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Journal of Epilepsy and Clinical Neurophysiology

versão impressa ISSN 1676-2649

J. epilepsy clin. neurophysiol. vol.15 no.4 Porto Alegre dez. 2009

http://dx.doi.org/10.1590/S1676-26492009000400004 

ORIGINAL ARTICLE ARTIGO ORIGINAL

 

Adaptação Transcultural para o Português Brasileiro do Instrumento The Epilepsy Beliefs and Attitudes Scale (Ebas) – Adult Version

 

Transcultural adaptation for Brazilian Portuguese of The Epilepsy Beliefs and Attitudes Scale (Ebas) – Adult Version

 

 

Karina Piccin ZanniI; Thelma Simões MatsukuraII; Heber de Souza Maia FilhoIII

IPrograma de Pós-Graduação em Educação Especial da Universidade Federal de São Carlos, São Carlos, São Paulo, Brasil
IIProfessora Adjunta da Universidade Federal de São Carlos; Departamento de Terapia Ocupacional; Programa de Pós-Graduação em Educação Especial da Universidade Federal de São Carlos, São Carlos, São Paulo, Brasil
IIIProfessor Adjunto da Universidade Federal Fluminense, Programa de Pós-Graduação em Neurologia e Neurociências, Niterói, Rio de Janeiro, Brasil.

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

INTRODUÇÃO: o desconhecimento acerca da epilepsia tem fomentado o interesse em desenvolver ferramentas voltadas para detecção das crenças e atitudes da comunidade em geral acerca da doença.
OBJETIVO: apresentar o processo de adaptação transcultural do instrumento The Epilepsy Beliefs and Attitudes Scale (EBAS) – Adult Version e uma versão em português para uso no Brasil.
MÉTODO:
o processo de adaptação envolveu a equivalência conceitual, de itens, semântica e operacional.
RESULTADOS: os conceitos apreendidos foram considerados pertinentes à nossa cultura e seus itens adequados quanto à sua capacidade de representar tais conceitos na população-alvo, além de apresentar boa equivalência semântica entre a versão final em português e o original.
CONCLUSÃO: o instrumento mostrou-se adequado para uso na população em geral e seus resultados serão revistos em estudos futuros a luz de avaliações psicométricas.

Unitermos: Epilepsia, criança, estudo transcultural, tradução, estudo de validação, preconceito, atitudes.


ABSTRACT

INTRODUCTION: the lack of knowledge about epilepsy has boosted the interest to develop instruments aimed for the detection of beliefs and attitudes of the community in general about the disease.
OBJECTIVE: to carry out the transcultural adaptation of the instrument The Epilepsy Beliefs and Attitudes Scale (EBAS) – Adult Version and a version in Brazilian Portuguese.
METHOD: the transcultural adaptation involved the conceptual, items, operational and semantic equivalences.
RESULTS: the concepts were considered relevant to our culture and the items as appropriate to their ability to represent these concepts in the target population. It was possible establish high-quality semantic equivalence between the Brazilian Portuguese-language final version and the original.
CONCLUSION: the instrument proved to be suitable for use in the general population and the results will be reevaluated in the light of forthcoming psychometric analysis.

Key words: Epilepsy, child, transcultural studies, translation, validation studies, prejudice, attitudes.


 

 

INTRODUÇÃO

A percepção, crenças e atitudes da população em geral a respeito das epilepsias têm sido estudadas em vários países.1-15 O desconhecimento sobre a epilepsia tem fomentado o interesse crescente na investigação deste fenômeno e na necessidade de aprimorar ferramentas voltadas para a detecção dos conceitos acerca da mesma, bem como o desenvolvimento de um instrumental de aferição para ser aplicado em pesquisa.16-19 Tais instrumentos são um acréscimo útil à investigação dos aspectos psicossociais das epilepsias, o que inclui questões de qualidade de vida, inclusão escolar, social e de saúde mental.

