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Machado de Assis em Linha

On-line version ISSN 1983-6821

Machado Assis Linha vol.10 no.21 São Paulo May./Aug. 2017

http://dx.doi.org/10.1590/1983-6821201710212 

ARTIGOS

ENTRE O PRIVADO E O PÚBLICO: ALUÍSIO AZEVEDO E AS CARTAS DE GIOVANI

BETWEEN PRIVATE AND PUBLIC: ALUISIO AZEVEDO AND GIOVANI'S LETTERS

REGINA ZILBERMAN1 

1Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil

Resumo

Em junho de 1882, Aluísio Azevedo publica, na Gazetinha, duas cartas dirigidas a Giovani, pseudônimo de um leitor (talvez Machado de Assis) que criticara Memórias de um condenado, folhetim impresso por aquele jornal. A Gazetinha não disponibiliza as cartas originais, e o nome de seu autor permanece sem identificação, sugerindo a aspiração de Giovani à privacidade. Aluísio, contudo, ignora a sugestão, discutindo as ideias de Giovani com o fito de justificar a situação dos escritores brasileiros que, como ele, se dividem entre a criação de obras inovadoras e sintonizadas com o presente, e a aceitação das imposições do mercado, que favorece o consumo de literatura de massa.

Palavras-Chave: Aluísio Azevedo; Memórias de um condenado; Gazetinha; Machado de Assis

Abstract

In June 1882, Aluisio Azevedo publishes two letters in Gazetinha addressed to Giovani, the pseudonym of a reader (perhaps Machado de Assis) who criticized his Memórias de um condenado [Memoirs of a convict], a feuilleton printed by the same publication. Gazetinha does not provide the original letters, and the name of their author remains unidentified, suggesting Giovani's desire for privacy. Aluísio, however, ignores this intimation and discusses Giovani's ideas to explain the concerns of Brazilian writers who, like him, are torn between creating innovative and contemporary works and accepting market constraints, which favor mass literature consumption.

Key words: Aluísio Azevedo; Memórias de um condenado; Gazetinha; Machado de Assis

[…] era longa a carta, e no mesmo estilo composto de trivialidade e imaginação. Apesar de longa, Celestina leu-a duas vezes, e, em alguns lugares, três e quatro […]. Quem poria ali a carta? Provavelmente, a escrava – a única escrava da casa, peitada pelo autor. E quem seria este? Celestina não tinha a menor lembrança que pudesse ligar ao autor da carta; mas, como ele dizia que ela mesma não lhe dera a esmola de um olhar, estava explicado o caso, e só restava agora reparar bem nos homens da rua.

Machado de Assis, Uma carta1

1. Um episódio de 1882

Na edição da Gazetinha dos dias 5 e 6 de junho de 1882, Aluísio Azevedo assina uma coluna que intitula "A Giovani".2 É composta por uma carta, que o autor considera "particular", a se julgar pelo subtítulo colocado entre parênteses, endereçada ao indivíduo que encabeça o texto. A carta é "anônima", mas, escrevendo ao "querido" e não identificado "desconhecido", faz questão de respondê-la. Justifica a escolha em decorrência do "modo asseado" com que o remetente se dirige ao destinatário.3 O tema da carta é o romance Memórias de um condenado, que Aluísio Azevedo redigia sob a forma de folhetim para a Gazetinha.

Gazetinha nascera à sombra da Gazeta de Notícias, de Ferreira de Araújo, em circulação desde 1875. Fundada por Artur Azevedo, a Gazetinha cobrava, no primeiro ano, 20 réis, ou um vintém, por exemplar, enquanto que a concorrente custava 40 réis, razão do diminutivo em sua denominação. Em 1882, o jornal já passara por dois períodos, o primeiro entre 29 de novembro de 1880 e 3 de fevereiro de 1881, o segundo, entre 8 e 17 de fevereiro de 1881, quando apareceram nove números impressos. Em janeiro de 1882, agora ao preço de 40 réis, tal como a folha que a inspirara, Gazetinha dá partida à terceira fase, um pouco mais duradoura, prolongando-se até abril de 1883.4

Memórias de um condenado começou a ser publicado em 1o de janeiro de 1882, quando se inaugurava a nova etapa da Gazetinha. Na abertura, o narrador, que não assina o capítulo inicial, intitulado "Um caso extraordinário", conta como recebera os originais da obra, introduzidos por uma carta entregue por "uma pobre mulher, velha e adoentada" e "escrit[os] por um moço que se acha há meses preso na Casa de Correção". Após a leitura, cuja transcrição ocupa quase todas as quatro colunas do folhetim, o narrador ganha, da portadora, "um manuscrito volumoso e sujo de tinta", a cujo conhecimento se "atira de corpo e alma". De posse desse material, decide elaborar o romance a ser doravante apresentado naquele espaço do jornal: "Não hesitei – peguei da pena e escrevi o romance, que o leitor da Gazetinha encontrará amanhã neste mesmo canto do jornal. / Esse romance terá por título As memórias de um condenado".5

Com efeito, a Gazetinha de 2 de janeiro de 1882 ostenta no rodapé da segunda de suas quatro páginas o capítulo inicial das Memórias de um condenado. Ao título, segue-se o subtítulo, Romance brasileiro, ambos impressos em versal. Ao fim da quarta coluna, promete-se que a narrativa "continua amanhã", como é próprio ao gênero. Nesse capítulo e nos subsequentes, até a edição de 17 de março de 1882, Aluísio Azevedo não assina o folhetim, procedimento alterado a partir de 18 de março, quando, dando continuidade ao capítulo XLIX, seu nome aparece no topo da coluna, logo após a identificação de seu conteúdo. A carta, dirigida a Giovani, é publicada bem depois, quando a história está perto de terminar, o que acontece em 7 de junho, dia subsequente à resposta de Aluísio Azevedo.

O jornal não divulga o texto de Giovani, sendo as réplicas de Aluísio que sugerem seu conteúdo, cujo remetente teria feito reparos à redação das Memórias de um condenado. A defesa do romancista permite entender as acusações; mas essa atitude não envolve reconhecimento, gratidão, humildade ou submissão, e sim ironia e mordacidade. Por isso, antes de expor seus argumentos, Aluísio procura desconstruir o oponente, começando por sugerir que está perante uma pessoa que se mascara, apresentando-se com "um pequenino dominó de seda". Contudo, como o interlocutor descalçou as meias e esqueceu de arregaçar as mangas da camisa, não se escondeu inteiramente, facultando ao destinatário suspeitar de quem se tratava, ainda que não o faça: "não precisas tirar a máscara; pediste que te não procurasse reconhecer, e eu, apesar de minha curiosidade, estou resolvido a fazer-te a vontade". Continua, porém, a protelar a resposta, agradecendo a atenção que recebera, pois "nada é tão agradável para quem escreve como saber que seus escritos preocupam de qualquer forma a atenção de quem quer que seja".6

