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Educação e Pesquisa

versão impressa ISSN 1517-9702versão On-line ISSN 1678-4634

Educ. Pesqui. vol.44  São Paulo  2018  Epub 17-Set-2018

http://dx.doi.org/10.1590/s1678-4634201844182699 

ARTIGOS

Intercâmbio acadêmico: as dificuldades de adaptação e de readaptação1

Franco Gatelli Périco2 

Roberto Birch Gonçalves2 

2- Universidade de Caxias do Sul, Caxias do Sul, RS, Brasil. Contatos: francoperico23@hotmail.com, rbgoncal@ucs.br

Resumo

A internacionalização do ensino por meio da mobilidade acadêmica internacional é uma realidade que, a cada dia, traz mais oportunidades para que os estudantes brasileiros ampliem seu conhecimento e experiência. O programa Ciência sem Fronteiras e iniciativas das Instituições de Ensino Superior (IES) têm intensificado e promovido o aumento de intercâmbio estudantil, porém, ao retornarem, os estudantes têm sofrido com o processo de readaptação. Assim, este trabalho tem o objetivo de analisar o processo de readaptação do intercambista no retorno ao Brasil após um período de estudos em outro país, identificando seus principais aspectos e impactos na vida do intercambista. A metodologia utilizada neste estudo foi um estudo descritivo com abordagem quantitativa a partir de uma pesquisa tipo survey, na qual foram coletados dados de 586 questionários respondidos por ex-intercambistas. Os resultados mostram que os intercambistas passam por uma mudança de identidade cultural, desprendendo-se de sua cultura de origem ao se adaptarem à de destino, fazendo com que o retorno ao Brasil se torne mais difícil. Também se chegou à conclusão de que as IES não assumem um papel fundamental nesse processo, ao acompanharem com proximidade seus alunos intercambistas nas três fases do intercâmbio: antes, durante e depois.

Palavras-Chave: Intercâmbio acadêmico; Experiência internacional; Readaptação; Educação

Introdução

Com a globalização e suas decorrências, a distância entre os países e suas respectivas culturas diminuiu. O mundo globalizado leva à necessidade das organizações e das pessoas adaptarem-se a uma nova realidade com fronteiras cada vez menores (STALLIVIERI, 2009). Uma das maneiras de adentrar nesse mundo é o intercâmbio para estudos, cada vez mais procurado por jovens em busca de conhecimento, de novas experiências transformadoras. De fato, a ideia central dos intercâmbios não é puramente de estudos, mas, mais do que isso, de mudança de si mesmo (SEBBEN, 2001) contribuindo para a formação de um cidadão com perspectiva mundial.

O Governo Federal, através do Ministério da Educação, tem investido em programas voltados à realização de estudos no exterior para estudantes brasileiros. De acordo com Santos (2015), o programa Ciência sem Fronteiras foi criado, em 2011, pelo governo brasileiro com um investimento de R$ 6,5 bilhões e busca promover a expansão da ciência e da tecnologia através de mobilidade internacional. Na primeira etapa do programa, desde seu início até o ano de 2015, 101.446 bolsas foram concedidas, sendo 78% desse total para cursos de graduação e o restante dividido entre mestrados, doutorados e pós-doutorados.

Além dos programas governamentais, as Instituições de Ensino Superior (IES) brasileiras têm investido em acordos de cooperação internacional e convênios com universidades de outros países. Esses convênios visam não apenas ao intercâmbio estudantil, mas a programas de educação continuada, a pós-graduações, a alargamento dos horizontes de pesquisa, e a outras atividades.

Diante do exposto, este trabalho tem o objetivo de analisar o processo de readaptação do intercambista ao retornar ao Brasil após um período de estudos em outro país. Para tanto, como metodologia, utilizou-se a pesquisa descritiva com abordagem quantitativa tipo survey, com estudantes que realizaram intercâmbio entre os anos de 2012 e 2015, permanecendo por no mínimo um semestre fora do Brasil.

Os resultados mostram que no retorno ao Brasil, os intercambistas tiveram dificuldades na readaptação. Sentimentos como angústia, irritação, depressão, insegurança, confusão e depressão apareceram de maneira significativa nas respostas, evidenciando que os intercambistas sentiram fortemente o choque cultural reverso. 91% dos respondentes afirmaram que ao retornarem ao Brasil tinham sentimentos de nostalgia relacionados ao período vivido no exterior, 84% disseram que se sentiam pessoas com grandes habilidades interculturais e 72% desejavam nunca ter voltado do intercâmbio. Além disso, com relação às IES, depois do intercâmbio os estudantes não tiveram o suporte necessário, pois apenas 6% deles afirmaram que a IES brasileira deu apoio e 7,5% disseram o mesmo da IES estrangeira.

Referencial teórico

O referencial teórico deste trabalho está dividido em duas partes. A primeira trata da internacionalização das IES e da mobilidade acadêmica. A segunda parte aborda as três principais etapas do intercâmbio acadêmico, antes, durante e depois, enfatizando os aspectos relacionados às dificuldades de adaptação quando do retorno do estudante ao Brasil após a viagem.

Internacionalização das IES e a mobilidade acadêmica

Segundo Stallivieri (2002), as universidades são internacionais desde a criação das escolas europeias na Idade Média. Essas instituições contavam com estudantes e professores de diferentes países, todos em busca de um objetivo comum: o conhecimento. A universidade internacionalizada tornou-se um universo cultural, onde há uma pluralidade de pensamentos, visões de mundo, tendências científicas etc., ou seja, diversos modos de pensar, visto que ali há pessoas de diferentes partes do planeta.

No Brasil, nas décadas de 80 e 90, a internacionalização das IES brasileiras cresceu de maneira significativa, basicamente por quatro razões: i) políticas, como a busca pela paz e entendimento mútuo; ii) econômicas, pela preocupação com a competitividade e o crescimento econômico; iii) socioculturais, pela expansão de valores morais e nacionais; e, iv) acadêmicas, para a qualificação das pessoas para o mercado de trabalho, a reputação das IES, a qualidade do ensino, pesquisa e serviços, bem como a exposição cultural decorrente da mobilidade de estudantes e professores (MIURA, 2006).

