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Revista de Odontologia da UNESP

On-line version ISSN 1807-2577

Rev. odontol. UNESP vol.42 no.3 Araraquara May/June 2013

http://dx.doi.org/10.1590/S1807-25772013000300002 

ARTIGO ORIGINAL

 

Fatores de risco relacionados à condição de saúde periodontal em universitários

 

Risk factors related to periodontal health status in undergraduate students

 

 

Carlos Henrique de Carvalho e SouzaI; Neusa Barros Dantas-NetaI; Joseany Barbosa LaurentinoII; Danila Lorena Nunes-dos-SantosI; Raimundo Rosendo Prado JúniorIII; Regina Ferraz MendesIII

IPrograma de Pós-graduação em Odontologia, UFPI - Universidade Federal do Piauí, 64049-550 Teresina - PI, Brasil
IICentro de Ciências da Saúde, UFPI - Universidade Federal do Piauí, 64049-550 Teresina - PI, Brasil
IIIDepartamento de Odontologia Restauradora, Centro de Ciências da Saúde, UFPI - Universidade Federal do Piauí, 64049-550 Teresina - PI, Brasil

Autor para correspondência

 

 


RESUMO

INTRODUÇÃO: A doença periodontal pode ter seu início na infância e na adolescência, e progredir lentamente ao longo da vida. Em universitários, a forma mais comum e prevalente da doença é a gengivite.
OBJETIVO: Mensurar a condição de saúde periodontal de uma amostra de universitários e verificar existência da associação com variáveis sociodemográficas e os fatores de risco envolvidos.
MATERIAL E MÉTODO: A amostra consistiu de 306 universitários voluntários, com idade entre 19 e 35 anos, sendo usados como indicadores de saúde bucal os índices: Índice Periodontal Comunitário (CPI) e Índice de Dentes Cariados, Perdidos e Obturados (CPO-D). Para processamento e análise dos dados, foi usado o programa SPSS versão 18.0. A classificação da condição periodontal foi dicotomizada em CPI < 3 e CPI > 3. Realizou-se regressão logística bivariada e multivariada para analisar a associação entre a condição periodontal e as variáveis independentes.
RESULTADO: A amostra consistiu de 51,3% de mulheres e 48,7% de homens, tendo a maioria renda menor do que 6 salários mínimos. Observou-se que 14,4% da amostra era livre de cárie. A pior condição periodontal foi encontrada no sextante 6 e 20,9% da amostra apresentou bolsas rasas em ao menos um sextante. Houve associação entre a condição periodontal e as variáveis: gênero, renda, nível de higiene bucal e uso do fio dental (p < 0,05); entretanto, não houve associação entre aquela e o CPO-D da amostra (p = 0,48).
CONCLUSÃO: A amostra apresentou leve condição de doença periodontal, com ausência de bolsas periodontais profundas. Indivíduos do gênero feminino, de renda acima de 4 salários, com bom nível de higiene bucal e que usam o fio dental tiveram melhor condição de saúde periodontal.

Descritores: Doenças periodontais; epidemiologia; estudantes; higiene bucal; fatores de risco; análise multivariada.


ABSTRACT

INTRODUCTION: Periodontal disease may have its onset during childhood and adolescence and slowly progress throughout life. In undergraduate students, the most common and prevalent form the disease is gingivitis.
OBJECTIVE: To assess the periodontal health status of a sample of undergraduate studentsand assess a possible association between the disease and socio-demographic variables, as well as the disease's risk factors.
MATERIAL AND METHOD: The sample consisted of 306 undergraduate students volunteers aged between 19 and 35 years. The oral health indices used were the CPI and DMFT. Data processing and statistical analysis was performed using SPSS® version 18.0 for Windows. The classification of periodontal status was dichotomized in CPI<3 and CPI>3. Bivariate and multivariate logistic regression analyses were carried out to evaluate the association between periodontal status and the independent variables.
RESULT: The sample consisted of 51.3% female and 48.7% male, mostly with income less than 6 Brazilian minimum salaries. 14.4% of the sample was caries free. The worst periodontal status was in sextant #6 and 20.9% had shallow periodontal pockets in one sextant at least. There was an association between periodontal health status and gender, income, level of oral hygiene and flossing (p <0.05), but not between that and DMFT sample (p = 0.48).
CONCLUSION: The sample showed mild periodontal disease condition, with no deep pockets. Female subjects, who earn more than 4 minimum salaries, with a good level of oral hygiene and who use dental floss had better periodontal health.

