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Cadernos EBAPE.BR

On-line version ISSN 1679-3951

Cad. EBAPE.BR vol.12 no.3 Rio de Janeiro July/Sept. 2014

http://dx.doi.org/10.1590/1679-39519019 

ARTIGOS

 

Contribuições da teoria da atividade para o estudo das organizações

 

Contributions of the activity theory to the study of organizations

 

 

Yára Lucia Mazziotti BulgacovI; Denise de CamargoII; Liliane CanopfIII; Raquel Dorigan de MatosIV; Fabíola BevervançoZdepskiV

IDoutora em Educação pela UNESP - Campus Marilia; Professora Titular - Universidade Positivo de Curitiba; Professora Sênior Universidade Federal do Paraná. Endereço: Prof. Pedro Viriato Parigot de Souza, 5300, Cidade Industrial, CEP 81280-330, Curitiba - PR, Brasil. E-mail: ybulgacov@gmail.com
IIDoutora em Psicologia Social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo/PUCSP; Professora Adjunta na Universidade Federal do Paraná e da Universidade Tuiuti do Paraná. Endereço: Comendador Araújo, 560, CEP 80420-000, Curitiba - PR, Brasil. E-mail: denicamargo@gmail.com
IIIDoutora em Administração pela Universidade Positivo; Professora Adjunta da Universidade Tecnológica Federal do Paraná - UTFPR . Endereço: Via do Conhecimento KM 01, CEP 85505-000, Pato Branco - PR, Brasil. E-mail: lilianec@utfpr.edu.br
IVDoutora em Administração pela Universidade Federal do Paraná - UFPR; Professora Adjunta na Universidade Estadual do Centro-Oeste - UNICENTRO. Endereço: PR 153 KM 7 - Riozinho, CEP 84500-000, Irati-PR, Brasil. E-mail: raqueldorigan@uol.com.br
VDoutora em Administração pela Universidade Positivo; Professora Adjunta da Pontifícia Universidade Católica do Paraná. Endereço: Rua Imaculada Conceição, 1155, Prado Velho, CEP 80215-901, Curitiba - PR, Brasil. E-mail: f.zdepski@pucpr.br

 

 


RESUMO

Este artigo tem como objetivo delinear princípios teóricos metodológicos para o estudo da organização. É adotado o conceito de prática social como menor unidade significativa para análise, compreendendo tal conceito a partir da teoria da atividade sócio-histórica e cultural, apoiando-se nas ideais de Vygotsky, Leontiev, Engestrom e Clot. É defendida aqui a concepção de organização a partir de seu acontecer histórico e dialético, no qual o particular é considerado uma instância da totalidade, a partir de um percurso teórico nas categorias sócio-históricas de: sistemas de atividade situados, sentidos e significados, aprendizagem e desenvolvimento humano. Aponta-se para uma forma de fazer ciência que supera a concepção positivista de método para resultado para uma concepção de método e resultado. A partir dessas categorias teóricas e do relato de três pesquisas realizadas, deduz-se um conjunto de princípios teóricos metodológicos de cunho sócio-histórico que contribuem para o estudo da organização, na medida em que se rompe com a dicotomia indivíduo versus grupo versus organização, com a concepção abstrata e a-histórica do fenômeno organizacional, com a concepção behaviorista de homem predominante nos estudos organizacionais e, finalmente, com categorias que apreendem dimensões subjetivas e intersubjetivas de uma realidade organizacional em constante movimento.

Palavras-chave: Metodologia Sócio-histórica e Cultural. Pesquisa em Organização. Prática Social. Teoria da Atividade. Atividade Significada.


ABSTRACT

This article aims to devise theoretical methodological principles for the organization study. The concept of social practice is adopted as less meaningful unit for analysis of the organization, comprising it from the Theory of Socio-Historical and Cultural Activity, relying on the ideas of Vygotsky, Leontiev, Engeströmand Clot. It is argued in this paper the concept of organization from its dialectical and historical events, in which the individual is considered an instance of totality, from a theoretical course in socio - historical categories of: activity systems situated, sensed and meant, learning and human development. The future shows a way of doing science that surpasses the positivist conception of method to result in a conception of method and result. From these theoretical categories and the report of three researches, we can deduce a set of theoretical methodological principles of socio- historical nature that contribute to the study of the organization, as it is broken with the individual dichotomy versus group versus organization, with the abstract and historical conception of the organizational phenomenon, and with the behaviorist conception of prevailing man in the organizational studies. At last, we can deduce categories that learn subjective and intersubjective dimensions of an organization reality in constant movement.

Keywords: Sociocultural and Historical Methodology. Organizational Research. Social Practice. Activity Theory. Meaningful Activity.


 

 

Introdução

Apesar de múltiplas tradições sociológicas trabalharem com o conceito de prática social, essa não era uma discussão premente no campo dos estudos organizacionais (BULGACOV e VIZEU, 2011). O pensar a organização como prática social tomou impulso a partir da publicação do Cambridge handbook strategyus practice (GOLSORKHI, 2010). Neste artigo, tomamos o conceito de prática social como categoria teórica analítica, a partir da tradição da teoria da atividade, e assumimos a prática social como a menor unidade significativa para a análise da organização.

Entendemos o mundo social em constante movimento e contradições, e adotamos uma teoria da ação em uma perspectiva sócio-histórica e cultural da tradição da teoria da atividade.Ao tomarmos a prática social como um conjunto de sistemas de atividades coletivas e significadas como unidade de análise, posicionamos o trabalhador como protagonista na atividade reflexiva da pesquisa, que pode, ao descrever e analisar junto com o pesquisador, seu sistema de atividade, ampliar sua consciência em relação às práticas locais e aos textos globais que se pretendem hegemônicos (CLOT, 2010). Assim, a atividade prática de pesquisa é um lugar onde se presume que o trabalhador poderá ressignificar sua ação, ampliando as possibilidades de seu poder de agir.