De fato, para Altbach (2002), a internacionalização das instituições de ensino não pode ser evitada, sob o risco de se tornarem moribundas e irrelevantes quando se colocam alheias às tendências econômicas e sociais. Além disso, o conhecimento universitário já não cabe dentro das fronteiras dos países e a universidade brasileira tem de se inserir no saber internacional, tanto em termos de suas qualidades quanto de seus temas e prestígio da instituição (BUARQUE, 2003). Se não por isso, também por uma questão de sobrevivência para competir igualmente com as melhores IES nacionais e estrangeiras (STALLIVIERI, 2002).

Uma das formas mais intensas de internacionalização é o intercâmbio universitário. Stallivieri (2002) afirma que é preciso que os estudantes ampliem seu conhecimento não somente acadêmico, mas pessoal e profissional. O intercâmbio acadêmico promove a integração entre culturas e pessoas diferentes, visto que os estudantes interagem com alunos não somente do país onde estão realizando seus estudos, mas com intercambistas do mundo todo (TAMIÃO; CAVENAGHI, 2013).

Portanto, a universidade desempenha papel fundamental de preparar os cidadãos para um mundo interligado e interdependente, com uma experiência educacional internacionalizada que permita o conhecimento e respeito pela diversidade cultural. Alicerçada pela cooperação internacional (acordos bilaterais e multilaterais, os programas internacionais e os convênios institucionais), as IES brasileiras têm ampla gama de modalidades de inserção internacional para seus alunos, professores e pesquisadores (LAUS, 2004).

Os benefícios da mobilidade acadêmica podem ser analisados sob três aspectos: a IES, o país e o intercambista. No caso das IES, não buscam retorno financeiro nos seus processos de internacionalização, mas sim o aprimoramento de seus conhecimentos e entendimentos interculturais (ALTBACH; KNIGHT, 2007), tendo como motivação o enriquecimento de seus currículos acadêmicos e de seu corpo docente (MOROSINI, 2011).

Para o país, quanto maior o número de pessoas internacionalizadas e preparadas para lidar com a diversidade cultural, maiores são as chances de se projetarem e se manterem competitivos. Para o intercambista, as vantagens vão além do aprendizado, pois promovem desenvolvimento psicológico, autoconfiança, amadurecimento, independência, capacidade de relacionar-se e sentir-se um cidadão global, além de permitir conhecer hábitos diferentes e específicos abrindo novas perspectivas (OLIVEIRA; PAGLIUCA, 2012). Larsen e Vincent-Lancrin (2002) citam como motivações a possibilidade de o estudo no exterior ser mais qualificado. Além disso, o processo de recrutamento e de seleção empresariais tem levado em conta a experiência internacional (MALUTTA, 2013; TAMIÃO; CAVENAGHI, 2013).

No entanto, o retorno ao país de origem gera dificuldades semelhantes às encontradas quando o intercambista enfrentou o choque cultural no país de destino. É uma sensação de não pertencimento mais ao país do intercâmbio e nem de pertencimento ao país de origem. Sebben (2001) afirma que, antes de realizar o intercâmbio, é bom considerar que há duas migrações: a de ida e a de volta.

O retorno ao país de origem

Para Uehara (1986), o jovem que volta de um intercâmbio pode ter diferentes sentimentos, como, por exemplo, alienação, solidão, sentimento de perda, isolamento, infelicidade, perda de identidade, depressão e, por vezes, doenças causadas por níveis extremos de mudança. É comum o sentimento de solidão e isolamento da família e dos amigos. Isso se deve ao fato do estudante ter fortes ligações com ambos antes de viajar.

Para Sebben (2001), a fase de lua de mel após o retorno ao Brasil dura poucos dias ou semanas. O intercambista sente-se feliz e importante, visto que seus amigos e familiares nunca se interessaram tanto por suas experiências e sua vida como nesse momento (STEUTEN, 2015). É importante aproveitar essa fase, pois logo vem o choque cultural reverso, similar ao choque cultural ocorrido na chegada ao país de destino, com a diferença que é sentido no retorno ao país de origem.

Gaw (2000) aponta que o choque cultural reverso é um processo de reajuste, reaculturamento e reassimilação de um indivíduo com relação à sua cultura, após ter vivido em uma cultura diferente por um significativo período. Já Uehara (1986) entende que o choque cultural reverso promove dificuldades psicossociais (por vezes associadas a problemas físicos) que o repatriado experimenta, na fase inicial do processo de ajustamento ao voltar para casa depois de ter vivido no estrangeiro durante algum tempo. Casa não no sentido de simplesmente o espaço onde se vive, mas sim onde o intercambista se sente em casa, tem a segurança de ser aceito, compreendido e se permite ser ele mesmo (VON EIJE, 2013).

De fato, devido a uma mudança em sua identidade cultural, sua personalidade mudou e o estudante tem uma nova visão de mundo, o que pode gerar confusão em quem permaneceu no país de origem. Por outro lado, a vida dos familiares e amigos também mudou e o intercambista também precisa se adaptar ao que não lhe era familiar anteriormente à viagem.

A principal diferença entre o choque cultural e o choque cultural reverso são as expectativas. O intercambista normalmente espera voltar para o convívio de pessoas e sociedades que não sofreram mudanças no tempo em que esteve fora, o que não ocorre (GAW, 2000).

Freitas (2006) afirma que a readaptação ao país de origem exige tempo e paciência, sendo que a possibilidade de choques é tão grande quanto à ida ao exterior. Ao relacionar os dois choques culturais, o de ida e o de volta, Searle e Ward (1990) afirmam que se antes de viajar o estudante for instruído a respeito do choque cultural que sofrerá no país de destino, é possível que os efeitos do choque cultural reverso no seu retorno sejam minimizados e mais bem controlados. Isso se dá através da realização de treinamentos e orientações adequados no período anterior à viagem (LIMA; BRAGA, 2010).

