SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.11 issue3Periphytic diatoms on Potamogeton polygonus Cham. & Schltdl.: first records from Paraná StateHydroid fauna (Cnidaria, Hydrozoa) from the region of Bombinhas, Santa Catarina, Brazil author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Article

Indicators

Related links

Share


Biota Neotropica

On-line version ISSN 1676-0603

Biota Neotrop. vol.11 no.3 Campinas July/Sept. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S1676-06032011000300026 

INVENTÁRIOS

 

Avifauna do Parque Estadual de Vila Rica do Espírito Santo, Fênix, Paraná

 

Birds species composition of the Vila Rica do Espírito Santo, Fênix, Paraná

 

 

Pedro Scherer NetoI, *; Arthur Angelo BispoII

IMuseu de História Natural "Capão da Imbuia", Rua Benedito Conceição, 407, CEP 82810-080, Curitiba, PR, Brasil
IILaboratório de Ecologia Teórica e Síntese, Universidade Federal de Goiás – UFG, Goiânia, GO, Brasil

 

 


RESUMO

A avifauna do Parque Estadual de Vila Rica do Espírito Santo foi estudada a partir de 1982 até o ano de 2007 com a finalidade de obter a sua composição de espécies de aves. Situado no município de Fênix, no estado do Paraná, essa unidade de conservação está inserida em uma região cuja paisagem é um mosaico de fragmentos da floresta Estacional Semidecidual entre extensas áreas destinadas ao plantio de grãos, cana-de-açúcar e pastagens. Possui uma área de 354 ha recoberta em sua maioria por uma floresta secundária em estádio avançado de regeneração e por capoeiras. O inventário foi realizado utilizando em conjunto os métodos de reconhecimento visual e auditivo e por capturas com redes ornitológicas, durante quatro períodos, uma primeira amostragem em 1982, o segundo período com 40 expedições a campo entre 1986 e 1999 e o terceiro e quarto períodos conduzidos, respectivamente, de 2002 a 2003 e 2006, totalizando em mais 16 expedições. Esta pesquisa revelou a ocorrência de 259 espécies de aves distribuídas em 55 famílias e 22 ordens. A predominância de espécies representantes da ordem Passeriformes e da subordem dos Suboscines sugere que a assembléia de aves do parque é caracterizada por elementos silvícolas. Esse ambiente é o mais representativo no parque e abriga o maior numero de espécies, 189 espécies, destacando-se a ocupação por aves tamnícolas (164 spp.), corticícolas (14 spp.) e terrícolas (11 spp). O PV por abrigar 14 espécies ameaçadas de extinção e uma alta riqueza de espécies apresenta uma alta importância na paisagem regional como uma unidade de conservação. Essa paisagem composta por alguns remanescentes é fundamental para a manutenção da diversidade local, ainda mais quando essas florestas estão protegidas de alguma forma, como o caso do Parque Estadual Vila Rica do Espírito Santo que é uma unidade de conservação de uso restrito.

Palavras-chave: assembléia de aves, inventário, floresta Atlântica, conservação.


ABSTRACT

The avifauna of Vila Rica do Espírito Santo State Park (PV) was studied from 1982 until 2007 in order to obtain the bird species composition. This protected area is located in in Fênix, a Parana state municipality that is inserted in a region whose landscape is a mosaic of patches of semideciduous forest and extensive areas of grain crops, sugar cane and pasture. It has an area of 354 ha covered mostly by second growth with mature characteristics and some places with primary sucession. The inventory was conducted using the methods of visual and aural recognition of bird species together captures with mist nets, during four periods. First, in 1982 with one expedition, the second period with 40 field expeditions between 1986 and 1999 and the third and fourth periods conducted respectively, from 2002 to 2003 and 2006, totaling in more 16 expeditions. This research has results in the record of 259 species of birds belonging to 55 families and 22 orders. The predominance of species of the Passeriformes order and Suboscines suborder suggests that the bird assemblage of the PV is characterized by forest elements. This environment is the most representative in the study area and has the largest number of species, 189 species, which are branches species (164 spp.), trunk species (14 spp.) and ground species (11 spp.). The PV has 14 endangered species and high species richness and this way present an important role on the regional landscape as a protected area. This landscape composed by some patches is fundamental to maintenance of local diversity, especially when these forest are protected in some way, as the case Vila Rica do Espírito Santo State Park which is a protected area with restricted use.