O foco dessa abordagem é a inter-relação entre a aprendizagem e o desenvolvimento humano verificado nas organizações. "O desenvolvimento, neste caso, como frequentemente acontece, se dá não em círculo, mas em espiral, passando em um mesmo ponto a cada nova revolução, enquanto avança para um nível superior" (VIGOTSKI, 2007, p. 56).Isso compreendido através do legado da psicologia sócio-histórica e cultural, que engloba a categoria dialética de desenvolvimento atual versus desenvolvimento potencial.

O ser humano tem muitas possibilidades, as quais são construídas nas relações sociais de produção, sendo o desenvolvimento total dessas possibilidades alcançado quando indivíduos se reconhecem mutuamente, desfetichizando e emancipando-se em relação ao mundo social (CLOT, 2010; ELHAMMOUMI, 2010). Nessa perspectiva, a organização é concebida como um fenômeno concreto, com sistemas de causalidade intersubjetiva e densos processos cotidianos que se interconectam em vozes, lugares e momentos diferentes, não necessariamente conhecidos uns dos outros. Segundo esse raciocínio, as partes contêm o todo e são lugares de resistência de atividade, de ação, de produção de subjetividade e de produção de processos organizacionais (SPINK, 1991). O encaminhamento dado por Spink é coerente com o que estamos denominando de organização, vista aqui como um coletivo de atividades significadas e situadas, em que a menor unidade de análise é a prática social, ou o sistema de atividade, porque esta contém o todo. Nesse sentido, interessa-nos para a construção de nossas categorias de análise a compreensão das relações entre pensamento e linguagem e a distinção realizada por Vygotsky (1993) entre sentido e significado.

Prática social a partir da tradição da teoria da atividade é uma categoria teórica analítica, apropriada neste artigo como a menor unidade significativa para a análise da organização. Para tal, nós a compreendemos como um conjunto de sistemas de atividades significadas e coletivas em interação na organização, a partir de: a) Vygotsky (1993) - especificamente, com as categorias de mediação, de sentidos e significados e de desenvolvimento; b) Leontiev (1978)- com o conceito coletivo de atividade e de ação e operação; c) Engeström (1987)- sistemas coletivos de atividade e aprendizagem e; d) Clot (2010)- com os pressupostos do poder de agir.

A tradição da teoria da atividade é compreendida a partir dos fundamentos comuns de suas abordagens e dos conceitos específicos propostos para a efetiva análise da atividade situada nas organizações. Entendemos que há muitas interpretações e debates entre os autores da tradição da teoria da atividade e que cada um enfatiza diferentes aspectos ao elaborar seus modelos explicativos.Nosso conceito de prática organizacional parte de alguns pontos de convergência e avanços de um teórico em relação aos outros, passando à elaboração de apontamentos metodológicos coerentes que possam vir a subsidiar a linha de pesquisa de "práticas, subjetividade e organizações". São apresentados exemplos de pesquisas desenvolvidas e apresentadas sugestões de formas de apreensão e compreensão da realidade.

 

Fundamentos Conceituais

Prática social

Este artigo adota a "prática social na organização" como objeto de pesquisa, como recorte possível para o estudo da "realidade organizacional empírica". O conceito de prática social é tomado como categoria teórica analítica, enquanto a prática social é entendida como a menor unidade significativa para análise da organização.

Apesar de sua familiaridade, o termo prática social não é autoexplicativo. Prática social é um conceito polissêmico e multidimensional. Pode ser tomado como um fenômeno empírico da vida cotidiana de sujeitos ou de grupos de sujeitos com suas respectivas experiências, privilegiando-se a interdependência das relações entre os indivíduos e o mundo (sentido de "prática" em oposição à teoria). Prática social também pode ser conceituada como perspectiva teórica com vistas a construir e compreender a experiência cotidiana de sujeitos ou grupos de sujeitos em sistemas de atividade. Por fim, do ponto de vista filosófico (ontológico) pode igualmente ser concebida como a natureza do ser,da matéria com que o fenômeno (objeto de estudo) é concebido, no caso como histórico e social, constituído de atividades de sujeitos ou de grupo de sujeitos (como ontologia) (KEMMIS e MCTAGGART, 2002; ORLIKOWSKI, 2010).

A teoria da atividade na perspectiva da psicologia sócio-histórica e cultural de origem russa (e atualmente desenvolvida na Europa) orienta a construção e a compreensão desse objeto em questão. Especificamente, é proposta uma metodologia de análise da prática social organizacional tendo como ferramenta central a categoria teórico-metodológica da "atividade"e os procedimentos de descrição e análise dessa prática. O objetivo é revelar um conjunto de conhecimentos tácitos e mediações sociais com uma inteligibilidade inexistente em abordagens lógico-normativas e não facilmente capturáveis em modelos abstratos e de proposições teórico-formais (BROWN e DUGUID, 1991; BULGACOV, DA CUNHA, DE CAMARGO et al., 2013; ORLIKOWSKI, 2010).

A proposta é a de uma análise do sistema atividade organizacional significada na qual, sujeitos organizacionais e pesquisadores constroem um conhecimento sobre determinada prática organizacional em foco. Pesquisador e participante da pesquisa aprendem com a ação conjunta sobre o objeto de estudo sempre em movimento (BULGACOV e VIZEU, 2011). A prática social é situada em tempo concreto, compreendida em seu processo histórico e de mudança como uma realidade aparente, produzida por seus praticantes e produzindo-os, em um eterno transformar-se, inclusive, reflexivamente (BULGACOV e VIZEU, 2011; ENGESTRÖM, 1987; 2001; 2002; 2006; KEMMIS e McTAGGART, 2002).