O Quadro 1 apresenta uma síntese dos fatores que influenciam no choque cultural reverso objetivando, principalmente, orientar o instrumento de coleta de dados. Considerou-se na coluna fator os aspectos que caracterizam uma dimensão geral a ser analisada. Na coluna enfoque, desdobraram-se os fatores no sentido de mais bem compreendê-los. Por fim, na coluna autores estão descritos aqueles que fundamentam a base teórica.

Quadro 1 – Síntese dos fatores influenciadores no retorno ao Brasil 

Fator Enfoque Autor(es)
Gênero Mulheres tendem a sentir diferentes choques no retorno Rohrlich; Martin (1991); Brabant; Palmer; Gramling (1990)
Idade Quanto mais velho é o repatriado, menos problemas ele enfrentará no retorno Szkudlarek (2010); Cox (2004); Rohrlich; Martin (1991)
Distância cultural As diferenças culturais entre os países de origem e destino podem influenciar na repatriação Kogut; Singh (1988)
Estado civil A identificação com a cultura do país de destino é maior para os solteiros, o que pode gerar uma mudança na identidade cultural e trazer sentimentos depressivos Szkudlarek (2010); Cox (2004)
Duração de estadia no exterior Estadia maior contribui negativamente no choque cultural reverso, pois o indivíduo teve mais tempo para se desprender da cultura de origem Szkudlarek (2010)
Experiências internacionais anteriores O indivíduo que já teve uma experiência internacional prévia tende a ter uma repatriação facilitada Szkudlarek (2010)
Contato com pessoas do país de destino Interações com pessoas do país de destino estão diretamente relacionadas com a repatriação Rohrlich; Martin (1991)
Contato com pessoas do país de origem Contatos com compatriotas através da internet estão relacionados com a qualidade do processo de readaptação Cox (2004)

Fonte: elaboração dos autores.

Percebe-se que o fator idade é influenciador no choque cultural reverso. O jovem tem mais facilidade de se desprender de sua cultura nativa, por isso é possível que, ao retornar ao país de origem, quem tem menor idade sinta mais dificuldade no processo de readaptação. Aliado a isso, nota-se que o estado civil influencia o retorno à cultura local. Viajantes casados têm contato com o país de origem com maior frequência, não se desprendendo tanto de sua cultura de origem ao mesmo tempo em que estão se inserindo na nova cultura.

Ao fim e ao cabo, muitas podem ser a razões que promovem o intercâmbio, porém outras tantas são as dificuldades ao retornar. Família, IES e uma preparação adequada facilitam o processo de ida e de retorno, mitigando os problemas e tornando uma experiência produtiva.

Procedimentos metodológicos

Neste estudo, seguiu-se o proposto por Gil (2002), elaborando-se um estudo descritivo com abordagem quantitativa desenvolvendo-se um survey composto por perguntas objetivas, para que os resultados fossem passíveis de serem verificados em sua confiabilidade. A população alvo desta pesquisa é formada por estudantes brasileiros de graduação que realizaram intercâmbio acadêmico em IES estrangeiras entre os anos de 2012 e 2015. Esse intervalo foi determinado pelo fato de esses estudantes terem memórias de maior exatidão quando comparados a intercambistas que viajaram há mais tempo.

A amostragem utilizada foi não-probabilística, ou seja, os respondentes foram selecionados por conveniência, isto é, aqueles que aceitaram responder (HAIR, 2005). Ao final, obtiveram-se 586 respostas. Optou-se, também, por considerar apenas estudantes que permaneceram pelo menos um semestre em uma IES estrangeira. Com isso, objetiva-se eliminar da população os estudantes que possivelmente não sentiram os mesmos choques culturais que os participantes alvos do estudo.

O survey foi elaborado com base na pesquisa realizada por Steuten (2015) junto a intercambistas e consiste em quatro partes: identificação dos respondentes, período anterior ao intercâmbio, período vivido no exterior e retorno ao Brasil. O instrumento de coleta de dados foi desenvolvido na plataforma Google Forms e esteve disponível para ser respondido entre os dias 13 e 28 de março de 2016. O questionário base de Steuten (2015) teve dupla tradução para o português e optou-se por manter as escalas originalmente utilizadas pela autora, ora com 5, ora com 7 pontos.

Além disso, com base nos elementos da fundamentação teórica, incluíram-se perguntas para diferenciar estudantes que viajaram com recursos próprios daqueles que participaram de programas governamentais de incentivo à educação no exterior, tais como Ciência sem Fronteiras, Brafitec, entre outros. Acrescentaram-se perguntas sobre a vida acadêmica e profissional dos intercambistas, objetivando encontrar possíveis fatores relacionados que pudessem interferir na readaptação dos indivíduos ao país de origem.

Um pré-teste foi realizado para detectar possíveis falhas e/ou dúvidas no questionário e avaliar a coerência das respostas. Em decorrência disso, seis questões foram revistas e melhoradas. Hair (2005) sugere quatro ou cinco respondentes para o pré-teste, entretanto, foram escolhidos seis indivíduos por conveniência, os quais responderam no dia 11 de março de 2016.

Já para a aplicação do questionário, os estudantes participantes da pesquisa foram contatados por meio de rede social Facebook, email e telefone. Acessou-se um grupo formado por 30 mil estudantes participantes do programa Ciência sem Fronteiras e outros grupos de específicos de universidades a que se teve contato, além de outros grupos a que se teve acesso.

Posteriormente, verificou-se o questionário em termos de qualidade e integridade. Em seguida, editaram-se os dados, eliminando-se respostas incompletas, inconsistentes ou ambíguas que poderiam mascarar os dados obtidos. Os dados foram submetidos a análises estatísticas descritivas e cruzamento de dados através do programa SPSS (v. 21).

