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Machado de Assis em Linha

On-line version ISSN 1983-6821

Machado Assis Linha vol.10 no.21 São Paulo May./Aug. 2017

http://dx.doi.org/10.1590/1983-6821201710219 

ENSAÍSTA CONVIDADO

ANOTAÇÕES SOBRE A CORRESPONDÊNCIA DE MACHADO DE ASSIS

NOTES ON THE CORRESPONDENCE BY MACHADO DE ASSIS

ANTONIO DIMAS1 

1Instituto de Estudos Brasileiros / Universidade de São Paulo. São Paulo, São Paulo, Brasil

Resumo

Depois de tantos anos, esta é a coleção mais abrangente, mais ambiciosa e mais bem preparada da correspondência ativa e passiva de Machado de Assis, patrocinada pela Academia Brasileira de Letras, organizada por Paulo Sergio Rouanet e com colaboração de alta competência técnica de Sílvia Eleutério e de Irene Moutinho. Seus cinco volumes, contendo 1.200 itens de correspondência, cobrem o período entre 1860 e 1908.

Palavras-Chave: Machado de Assis; Correspondência ativa; Correspondência passiva; Epistolografia; Cartas

Abstract

This is by far the most comprehensive, ambitious and well-organized collection of the active and passive correspondence of Machado de Assis. Sponsored by the Brazilian Academy of Letters and organized by Paulo Sergio Rouanet with the high-level technical collaboration of Sílvia Eleutério and Irene Moutinho, the complete set of letters is arranged in five volumes and includes 1,200 pieces of correspondence that span nearly five decades, from 1860 to 1908.

Key words: Machado de Assis; Active correspondence; Passive correspondence; Epistolography; Letters

Você não é um admirador da natureza; o que lhe interessa é a vida humana e o homem, em suas paixões e ideias […].

De José Veríssimo para Machado de Assis, 28 jan. 19011

Tivessem sido conhecidas as palavras acima, tão taxativas assim que escritas, muita crítica poderia ter sido economizada, talvez. Muito papel e muita tinta poderiam ter-se livrado de inúmeras acrobacias interpretativas. Em tão poucas linhas, o vetusto Veríssimo resumiu, nesse janeiro de 1901, a carreira quase pronta de seu amigo Machado, que viria a ser completada, nos anos seguintes, com Esaú e Jacó (1904), Relíquias de casa velha (1906) e Memorial de Aires (1908).

Da massa formidável dos cinco volumes de cartas2 – anotadas pela competência técnica de Irene Moutinho e de Sílvia Eleutério, sob a coordenação de Sergio Paulo Rouanet – emergem outros Machados. Alguns deles arranham a imagem canônica que a crítica consolidada construiu, consagrou, repassou e sustenta até hoje diante dos leitores brasileiros, diletantes ou profissionais. Por causa desse maço de cartas, deram-se acréscimos, extensões, confirmações, variações, desmentidos ou negações daquele Machado que nossa crítica literária ergueu logo antes e depois da morte desse "menos enfático dos nossos escritores",3 segundo Rouanet. É com tal definição na mosca que o coordenador dessa coleção encerra as mais de 2400 páginas em torno do criador da Academia Brasileira de Letras, cujo intuito é o de homenagear Machado de Assis (1839-1908) no centenário de sua morte. Sem pressa, mas com persistência, o órgão central do sistema literário brasileiro, independente dos humores e das circunstâncias, reverenciou à altura seu fundador, dele deixando à mostra uma sociabilidade cautelosa e múltipla, sempre reconhecida. O Machado que resulta dessas páginas cerca-se de intelectuais vistosos ou tíbios, de funcionários simples ou graduados, de gente anônima ou conspícua, de tagarelas ou de taciturnos. E, no papel conveniente de ponto de convergência central, seus pés se plantam inarredáveis na cidade em que nasceu e morreu. Diante deles, ela que se mexa, ela que se transforme. "Aqui nasci, aqui morrerei; terei conhecido apenas duas cidades, a de minha infância e a atual",4 admite ele, em 17 de novembro de 1896, para Magalhães de Azeredo, logo depois de frase mais categórica ainda, dita a esse amigo, que viveu em Roma a vida toda praticamente, como diplomata nosso no Vaticano: "Não creio já na possibilidade de ir ver o resto do mundo".5 Nascido num burgo roceiro e acanhado, Machado morreu numa aglomeração urbana com volúpias de bulevar, deixando atrás de si, diabólico que era, a falsa impressão de indiferença social.