Teoria da atividade

A teoria da atividade é um corpo de escritos- visto como um produto do remanejamento e da extensão das ideias vigostskianas originais sobre a formação social da mente- realizados por Leontiev (1978) e colegas. Em um nível geral, os teóricos da atividade procuram analisar o desenvolvimento da consciência na atividade social prática. A preocupação deles é com os impactos psicológicos da atividade, com as condições sociais e sistemas nela produzidos e através dela. Nesse sentido, a atividade está diretamente relacionada ao conceito marxista de práxis, sendo entendida como atividade histórica concreta que dá conta da especificidade, isto é, do caráter social e histórico, da sobrevivência e do desenvolvimento humano.Cabe observar que a atividade tem como características o simbolismo e a convencionalidade dos signos, seus principais mediadores. Como objetivo de pesquisa, a atividade deve ter seu próprio sistema de elementos estruturais e seus próprios sistemas explanatórios, os quais devem considerar o princípio da mediação semiótica e o papel da cultura.

Para Vigotski (1998, p. 49) é Lewin quem, na análise da psicologia da atividade propositada, apresenta uma "clara definição de atividade voluntária como um produto do desenvolvimento histórico-cultural do comportamento e como um aspecto característico da psicologia humana". A atividade é mais do que um simples reflexo ou resposta a um estímulo externo, mas, sim, um processo de transformação do mundo e do comportamento humano por meio dessa relação entre o homem e o mundo que se dá pela e na atividade.

A segunda geração de pesquisas, representada por Leontiev (1983), aprofunda e desenvolve teoricamente as relações psicológicas e epistemológicas no interior do esquema da atividade, expandindo o modelo desenvolvido anteriormente por Vigotski para um sistema coletivo de atividade no qual as ações dos indivíduos e grupos estão incluídas. O autor entende que a teoria da atividade visa explicar os problemas do desenvolvimento da mente humana, a qual está relacionada à consciência e à personalidade. A estrutura da atividade constituir-se-á, então, das necessidades humanas, dos seus motivos, propósitos e condições. Através da atividade, o homem não apenas se relaciona com o mundo, mas o produz e é produzido por ele.

Para Leontiev (2006), atividade designa os processos que, efetivando as relações do homem com o mundo, satisfazem uma necessidade especial a ele correspondente, enquanto outros processos que não atendem a esse pressuposto são por ele denominados de ações e operações. As atividades são os processos psicologicamente caracterizados por aquilo a que o processo, como um todo, se dirige, coincidindo sempre com o objetivo que estimula o sujeito a executar essa atividade, isto é, o motivo. Isso distingue a atividade do processo chamado ação. Um ato ou ação é um processo cujo motivo não coincide com seu objetivo, mas reside na atividade da qual a ação faz parte. Por sua vez, as operações são o modo de execução. São determinadas pela tarefa e representam as condições ou modo da ação. Engeström (1987) detalha esta concepção de atividade como uma formação coletiva, sistêmica, que possui uma estrutura mediadora complexa.

Para Daniels (2011), ocorre um distanciamento do pensamento original de Vigotski quando se dá menor ênfase à linguagem, focando mais a gênese e medição da mente através da atividade humana sensória. Nesse sentido, atividade se refere a relações sociais e a regras de conduta determinadas por instituições culturais, políticas e econômicas, com uma operacionalização mais formal dos papéis de comunidades, das suas regras de estruturação e "[da] distribuição continuamente negociada de tarefas, poderes e responsabilidade entre os participantes de um sistema de atividade" (COLE e ENGESTRÖM, 1993, p. 7). É a mediação como conceito central que elimina a possibilidade de uma avaliação determinista. A tese é a de que a estrutura e o desenvolvimento de processos psicológicos humanos surgem através da atividade prática culturalmente mediada, historicamente desenvolvida (COLE, 1996 apud DANIELS, 2011).

Leontiev foca em dois aspectos:a) nas atividades que finalmente conduzem à interiorização de ações humanas externas na forma de processos mentais internos e b) na busca pela unidade mínima que preserva as propriedades do todo.

Ao desenvolver sua teoria da atividade, Engeström apropriou-se do conceito trans-histórico de mediação em Vigotski (primeira geração) e do estudo de ferramentas e artefatos como componentes do funcionamento humano integrais e inseparáveis e da análise da estrutura hierárquica da atividade (atividade/objeto, motivo; ação/meta; operação/condições) de Leontiev (segunda geração). Autodenominando-se 3ª geração com a proposição de estudar a mediação na sua relação com os outros componentes de um sistema de atividade. Nesse, o objeto é caracterizado por ambiguidade, surpresa, interpretação, produção de sentido e potencial para mudança, pois o objeto da atividade tem evoluído cultural e historicamente e carrega consigo significados e motivos coletivos. Engeström (2006) propõe ir além do sistema de atividade singular em direção à transformação de redes de atividade, nas quais a atividade conjunta ou prática é a unidade de análise.

Daniels (2011) destaca cinco princípios na teoria da atividade de Engeström. O primeiro é que a unidade primordial de análise é um sistema de atividade coletivo, mediado por artefato e orientado por objeto, visto em suas relações de rede com outros sistemas de atividade. O segundo princípio é a multiplicidade de vozes dos sistemas de atividade, que são os múltiplos pontos de vista, tradições e interesses. O terceiro princípio é a historicidade. Os sistemas de atividade tomam forma e são transformados em extensos períodos de tempo. O quarto princípio é o papel central das contradições como fontes de mudança e desenvolvimento. Por fim, o quinto princípio é a possibilidade de transformações expansivas ou ciclos relativamente longos de transformações qualitativas.

Normam (1993 apud DANIELS, 2011) trata a atividade como situada, reconhecendo que o conhecimento humano e a interação não podem ser divorciados do mundo. Esse divórcio representaria estudar uma inteligência desencarnada, uma inteligência artificial, irreal e não característica do comportamento real. Esse autor apregoa que o que realmente interessa são a situação e os papéis que as pessoas desempenham, além da constituição mútua de pessoa e situação numa contínua e emergente interação dialética de conformação indissociável.

