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Motriz: Revista de Educação Física

On-line version ISSN 1980-6574

Motriz: rev. educ. fis. (Online) vol.16 no.3 Rio Claro July/Sept. 2010

http://dx.doi.org/10.5016/1980-6574.2010v16n3p714 

ARTIGO ORIGINAL

 

A ingestão de cafeína não melhora o desempenho de atletas de judô

 

The intake of caffeine does not improve the performance of judo

 

 

Lucas Adriano PereiraI; Edílson Serpeloni CyrinoI,II; Ademar AvelarII; Alexandre Queiroz SegantinII; Juliana Melo AltimariIII; Michele Caroline de Costa TrindadeIV; Leandro Ricardo AltimariI,II

IGEPESINE - Grupo de Estudo e Pesquisa em Sistema Neuromuscular e Exercício, Departamento de Educação Física/CEFE, Universidade Estadual de Londrina (UEL), Londrina, PR, Brasil
IIGEPEMENE - Grupo de Estudo e Pesquisa em Metabolismo, Nutrição e Exercício, Departamento de Educação Física/CEFE, Universidade Estadual de Londrina (UEL), Londrina, PR, Brasil
IIIFaculdade de Educação Física, Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), Campinas, SP, Brasil
IVDepartamento de Alimentos e Nutrição Experimental/FCF, Universidade de São Paulo, São Paulo (USP), SP, Brasil

Endereço

 

 


RESUMO

O objetivo do presente estudo foi investigar os efeitos ergogênicos da ingestão de cafeína, sobre o desempenho motor de atletas de judô feminino. Participaram do estudo 13 atletas do sexo feminino (17,6 ± 1,6 anos, 58,3 ± 11,4 kg, 162 ± 4,1 cm, 22,5 ± 4 kg/m2), vinculadas à Federação Paranaense de Judô, por pelo menos dois anos. O desempenho motor foi avaliado mediante a utilização do Special Judô Fitness Test (SJFT), a partir do qual foi analisado o número de arremessos em cada bloco, número total de arremessos, frequência cardíaca (FC) final e de recuperação e o índice no SJFT. Os sujeitos foram testados em duas condições, após ingestão de cafeína (6 mg.kg-1) ou placebo (dextrose) 60 minutos antes dos testes, em um delineamento duplo-cego, cruzado. O número de arremessos em cada bloco não diferiu entre as condições cafeína (CAF) e placebo (PL) (Bloco A: 4,53 ± 0,51 CAF e 4,46 ± 0,51 PL; Bloco B: 8,3 ± 0,63 CAF e 8,23 ± 0,72 PL; Bloco C: 7,23 ± 0,59 CAF e 7,46 ± 0,77 PL), bem como o número total de arremessos (20,07 ± 1,18 CAF e 20,15 ± 1,67 PL), FC (Final: 190,3 ± 9,63 bpm CAF e 190,69 ± 9,19 bpm PL; Recuperação: 162,07 ± 13,78 bpm CAF e 164,3 ± 9,64 bpm PL) e índice no SJFT (17,59 ± 1,4 CAF e 17,75 ± 1,98 PL). A ingestão de cafeína não melhorou o desempenho durante atividade de alta intensidade e curta duração em lutadores de judô.

Palavras-chave: Judô. Cafeína. Desempenho motor.


