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Educação e Pesquisa

Print version ISSN 1517-9702On-line version ISSN 1678-4634

Educ. Pesqui. vol.46  São Paulo  2020  Epub Dec 21, 2020

https://doi.org/10.1590/s1678-4634202046002003 

SEÇÃO: ENTREVISTAS

Do Groupe de recherche sur la socialisation ao Centre Max Weber: o conceito de socialização nas pesquisas atuais - por Sylvia Faure

From the Groupe de recherche sur la socialisation to the Centre Max Weber: the concept of socialization in current research - by Sylvia Faure

Maria da Graça Jacintho Setton1 
http://orcid.org/0000-0001-7306-9293

Adriana Bozzetto2 
http://orcid.org/0000-0002-2961-8651

1- Faculdade de Educação, Universidade de São Paulo, São Paulo (SP). Contato: gracaset@usp.br.

2- Universidade Federal do Pampa, Campus Bagé (RS). Contato: adrianabozzetto@unipampa.edu.br.


Resumo

O Groupe de recherche sur la socialisation, que há mais de 30 anos mantém suas atividades científicas voltadas para o estudo dos processos de socialização no espaço acadêmico francês, foi inserido, em 2011, em um novo laboratório chamado Centre Max Weber, da Universidade de Lyon 2, que incluiu também outros grupos de pesquisa. Para conhecer aspectos dessa transição, a entrevista foi realizada com a socióloga e pesquisadora Sylvia Faure. Para além de relatar a atual composição do laboratório Centre Max Weber, e em particular da equipe MEPS - Modos, espaços e processos de socialização, da qual faz parte, procura atualizar a maneira como a pesquisa é conduzida na configuração atual do grupo, os temas e os modos de (re)pensar o conceito de socialização.

Palavras-Chave: Socialização; Processos educativos; Centre Max Weber; Groupe de Recherche sur la Socialisation

Abstract

The Groupe de recherche sur la socialisation, which for more than 30 years has maintained its scientific activities focused on the study of socialization processes in the French academic space, was inserted, in 2011, in a new laboratory called Centre Max Weber, of the University of Lyon 2, which also included other research groups. To learn about aspects of this transition, the interview was conducted with sociologist and researcher Sylvia Faure. In addition to reporting the current composition of the Centre Max Weber laboratory, and, in particular, the MEPS team - Modes, spaces and socialization processes, of which it is part, it seeks to update the way the research is conducted in the current configuration of the group, the themes and ways of (re)thinking the concept of socialization.

Key words: Socialization; Educational processes; Centre Max Weber; Groupe de Recherche sur la Socialisation

Apresentação

O objetivo desta entrevista é compreender aspectos da transição do Groupe de recherche sur la socialisation - GRS para o laboratório Centre Max Weber3 - CMW, na Universidade Lumière Lyon 2, França, em 2011. Nosso interesse responde à necessidade de conhecer a formação e a consolidação de um grupo expoente acerca da noção de socialização, no campo universitário francês. Tema clássico na área das Ciências Sociais, apresenta uma trajetória intermitente no campo da Sociologia da Educação.

Trata-se de uma oportunidade de atualizar as preocupações e usos sobre este conceito, que no período de 1976 a 2010 conduziu a identidade científica do Groupe de recherche sur la socialisation, dentro do contexto sociológico francês. Criado em 1976, o GRS é resultado da associação do Centro de Sociologia da Educação e do Centro de Estudo das Relações Sociais, da Universidade de Lyon 2.

O Groupe de recherche sur la socialisation teve como diretores Guy Vincent, seguido por Yves Grafmeyer e, de 2003 a 2010, Bernard Lahire e Jean-Yves Authier como diretor adjunto. Com suas atividades científicas centradas sobre a noção da socialização, o GRS trabalhou tanto as questões ligadas à socialização primária quanto à socialização secundária, abordando diferentes dimensões dos processos socializadores. Foi o primeiro laboratório sociológico francês dedicado ao estudo dos quadros, modalidades, tempos e efeitos de socialização (LAHIRE, 2015). A identidade científica do Grupo, constituída em torno da problemática da socialização, consolidou-se em seus programas de pesquisa e foi a base de trabalhos e discussões comuns a todos seus membros.

Em janeiro de 2011 o GRS - Groupe de recherche sur la socialisation, em conjunto com o MODYS - Mondes et Dynamiques des Sociétés, transformou-se no CMW - Centre Max Weber que, em seu interior, é um laboratório dividido em seis equipes4: 1) Trabalho, Instituições, Profissões, Organizações; 2) Dinâmicas sociais e políticas da vida privada; 3) Políticas do conhecimento: saberes situados e problemas democráticos; 4) Culturas públicas; 5) Disposições, poderes, culturas, socializações e 6) Modos, espaços e processos de socialização. O CMW foi inicialmente dirigido por Jean-Hugues Déchaux (2011 a 2014), seguido por Bruno Milly (2015 a 2018) e, atualmente, está sob direção de Christine Détrez (2019).

A entrevista tem como intenção contar um pouco essa história de transição do Groupe de recherche sur la socialisation para o Centre Max Weber e tem, como interlocutora, a pesquisadora Sylvia Faure5. Socióloga e professora de Sociologia na Universidade Lumière Lyon 2, campus Porte des Alpes, em Bron, Sylvia Faure foi membro do GRS - Groupe de Recherche sur la Socialisation. Com a criação do Centre Max Weber em 2011, passou a ser membro da equipe Modes, espaces et processus de socialisation - MEPS (Modos, espaços e processos de socialização), que tem por objeto a análise das condições, formas e espaços de socialização e de como as práticas de socialização constituem e flexibilizam os percursos dos grupos sociais ou dos indivíduos.