Os dois parágrafos subsequentes contêm nova estocada no adversário: o autor agradece por o correspondente ter-se oferecido para "anotar o meu romance O mulato", mas lamenta "não possuir um exemplar para pô-lo à tua disposição". Com indisfarçável prazer, complementa: "Hoje é muito difícil encontrar um volume d'O mulato", cuja primeira edição, lançada no ano anterior em São Luís, alcançara boa repercussão no Rio de Janeiro e esgotara-se rapidamente, como, aliás, testemunhara Urbano Duarte, colaborador assíduo da Gazetinha, em crônica publicada alguns meses antes: "O romance teve a sorte de todos os livros cruamente realistas – foi combatido, excomungado, caluniado, e lido sofregamente. / Esgotou-se uma edição!".7

Só então Aluísio aborda o tema principal da correspondência, observando inicialmente que o remetente perdera seu tempo, ao preocupar-se com as Memórias do condenado [sic]: "pesa-me confessar-te uma coisa: – Tu tomaste muito a sério essa obra". Tanto é assim que nem o autor deu, nem dará, suficiente atenção a seus escritos: "as Memórias, enquanto não aparecerem em volume, não merecerão desvelos de ninguém". No parágrafo seguinte, justifica por que os capítulos impressos apresentam tantos erros: "Romance de au jour le jour, escrito para acudir às exigências de uma folha diária, está, como facilmente se pode julgar, eivado de erros e descuidos, que só na revisão para o volume poderão desaparecer".8

Além disso, complementa, as emendas dos tipógrafos alteraram o texto, exemplificando com a edição da véspera: "belos brilhantes" foram convertidos em "velhos brilhantes", "pedras limpas", mudadas para "límpidas".9 A esses problemas, somam-se "as palavras incompletas, os saltos e mil outros inimigos do estilo e da boa lógica gramatical". A seguir, cita três correções propostas pelo remetente, com as quais concorda, ainda que as desdenhe, não reconhecendo "valor algum" em suas próprias frases.10

Ao concluir, Aluísio volta a agradecer ao interlocutor, mas não perde a oportunidade de alfinetá-lo de novo, ao solicitar-lhe que, da próxima vez, seja "mais severo em [s]uas notas", dizendo "alguma coisa sobre a concepção artística de [s]eus trabalhos". Para terminar, o golpe final – "Pena é que as Memórias estejam a expirar" –, sugerindo que o outro se manifestara tarde demais. Com efeito, Azevedo finalizou as Memórias de um condenado no dia seguinte (7 de junho de 1882), o que dava a entender que o debate não seria levado adiante. Contudo, não foi o que ocorreu: uma semana depois, na edição de 12 e 13 de junho, o escritor maranhense torna a se comunicar com Giovani.

A carta11 agora ocupa as quatro colunas do folhetim, no rodapé da primeira página. Aluísio dirige-se ao "querido anônimo", informando que "só ontem me chegou às mãos a tua última carta", de conteúdo aparentemente decepcionante, pois "nela não encontrei a nova porção de emendas".12 A estratégia discursiva empregada antes se repete, pois Aluísio começa por tecer elogios ao destinatário com afirmações relativas à sua "exagerada modéstia", às "judiciosas considerações", e ao "bom senso crítico e a substância de [s]eu critério literário".

No quarto parágrafo, Aluísio dá outra direção aos argumentos, pois pretende absolver a pessoa a quem Giovani aparentemente recrimina, acusação que lhe "parece inteiramente infundada". Ressaltando não ser ele o objeto da denúncia, destaca: "trata-se de nosso mestre comum Machado de Assis, a quem acoimaste de orgulhoso". Na sequência, enfatiza: "Não! Machado de Assis não é orgulhoso". Depois, explica a diferença entre acatar as emendas propostas por Giovani e as correções que Machado faria: "Se eu obedeço a um dever, aceitando tuas emendas, ele exerce um direito, disputando e impondo suas frases, com o empenho e obstinação de quem defende um filho estremecido".13

Atribuindo a Machado o poder de exercer a justiça, admite que nenhum dos dois – nem ele, Aluísio, nem Giovani – pode ambicionar aquele atributo: "O que nele é justiça, em mim seria vaidade, pois não deve o súdito ombrear-se com o monarca". Os louvores estendem-se ao parágrafo seguinte:

Machado de Assis é, na presente ocasião, o príncipe de nossa literatura; e eu, que não reconheço a soberania casual dos monarcas constitucionais, curvo-me, entretanto, reverentemente, defronte desse outro cetro de ouro, conferido pelo talento e conquistado heroicamente por uma existência de lutas e vigílias.14

Após concluir o assunto com a negação das palavras relativas a Machado – "Permite, por conseguinte, que não aceite as palavras referentes ao respeitável autor do Brás Cubas" –, passa ao tema da carta de Giovani, a quem responde com "revelações especiais". Aborda, assim, "um dos problemas mais difíceis que se pode apresentar a qualquer pessoa", a saber, "escrever romances brasileiros", adversidade advinda, segundo ele, da "deficiência literária do nosso público, que constitui a grande massa absorvente do romance-folhetim".15

A situação deixa o romancista em uma saia justa, pois ele precisa lutar "com duas forças desencontradas": de uma parte, "o desejo de escrever conscienciosamente", de outra, "o desejo de agradar ao leitor". Essas forças proviriam de dois tipos de leitores:

de um lado […] meia dúzia de jornalistas e literatos, que acompanham a marcha inalterável das letras europeias, e desejam que os escritores brasileiros as sigam de perto; do outro lado […] o resto do público, que ignora absolutamente em que altura navega o romance moderno, e lê, simplesmente para espairecer as fadigas do dia.16

Para reforçar sua posição, Aluísio especifica que leituras exemplificam os movimentos em conflito: "aqueles", a "meia dúzia de jornalistas e literatos", "vivem em 1882, com Emílio Zola, Daudet, Hussman [Huysmans, provavelmente], Paul Alexis"; "estes", "o resto do público", em 1830 com Alexandre Dumas. São duas poéticas em confronto: "aqueles exigem a observação dos fatos vulgares da vida e o estudo paciente e fisiológico do coração humano; estes pedem, a gritar, que lhes deem situações dramáticas, cenas de efeito, enredos labirínticos, coisas assombrosas – assassínios, raptos, assaltos, incêndios, naufrágios e duelos". Os estilos preferidos também divergem: "aqueles querem estilo, frase elegante e verdade nas descrições; estes não ligam importância à forma: gostam que os enganem, e adoram o falso, o imprevisto e o maravilhoso".17

Advém daí o dilema do escritor, "entalado entre estas duas vontades tão opostas", precisando escolher entre a crítica, que, segundo ele, "é quem pensa, é quem sabe", e o público que, nas suas palavras, "é quem lê, quem sustenta o romance e quem palpita com ele". Pergunta "o que resta, pois, fazer?", a que responde com a discriminação das alternativas oferecidas ao escritor: "Ou não escrever romances, ou arranjá-los de modo que apresentem duas faces perfeitamente distintas – uma ao gosto do crítico; outra ao gosto do público", de que resulta um produto híbrido: "Aquele gosta de metade do romance, este gosta da outra metade. Um franze a sobrancelha direita; o outro franze a esquerda". Como, em qualquer circunstância, "sempre fica de cada um uma sobrancelha sem estar franzida", considera-se recompensado. Além disso, confessa produzir obras ora para agradar à sobrancelha direita, ora para satisfazer a esquerda, pois "foi isso justamente o que procurei fazer nas Memórias de um condenado e n'O mulato".18

Conclui a carta, observando que a falta de espaço o impede de dar continuidade ao assunto e que, quando puder, responderá ao interlocutor sobre o que esse anotou "a respeito da nudez de certas cenas de O mulato". Despede-se cordialmente, mas, pelo menos na Gazetinha, não voltou a trocar ideias com Giovani.