ABSTRACT

The objective of this study was to investigate the ergogenic effects of caffeine on motor performance of judo female athletes. Thirteen female athletes (17.6 ± 1.6 years, 58.3 ± 11.4 kg, 162 ± 4.1 cm, 22.5 ± 4 kg/m2), registered in the State Federation of Judo for at least two years, participated in this study. The motor performance was assessed using the Special Judo Fitness Test (SJFT), from which was considered the number of throws in each block, the total number of throws, recovery and final heart rate (HR) and final score in SJFT. The subjects were tested in two different conditions, after ingestion of gelatin capsules of caffeine (6 mg.kg-1) or placebo (dextrose) 60 minutes before testing in a randomized double-blind, crossover study. The number of throws in each block did not differs between the caffeine (CAF) and placebo (PL) conditions (Block A: 4.53 ± 0.51 CAF and 4.46 ± 0.51 PL; Block B: 8.3 ± 0.63 CAF and 8.23 ± 0.72 PL; Block C: 7.23 ± 0.59 CAF and 7.46 ± 0.77 PL), as well as the total number of throws (20.07 ± 1.18 CAF and 20.15 ± 1.67 PL), HR (Final: 190.3 ± 9.63 bpm CAF and 190.69 ± 9.19 bpm PL; Recovery 162.07 ± 13.78 bpm CAF and 164.3 ± 9.64 bpm PL) and final score in SJFT (17.59 ± 1.4 CAF and 17.75 ± 1.98 PL). Ingestion of caffeine did not improve performance during high intensity and short duration exercise in judo fighters

Key Words: Judo. Caffeine. Motor performance.


 

 

Introdução

O crescimento do interesse pelo esporte, em todo o mundo, tem levado inúmeros pesquisadores a estudar diferentes aspectos relacionados ao desempenho atlético que possam contribuir na melhoria do rendimento físico. Assim, diversas estratégias nutricionais têm sido estudadas no sentido de otimizar o desempenho físico em diferentes modalidades esportivas. Nesse sentido, uma das substâncias que têm recebido grande atenção mais recentemente tem sido a cafeína, devido ao seu potencial ergogênico advindo de suas possíveis ações periférica e central (SICLAIR; GEIGER, 2000; SPRIET, 1995).

A cafeína, cujo nome químico é 3,7-diidro-1,3,7-trimetil-1H-purina-2,6-diona, é um eletrólito fraco presente na forma não dissociada no pH fisiológico, facilmente absorvida pelo trato gastrintestinal que pertencente à família das xantinas (1,3,7 trimetilxantina), e é encontrada não só no café, mas também em bebidas como a coca-cola, chás, chocolates, mates, guaraná e em alguns medicamentos (RANG; DALE, 1993). Esta substância atua como antagonista dos receptores de adenosina, dessa forma ela é capaz de modular algumas ações de neurotransmissores como: dopamina, serotonina e GABA. Assim, ela poderia influenciar no estado de alerta, diminuição do sono e alterar a percepção subjetiva de esforço (DAVIS et al., 2003; DOHERTY; SMITH, 2005; FREDHOLM et al., 1999; RIBEIRO et al., 2002) e também no aumento da excitabilidade a nível espinhal e supraespinhal e aumentando a habilidade para o recrutamento de unidades motoras (KALMAR; CAFARELLI, 1999; WALTON et al., 2002).

Entretanto, a utilização da cafeína como recurso ergogênico em atividades de alta intensidade e curta duração, tem gerado ao longo dos últimos anos controvérsias a cerca da sua eficácia (ANSELME et al., 1992; BRUCE et al., 2000; COLLOMP et al., 1991; DOHERTY, 1998; GREER et al., 1998; JACKMAN et al., 1996; WILLIAMS et al., 1988; WYSS et al., 1986).

Mais recentemente, em modalidades de lutas em especial o judô, muitos pesquisadores tem procurado investigar diferentes estratégias nutricionais na tentativa de potencializar as capacidades físicas envolvidas em lutas competitivas. O judô é uma modalidade intermitente e com duração imprevisível, uma vez que um combate pode durar pouquíssimos segundos e chegar a 12 minutos ou mais de tempo total de acordo com as regras e nível técnico dos lutadores. Segundo Franchini et al. (1998), uma das características do judô é a intermitência nas ações e a utilização da força. Desse modo, a cafeína poderia retardar os efeitos da fadiga devido à excessiva intermitência nas ações da luta, bem como auxiliar na maior produção de força nos golpes pelo aumento no recrutamento das unidades motoras.