Não se pode olhar apenas para a situação, ou apenas para o ambiente, ou apenas para a pessoa, pois fazê-lo é destruir o próprio fenômeno de interesse. É a mútua acomodação das pessoas e do ambiente que interessa, de modo que focar somente aspectos isolados é destruir a interação, eliminar o papel da situação sobre a cognição e sobre a ação. Como Lave e Wenger (1991 apud DANIELS, 2011, p. 131) observam: "situado [...] sugere que uma dada prática social é multiplicar interconectado com outros aspectos de processos sociais contínuos em sistemas de atividade em muitos níveis de particularidade e generalidade".

A atividade passa a ser vista como endereçada, dirigida, simultaneamente, para seu objeto e para as outras atividades que incidem sobre esse objeto, sejam elas do outro ou, ainda, de outras atividades do sujeito (CLOT, 2010). O objeto de estudo sociocultural são eventos, atividade e prática, "sendo metodologicamente necessário estudar práticas situadas" (DANIELS, 2011, p. 123). Até o conhecimento da criança, isto é, sua interpretação dos fenômenos da realidade, só ocorre em conexão com sua atividade (LEONTIEV, 2006).

Portanto, ao tomar "atividade" como referencial de pesquisa, esta irá contribuir com categorias de análise na construção de uma abordagem de prática social como uma prática historicamente constituída e reconstituída pela ação humana e social uma prática reflexiva. No entanto, é preciso certo cuidado, pois como adverte Clot (2007), as atividades não estão "todas prontas" à espera de uma explicação, pois ao se transformarem em linguagem, as atividades se reorganizam e se modificam, sendo a própria atividade uma relação de transfiguração entre o dado e o criado.

Ao analisar o campo prático do agir humano, Clot (2010) define atividade como uma unidade viva, que passa por metamorfoses ao longo do tempo. A análise da atividade está aliada ao desenvolvimento possível dos objetos, dos artefatos, do sujeito, dos instrumentos do sujeito e da atividade coletiva. Para esse autor, na atividade unem-se o pensamento, a linguagem e as ações do sujeito.

 

Linguagem, Sentido e Significado em Vigotski

O desenvolvimento psicológico foi concebido por Vygotsky (1993) como um processo dinâmico "cheio de convulsões, mudanças e reversões" (DANIELS, 2002, p. 118). Estas levam à formação das funções mentais superiores - influenciadas por um sistema de ferramentas psicológicas mutantes-constituídas por sistemas simbólicos mediadores que deixam sua marca na atividade inteira, convencionando o relacionamento entre significante significado. O simbolismo e a convencionalidade dos signos são características da atividade humana, e a concretização da atividade é um mecanismo psicológico que cria e posteriormente incorpora símbolos e sentidos no repertório da cultura (KOZULIN, 2002). De acordo com Bruner (1997) e Vigotski (1998), entrar no mundo humano é entrar no mundo da linguagem, é entrar no mundo dos significados, pois é através deles que o homem cria e recria a cultura.

Vygotsky (1981; 1993), ao tentar dar conta da consciência e das relações entre suas diferentes funções centrou-se na busca da compreensão da relação existente entre o pensamento e a linguagem, propondo o significado da palavra como unidade de análise. Esta não admite mais decomposição, pois contém as propriedades do todo. O significado da palavra é um ato verbal extraordinário do pensamento que reflete a realidade de forma radicalmente distinta da sensação imediata, pertencendo tanto ao domínio da linguagem quanto ao do pensamento.

Nos escritos de Vygotsky (1993), as funções psicológicas superiores (atenção, pensamento abstrato, memória e vontade, entre outras) não são fruto do processo de maturação biológica, mas fruto do desenvolvimento cultural, construído pela mediação através de instrumentos psicológicos. Dentre eles, o mais importante é a linguagem. Para Vygotsky (1981), o meu "ser" humano é constituído pela convivência com o outro. Essa constituição ou reconstituição é de natureza semiótica, tendo como função de mediação o signo linguagem.

A linguagem (que é um utensílio que faz a mediação da relação do homem com os demais e consigo mesmo) no primeiro momento, não modifica o objeto da operação psicológica, na medida em que se constitui num meio da atividade interna dirigida do próprio indivíduo. Ao contrário do instrumento ou da ferramenta, sempre usados para transformar a natureza, a linguagem é primeiro orientada para os outros e depois internamente. Para Vygotsky (1993), ela desempenha, em um primeiro momento, influência sobre os outros e, posteriormente, influencia a si mesma. A aquisição de um sistema linguístico organiza todos os processos mentais, pois, o desenvolvimento do pensamento é determinado pela linguagem, isto é, pelos instrumentos linguísticos do pensamento. A palavra, além de indicar um objeto do mundo externo, especifica as principais características desse objeto, generalizando-as, para, em seguida, relacioná-las em categorias. O crescimento intelectual está associado ao domínio da linguagem, domínio dos meios sociais do pensamento.

O desenvolvimento da linguagem, para Vygotsky (1993; 1998), é posto como um paradigma para explicar a formação de todas as outras operações mentais que envolvem o uso de signos. Assim como a linguagem, a vontade e outras funções intelectuais superiores aparecem duas vezes no curso do desenvolvimento da criança. Primeiro nas atividades coletivas, no social, que se definem como funções de caráter interpsíquico; aparecendo em seguida nas atividades individuais, como propriedades internas do pensamento, passando a ser de natureza intrapsíquica. É quando a linguagem passa a ter uma função intrapessoal além de seu uso interpessoal.