Devidamente acolitado pelas "duas melhores pesquisadoras com que poderia sonhar um coordenador",6 Sergio Paulo Rouanet pôs em pé um trabalho de pesquisa, de compilação, de anotação e de editoração que, sem dúvida nenhuma, altera, daqui em diante, a exegese machadiana, sobretudo aquela construída por pós-graduandos imberbes e afoitos, mais ciosos da produção que da série histórica em que se encaixam. Redobremos os cuidados, pois! Porque os acréscimos, as extensões, as confirmações ou as negações produzidas por esses cinco volumes modificam bem a imagem desse escritor que a crítica canônica consagrou e repassou para os leitores, diletantes ou profissionais. São outras faces que não se podem mais perder de vista. Graças àquilo que as páginas dessa correspondência encerram, vai ser difícil defender, a ferro e fogo, a imagem do narrador sisudo e contido; a imagem do homem enclausurado e torturado pela doença ou pelo nascimento no berço troncho; a imagem do retaliador pelo verbo. Também não vai ser fácil operar a distinção às vezes radical que o leitor principiante, bem treinado por esquemas teóricos, constrói entre o homem e o narrador. Por paradoxal que possa parecer, a informação volumosa desta correspondência farta remexe, com gosto, aquilo que jazia quieto.

Com Irene Moutinho e com Sílvia Eleutério, colaboradoras afinadas e da mais alta perícia profissional, Sergio Paulo Rouanet produziu cinco tomos, indispensáveis doravante para quem se aventurar pelo território machadiano, independente de sua experiência de leitura, se novata ou veterana. Publicadas ao longo de sete anos – 2008, 2009, 2011, 2012, 2015 –, estas páginas e mais páginas, cronologicamente divididas entre 1860-1869, 1870-1889, 1890-1900, 1901-1904, 1905-1908, fazem-se inevitáveis, de agora em diante, para quem se dispuser a enfrentar nosso escritor de forma crítica e analítica. Junto com a crítica estabelecida há tempos, este rol de cartas recuperadas e postas em circulação aniquila qualquer subterfúgio amadorístico. Junto com os romances e contos, esta correspondência ambiciosa e bem levada a cabo não permite mais inocência diante da narrativa machadiana, exceto se for o caso da leitura lúdica.

Uma sinopse visual dos cinco tomos talvez dê conta da ambição do projeto:

Tomo I 1860-1869 2008 334 páginas 90 itens
Tomo II 1870-1889 2009 509 páginas 201 itens
Tomo III 1890-1900 2011 600 páginas 292 itens
Tomo IV 1901-1904 2012 490 páginas 255 itens
Tomo V 1905-1908 2015 546 páginas 340 itens
2479 páginas 1178 itens

As apresentações dos cinco volumes, assinadas todas por Sergio Paulo Rouanet, obedecem a um padrão estrutural que se repete e se divide, grosso modo, entre o informativo, o metodológico e o analítico sem nenhum prejuízo recíproco. Equilibradas entre si, nenhuma das partes se sobrepõe à outra, por mais que o material recolhido e o inegável prestígio de Machado instiguem a tentação analítica. O foco é o escritor, não seus recuperadores. Essa mensagem é clara.