Ressalta-se que a maioria dos estudos que investigaram o impacto da ingestão de cafeína sobre o desempenho de atletas estão relacionados a esportes de endurance como: corridas, ciclismo, natação e remo. Em contrapartida, os poucos estudos que analisaram os efeitos desta substância em esportes intermitentes utilizaram protocolos de teste que muitas vezes não apresentavam boa validade ecológica, entretanto, mesmo com essas limitações existem evidências de que a cafeína melhora o desempenho em esportes que exigem provas nas quais se verificam o trabalho total realizado, tempo até exaustão (Tlim) e corridas contra relógio (DOHERTY; SMITH, 2004; GANIO et al., 2009). Contudo, não há evidências na literatura sobre o efeito da substância envolvendo artes marciais e mais especificamente o judô. Assim, o propósito do presente estudo foi investigar os efeitos da ingestão cafeína sobre o desempenho motor de lutadoras de Judô.

 

Métodos

Amostra

Treze atletas de judô, do sexo feminino, na faixa etária entre 15 e 19 anos, participaram voluntariamente deste estudo. Como critérios de inclusão no experimento foram considerados: participar regularmente do treinamento de judô com uma frequência de pelo menos 3 sessões semanais, ter no mínimo 2 (dois) anos de experiência em competições de nível estadual, não fazer uso de esteróides anabólicos ou similares, não ser fumante e não possuir histórico de doenças metabólicas. Os indivíduos, após serem esclarecidos sobre as finalidades do estudo e os procedimentos aos quais seriam submetidos, pediram autorização do responsável legal, solicitando-lhes para assinarem um termo de consentimento livre e esclarecido. Este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética e Pesquisa local em acordo com a Resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde.

Delineamento experimental

O delineamento experimental adotado teve como intuito controlar variáveis que pudessem exercer influência no processo de investigação, possibilitando uma análise mais criteriosa dos achados. Portanto, todos os testes foram realizados em tatame e ambiente climatizado onde as variáveis, temperatura ambiente e umidade relativa do ar foram mantidas entre 21 e 24ºC e 40 e 60%, respectivamente.

O presente estudo foi dividido em duas etapas realizadas no período de 3 semanas. Na primeira etapa do experimento as atletas compareceram ao laboratório para tomarem conhecimento da proposta do estudo e procedimentos aos quais seriam submetidos e assinaram o termo de consentimento livre e esclarecido. Além disso, foram agendados os horários nos quais cada atleta deveria comparecer ao laboratório na etapa seguinte. Posteriormente, foram realizadas medidas antropométricas para caracterização da amostra e teste pré-experimental, no intuito de familiarizar as atletas ao protocolo de teste.

Na segunda etapa, os sujeitos compareceram ao local de coletas em duas sessões distintas, separadas por sete dias, onde foram submetidos ao teste para avaliação do desempenho motor, após a ingestão de cafeína ou placebo.

Os horários de avaliação de cada voluntária foram padronizados entre os dias de testes, fazendo com que estas realizassem todos os testes em horário aproximado, evitando assim possíveis interferências circadianas. Vale ressaltar que as atletas foram orientadas para que não realizassem atividades físicas vigorosas 24 h, e não ingerissem substâncias cafeinadas (café, chocolate, mate, pó-de-guaraná, coca-cola e guaraná) ou alcoólicas nas 72 h precedentes ao teste, para evitar possíveis interferências.

Antropometria

A massa corporal e a estatura foram medidas em uma balança de plataforma, digital, marca Filizola®, modelo PL 180TM (BRASIL), com precisão de 0,1 kg e com um braço com precisão de 0,1 cm (GORDON et al., 1998). Todos os indivíduos foram medidos e pesados descalços, vestindo apenas uniforme do clube, camiseta e calção.