A ideia central da teoria vigotskiana é que a relação entre pensamento e palavra é um processo. Essa relação é o movimento do pensamento até a palavra e o revés, da palavra até o pensamento, através de uma mudança funcional, ou fases de um movimento, que a relação existente entre pensamento e linguagem muda e cresce no transcurso do próprio desenvolvimento histórico da consciência humana. "A relação entre o pensamento e a palavra é um processo vivo de gênesis do pensamento na palavra" (VYGOTSKY, 1981, p. 345).

Vygotsky (1993) distingue entre a linguagem interna (que é a linguagem para si mesmo) e a linguagem externa (que é a linguagem para os demais), sendo esta a que o pesquisador tem acesso. A linguagem externa é um processo de transformação do pensamento na palavra, sua materialização e objetivação. No entanto, a palavra não contém o pensamento em sua totalidade, pois este a excede. Como forma de compreendermos essa transformação entre o pensado na linguagem interna e o objetivado na linguagem externa, observamos no campo da análise organizacional, mais especificamente no processo de estruturação da divisão do trabalho, que o trabalho real excede o trabalho prescrito. O primeiro é desempenhado pelo trabalhador em uma atividade situada e o segundo, estabelecido mediante descrição detalhada de formas e meios de execução. Em situações comuns de trabalho é praticamente impossível atingir os objetivos da tarefa, respeitando de maneira rigorosa as prescrições, as instruções e os processos de trabalho, independente das qualidades da concepção e da organização do trabalho, dos ajustes realizados na atividade e das idiossincrasias dos sujeitos envolvidos.

O pensamento, afirma, não se manifesta na palavra, ele culmina ou se realiza nela. Dessa forma, acessar o pensamento através da linguagem excede a busca pela apreensão do significado até a investigação do sentido. O sentido da palavra é a soma de todos os sucessos psicológicos evocados na consciência graças à palavra. "O sentido da palavra é sempre uma formação dinâmica, variável e complexa que tem várias zonas de estabilidade diferentes" (VYGOTSKY, 1993, p. 333). O sentido da palavra é um fenômeno complexo e móvel que, em certa medida, muda constantemente; neste aspecto, o sentido da palavra é ilimitado. Por sua vez, o significado é somente uma zona do sentido, a mais estável, coerente e precisa. A palavra adquire seu sentido em seu contexto e, assim, varia de sentido em contextos diferentes, embora o significado permaneça menos variável e mais estável. "O significado não é mais que uma potência que se realiza na linguagem viva e, na qual, este significado é tão somente uma pedra no edifício do sentido" (VYGOTSKY, 1993, p. 333). Há, portanto, uma preponderância do sentido da palavra sobre seu significado.

O significado é a própria palavra vista em seu aspecto interno, um fenômeno da linguagem, tanto verbal quanto intelectual. Decisivo, básico e essencial, é o aspecto psicológico da palavra, que é um modo completamente distinto de refletir a realidade na consciência. Ao considerarmos a natureza psíquica da palavra, podemos compreender a capacidade de desenvolvimento da palavra e de seu significado. Para se estudar a relação entre pensamento e palavra como o movimento do pensamento em palavra, deve-se estudar as fases que integram esse movimento, diferenciar a série de planos a que recorre o pensamento encarnado na palavra (VYGOTSKY, 1981).

Vygotsky (1993, p. 289) argumenta que ao operar com o significado da palavra como unidade do pensamento verbal, "tem-se a possibilidade efetiva de analisar no concreto o desenvolvimento do pensamento e explicar suas principais características em suas diferentes fases", pois o próprio movimento ou ato de pensar, que vai da ideia à palavra é a história de um desenvolvimento. O significado também não é permanente, ele evolui partindo de máxima generalização do pensamento verbal até a máxima complexidade encontrada nos conceitos abstratos. A palavra "representa uma generalização, um modo de refletir a realidade na consciência completamente distinto" (VYGOTSKY, 1993, p. 295) do desenvolvimento da língua, do conteúdo da palavra e de seu objeto.

 

Estudos da Prática Organizacional como Sistema Coletivo de Atividade Significada

Antes de iniciarmos a apresentação de exemplos,esclarecemos que neste estudo não usaremos o termo intervenção, conforme Engeström (1987) em sua teoria da atividade (cultural historical activity theory- CHAT), diretamente vinculada à pesquisa intervencionista, porque se o fizéssemos voltaríamos a raízes das filiações históricas deste termo, o qual revela dimensões que não assumimos e deixa de revelar dimensões que pretendemos destacar. Elegemos o termo prática social porque este remete às filiações originais dos autores e conceitos da abordagem sócio-histórica e cultural que adotamos.

Ao ter a prática social como objeto de análise, essa pratica deve ser descrita focando-se grupos sociais e sujeitos específicos, para que possamos entender o que esses sujeitos e grupos fazem e como fazem. É necessário ainda analisar as formas objetivas de atividades e de entendimentos (tanto subjetivos quanto intersubjetivos) dos sujeitos, os quais constitutem mutuamente o mundo e sua experiência. Isso possibilitará revelar um conjunto de conhecimentos tácitos e mediações sociais a partir dessas relações.

Para Clot (2007), toda prática social, material e simbólica sobre o mundo exterior é constitutiva da sociedade e da vida subjetiva dos sujeitos; é uma verdadeira constelação de atividades pessoais em intersignificação. Por isso, ele adverte sobre a ideia demasiado simplista de explicação ou extração de informações dos sujeitos, em prol da construção das informações com o sujeito. Por isso, fundar-se em pressupostos sócio-históricos e culturais significa desenvolver uma metodologia que contribua para a transformação do objeto estudado. Não se trata de simplesmente conhecer a realidade, mas agir no espaço de vida/atividade em que as pessoas existem, com a participação dessas pessoas (HOLZMAN e NEWMAN, 2002). Uma metodologia que transforma o objeto, que seja instrumento e resultado do estudo e não instrumento para chegar a resultados.

