intercepto) quer ao nível das trajetórias de mudança (declive) ( MARÔCO, 2010 ). No sentido de lidar com os casos omissos dos dados recolhidos, foi adotado o método da máxima verossimilhança, por ser considerado uma abordagem pertinente na modelagem do crescimento latente ( MARÔCO, 2010 ).

A análise dos dados foi desenvolvida em duas fases. Com o intuito de examinar a variação quer em termos agrupados (efeitos fixos) quer em termos individuais (efeitos aleatórios) no ativismo político, na participação cívica e na participação online nos três momentos de observação, numa primeira fase foram utilizados três modelos de crescimento latente não condicionados, como representado na Figura 1 .

Fonte: Elaboração dos autores.

Figura 1 – Esquema do modelo de crescimento latente não condicionado do ativismo político 

Em termos de identificação do modelo ( MARÔCO, 2010 ), foi assumido que, no momento inicial (onda 1), o declive é nulo e que existe uma tendência de crescimento linear nos momentos seguintes, os pesos das trajetórias entre o declive e as variáveis manifestas foram fixados em 0, 0,50 e 1, respectivamente. A variável latente intercepto foi incluída nos modelos para examinar o valor médio das três formas de participação nos três momentos de observação. Como tal, todas as trajetórias que saem do intercepto em direção às variáveis manifestas apresentam o mesmo peso ao serem fixadas em 1. A média do intercepto e do declive permitiram determinar a média inicial das três formas de participação e a respectiva taxa média de variação das mesmas ao longo do tempo. A variância do intercepto e do declive foram examinados para avaliar a existência de diferenças individuais quer nos valores basais quer na taxa de mudança dos comportamentos de participação. Numa segunda fase, foram estimados três modelos condicionados, nos quais foram incluídas as variáveis de controle e os indicadores de cada agente de socialização observados nas três ondas, enquanto variáveis preditoras do intercepto e do declive. Os efeitos dos agentes de socialização política observados na segunda e terceira ondas não foram regredidos nos valores iniciais (onda 1) das formas de participação, pois não poderiam ter exercido qualquer tipo de influência.

No sentido de avaliar a qualidade do ajustamento do modelo foram utilizados o Teste de Qui-quadrado (Chi 2 /df), o Índice de Ajustamento Comparativo (CFI), o Índice de Tucker Lewis (TLI) e a Raiz do Erro Médio Quadrático de Aproximação (RMSEA) ( MARÔCO, 2010 ).

Resultados

Foram concretizadas análises preliminares que mostraram que as variáveis manifestas detinham, nos três momentos de observação, valores absolutos de assimetria e de curtose inferiores, respectivamente a 1,89 e 3,76, demonstrando o pressuposto da normalidade multivariada ( FINNEY; DISTEFANO, 2006 ).

A Tabela 1 mostra as médias (M), desvios padrão (DP) e correlações entre ativismo, participação cívica e participação online nas três ondas (O 1 , O 2 e O 3 ).

Tabela 1 – Médias, desvios padrão e correlações entre ativismo político, participação cívica e participação online nas três ondas* (N = 473) 

Variáveis 1. 2. 3. 4. 5. 6. 7. 8. 9.
1 . O 1 Ativismo político
2. O 2 Ativismo político 0,36
3. O 3 Ativismo político 0,39 0,48
4. O 1 Participação cívica 0,33 0,12 0,19
5. O 2 Participação cívica 0,24 0,40 0,29 0,44
6. O 3 Participação cívica 0,24 0,29 0,40 0,41 0,53
7. O 1 Participação online 0,32 0,20 0,25 0,32 0,21 0,16
8. O 2 Participação online 0,22 0,50 0,31 0,16 0,41 0,26 0,41
9. O 3 Participação online 0,21 0,28 0,45 0,21 0,25 0,36 0,44 0,55
M 1,54 1,51 1,52 2,73 2,63 2,60 1,77 1,73 1,71
DP 0,69 0,78 0,75 0,87 0,97 0,98 0,91 1,01 0,96

Fonte: Dados da pesquisa.