Controle de Treinamento

Todos os sujeitos faziam parte do mesmo grupo de treinamento de judô, os quais mantinham freqüência semanal de três a quatro vezes, com volume de 90 a 120 minutos a cada sessão. Os mesmos não realizavam nenhuma atividade física complementar, além de se encontrarem na mesma fase de periodização do treinamento, minimizando assim diferenças de sensibilidade ao teste empregado. Os indivíduos foram impedidos de realizar qualquer tipo de exercício físico nas últimas 48 horas precedentes aos testes.

Avaliação do desempenho motor

A avaliação do desempenho motor foi feita por meio da aplicação do Special Judô Fitness Test (SJFT) proposto por Sterkowicz (1995), que procurou caracterizar a intermitência simulando uma luta de judô. Vale ressaltar que o SJFT é um teste validado e reprodutível sendo altamente capaz de distinguir o nível de desempenho de lutadores de judô (FRANCHINI et al., 2005; IREDALE, 2003). O teste segue o seguinte protocolo: dois judocas (ukes) de massa corporal e estatura semelhante (mesma categoria de competição) deveriam permanecer parados dispostos a 6 metros de distância um do outro para serem arremessados, ressalta-se que os ukes de cada judoca foram os mesmos nas duas condições experimentais (cafeína e placebo). Entre eles foi posicionado o judoca executante do teste (tori), que arremessou os ukes unicamente com a técnica ipon-seoi-nague.

O teste foi dividido em três períodos de 15 segundos (A) e 30 segundos (B) e (C), com intervalos de 10 segundos entre eles. O tori teve como objetivo realizar o maior número arremessos possível em cada período. Imediatamente após e um minuto após o final do teste foi mensurada a freqüência cardíaca do judoca. A soma das freqüências cardíacas (FC) foi dividida pelo número total de arremessos que o atleta conseguiu executar no teste, resultando em um índice conforme apresentado abaixo:.

Ingestão de Cafeína

A ingestão de cafeína pura (CAF) (6 mg.kg-1) ou maltodextrina-placebo , preparados e embalados em cápsulas gelatinosas, foi feita 60 minutos antes do início do teste para avaliação do desempenho motor dos judocas. O processo foi conduzido em sistema duplo cego cruzado, com 7 dias de intervalo entre um teste e outro. Após a administração de CAF ou PL, os sujeitos permaneceram em repouso durante uma hora no período que antecedeu o início dos testes para que ocorresse a absorção.

Tratamento estatístico

Para análise dos resultados foi empregado o pacote estatístico StatisticaTM 6.0® (STATSOFT INC., TULSA, OK , USA). Após constatação da normalidade (teste de Shapiro-Wilk) os resultados obtidos no estudo foram agrupados em valores de média e desvio-padrão e, posteriormente comparados utilizando o teste t de Student para amostras dependentes. O nível de significância adotado para todas as análises foi de p<0,05.

 

Resultados

As características gerais da amostra são apresentadas na tabela 1.

A figura 1 apresenta a média da quantidade de arremessos executados em cada bloco do SJFT pelos grupos CAF e PL. Nenhuma diferença estatisticamente significativa foi encontrada nos blocos A, B e C, entre as condições CAF e PL (p>0,05).

 

 

Da mesma forma, nenhuma diferença estatisticamente significativa foi encontrada na somatória do total de arremessos dos blocos A, B e C (número total de arremessos) executados no SJFT, entre as condições CAF e PL (p>0,05) (Figura 2).

 

 

Na figura 3 são apresentados valores referentes à resposta da FC imediatamente após a aplicação do SJFT e após 1 minuto de recuperação. Nenhuma diferença estatisticamente significativa foi encontrada na FC imediatamente após a execução do SJFT e após 1 minuto de recuperação, entre as condições CAF e PL (p>0,05).

 

 

Ressalta-se ainda que, em ambas as condições (CAF= 190 bpm e PL= 190 bpm) as atletas alcançaram 93% da FC máxima. Já para a FC após 1 minuto de recuperação, tanto na condição CAF quanto na PL observou-se redução na mesma proporção 15% e 14%, respectivamente.