Diferente do método compreendido como um meio a ser aplicado para um fim, Vigotski (2007) entende o método como algo a ser praticado, não como um instrumento a ser aplicado. Assim, busca-se revelar contradições e confrontá-las com os sujeitos praticantes, para possibilitar a transformação, o desenvolvimento e a inovação. Método a ser praticado e método como instrumento remete ao debate entre práxis e pragmatismo. O método pragmático busca resolver o problema sem especificar nenhum resultado particular, porque está orientado para a consequência eficaz. O método da práxis volta-se para o processo, que é entendido como não separado do resultado. O instrumento-e-resultado é a atividade de seu desenvolvimento, em vez de sua função.

A própria análise da atividade dirigida desemboca em um desenvolvimento possível dos objetos, dos artefatos, do sujeito, dos instrumentos do sujeito e da atividade coletiva. Esse desenvolvimento consiste em o sujeito pôr o mundo social a seu serviço, em fazer dele um "mundo para si", a fim de integrar-se a ele; ou seja, consiste em reformulá-lo participando da elaboração de novas significações. Quanto à análise da prática social, esta permite a produção do inesperado, que é um mecanismo vital do desenvolvimento, que recusa a previsibilidade (CLOT, 2007).

Ao adentrar no contexto de pesquisa, o pesquisador estará munido de conceitos sensibilizadores (FLICK, 2004), relacionados ao tema que pretende expandir com o apoio da pesquisa proposta. Mesmo que estes conceitos ainda não estejam totalmente explícitos para o pesquisador, eles compõem o referencial teórico proposto no projeto de pesquisa. No contato com os elementos do campo empírico, o pesquisador irá se deparar com diversos sistemas de atividades componentes da prática, a partir dos quais poderá fazer seu recorte de pesquisa.

Ao iniciar a coleta de informações para descrever os sistemas de atividades, o pesquisador poderá usufruir de diversas ferramentas como fotos, filmagens, entrevistas, análise documental e observação. De acordo com Vieira (2004), a observação da atividade pode ser realizada a partir da filmagem, descrição e notas de campo para apoiar o exercício de confrontação do trabalhador consigo mesmo e com seu trabalho e serve como ponto de partida para os momentos de verbalização com os indivíduos pesquisados. A observação, para Guérin (2001), é uma ferramenta potente para apreender as variabilidades da prática. Para Vieira (2004), a observação da atividade pode fundamentar o exercício de confrontação do trabalhador consigo mesmo e com seu trabalho e é o ponto de partida para os momentos de verbalização com os indivíduos pesquisados.

Um elemento imprescindível nessa proposta metodológica são as falas dos sujeitos envolvidos que poderão ser captadas pelo instrumento que melhor se adaptar aos objetivos propostos na pesquisa, ao tempo e disponibilidade dos participantes. Lembrando que a linguagem escrita se diferencia da linguagem dialogada em sua reflexão e deliberação, estando ligada, desde o primeiro momento, à consciência e à intencionalidade. Os instrumentos adotados para coleta e análise da fala dos sujeitos deverão compreender o fato de que as relações verbais são fontes de sensações e que na linguagem dialogada as sensações são experimentadas mediante a entonação, sendo desveladas pelas circunstâncias, com a cumplicidade entre os interlocutores mostrando-se como elemento significativo para a tendência à predicação (VYGOTSKY, 1993).

As entrevistas, por exemplo, são importantes para ilustrar os elementos identificados nas observações, e são, de acordo com Faïta e Vieira (2003), momentos para proporcionar aos indivíduos pesquisados a oportunidade de desempenharem o papel de parceiros na sistematização da compreensão de sua prática. As transcrições das entrevistas, das conversas e as notas de observações serão partes essenciais desses documentos submetidos à confrontações, pois abrem a possibilidade de um constante repensar e, até mesmo,de reelaboração dos elementos do exercício de sua atividade de trabalho (FAÏTA e VIEIRA, 2003).

Um vez munido de informações advindas das mais variadas fontes disponíveis dentro dos sistemas de atividades estudados, o pesquisador poderá optar por confrontar os sujeitos com as fotos e filmagens de sua atividade, por confrontá-los com a transcrição de suas entrevistas ou confrontá-los com outros sujeitos praticantes da mesma atividade. Poderá ainda optar pela mescla dessas opções, conforme proposto em diferentes aplicações do método da autoconfrontação. Faïta e Vieira (2003) e Vieira (2004) propõem duas formas de aplicar o método de autoconfrontação: a autoconfrontação simples e a autoconfrontação cruzada.

A autoconfrontação simples configura-se na produção, pelos protagonistas, de um discurso referente à atividade observada. O indivíduo é então confrontado com as imagens de sua própria atividade e abre-se um espaço para que esse indivíduo exponha, narre ou responda a questões propostas pelo pesquisador. O objetivo é produzir significados concretos sobre as imagens. Na autoconfrontação cruzada há uma produção discursiva contextualizada, pois além das referências da atividade filmada e da autoconfrontação simples, há a interação entre os atores envolvidos na atividade. O objetivo é produzir uma atividade de análise e produção discursiva sobre a atividade de trabalho

Ao longo de todo o processo de coleta de informações, o pesquisador, junto com os participantes/sujeitos pesquisados, irá desvelando as peculiaridades dos sistemas pesquisados ou de categorias como sujeito, objeto, instrumentos, regras, divisão de trabalho e comunidade envolvida propostas por Engeström (1987).

Ao identificar, relatar e analisar tais categorias, deve-se ter como norteadores os cinco princípios da teoria da atividade destacados por Daniels (2011).