Descriptors: Periodontal diseases; epidemiology; students; oral hygiene; risk factors; multivariate analysis.


 

 

INTRODUÇÃO

As doenças periodontais são enfermidades crônicas que afetam os tecidos de suporte do dente e cuja progressão pode causar a perda do elemento dental e até problemas sistêmicos de saúde1,2. Apesar do caráter multifatorial, a periodontite apresenta como fator etiológico primário o acúmulo de biofilme dental bacteriano. Sua manifestação e sua progressão podem ser influenciadas por uma grande variedade de determinantes ou fatores de risco, como características do indivíduo, fatores sociais, comportamentais, sistêmicos e genéticos, e a composição microbiana do biofilme dental3.

Grandes levantamentos nacionais em saúde bucal já foram conduzidos no Brasil4,5 e divulgaram dados relacionados à prevalência das doenças periodontais. O mais recente foi realizado em 2010 pelo Ministério da Saúde e envolveu todas as regiões do país. Seus resultados apontaram uma aparente baixa prevalência de doença periodontal na população brasileira, influenciada pela grande quantidade de perdas dentárias nos indivíduos a partir dos 35 anos de idade5.

Apesar de as doenças que acometem o periodonto serem extensamente pesquisadas, amplas diferenças na sua distribuição e na sua prevalência são observadas na literatura6,7. Características regionais e socioeconômicas, e fatores ambientais e comportamentais podem explicar, em parte, as disparidades encontradas nos diferentes locais onde os estudos são realizados2,8,9. Em função da extensão territorial e das diferenças socioeconômicas no Brasil, estudos epidemiológicos devem ser conduzidos em diversas regiões a fim de diagnosticar características específicas de saúde e aumentar a eficácia das medidas de prevenção e controle das doenças, principalmente em populações com condições especiais de vida ou de localização.

A maioria dos estudos epidemiológicos segue os parâmetros preconizados pela Organização Mundial da Saúde (OMS)10 e as idades-índices não contemplam a faixa etária de 19 a 35 anos, exatamente a faixa na qual se enquadra o grande percentual dos estudantes universitários. Assim, os dados relacionados às condições periodontais de adultos jovens ainda são escassos2,11. O foco dos estudos sobre doença periodontal está voltado para populações de meia-idade ou idosas, nas quais a severidade da doença é elevada; diversamente, os estudos em indivíduos jovens costumam se concentrar na investigação das formas agressivas de periodontite11-13.

A doença periodontal não acomete apenas adultos com idade acima de 35 anos. A gengivite, por exemplo, é a forma mais comum e prevalente de doença periodontal em crianças e adolescentes. Ela pode ter seu início na infância e na adolescência, e progredir lentamente durante toda a vida13. Considerando-se o caráter cumulativo de destruição dos tecidos periodontais, torna-se imprescindível a compreensão das suas características epidemiológicas e clínicas no início do curso da doença. Esses dados devem servir de base para intervenções apropriadas, voltadas à prevenção da sua progressão e ao seu tratamento precoce12,14.

Este estudo tem como objetivos mensurar as condições periodontais de uma população de adultos jovens universitários e verificar a sua associação com variáveis sociodemográficas, além de determinar os seus fatores de risco.

 

METODOLOGIA

Este estudo transversal é composto por 306 estudantes universitários da cidade de Teresina, com idade entre 19 e 35 anos. O tamanho da amostra foi estabelecido seguindo cálculos estatísticos com nível de confiança de 95% e intervalo de confiança de 5,6. Levou-se em consideração a população de Teresina-PI mensurada pelo último censo realizado em 2010 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que indicou 814.230 habitantes15. Os estudantes foram selecionados aleatoriamente, por convite verbal feito durante uma apresentação do projeto nas salas de aula. Todos os participantes concordaram em assinar o termo de consentimento livre e esclarecido (TCLE) aprovado pelo Comitê de Ética e Pesquisa da Universidade Federal do Piauí (UFPI), com CAAE nº 0158.0.045.000-09. Além disso, nenhum dos autores tem relações financeiras ou pessoais que poderiam comprometer o estudo ou afetar o julgamento.

