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Revista Gaúcha de Enfermagem

On-line version ISSN 1983-1447

Rev. Gaúcha Enferm. (Online) vol.31 no.1 Porto Alegre Mar. 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S1983-14472010000100026 

RELATO DE EXPERIÊNCIA

 

Planejamento situacional na Estratégia Saúde da Família: atividade de integração ensino-serviço na enfermagem

 

Planificación situacional en la estrategia salud de la familia: actividad de integración enseñanza-servicio en la enfermería

 

Situational planning in Family Health Strategy: academic-professional integration activity in nursing

 

 

Carine VendruscoloI; Maria Elisabeth KlebaII; Ivete Maroso KrauzerIII; Adriana HillesheimIV

IMestre em Saúde Pública, Docente do Curso de Enfermagem da Universidade Comunitária da Região de Chapecó (Unochapecó), Articuladora da Comissão de Integração Ensino-Serviço (CIES), Coordenadora da Estratégia Saúde da Família da Gerência de Saúde de Chapecó, Santa Catarina, Brasil
IIDoutora em Filosofia e Enfermagem, Docente do Curso de Enfermagem da Unochapecó, Coordenadora Local do Pró-Saúde, Chapecó, Santa Catarina, Brasil
IIIMestre em Enfermagem, Docente do Curso de Enfermagem da Unochapecó, Chapecó, Santa Catarina, Brasil
IVEnfermeira Especialista em Saúde da Família, Docente do Curso de Enfermagem da Unochapecó, Chapecó, Santa Catarina, Brasil

Endereço da autora

 

 


RESUMO

Atividade desenvolvida na disciplina Gestão e Gerência em Saúde Coletiva, oitavo período de Enfermagem da Unochapecó. Os acadêmicos foram desafiados a aplicar conhecimentos acerca dos princípios e diretrizes do Sistema Único de Saúde por meio da participação ativa no processo de Planejamento Estratégico Situacional junto a Estratégia Saúde da Família. Foram campos para atuação teórico-prática centros de saúde do município de Chapecó, Santa Catarina. Os estudantes vivenciaram o cotidiano dos trabalhadores, participaram de reuniões de equipe, visitas domiciliares e outras rotinas do serviço, para diagnosticar situações problema e desenvolver com a equipe de saúde os quatro momentos do planejamento estratégico situacional: explicativo, normativo, estratégico e tático-operacional. A experiência consolidou a relação entre teoria e prática e contribuiu para a formação crítico-construtiva dos estudantes, que auxiliaram no enfrentamento dos problemas da equipe, além de oportunizar a interação ensino-serviço, por meio da convivência dos estudantes com os trabalhadores.

Descritores: Educação em enfermagem. Gerência. Planejamento. Saúde da família.


RESUMEN

Actividad desarrollada en la disciplina Gestión y Gerencia en Salud Colectiva, octavo período de Enfermería de la Universidad Unochapecó. Los académicos han sido desafiados a aplicar conocimientos sobre los principios y directrices del Sistema Único de Salud por medio de la participación activa en el proceso de Planeamiento Estratégico Situacional y en la Estrategia Salud de la Família. Han sido campos para la actuación teórico-práctica los centros de salud del municipio de Chapecó, Santa Catarina, Brasil. Los estudiantes compartieron el cotidiano de los trabajadores, participaron en reuniones de equipo, visitas domiciliarias y otras rutinas de la actividad, para diagnosticar situaciones problema y desarrollar con el equipo de salud los cuatro momentos del planeamiento estratégico situacional: explicativo, normativo, estratégico y tático-operacional. La experiencia ha consolidado la relación entre la teoría y la práctica y ha contribuido para la formación crítico-constructiva de los estudiantes, que han auxiliado a enfrentar los problemas del equipo, además de oportunizar la interacción enseñanza-trabajo, por medio de la convivencia de los estudiantes con los trabajadores.

Descriptores: Educación en enfermería. Gerencia. Planificación. Salud de la familia.


ABSTRACT

This was an activity developed in the Collective Health Management course, by nursing students in the eighth semester from Unochapecó University. The students were challenged to apply their knowledge of the Unique Health System principles and directives, through an active participation in the Situational Strategic Planning with use of the Family Health Strategy. The theoretical and practical activities were carried out in health centers in Chapecó (SC, Brazil). The students experienced the daily life of the workers, participated in team meetings, domiciliary visits and other work routines, in order to diagnose problem situations and develop the four moments of the Situational Strategic Planning along with the Health Team: explicative, normative, strategic and tactical-operational. The experience consolidated the relation between theory and practice and contributed to the critical-constructive training of students, who helped the team to face the problems. The experience also provided them with a good opportunity for academic-professional interaction through their contact with the workers.

Descriptors: Education, nursing. Management. Planning. Family health.