Essas categorias são uma das construções possíveis. No contato com os sistemas de atividades, outras categorias emergirão, pois o pesquisador poderá buscar aporte teórico em autores da teoria da atividade que propõem outras grandes categorias centrais para análise da atividade (como, por exemplo, gênero e estilo na análise da função psicológica do trabalho) apresentadas por Clot (2007), fundamentado em Vigotski. Além das categorias, é importante rever a relação pesquisador/pesquisado, rever a apreensão do objeto e ampliar os níveis de análise até incluir-se a atividade "situada". Ao pesquisar a ação inserida na situação, veiculando a interpretação ao contexto, uma interação social situada, a atividade do sujeito é absorvida na ação de um coletivo, dilacerada pelas contradições vivas de um dado meio, para eventualmente voltar, saturada de variantes e prenhe de nuanças, com uma estabilidade que é igualmente sempre provisória (CLOT, 2007).

No método proposto por Clot (2007), as hipóteses explicativas, registro de vestígios e análise da atividade para o outro e para si podem provocar uma transformação na atividade e nos próprios sujeitos. É na produção de uma experiência refletida que o sentido enriquece a experiência contextualizada na ação e sua análise pode provocar um rompimento com as cadeias de ações repetitivas e sem sentidos para o sujeito; uma possibilidade de o sujeito despertar para outros envolvimentos que a ele eram e são concebíveis. A tomada de consciência não é apenas uma nova representação do objeto; também é, simultaneamente, outra representação do sujeito. É uma ocasião que possibilita ao sujeito se libertar dos pressupostos de sua ação e ter a oportunidade de subjetivação.

Acredita este autor que a única metodologia possível é a indireta, que consiste em organizar a "replicação" da experiência vivida, inventando dispositivos técnicos que permitam aos sujeitos acessar sua experiência vivida como objeto de uma nova experiência. O papel do pesquisador passa a ser o de construir junto com os participantes/pesquisados formas de acesso ao conhecimento, de explicitá-lo e de compreendê-lo;compreensão que vai sendo desenvolvida ou incorporada de forma reflexiva durante o processo de coleta e análise dos dados. A compreensão da prática social (como unidade de análise) passa pela resposta à pergunta de como essa prática social foi e está constituída.

Para a apreensão da constituição dos sentidos nas falas dos sujeitos, a metodologia proposta por Aguiar e Ozella (2006; 2009) propõe caminhar por um processo de análise e interpretação dos dados até zonas mais instáveis, fluidas e profundas, ou seja, para as zonas de sentido (AGUIAR e OZELLA, 2006, p. 4-5). O processo é realizado a partir de três etapas: a criação dos pré-indicadores, a criação dos indicadores e a construção e análise dos núcleos de significação. É a organização dos núcleos de significação que irá possibilitar a análise dos dados, pois é a partir dos indicadores que cada conteúdo será especificado e detalhado. A análise é compartilhada com os participantes/pesquisados para verificar que sentido faz para eles e, assim, ser modificada ou completada pela discussão dos participantes da pesquisa.

Temos como alguns exemplos de aplicação de metodologias para análise da prática organizacional como sistemas de atividades significadas as pesquisas realizadas por Canopf (2013), por Dorigan de Matos (2013) e por Zdepski (2013).

Canopf (2013) desenvolveu pesquisa sobre a mediação da emoção na prática docente em um curso de graduação em administração de uma instituição federal de ensino superior. Quanto à metodologia, a autora a considerou uma aproximação qualitativa, um processo dialógico, como defendido por González Rey (2003; 2005), legítima para desenvolver sua pesquisa. Foram escolhidos três momentos de interação de alunos e professores em sala de aula para serem filmados. Esses momentos representaram os sistemas de atividades componentes e suficientes para análise da prática docente: o sistema de atividade aula expositiva, o sistema de atividade de aplicação da teoria em situações concretas e o sistema de atividade de verificação da apropriação dos conceitos teóricos por parte dos alunos.

Após o término das filmagens e saída das professoras da sala, a pesquisadora entrevistava os alunos em busca do sentido da atividade realizada. Depois de editado o filme feito em sala de aula, este era exibido para a professora, que então concedia uma entrevista. Uma vez transcrita a entrevista, a pesquisadora a leu para a professora.Durante a leitura, a professora poderia repensar, complementar, retirar ou esclarecer suas falas. Ao longo das filmagens em sala de aula, das entrevistas com os alunos e professores, da participação em reuniões do curso, encontros com a coordenação e da análise dos dados à luz do referencial teórico proposto, foi possível revelar a mediação da emoção na prática docente, como construtora de sentido tanto para alunos quanto para professores, como gênese e sustentação da atividade humana (CAMARGO, 2012).

O estudo de Dorigan de Matos (2013) foi desenvolvido para o conhecimento da prática de cooperação em movimentos sociais de trabalhadores, destacando a mediação da participação paritária. A aproximação precária do objeto contribuiu para o ajustamento do delineamento teórico, possibilitando o conhecimento da realidade como tal. Os dados primários foram coletados através de entrevista semiestruturada e recorrente e pela observação direta não participante. Já os dados secundários foram coletados em documentos das organizações, disponibilizados para consulta, e na literatura especializada. A metodologia utilizada para a análise dos dados é a de Aguiar e Ozella (2006; 2009). A organização dos núcleos de significação possibilitou desvendar ideologias e princípios, não se limitando o pesquisador ao conteúdo manifesto dos discursos, buscando conhecer o conteúdo latente da comunicação. Esse método possibilitou o aprofundamento na natureza das relações interpessoais, analisadas a partir da significação que os pesquisados dão às suas ações, considerando cada fenômeno no conjunto de suas relações com os demais fenômenos e no conjunto dos aspectos e manifestações daquela realidade (LEFEBVRE, 1991). A análise mediante o uso dos núcleos de significação permitiu concluir que a construção da representação paritária, como elemento mediador na atividade significada, contribui para a aprendizagem expansiva na organização, à medida que, a partir da justiça política, proporciona aos sujeitos participarem plenamente como pares, rompendo com a desigualdade de status e dando condições de oportunidades iguais.