Um de seus professores foi o sociólogo Bernard Lahire, que a incentivou a conduzir pesquisas sobre os processos de incorporação e apropriação do métier, da profissão de bailarina. Sob a orientação de Guy Vincent, sua tese buscou compreender as maneiras de aprender pelo corpo e os processos de socialização que ocorrem com as práticas de dança regulares e intensivas, em diálogo com os conceitos de Pierre Bourdieu e trabalhos sobre a incorporação da disposição. Sylvia Faure é autora dos livros Apprendre par corps: Socio-anthropologie des techniques de danse, publicado em 2000, e Corps, savoir et pouvoir: Sociologie historique du champ chorégraphique, 2001. O interesse dessas obras se estende aos sociólogos, pesquisadores assim como, também, aos estudantes de ciências sociais interessados na dança e, mais amplamente, no corpo e na socialização.

Com Marie-Carmen Garcia, publicou em 2005 a obra Culture hip-hop, jeunes des cités et politiques publiques. Para o poder público francês, a dança hip-hop surge como um meio possível de influenciar, ou de controlar, a juventude de bairros populares considerados como a principal fonte de desvio na sociedade francesa. Nesse sentido, a promoção da dança hip-hop tornou-se um elemento importante da “política de juventude”. Por meio de entrevistas com jovens praticantes e profissionais, o livro contribui para um debate sobre a relação entre as culturas populares e aquelas consideradas como eruditas ou legítimas, abrindo reflexões sobre os efeitos dessas políticas nas formas de socialização dos jovens das classes populares e sua relação com a dança.

Outras discussões e problematizações podem ser destacadas em seus estudos: envolvem um olhar crítico sobre a construção de relações e assimetrias entre ser menino e ser menina, apontam fragilidades das sociedades em que vivemos ao produzirem estereótipos de gênero perpetuando, assim, a dominação masculina. As reflexões, ao mesmo tempo em que promovem o combate aos preconceitos sexistas, remetem à responsabilização do poder público sobre essas questões. Um livro produzido em parceria com Henri Eckert, intitulado Les jeunes et l›agencement des sexes (2007), aborda essa perspectiva.

Em 2019, produziu com Daniel Thin o livro S’en sortir malgré tout: Parcours en classes populaires. Em colaboração com diversos pesquisadores da equipe Modes, espaces et processus de socialisation, o trabalho aborda temas ligados ao estigma das classes trabalhadoras, buscando compreender quais recursos são mobilizados na busca por melhores condições de vida, diante de tantas adversidades e desigualdades sociais. O livro também promove uma crítica ao peso delegado aos indivíduos da classe trabalhadora como se eles fossem responsáveis por suas condições precárias, ignorando as condições objetivas na origem dos problemas sociais. Este trabalho coletivo reúne pesquisas qualitativas realizadas em diferentes campos, a partir de entrevistas sociológicas. É característico dos estudos aos quais Sylvia Faure se dedica o cuidado metodológico, aprofundando-se tanto na condução de entrevistas quanto na análise sociológica dos processos de socialização, em múltiplos espaços e contextos.

No Brasil, participou como convidada do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Estadual do Ceará, em 2015, e foi responsável pelo primeiro módulo do seminário de pesquisa As dimensões políticas da cultura. Sylvia Faure toma por objeto de investigação as práticas de dança, analisando os modos de socialização de seus praticantes em relação de interdependência com o estudo das configurações sócio-históricas, e também políticas, das práticas sociais onde operam.

Esta entrevista integra as atividades científicas de pós-doutorado (2018-2019) realizado junto à Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, sob supervisão da Profa. Dra. Maria da Graça Jacintho Setton, e teve como um de seus objetivos conhecer a noção do termo socialização enquanto identidade científica do Groupe de recherche sur la socialisation e, atualmente, como se configura junto ao laboratório Centre Max Weber.

Realizada em duas etapas, a entrevista iniciou-se em 2019 e, em 2020, em meio à pandemia do chamado “novo coronavírus”, aprofundaram-se algumas questões e outras se fizeram presentes. É uma honra apresentarmos, nesse espaço privilegiado, uma pesquisadora como Sylvia Faure, profundamente dedicada à pesquisa, seus métodos e reflexividade, bem como à formação de seus orientandos e às questões ligadas aos diferentes espaços e modos de socialização. Sensivelmente atenta ao mundo social contemporâneo e suas problemáticas atuais, vale ressaltar seu interesse e dedicação aos processos de socialização, buscando compreender e questionar os efeitos nas trajetórias dos indivíduos, com especial atenção às questões da juventude e, mais especificamente, aqueles e aquelas em situações de vulnerabilidade social.

Entrevista

Primeiramente, gostaríamos de agradecer a disponibilidade em conceder esta entrevista. Há muito o Grupo Práticas de Socialização - ao qual pertencemos, vinculado à FE-USP, objetiva este contato. Poderíamos começar perguntando um pouco sobre seu trabalho na Universidade Lumière Lyon 2, destacando aspectos significativos de sua formação e trajetória acadêmica, incluindo interlocutores e autores de referência?