Quem pode ter sido Giovani?

A primeira das duas cartas, a de 5 e 6 de junho, reaparece em O touro negro, mas essa coletânea de "trabalhos avulsos"19 foi organizada pela editora Briguiet (sucessora da editora Garnier), que detinha os direitos autorais de Aluísio Azevedo quando lançou o livro, em 1938. Nesse, ignoram-se o contexto em que a carta havia sido originalmente publicada e o fato de que, à primeira, se seguiu uma segunda correspondência dirigida àquele interlocutor anônimo. A segunda carta é citada em Fontes para o estudo de Machado de Assis, de J. Galante de Sousa, que comenta brevemente: [Aluísio Azevedo] "defende Machado de Assis da acusação de orgulhoso".20 Não há menção à primeira, provavelmente por não se referir a Machado de Assis.

Conforme Jean-Yves Mérian, Aluísio dirigia-se a Machado de Assis.21 Décio Eduardo Martinez de Mello, em sua tese de doutorado, Aluísio Azevedo: processo de composição e crítica, acompanha essa posição, atribuindo a autoria das cartas a Machado:

Outro momento no qual Aluísio Azevedo comenta sobre o seu processo de criação é o jornal Gazetinha, em carta-resposta a Giovani (pseudônimo de Machado de Assis), a respeito das críticas de Machado ao romance: Memórias de um condenado, que não é um capítulo, mas apenas uma resposta do autor.22

Não é inverossímil pensar que Machado de Assis possa ter escrito a Aluísio, encoberto pela pseudonímia e o anonimato de Giovani, pois o autor de Memórias póstumas de Brás Cubas figura esporadicamente nas páginas da Gazetinha, na maioria das vezes como assunto, e, em algumas (poucas) ocasiões, como autor. Em 20 de dezembro de 1880, quando a Gazetinha chegava ao número 19 da primeira fase, o redator noticia o "bilhete postal" enviado por Machado de Assis:

Do Sr. Machado de Assis recebemos o seguinte bilhete postal:

"Fui convidado para a Sociedade José de Alencar, não como homem de letras, mas como oficial de gabinete do Sr. Ministro da Agricultura".23

Para Raimundo Magalhães Júnior, o "bilhete [é] forjado, pois aquilo nunca sairia da pena daquele a quem é atribuído".24Nesse caso, o objetivo da nota reproduzida pela Gazetinha seria ridicularizar o projeto de Francisco Otaviano de Almeida Rosa, que propunha a criação da Associação dos Homens de Letras, logo a seguir batizada de Sociedade José de Alencar, com o fito de congregar intelectuais e escritores.

Ainda que Magalhães Júnior não comprove a afirmação, a conjetura não é infundada, pois a Gazetinha, entre os dias 14 e 21 de dezembro de 1880, introduz reiteradas notas e sonetos paródicos atacando a iniciativa de Francisco Otaviano. Na primeira das notas em que anuncia a criação da entidade, o redator manifesta seu descrédito, já que, a seu ver, não faltam associações, e sim "homens de letras": "Mas onde estão esses homens e onde estão essas letras?!". Abre, contudo, uma exceção: "Quais são os outros homens de letras, mas exclusivamente de letras, que lá estão, a não ser o Sr. Machado de Assis?".25

Na sequência da matéria, o redator sugere que "essa associação, ao que parece, é uma segunda edição do Instituto Histórico", complementando: "O Sr. Machado de Assis foi roubado: escapou da primeira e caiu na segunda".26 O projeto de Francisco Otaviano supunha que os associados "seriam nomeados pelo governo imperial […] e perceberiam uma quantia determinada, a título de pensão, para a realização dos seus labores do espírito", como esclarece Magalhães Júnior,27 o que evidencia a natureza "chapa-branca" da proposta e justifica o bilhete do pseudo-Machado de Assis, explicando que teria sido convidado "não como homem de letras, mas como oficial de gabinete do Sr. Ministro da Agricultura".

A série de matérias sobre a pretendida Associação encerra-se em 21 de dezembro, quando o tema ocupa o espaço do folhetim e é objeto de um soneto paródico não assinado e provavelmente de Artur Azevedo, diretor do jornal. Nesse número, Machado de Assis é assunto da nota que anuncia o encerramento da publicação, pela Revista Brasileira, das Memórias póstumas de Brás Cubas, e o redator não perde a oportunidade de espetar o ficcionista por seu comportamento burocrático e adesismo às instituições sustentadas pelo Estado, à moda do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro:

A Revista Brasileira concluiu a publicação das Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis.

Brevemente, talvez por estes dias, o belo romance será publicado em volume. Esperamo-lo ansiosamente.

Ah! Se todos os "homens de letras" fossem como o Sr. Machado de Assis, nós lhe perdoaríamos a sua empregomania (sic), e o seu Instituto Histórico.28

Poucos dias depois, em 12 de janeiro de 1881, o jornal anuncia o lançamento do romance. O redator mais uma vez vale-se do fato para atingir um segundo alvo, no caso, o Jornal do Comércio, cujo crítico não soubera reconhecer o mérito daquela obra:

O Leonardo, dando notícias do aparecimento deste livro, que vem acrescentar as letras nacionais, limitou-se a estas simples palavras:

"O Sr. Machado de Assis acaba de dar-nos em livro nitidamente impresso na tipografia nacional as suas Memórias póstumas de Brás Cubas, já publicadas nas páginas da Revista Brasileira, onde encontraram a geral estimação que mereciam".

Decididamente o Jornal do Comércio é um grande pândego.