Já o trabalho de Zdepski (2013) buscou revelar como as mediações culturais de aprendizagem e memória contribuem para a inovação na prática de produção associada ao turismo da Colônia Witmarsum, no estado do Paraná. A partir da teoria da atividade, as práticas foram compreendidas como o conjunto de três atividades significativas para entender a prática turística e a mediação dos processos de aprendizagem expansiva e rememoração coletiva, denominada prática de produção associada ao turismo. Nessa prática estão envolvidos indivíduos que desenvolvem atividades vinculadas a qualquer produção artesanal, industrial ou agropecuária que detenham atributos naturais e/ou culturais de uma determinada localidade ou região, capazes de agregar valor a destinos turísticos (BRASIL, 2011). Assim, entendeu-se que cada atividade de produção associada ao turismo, na aplicação da teoria da atividade, era um sistema de atividade composto por um grupo de pessoas voltadas para o(s) objeto(s) da produção associada ao turismo (gastronomia típica, artesanato e produção agropecuária). Objetivou-se, a partir do diálogo com os produtores, apreender a história da atividade através dos sentidos e significados dados pelos indivíduos envolvidos, buscando identificar como a memória coletiva e aprendizagem expansiva mediam esses sistemas de atividades e os momentos históricos em que eventuais transformações, conflitos e mudanças ocorreram.

 

Considerações Finais

Ao considerar o percurso teórico desenvolvido, no que diz respeito às categorias centrais assumidas neste artigo a partir da perspectiva sócio-histórica e cultural da teoria da atividade, acreditamos que esta contribui para o estudo da organização, na medida em que:

1. rompe com a dicotomia indivíduo/grupo/ organização, assumindo o recorte analítico da prática como um conjunto de atividades coletivas e significadas voltadas para um objeto, mediadas por artefatos e significações sociais, históricas e culturais;

2. ao se recortar a prática social como um sistema coletivo de atividade significada a partir de grupos e/ou sujeitos específicos, a fim de entender o que fazem e como fazem, é revelado um conjunto de conhecimentos tácitos e mediações sociais, superando-se o fazer individual e objetivista predominante na pesquisa organizacional;

3. suplanta a concepção abstrata e a-histórica do fenômeno organizacional, concebendo-o no seu acontecer histórico como fenômeno concreto constituído de sistemas de atividades e de causalidade intersubjetivas,no qual as partes contém o todo e são lugares de resistências, contradições, de ação, de produção de subjetividades,de aprendizagem e de possibilidades de desenvolvimento dos sujeitos;

4. insere o trabalhador,o sujeito da atividade, como protagonista na atividade reflexiva da pesquisa que descreve e analisa junto com o pesquisador seu sistema de atividades, podendo ampliar sua consciência sobre as práticas locais e os textos globais,bem como, ressignificar sua ação,expandindo as possibilidades do seu poder de agir. Nesse sentido, pesquisador e participante da pesquisa aprendem com a ação conjunta sobre o objeto de estudo sempre em movimento. O foco são os impactos psicológicos da atividade e as condições sociais e sistemas produzidos em tal atividade e através dela;

5. supera a concepção de método como instrumento a ser aplicado para se atingir um resultado. O foco é deslocado do resultado das atividades para o método em que há preocupação com o processo de desenvolvimento das atividades. Nessa perspectiva, indaga-se sobre como as atividades são desenvolvidas, sobre o nível de implicação dos sujeitos e de que forma são inseridos nas atividades. É questionado ainda se compreendem todo o processo e, principalmente, como a atividade individual se situa em relação ao conjunto das atividades desenvolvidas na organização. Portanto, há uma ruptura com a perspectiva de método-para-resultado. Assim, o resultado é sempre condicionado ao processo de desenvolvimento da atividade. Como o método não é aplicado apenas para se conseguir determinado resultado, ele passa a ser uma ferramenta que deve ser praticada, aprimorada e modificada, a partir da implicação e compreensão de todos os sujeitos envolvidos nessa prática;

6. rompe com a concepção behaviorista de homem contribuindo com as categorias analíticas de mediação, sentidos e significados, aprendizagem e desenvolvimento a partir de uma teoria da ação, o que possibilita transformações expansivas ou ciclos relativamente longos de transformações qualitativas;

7. é proposta uma metodologia de análise da prática com possibilidades de revelar um conjunto de conhecimentos tácitos e mediações sociais com uma inteligibilidade inexistente em abordagens lógico-normativas e não facilmente capturáveis em modelos abstratos e de proposições teórico-formais. A prática social é situada em tempo concreto, é compreendida em seu processo histórico e de mudança como uma realidade aparente, produzida por seus praticantes e produzindo-os em um eterno transformar-se, inclusive, reflexivamente. A análise da atividade situada está aliada ao desenvolvimento possível dos objetos, dos artefatos, do sujeito, dos instrumentos do sujeito e da atividade coletiva. Na atividade unem-se o pensamento, a linguagem e as ações. Um elemento imprescindível para a análise do sistema de atividade são as falas dos sujeitos, fontes de sensações experimentadas trazendo indicadores da significação da atividade. As entrevistas são importantes para proporcionar aos sujeitos pesquisados a oportunidade de desempenhar papel de parceiros na sistematização e compreensão da prática social estudada.

Decorrente desses princípios, essa metodologia abre possibilidades para o inesperado, na medida em que pesquisador e pesquisados, em face das contradições, significam possibilidades ou não de transformação do objeto da atividade e, ao mesmo tempo, de possíveis transformações de si, como sujeitos conscientes de sua prática, aspectos de uma intersubjetividade não contemplada nos estudos organizacionais.

 

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Artigo submetido em 12 de junho de 2013 e aceito para publicação em 11 de junho de 2014.

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