Cheguei à sociologia relativamente tarde, aos 28 anos, depois de ter trabalhado, principalmente, nos ofícios de dança. Então, retomei meus estudos enquanto trabalhava em paralelo. Eu já havia ministrado aulas de dança, estava em uma companhia de dança e, para complementar minha renda, ocupei vários empregos (instrutora para deficientes, secretariado, empregos hospitalares, etc.). Em retrospectiva, esses trabalhos me treinaram em sociologia, encontrando campos muito variados de atividades e populações. Eu ainda não sabia, obviamente. Eu me matriculei na universidade em um período mais calmo e mais estável, esperando seguir o treinamento em antropologia, no início. No entanto, na minha universidade, era necessário cursar sociologia para aceder, quatro anos depois, a um mestrado em antropologia. Então, eu segui os cursos e muito rapidamente o conteúdo. As abordagens investigativas da sociologia me convenceram. Tive como professor Bernard Lahire, que me incentivou a realizar pesquisas sobre os processos de incorporação e apropriação da profissão de bailarina. Fiz minha tese sobre esse tema, sob a supervisão de Guy Vincent, que era especialista da socialização escolar. A primeira ideia era investigar sobre os cursos de dança clássica e contemporânea, em vários tipos de estabelecimentos. Tratava-se de conhecer melhor como se aprende “pelo corpo”, e como se constitui um “sentido prático”. Essas questões estavam em diálogo com os conceitos e obras de Pierre Bourdieu sobre a incorporação da disposição, o sentido prático e o campo (aqui, o campo coreográfico). Após a tese, com minha colega Marie-Carmen Garcia, obtivemos financiamento para conduzir uma pesquisa sobre a dança do hip-hop. Permanecia a questão dos modos de aprendizagem e das socializações que ocorrem com uma prática regular e intensiva. No caso francês, essa prática tocava principalmente os jovens dos meios populares e ela era supervisionada e sustentada por instituições públicas, como as de educação e cultura. De fato, nós interrogávamos também a relação desses jovens dos meios populares com instituições públicas. Enfim, uma terceira linha de pesquisa foi compreender as relações sociais de gênero no hip-hop.

Mais tarde, deixei de lado as práticas artísticas e concentrei-me sobre as socializações nos círculos populares, visto que meus jovens entrevistados vinham desses meios sociais. Encontrando nos bairros populares associações e, notadamente, associações de mulheres, meus interesses se concentraram no que é produzido (em termos de socialização horizontal, entre mulheres) nessas associações. Isso me conduziu a observar as “oficinas de escrita”. Agora, volto “ao corpo”, se assim posso dizer, à incorporação de disposições que se constituem ligadas com o mercado do “bem-estar” e de “desenvolvimento pessoal”.

Minha atividade de ensino na universidade consiste em lecionar em todos os níveis de formação. Sendo “professora universitária”, supervisiono estudantes de doutorado que desenvolvem teses sobre temas variados, mas ligados a questões de socialização. Também sou responsável pelo Master II, acabei de deixar a responsabilidade da coordenação do Master em Sociologia (que compreende vários percursos), bem como a corresponsabilidade da equipe MEPS (Modos, espaços e processos de socialização). A equipe MEPS continua o projeto de reflexão acadêmica sobre o conceito de socialização, do antigo GRS. O interessante é que a equipe não é especializada em um domínio, mas desenvolve um programa, uma “problemática”, visando analisar os processos de socialização nos espaços, nos contextos variados. A equipe se interessa, notadamente, pelos diferentes processos de socialização que os indivíduos atravessam, questiona como esses processos se reforçam mutuamente e se distinguem ou se contradizem, e quais os efeitos que isso tem sobre as trajetórias das pessoas. Essas perspectivas nos levam a estudar a socialização em todas as etapas da vida (infância, velhice, etc.) e em diversas categorias sociais. É uma questão igualmente importante falarmos sobre as dimensões objetivas e subjetivas da socialização, no momento em que as situações sociais se modificam. Os membros da equipe se interessam pelas bifurcações nas carreiras profissionais, pelas entradas em uma profissão, pela formação dos estudantes, pelos estudos urbanos, pelas mudanças de domicílio, pelas maneiras de habitar, pelo lugar das crianças em espaços urbanos, pela socialização econômica de jovens, pelos percursos amorosos, pelas socializações institucionais (tornar-se militar, por exemplo), pela escola, pelos cuidadores de doentes, etc.

Em 2006, apresentaste na Universidade Lumière Lyon 2 uma síntese dos seus trabalhos com vista a obter habilitação para dirigir pesquisas, sob o título Sociologie des formes et des processus de socialisation: corps, espace, genre et politique (Sociologia das formas e processos de socialização: corpo, espaço, gênero e política). Quando iniciaste no GRS e como foi essa entrada? Quais foram suas principais colaborações dentro deste Grupo?

Eu sou membro do GRS (Groupe de Recherche sur la Socialisation) desde a minha tese, defendida em 1998. O fato de obter minha habilitação para orientar pesquisas6 apresentando esta síntese, não modificou minha participação no GRS e depois na equipe MEPS. Quando eu era estudante, participei de uma pesquisa com Bernard Lahire e Daniel Thin. Estas pesquisas enfocaram a escola e, mais particularmente, os percursos escolares de crianças de contextos desfavorecidos, sobre as condições para o sucesso escolar dessas crianças e adolescentes. Mais tarde, escrevemos um artigo com Daniel Thin sobre as associações de mulheres em meios populares. Neste artigo, analisamos as modalidades de socialização dessas associações sobre os habitantes provenientes principalmente da imigração, na França. Mostramos como o ponto de vista dessas mulheres é reforçado, apoiado nas associações que observamos, e como este trabalho de apoio coletivo comporta uma dimensão militante no sentido de ajudá-las a formular reivindicações em relação às instituições.