Se se tratasse da apreciação de um vaudeville todo, é provável que lhe fossem sacrificadas algumas das duzentas e vinte linhas de composição, que ontem tomou o Obituário.29

Um ano mais tarde, a Gazetinha abre a primeira matéria de 1o e 2 de maio com comentários sobre o conto "Um capítulo inédito de Fernão Mendes Pinto", publicado na véspera pela Gazeta de Notícias.30 Comenta o redator que "nosso mimoso poeta Machado de Assis, apresentando-se domingo com as vestes de Fernão Mendes Pinto, deu mais uma exuberante amostra da fecundidade de seu classicismo". Os seis parágrafos subsequentes são ricos de elogios, destacando a "agudeza de seu engenho", cujos atavios o tornam "um pergaminho venerando da sua vernaculidade", para concluir de modo apologético: "Em prosa e verso, Machado de Assis é tão singular, tão complexo e correto, que o seu nome é uma joia da literatura brasileira. / Nas vestimentas de uma subjetividade concreta, Machado de Assis é uma individualidade múltipla".31

Quinze dias depois, em 14 de maio de 1882, o jornal volta a elogiar Machado de Assis, defendendo-o diante de Clóvis Beviláqua que, em seu recentemente lançado Vigílias literárias, não teria feito justiça ao autor de Memórias póstumas de Brás Cubas. Assim, o redator discorda "absolutamente" dele "no que diz respeito a Machado de Assis", e declara:

Machado de Assis não é simplesmente um poeta digno de menção, como pretende o segundo livro das Vigílias literárias, mas também um romancista muito vigoroso, elegante e original.

As Memórias póstumas de Brás Cubas é trabalho que, por si só, bastaria para conferir ao seu autor o supremo título de mestre. E o livro do Sr. Clóvis nem sequer falou nesse romance modelo.32

Em seu livro, Beviláqua também examina o romance de Aluísio Azevedo, O mulato, avaliando-o positivamente, o que motiva, no mesmo dia, a transcrição de seu texto no rodapé das páginas 2 e 3 da Gazetinha.

Carregadas de ironia e de segundos sentidos, as referências a Machado de Assis parecem dizer o contrário do que afirmam, pois, a cada elogio, segue-se uma frase mordaz ou ambígua. Mesmo assim, elas valorizam Memórias póstumas de Brás Cubas, o romance então mais recente do escritor e no qual ele apostara bastante. A esse posicionamento, que parece importar da futura Capitu o olhar "oblíquo e dissimulado", contrapõe-se o julgamento claramente desfavorável da personalidade e da obra de Machado de Assis, expresso sobretudo por Urbano Duarte, cuja resenha de Memórias póstumas de Brás Cubas, publicada em 2 de fevereiro de 1881, patenteia seu desapreço pelo livro:

Em suma, a nossa impressão final é a seguinte: – A obra do Sr. Machado de Assis é deficiente, se não falsa, no fundo, porque não enfrenta com o verdadeiro problema que se propôs a resolver e só filosofou sobre caracteres de uma vulgaridade perfeita; é deficiente na forma, porque não há nitidez, não há desenho, mas bosquejos, não há colorido, mas pinceladas ao acaso.33

Quando dedica a Machado de Assis a coluna "Tipos e Tipões", mantida na Gazetinha desde dezembro de 1880 com o fito de retratar figuras do meio carioca que circulavam na rua do Ouvidor, Urbano Duarte não é mais generoso, ainda que mais bem-humorado. O desenvolvimento discursivo da crônica reitera o modo como, em outras ocasiões, o ficcionista é apresentado: os elogios vêm na frente, desenhando-o como um "literato da ponta dos pés à raiz dos cabelos" e um indivíduo "fino e delicado"; depois, aparecem as falhas de caráter, reveladas pelo "espírito mordaz" que lhe é atribuído ou por sua capacidade de "mandar-nos à fava com tal arte, que inda lhe ficamos agradecidos". De maneira similar, o cronista valoriza as Americanas por lhe garantirem "conspícuo lugar entre os cantores do Indianismo", mas não deixa de recriminá-lo por "conserva[r] as puras tradições do aticismo".34

Após equilibrar precariamente os traços positivos e negativos do homem e do escritor Machado de Assis, Urbano Duarte ataca-o sem piedade. Chama a atenção para suas dificuldades pessoais e comportamento desagradável:

Gagueja antes de falar e, quando o verbo se lhe empaca na glote, ele precipita-se sobre o interlocutor, fulo de impaciência. Não almeja a popularidade. Desdenha-a mesmo. Liga mais valor ao juízo de um ateniense do que ao de cem beócios.

E, logo depois, busca desacreditá-lo enquanto artista:

Não pinta um sentimento belo, uma paixão nobre, sem explicar no fim o móvel egoístico que lhes deu origem.

Faz com as mãos e desmancha com os pés, literariamente falando.

Está a par do movimento literário atual, mas queima incenso nos altares do classismo [sic], e não acha ridículos os quinhentistas.

As frases finais da crônica completam o quadro, apontando para um indivíduo ubíquo e talvez manipulador, imagem que confirma, por outro caminho, as sugestões contidas nas notícias de dezembro de 1880, quando, no bilhete postal, o escritor é descrito como "oficial de gabinete" e, mais adiante, acusado de "empregomaníaco": "É custoso arrancar-se-lhe um juízo sobre os nossos cultores de boas e más letras. / Conserva sempre acesa uma vela a Deus, outra ao Diabo e outra a Santo Antônio".35

Machado de Assis também comparece como colaborador da Gazetinha em uma ocasião, quando, em 17 de junho de 1882, é publicada, na seção "Bibliografia", a crítica a Fanfarras, livro de poemas de Teófilo Dias. Mas esse texto circulara dias antes em A Estação,36 em volume datado de 15 de junho, o que sugere ter sido transcrito por decisão dos editores, tal como ocorrera com a avaliação que Clóvis Beviláqua faz do romance O mulato. Aparentemente, a Gazetinha não se constrangia em copiar resenhas de obras recentes colocadas em outros órgãos da imprensa, talvez sem solicitar permissão a seus autores.

Portanto, não são muitos os elementos que facultam associar Giovani a Machado de Assis. A Gazetinha não reproduziu a correspondência original endereçada a Aluísio, mas incluiu textos atribuídos a Machado que podem ter sido forjados ou transcritos sem autorização. As referências ao escritor, por sua vez, são, no mínimo, ambíguas, ao elogiarem sua obra e, no máximo, bastante agressivas quando se referem a seu comportamento. Fica evidente, pois, que o autor das Memórias póstumas de Brás Cubas não pertencia ao grupo frequentador da Gazetinha, o que torna pouco plausível a hipótese de que ele tivesse redigido as cartas assinadas por Giovani, ainda que pudesse tê-las enviado por correio particular.

De todo modo, dois fatores, ambos da ordem do discurso, ainda que não suficientemente consistentes, podem contribuir para identificar Giovani e Machado de Assis. O primeiro deles diz respeito ao modo como Aluísio se refere a Machado na segunda carta, em que, no esforço de angariar sua simpatia, defende-o veementemente da acusação de orgulhoso. Consciente de que essa atitude poderia não bastar, busca, nas frases seguintes, louvar o artista, destacando a superioridade de seus escritos, posição simbolizada pelos atributos que lhe confere, enquanto "monarca", "príncipe de nossa literatura", portador "desse outro cetro de ouro", "conquistado heroicamente por uma existência de lutas e vigílias".