Keywords: bird assemblages, inventories, Atlantic forest, conservation.


 

 

Introdução

O estado do Paraná possui uma combinação dos biomas Floresta Atlântica, Cerrado e Campos que possibilita uma elevada riqueza de espécies de aves no estado (660 espécies) (Scherer-Neto & Straube 1995, Straube & Urben-Filho 2001). Dos biomas encontradas no estado, a Floresta Atlântica é o mais representativo com uma cobertura vegetal natural que cobria cerca de 85% do território do estado e que com o passar dos anos, tornou-se um mosaico de pequenos conjuntos de remanescentes florestais, intercalados com grandes áreas modificadas pelo homem, representadas por monoculturas e demais atividades agro-pastoris (Pichorim & Boçon 1996, Anjos 1998, Bornschein & Reinert 2000). A formação mais afetada deste bioma pelo expansionismo agrícola, a Floresta Estacional Semidecidual, ficou reduzida a pequenos e esparsos fragmentos, distribuídos ao longo da sua área de distribuição (Maack 1981), restando, hoje menos de 5% da área total original (Anjos 1998, Mikich & Silva 2001). Essa destruição do habitat é uma das maiores ameaças à fauna do estado do Paraná (vide Mikich & Bérnils 2004), sendo assim o estabelecimento de areas protegidas nos domínios desse tipo florestal é uma ferramenta efetiva para a conservação de sua fauna (Goerck 2006).

O noroeste do estado, composto principalmente pela Floresta Estacional Semidecidual, é uma das áreas consideradas prioritárias que necessitam de pesquisas ornitológicas sistemáticas no estado (Straube & Urben-Filho 2001). Poucos foram os estudos realizados nesta região, mesmo em unidades de conservação tal como o Parque Estadual de Vila Rica do Espírito Santo. Nesse contexto, esse estudo teve como objetivo inventariar a assembléia de aves dessa unidade de conservação durante um longo período de amostragem e caracterizar sua composição específica de acordo com a sua freqüência de ocorrência, distribuição no ambiente, em relação aos hábitos migratórios e a presença nas categorias de espécies ameaçadas de extinção.

 

Material e Métodos

1. Área de estudo

A região de estudo localiza-se no município de Fênix, situado no terceiro planalto paranaense (Figura 1). O relevo é suavemente ondulado e a altitude média é de 650 m (ITCF 1987). O clima da região é subtropical úmido mesotérmico ou Cfa (Köppen), com temperatura média dos meses mais quentes superior a 22 oC e dos meses mais frios, inferior a 18 oC. Os verões são quentes e as geadas pouco freqüentes, com tendência de concentração de chuvas entre os meses de dezembro e fevereiro, sem estação seca definida (ITCF 1978, Maack 1981).

O Parque Estadual Vila Rica do Espírito Santo (PV), com 354 ha, está localizado nas confluências dos rios Ivaí e Corumbataí (23º 55' S e 51º 57' O) (Figura 1). O PV apresenta formato aproximadamente regular e em sua maior parte (75%) está recoberto por floresta secundária em estádio avançado de regeneração, que resultou do abandono da cidade colonial espanhola de Villa Rica Del Espiritu Santo no ano de 1632 (Mikich & Silva 2001). Além do ambiente floretal em diferentes estágios de regeneração em seu interior ainda pode ser encontrado um lago artificial e este remanescente está inserido em uma matriz composta por áreas cultivadas, pricipalmente com milho e soja, por pastagens entre outros remanescentes florestais (Mikich & Silva 2001) (Figura 1).

2. Coleta dos dados

Os estudos com o objetivo de conhecer a avifauna no PV iniciaram-se em 1982 resultando na primeira listagem de espécies do parque. Os registros foram feitos com base em métodos tradicionais da pesquisa ornitológica, ou seja, identificação das aves por reconhecimento visual e/ou auditivo durante caminhadas por estradas e trilhas existentes neste parque ou por navegação nos rios Ivaí e Corumbataí. As observações foram conduzidas principalmente durante o dia, embora amostragens noturnas tenham sido eventualmente realizadas.