Foram excluídas do estudo pessoas com distúrbio sistêmico ou psicológico, e as que haviam realizado tratamento periodontal nos 12 meses anteriores ao estudo e que estavam em tratamento ortodôntico ou o fizeram durante o ano anterior ao estudo.

A coleta de dados foi realizada por um único examinador e um anotador no período de agosto de 2010 a junho de 2011, em ambiente clínico odontológico. Durante a anamnese, preencheu-se um formulário desenvolvido para este estudo, coletando os dados sociais, econômicos e demográficos. O exame intraoral aconteceu sob iluminação de refletor odontológico, com a utilização de espelho bucal, sonda exploradora, sonda periodontal milimetrada e afastadores de tecidos moles. Os indivíduos examinados foram caracterizados quanto aos índices de saúde bucal CPI (Índice Periodontal Comunitário) e CPO-D (Índice de Dentes Cariados, Perdidos e Obturados), de acordo com critérios da OMS10.

A condição de saúde periodontal foi registrada de acordo com o sistema de codificação CPI, em que: (0) indicava periodonto saudável; (1) sangramento observado após a sondagem; (2) cálculo detectado durante a sondagem; (3) 4-5 mm de bolsa; (4) representava bolsa > 6 mm, e (X) sextante excluído.

Para avaliar o nível de higiene bucal, observou-se o número de superfícies com biofilme visível utilizando-se o índice de placa visível de Ainamo, Bay16 (1975). De acordo com Duarte17 (1994), pacientes com até 27,18% de placa foram considerados com higienização aceitável. Desta forma, decidiu-se segmentar o nível de higiene dental em 3 scores, obtendo-se a seguinte classificação: Bom (0-25%), Regular (25-50%) e Ruim (>50%).

Trinta pessoas, não incluídas na amostra, pertencentes à mesma faixa etária do estudo, participaram de um estudo-piloto para calibração do examinador. Esse estudo foi submetido a teste de concordância baseado em duas avaliações no mesmo sujeito, após intervalo de uma semana (Valor de Kappa intraexaminador de 0,894 para o Índice CPI e 0,988 para o Índice CPO-D), para assegurar homogeneidade nos critérios a serem considerados durante o exame clínico.

 

ANÁLISE ESTATÍSTICA

O processamento dos dados e a análise estatística foram realizados usando-se o programa SPSS®, versão 18.0 para Windows. A pontuação da condição periodontal foi dicotomizada como boa (CPI < 3) e ruim (CPI > 3). Na análise bivariada, utilizou-se Odds Ratio (OR) como medida de efeito, com intervalo de confiança de 95% (IC95%), para analisar a associação entre a condição periodontal e as variáveis independentes. Foi empregado o teste qui-quadrado de Pearson (χ2), considerando-se significativos valores p < 0,05.

Para a análise multivariada, elaborou-se um modelo hierárquico conceitual, no qual as variáveis socioeconômicas se situaram no primeiro nível e as relativas à saúde bucal, no segundo nível (Figura 1). Neste método de análise, as variáveis são controladas para aquelas do mesmo nível ou em níveis superiores. Foram incluídas no modelo as variáveis com valor de p < 0,25 na análise bivariada. Na análise ajustada para possíveis variáveis de confusão, empregou-se a regressão logística múltipla não condicional, sendo analisado o ajuste do modelo pelo teste de Hosmerand Lemeshow e -2loglikelihood. Considerou-se intervalo de confiança (95%) e significativas as associações com valor p < 0,05 pelo teste Wald.

 

 

RESULTADO

As características socioeconômicas e demográficas da amostra estão na Tabela 1. A maioria era de pessoas do gênero feminino (51,3%), solteiras (96,7%) e com renda menor do que 6 salários mínimos (SM) (61%).

 

 

A condição periodontal mais prevalente foi a presença de cálculo dentário, seguido por sangramento em ao menos um sextante, não tendo sido detectadas bolsas periodontais profundas (Tabela 2).

Na avaliação da condição periodontal distribuída por sextante, observou-se que o sextante 2, correspondente aos dentes anteriores superiores, foi o mais saudável; já a pior condição foi encontrada no sextante 6 (dentes posteriores inferiores do lado direito) (Tabela 3).

A análise estatística bivariada revelou que os fatores gênero, renda, nível de higiene bucal e uso de fio dental influenciaram na condição periodontal quando analisados separadamente (Tabela 4). Indivíduos do gênero masculino, pessoas com menor renda, pior nível de higiene e que não faziam uso do fio dental tiveram piores condições periodontais. Não houve associação entre doenças periodontais e experiência de cárie (p = 0,48).