Em relação ao índice de desempenho no SJFT, nenhuma diferença estatisticamente significativa foi encontrada entre as condições CAF e PL (p>0,05) (Figura 4).

 

 

Discussão

Considerando a hipótese de que a cafeína poderia retardar os efeitos da fadiga devido à excessiva intermitência nas ações da luta, bem como auxiliar na maior produção de força nos golpes pelo aumento no recrutamento das unidades motoras, o objetivo do presente estudo foi investigar os efeitos da ingestão cafeína (6 mg.kg-1) sobre o desempenho motor de lutadoras de Judô. Contudo, esta hipótese não foi confirmada uma vez que os resultados demonstraram que a ingestão de cafeína não foi capaz de melhorar o desempenho motor das lutadoras de judô no SJFT.

Muitos pesquisadores têm procurado investigar os efeitos da ingestão de cafeína em protocolos de testes que simulem a condição real da modalidade, buscando aproximar ao máximo a situação real de competição e, consequentemente aumentado a validade ecológica dos estudos (BISHOP, 2005). Desse modo, o SJFT tem sido muito utilizado por professores de Judô bem como por pesquisadores da área de esporte, pois se aproxima de uma situação real de luta.

Em relação a esportes que exigem ações intermitentes como o da modalidade investigada no presente estudo, nossos achados corroboram com Woolf et al. (2009), que não observaram melhoras de desempenho em atletas inexperientes de futebol americano em teste anaeróbico específico da modalidade após ingestão de cafeína (5 mg.Kg-1). Da mesma forma, Paton et. al. (2001), não observaram mudanças significativas na performance de atletas de esportes coletivos em protocolo de sprints repetidos realizados após ingestão de 6 mg.Kg-1 de cafeína.

Em contrapartida, Sehneiker et al. (2006), utilizando a mesma quantidade de cafeína que o estudo anterior em atletas amadores de esportes coletivos, verificou melhora na capacidade de realização de sprints repetidos, que segundo Spencer et al. (2005), é um bom preditor de desempenho em modalidades coletivas. Corroborando com esses achados Stuart et al. (2005), encontraram melhoras significativas na performance de atletas profissionais de Hugby após ingestão de 6 mg.Kg-1 de cafeína utilizando o Hugby Test, desenvolvido para avaliar atletas dessa modalidade. Os autores sugerem que os efeitos observados estão relacionados à ação da substância no SNC que poderia ter aumentando o drive motor.

Já em esportes contínuos (ciclismo, remo, natação, corridas), os resultados têm se mostrados satisfatórios em relação ao uso da cafeína. Nesse sentido, Doherty et al. (2004), em protocolo de tempo contra-relógio de 3 minutos em 11 ciclistas profissionais, observaram que a ingestão de cafeína (5 mg.Kg-1), aumentou a potência máxima gerada no minuto final do teste e reduziu a percepção subjetiva de esforço (PSE). Em adição, Wiles et al. (2006), também utilizando ciclistas treinados, observaram após 1 km de tempo contra-relógio, aumentos significativos na velocidade média, potência pico e potência média após a ingestão de 5 mg.Kg-1 de cafeína. Corroborando com esses resultados Bruce et al. (2000), submetendo remadores altamente treinados a protocolo de teste altamente reprodutível de 2000 m, observaram que a ingestão de cafeína (6 ou 9 mg.Kg-1) aumentou significativamente o desempenho dos atletas. Ainda nesse contexto MacIntosh; Wright (1995), utilizando 4 nadadoras de competição, constataram que elas nadaram mais rápido uma prova de 1.500 m após a ingestão de 6 mg.Kg-1 de cafeína.