Entre 1986 e 1999 foram realizadas 40 expedições a esta unidade de conservação, com duração de até quatro dias, representando o maior esforço das investigações ornitológicas do PV. Em agosto de 1991, além dos registros visuais e auditivos, teve início um programa de captura e recaptura de aves com auxílio de redes ornitológicas, incluindo a marcação de indivíduos com anilhas metálicas alfa numérica fornecidas pelo Centro Nacional de Pesquisa para Conservação das Aves Silvestres (CEMAVE). Com isso, aumentou a probabilidade de registro de algumas espécies crípticas.

O terceiro e o quarto período de estudos avifaunísticos foram conduzidos, respectivamente, de 2002 a 2003 (12 campanhas) e em 2006 (quatro campanhas). Nessas etapas, as amostragens foram mais pontuais, realizadas em três parcelas de 1 ha, que foram selecionadas no interior do parque, de modo a inventariar a avifauna das subformações aluvial e submontana. Nessas parcelas, foram realizados registros visuais e auditivos, além de capturas com redes ornitológicas, durante, pelo menos, dois dias/mês.

Independente do período de estudo, a cada amostragem foi gerada uma lista das espécies registradas, permitindo a elaboração de uma listagem geral, além de análises sazonais, por ambiente, bem como a curva de acumulação de espécies (Mao Tau) e a curva de riqueza estimada (Chao 1) (Santos 2004). A freqüência de ocorrência das espécies foi calculada em relação às 57 amostragens, por meio da fórmula FO = f/F. 100, no qual f é o número de fases em que a espécie foi registrada e F é o número total de fases de campo. De acordo com este índice, as espécies foram inseridas em categorias de freqüência, sendo estas: 1) alta, para espécies registradas em mais de 61% das amostragens (n > 35 fases); 2) média, para espécies registradas entre 31 a 60% das amostragens (34 < n > 18), e 3) baixa, para espécies registradas abaixo de 30% das amostragens (n < 17 fases).

A ocupação de ambientes foi baseada na categorização das espécies por Straube (1995), que as divide em terrestres, aquáticas e aerícolas. As terrestres, por sua vez, foram subdivididas em campícolas (habitam áreas abertas), silvícolas (habitam as áreas florestais abrangendo as terrícolas (solo), tamnícolas (ramagem em qualquer estrato florestal) e corticícolas (troncos e cascas de árvores). Já as espécies aquáticas foram subdivididas em natantes (ocupam a lâmina d'água, promovendo natação e/ou mergulhos para a obtenção de alimento) e limícolas (vivem nas margens de corpos d'água com ou sem vegetação circundante). As espécies que usam o espaço aéreo na maior parte do ciclo circadiano foram consideradas aerícolas.

 

Resultados e Discussão

O total de 259 espécies de aves pertencentes a 55 famílias e 22 ordens foram identificadas no PV (Apêndice 1). Esse valor representa 39% do total de aves encontradas no estado do Paraná segundo Scherer-Neto & Straube (1995) e, portanto, revela a importância desta área protegida para a conservação da avifauna paranaense. As espécies registradas no PV dividem-se em 113 (43,6%) não-passeriformes e 146 (56,4%) Passeriformes, o que resulta em uma relação de 0,77:1 (NP/P = 0,773). Em relação às subordens de Passeriformes, foram identificadas 56 espécies (21,6 % da avifauna total) para o subgrupo dos Oscines e 90 espécies (34,7 % da avifauna total) para o subgrupo dos Sub-Oscines. A relação entre estes grupos foi de 1,6:1 (SO/O = 1,607). Baseado nas características dessas ordens e subordens verifica-se que a assembléia de aves do PV é caracterizada principalmente por elementos silvícolas (cf Slud 1976, Willis 1976, Straube 1995, Pichorim & Bóçon 1996, Sick 1997), pois a ordem Passeriformes possui um grande número de espécies com preferência por ambientes florestais, o que deve explicar a sua predominância no PV, enquanto que os não Passeriformes, por serem representados principalmente por espécies de maior porte, geralmente estão distribuídos em ambientes abertos, pouco comuns no interior do parque. Já a subordem Oscines apresenta espécies mais comuns às áreas abertas e bordas, enquanto que os Suboscines representam espécies mais intimamente relacionadas aos ambientes florestais (Haffer 1995 apud Anjos 2001).