Apresentação dos resultados

Os resultados estão apresentados em duas partes. Na primeira parte, analisou-se o perfil dos respondentes nas Tabelas 1 a 6. Na segunda parte, consta a análise das respostas que avaliaram as dificuldades e facilidades que os respondentes tiveram em seu retorno ao Brasil.

Tabela 1 – Sexo, faixa etária e experiência internacional 

Sexo Masculino 33,3%
Feminino 66,7%
Faixa Etária Menos de 20 anos 1%
De 20 a 22 anos 32,3%
De 23 a 25 anos 51,9%
Mais de 25 anos 14,8%
Experiência Internacional Havia estado no exterior a passeio 33,6%
Havia estado no exterior a trabalho 1,4%
Havia estado no exterior a estudo 11,3%
Nunca havia estado no exterior 53,8%

Fonte: elaboração dos autores

A Tabela 1 mostra a representatividade dos sexos, das faixas etárias e das experiências internacionais anteriores ao intercâmbio.

Na Tabela 2, são demonstrados os locais de origem dos respondentes, separando-os por região, a quantidade de cidades que tiveram representantes na pesquisa e o número de respondentes de cada região. Apenas Rondônia, Roraima e Amapá não tiveram participantes.

Tabela 2 – Local de origem dos respondentes 

Local de origem Número de cidades Número de estudantes %
Região Sudeste 67 230 39,2
Região Sul 52 129 22
Região Nordeste 20 86 14,7
Região Centro-Oeste 7 36 6,1
Região Norte 4 13 2,2
Total 150 586 100

Fonte: elaboração dos autores

Também foi indagado no questionário qual era o curso superior de cada estudante. Na Tabela 3, cada curso foi dividido nas oito grandes áreas do conhecimento, evidenciando o número de cursos de cada área que estiveram presentes nas respostas da pesquisa e o número de estudantes representantes de cada área do conhecimento.

Tabela 3 – Curso superior 

Área do conhecimento Número de cursos Número de estudantes %
Engenharias 18 172 29,4
Ciências Sociais Aplicadas 15 156 26,6
Ciências da Saúde 9 90 15,4
Ciências Agrárias 12 67 11,4
Ciências Biológicas 6 38 6,5
Ciências Exatas e da Terra 11 30 5,1
Ciências Humanas 7 17 2,9
Linguística, Letras e Artes 7 16 2,7
Total 85 586 100

Fonte: elaboração dos autores

Questionou-se a respeito de qual foi o país e a cidade de destino. Na Tabela 4, são apresentados os locais de destino dos respondentes, separando-os por país, quantidade de cidades que cada país teve de representantes na pesquisa e o número de intercambistas que estudaram em cada país. O Reino Unido foi o país de destino mais escolhido com 89 respostas (15,19%). Foram retirados sete países com apenas uma resposta de intercambista.

Tabela 4 – País de destino 

País de destino Número de cidades Nr. de intercambistas
Reino Unido 32 89
Portugal 12 85
Espanha 33 85
EUA 33 58
Alemanha 28 56
França 24 45
Itália 13 43
Irlanda 8 29
Hungria 3 24
Austrália 7 21
Canadá 8 15
Holanda 8 13
Noruega 4 7
Chile 1 4
Argentina 2 3
Bélgica 1 2
Total 213 586

Fonte: elaboração dos autores.

A Tabela 4 mostra, também, que Portugal é um dos países com maior número de intercambistas. Além da facilidade do idioma, a cultura reserva semelhanças que podem ter sido levadas em conta na escolha do país como destino.

Na Tabela 5 são apresentadas as respostas para os seguintes questionamentos: tipo de intercâmbio, ano de início, duração e tempo de retorno ao Brasil. Nota-se que a maioria dos respondentes realizou seus estudos por meio de programas governamentais por um ano, pois o Governo Federal concedeu cerca de 100 mil bolsas de intercâmbio acadêmico no exterior.

Tabela 5 – Ano de início, duração, tipo de intercâmbio e tempo de retorno (%) 

Ano de início do intercâmbio 2012 14,3
2013 21,2
2014 50
2015 14,5
Duração Menos de 1 semestre 0,7
1 semestre 24,9
2 semestres 50,3
3 semestres 15,9
Mais de 3 semestres 8,2
Tipo de intercâmbio Mobilidade acadêmica 25,8
Programas governamentais 67,7
Bolsas de estudos 6,5
Tempo de retorno ao Brasil Menos de 1 mês 5,3
De 1 a 3 meses 7,7
De 3 a 6 meses 8,0
De 6 meses a 1 ano 33,4
De 1 a 2 anos 27,1
De 2 a 3 anos 15,4
Mais de 3 anos 3,1

Fonte: elaboração dos autores

Após a escolha do país de destino, os estudantes preparam-se de diversas maneiras com relação ao idioma falado no país de estudos no exterior. Por conta disso, foi questionado se os respondentes estudaram a língua falada no destino. Dos participantes da pesquisa, 28,2% optaram por não estudar a língua. Já dos que estudaram o idioma estrangeiro, 30,2% o fizeram no próprio país de destino com recursos do Governo Federal. Por outro lado, 33,1% realizaram cursos do idioma estrangeiro ainda no Brasil, com vistas a se preparar adequadamente para o período vivido no exterior. Ainda houve aqueles que realizaram cursos com recursos próprios, os quais tiveram a menor representatividade na pesquisa, 8,5%.

Na Tabela 6, são apresentados os dados de como estavam as habilidades linguísticas dos intercambistas antes do intercâmbio acadêmico e ao final. A maioria dos respondentes que relataram ter extrema facilidade no domínio do idioma falado no exterior teve como destino Portugal, pois antes do intercâmbio a maioria dos respondentes se encontrava entre os níveis básico e intermediário.