* Todos os coeficientes de correlação são significativos ao nível de ρ ≤ 0,01.

Modelos de crescimento latente não condicionado

O modelo de crescimento latente não condicionado apresentado na Figura 1 foi estimado para as três formas de participação, revelando boa qualidade de ajustamento ( Tabela 2 ). Ao analisarmos os resultados ( Tabela 3 ), as estimativas não estandardizadas dos três modelos indicaram que quer o valor médio (efeito fixo) quer a variância (efeito aleatório) do intercepto são estatisticamente significativos. No momento inicial, os participantes apresentavam uma média de ativismo político de 1,54 (erro padrão [EP] = 0,03), de participação cívica de 2,73 (EP = 0,04), e de participação online de 1,76 (EP = 0,04). Podemos ainda afirmar que existe heterogeneidade interindividual nos valores de partida das três formas de participação.

Tabela 2 – Índices de qualidade de ajustamento dos modelos univariados e multivariados 

Modelos Chi 2 /df CFI TLI RMSEA
Ativismo político
Modelo não condicionado 0,66 n.s. 1,00 1,00 0,00 n.s.
Modelo condicionado 1,59 * 0,99 0,96 0,04 n.s.
Participação cívica
Modelo não condicionado 1,33 n.s. 1,00 0,97 0,03 n.s.
Modelo condicionado 1,85 ** 0,99 0,93 0,04 n.s.
Participação online
Modelo não condicionado 0,33 n.s. 1,00 1,01 0,00 n.s.
Modelo condicionado 1,25 n.s. 1,00 0,98 0,02 n.s.

Fonte: Dados da pesquisa.

* ρ ≤ 0,05; ** ρ ≤ 0,01; *** ρ ≤ 0,001; n.s. = não significativo ( ρ > 0,05).

Tabela 3 – Estimativas não estandardizadas dos parâmetros do intercepto e declive fixo e aleatório dos modelos não condicionados das três formas de participação cívica e política 

Efeito Ativismo Político Participação Cívica Participação Online



Est EP Est EP Est EP
Fixo
Intercepto 1,54 0,03 *** 2,73 0,04 *** 1,76 0,04 ***
Declive -0,03 0,04 n.s. -0,13 0,05 ** -0,05 0,05 n.s.
Aleatório
Intercepto 0,19 0,04 *** 0,41 0,07 *** 0,37 0,07 ***
Declive 0,13 0,09 n.s. 0,40 0,14 ** 0,29 0,14 *

Fonte: Dados da pesquisa.

* ρ ≤ 0,05; ** ρ ≤ 0,01; *** ρ ≤ 0,001; n.s. = não significativo (ρ > 0,05).

Os resultados mostraram também que as médias dos declives do ativismo político e da participação online não são estatisticamente significativas, revelando que não houve mudanças significativas nesses comportamentos ao longo do tempo. Somente a participação cívica apresenta uma média do declive estatisticamente significativa, indicando que ocorreu um pequeno decréscimo na média dessa forma de participação ao longo do estudo. Simultaneamente, importa realçar que os resultados forneceram evidências da existência de variabilidade intraindividual que não se manifestou na média do declive da participação cívica e da participação online dos participantes. Portanto, os(as) participantes não são homogêneos no que concerne aos seus comportamentos de participação, manifestando diferentes padrões de mudança na participação cívica e na participação online . Quanto ao ativismo político, a variância do declive não se revelou estatisticamente significativa, demonstrando que os(as) participantes não diferem nas suas trajetórias de mudança individuais. Perante este cenário, mostrou-se pertinente introduzir nos modelos outras variáveis preditoras, nomeadamente os indicadores dos agentes de socialização política em estudo, capazes de explicar a heterogeneidade dos(as) participantes quer nos seus valores de partida quer nas diferentes mudanças ocorridas. Todas as variáveis manifestas apresentaram correlações positivas entre o intercepto e o declive, embora estatisticamente não significativas (Est AP = 0,10, z = 0,32, ρ = 0,75; Est PC = -0,18, z = -0,96, ρ = 0,34; Est PO = 0,00, z = 0,004, ρ = 0,10), revelando que os jovens com níveis iniciais mais altos de participação cívica e política tendem a exibir menores mudanças ao longo do tempo em comparação com os(as) jovens que exibiram valores de partida mais baixos.