A curva de acumulação de espécies gerada não estabilizou ao final de todas as amostragens apesar de ter ocorrido poucos acréscimos nas últimas expedições (Figura 2). A curva de riqueza estimada (Figura 2) sugere que alguns novos registros poderiam ocorrer para o PV. Esta diferença entre a riqueza estimada e a observada foi de 23 espécies o que representa apenas 9% da riqueza total observada. O número de espécies variou conforme o mês de amostragem (Tabela 1) e as flutuações observadas na composição específica no decorrer dos ciclos sazonais são comumente encontradas em estudos ornitológicos (vide Anjos & Graf 1993, Marterer 1996, Abe 1997, Gimenes & Anjos 2000, Bispo & Scherer-Neto 2010), estando às épocas com maiores riquezas relacionadas com a presença de espécies migratórias e com o período reprodutivo das aves durante a primavera e o verão (Anjos & Graf 1993, Gimenes & Anjos 2000).

A análise da freqüência revelou que 66,8% das espécies possuem uma ocorrência baixa (n = 173), 21 % média (n = 54) e 12,2% alta (n = 32). A irregularidade nos registros de muitas espécies pode indicar uma tendência, mas não afirmar que a espécie desapareceu de um determinado local. A configuração ambiental do PV pode fornecer recursos que favorecem a existência e permanência de espécies em sua área, sendo que de acordo com a exigência ecológica de cada espécie essas podem aumentar sua ocorrência localmente. Cada grupo de espécies responde diferentemente aos processos que determinam sua ocorrência no parque. Desta maneira, a baixa freqüência de determinadas espécies pode seguir diferentes fatores.

Como exemplo, foi verificado que muitas espécies, principalmente não-passeriformes, ocorrem ocasionalmente no parque, como o urubu-rei Sarcoramphus papa, e alguns falconiformes em geral são avistados em vôo e muito raramente pousados. Por sua vez, algumas espécies de Passeriformes pertencentes às famílias Thamnophilidae, Grallaridae e Formicarridae, declinaram seus registros ao longo dos anos, pois apesar do esforço amostral ter sido diferenciado entre os anos de amostragem os métodos sempre focaram as espécies florestais o que pode comprovar o declínio principalmente para as espécies Hypoedaleus guttatus e Dysithamnus mentalis, os quais são representantes das famílias mencionadas. Outras espécies, tais como Mackenziaena leachii, M. severa, Pyriglena leucoptera, Chamaeza campanisona e Grallaria varia, apresentaram declínio no número de registros até o ponto de não serem mais registrados na última década. As três últimas espécies por sua vez ainda são encontradas na paisagem do entorno em um remanescente florestal de maior porte, a fazenda Barbacena, com 524 ha, localizada na margem direita do rio Ivaí. Estas famílias representadas por insetívoros que ocupam os estratos inferiores do interior florestal para forrageamento (Pearman 2002) e que tendem a permanecer em áreas de dossel fechado (Yabe & Marques 2001) são mais sensíveis aos processos de fragmentação florestal (Willis 1979, Aleixo & Vielliard 1995). Desta forma ocorre o aumento das chances de extinção destas espécies em remanescentes de menor porte e/ou com a perda da qualidade do seu microhabitat (p.ex. sub-bosque). Entre os piprídeos, algumas espécies se mantiveram constantes, como Pipra fasciicauda cuja ocorrência foi principalmente registrada por meio de capturas. Outras espécies desta família apresentaram baixas freqüências de ocorrência, tais como o tangará Chiroxiphia caudata o qual esteve ausente por longos períodos de amostragem, não registrada desde 1999.