Mais recentemente, com Daniel Thin, coordenamos um livro publicado em dezembro de 2019, e envolvendo vários membros da equipe MEPS: S’en sortir malgré tout. Parcours en classes populaires (Sair disso, apesar de tudo: percursos em classes populares), Edições La Dispute, com os autores (além de nós): Julien Bertrand, Laurence Faure, Eliane Le Dantec, Pierre Gilbert, Gaële Henri-Panabière, Mathias Millet, Frédéric Rasera. Questionamos como as pessoas de origens desfavorecidas conseguem sair de situações precárias, quais são os recursos utilizados, recursos relacionais, de saber fazer, etc. Mas também, quais são as restrições, as impossibilidades de se livrar das difíceis condições sociais. Além disso, com Marie-Carmen Garcia, realizamos essa pesquisa sobre a dança Hip-Hop. Estávamos lidando com a cultura Hip-Hop a partir da dança, observando como na França essa dança havia sido objeto de interesse pelas autoridades públicas que viam nela possibilidades de ajudar jovens dos meios desfavorecidos a se inserir socialmente. Eu tenho ex-alunos que também se tornaram professores-pesquisadores na minha universidade. Alguns fazem parte do MEPS (Modos, espaços e processos de socialização), como Frédéric Rasera, Abir Krefa e Rémi Deslyper, que trabalha nas ciências da educação.

O Groupe de Recherche sur la Socialisation, criado em 1976 tem, desde janeiro de 2011, uma nova configuração ao passar por uma fusão e integrar-se ao laboratório Centre Max Weber. Poderias discorrer como foi essa transformação, por exemplo, em seis equipes, e por quais razões?

Esta é uma questão política. O Ministério de Pesquisa, na França, queria que os laboratórios se reagrupassem (reunissem) sob o princípio da territorialização: os laboratórios lionençes foram, portanto, obrigados a se reagrupar. Como o GRS era relativamente importante, dividimos o grupo em duas equipes, uma pertencente à Universidade Lyon 2 (a equipe 6, da qual faço parte) e a outra à Escola Nacional Superior de Lyon (a equipe 5, com Bernard Lahire). Essa equipe 5 intitula-se “Dispositions, pouvoirs, cultures, socialisations” (Disposições, poderes, culturas, socializações) e privilegia uma sociologia disposicionalista e contextualista, observando como o passado, incorporado às experiências de socialização, age no presente em um contexto de ação em que ele mesmo fornece restrições, e solicita mais ou menos “tal ou tal” disposição.

A equipe 1 “Travail, institutions, professions, organisations” (Trabalho, instituições, profissões, organizações) tem por objeto o trabalho e suas mutações ligadas, notadamente, à globalização das atividades produtivas, ao surgimento de tecnologias, ao modo de gestão das empresas. A equipe 2 “Dynamiques sociales et politiques de la vie privée” (Dinâmicas sociais e políticas da vida privada) trata das evoluções da vida privada, dos laços familiares, de parentesco e das adaptações institucionais que decorrem dessas mutações. A equipe 3 “Politiques de la connaissance: savoirs situés et enjeux démocratiques” (Políticas do conhecimento: saberes situados e problemas democráticos) considera o corpus de conhecimentos (acadêmicos e profanos) como também tomadas de posições no e sobre o mundo. A equipe 4, “Cultures publiques” (Culturas públicas) olha as memórias, a patrimonialização, os imaginários urbanos, o lugar dos marginalizados no espaço público, as mulheres nos espaços sociais.

Seria possível destacar o foco condutor das pesquisas e da produção acadêmico-científica do GRS no período de 1976 a 2010? As pesquisas sobre processos de socialização foram perdendo sua representatividade ou continuam fortes?

Os membros do GRS trabalharam com a noção de socialização como fio condutor, mas explorando esse conceito em diferentes áreas/domínios: família, educação escolar, questões urbanas, mobilidades sociais, questões de imigração, especialmente. Hoje, os membros das duas equipes (5 e 6) prosseguem seus questionamentos em uma direção semelhante e sempre em domínios variados. Existe uma forte proximidade entre nós, devido à nossa “cultura” científica, nos modos de pensar o mundo social, nos modos de conduzir pesquisas. Primeiramente, não fazemos sociologia especializada, nós nos concentramos sobre um projeto mais global, neste sentido, como os indivíduos ou grupos socialmente situados são formados, transformados, agem, desenvolvem suas práticas em contextos, segundo seu passado incorporado, na confrontação entre as socializações anteriores e as socializações atuais. Isso pode conscernir ao exercício da profissão de jogador de futebol, aos alunos aprovados no CAP7, aos estudantes, professores, às atividades artísticas, às maneiras de viver em contextos residenciais, ou quando se conhece uma mobilidade geográfica. Um segundo aspecto é a preocupação com os métodos e uma forte reflexividade metodológica: entrevistas, observações, pesquisas etnográficas, análises estatísticas.

Mais recentemente, a partir de 2011, qual tem sido o foco condutor das pesquisas e da produção acadêmico-científica do laboratório Centre Max Weber (CMW)? Como se configura hoje? As pesquisas sobre processos de socialização foram perdendo sua representatividade ou continuam fortes?