 

 

INTRODUÇÃO

As mudanças na formação dos profissionais da saúde requerem transformações metodológicas e novas atitudes profissionais. Consciente destas questões, o Curso de Enfermagem da Universidade Comunitária da Região de Chapecó (Unochapecó) vem promovendo a reformulação acadêmica visando formar profissionais qualificados para atuar no Sistema Único de Saúde (SUS). Inclui no plano didático-pedagógico atividades de integração ensino-serviço atendendo as políticas de educação do Ministério da Saúde e as Diretrizes Curriculares para os cursos da área. Tal iniciativa estreita relações entre instituição formadora e serviços de saúde, oportunizando o processo de aprendizagem com base em vivências na realidade local, com atuação expressiva dos acadêmicos na rede assistencial.

Planejar é uma atividade desenvolvida pelo enfermeiro em muitos serviços de saúde, em função da divisão técnica do trabalho e das práticas de planejamento da assistência de enfermagem(1). Como uma de suas prerrogativas profissionais, o gerenciamento da equipe e dos serviços de enfermagem tem aproximado o enfermeiro do papel de gerenciar unidades de saúde. Reconhecido como o profissional que mais detém informações sobre o funcionamento dos serviços, o enfermeiro é visto como facilitador no processo de trabalho da equipe de saúde, sendo constantemente requisitado para esclarecer e resolver situações no decorrer da assistência(2).

A atividade gerencial é dinâmica, complexa e requer habilidades como capacidade de análise crítica e de tomada de decisão, além da capacidade de diálogo, visando estabelecer vínculos tanto entre os membros da equipe, quanto entre os agentes do cuidado e os usuários dos serviços(3).

A experiência relatada inseriu os estudantes na realidade do trabalhador do SUS por meio de sua participação ativa no processo de planejamento. Na intenção de obter um enfoque estratégico, optou-se pelo Planejamento Estratégico Situacional (PES), pois esse oportuniza o enfrentamento de problemas a partir de um olhar abrangente, considerando a perspectiva de análise e a capacidade de ação dos atores envolvidos(4). O planejamento em saúde constitui-se uma importante ferramenta para a efetividade da missão organizacional; por isso, o significado de seu uso requer sua contextualização histórica, social, política e econômica(5).

 

PROPOSTA PEDAGÓGICA

Em 2001 o Ministério da Educação aprovou as novas Diretrizes Nacionais Curriculares (DNC) para os cursos da saúde, enfatizando a adequação da formação profissional às necessidades do SUS. Essa deliberação tem sido subsidiada através de políticas e estratégias do Ministério da Saúde, apoiando processos de formação e de educação permanente voltados à efetiva transformação das práticas em saúde.

As novas Diretrizes enfatizam o papel protagonista dos atores envolvidos no processo de formação e de cuidado, ressaltando que estes devem comprometer-se com a educação e com o treinamento das futuras gerações de profissionais(6).

A disciplina Gestão e Gerência, desenvolvida no 8º período do curso de Enfermagem da Unochapecó, objetiva possibilitar aos acadêmicos compreender a legislação do SUS e planejar o processo de trabalho em saúde. Implementar o PES com foco na saúde da família proporciona ao estudante a vivência das competências contempladas nas DNC, a partir da sua inserção na rotina do serviço(7).

A opção pela Estratégia Saúde da Família (ESF) foi definida em conjunto com a coordenação de enfermagem do município, considerando os desafios para sua efetiva implantação. A atividade considerou necessidades e expectativas dos trabalhadores e buscou ainda contribuir para efetivar práticas multiprofissionais e intersetoriais, de acordo com a proposta do MS.

 

EXPERIENCIANDO O PES NA ESTRATÉGIA SAÚDE DA FAMÍLIA

Os 25 centros de saúde do município de Chapecó, Santa Catarina, atuam na lógica da ESF, tendo 32 equipes. A experiência ocorreu no segundo semestre de 2008, contemplando cinco unidades de saúde. Todos os sujeitos envolvidos na atividade consentiram em participar, sendo-lhes garantido sigilo de identidade nos materiais publicados(8).

Ao implementar o primeiro momento do PES – Momento Explicativo – os grupos interagiram no serviço de saúde, cooperando com os trabalhadores em suas atividades diárias e identificando possíveis "situações problema". Participaram de reuniões de equipe, visitas domiciliares, atividades de educação continuada, entre outras. Uma vez eleitos pelo grupo, os problemas, descritores e nós críticos foram analisados, verificando sua pertinência em relação à ESF e sua relevância para os atores locais. No Momento Normativo, os estudantes fizeram o desenho da situação, traçando objetivos e planos de ação, para que, no Momento Estratégico, o grupo seguinte desenhasse as estratégias de ação e no Momento Tático-operacional, organizassem o sistema de gerência estratégica(4).

Suas vivências eram descritas em Diário de Campo, com anotações sobre a realidade, depoimentos, informações obtidas em documentos, atividades desenvolvidas e reflexões fundamentadas em leituras relevantes, permitindo o registro do planejamento das atividades, prevendo tarefas, avaliando o cumprimento e redefinindo metas. O diário foi útil ao tutor no processo avaliativo da construção do conhecimento, viabilizando acompanhar o processo, através de um instrumento que analisava resultados ao longo do percurso metodológico, evidenciando desta forma:

[...] as estratégias utilizadas pelos estudantes para o desenvolvimento da atividade proposta poderiam explorar mais a validação com a equipe e as dificuldades encontradas para continuar um planejamento já realizado (Tutora).