Tabela 6 – Domínio do idioma estrangeiro no início e ao final do intercâmbio 

Nível de conhecimento Início Final
Tinha um conhecimento básico do idioma (utilizava somente frases simples). 126 11
Podia ter conversações simples. 111 11
Podia expressar opiniões e descrever coisas como experiências e desejos. 123 35
A comunicação com nativos se dava sem esforço. 51 88
Podia usar o idioma de uma maneira flexível e eficiente para fins acadêmicos, sociais e profissionais. 75 178
Era capaz de compreender com extrema facilidade o que lia e ouvia, inclusive em situações de maior complexidade. 100 263

Fonte: elaboração dos autores

Vale ressaltar também que 126 respondentes (21,5%) afirmaram ter apenas conhecimento básico do idioma. Desses, 76 estudaram o idioma no exterior com recursos do Governo Federal, ou seja, tiveram a oportunidade de aprimorar o que antes era um idioma praticamente desconhecido. Nota-se a melhora do nível de conhecimento dos idiomas estrangeiros por parte dos alunos. Na outra ponta da Tabela 6, nos dois últimos níveis (considerados os mais avançados), 175 estudantes consideravam ter esse conhecimento no início da experiência internacional. Ao final do intercâmbio, esse número passou para 441, ou seja, 75,3% dos intercambistas respondentes voltaram de suas viagens com níveis avançados do idioma estrangeiro.

Análise do retorno ao Brasil

Ao retornar ao Brasil, o estudante mantém laços com amigos brasileiros e estrangeiros provenientes do período de intercâmbio, por isso, questionou-se como eram esses laços. Assim, 46,2% afirmaram que mantêm contato com alguns amigos brasileiros, enquanto apenas 4,8% dizem não manter contato com brasileiros da época do intercâmbio. Por outro lado, a maioria, 49%, alega que mantêm contato com muitos amigos brasileiros. Já com relação aos amigos estrangeiros do período no exterior, 70,5% dos respondentes afirmam que têm contato com alguns amigos de fora do Brasil. Complementando, 14,3% mantêm contato com muitos amigos e 15,2% dizem não ter mais contato com amigos estrangeiros.

Outro fator que pode influenciar na readaptação do estudante ao Brasil é a (re) inserção profissional. Os respondentes foram questionados a respeito das suas situações profissionais no retorno ao país. Na Tabela 7, são apresentados os dados da situação profissional após o retorno.

Tabela 7 – Situação profissional dos estudantes após o retorno ao Brasil 

Não quis trabalhar. 227 (38,7%)
A experiência internacional foi fundamental para conseguir um emprego. 113 (19,3%)
Conseguiu um emprego normalmente, sem influência do intercâmbio. 103 (17,3%)
Não conseguiu encontrar emprego. 72 (12,3%)
Retornou ao mesmo emprego que possuía antes do intercâmbio. 32 (5,5%)
Demorou bastante tempo até conseguir um emprego. 28 (4,8%)

Fonte: elaboração dos autores

Ao realizar um intercâmbio, o apoio das duas universidades é uma questão importante que pode influenciar no processo de intercâmbio acadêmico estudantil. Questionou-se se os respondentes receberam algum tipo de apoio/suporte das universidades (tanto estrangeira como brasileira) antes e depois da sua viagem (Tabela 8). O que pode ser observado é que a IES estrangeira dá maior apoio ao aluno intercambista quando comparada à brasileira, tanto antes da viagem como depois. Entretanto, nota-se que ambas as IES deixam a desejar no que se refere a dar suporte aos alunos após a realização dos estudos no exterior.

Tabela 8 – Apoio ao aluno por parte das Instituições de Ensino (%) 

IES Período Não deu apoio Deu pouco apoio Deu muito apoio
IES brasileira Antes do intercâmbio 47,4 37,7 14,8
Depois do intercâmbio 65,2 28,8 6,0
IES estrangeira Antes do intercâmbio 17,7 42,3 39,9
Depois do intercâmbio 57,8 34,6 7,5

Fonte: elaboração dos autores.

Na Tabela 9 é analisado o cruzamento das expectativas de como estão as IES estrangeiras comparadas às brasileiras, com a mudança de opinião a respeito da IES brasileira após o intercâmbio.

Tabela 9 – Expectativa da IES estrangeira e opinião da IES brasileira 

Mudança de opinião a respeito da IES brasileira Total
Não mudou de opinião Para pior Para melhor
Expectativa de como é a IES estrangeira se comparada a IES brasileira antes do intercâmbio Pior 5 3 3 11
Igual 26 14 24 64
Melhor 155 148 208 511
Total 186 165 235 586

Fonte: elaboração dos autores.

Um dado que chama a atenção é que 87,2% dos respondentes esperavam que a universidade de destino fosse melhor que a brasileira, representados por 511 do total de 586 respondentes. Ao serem cruzados com os dados da mudança de opinião a respeito da universidade brasileira, 40,1% (235 participantes) mudaram-na para melhor. Desses 235 respondentes, 208 haviam respondido que antes do intercâmbio esperavam que a IES estrangeira fosse melhor que a brasileira. Isso indica um bom posicionamento para as IES brasileiras, visto que esses alunos antes esperavam maior qualidade no ensino estrangeiro e após o intercâmbio melhoraram suas opiniões a respeito das mesmas.

Para aprofundar as percepções de mudanças ocorridas, o questionário tem uma série de afirmações a respeito. A Tabela 10 expõe as afirmações sobre as percepções de mudanças e suas médias e desvios-padrão. É notável o fato das médias serem altas, assim como todos os desvios-padrões baixos, o que representa uma concentração de respostas perto das médias. A afirmação “regularmente tinha sentimentos de nostalgia relacionados ao meu intercâmbio’’ destaca-se, visto que teve a maior média (4,29) e o menor desvio-padrão (0,81).