O reagrupamento não modificou muito as maneiras de fazer que eram próprias a cada antigo laboratório. O paradoxo é que nós podemos trabalhar sobre domínios semelhantes (por exemplo, as questões urbanas), mas com abordagens que são totalmente diferentes. Restam, se pudermos colocar dessa maneira, “identidades” específicas sobre o que fazer com o que a pesquisa sociológica quer dizer, específicas ao significado da pesquisa sociológica. Às vezes, pelo contrário, em diferentes campos/domínios, com alguns membros de outras equipes que não trabalham sobre a socialização, podemos encontrar fortes proximidades no modo de pensar e de praticar a pesquisa em sociologia. É o caso, mais particularmente, entre as equipes 5 e 6. As diferenças com as outras situam-se no nível das epistemologias, entre as sociologias pragmatistas, não olhando necessariamente o passado incorporado dos indivíduos, das sociologias envolvidas, levando o interesse, principalmente, sobre como responder a uma demanda social. Ou ainda, sociólogos que não tratam dos percursos sociais, mas que têm por objeto as políticas culturais globais, os dispositivos (arranjos) institucionais, ou analisam lógicas discursivas gerais, como as controvérsias sobre, por exemplo, o meio ambiente.

Como se realiza a comunicação interna entre as seis equipes do CMW? Cada uma das equipes gerencia suas atividades de pesquisa e divulgação? Como se organizam as dinâmicas do laboratório CMW?

Cada equipe dispõe de um orçamento próprio. Estamos instalados em locais às vezes comuns. Por outro lado, são organizadas reuniões e seminários transversais com as equipes para estabelecer uma identidade comum. A dificuldade é que trabalhamos em três espaços: no centro da cidade de Lyon (Instituto de ciências do homem), em Bron (fora de Lyon), na Universidade Lyon 2, onde se encontra notadamente o MEPS, com seus escritórios, sua biblioteca e, finalmente, na Escola Nacional Superior, localizada em outro bairro de Lyon. De fato, além dos colegas que trabalham no departamento de antropologia, sociologia e ciência política, que fica no campus de Bron, nós temos poucas ocasiões de nos encontrarmos em grande número. Portanto, é necessário “provocar” reuniões coletivas. A situação que acabamos de encontrar com a pandemia do Covid-19 nos forçou, ainda mais, pois passamos por um longo período de confinamento em que, no momento em que escrevo estas linhas, ainda não podemos voltar aos nossos locais de trabalho. Então, nos comunicamos por videoconferências que, apesar de tudo, limita o número de “pessoas”.

Especificamente em relação à equipe que participas - Modes, espaces et processus de socialisation, quais têm sido os temas de interesse dos jovens pesquisadores? Como se configura a dinâmica especificamente desta equipe, quem participa do grupo? Há um projeto de formação dentro da equipe MEPS? Como é a admissão no grupo?

Organizamos seminários de equipe várias vezes ao ano, convidando pesquisadores externos e membros de nossa equipe que podem igualmente apresentar seus trabalhos. Criamos um “atelier metodológico” que estimula estudantes de doutorado e de Master II a falar sobre suas pesquisas, dificuldades, metodologias, etc. Os estudantes também participam, sempre que possível, de pesquisas conduzidas por professores-pesquisadores. Cada professor-pesquisador também ministra cursos de treinamento em sociologia na nossa UFR (unidade de formação e pesquisa). Nosso trabalho implica, com efeito, articular ensino e pesquisa, e temos um forte período de presença nos cursos, somos bastante mobilizados na supervisão do trabalho de estudantes, nas responsabilidades pedagógicas no seio de nossa UFR, no monitoramento e validação dos estudantes. Eu diria mesmo que a parte de ensino, desde vários anos, teve precedência sobre o tempo consagrado à pesquisa. As missões administrativas e pedagógicas não cessaram de aumentar. Isso é pouco “visto” no sentido em que, paradoxalmente, essas tarefas são menos valorizadas em uma carreira individual, enquanto que conduzir pesquisas, publicar artigos e livros constituem a parte a mais visível, porque é a mais valorizada. Os estudantes, em sua maioria, não percebem essas implicações pedagógicas e os apoios que se dá às suas trajetórias: ler, reler, aconselhar, escrever cartas de recomendação, reler suas comunicações, artigos, indicá-los para cargos, etc., mas também para criar o que é chamado de “modelos de formação”, avaliar esses modelos ao fim de 3-4 anos, modificá-los, equilibrar orçamentos, participar de bancas, relatórios de avaliação, etc. É necessário dizer que os estudantes estão extremamente preocupados com o seu futuro e as possibilidades de obter uma posição estável. A política de ensino superior na França reduziu fortemente essas possibilidades, os jovens pesquisadores franceses conhecem grandes dificuldades, uma forte precariedade há vários anos. Uma nova política tenta, atualmente, ser colocada, o que vai desestabilizar ainda mais as carreiras dos jovens. Ela visa tirar, o máximo possível, essas carreiras da função pública, para fazer uma lógica de contrato temporário. Visto este contexto político, devo confessar que hesito em incentivar os jovens estudantes a continuarem no caminho do ensino e da pesquisa. Eu não sei qual futuro se desenha para eles. Nós continuamos, assim mesmo, nossas missões. No ateliê metodológico, por exemplo, os estudantes falam de seus campos de pesquisa, de suas entrevistas ou de seus materiais. Nós examinamos como analisá-los, o que eventualmente falta em seus materiais; nós procuramos, juntos, referências que possam ajudar a fazer a análise ou a abrir possibilidades interpretativas. Uma dificuldade da pesquisa, quando refletimos em termos de “socialização”, é que, para dar-se conta dos processos e das modalidades de socialização, é necessário fazer investigações muito aprofundadas, não se contentar com alguns elementos retirados de uma entrevista. É necessário fazer falar, de maneira detalhada, as práticas, seus contextos, o passado dos indivíduos. É necessário também ousar nas interpretações e, muitas vezes, retomar as entrevistas, ou mais exatamente, refazer um encontro com as pessoas interrogadas para ter mais elementos de compreensão, após ter de analisar as hipóteses. A socialização envolve, na minha opinião, mais uma postura de um etnógrafo, de aprofundamento de um campo observado, de entrevistas repetidas que uma análise quantitativa, mesmo se ela for também necessária, para fazer comparações entre categorias sociais, notadamente. Digamos que de é uma combinação fundamentada de metodologias que se trata. Às vezes, os estudantes têm dificuldade em compreendê-la, eles gostariam de fazer um número importante de entrevistas, mas nem sempre refletindo sobre o interesse de um tal número. Ou, ao contrário, eles seriam tentados por poucas entrevistas, bem aprofundadas, mas sem o recuo necessário para que essas entrevistas façam sentido. Trabalhar sobre a socialização é, então, complicado, se fizermos um programa de pesquisa e não somente uma noção geral utilizada unicamente para dizer que os indivíduos são formados e transformados nos e pelos contextos sociais, e não reduzirmos a socialização a uma questão de aprendizado de normas e de valores.