Com relação a estudos realizados em ambientes controlados (ex: laboratório) que tem a mesma característica da modalidade estudada, alguns desses não tem constatado melhora na performance após ingestão de cafeína (COLLOMP et al., 1991; COLLOMP et al., 1990; GREER et al., 1998; GREER et al., 2006; WILLIAMS et al., 1988). Em contrapartida, estudos conduzidos por Anselme et al. (1992), que envolveu indivíduos não treinados e Kang et al. (1998), que estudaram um grupo formado por ciclistas profissionais e estudantes constataram aumento significativo na potência anaeróbia máxima e na capacidade anaeróbia após ingestão de diferentes doses de cafeína (2,5 e 5 mg.kg-1).

Estudos têm mostrado que o provável mecanismo de ação da cafeína está relacionado a ação da substância no SNC como antagonista aos efeitos inibitórios da adenosina sobre alguns neurotransmissores excitatórios (ex: dopamina, serotonina e GABA) (ALTIMARI et al., 2006; DAVIS et al., 2003; FREDHOLM et al., 1999), dessa forma ela é capaz de otimizar o recrutamento de unidades motoras e aumentar a produção de força máxima pelo menos em contrações isométricas (KALMAR; CAFARELLI, 1999; PLASKETT; CAFARELLI, 2001). Já os efeitos da substância sobre a fadiga têm mostrado que esta é capaz de aumentar a excitabilidade central e espinhal, contribuindo para o aumento da frequência relativa de disparos das unidades motoras (KALMAR; CAFARELLI, 2004b; WALTON et al., 2003; WALTON et al., 2002). Kalmar; Cafarelli (2004a), sugerem que os efeitos da substância seriam mais evidentes a nível supraespinhal, o que foi confirmado por Davis et al. (2003), que mostram que os efeitos da cafeína estão relacionados com a inibição dos receptores de adenosina presentes no SNC, porém os mecanismos supra-citados podem não influenciar nesse tipo de exercício ou modalidade esportiva o que explicaria em parte nossos achados.

Ainda sobre a ação da cafeína sobre o SNC, alguns estudos têm demonstrado que a substância é capaz de alterar a PSE, nesse sentido, Anjos (1987), afirma que sujeitos sob ações ergogênicas da cafeína relatam uma menor sensação do esforço físico quando confrontado com o grupo placebo e também Doherty; Smith (2004) após meta-análise identificaram que a ingestão de cafeína é capaz de reduzir significativamente a PSE e que essa redução pode explicar ~29% da variação do desempenho no exercício.

Segundo Franchini (2001), os fatores que tem influência direta sobre o desempenho no SJFT estão relacionados inicialmente ao maior número de arremessos no teste, variável que representa uma melhor velocidade, capacidade anaeróbia e eficiência técnica na execução dos golpes. Em seguida a frequência cardíaca final do teste, que representaria uma melhor eficiência cardiovascular para um mesmo esforço. E por último a melhor frequência cardíaca de recuperação após 1 minuto, que implica em uma maior capacidade aeróbia. Vale ressaltar ainda, que Franchini et al. (1999) e Franchini (2001), demonstram que o teste apresenta boa reprodutibilidade (CCI = 0,89; P<0,05), e correlação com alguns índices do teste de Wingate e teste de potência aeróbia. Assim, deve-se considerar que pela modalidade judô ser altamente técnica, a condição técnica da amostra estudada que foi de nível intermediário possa ter sido fator limitante do presente estudo uma vez que pode ter influenciado no índice final do teste, particularmente por apresentarem algumas falhas na execução de alguns arremessos.

 

Conclusão

Podemos concluir que a ingestão de cafeína (6 mg.kg-1) não melhorou o desempenho durante atividade de alta intensidade e curta duração em lutadores de judô. Entretanto futuras pesquisas são necessárias procurando controlar melhor fatores como habituação com a substância, alimentação, temperatura, estresse, entre outros.

 

Referências

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Agradecimentos: Os autores agradecem a CAPES e ao CNPq pelo apoio financeiro e bolsas outorgadas.

 

 

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Lucas Adriano Pereira
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Recebido em: 12 de novembro de 2009.
Aceito em: 25 de maio de 2010.

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