Historicamente, a adaptação de instrumentos elaborados em outro idioma era realizada apenas por meio da tradução do original ou pela comparação literal deste com versões retrotraduzidas.20 Atualmente, os instrumentos de medida utilizados em diversas culturas devem também ser adaptados culturalmente, permitindo que mantenham sua validade em nível conceitual, independente das especificidades idiomáticas. Isto garante que as informações coletadas sejam descritas de maneira similar em estudos realizados em diferentes países.21-22

Apesar do avanço das reflexões a esse respeito, ainda não existe consenso quanto a melhor estratégia de adaptação. Diferentes abordagens teóricas são responsáveis pela diversidade de propostas metodológicas encontradas na literatura.21-23

Considerando-se que é de fundamental importância investigar e comparar crenças e atitudes em relação à epilepsia em diferentes localidades e culturas, parece fundamental que programas de investigação de equivalência transcultural sejam implementados. No contexto brasileiro, o desenvolvimento de pesquisas nessa área se torna ainda mais urgente em função do esforço demandado para construção e avaliação da qualidade de novos instrumentos de aferição e da frequência da utilização de instrumentos elaborados em outras línguas, tanto no âmbito clínico, como no epidemiológico, uma vez que a maioria dos instrumentos disponível é originária da América do Norte e Europa.

Com base no roteiro proposto por Herdman et al.,23 este artigo enfoca as quatro primeiras etapas do processo de adaptação transcultural do instrumento The Epilepsy Beliefs and Attitudes Scale (EBAS)Adult Version, desenvolvido no Canadá, em 2000, por Gajjar et al.,24 em língua inglesa, para sua versão em Português do Brasil.

Este modelo de adaptação baseia-se em uma abordagem que admite a possibilidade de interlocução e na apreciação de seis diferentes tipos de equivalência: conceitual, de itens, semântica, operacional, de mensuração e funcional.23

A equivalência conceitual deve contemplar a apreciação da pertinência dos conceitos e dimensões apreendidos pelo instrumento original na cultura alvo da nova versão. Em seguida, realiza-se a equivalência de itens, verificando-se a adequação de cada item do instrumento original, em termos de sua capacidade para representar tais conceitos na população onde o instrumento será utilizado. Somente então, deve-se partir para a avaliação da equivalência semântica entre esta e o original.23

A equivalência operacional se refere a uma comparação entre os aspectos de utilização de um instrumento nas populações-alvo e fonte, verificando se as características originais do instrumento foram mantidas como a forma de administração, número de opções de resposta e layout original do instrumento.23 Na sequência, avalia-se a equivalência entre as propriedades psicométricas do instrumento original e de sua nova versão (equivalência de mensuração). Somente após percorrer os diferentes aspectos de equivalência apontados acima, é possível declarar que está estabelecida a adaptação transcultural da nova versão, ou seja, a equivalência funcional.23

A EBAS – Adult Version é um instrumento concebido para avaliar as crenças e atitudes da comunidade em geral em relação a crianças com epilepsia. A versão original do instrumento é composta por uma pequena introdução que contém informações sobre o conteúdo e os objetivos da escala, além de instruções para o seu preenchimento, seguida da Parte I composta por seis questões que abordam o conhecimento geral sobre a doença e a respectiva experiência com tal enfermidade. A Parte II se inicia com uma vinheta contando uma história sobre uma criança com epilepsia, destacando os sintomas e comportamentos durante e após a ocorrência de uma crise, seguida de cinquenta e uma afirmações baseadas em crenças e atitudes das pessoas frente à epilepsia infantil. Após fazer a leitura da vinheta, os respondentes devem selecionar dentro de uma escala de tipo LIKERT de quatro pontos qual das seguintes opções de resposta representa a intensidade/o grau de sua crença para cada item: acredito totalmente (4), acredito muito (3), acredito um pouco (2) e não acredito (1).

Dentre os cinquenta e um itens, três são considerados como itens de controle porque questionam os participantes acerca de sua percepção sobre as doenças em geral comparando a epilepsia à gripe, enquanto as demais afirmações distribuem-se ao longo de três subescalas que abarcam as dimensões do instrumento, a saber: neurológica, metafísica e ambiental/psicofísica.24

A avaliação psicométrica realizada pelos autores do instrumento, em uma amostra composta por 228 participantes com média de idade de 35 anos e níveis educacionais diversos, demonstrou boa consistência interna geral (alfa de Cronbach = 0,85) e para as subescalas (neurológica = 0,74; metafísica = 0,82 e ambiental/psicofísica = 0,83). A estrutura fatorial da EBAS – Adult Version, mediante a técnica de análise em componentes principais, confirmou as dimensões teóricas (crenças e atitudes).24