Muriel Darmon 8 , socióloga e pesquisadora do CNRS - Centre National de la Recherche Scientifique, do GRS e atualmente integrante da equipe do CMW - Dispositions, pouvoirs, cultures et socialisations, chamou atenção para o conceito de socialização, central no GRS. Se, de um lado, o tema constitui-se em um clássico na sociologia, por outro, nos dias atuais ele conhece renovações importantes? E, nessa direção, de que formas os trabalhos de pesquisa conduzidos no atual laboratório do Centre Max Weber (equipe MEPS) têm pensado/conceituado a noção de socialização?

Nosso desejo não é fechar o conceito de socialização, mas fazê-lo funcionar a partir de trabalhos empíricos, em diferentes “campos”. Nesse sentido, a noção evolui, assume significados específicos de acordo com esses campos de pesquisa. Eu acredito que o progresso, os avanços mais claros, foram os de abandonar a divisão entre a socialização primária e a socialização secundária para pensar em socialização “contínua”, olhar mais de perto as questões de gênero, urbanidade, pensar em processos de socialização que podem ser (para um mesmo indivíduo) heterodoxos, às vezes contraditórios, “plurais”. Os colegas também se voltam às questões da infância, mostrando que existem infâncias (socialmente diferentes) com socializações muito diferenciadas. A questão das instituições e da política também tem sido uma grande preocupação. A questão é como são implementados os arranjos institucionais (conduzidos por orientações políticas) e como eles orientam os modos de vida, as condições sociais dos grupos sociais ou de indivíduos específicos. Essa é uma questão complexa, pois, nas pesquisas, é necessário apreender ao mesmo tempo os dispositivos institucionais, suas mudanças ao longo do tempo, sua reapropriação em contextos e em conexão com orientações políticas, investigando os indivíduos ou grupos afetados por esses dispositivos. Em nosso livro mais recente, S’en sortir malgré tout, ela está no centro das interrogações. Trata-se de mostrar que os dispositivos visando os meios desfavorecidos são conduzidos por atores institucionais que pertencem a outras classes sociais, e que têm categorias de percepção e julgamento singulares sobre o que são as populações em dificuldades. Elas falam dos meios desfavorecidos de maneira particular, e esses discursos têm efeitos práticos, que não são apenas maneiras de dizer, de nomear. Esses discursos oscilam entre miserabilidade e populismo, as populações em dificuldade sendo principalmente qualificadas como “frágeis”, “necessitadas (em falta)”, “vulneráveis”, e os dispositivos implementados serão, preferencialmente, individualizados, mais ou menos sustentar indivíduos, mas não trabalhar ações globais (como as políticas da cidade, do emprego, escolares, políticas de longo prazo). Serão, por exemplo, dispositivos de “retorno ao emprego” visando basicamente transmitir uma moral: torne-se responsável e autônomo! Multiplique suas pesquisas de emprego! Não seja assistido!

Se o GRS se caracterizava por ser um grupo com forte implicação nas trocas científicas internacionais, o Centre Max Weber mantém esta tradição9? Quais são as trocas objetivas vinculadas ao CMW, especificamente a equipe MEPS? Há a realização de seminários, encontros, bem como publicações e projetos junto a outras equipes ou grupos?

Não poderia dar uma visão global sobre esse assunto. Mas, é claro, as equipes estão profundamente interessadas em colaborações internacionais e publicações internacionais. Nós trabalhamos em particular para receber colegas estrangeiros. Para se ter uma ideia, entre 2014 e 2019, vários membros do MEPS tiveram missões no exterior, foram convidados para universidades na Alemanha, Bélgica, Brasil, Canadá, China, Colômbia, Coréia do Sul, Espanha, Itália, Suíça, Polônia, e no Catar. Três colegas estrangeiros foram acolhidos para ministrarem cursos e conferências, incluindo Kadma Marques Rodrigues10, professora da Universidade Estadual do Ceará. Ela também me recebeu em sua universidade durante duas semanas, e Daniel Thin foi professor convidado por quatro meses. Onze artigos foram publicados em língua estrangeira, três artigos foram publicados em revistas estrangeiras, assim como três capítulos de obras. Em torno de vinte comunicações foram feitas no exterior.