A plasticidade das aves na ocupação de ambientes varia entre as espécies, que podem ser restritas ou não a um único tipo ambiental. Sendo assim, ao existir a restrição de algumas espécies a tipos específicos de habitats, o número delas em um remanescente é provavelmente determinado pelo número de ambientes que ele contém (Simberloff & Abele 1982, McIntyre 1995, Paglia et al. 1995). Assim, para uma melhor avaliação da avifauna dentro do PV, há que considerar os diferentes ambientes que este contém e como alguns se desenvolveram ao longo do tempo. No início da década de 1980, quando foram iniciadas as pesquisas ornitológicas no PV, uma parte de sua área era destinada a um viveiro de árvores nativas e exóticas. Posteriormente, por indicação do Plano de Manejo (ITCF 1987), foi abandonado o cultivo de arbóreas e a área em questão evoluiu gradativamente para uma floresta secundária, circundada pela floresta em estádio avançado que recobre o restante do parque, embora continuasse a abrigar diversas espécies cultivadas. Alguns trechos do parque foram explorados no passado para diversos fins e não mostraram uma regeneração expressiva, provavelmente devido às características do solo. O ambiente silvícola, o mais representativo do PV, é o que abriga maior número de espécies (n = 189, 72% de toda avifauna), destacando-se a ocupação por aves tamnícolas (87% dentre as silvícolas), corticícolas (7,3%) e terrícolas (5,7%) (Tabela 2). A presença de ambientes florestais em diversos estádios sucessionais no interior do parque permite, ainda, a ocupação de 35 espécies campícolas (Tabela 2). No caso específico da família Picidae, das nove espécies registradas nesse estudo, uma ocupa o ambiente campícola e as demais são corticícolas, ocupando os diversos microambientes no interior florestal. Nos ambientes aquáticos foram registradas 26 espécies e a ocorrência destas variou conforme o grupo analisado. O lago apresentou, ao longo do tempo, uma rica fauna de aves limícolas e natantes, com a presença constante de saracuras, frangos-d'água e jaçanãs, em oposição aos martim-pescadores, que não foram registrados na maioria das amostragens. Algumas espécies, como o biguá e biguatinga, não apresentaram uma alta ocorrência na área de estudo, como poderia se esperar em função da presença de grandes rios e do lago no interior, tendo sido registradas em apenas cinco amostragens. Entre as garças e socós, somente o socó-dorminhoco Nycticorax nycticorax e o socozinho Butorides striata utilizam regularmente o lago e as árvores localizadas nas margens deste. Entre os anatídeos registrados como natantes, somente o pato-selvagem Cairina moschata e a marreca-ananaí Amazonetta brasiliensis foram avistados no lago nos oito primeiros anos de pesquisa no parque. O irerê Dendrocygna viduata foi percebido na área de estudo deslocando-se durante seus vôos noturnos, e ocasionalmente foram visualizados em banhados e cultivos de arroz do entorno. A sucessão natural de alguns desses ambientes da área de estudo resultou em uma alteração de sua composição específica. Este fato não deve ser considerado prejudicial já que grande parte das espécies que se tornaram ausentes não são dependentes de ambientes florestais.

 

 