Modelos de crescimento latente condicionado

Depois de testados os modelos de crescimento latente não condicionados, as variáveis de controle e os indicadores dos agentes de socialização política nos três momentos de observação foram introduzidos nos modelos enquanto preditores dos valores de partida e das trajetórias de mudança dos comportamentos de participação, de acordo com a descrição realizada na secção anterior. No sentido de tornar os modelos mais parcimoniosos, somente os indicadores que revelaram um efeito estatisticamente significativo nos declives das formas de participação, foram mantidos nos modelos ( Tabela 4 ). Os resultados revelaram uma boa qualidade de ajustamento dos modelos propostos ( Tabela 2 , modelos condicionados).

Tabela 4 – Modelos de crescimento latente das formas de participação condicionados pelo efeito dos agentes de socialização política nas três ondas 

Variáveis Ativismo Político Participação Cívica Participação Online



Int Dec Int Dec Int Dec
Variáveis de Controle
Sexo -0,06 n.s. -0,15 *** 0,01 n.s. 0,09 n.s. -0,04 n.s.
Grupo etário 0,20 *** 0,09 n.s. -0,05 n.s. 0,23 *** -0,19 *
Estatuto sociocultural 0,004 n.s -0,03 n.s. -0,04 n.s. -0,05 n.s. 0,07 n.s.
ONDA 1 Associação Escoteira
Tempo de filiação 0,06 n.s -0,02 n.s. n.i. 0,04 n.s. n.i.
Nível de envolvimento 0,02 n.s 0,15 *** n.i. 0,004 n.s. n.i.
Qualidade da experiência de participação 0,19 ** 0,48 *** -0,48 *** 0,24 *** -0,14 *
Família
Voluntariado dos pais/familiares 0,07 * 0,09 * n.i. -0,08 n.s. n.i.
Discussões políticas com pais/familiares 0,03 n.s 0,03 n.s. n.i. 0,09 n.s. n.i.
Papel cívico ou político ativo dos pais/familiares -0,02 n.s 0,05 n.s. n.i. 0,14 * n.i.
Mídia
Leitura de conteúdos políticos em jornais/revistas 0,01 n.s 0,01 n.s. n.i. -0,08 n.s. n.i.
Visionamento de programas políticos na televisão/rádio -0,02 n.s 0,02 n.s. n.i. -0,08 n.s. n.i.
Leitura de informação política na internet 0,09 n.s 0,07 n.s. n.i. 0,32 *** -0,30 ***
Pares
Voluntariado dos pares 0,05 n.s 0,19 *** n.i. 0,08 n.s. n.i.
Discussões políticas com pares 0,09 n.s -0,08 n.s. n.i. 0,07 n.s. n.i.
Papel cívico ou político ativo dos pares 0,20 *** 0,05 n.s. n.i. 0,16 ** n.i.
ONDA 2 Associação Escoteira
Tempo de filiação n.i. n.i.
Nível de envolvimento n.i. n.i.
Qualidade da experiência de participação 0,16 * n.i.
Família
Discussões políticas com pais/familiares n.i. n.i.
Mídia
Leitura de conteúdos políticos em jornais/revistas n.i. n.i.
Visionamento de programas políticos na televisão/rádio 0,27 *** 0,15 *
Leitura de informação política na internet n.i. n.i.
Pares
Discussões políticas com pares -0,17 ** n.i.
ONDA 3 Associação Escoteira
Tempo de filiação n.i. n.i.
Nível de envolvimento n.i. n.i.
Qualidade da experiência de participação 0,30 *** n.i.
Família
Discussões políticas com pais/familiares n.i. 0,21 **
Mídia
Leitura de conteúdos políticos em jornais/revistas n.i. n.i.
Visionamento de programas políticos na televisão/rádio n.i. n.i.
Leitura de informação política na internet n.i. 0,20 **
Pares
Discussões políticas com pares n.i. n.i.
Correlação entre intercepto e declive 0,10 n.s. -0,33 n.s. -0.01 n.s.
Média 0,27 n.s -0,03 n.s. -0,51 * -0,20 n.s. -0,23 n.s. -0,12 n.s.
Variância 0,13 *** 0,17 * 0,25 *** 0,34 ** 0,23 *** 0,30 *
Variância explicada 0,29 0,00 0,48 0,30 0,38 0,21