A opção pelo instrumento deveu-se às suas propriedades psicométricas e às vantagens de se utilizar instrumentos de medida já validados por outros pesquisadores, uma vez que o desenvolvimento e consolidação de um novo instrumento são processos dispendiosos, além de permitir comparar os resultados obtidos em pesquisas com populações distintas.21,25

Desta forma, este estudo tem como objetivo apresentar o processo de adaptação transcultural da EBAS – Adult Version para a Língua Portuguesa e uma versão em português para uso em estudos que visam investigar crenças e atitudes da comunidade em geral sobre epilepsia infantil. Serão apresentadas neste artigo as quatro primeiras etapas (equivalência conceitual, de itens, semântica e operacional), com posterior divulgação das propriedades psicométricas do instrumento. Este é o primeiro instrumento que avalia crenças e atitudes em epilepsia traduzido para uso no Brasil.

 

METODOLOGIA

O presente estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa em Seres Humanos da Universidade Federal de São Carlos e todos os participantes assinaram Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. A adaptação transcultural seguiu o roteiro descrito no Quadro 1, elaborado com base na metodologia de tradução de questionários para outras línguas proposta na literatura específica 23,25.

 

 

Todas as modificações realizadas durante o processo de adaptação transcultural da EBAS – Adult Version para a Língua Portuguesa foram feitas mediante autorização dos autores do instrumento original.

Avaliação da equivalência conceitual e de itens

Esta avaliação foi realizada por um comitê multidisciplinar composto por doze especialistas com ampla experiência na área temática (dez médicos neurologistas, uma psicóloga e um educador físico), tendo como finalidade explorar se as diferentes dimensões abarcadas pelo instrumento original (crenças e atitudes) seriam pertinentes no contexto brasileiro e na população-alvo onde o instrumento seria utilizado. Cabe ressaltar que um dos autores da versão brasileira do instrumento participou da avaliação conceitual e de itens. No processo, avaliou-se a pertinência da parte introdutória, da vinheta e dos itens do instrumento para a captação de cada uma dessas dimensões da epilepsia no Brasil. Para a avaliação e discussão conceitual e de itens, cada avaliador recebeu um formulário contendo informações sobre a escala original e sobre os processos envolvidos na sua construção, visando tornar claros os conceitos e definições teóricas dos construtos relativos às crenças e atitudes 24. Adicionalmente, procurou-se identificar as mesmas questões em materiais de revisão bibliográfica envolvidos com as crenças sobre epilepsia 26-28. Cada membro do comitê avaliou o instrumento separadamente, sendo as doze respostas analisadas e compiladas por dois autores que tiveram a decisão da forma final do texto.

Avaliação da equivalência semântica

Estágio 1: Tradução

A primeira fase da adaptação consistiu em duas traduções da EBAS – Adult Version para o Português (T1 e T2), respectivamente, por um profissional com experiência na área temática (epilepsia) com língua materna portuguesa e fluência na língua inglesa (T1) e, a outra, por um professor de língua inglesa com formação em letras e também com língua materna portuguesa (T2). As duas versões foram realizadas de forma independente pelos profissionais sem que eles tomassem conhecimento da tradução feita pelo colega.

Estágio 2: Retrotradução

Neste estágio, dois tradutores bilíngues diferentes, totalmente cegos para a versão original do instrumento, realizaram a retrotradução das versões T1 e T2 para o idioma original. O primeiro tradutor era de língua materna inglesa, com fluência na língua portuguesa e residente no Brasil com formação na área das Ciências Exatas, enquanto o segundo tradutor tinha formação profissional na área de Ciências Humanas, com fluência em língua inglesa e língua materna portuguesa. As retrotraduções ocorreram de modo independente, além de cegas com relação ao perfil dos profissionais da primeira etapa, gerando as versões R1 e R2.

Estágio 3: Apreciação formal de equivalência semântica

No estágio três, um terceiro tradutor bilíngue, ligado à área em estudo, com língua materna portuguesa e fluência na língua inglesa realizou a apreciação formal da equivalência semântica entre o original e cada uma das retrotraduções (R1 e R2).