Vocês conhecem outros grupos e/ou pesquisadores que, em outras partes do mundo, têm se dedicado às teorias sociológicas da socialização?

Há vocês e seu grupo de pesquisa! Em Fortaleza, o trabalho de uma das minhas antigas estudantes de doutorado segue em parte essa lógica: trata-se de Anne-Sophie Marie Frédérique Gosselin11 que é professora adjunta ao Instituto das Humanidades (IH) da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (UNILAB), Ceará. O conceito de socialização é frequentemente empregado, por certo, mas geralmente com um sentido geral, pouco preciso, ou muito normativo, ou mesmo estruturalista. Ora, a sociologia da socialização se interessa por processos de acionar subjetiva e objetivamente os indivíduos, tratando seriamente das condições desses acionamentos, nas diferenças interindividuais, mas igualmente nas possíveis contradições no seio do indivíduo segundo sua trajetória, o seu tornar-se confrontado com o passado. Trata-se também de compreender as modalidades de socialização: como se é socializado? Pelo corpo - imitação, diferenciação, distinção, conhecimento, - pela linguagem, - pelos aspectos emocionais e afetivos, - em condições sociais particulares. Em resumo, essas questões necessitam pesquisas aprofundadas, que não podem ser sempre extensivas (cobrir um número muito grande), tendo um material de pesquisa sério a partir do qual é possível fazer comparações, extrair evidências analíticas objetivas.

A equipe MEPS, da qual você é pesquisadora, visa analisar as formas de socialização e seus efeitos sobre os indivíduos ou grupos. Além disso, outra via centra-se sobre a análise das formas de consonância, dissonância e confronto entre as lógicas socializadoras. O que poderíamos explicar sobre essas formas de consonância, dissonância e confronto?

Essas são questões elaboradas e trabalhadas por Daniel Thin. Voltando ao que eu disse anteriormente, a socialização não é um rio longo, fluido e tranquilo. Por exemplo, Daniel Thin mostrou como a socialização de crianças oriundas dos meios populares se confrontava com a socialização escolar. Existem, assim, padrões/esquemas de pensamento, de ação, modos de ser, de aprender, que nem sempre são adequados, dependendo do contexto. Mas seria melhor pedir esclarecimentos a Daniel Thin.

Para se pensar a noção de socialização frente à realidade da vida contemporânea, quais seriam os desafios, alcances e limites das pesquisas atuais desenvolvidas no contexto do CMW?

Boa pergunta! Acredito que devemos estar sempre vigilantes sobre as realidades sociais, as desigualdades sociais, as relações de dominação, a imposição de novas normas, especialmente às relacionadas ao pensamento liberal, altamente individualizantes e psicologizantes, que colocam a responsabilidade das dificuldades sociais nos indivíduos, sugerindo que aqueles/as que estão em dificuldade são responsáveis por sua precariedade. É, aliás, nesse sentido que publicamos, em dezembro de 2019, sob a direção de Daniel Thin e minha também, este livro do qual eu vos falei um pouco anteriormente, que se chama: S’en sortir malgré tout. Parcours en classes populaires (Paris, La Dispute, 2019), com sete de nossos/as colegas (Mathias Millet, Frédéric Rasera, Laurence Faure, Eliane Le Dantec, Pierre Gilbert, Julien Bertrand, Gaël Henri-Panabière) e no qual esses temas são trabalhados. A questão geral é: face às dificuldades econômicas, à desqualificação social, à degradação das condições de existência, como os grupos sociais desfavorecidos fazem para saírem dessa condição, como eles podem mobilizar recursos, se relacionar com atores institucionais para obter algumas vantagens ou auxílios e, de maneira mais ampla, como eles podem ter suportes relacionais? Mostramos a importância dos recursos locais, de proximidade nas situações as mais difíceis. Este livro apoia-se sobre diferentes pesquisas empíricas: abandono escolar precoce, jovens que entram nos dispositivos institucionais de auxílio, realojamento forçado em bairros desfavorecidos, famílias numerosas e a escolaridade de seus filhos, etc. Mostramos que, para que os recursos pessoais (relacionais, familiares...) possam agir, é necessário que a situação social dos indivíduos seja estabilizada, que as pessoas não estejam na urgência temporal da precariedade e que os atores institucionais reconheçam os indivíduos, atribuindo-lhes uma qualificação simbólica, mais que de julgá-los ausentes, “não autônomos”, “assistidos”. De fato, contrariamente aos discursos políticos atuais, que consideram que as dificuldades sociais são de responsabilidade dos indivíduos que as vivem, que é de sua responsabilidade sair da pobreza ou do seu estado precário, nós mostramos que essas pessoas têm conhecimento - competências, qualificações diversas, disposições que permitiriam manterem-se fora da pobreza, na condição que, ao mesmo tempo, as políticas trabalhem para estabilizar os percursos de formação, escolares, de saúde, moradia e emprego.

Finalmente, nestes tempos difíceis de pandemia, como está indo a pesquisa sobre socialização dentro da equipe MEPS? Não hesite em trazer as dificuldades, limitações, interesses e possibilidades para discutir este assunto.