Fonte: Dados da pesquisa.

Nota: os valores correspondem às estimativas estandardizadas e respectivas significâncias;

Estes parâmetros não foram estimados, pois o ativismo não apresentou variabilidade significativa em torno do declive;

n.i. = trajetórias não incluídas no modelo por não se terem revelado significativas;

“—” = estes parâmetros não foram estimados;

* ρ ≤ 0,05; ** ρ ≤ 0,01; *** ρ ≤ 0,001; n.s. = não significativo ( ρ > 0,05).

Como mostra a Tabela 4 , o sexo revelou ser preditor estatisticamente significativo dos valores iniciais de participação cívica, indicando que os valores de partida das participantes femininas são significativamente inferiores aos dos participantes masculinos. Também o grupo etário emergiu como preditor significativo dos interceptos do ativismo e da participação online , nomeadamente os(as) jovens mais velhos(as) (18-22 anos) reportaram níveis de partida mais elevados do que os(as) jovens mais novos(as) (14-17 anos). Em relação aos declives, somente ocorreram diferenças significativas no caso da participação online relativamente ao grupo etário, em comparação com os mais velhos, os(as) participantes mais novos(as) exibiram um decréscimo pouco significativo nessa forma de participação ao longo do tempo. O estatuto sociocultural dos(as) participantes não revelou um efeito direto nem nos valores de partida nem nas mudanças ocorridas nos comportamentos de participação. Isto contraria resultados de outros estudos que verificaram que os valores das várias formas de participação aumentam significativamente com a elevação do estatuto sociocultural dos(as) participantes ( MENEZES et al. 2012 ).

Em vez de direta, a relação entre o estatuto sociocultural e a participação dos(as) jovens talvez possa ser melhor compreendida como sendo mediada por variáveis pessoais (e.g., autoestima, lócus de controle e eficácia política) (COHEN; VIGODA; SAMORLY, 2001).

Ao analisar os efeitos dos agentes de socialização observados na primeira onda nos interceptos, os resultados revelaram que os pares e a associação escoteira são os agentes de socialização que predizem maiores níveis de partida de ativismo, concretamente a existência de pares ativos cívica e politicamente (β = 0,20, ρ ≤ 0,001) e de experiências de participação de elevada qualidade na associação escoteira (β = 0,19, ρ ≤ 0,01). Quanto à participação cívica, novamente a associação escoteira e os pares surgiram como principais preditores de maiores valores de partida. Embora se constate um efeito positivo do fato de os pares realizarem voluntariado (β = 0,19, ρ ≤ 0,001), este é consideravelmente mais modesto do que o efeito da qualidade das experiências de participação na associação escoteira (β = 0,48, ρ ≤ 0,001). Por último, todos os agentes de socialização exerceram influência nos valores de partida de participação online . Como seria de esperar, a leitura da informação política que circula na internet é o preditor mais significativo (β = 0,32, ρ ≤ 0,001), contudo o ativo envolvimento cívico e político da família (β = 0,14, ρ ≤ 0,05) e dos pares (β = 0,16, ρ ≤ 0,01) nas suas comunidades exibiu também um efeito positivo nessa forma de participação. Globalmente, esses indicadores explicaram entre 29% a 48% da variância total nos níveis iniciais das formas de participação, podendo ser considerados valores razoavelmente satisfatórios.