Tabela 10 – Percepção da vida no Brasil após o retorno 

Média Desvio-padrão
Regularmente tinha sentimentos de nostalgia relacionados ao meu intercâmbio. 4,54 0,81
Muitas vezes desejava nunca ter voltado do intercâmbio. 3,96 1,30
Tinha dificuldade na readaptação ao ritmo de vida diária. 3,92 1,14
O padrão de gastos dos brasileiros me incomodava. 3,67 1,29
Frequentemente tinha a sensação de não “encaixar’’ na sociedade. 3,67 1,31
Fazia comentários a respeito dos brasileiros. 3,59 1,17
Raramente me sentia entendido pelas pessoas que nunca viveram no exterior. 3,57 1,27
Tinha a sensação de que havia perdido algo quando pensava no meu intercâmbio. 3,56 1,38
Me sentia incomodado com minhas atividades sociais diárias. 3,51 1,26
Havia muitos costumes sociais no Brasil que eu já não entendia mais. 3,41 1,30
Tinha dificuldades para me identificar com o estilo de vida dos brasileiros. 3,36 1,27
Tinha a sensação de que as pessoas me tratavam de forma mais superficial do que eu estava acostumado. 3,32 1,25

Fonte: elaboração dos autores.

A Tabela 11 apresenta respostas em escala de 1 a 5, variando de discordo totalmente a concordo totalmente, sobre sentimentos próprios, ou seja, como se viam após o intercâmbio acadêmico.

Tabela 11 – Percepções a respeito de si mesmo após o intercâmbio 

Média Desvio-padrão
Tenho a sensação de que agora sou uma pessoa mais global/internacional 4,42 0,71
Após a realização do meu intercâmbio me sinto uma pessoa com grandes habilidades interculturais 4,17 0,76
A cultura do país de destino teve influência na minha readaptação ao Brasil 3,88 0,99
Em alguns aspectos me sinto menos brasileiro quando comparado ao período anterior ao intercâmbio 3,17 1,39
Desde a realização do meu intercâmbio, me sinto mais brasileiro do que estrangeiro 2,77 1,13
Desde a realização do meu intercâmbio, me sinto mais como um estrangeiro do que um brasileiro 2,73 1,18

Fonte: elaboração dos autores.

A primeira afirmação (Tabela 11) tem a maior média e o menor desvio-padrão, representando a importância que o intercâmbio tem no que concerne a tornar-se uma pessoa mais global e internacional. Percebe-se também que os estudantes relataram que, após o intercâmbio, passaram a ter maiores habilidades interculturais. Outro dado que chama a atenção é o que afirma que a cultura do país de destino teve influência na readaptação ao Brasil, com uma média considerada alta (4,17) e desvio-padrão baixo.

No retorno ao Brasil, juntamente com o chamado choque-cultural reverso, os estudantes experimentam sensações das mais variadas, desde depressão até felicidade. Por conta dessa quantidade de sentimentos que os mesmos podem ter, os respondentes afirmaram se sentiram pouco ou muito, ou se simplesmente não sentiram essas emoções. Dos 586 participantes da pesquisa, 544 (92,9%) não sentiram alívio ao retornar para o Brasil, ou seja, tiveram boas experiências enquanto estiveram no exterior.

A Tabela 12 expõe a respeito das mudanças por parte dos estudantes. A grande maioria afirmou que sentiu muito uma mudança de mentalidade (72,6%) e de visão de mundo (84%), assim como percebeu ter voltado outra pessoa do intercâmbio (74,5%).

Tabela 12 – Sentimentos no retorno ao Brasil 

Sentimento Não sentiu Sentiu um pouco Sentiu muito
Mudança de visão de mundo 21 73 492
Impressão de ter voltado “outra pessoa’’ 32 117 437
Mudança de mentalidade 40 121 425
Chateação 96 213 277
Insegurança 133 178 275
Irritação 150 186 250
Angústia 111 238 237
Confusão 143 212 231
Medo 203 178 205
Felicidade momentânea, por conta de saudades 70 318 198
Depressão 230 214 142
Alívio, pois não gostou do intercâmbio 544 30 12

Fonte: elaboração dos autores.

Por conta da quantidade de sentimentos (Tabela 12), alguns estudantes podem sofrer mais que outros. Por isso, foi questionado se, por não se readaptarem ao Brasil, os intercambistas procuraram algum tipo de ajuda psicológica. Enquanto 518 (88,4%) afirmaram que não, 68 (11,60%) disseram que procuraram algum profissional da área.

O último questionamento do survey foi a respeito dos planos e desejos futuros dos estudantes com relação a viajar para o exterior. O dado expressivo foi que 533 dos 586 respondentes escolheram a opção “discordo totalmente’’ para a afirmação “não pretendo retornar ao exterior’’, logo, a maioria dos estudantes pretende retornar ao exterior, seja para estudar ou morar.

Discussão dos resultados

Esta seção relaciona o que foi obtido através dos questionários com os 586 estudantes ex-intercambistas respondentes com o que foi exposto no referencial teórico. Um total de 23 países de destino esteve representado com 213 cidades estrangeiras, sendo que os países que receberam mais intercambistas brasileiros foram Reino Unido (89), Portugal e Espanha (ambos com 85). De acordo com Larsen e Vincent-Lancrin (2002), há diversos fatores que influenciam na escolha do país de destino, dentre os quais os econômicos, os acadêmicos e os socioculturais.

Os resultados da pesquisa apontam que os fatores mais influenciadores na decisão do aluno estão relacionados à cultura e à vida no país de destino, bem como ao alto padrão educacional e ao idioma. Nesse caso, Portugal tem, além de idioma similar, uma cultura próxima à brasileira, e o país é considerado o mais barato da Europa Ocidental, o que influencia no momento decisório do aluno que viaja com recursos próprios. Já o Reino Unido permite aprendizado e prática da língua inglesa, além de possuir uma reputação acadêmica e social elevada, porém é um país com um custo de vida considerado alto. Por conta disso, 85 dos 89 intercambistas que estudaram no país o fizeram com ajuda e recursos do Governo Federal.