Dois significados linguísticos distintos foram apreciados. O primeiro diz a respeito à avaliação da equivalência entre o original e cada uma das retrotraduções sob a perspectiva do significado referencial dos termos ou palavras constituintes, ou seja, as idéias ou objetos do mundo a que uma ou várias palavras se referem. Se há o mesmo significado referencial de uma palavra no original e na respectiva tradução, presume-se que existe uma correspondência literal entre elas.20,23

O segundo aspecto diz respeito ao significado geral de cada parte do instrumento (introdução, vinheta, itens e opções de resposta), contrastando-se o original com o que foi captado na tradução para o idioma-alvo. Essa correspondência transcende a literalidade das palavras, encampando aspectos mais sutis, como o impacto que um termo tem no contexto cultural da população-alvo. A apreciação é necessária porque a correspondência literal de um termo não implica que a mesma reação emocional ou afetiva seja evocada em diferentes culturas. Essa questão é particularmente relevante em instrumentos para a captação empírica de conceitos culturalmente construídos, pois uma palavra ou assertiva usada com uma determinada intenção no contexto de origem pode não produzir o mesmo efeito na população-alvo da nova versão. A substituição por outro termo permitiria resgatar plenamente a equivalência desejada.20,23

Para cada parte do instrumento, utilizou-se um formulário específico, desenhado de forma a mascarar a origem da parte introdutória do instrumento, da história sobre a criança com epilepsia (vinheta) e dos itens da versão original e das retrotraduções. Nos formulários usados para avaliar o significado referencial optou-se por escalas visuais (Visual Analogue Scale)29 como opção de resposta, o que permitiu que a equivalência fosse julgada de forma contínua entre 0% e 100%. Para a avaliação do significado geral, utilizou-se uma classificação em quatro níveis: inalterado, pouco alterado, muito alterado ou completamente alterado.

Estágio 4: Revisão por comitê de especialistas

A quarta etapa do processo de avaliação semântica envolveu o mesmo grupo de especialistas que participou da avaliação conceitual e de itens, tendo como objetivos identificar e encaminhar os problemas de cada uma das etapas pregressas. A partir disso, foi possível propor uma versão-síntese, que incorporava itens oriundos de uma das duas versões trabalhadas ou por modificações para melhor adequação de todo o instrumento.

Estágio 5: Pré-teste da versão-síntese

O quinto e último passo da avaliação de equivalência semântica envolveu o pré-teste da versão-síntese do instrumento que foi aplicado em uma amostra composta por 30 voluntários adultos da população em geral, visando avaliar a aceitabilidade, a compreensão e o impacto emocional da escala. Os dados foram coletados individualmente por meio de autopreenchimento. Foi solicitado aos entrevistados para que lessem e parafraseassem a parte introdutória do instrumento, a história sobre a criança com epilepsia (vinheta) e cada um dos itens do instrumento visando identificar trechos não compreendidos. A partir das evidências encontradas no pré-teste, foram realizados os ajustes semânticos finais do instrumento.

Avaliação da equivalência operacional

Durante o pré-teste, utilizou-se o mesmo modo de aplicação e formatação original do instrumento, analisando-se sua funcionalidade e praticidade. Além de solicitar aos entrevistados que parafraseassem o instrumento, eles também foram questionados quanto ao layout e o modo de preenchimento do mesmo.

 

RESULTADOS

Avaliação da equivalência conceitual e de itens

As análises feitas pelo grupo de especialistas e a consulta à bibliografia temática sugeriram que os conceitos relacionados à epilepsia utilizados para a elaboração do instrumento original são pertinentes ao contexto brasileiro, representando os mesmos constructos nas duas línguas.

Os resultados mostraram que, de forma geral, a introdução, as seis questões da Parte I, a vinheta e 46 itens da Parte II do instrumento original, representavam adequadamente as duas dimensões acerca da epilepsia em nosso contexto cultural. As seis questões que compõem a Parte I do instrumento não sofreram modificações e algumas sugestões foram feitas na introdução, na vinheta e nos demais itens, sendo que as mesmas foram incorporadas à versão-síntese.