Acontece que Aluísio é confessamente um republicano ("eu que não reconheço a soberania casual dos monarcas constitucionais", escreve nessa segunda carta), de modo que elogiar alguém por comparação à realeza incidiria no seu contrário. Logo, os encômios podem esconder divergências e camuflar insultos, repetindo-se aqui a estratégia discursiva dos redatores da Gazetinha. Assim, em lugar de se dirigir a Machado de Assis em segunda pessoa, pois se tratava de seu interlocutor, Aluísio valer-se-ia da terceira pessoa, o que permitiria que nomeasse o indivíduo com quem dialogava, o remetente da carta original, sem desmentir a promessa de não elucidar a identidade do missivista.

O segundo argumento não é mais sólido e diz respeito à coincidência entre as imagens com que o escritor é representado na notícia sobre o conto publicado na Gazeta de Notícias e as alusões à fantasia trajada por Giovani. Assim, o comentário a "Um capítulo inédito de Fernão Mendes Pinto" alude às "vestimentas de uma subjetividade concreta", pois Machado de Assis ter-se-ia apresentado "com as vestes de Fernão Mendes Pinto"; Aluísio, da sua parte, na primeira carta refere-se ao fato de o destinatário de seu texto ter "deita[do] um pequenino dominó de seda", estar com as meias de fora, as mangas não arregaçadas e visível "a banda de luva amarrotada na mão esquerda", além de portar uma "máscara". Na segunda carta, reitera o procedimento conforme o qual o comportamento do interlocutor é metaforizado por intermédio de sua indumentária: "entendeste de vestir uma exagerada modéstia".

De certo modo, mas não muito, Aluísio procurou preservar a identidade de Giovani, mas, tal como o remetente, deixou algumas pistas, para os leitores eventualmente descobrirem o que a fantasia disfarçava. Transcorridos tantos anos após o encerramento do episódio, a certeza se esgarça, colaborando para o ocultamento do interlocutor – e litigante – de Aluísio Azevedo.

2. Ensinamentos do episódio

Resume-se a correspondência entre Giovani e Aluísio Azevedo ao envio de duas cartas pelo primeiro, não identificado, e à publicação, pelo segundo, de duas matérias jornalísticas em espaços da Gazetinha. O pseudônimo empregado pelo interlocutor intitula as duas respostas de Aluísio, que adotou ainda um subtítulo, "particular", na primeira réplica.

A se acreditar nas palavras do romancista, Giovani teria solicitado ao destinatário que permanecesse incógnito, com o que Aluísio concorda, não obstante ter ele, à primeira vista, percebido, ou suspeitado, com quem trocava ideias. Por sua vez, se a carta foi enviada por algum tipo de correio privado, logo, "particular", tivesse sido ela encaminhada ou não diretamente à sede da Gazetinha, situada na rua do Ouvidor, ela é contestada por intermédio de um canal público, a saber, as páginas do jornal.

Giovani não se encobre apenas por intermédio do pseudônimo, mas também por preferir não utilizar a imprensa para exibir suas críticas e comentários. Essa atitude repete-se quando encaminha a tréplica, sinalizando a aspiração à confidencialidade. Aluísio, ainda que não denuncie a identidade do remetente, não respeita o desejo de sigilo do outro, pois por duas vezes manifesta-se publicamente, utilizando agora o espaço do folhetim, até poucos dias antes ocupado pela narrativa ficcional.

Polêmicas por meio de cartas publicadas na imprensa não eram um procedimento inusitado na vida intelectual brasileira – ou ao menos carioca – na segunda metade do século XIX. José de Alencar criticara, em 1856, A confederação dos tamoios, de Gonçalves Dias, nas páginas do Diário do Rio de Janeiro. Em 1865, Confissões de uma viúva moça, de Machado de Assis, fora julgado imoral por um leitor do Correio Mercantil, sendo as réplicas publicadas primeiro no concorrente Diário do Rio de Janeiro, depois no próprio Correio Mercantil. Em 1871, Alencar provara do próprio veneno, quando Franklin Távora acusou O gaúcho de falta de autenticidade em Questões do Dia, de Recife.

Nesses casos, os remetentes a quem desagradavam as obras literárias citadas recorreram a pseudônimos, alguns facilmente reconhecidos, como o Ig, de José de Alencar, ou o Cincinato, de Franklin Távora, outros nem tanto, como sugere o debate em torno à moralidade de Confissões de uma viúva moça.37 Sob esse aspectos, a atitude de Giovani não difere da prática de seus predecessores; surpreende é que a iniciativa tenha começado de modo privado com o envio da carta a Aluísio e, depois, sido transferida para o plano público, quando o desagravado se manifestou, transpondo, assim, as divisas que separam os dois campos. Talvez Aluísio tenha agido com tal permissividade, porque aquelas fronteiras não eram muito nítidas, como indicam as polêmicas relacionadas antes, mas, de todo modo, ela ocorreu e parece relacionar-se com a ausência de limites que transparece nos artigos da Gazetinha relativos a Machado de Assis. Exemplar é o retrato de Urbano Duarte, que desliza da obra do ficcionista à sua personalidade, e de seus méritos de artista às suas dificuldades de expressão oral.

O episódio contém, pois, um conjunto de procedimentos que, simultaneamente, confirmam e contradizem uma prática consolidada desde os anos 1850. Reiteram-na o emprego da pseudonímia, o recurso à carta, a saber, um discurso próprio à privacidade para criticar um autor ou uma obra, e o apelo à imprensa, isto é, de um canal público habilitado a conferir visibilidade ao protesto. Porém, contraria-o também, porque não é o crítico que toma a iniciativa de veicular suas ideias pelo jornal (e talvez nem o desejasse, razão por que não dá continuidade ao debate após a segunda carta), além de impossibilitar a revelação de sua identidade, ocultada pelo pseudônimo.

Assim entendido, o episódio trivial de junho de 1882 talvez aponte para um ponto de inflexão no processo de distinção entre o público e o privado na sociedade brasileira do século XIX, em especial na sede do Império, em um período em que sua modernização estava no horizonte dos intelectuais, especialmente os afinados com o projeto republicano.

Por outro lado, considerando a ausência da missiva original, pode-se também supor que ela nunca existiu, as respostas de Aluísio correspondendo a dois capítulos suplementares das Memórias de um condenado. Para adicionar argumentos a essa hipótese, vale recordar que a narrativa é desencadeada pelo acolhimento, pelo narrador, de uma carta portada por uma idosa, que introduz o relato de Gabriel, material que ocupa o rodapé (às vezes estendendo-se para a página seguinte) da Gazetinha por mais de seis meses. Deflagrado por uma carta, o folhetim encerraria com outra, em que Aluísio discute, em instigante processo metalinguístico e autoconsciente, os problemas que então afetavam o escritor nacional.

Tal hipótese decorre da circunstância de que Memórias de um condenado supõe elementos de natureza metaliterária, pois encena sua construção desde a abertura, quando, em primeira pessoa, o narrador situa o tempo – "ontem" – e o espaço – "escritório desta folha [Gazetinha]" – em que foram doados a ele os originais do manuscrito que constituem a matéria-prima de seu romance. Quem os redige é nomeadamente Aluísio Azevedo, destinatário da carta assinada por G. de L. R., mas o narrador, a partir do capítulo inicial, que aparece em 2 de janeiro de 1882, é Gabriel, utilizando, também ele, a primeira pessoa. Talvez o folhetim, entre aquele dia e 17 de março de 1882, não identifique a autoria por essa razão, delegada inteiramente ao condenado do título.