Resgatando os registros nos momentos de tutoria, os professores problematizavam com estudantes a necessidade de reconhecer o planejamento existente e valorizar a participação efetiva da equipe no desenvolvimento do PES. Os depoimentos a seguir, colhidos no diário de campo, exemplificam a interação dos estudantes com o serviço:

Esse exercício [...] nos possibilitou conversar com a coordenadora da unidade, que validou conosco a implementação do PES na unidade básica (Acadêmico 1).

Embasado nessa vivência realizamos esse momento com fundamentação (Acadêmico 2).

Os problemas destacados foram: falta de organização da visita domiciliar, déficit de conhecimento da lógica da ESF e conflitos entre os profissionais da equipe.

A atividade promoveu seminários envolvendo estudantes, tutores e coordenadores das unidades de saúde para socializar a vivência e validar percepções e propostas de intervenção. Cada grupo compartilhou o caminho percorrido a cada momento do PES, apresentando uma análise da situação fundamentada em bibliografias. No último encontro o gestor da saúde e a coordenação de enfermagem do município também foram convidados para a socialização da experiência.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A intervenção dos acadêmicos por meio da proposta do PES foi válida em diferentes intensidades. Em algumas equipes houve o aporte para esta aproximação entre os profissionais, auxiliando na construção do processo da interdisciplinaridade. Em outras, foi notória a contribuição para o despertar da consciência da lógica de trabalho da estratégia. Todas as vivencias subsidiaram o crescimento do acadêmico, ao possibilitar a intervenção, de maneira estratégica, em problemas do cotidiano do processo de trabalho das equipes de saúde.

O enfrentamento de problemas, a partir de um olhar abrangente, considerando a participação de todos os atores envolvidos, foi um desafio para os grupos e, tanto o diário de campo quanto os momentos compartilhados e de tutorias, facilitaram o processo.

Uma das maneiras de possibilitar a transformação do modelo de atenção vigente é a formação de profissionais com perspectiva inovadora e abordagem crítico-reflexiva. A inserção do estudante na realidade dos trabalhadores do SUS possibilita a formação de profissionais preparados para atuar nesta lógica, em consonância com os objetivos da ESF, quais sejam: humanização da assistência, ênfase na promoção da saúde, assistência domiciliar e alta resolutividade na atenção básica.

 

REFERÊNCIAS

1 Ciampone MHT, Melleiro MM, Silva MRB, Pereira I. Processo de planejamento na prática de enfermagem em um hospital de ensino. Rev Esc Enferm USP. 1998;32(3):273-80.         [ Links ]

2 Witt RR, Almeida MCP. Competências gerenciais da enfermeira na atenção básica. Rev Paul Enferm. 2006;25(3):170-6.         [ Links ]

3 Marchiori G, Azzolin C, Peduzzi M. Processo de trabalho gerencial e processo de trabalho na perspectiva de docentes de enfermagem. Rev Gaúcha Enferm. 2007;28(4):549-55.         [ Links ]

4 Teixeira CF. Planejamento e programação situacional em distritos sanitários: metodologia e organização. In: Mendes EV, organizador. Distrito sanitário: o processo social de mudança das práticas sanitárias do Sistema Único de Saúde. São Paulo: Hucitec; 1995. p. 237-65.         [ Links ]

5 Kurcgant P, Ciampone MHT, Melleiro MM. O planejamento nas organizações de saúde: análise da visão sistêmica. Rev Gaúcha Enferm. 2006;27(3):351-5.         [ Links ]

6 Ministério da Educação (BR), Conselho Nacional de Educação, Câmara de Educação Superior. Resolução nº 3, de 7 de novembro de 2001: institui as Diretrizes Curriculares Nacionais do Curso de Graduação em Enfermagem. Brasília (DF); 2001.         [ Links ]

7 Universidade Comunitária Regional de Chapecó, Curso de Enfermagem. Plano de ensino da disciplina de Gestão e Gerência em Saúde Coletiva. Chapecó; 2008.         [ Links ]

8 Kleba ME, Comerlatto D, Colliselli L. Promoção do empoderamento com conselhos gestores de um pólo de educação permanente em saúde. Texto Contexto Enferm. 2007;16(2):335-42.         [ Links ]

9 Ministério da Saúde (BR), Conselho Nacional de Saúde. Resolução 196, de 10 de outubro de 1996: diretrizes e normas regulamentadoras de pesquisa envolvendo seres humanos. Brasília (DF); 1996.         [ Links ]

 

 

Endereço da autora:
Carine Vendruscolo
Rua Martinho Lutero, 975 E, São Cristóvão
89804-010, Chapecó, SC
E-mail: carineven@unochapeco.edu.br

Recebido em: 23/08/2009
Aprovado em: 09/03/2010

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