Dentre as cinquenta e uma afirmações que compõe a Parte II do instrumento, optou-se por retirar os itens chamados de controle (itens 6, 14 e 21) por duas razões. De acordo com os autores do instrumento original, estes itens não apresentaram função efetiva de controle, mostrando valores de alfa de Cronbach baixos (0,004). Em segundo lugar, por se tratar de um instrumento que media crenças e atitudes acerca da epilepsia, nove dos doze juízes apontaram que não era possível estabelecer uma relação comparativa entre a epilepsia e a gripe.

Além disso, dez dos doze juízes apontaram semelhança entre os itens 7,12 e 40, sendo que as afirmações 7 e 40 foram suprimidas, pois se concluiu que as três apresentavam o mesmo significado em nosso meio cultural, assumindo, caráter redundante no instrumento.

Na introdução, sugeriu-se que a expressão "sua crença mais forte" (no original "the strength of your belief") fosse modificada para "a intensidade/o grau de sua crença" (indicando graus diferentes de uma mesma crença) e na frase, "Lembre-se, sua resposta deve refletir o que você pensa" (no original "Remember, your answer should reflect what you believe"), a palavra "pensa" fosse substituída pelo termo "acredita".

Com relação à vinheta, os avaliadores propuseram que o termo "vinheta" fosse substituído por "história" e a expressão "a mantenha em sua mente" (no original, "keep it in your mind") por "lembre-se dela".

Também por sugestão dos especialistas, optou-se pela substituição do nome próprio "Pat" (abreviatura de Patrick/Patrícia, de acordo com o instrumento original), que aparece na vinheta e nos itens que compõem a Parte II do instrumento, pelo nome próprio "João" por ser mais adequado ao contexto cultural brasileiro. Outra modificação importante diz respeito ao uso concomitante dos pronomes ele/ela ("he/she") ao longo da história (vinheta) e também nos itens da Parte II, prática comum na língua inglesa. Como o nome escolhido foi "João", decidiu-se adotar o pronome apenas no gênero masculino ("ele") ao longo da história e dos itens para tornar a leitura menos cansativa e tornar a estrutura do instrumento mais adaptada às regras gramaticais brasileiras.

Quanto ao título do instrumento, seguindo as sugestões dos avaliadores, optou-se por sua adaptação para "Escala de Crenças e Atitudes sobre Epilepsia (ECAE) – Versão para Adultos", que se manteve praticamente inalterado em relação ao título da escala original.

Avaliação da equivalência semântica

A comparação entre as retrotraduções e a versão original, mostrou que apenas 4 (8,7%) dos 46 itens apresentaram, de acordo com a escala analógica visual, grau de equivalência de significado referencial abaixo de 90%. Observou-se que o significado geral se manteve inalterado em 36 itens (78,2%), sendo que destas, 26 afirmações (56,5%) foram consideradas inalteradas nas duas retrotraduções e 10 (21,7%) em apenas uma versão. Neste aspecto da equivalência semântica, constatou-se primazia da segunda versão sobre a primeira. A Tabela 1 traz os resultados dos estágios 1, 2 e 3 do processo de avaliação semântica, apresentando os itens do instrumento original em inglês, as duas traduções e suas respectivas retrotraduções.

 


 

Na quarta etapa da avaliação, identificou-se que todas as discrepâncias entre os itens, relativas ao significado referencial e geral, eram atribuíveis a entraves ocorridos na etapa de retrotradução. Após a minuciosa avaliação realizada pelo comitê de especialistas, optou-se mais pelos itens oriundos de T1 (63% das situações), quer em sua forma original ou com alguma modificação para a elaboração da versão-síntese. Com relação ao restante dos itens, 4 (8,6%) se mostraram idênticos tanto em T1 quanto em T2 não sofrendo modificações, 8 (17,4%) foram retirados de T2 e os outros 5 (11%) extraídos de uma composição entre as duas traduções.

Na Tabela 2, são apresentadas as afirmações que foram modificadas durante o quarto estágio da equivalência semântica (pré-teste). Na primeira coluna, encontram-se as traduções desses 16 itens, destacando-se sua origem (T1 ou T2), enquanto na segunda coluna estão os itens já modificados e incorporados a versão final da EBAS – Adult Version.