Por outro lado, se falta o autor, não falta a indicação, desde o capítulo inicial em 2 de janeiro de 1882, de que se trata de um "Romance brasileiro", aspecto enfatizado na segunda carta a Giovani. A providência pode parecer desnecessária aos olhos de hoje, mas diferenciava Memórias de um condenado em relação à maioria dos folhetins então publicados, até pela Gazetinha, que, em anos anteriores, investira no à época bastante popular Émile Gaboriau. A essa iniciativa soma-se a circunstância de que, desde o começo, a autoria é um fator oscilante, assumido quando Aluísio se apresenta como destinatário da carta de Gabriel e, a seguir, apagado por mais de dois meses. É, enfim, retomada e conduzida até o final, quando Aluísio passa a assinar o relato, provavelmente porque o deslizamento da autoria tenha confundido o público leitor de As memórias de um condenado, pouco habituado a esse tipo de experimentação.

Não é inverossímil pensar que, quando as Memórias estão em vias de concluir, Aluísio reduplique o processo: entra em cena nova correspondência, encaminhada agora pelo "querido desconhecido" (talvez Machado de Assis, único intelectual brasileiro nomeado no conjunto das duas cartas), que permanece incógnito. O documento motiva o ficcionista a discutir as encruzilhadas oferecidas ao escritor nacional, dividido entre conquistar o grande público ou comprometer-se com a inovação, alinhando-se, neste caso, aos mais destacados nomes da literatura estrangeira, conhecidos por ele.

Podemos entender a correspondência dirigida a Giovani enquanto apêndice metalinguístico simétrico ao capítulo de abertura, que pertence e não pertence às Memórias de um condenado, já que não numerado e que, na conversão do folhetim em livro, obrigou Aluísio Azevedo a nomeá-lo "capítulo 0".38 E entender o próprio Giovani enquanto um interlocutor imaginário ou não, mas, de todo modo, a oportunidade apresentada ao jovem Aluísio, consagrado na Corte por O mulato e buscando sobreviver na qualidade de artista e intelectual, para se justificar por ter assumido a produção de uma narrativa carente de denúncia social e do enquadramento científico que marcara a obra de estreia, porém, ainda assim, um romance brasileiro destinado à emergente audiência nacional.

Mesmo que o codinome encubra uma personalidade real, Aluísio parece ter-se servido dele para evidenciar o que pretendia com sua literatura e as concessões que era obrigado a fazer. Adequado a seus propósitos, Giovani, à revelia ou não, propiciou ao jovem nortista emigrado para o Rio de Janeiro a comunicação direta com a plateia da Gazetinha, explicitando não apenas as contrariedades do artista brasileiro, mas a necessidade de que essas fossem compreendidas e aceitas. Para chegar a esse resultado, que convinha a Aluísio, era inevitável cruzar as fronteiras que separam o privado e o público, a imprensa oferecendo-se como o melhor canal para alcançar imediata repercussão entre os leitores.

Sob esse aspecto, o jornal desses tempos equipara-se às redes sociais de nosso século. O espaço do folhetim de que se adona o autor das Memórias de um condenado equivaleria a um blogue, site ou página no Facebook, facultando ao emissor expor ideias compartilhadas com amigos, por uma parte, e, por outra, rejeitadas pelos adversários – ou haters, sintetizados na figura de Giovani.

O sentimento de fraternidade é muito intenso na Gazetinha, congregando indivíduos nascidos no Rio de Janeiro, como Urbano Duarte, ou emigrados para a Corte, como os irmãos Artur e Aluísio Azevedo, que abraçavam as estéticas em ascensão e desejavam vê-las implantadas na literatura nacional. Todos circulavam pela rua do Ouvidor, como a coluna "Tipos e Tipões" retrata, mas nem todos pertenciam à mesma comunidade de ideias e poéticas. Machado de Assis, noves fora talento e méritos literários, ficava do lado oposto, até porque, segundo os colaboradores da Gazetinha como Urbano Duarte, mostrava-se anacrônico, pois nutria afeição pelos "quinhentistas" (como Fernão Mendes Pinto), os quais não considerava "ridículos".

Entende-se por que Aluísio precisava superar as barreiras que distinguiam o público e o privado, pois o diálogo a ser buscado não dizia respeito a Giovani, mas aos leitores cariocas. Se efetivamente almejasse conversar com o "querido desconhecido", teria levado adiante a discussão que ficou interrompida na passagem da primeira para a segunda réplica. Com efeito, no decorrer da primeira carta, observa que aceitaria de bom grado as sugestões relativas a O mulato, se dispusesse de um exemplar para oferecer. Giovani deve ter levado a provocação a sério, pois, em sua segunda carta, Aluísio admite a menção, pelo outro, à "nudez de certas cenas" daquela obra; contudo, opta por deixar o assunto para depois.

O tema certamente renderia, pois, se O mulato cruza a faixa do pudor, conforme teria apontado Giovani, Memórias de um condenado não é mais pudico. Assim, no capítulo LIX, de 31 de março de 1882, Aluísio encena uma relação homossexual entre Ambrosina e Laura que, provavelmente, não seria muito frequente em folhetins, sobretudo quando veiculados por jornais brasileiros de circulação diária. Memórias de um condenado comporta todas as marcas do gênero literário escolhido: mortes violentas, ligações familiares obscuras, personagens estereotipadas, enredo rocambolesco; mas inclui também sugestões eróticas pouco comuns na literatura brasileira do período, porém recorrentes em autores como os que Aluísio arrola na resposta a Giovani.

Aluísio, contudo, resguarda-se, protelando o debate, atitude que se deve à circunstância de que não cabia abordar o assunto, se estava em jogo a aceitação, pelos leitores, da duplicidade adotada pelo escritor, preocupado simultaneamente com, de um lado, a recepção de seus pares, os letrados comprometidos com a poética realista, e, de outro, a aceitação, pela massa anônima, de um produto de trama intrincada, própria ao folhetim, publicado em rodapés de jornais aspirantes à circulação popular.

Ao responder pela imprensa a primeira carta, Aluísio dirigia-se a um interlocutor empenhado em assegurar a qualidade da escrita, um intelectual para quem a "vernaculidade" e a correção são critérios de qualidade, concepção que aproxima, mais uma vez, Giovani e Machado de Assis. O autor das Memórias de um condenado justifica as falhas, atribuindo-as, em parte, aos tipógrafos e, em parte, à pressão do tempo, pois os capítulos são elaborados "au jour le jour". Ao responder publicamente a um sujeito que não deseja revelar-se, valendo-se, pois, da privacidade do correio, Aluísio ultrapassa a linha divisória entre o público e o privado, transgredindo regras de boa conduta, mas, ainda assim, apoiando-se em uma prática a que os consumidores dos jornais cariocas estariam habituados.