Ao serem questionados a respeito de suas competências adaptativas, a maior média foi no quesito relacionado à obtenção dos serviços comunitários básicos (4,55), tais como transporte, saúde etc. Já a menor média foi nas relações de amizade com estudantes nativos (3,41), o que confirma o fato de os estudantes brasileiros procurarem mais uns aos outros no processo de adaptação. Assim, os intercambistas devem ser flexíveis a aceitar o novo e as diferenças (CHANG; YUAN; CHUANG, 2013; CANUTO, 2014), o que pode ser observado nas respostas dos intercambistas, ou seja, tiveram sucesso em seus processos de adaptação.

Os resultados confirmam o achado por Steuten (2015), de que ocorre mudança de identidade cultural no processo de intercâmbio, pois apenas 84 respondentes se viam como cidadãos-globais antes do intercâmbio, enquanto após a experiência esse número passou para 326. Isso ocorre pelo fato de o estudante ter contato com diversos tipos de culturas estrangeiras, ao mesmo tempo em que aprende a lidar com as diferenças entre os povos. Segundo Bennett (1998), essa mudança faz parte da adaptação e é o processo pelo qual o indivíduo expande sua visão de mundo para que se possa incluir o comportamento e os valores adequados na cultura em que está se inserindo.

De fato, os estudantes julgaram ter maiores habilidades interculturais após o intercâmbio, assim como afirmaram que a cultura do país de destino tem influência na readaptação ao Brasil. Ao estudar no exterior por um grande período e se adaptar ao novo ambiente, o estudante desprende-se de sua cultural local (SZKUDLAREK, 2010). Isso foi observado, pois os respondentes afirmaram ter uma visão de mundo diferente de seus compatriotas. Isso demonstra que viajar e se adaptar a uma nova cultura auxilia no fortalecimento das competências interculturais dos estudantes. Além disso, indica que na visão de quem viaja aquele que nunca teve a experiência de viver no exterior não tem essas mesmas competências.

Analisando esse questionamento, pode-se afirmar que os intercambistas não se viam parecidos aos brasileiros em nenhum dos quesitos. As diferenças menos percebidas estão relacionadas com as amizades e estilos de comunicação, o que é explicado pela maioria dos amigos dos respondentes no exterior serem brasileiros. Já com relação às pessoas do país de destino, nota-se que os estudantes se viam parecidos aos mesmos, o que evidencia o êxito da adaptação, pois ao se familiarizar com um estrangeiro, o intercambista conseguia se inserir na nova cultura.

A pesquisa ratifica o que afirmava Sowa (2002), para quem o intercâmbio ajuda no aprendizado e na proficiência de um novo idioma, juntamente com as interações culturais. Ao final da experiência internacional, 90,3% dos respondentes afirmavam ter o domínio da língua falada no seu país de destino, enquanto esse número, antes do intercâmbio, era de 38,6%. O que também contribuiu com esse aumento foi que 30,2% dos intercambistas estudaram o idioma no próprio país de destino com recursos do Governo Federal.

Vale ressaltar que fortes laços de amizade entre intercambistas brasileiros foram criados no período do intercâmbio dificultando o retorno ao Brasil, visto que subitamente há a separação desses círculos de amizade. Dos entrevistados, 95,2% ainda mantêm contato com os amigos brasileiros. Isso, de certa forma, prende-os ao período em que viveram no exterior, pois as conversas e lembranças são constantes nos contatos entre esses grupos de amigos. Os amigos que ficaram no Brasil já não são tão parecidos com o viajante e isso o faz buscar as amizades do tempo em que estiveram no exterior.

No retorno ao Brasil, o estudante encontra um mercado de trabalho cada vez mais acirrado, sendo o intercâmbio um diferencial competitivo interessante e muito valorizado pelas empresas (MALUTTA, 2013). Dos 586 entrevistados, 113 afirmaram que a experiência de intercâmbio foi fundamental para que conseguissem um trabalho ao retornarem. Esse dado vai ao encontro do que afirma Malutta (2013), que os processos de seleção têm levado cada vez mais em conta as experiências internacionais e a fluência em idiomas estrangeiros.

Outro aspecto importante é o papel da instituição de ensino. Hunley (2010) alega que é necessário que as IES apóiem seus estudantes nas três fases do processo de intercâmbio. De fato, os resultados demonstram que, na visão dos estudantes, as IES não dão suporte adequado aos alunos após a realização dos estudos no exterior. Para os respondentes, as universidades estrangeiras deram-lhes mais apoio que as brasileiras, tanto antes quanto depois do intercâmbio. Prova disso é que apenas 6% afirmaram que a IES brasileira deu muito apoio e 7,5% disse o mesmo da IES estrangeira. Além disso, a maior parte das respostas concentrou-se na opção “não deu apoio’’, ou seja, há uma necessidade de maior apoio e suporte ao processo de intercâmbio: antes, durante e depois.

Caso o intercambista seja instruído através de treinamentos e orientações adequados, a respeito do choque cultural que sofrerá no país de destino, é possível que os efeitos do choque cultural reverso no seu retorno sejam minimizados e mais bem controlados (SEARLE; WARD, 1990; LIMA; BRAGA, 2010).

Ainda sobre as IES, antes do intercâmbio, 511 respondentes esperavam que a IES estrangeira fosse melhor que a brasileira, entretanto, ao retornarem, 235 estudantes afirmaram ter mudado de opinião para melhor a respeito da IES brasileira, o que demonstra que essas estão próximas das estrangeiras no que diz respeito à qualidade de ensino.

No retorno ao Brasil, os respondentes demonstraram ter tido dificuldades na readaptação. Sentimentos de nostalgia e desejo de nunca ter retornado do intercâmbio são exemplos do que pode dificultar esse processo. A maioria dos respondentes permaneceu por dois semestres no exterior, corroborando com Szkudlarek (2010) que afirma que uma estadia maior contribui de forma negativa no choque cultural reverso, pois o indivíduo teve muito tempo para se desprender da cultura de origem.