A maior parte (n = 247) das espécies registradas no parque é considerada residente. Foram registradas 12 espécies que realizam migrações regionais (residentes migratórios), sendo elas: os gaviões Elanoides forficatus e Ictinia plumbea, o andorinhão-do-temporal Chaetura meridionalis, os tiranídeos Pyrocephalus rubinus, Tyrannus melancholicus e Tyrannus savana, as andorinhas Progne tapera, Progne chalybea, Pygochelidon cyanoleuca e Stelgidopteryx ruficollis e os sabiás Turdus amaurochalinus e Turdus subalaris. Quanto aos migrantes de longa distância (visitantes do hemisfério norte) foi registrada a andorinha-de-bando Hirundo rustica. Em conseqüência de seus hábitos migratórios e seus registros esporádicos, dez espécies mencionadas para o PV enquadram-se na categoria de baixa freqüência de ocorrência, e outras duas enquadradas na categoria de média freqüência (Apêndice 1). Ao longo dos anos, as fases de campo não foram regulares em todos os meses ou nos mesmos meses. Todavia cada estação foi amostrada pelo menos uma vez no ano tendo sido possível estimar um padrão de ocorrência das espécies migratórias (latu sensu). O sovi Ictinia plumbea foi registrado em 16 amostragens, ocorrendo no início da primavera e verão, sendo seus registros concentrados nos meses de agosto a fevereiro. No ano de 2002, quando as expedições foram mensais, a espécie foi registrada de setembro a janeiro. O andorinhão-do-temporal Chaetura meridionalis apareceu em 12 amostragens, concentradas entre fevereiro de 1988 e julho de 1992, não sendo verificado um padrão sazonal de distribuição. A tesourinha Tyrannus savana foi registrada principalmente no final da primavera e verão, apesar de ter sido eventualmente encontrada fora desse período, como junho de 1982 e agosto de 1989. Dentre as andorinhas, a andorinha-doméstica-grande Progne chalybea, aparentemente, foi a que apresentou maior sazonalidade nos registros, estando ausente nos meses de inverno. As demais espécies da família Hirundinidae foram registradas em todas as estações, apesar de ocorrer um maior número de registros nos meses de julho e agosto (inverno). O sabiá-ferreiro Turdus subalaris foi registrado no PV apenas nas estações de inverno e primavera, ao contrário do sabiá-poca Turdus amaurochalinus, com registros em 58% das amostragens ao longo de todo o ciclo sazonal, demonstrando ser uma espécie residente localmente. As demais espécies consideradas migratórias por terem sido registradas apenas uma vez impossibilitaram determinar o padrão de ocorrência destas na área de estudo.

Foram registradas 14 espécies de aves incluídas em diferentes categorias de ameaça na literatura especializada. Dentre estas, oito foram incluídas pela BirdLife (2000) no "Threatened Birds of the World", sendo sete na categoria "quase ameaçada" (near-threatened) e uma na categoria de vulnerável. As demais espécies são mencionadas no "Livro Vermelho da Fauna Ameaçada no Estado do Paraná" (Mikich & Bérnils 2004), sendo cinco na categoria de "dados deficientes", uma na categoria "vulnerável" e uma na categoria de "quase ameaçada" (Apêndice 1). Dessas espécies apenas uma foi mencionada nas duas listas, o chibante Laniisona elegans. Entre as espécies ameaçadas registradas para o PV, 12 foram categorizadas com baixa freqüência de ocorrência, sendo que nenhuma delas foi registrada pelos autores após 1999. O azulinho Cyanoloxia glaucocaerulea e o araçari-banana, Pteroglossus bailoni foram registrados apenas em fragmentos florestais do entorno após este período. O araçari-de-bico-branco Pteroglossus aracari, vulnerável na lista estadual (Mikich & Bérnils 2004), apareceu em quase 70% das amostragens na primeira etapa de pesquisa. Também apareceu em 60% das amostragens em 2002 e em 40% de 2005, sempre em bandos de até sete indivíduos.

 

Agradecimentos

Os autores agradecem outros profissionais e auxiliares de campo que contribuíram para o estudo da avifauna no Parque Estadual de Vila Rica do Espírito Santo: Fernando C. Straube, Alberto Urben Filho, Douglas Kajiwara, Luiz dos Anjos, Eduardo Carrano, Cassiano Fadel Ribas, Valdi Paula Gonçalves, Luiz Carlos Sieben, Mauro M. Britto, Pedro Sanches Filho, Elizeu Souza Pinto, Luiz F. F. de Macedo, Sebastião Carlos Pereira, Valdenisio Ferreira dos Santos, Adão Schoroeder, Carlos Schicowski, Valter Nicolack, Pedro Senna Maia, Aline Dal'Maso Ferreira, Daniel Isolani, Mariana Sant'Ana Schlichting, Leonardo Giraldi Gustmann e Marcos Nakagawa. Agradecemos a Gledson Vigiano Bianconi, Sandra Bos Mikich e aos revisores da Biota Neotropica pelas sugestões ao manuscrito.