 

 

As modificações realizadas tiveram como objetivos tornar a versão em português mais coloquial e aceitável para a população alvo (itens 1, 10, 19, 22, 26, 28, 29, 30, 33, 34, 35, 37, 40 e 41) por meio da utilização de termos mais adequados ao contexto brasileiro. Por exemplo, no item 1, o termo "herbalista", foi substituído por expressão equivalente, uma vez que o mesmo não é comum em nosso meio.

Em duas situações (itens 7 e 31), as modificações visaram ampliar a equivalência de significado geral dos termos. Na afirmação 7, algumas patologias foram acrescentadas, pois apenas os exemplos dados pelo instrumento original (sarampo e malária) não representavam adequadamente a realidade brasileira. Considerou-se que o sarampo está erradicado no Brasil e a malária como uma doença mais específica da região Norte do país, adicionando, então, os exemplos "dengue, meningite e pneumonia". A opção "febre alta" fornecida pelo instrumento original também foi mantida. Com relação ao item 31, optou-se por substituir o termo "bebida" por "outro líquido", uma vez que "bebida" parecia se referir a "bebida alcoólica", o que não era o propósito do instrumento original.

No quinto e último estágio da avaliação semântica (pré-teste), observou-se que o instrumento teve plena aceitabilidade. Porém, algumas questões merecem ser apontadas. A aplicação da EBAS – Adult Version mostrou-se cansativa para alguns participantes, provavelmente em função do número de afirmações do instrumento.

Outra questão apontada no pré-teste se refere ao seguinte trecho, presente na Parte II do instrumento, antes do início da história sobre a criança com epilepsia: "Por favor, leia a história seguinte que descreve uma criança com um tipo particular de epilepsia e lembre-se dela enquanto responde ao restante da Escala de Crenças sobre Epilepsia". Ao parafrasear este trecho, 19 dos 30 participantes se referiram a expressão "lembre-se dela" como "guardar na memória", e optou-se por sua substituição.

Avaliação da equivalência operacional

Com relação ao processo de equivalência operacional, é importante salientar que na versão proposta, foi mantido o mesmo layout do instrumento original com formato semelhante das instruções, da história sobre a criança com epilepsia e das opções de resposta. Porém, houve diminuição no número de itens, que se reduziu de 51 para 46, atendendo ao propósito de maior adequação do instrumento ao contexto cultural brasileiro.

 

DISCUSSÃO

A necessidade de instrumentos destinados à identificação e avaliação das crenças e atitudes acerca da epilepsia infantil em nosso meio é grande, uma vez que não existem escalas ou questionários adaptados para o Português com este fim. Assim, este trabalho disponibilizará em breve (após avaliação psicométrica) a primeira adaptação para o contexto brasileiro de um instrumento específico para a detecção das crenças da comunidade em geral sobre a epilepsia infantil.

Dentro dessa perspectiva, a tradução de uma escala concebida em outra cultura requer cuidados linguísticos, uma vez que os termos podem ter abrangências e especificidades inerentes a cada idioma 30. Portanto, a equivalência transcultural baseada em roteiros definidos é necessária, uma vez que sua falta leva ao comprometimento da validade da informação coletada e, assim, à incapacidade de estudar-se corretamente um conceito.31

Atualmente, não existe consenso na literatura acerca de qual é a melhor estratégia para se realizar o processo de adaptação transcultural, existindo confusões terminológicas e carência de sistemática na avaliação de equivalência entre instrumentos desenvolvidos em determinados idiomas e suas versões 31. Dentre as várias abordagens metodológicas existentes no âmbito da equivalência transcultural, optou-se pelo modelo desenvolvido por Herdman et al.23 por enfatizar a necessidade de aprofundamento em seis diferentes subtipos de equivalência: conceitual, de itens, semântica, operacional, de mensuração e funcional. A utilização da estratégia de Herdman et al.,23 permitiu observar discrepâncias entre o instrumento original e a retrotradução, havendo, assim, oportunidades de melhorar a tradução, que foram discutidas abertamente pelos pesquisadores. Embora longo, o procedimento sistemático foi necessário para garantir a produção de uma versão com equivalência linguística.

Constatou-se que os conceitos apreendidos foram considerados pertinentes à nossa cultura (equivalência conceitual), e seus itens foram considerados adequados quanto à sua capacidade de representar tais conceitos na população em que pretendemos utilizá-lo (equivalência de itens), além de apresentar boa equivalência semântica entre a versão final em português e o original.