Na França, ficamos confinados em domicílio durante dois meses; depois, gradualmente, as atividades externas puderam retomar, mas a universidade ainda permanece - no momento em que eu vos escrevo essas linhas, ou seja, três meses e meio após o confinamento - fechada. É principalmente para o acompanhamento dos estudantes que as dificuldades apareceram. No começo, eles tomaram contatos à distância (links remotos), eu coloquei cursos on-line, fiz vídeos, eles me escreviam e eu corrigia os trabalhos que eles me enviavam, nós os discutíamos. Após, com o tempo, esses contatos se desfizeram. Alguns continuam mantendo as trocas, sobretudo os estudantes de tese. É necessário dizer que o ano acadêmico termina nesses meses de maio-junho (2020), nós fazemos as validações de exames (feitas à distância). Para a pesquisa e para a equipe, os contatos se fazem através de videoconferências. Isso não apresenta grandes problemas. No entanto, nós tivemos que cancelar os seminários e conferências que havíamos programado. Pessoalmente, aproveitei esses tempos perturbados para avançar minha pesquisa, conduzida com minha colega Stéphanie Tralongo (do MEPS) sobre as práticas de bem-estar e de meditação (a socialização no bem-estar). Realizamos um questionário on-line e pudemos realizar entrevistas por telefone. Existem, portanto, prós e contras: cancelamentos de atividades coletivas presenciais mas, também, por outro lado, tempo livre para trabalhar de outra maneira. Eu não temi esse confinamento, ao contrário. Eu percebi que a organização do tempo era mais fácil, mais propícia ao trabalho. Eu sou uma privilegiada, agradeço muito a vocês por essa troca.

Referências

DARMON, Muriel. La socialisation. 3.ed. Paris: Armand Colin, 2016. [ Links ]

FAURE, Sylvia. Apprendre par corps: socio-anthropologie des techniques de danse. Paris: La Dispute, 2000. [ Links ]

FAURE, Sylvia. Corps, savoir et pouvoir: sociologie historique du champ chorégraphique. Lyon: Presses Universitaires de Lyon, 2001. [ Links ]

FAURE, Sylvia; GARCIA, Marie-Carmen. Culture hip-hop, jeunes des cités et politiques publiques. Paris: La Dispute, 2005. [ Links ]

LAHIRE, Bernard. A fabricação social dos indivíduos: quadros, modalidades, tempos e efeitos de socialização. Educação e Pesquisa, São Paulo, v. 41, n. esp., p. 1393-1404, dez. 2015. [ Links ]

Bibliografia selecionada pela autora

ECKERT, Henri; FAURE, Sylvia (dir.). Les jeunes et l’agencement des sexes. Paris: La Dispute, 2007. [ Links ]

FAURE, Sylvia. Apprendre par corps: socio-anthropologie des techniques de danse. Paris: La Dispute, 2000. [ Links ]

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FAURE, Sylvia. Écrivaines amateurs et écritures biographiques en ateliers d’écriture. SociologieS, Théories et Recherches, nov. 2017. URL: http://journals.openedition.org/sociologies/6295Links ]

FAURE, Sylvia; GOSSELIN, Anne-Sophie. Apprendre par corps: le concept à l’épreuve de l’enquête empirique. Exemple des jeunes danseurs des favelas. Regards Sociologiques, n. 35, p. 27-36, 2008. [ Links ]

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FAURE, Sylvia; THIN, Daniel. Femmes des quartiers populaires, associations et politiques publiques. Politix, n. 78, p. 87-106, juil. 2007. [ Links ]

FAURE, Sylvia; THIN, Daniel (dir.). S’en sortir malgré tout: parcours en classes populaires. Paris: La Dispute, 2019. [ Links ]

4- No original: 1) Travail, Institutions, Professions, Organisations; 2) Dynamiques sociales et politiques de la vie privée; 3) Politiques de la connaissance: savoirs situés et enjeux démocratiques; 4) Cultures publiques; 5) Dispositions, pouvoirs, cultures, socialisations e 6) Modes, espaces et processus de socialisation.

5- Um agradecimento especial à Sylvia Faure pela acolhida na Universidade Lumière Lyon 2 durante minha estadia no mês de novembro de 2018, em Lyon, para que pudesse realizar pesquisa nos arquivos do Groupe de recherche sur la socialisation. Também, agradeço a Daniel Thin que, aposentado de suas atividades na Universidade Lumière Lyon 2, não poupou esforços e me encaminhou à professora Sylvia Faure para acesso à biblioteca do atual Centre Max Weber.

6- Na França, para orientar pesquisas de doutorado, é necessário possuir uma HDR, ou seja, Habilitation à diriger des recherches. Este “credenciamento para supervisionar pesquisas” é uma qualificação exigida em muitos países europeus, por meio de um exame universitário, informalmente considerada como uma segunda tese.

7- De acordo com a autora, Certificat d’Aptitude Professionnelle, ou seja, um Certificado de Aptidão Profissional (corresponde ao início do ensino médio).

8- Ver pág. 126 do Cahiers de Recherche n. 21 (2006): Grupo de Pesquisa sobre a Socialização. Unidade mista de pesquisa CNRS (UMR 5040). Universidade Lumière Lyon 2. Escola Normal Superior de Letras e Ciências Humanas. Atividades 2003-2006 e projetos científicos 2007-2010.

9- Hoje institucionalmente ligado a quatro tutelas - Centre National de la Recherche Scientifique – CNRS, a École Normale Supérieure de Lyon, a Universidade Jean Monnet Saint-Étienne e a Universidade Lumière Lyon 2.

10- Kadma Marques Rodrigues http://lattes.cnpq.br/3107963339537100.

11- Deixamos aqui, também, um agradecimento especial à pesquisadora Anne-Sophie Marie Frédérique Gosselin, http://lattes.cnpq.br/1025256038914826. Sua leitura final da entrevista oportunizou um refinamento e maiores esclarecimentos em relação ao contexto francês, no momento da tradução.

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