A análise da influência conjunta desses fatores de risco ajustados sobre as condições periodontais mostrou que o gênero masculino obteve 2,2 vezes mais chances de ter problemas periodontais do que o gênero feminino. Além disso, o nível de higiene ruim no momento do exame foi considerado como fator para piora da condição periodontal e o relato do uso de fio dental, como fator de proteção (Tabela 5). Indivíduos com renda maior do que 4 SM tiveram menores chances de desenvolver problemas periodontais.

 

DISCUSSÃO

Os levantamentos epidemiológicos nacionais sobre a condição de saúde bucal contemplam faixas etárias da população pré-estabelecidas pela Organização Mundial de Saúde. Por este motivo, o presente estudo limitou-se a indivíduos cuja faixa etária foi desconsiderada no levantamento epidemiológico brasileiro, os adultos jovens (19 a 35 anos). Os estudantes universitários foram selecionados para testar a hipótese de que estes possuem boas condições de saúde bucal em razão do bom nível de escolaridade.

Neste estudo, predominou a condição periodontal de presença de cálculo dentário, seguido por sangramento gengival, que consiste em sinal de inflamação (gengivite), mas não necessariamente de periodontite. Essas condições requerem instruções para melhor controle de biofilme e tratamento periodontal básico, sem necessidade de tratamentos periodontais complexos, como cirurgias.

Os resultados ora apresentados corroboram o estudo de coorte realizado em Pelotas-RS, com adultos de 24 anos utilizando diferentes protocolos para avaliar a prevalência das condições periodontais. Naquele estudo, observou-se que a prevalência de sangramento gengival, segundo o Índice CPI, foi 28,1% (95% IC 24,8-31,5). A prevalência de cálculo dentário foi 86,1% (95% IC, 83,4-88,5)18. Um levantamento epidemiológico realizado na Hungria, na faixa etária de 20 a 34 anos indicou como condição periodontal predominante presença de cálculo dentário (51,1%), seguido de bolsas rasas (21,9%), o que mostra que os padrões de higiene bucal e as condições de saúde periodontal precisam ser melhorados naquele país19.

A doença periodontal causa desconforto, reduz a habilidade mastigatória e, nos casos mais severos, causa abscessos orais e perdas dentais. Além destas ocorrências, a doença periodontal constitui fator de risco para condições sistêmicas, incluindo doença cardiovascular, baixo peso ao nascer e partos prematuros1. Fatores de risco não modificáveis (idade, gênero, raça, etnia) e fatores ambientais e comportamentais (socioeconômicos, microbiota específica, diabetes, tabagismo) estão envolvidos na prevalência e na severidade da doença periodontal9.

A análise da condição periodontal segundo o sextante bucal revelou que as piores condições estavam presentes na região de molares, enquanto as condições mais saudáveis foram encontradas na região de incisivos superiores. Esses dados estão em concordância com um levantamento nacional que encontrou o maior percentual de dentes hígidos (87,1%), a menor presença de cálculo (3,1%), bolsa rasa (2,3%) e bolsa profunda (0 %) nos dentes superiores centrais no grupo de 15 a 19 anos5.

Os pacientes que possuíam nível de higiene ruim tiveram um risco duas vezes maior de desenvolver a doença do que os pacientes com nível de higiene bom, em concordância com estudos que relacionam a presença de placa com sangramento gengival20 e como fator de risco para a perda de inserção e o aumento da profundidade de sondagem1,11.

A escovação e o uso de fio dental são importantes para o controle do biofilme dental, bem como da gengivite e da doença periodontal, embora esta última possua também outros fatores etiológicos21. Aproximadamente 70% da amostra usava fio dental, porcentagem considerada elevada quando comparada a de outros estudos, provavelmente em função do fato de ser uma amostra com bom nível de escolaridade19,22. O uso do fio dental reduziu em 48% a chance do desenvolvimento de bolsa periodontal entre os estudantes desta pesquisa.

Os homens apresentaram um risco duas vezes maior de desenvolver doença periodontal. Todavia, como o CPI não avalia perda de inserção periodontal e como não foram encontradas bolsas profundas, esse risco pode ter sido superestimado. Além disso, o CPI possui limitações por avaliar a situação de apenas alguns dentes. Uma possibilidade é de que as bolsas rasas encontradas possam ter sido resultado de uma hiperplasia gengival, por exemplo.