A distribuição interna dessas cinco apresentações vai-nos oferecendo, aos poucos, o andamento do processo de edição e de editoração, desde seu móvel primeiro, segundo o que se lê já no primeiro tomo:

[…] pareceu à Academia Brasileira de Letras que uma das melhores maneiras de homenagear Machado de Assis por ocasião do centenário de sua morte seria começar a publicação, por ordem cronológica, da correspondência completa do nosso maior escritor, tanto a ativa quanto a passiva, tanto a já publicada quanto a inédita.7

Tomada a decisão por parte da Academia Brasileira de Letras, coube aos organizadores se ocuparem da melhor forma de viabilizar o projeto. A existência de iniciativas congêneres anteriores, bem como a decisão de se incluir ou não as "cartas-prefácios" e "cartas abertas", publicadas pela imprensa, ou a expectativa da surpresa documental, bastante promissora, dado o acesso privilegiado aos arquivos da ABL, acompanharam sempre os trabalhos, passo a passo.

Nasceu, pois, dessa atenção contínua à dinâmica da própria pesquisa, a primeira iniciativa louvável, que foi a de incluir tanto as cartas abertas como os prefácios junto às cartas convencionais, sob o pretexto justo da totalidade. Sem mencionar que a oportunidade editorial de ouro, bem como o privilégio da fonte documental, poderiam não se repetir em tão curto prazo.

Desse modo, a equipe organizadora sentiu-se inteiramente à vontade para enfrentar o vai e vem da pesquisa, que, espichando-se por mais de cinco anos, poderia, sempre que necessário, driblar o método escolhido, flexibilizando-o. Diante dos eventuais achados ou da necessidade de corrigir a rota, dissipou-se o receio do prazo restrito e rígido, tão cultivado por modelos metodológicos ferrenhos mas indiferentes ao corpus em questão. E essa necessidade já se mostrou logo no tomo II, quando, cautela manda, a equipe se decidiu pela inclusão de um "Caderno Suplementar" com onze "cartas abertas" do conde de La Hure a Machado de Assis, escritas entre outubro e dezembro de 1866. Nesse momento, contextualiza Sergio Paulo Rouanet, Machado estava "praticamente sozinho à frente do Diário do Rio de Janeiro, [e] precisava dar destaque à Exposição Nacional, destinada a preparar a participação do Brasil na Exposição Universal de Paris, prevista para 1867".8 Graças ao recurso do "Caderno Suplementar", a equipe organizadora deu ensejo à participação, mesmo que indireta, do escritor em evento de alcance nacional e, depois, universal. Por causa desse expediente editorial, alcançou-se dimensão mais ampla do jornalismo machadiano, uma vez que a responsabilidade do futuro ficcionista no contexto imediato do jornal ia bem além de simples colaborador. Isto é, não se limitava apenas à entrega de matéria combinada, mas se aproximava também das decisões de pauta, o que fazia do escritor um homem de redação. Não fossem suficientes estes argumentos de caráter funcional, não se pode ignorar, por outro lado, o conteúdo dessas onze cartas abertas do conde de La Hure. Nelas se mostra o fascínio por índices esparsos do progresso pré-industrial brasileiro, na fase ainda modorrenta do Segundo Reinado. É, mais uma vez, Rouanet que chama nossa atenção para a importância da inserção dessas cartas abertas do conde de La Hure, que rompem um repertório que deveria, fossem cumpridas as expectativas, ocupar-se tão somente da criação, da discussão, da consolidação e da administração das Letras brasileiras. As cartas do conde, alerta-nos Rouanet,

[…] descreve[m] pormenorizadamente todos os pavilhões, abrangendo uma enorme variedade de atividades econômicas, desde a arte da tipografia até a fabricação de cerveja, desde a moda feminina à indústria de armas. A publicação desse inventário meticuloso pode servir de matéria-prima para os historiadores e especialistas em artes aplicadas, que talvez se surpreendam com a variedade de produtos já manufaturados no Brasil, em plena fase agroexportadora.9