Diante da nova carta de Giovani, cujo conteúdo fica obscurecido, pois o destinatário cinge-se a defender Machado de Assis e a jogar para o futuro a discussão sobre a "nudez de certas cenas d'O mulato", Aluísio confere outra direção a seus argumentos, focalizados agora na estratégia assumida enquanto artista e homem de Letras, que supõe, em doses equilibradas, inovação e realismo para críticos e profissionais, de uma parte, e, de outra, imaginação exacerbada e concessões ao público não especializado. Giovani se converte em figura secundária na segunda carta, e, em certo sentido, apaga-se diante da menção a Machado de Assis, e também por esse motivo talvez se trate do mesmo indivíduo. Caso contrário Aluísio não se preocuparia tanto em destacar seus méritos, sintetizados na referência às Memórias póstumas de Brás Cubas, obra então já reconhecida como um ponto alto da criatividade de seu autor. Contudo, o responsável por essas outras Memórias queria delimitar seu próprio espaço de criação e evidenciá-lo aos leitores, fossem eles seus admiradores ou não. Assim procedendo, Aluísio reinsere a correspondência no âmbito do privado, porque é de si mesmo que almeja falar.

Logo, importava pouco para o maranhense recém-chegado ao Rio de Janeiro a identidade de Giovani, razão por que foi cúmplice do encobrimento solicitado pelo interlocutor, um alter ego rival. Mas importam bastante o meio – o correio, a correspondência – e o canal – a imprensa – de que se utiliza. Pois, ao conferir caráter confessional às suas palavras, precisa de um discurso da privacidade, e nada melhor do que a carta, ainda que tornada pública, para traduzi-las.

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SOUSA, J. Fontes para o estudo de Machado de Assis. Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Livro, 1958. [ Links ]

1ASSIS, Obras completas em quatro volumes, vol. III, p. 182.

2Reproduzida ao final, em anexo.

3AZEVEDO, A Giovani (Particular).

4Cf. SODRÉ, História da imprensa no Brasil, p. 282-283; MÉRIAN, Aluísio Azevedo, vida e obra (1857-1913), p. 375.

5Azevedo, Um caso extraordinário.

6AZEVEDO, A Giovani (Particular).

7 DUARTE, Aluísio Azevedo.

8 AZEVEDO, A Giovani (Particular).

9 Eis o trecho a que se refere Aluísio Azevedo: "Uma ocasião Ambrosina, passeando pela rua do Ouvidor, viu numa vitrina um velho e rico broche de brilhantes. Eram duas pedras grandes e muito límpidas" (AZEVEDO, Dissolução).

10AZEVEDO, A Giovani (Particular).

11Reproduzida ao final, em anexo.

12 AZEVEDO, A Giovani.

13 Idem.

14 Idem.

15 Idem.

16 Idem.

17 Idem.

18 Idem.

19FERREIRA, Leitura e literatura no século XIX: Considerações nas cartas e crônicas de Aluísio Azevedo.

20SOUSA, Fontes para o estudo de Machado de Assis, p. 28.

21 MÉRIAN, cit., p. 399.

22MELLO, Aluísio Azevedo: Processo de composição e crítica, p. 19.

23GAZETINHA [sem título], 1880a.

24Magalhães JÚnior, Arthur Azevedo e sua época, p. 72.

25GAZETINHA [sem título], 1880.

26Idem.

27 Magalhães JÚnior, cit., p. 72.

28 GAZETINHA [sem título], 1880b.

29 GAZETINHA [sem título], 1881.

30 Esse conto, com o título "O segredo do bonzo – Um capítulo inédito de Fernão Mendes Pinto", é a seguir incluído em Papéis avulsos, de 1882.

31 GAZETINHA [sem título], 1882.

32GAZETINHA [sem título], 1882a.

33DUARTE, Bibliografia: Memórias póstumas de Brás Cubas. A resenha de Urbano Duarte está reproduzida em MACHADO, Machado de Assis: roteiro da consagração.

34DUARTE, Tipos e Tipões: Machado de Assis.

35 Idem.

36 Esta resenha está reproduzida em ASSIS, Bibliografia, vol. III, p. 1288-1290.

37SOUSA, Bibliografia de Machado de Assis.

38 AZEVEDO, A condessa Vésper. Memórias de um condenado saiu em livro pela Tipografia do Liberal Mineiro, de Ouro Preto, em 1886. E depois, em 1902, com o título A Condessa Vésper, pela Garnier, no Rio de Janeiro.

ANEXO DUAS CARTAS A GIOVANI

As duas cartas que Aluísio Azevedo dirigiu a Giovani foram publicadas respectivamente nos números 127, de 5 e 6 de junho de 1882, e 132, de 12 e 13 de junho de 1882, da Gazetinha, jornal fundado por seu irmão, Artur Azevedo. A primeira foi reproduzida, com alguns erros, em O touro negro, conjunto de textos avulsos que a editora Briguiet, sucessora da Garnier e então detentora dos direitos autorais de Aluísio Azevedo, lançou em 1938. A segunda não foi reeditada.

Transcrevem-se a seguir, em ortografia atualizada, as duas cartas, disponíveis, em sua versão original, na Hemeroteca Digital, da Biblioteca Nacional.

A Giovani(Particular)

Querido desconhecido. – A tua carta é a primeira carta anônima que respondo, das muitíssimas que até hoje tenho recebido. E a razão disso está simplesmente no modo asseado por que me falas. Deitaste um pequenino dominó de seda, mas não descalçaste as meias e não arregaçaste as mangas da camisa.

Para dizer tudo – creio até que em ti percebi uma banda de luva amarrotada na mão esquerda.

Entra, pois, assenta-te, toma um charuto, e conversemos. Não precisas tirar a máscara; pediste que te não procurasse reconhecer, e eu, apesar de minha curiosidade, estou resolvido a fazer-te a vontade.

Antes de entrarmos no assunto verdadeiro de tua carta, convém declarar-te uma coisa: Estou reconhecido pelas palavras lisonjeiras que me dedicas e mais ainda pelo interesse que mostras pelas minhas produções.

Nada é tão agradável para quem escreve, como saber que seus escritos preocupam de qualquer forma a atenção de quem quer que seja.

Ofereceste-me obsequiosamente para anotar o meu romance O mulato e eu aceito e agradeço o oferecimento, sentindo apenas não possuir um exemplar para pô-lo à tua disposição.

Hoje é muito difícil encontrar um volume d'O mulato.

Quanto ao que dizes a respeito das Memórias do condenado, pesa-me confessar-te uma coisa: – Tu tomaste muito a sério essa obra.

Que não nos ouçam os leitores do rodapé, mas impõe-me a franqueza declarar-te que as Memórias, enquanto não aparecerem em volume, não merecerão desvelos de ninguém.

Romance de au jour le jour, escrito para acudir as exigências de uma folha diária, está, como facilmente se pode julgar, eivado de erros e descuidos, que só na revisão para o volume poderão desaparecer.

