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Trabalho, Educação e Saúde

versão impressa ISSN 1678-1007versão On-line ISSN 1981-7746

Trab. educ. saúde vol.15 no.3 Rio de Janeiro set./dez. 2017

http://dx.doi.org/10.1590/1981-7746-sol00093 

EDITORIAL

Ciência aberta como instrumento de democratização do saber

Sarita Albagli1 

1Pesquisadora do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (IBICT) e professora do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação/IBICT-UFRJ.

A 8ª Conferência-Luso Brasileira de Acesso Aberto (ConfOA), a realizar-se de 4 a 6 de outubro de 2017, nas dependências da Fundação Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro, tem como tema “Do Acesso Aberto à Ciência Aberta”, sinalizando o alargamento da discussão do tema que deu origem a esse importante encontro anual desde o ano de 2010.

Impulsionada, de início, pelo movimento em favor do acesso aberto em reação aos elevados preços praticados pelas editoras de periódicos científicos, ciência aberta pode ser hoje entendida como um ‘movimento de movimentos’. Abrem-se aí novas frentes, como os dados científicos abertos, as ferramentas científicas abertas (software e hardware), os cadernos abertos de laboratório, a educação aberta e a ciência cidadã. Mais do que um termo ‘guarda-chuva’, a ciência aberta avança no sentido de integrar essas várias frentes, ampliando a questão do acesso à informação científica para focar também nas novas formas de produção, circulação e apropriação social da informação e do conhecimento em ciência, tecnologia e inovação.

A atual crise planetária, em suas várias dimensões, impõe ainda novas agendas à ciência aberta. A urgência e a complexidade no seu enfrentamento revelam uma crise de soluções, indicando a necessidade de novas formas de abordar problemas, novas bases de conhecimento e outros modos de produzir ciência e de inovar. Trata-se ainda de uma crise de representação: vias mais sustentáveis de desenvolvimento implicam processos radicalmente democráticos sobre suas múltiplas possibilidades e significados, bem como sobre as trajetórias científico-tecnológicas a serem adotadas.

Nesse contexto, o movimento pela ciência aberta investe-se de um duplo significado. Por um lado, trata-se de aumentar a visibilidade, o acesso e a velocidade da produção e circulação do conhecimento científico. Por outro, trata-se de aumentar a base social da ciência, conferindo maior porosidade na sua relação e interlocução com outros tipos de saberes e agentes cognitivos. Em síntese, não basta uma perspectiva pragmática que se limite à abertura ao campo científico estrito e a um novo tipo de produtivismo em ciência; faz-se necessária uma perspectiva democrática, que reconheça e dialogue com outros atores e espaços de conhecimento.

Ciência aberta guarda então importantes interfaces com os campos da educação e do trabalho. No cenário atual, o trabalho se investe de um caráter crescentemente comunicativo, relacional e linguístico, que requer saber ‘ler’ as informações como matéria-prima e instrumento de trabalho, bem como capacidades de aprendizado contínuo, de criatividade e inovatividade. Nesse contexto, os recursos educacionais abertos (REA) – materiais de ensino, aprendizado e pesquisa (livros, planos de aula, software, jogos, trabalhos escolares, vídeos, áudios, imagens) mantidos sob domínio público ou licenciados de maneira aberta, incluindo cursos online abertos – são uma parte importante do movimento pela ciência aberta, mas não esgotam essa relação. Estratégica é a contribuição da ciência aberta na formação para a cidadania, para a coprodução de conhecimentos e soluções, para a intervenção em questões que envolvem cada vez mais conteúdos técnico-científicos. Trata-se de formar jovens e adultos que reconheçam e discutam criticamente os valores da ciência aberta, capacitem-se a desenvolver práticas e ferramentas que contribuam para dar soluções inovadoras aos problemas da contemporaneidade. Trata-se também de repensar criticamente o papel da escola na sua relação com a multiplicidade de outros tempos e espaços (formais e não formais) de educação, socialização e produção de conhecimento; de promover e difundir culturas e ferramentas de compartilhamento e coprodução entre educadores e estudantes; de reconhecer e dar visibilidade a outros sujeitos e práticas de conhecimento e educação; de dar lugar a diferentes regimes discursivos, aproveitando o que os novos meios técnicos têm a oferecer. Cabe considerar o variado espectro de linguagens, suas tecnologias e modos específicos de conhecimento, capacitando para a apropriação e potencialização das possibilidades dos vários ecossistemas de informação e comunicação, e seus dispositivos técnicos. Cabe ainda contribuir para o desenvolvimento de competências críticas para apropriação e uso da informação e tecnologias associadas em relação aos novos regimes de vigilância, controle, rastreabilidade, exposição e usos comerciais e políticos que também aí se constituem.

É, portanto, uma ampla agenda que requer aprofundamento das diversas dimensões e questões envolvidas, onde as próximas ConfOA têm certamente um papel a desempenhar.

Sarita Albagli
Pesquisadora do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (IBICT) e professora do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação/IBICT-UFRJ.

Referências

ALBAGLI, Sarita; MACIEL, Maria Lucia; ABDO, Alexandre H. (orgs.). Ciência aberta, questões abertas. Brasíia: Ibict; Rio de Janeiro: Unirio, 2015. Disponível em: <http://livroaberto.ibict.br/handle/1/1060>. Acesso em: 1 ago. 2017. [ Links ]

ALBAGLI, Sarita; CLINIO, Anne; RAYCHTOCK, Sabryna. Ciência aberta: correntes interpretativas e tipos de ação. Liinc em Revista, v.10, n.2, 2014. p.434-450. Disponível em: <http://revista.ibict.br/liinc/article/view/3593/3072>. Acesso em: 1 ago. 2017. [ Links ]

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