 

Referências Bibliográficas

ABE, LM. 1997. Estudo da avifauna em remanescentes florestais contíguos a reflorestamentos com Pinus elliottii Elgelm, 1880. Estud. Biol. 41:37-60.         [ Links ]

ALEIXO, A. & VIELLIARD, J.M.E. 1995. Composição e dinâmica da avifauna da mata de Santa Genebra, Campinas, São Paulo, Brasil. Rev. Bras. Zool. 12(3):493-511.         [ Links ]

ANJOS, L. 1998. Conseqüências biológicas da fragmentação no norte do Paraná. IPEF, Sér. Técn. 12(32):87-94.         [ Links ]

ANJOS, L. 2001. Comunidades de aves florestais: implicações na conservação. In Ornitologia e conservação: da ciência às estratégias (J.L.B. Albuquerque, J.F. Cândido Junior, F.C. Straube & A.L. Roos, ed) Sociedade Brasileira de Ornitologia, Curitiba, p.17-37.         [ Links ]

ANJOS L. & GRAF, V. 1993. Riqueza de aves da Fazenda Santa Rita, região dos campos gerais, Palmeira, Paraná, Brasil. Rev. Bras. Zool. 10(4):673-693.         [ Links ]

BIRDLIFE. 2000. Threatened birds of the world. Lynx Edicions and BirdLife International, Barcelona; Cambrigde.         [ Links ]

BISPO, A.A. & SCHERER-NETO, P. 2010. Taxocenose de aves em um remanescente da Floresta com Araucária no sudeste do Paraná, Brasil. Biota Neotrop.10(1): http://www.biotaneotropica.org.br/v10n1/pt/abstract?article+bn02010012010        [ Links ]

BORNSCHEIN, M.R. & REINERT, B.L. 2000. Aves de três remanescentes florestais do norte do estado do Paraná, sul do Brasil, com sugestões para a conservação e manejo. Rev. Bras. Zool. 17(3):615-636. http://dx.doi.org/10.1590/S0101-81752000000300008        [ Links ]

COMITÊ BRASILEIRO DE REGISTROS ORNITOLÓGICOS - CBRO. 2010. Lista das aves do Brasil. Versão out. 2010. CBRO. http://www.cbro.org.br.         [ Links ]

GIMENES, M.R. & ANJOS, L. 2000. Distribuição espacial de aves em um fragmento florestal do campus da Universidade Estadual de Londrina, norte do Paraná, Brasil. Rev. Bras. Zool. 17(1):263-271.         [ Links ]

GOERCK, J.M. 2006. Conservação de Aves na Região do Domínio da Mata Atlântica no Brasil. In Áreas importantes para a conservação das aves no Brasil: parte 1 - estados do domínio da Mata Atlântica (G.A. Bencke, G.N. Maurício, P.F. Develey & J.M. Goerck, orgs.). SAVE Brasil, São Paulo, p.17-24.         [ Links ]

INSTITUTO AGRONÔMICO DO PARANÁ - IAPAR. 1978. Cartas climáticas do Estado do Paraná. Fundação Instituto Agronômico do Paraná, Londrina.         [ Links ]

INSTITUTO DE TERRAS CARTOGRAFIA E FLORESTAS - ITCF. 1987. Plano de Manejo do Parque Estadual de Vila Rica do Espírito Santo, Fênix - PR. ITCF, Curitiba.         [ Links ]

MAACK, R. 1981. Geografia física do Estado do Paraná. 2nd ed. J. Olympio, Rio de Janeiro.         [ Links ]

MARTERER, B.T.P. 1996. Avifauna do Parque Botânico do Morro do Baú. FATMA, Florianópolis.         [ Links ]

McINTYRE, N.E. 1995. Effects of Forest patch size on avian diversity. Landsc. Ecol. 10(2):85-99.         [ Links ]

MIKICH, S.B. & BÉRNILS, R.S. 2004. Livro Vermelho da Fauna Ameaçada no Estado do Paraná. Instituto Ambiental do Paraná, Curitiba. CD-ROM.         [ Links ]