Sebben (2001) lembra que todos os intercambistas passam pelas migrações de ida e de volta, e, para alguns, o retorno ao Brasil pode ser mais complicado do que a partida. Para Uehara (1986), o jovem que volta de um intercâmbio pode ter diferentes sentimentos, o que foi demonstrado nos resultados desta pesquisa. Observando as respostas dos estudantes, nota-se que os mesmos não estavam preparados para, ou não queriam retornar ao Brasil. Sentimentos como angústia, irritação, depressão, insegurança, confusão e depressão apareceram de maneira significativa nas respostas, evidenciando que os intercambistas sentiram o choque cultural reverso fortemente.

Há ainda os estudantes que buscam ajuda psicológica após o intercâmbio. No presente estudo, 68 respondentes afirmaram tê-lo feito. Isso vai ao encontro do que afirma Uehara (1986, s/p), que aponta “dificuldades psicossociais (por vezes associadas a problemas físicos) que o repatriado experimenta na fase inicial do processo de ajustamento ao voltar para casa depois de ter vivido no estrangeiro durante algum tempo”. Sendo esse processo de readaptação complicado e devido às mudanças que ocorrem, é importante que o intercambista tenha acompanhamento psicológico nos primeiros meses após o retorno. Isso poderia diminuir os impactos e implicações do choque cultural reverso, fazendo com que o estudante tivesse uma readaptação natural e sem maiores problemas.

Conclusões

Os resultados gerais mostram a importância do programa Ciência sem Fronteiras, pois 67,7% dos estudantes utilizaram-no. Reino Unido (89), Portugal e Espanha (ambos com 85) foram os destinos mais escolhidos. Os resultados confirmam ainda que houve mudança de identidade cultural, no processo de intercâmbio (STEUTEN, 2015), pois no início do intercâmbio, 84 respondentes se viam como cidadãos-globais, já após, esse número passou para 326. Também, ao final da experiência internacional, 90,3% dos respondentes afirmavam ter o domínio da língua falada no seu país de destino, enquanto antes do intercâmbio eram 38,6%.

Concluiu-se, também, que o tempo e a qualidade do período vivido no exterior têm grande influência na readaptação do estudante ao Brasil, ou seja, se o intercâmbio teve sucesso, é provável que o retorno ao país de origem seja dificultado. Isso ocorre devido ao estudante ter tido tempo suficiente para se desprender de sua cultura local e se adaptar ao local de destino, corroborando para uma mudança na identidade cultural do indivíduo.

No que se refere à readaptação profissional, o intercâmbio traz benefícios ao estudante. As empresas valorizam os profissionais com experiências internacionais facilitando na hora de processos de seleção. Percebeu-se também que deve haver uma preparação adequada antes da realização de um intercâmbio. Nesse quesito, entram em cena as universidades, que devem dar o suporte necessário ao seu aluno, tanto na parte burocrática, como na parte psicológica. As IES também são importantes no acompanhamento da situação dos estudantes, antes, durante e depois o intercâmbio, com o objetivo de que, ao final, o intercâmbio tenha sido uma experiência saudável e sem traumas para o estudante.

Ao fim e ao cabo, o intercâmbio acadêmico deve ser realizado com racionalidade a respeito do que virá após, ou seja, ao iniciar o processo, é importante que o estudante esteja ciente do que poderá ocorrer no retorno ao Brasil. Dessa forma, o intercâmbio poderá ser mais bem aproveitado, etapa por etapa e, ao final, a experiência será satisfatória tanto para o estudante quanto para a IES.

Limitações e sugestões de estudos futuros

A presente pesquisa restringiu-se a um tipo de intercâmbio, o acadêmico, portanto, os dados e a interpretação dos resultados podem ser diferentes para outros tipos de intercâmbio. A pesquisa também se limitou a intercambistas brasileiros que viajaram entre os anos de 2012 e 2015 e já retornaram ao Brasil.

Como sugestões para estudos futuros, propõe-se a realização de pesquisa qualitativa junto às Instituições de Ensino Superior investigando suas políticas de intercâmbio acadêmico e relacionando-as com as perspectivas dos alunos ao retornarem. Também, sugere-se analisar as principais diferenças entre as experiências de intercâmbio de estudantes de diferentes estados brasileiros, verificando se o fator geográfico e cultural é determinante para que haja uma diferenciação significativa na readaptação dos estudantes participantes.

Implicações gerenciais

Os resultados deste estudo podem auxiliar as Instituições de Ensino Superior a realizar melhorias em suas áreas responsáveis pelos intercâmbios acadêmicos. Atualmente, as universidades não dão suporte e acompanhamento necessários para os intercambistas, o que, por vezes, inviabiliza a obtenção de um feedback dos mesmos a respeito dos benefícios e dificuldades da experiência internacional acadêmica. Dito isso, é importante que as IES estejam presentes nas três fases do intercâmbio, antes, durante e depois, para que ele tenha o maior sucesso possível.

No que diz respeito ao Governo Federal, é importante que sejam mantidos os projetos educacionais de intercâmbio no exterior (Ciência sem Fronteiras e BRAFITEC) a fim de que os estudantes possam ter mais conhecimentos culturais e acadêmicos, bem como sejam capazes de conviver com outras culturas e saibam respeitá-las.

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Recebido: 13 de Julho de 2017; Aceito: 16 de Novembro de 2017

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- Este artigo foi submetido originalmente em português e foi traduzido, posteriormente, para o inglês, pelos autores.

Franco Gatelli Périco é bacharel em Comércio Internacional pela Universidade de Caxias do Sul, atualmente sócio da empresa de tecnologia e publicidade Plug Carregadores Caxias do Sul. Tem experiência internacional no Canadá, França e Espanha, sendo a última para estudar um semestre na Universidad Autónoma de Madrid através da Bolsa Ibero-americana do Banco Santander.

Roberto Birch Gonçalves é Engenheiro Eletrônico pela (PUC/RS), com mestrado e doutorado em Administração pela UFRGS. Diretor do Instituto de Pesquisas Econômicas e Sociais da UCS (IPES), professor no Mestrado em Gestão Vitivinícola e no Curso de Comércio Internacional, com experiência de 30 anos na gestão em empresas do setor metal mecânico e óleo e gás.

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