Além disso, os erros tipográficos são tantos e tão constantes, que constituem uma verdadeira calamidade. Ainda no último folhetim, eu escrevi – belos brilhantes, e os tipógrafos disseram – velhos brilhantes; em outro lugar falo de pedras limpas, e eles emendaram para límpidas. Isto sem querer citar as repetidas transposições, que alteram completamente o sentido do que está escrito; as palavras incompletas, os saltos e mil outros inimigos do estilo e da boa lógica gramatical.

Entretanto, manda-me as tuas notas – elas me poderão ser de grande utilidade. Quando fores razoável, seguirei o teu conselho e quando não fores não seguirei; em todo caso nada perderemos com isso.

Mas vejamos as tuas três primeiras emendas:

1oQueimam como pus.

Se bem que isto não seja uma frase completamente verdadeira, tem todavia algum fundo de verdade. Há certo pus venenoso, que possui propriedades de cáustico, e queima a epiderme. Podes facilmente verificar esse fato nas feridas venéreas. Contudo não disputo a frase, porque não reconheço nela valor algum.

2o O abuso das frases – Que diabo! com os diabos! etc. etc.

Não me pareces nisso muito razoável, mas enfim pode ser que tenhas razão.

3o Pedes a supressão de certo adjetivo, porque ele pode lembrar desgostos a uma senhora, que ambos nós respeitamos.

Quanto a isso, só me resta declarar-te uma coisa: – Para poupar um desgosto a uma senhora de minha estima, eu seria capaz de sacrificar um dedo, quanto mais um adjetivo.

Creio que te fiz a vontade; espero por conseguinte que sejas mais severo nas tuas notas. Vê se dizes alguma coisa sobre a concepção artística de meus trabalhos.

Pena é que as Memórias estejam a expirar.

E com esta – adeus, fico-te obrigado e à espera de mais.

Aluísio Azevedo

A Giovani

Querido anônimo. – Só ontem me chegou às mãos a tua última carta e, pesa-me dizê-lo, nela não encontrei a nova porção de emendas que esperava.

Entendeste de vestir uma exagerada modéstia, e deixar-me com água na boca, justamente no momento em que melhor aguardava as tuas judiciosas considerações.

Mas, como prometeste voltar à fala, não perdi ainda as esperanças de explorar mais na gema o veio de teu bom senso crítico e a substância de teu critério literário.

Lamento que desta vez tenha de principiar por erguer de tua carta uma acusação, que me parece inteiramente infundada.

Não se trata de mim; trata-se de nosso mestre comum Machado de Assis, a quem acoimaste de orgulhoso.

Não! Machado de Assis não é orgulhoso. Se eu obedeço a um dever, aceitando tuas emendas, ele exerce um direito, disputando e impondo suas frases, com o empenho e obstinação de quem defende um filho estremecido.

O que nele é justiça, em mim seria vaidade, pois não deve o súdito ombrear com o monarca.

Machado de Assis é, na presente ocasião, o príncipe de nossa literatura; e eu, que não reconheço a soberania casual dos monarcas constitucionais, curvo-me, entretanto, reverentemente, defronte desse outro cetro de ouro, conferido pelo talento e conquistado heroicamente por uma existência de lutas e vigílias.

Permite, por conseguinte, que não aceite as palavras referentes ao respeitável autor do Brás Cubas, – e passemos ao resto de tua carta.

Mas, para isso, é necessário que te faça algumas revelações especiais:

Atualmente, entre nós, um dos problemas mais difíceis, que se pode apresentar a qualquer pessoa, é o seguinte: – escrever romances brasileiros.

E a razão disso está pura e simplesmente na deficiência literária do nosso público, que constitui a grande massa absorvente do romance-folhetim.

O romancista tem que lutar com duas forças desencontradas – o desejo de escrever conscienciosamente e o desejo de agradar ao leitor.

De um lado está meia dúzia de jornalistas e literatos, que acompanham a marcha inalterável das letras europeias, e desejam que os escritores brasileiros as sigam de perto; do outro lado está o resto do público, que ignora absolutamente em que altura navega o romance moderno, e lê, simplesmente para espairecer as fadigas do dia.

Aqueles vivem em 1882, com Emílio Zola, Daudet, Hussman (sic), Paul Alexis; estes em 1830 com Alexandre Dumas. Aqueles exigem a observação dos fatos vulgares da vida e o estudo paciente e fisiológico do coração humano; estes pedem, a gritar, que lhes deem situações dramáticas, cenas de efeito, enredos labirínticos, coisas assombrosas – assassínios, raptos, assaltos, incêndios, naufrágios e duelos.

Aqueles querem estilo, frase elegante e verdade nas descrições; estes não ligam importância à forma: gostam que os enganem, e adoram o falso, o imprevisto e o maravilhoso.

E o escritor, entalado entre estas duas vontades tão opostas, cruza os braços e pergunta a qual das duas deve atender.

A primeira é quem faz a crítica, é quem pensa, é quem sabe; mas a segunda é quem lê, quem sustenta o romance e quem palpita com ele.

Em qual das duas está o direito, em qual está a razão?!

Parece, todavia, que o romancista, uma vez abraçado a um desses dois partidos, está desquitado do outro; mas assim não sucede.

O crítico não perdoa ao romancista, que abre largamente os braços para o público grosso; e este vira as costas ao romancista que não for afagado pela crítica.

O que resta, pois, fazer?

Ou não escrever romances, ou arranjá-los de modo que apresentem duas faces perfeitamente distintas – uma ao gosto do crítico; outra ao gosto do público.

Aquele gosta de metade do romance, este gosta da outra metade. Um franze a sobrancelha direita; o outro franze a esquerda. Mas, em todo caso, sempre fica de cada um uma sobrancelha sem estar franzida, e isso já é uma recompensa.

Foi isso justamente o que procurei fazer nas Memórias de um condenado e n'O mulato.

Ora, nestas condições, podes facilmente calcular que espécie de romances cairão da pena de quem os quiser escrever com outro fim, que não seja pelo único prazer de escrever livros.

Muito desejava ainda conversar contigo sobre esse assunto; a insuficiência do espaço obriga-me, porém, a ficar por aqui, reservando-me o direito de responder mais tarde sobre o que disseste a respeito da nudez de certas cenas d'O mulato.

E adeus. Continua a mandar-me tuas notas, e aceita, mais esta vez, os meus sinceros agradecimentos.

Aluísio Azevedo

Recebido: 17 de Novembro de 2016; Aceito: 17 de Março de 2017

REGINA ZILBERMAN doutorou-se em Romanística pela Universidade de Heidelberg, na Alemanha, com estágios de pós-doutorado no University College (Inglaterra) e na Brown University (Estados Unidos). É professora adjunta do Instituto de Letras, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, e pesquisadora 1A do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Seus livros mais recentes são Brás Cubas autor Machado de Assis leitor (2012), Como e por que ler a literatura infantil brasileira (nova edição em 2014) e Estética da recepção e história da literatura (nova edição em 2015). E-mail: reginaz@portoweb.com.br.

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