Analisando os efeitos dos agentes de socialização no desenvolvimento dos comportamentos de participação, no caso da participação cívica, a qualidade das experiências de participação na associação escoteira emergiu como o preditor com maior impacto ao longo do tempo (β = 0,30, ρ ≤ 0,001). Embora se tenha verificado um efeito negativo da qualidade das experiências de participação na associação escoteira no declive na primeira onda, indicando que os(as) participantes que reportaram valores mais altos nesta variável são menos propensos a aumentar os seus níveis de participação cívica, no segundo e terceiro momentos de observação esse indicador demonstrou um efeito positivo no declive. Ou seja, com o aumento da qualidade das experiências de participação na associação escoteira, os participantes tendem também a exibir maiores níveis de participação cívica ( Tabela 4 ). A mídia e os pares também demonstraram ter impacto na participação cívica ao longo do tempo (β = 0,27, ρ ≤ 0,001; β = -0,17, ρ ≤ 0,01, respectivamente). Embora o acompanhamento de programas televisivos e/ou radiofônicos e as discussões de natureza política com os pares não afetarem os comportamentos de participação cívica dos(as) participantes na primeira onda, esses indicadores demonstraram um efeito significativo na segunda onda. Por um lado, os(as) jovens que acompanharam programas políticos através da televisão e/ou rádio tenderam a reforçar esse comportamento, por outro lado, discutirem mais com os seus pares sobre assuntos políticos conduziu a decréscimos na forma como se envolviam civicamente.

Atendendo à participação online , podemos constatar que a mídia e a família são os agentes de socialização que predisseram maiores diferenças nas mudanças nesse comportamento ao longo do tempo (β = 0,15, ρ ≤ 0,05; β = 0,20, ρ ≤ 0,01; β = 0,21, ρ ≤ 0,01, respectivamente). No caso da mídia, ainda que inicialmente estes indicadores tenham apresentado um efeito negativo ou não tenham tido qualquer efeito na participação online dos participantes, o crescente consumo de conteúdos políticos através da internet, televisão e rádio ao longo do tempo conduziu a aumentos nessa forma de participação. Atendendo à influência da família, no momento inicial ter um familiar cívica ou politicamente ativo na comunidade revelou um efeito positivo na participação online , no entanto, o aumento da frequência de discussões políticas no seio familiar potenciou um aumento neste comportamento no decorrer do tempo. Por último, apesar de experiências de participação com elevada qualidade na associação escoteira estarem associadas a maiores níveis de participação online , estas tiveram um efeito negativo no declive no momento inicial.

Ao colocarmos incorporarmos os efeitos dos agentes de socialização política nas três ondas, enquanto preditores dos declives, estes parâmetros explicam 30% e 21%, respectivamente, da variabilidade nas trajetórias de mudança da participação cívica e da participação online.

Considerações finais

Hoje em dia os(as) jovens podem envolver-se e participar numa vasta panóplia de contextos reais e digitais, nos quais desenvolvem diferentes relações e experienciam diversas situações, que lhes permitem “aprender o valor das formas democráticas e não democráticas de ação e interação e é também através destas experiências que eles aprendem sobre as suas próprias posições enquanto cidadãos” ( BIESTA, 2008 , p. 174). Portanto, este artigo partiu da assunção de que a socialização política dos jovens contemporâneos se baseia em processos dinâmicos que emergem da ação e interação simultânea de diferentes agentes e contextos socializadores, constituindo oportunidades de aprendizagem cívica e vivência democrática que influenciam as experiências juvenis de participação cívica e política.