A primazia da primeira versão sobre a segunda pode ser explicada pelo perfil dos tradutores conforme aponta a literatura da área.22,32,33 A tradução que deu origem a T1 foi realizada por um pesquisador com larga experiência em epilepsia infantil, o que levou a escolha de termos mais coloquiais e de uso corrente em pesquisas nessa área temática. Entretanto, a segunda versão foi elaborada por um profissional que, apesar de plenamente proficiente em inglês, não trabalhava no campo e, portanto, não possuía a mesma afinidade com a terminologia habitualmente empregada.

Em relação à equivalência operacional, é possível assegurar que a mesma foi realizada, uma vez que foram respeitados o layout original na versão final em português e o modo de aplicação, utilizando o autopreenchimento. Com respeito à compreensão do questionário, nenhum dos entrevistados apresentou dificuldades para respondê-lo. Entretanto, o instrumento original contém 51 itens, enquanto a versão adaptada para a Língua Portuguesa apresenta 46 itens. A diferença na quantidade de itens poderia influenciar os resultados obtidos e na comparação com amostras de línguas diferentes. Porém, os itens controle não são contabilizados no escore final e serão feitas correções matemáticas na pontuação para que não haja alteração nos resultados fornecidos pelo instrumento.

O método de Herdman et al.,23 permitiu obter uma versão em português da EBAS – Adult Version próxima ao original em inglês, uma vez que as retrotraduções aproximaram-se do original, e onde havia diferenças, estas foram corrigidas. A aplicação em campo da versão em português, por meio do pré-teste, confirmou a funcionalidade da escala original.

A adaptação transcultural tenta assegurar consistência na validade de conteúdo e de face entre as versões do questionário (original e na língua-alvo), não garantindo, entretanto, que serão preservadas a confiabilidade e a validade de critério da versão original. Diferenças sutis nos hábitos de vida nas diferentes culturas podem levar um item do questionário a ser mais ou menos difícil de ser compreendido, podendo alterar as propriedades psicométricas e estatísticas do instrumento. Portanto, para que a adaptação transcultural seja plenamente alcançada, é também necessário um estudo de equivalência de mensuração, com avaliação da consistência interna e validade da nova versão. Nesse caso, o instrumento medirá igualmente o conceito nas duas culturas, os resultados encontrados serão comparáveis e estará estabelecida a adaptação transcultural da nova versão.34

O estudo da consistência interna da versão brasileira da ECAE – Versão para Adultos se encontra em fase de elaboração e será posteriormente publicado completando o processo de equivalência do instrumento.

As etapas percorridas para a elaboração da versão brasileira da EBAS – Adult Version ou ECAE – Versão para Adultos permitiram a disponibilização de um instrumento para a avaliação das crenças e atitudes da população em geral acerca da epilepsia infantil, com boa compreensão e aceitação entre a população-alvo.

 

AGRADECIMENTOS

Os autores agradecem aos especialistas (Áurea Nogueira de Melo, Carmen Lisa Jorge, Elza Márcia Targas Yacubian, José Luiz Dias Gherpelli, Li Li Min, Luiz Henrique Martins Castro, Márcia Radanovic, Maria Joaquina Marques-Dias, Marielza Regina Ismael Martins, Paula Teixeira Fernandes, Ricardo Mário Arida e Wagner Afonso Teixeira) e aos tradutores envolvidos com a adaptação transcultural deste instrumento, por sua disponibilidade em participar do estudo e pela riqueza de suas contribuições. Agradecem também aos autores do instrumento original (Minna Gajjar, Esther Geva, Tom Humphries, Michele Peterson-Badali e Hiroshi Otsubo) por permitir que o mesmo fosse culturalmente adaptado e à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) pelo fomento ao projeto.

 

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Endereço para correspondência
Karina Piccin Zanni
Av. Sebastião Lacerda Corrêa, 476, São José
CEP:14800-480, Araraquara, SP, Brasil
E-mail: karinazanni@ufscar.br

Received July 03, 2009; accepted Sept. 18, 2009.

 

 

Universidade Federal de São Carlos, São Carlos, SP, Brasil