MIKICH, S.B. & SILVA, S.M. 2001. Composição florística e fenologia das espécies zoocóricas de remanescentes de Floresta Estacional Semidecidual no centro-oeste do Paraná, Brasil. Acta Bot. Bras. 15(1):89-113.         [ Links ]

PAGLIA, A.P., MARCO JUNIOR, P., COSTA, F.M., PEREIRA, R.F. & LESSA, G. 1995. Heterogeneidade estrutural e diversidade de pequenos mamíferos em um fragmento de mata secundária de Minas Gerais, Brasil. Rev. Bras. Zool. 12(1):67-79. http://dx.doi.org/10.1590/S0101-81751995000100010        [ Links ]

PEARMAN, P.B. 2002. The scale of community structure: habitat variation and avian guilds in tropical forest undestory. Ecol. Monogr. 72(1):19-39. http://dx.doi.org/10.1890/0012-9615(2002)072[0019:TSOCSH]2.0.CO;2        [ Links ]

PICHORIM, M. & BÓÇON, R. 1996. Estudo da composição avifaunística dos municípios de Rio Azul e Mallet, Paraná, Brasil. Acta Biol. Leopoldensia 18(1):129-144.         [ Links ]

SANTOS, A.J. 2004. Estimativas de riqueza em espécies. In Métodos de estudos em Biologia da Conservação e Manejo da Vida Silvestre (L. Cullen Junior, C. Valladares-Padua e R. Rudran, orgs.). Ed. da UFPR; Fundação O Boticário de Proteção à Natureza, Curitiba.         [ Links ]

SCHERER-NETO, P. & STRAUBE, F.C. 1995. Aves do Paraná: história, lista anotada e bibliografia. Logo Press, Curitiba, 79p.         [ Links ]

SICK, H. 1997. Ornitologia Brasileira. Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 912p.         [ Links ]

SIMBERLOFF, D. & ABELE, L.G. 1982. Refuge design and island biogeographic theory: effects of fragmentation. Am. Naturalist 120(1):41-50. http://dx.doi.org/10.1086/283968        [ Links ]

SLUD, P. 1976. Geographic and climatic relationships of avifaunas with special reference to comparative distribuition in the Neotropics. Smithson. Contrib. Zool. 212:1-149. http://dx.doi.org/10.5479/si.00810282.212        [ Links ]

STRAUBE, F.C. 1995. Métodos de caracterização e diagnóstico de avifaunas para estudos de impactos ambientais. In Manual de Avaliação de Impactos Ambientais - MAIA (P. Juchen, ed.). IAP/GTZ, Curitiba, Suplemento 2, p.1-15.         [ Links ]

STRAUBE, F.C. & URBEN-FILHO, A. 2001. Análise do conhecimento ornitológico da região noroeste do Paraná e áreas adjacentes, In Ornitologia e conservação: da ciência às estratégias (J.L.B. Albuquerque, J.F. Cândido Junior, F.C. Straube & A.L. Roos, eds.) Sociedade Brasileira de Ornitologia, Curitiba, p.223-230.         [ Links ]

WILLIS, E.O. 1976. Effects of a cold wave on an Amazonian avifauna in the upper Paraguay drainage, western mato grosso, and suggestions on oscine-suboscine relationships. Acta Amaz. 6(3):379-394.         [ Links ]

WILLIS, E.O. 1979. The compositon on avian communities in remanescent woodlots in southern Brazil. Pap. Avul. Zool. 33(1):1-25.         [ Links ]

YABE, R.S. & MARQUES, E.J. 2001. Deslocamentos de aves entre capões no pantanal Mato-grossense e sua relação com a dieta. In Ornitologia e conservação: da ciência às estratégias (J.L.B. Albuquerque, J.F. Cândido Junior, F.C. Straube & A.L. Roos, eds.) Sociedade Brasileira de Ornitologia, Curitiba, p.103-124.         [ Links ]

 

 

Recebido em 04/03/2011
Versão reformulada recebida em 07/06/2011
Publicado em 12/08/2011

 

 

* Autor para correspondência: Pedro Scherer Neto, e-mail: pedroschererneto@yahoo.com.br

 

 

Click to enlarge