A combinação dos efeitos de diferentes agentes de socialização política quer nos níveis iniciais quer no desenvolvimento das formas de participação revelou resultados interessantes, reforçando não só a interdependência dos vários contextos e agentes de socialização, como também a parcial independência das diversas formas de participação por evidenciarem diferentes fontes de influência. No caso da família, por exemplo, o fato de pais ou outros familiares realizarem voluntariado tem um efeito positivo, embora modesto, sobre a forma como o(a) jovem não só pratica voluntariado, mas também como este(a) participa em manifestações e petições. Ou então, a existência de um familiar que desempenha um papel ativo num determinado partido político afeta o modo como o(a) jovem publica e discute conteúdos políticos na internet. Contudo, a promoção de discussões sobre problemas sociais e assuntos políticos no seio familiar tem um impacto favorável, a longo prazo, no aumento da participação online dos(as) jovens. Reconhecendo que a influência parental tende a diminuir durante a transição da juventude para a vida adulta, não só por os(as) jovens passarem menos tempo com os pais mas também por ambicionarem maior autonomia, os amigos e pares ganham um maior protagonismo no processo de socialização política (e.g., ŠEREK; UMEMURA, 2015 ; SMETANA, 2011 ). Assim, ter amigos ou amigas que são membros de um partido político ou de uma associação de defesa dos direitos dos animais influencia significativamente a forma como os(a)s jovens participam num protesto ou como partilham e discutem assuntos políticos no Facebook. Porém, enquanto o fato de os pares realizarem voluntariado afeta positivamente a participação cívica, as discussões políticas com os mesmos tendem a influenciar negativamente este comportamento ao longo do tempo. Isto parece contrariar resultados de estudos anteriores que realçam a importância dos pares na socialização política dos(as) jovens, nomeadamente mostrando que as discussões políticas entre pares constituem um importante e influente preditor do incremento da participação política juvenil ( QUINTELIER, 2015 ; ŠEREK; UMEMURA, 2015 ). Este resultado pode ser interpretado como um efeito cínico da participação despoletado pelas discussões políticas entre pares, afetando negativamente os comportamentos juvenis de participação cívica. Isto quer dizer que, durante as conversas com os seus amigos, os(as) jovens podem não só partilhar as suas experiências de participação, como também podem problematizar criticamente essas ações, resultando num afastamento ou descrença no que concerne ao seu impacto numa mudança social transformadora e emancipatória. Por outras palavras, embora os jovens se preocupem com o bem público, envolvendo-se com as necessidades e problemas das suas comunidades através dos seus serviços e trabalhos voluntários, durante os momentos em que socializam com os pares, podem concluir que estas formas de participação (i.e., voluntariado, angariação de donativos ou uso símbolos para demostrar o apoio a determinadas causas sociais e políticas) não surtem o efeito desejado na realidade social e, assim, deixam de investir nessas ações por terem um caráter paliativo dos sintomas dos problemas sociais, mais do que resolver a desigualdade estrutural e a injustiça social que estão na sua origem ( BIESTA, 2008 ; PRIESTLEY, 2013 ). De qualquer forma, essa relação poderá ser explorada em pesquisas futuras. Quanto ao impacto da mídia, apesar do efeito negativo inicial, os jovens que dedicam cada vez mais do seu tempo a consumir conteúdos políticos na internet, televisão e rádio tendem a aumentar os seus níveis de participação cívica e online . Contrariando resultados de estudos anteriores (e.g., SHAKER, 2014 ), a leitura de jornais e/ou revistas não teve um efeito significativo nos comportamentos juvenis de participação. Talvez o efeito da leitura de jornais e/ou revistas nos modelos propostos tenha sido mediado pelo efeito da navegação na internet. A internet permite o rápido acesso e partilha de um conjunto infindável de informação, nomeadamente conteúdos políticos de jornais e revistas online ( SERRA, 2006 ). Logo, os(as) jovens contemporâneos(as), imersos(as) nessa realidade tecnológica e comunicacional, revelam uma preferência pela leitura através do écran do computador, em detrimento da leitura em formato impresso ( COUGHLAN, 2013 ). Em relação à associação escoteira, as experiências de participação de elevada qualidade nesse contexto associativo mostraram ser influentes na explicação dos maiores níveis iniciais de ativismo, mas, acima de tudo, revelaram ser o preditor mais significativo nas trajetórias de mudança da participação cívica ao longo do tempo. Portanto, em consonância com estudos longitudinais anteriores (e.g., AZEVEDO, 2009 ), o fato de esse contexto associativo possibilitar experiências de participação em que os jovens usufruam efetivamente de oportunidades quer de envolvimento em questões significativas das suas comunidades, expressando simultaneamente as suas opiniões em interação com uma pluralidade de outros (pares e adultos) e de perspectivas, quer de análise e reflexão crítica sobre essas experiências, afetou significativamente os níveis de participação dos(as) jovens, nomeadamente através do voluntariado e outras ações de cariz cívico. Em suma, a procura de informação juntos de diferentes fontes, a percepção positiva da participação cívica e política dos pares e da família, a participação em discussões políticas e a qualidade das experiências de participação em contextos associativos constituem poderosos preditores das diferentes trajetórias de mudança dos comportamentos juvenis de participação na esfera pública.