Apesar das limitações do CPI, estudos anteriores com metodologias diferentes também encontraram maior prevalência da doença periodontal em homens do que em mulheres. Ao observar um estudo nos Estados Unidos, que utilizou o nível de inserção clínica, foi verificado que os homens apresentam uma maior prevalência e gravidade da doença periodontal em relação às mulheres da mesma idade23. Uma meta-análise, que também usou artigos cujo padrão diagnóstico foi o nível clínico de inserção, parâmetro esse diferente do utilizado neste estudo, forneceu evidências de que a doença periodontal acomete mais homens do que mulheres24.

Segundo o estudo desenvolvido com universitários da Turquia, a escovação dental duas ou mais vezes por dia foi mais frequente entre as mulheres (83,2%) do que em homens (49,3%)25. Outro estudo, realizado em indivíduos com idade acima de 20 anos, em Bauru-SP, encontrou maiores porcentagens de sítios com placa e aumento da profundidade de sondagem no gênero masculino21. Tais resultados podem estar relacionados à pior higiene oral e à menor frequência de visita ao dentista em indivíduos do gênero masculino, ou seja, estão relacionados a fatores comportamentais e não ao fator genético26.

Participantes deste estudo com maior renda tiveram menor chance de desenvolver doença periodontal. A condição socioeconômica é um fator importante no estabelecimento e na progressão da doença periodontal, e está relacionada ao acesso odontológico e ao tratamento adequado2,9. Um estudo realizado por Sheiham, Nicolau27 (2005) concluiu que uma melhor condição socioeconômica implica na diminuição da quantidade de placa e do sangramento gengival, bem como da proporção de indivíduos com doença periodontal.

Não houve associação entre a experiência de cárie (representada pelo índice CPO-D) e a presença de bolsas periodontais. Esse fato poderia ter duas explicações: a primeira relacionada à baixa prevalência dessas doenças na faixa etária estudada, já que o índice CPO-D é cumulativo e a doença periodontal tem maior prevalência e severidade entre pacientes com idades mais elevadas6. E a segunda explicação estaria relacionada aos microrganismos envolvidos na progressão dessas patologias, pois existem diferenças metabólicas e antagônicas entre eles, como, por exemplo, gram negativos Actinomisses Actinocetomicomitans (Aa), como microrganismos do complexo amarelo, e Streptococcus Sp e Actynomices Sp, relacionados à doença periodontal28, na relação com os agentes etiológicos da cárie (gram positivos)29.

Programas preventivos de saúde voltados para indivíduos jovens são importantes para a saúde pública, pois indivíduos que mostram doença destrutiva em idades precoces têm elevado risco para o desenvolvimento futuro de perda de inserção clínica e óssea30. Assim, é preferível diagnosticar e tratar precocemente, em vez de enfrentar distúrbios orais e sistêmicos associados à doença periodontal moderada ou grave1.

Como este estudo trata de uma amostra de voluntários, os resultados podem representar mais um artefato estatístico do que uma medida de associação epidemiológica. No entanto, apesar das limitações desta pesquisa, foi possível realizar uma análise da saúde bucal da amostra, traçando seu perfil e contribuindo para minimizar a lacuna etária dos levantamentos epidemiológicos nacionais.

 

CONCLUSÃO

Os estudantes avaliados apresentaram boa condição de saúde periodontal, sem bolsas periodontais profundas. Homens, de menor poder aquisitivo, com higiene bucal ruim e que relataram não usar fio dental estavam em pior condição de saúde periodontal.

Tais fatores devem ser considerados no diagnóstico e na progressão da doença periodontal, e em investigações epidemiológicas para melhor compreensão dos mecanismos envolvidos na patogênese das doenças periodontais.

 

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Autor para correspondência:
Raimundo Rosendo Prado Júnior
Departamento de Odontologia Restauradora, Centro de Ciências da Saúde, UFPI - Universidade Federal do Piauí
Rua Wilson do Egito Coelho, 3655, Ininga
64048-520 Teresina - PI, Brasil
e-mail: rosendo_prado@ig.com.br

Recebido: 05/03/2013
Aprovado: 18/04/2013
CONFLITOS DE INTERESSE: Os autores declaram não haver conflitos de interesse.

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