Como qualquer estudo empírico, o presente estudo deve ser analisado à luz de algumas limitações. Embora tenham sido utilizados dados longitudinais, a causalidade da relação entre os agentes de socialização política e os comportamentos juvenis de participação cívica e política não foi determinada, atendendo ao objetivo deste artigo. Assim, futuras pesquisas devem escrutinar a direcionalidade dessas relações. Futuros estudos que analisem a relação entre os processos de socialização política e as trajetórias de participação dos(as) jovens devem integrar nos modelos quer os efeitos de outros agentes de socialização, como o bairro, a escola ou diferentes tipos de associações, quer outras formas de participação que são utilizadas pelos(as) jovens contemporâneos(as).

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3- Embora, a escola seja amplamente descrita na literatura como sendo um importante contexto de socialização política (e.g., VERBA et al., 1995 ), a sua influência não será analisada neste estudo. Partindo do pressuposto de que a socialização política dos jovens transcende o contexto escolar ( Biesta, 2008 ), tendo este sido já muito explorado pela literatura, entendemos ser relevante aprofundar o conhecimento sobre o impacto de agentes externos à escola.

4- Atendendo quer à sua longa história de implementação social, existindo desde 1923, quer ao número de crianças, jovens e adultos distribuídos por 1.022 grupos escoteiros ao longo de todo o país que, segundo os censos da associação, superava os 71.000 em 2012.

1- O trabalho apresentado neste artigo foi possível com o apoio da Fundação para a Ciência e Tecnologia (Portugal) no âmbito do projeto de doutoramento (SFRH/BD/87458/2012) da primeira autora.

Recebido: 09 de Fevereiro de 2017; Revisado: 08 de Agosto de 2017; Aceito: 12 de Setembro de 2017

Mariana Rodrigues é doutoranda em ciências da educação e bolsista de investigação na Universidade do Porto. Tem trabalhado no campo da educação para a cidadania e da participação cívica e política de jovens em contextos associativos.

Isabel Menezes é doutora em psicologia e professora catedrática na Universidade do Porto. Tem desenvolvido e coordenado trabalhos nas áreas de investigação educacional, intervenção comunitária e educativa e educação para a cidadania.

Pedro D. Ferreira é doutor em psicologia e professor auxiliar na Universidade do Porto. Tem trabalhado no campo da educação para a cidadania e investigado formas de cidadania participativa e emancipatória, nomeadamente em contextos digitais.

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