A elasticidade do método que desdenha o foco ideal, mas espartano, permite ainda que essas apresentações iniciais abram espaço para considerações críticas em torno do desenvolvimento narrativo de Machado, desde seu primeiro romance – Ressurreição (1872) – até Memorial de Aires (1908), o último deles. Não que esteja em causa um suposto progresso narrativo dele, necessariamente evolutivo. Isso é de pouco interesse para o apresentador, uma vez que seu interesse maior é encarar a ficção machadiana por uma categoria nova, retirada da própria tradição do romance ocidental, na qual se entronca o romancista de forma inesperada, contra vientos y mareas. Ao invocar Tristram Shandy como protótipo de uma narrativa paradigmática, Rouanet acompanha críticos que o antecederam e junto com eles estabelece essa forma do século XVIII inglês como o veio onde se abasteceu Machado de Assis, dono absoluto do seu nariz, para criar seu inesperado Memórias póstumas de Brás Cubas (1881), ao arrepio do naturalismo em curso. A formulação bem lembrada desse conceito transfere da criação para a crítica um critério que, se empregado com cautela, amplia o espectro do romancista, contextualizando-o em espaço narrativo mais ambicioso e menos limitado às diatribes entre o romantismo e o realismo do final do XIX brasileiro. Com a designação de romance shandiano, desenvolvida com mais largueza em Riso e melancolia10 (2007), Rouanet deixa implícito que a correspondência de Machado não pode nem deve ser tratada com modéstia de limites teóricos, ditados por uma perspectiva que enquadra o objeto no acanhado espaço de um papel destinado tão somente a cartas, tout court. Deixa implícito também que o acostamento para a forma epistolar deverá ser mais largo, sob pena de perdermos o essencial em benefício de uma suposta objetividade; que o universo das cartas ultrapassa a mera comunicação interessada e que pode, vez ou outra, desbordar-se em associações inesperadas da parte do leitor; que o autor delas, seja quem for enfim, não controla tudo como se supõe. Compreendido dessa forma tão generosa, o gênero epistolar pode sacudir o peso do imediato, subestimar sua urgência e nos incentivar ao mergulho em águas menos ribeirinhas.

* * * * *

Onde se encaixa essa correspondência em sua linhagem respectiva?

Mal começa a explicar a motivação que orientou a publicação dessas cartas, Rouanet apressa-se em nos fornecer o quadro histórico em que elas se inserem. Essa medida saudável situa o leitor na questão e oferece-lhe elementos para melhor avaliar esta edição, bem mais ampla e mais bem tratada que as anteriores.

Retomo o quadro e acrescento. Mas cabe antes, me parece, uma sinopse dessa fortuna bibliográfica.

Tudo indica que tenha sido Graça Aranha o primeiro a publicar, pela editora Monteiro Lobato, em 1923, as cartas de Machado de Assis trocadas com Joaquim Nabuco. Seu título: Machado de Assis e Joaquim Nabuco. Comentários e notas à correspondência entre estes dois escritores.11 Salvo engano, são 53 itens, trocados entre 7 de fevereiro de 1865 e 3 de setembro de 1908. 32 das cartas são de Machado para Nabuco; 21 de Nabuco para Machado.

Além de seu caráter inaugural, esta edição de Graça Aranha chama nossa atenção pelo seu longo prefácio, assinado pelo autor de Canaã. Valendo-se, com parcimônia, das cartas trocadas entre o sedentário Machado de Assis e o nômade Joaquim Nabuco, Graça Aranha traça contraste vivo entre dois dos criadores da ABL e enfatiza, primeiro, a distância social inicial entre ambos; em seguida, assinala o rompimento que os dois promoveram em busca da sua afirmação intelectual e social:

O heroísmo de Joaquim Nabuco foi o de separar-se da aristocracia e fazer a abolição. O heroísmo de Machado de Assis foi uma marcha inversa, da plebe à aristocracia pela ascensão espiritual. Ambos tiveram de romper com as suas classes e heroicamente afirmar as próprias personalidades.12

No paralelo que esboça entre duas figuras fortes da inteligência brasileira do final do século XIX, não escapa ao organizador do livro nem mesmo a coincidência cronológica: "O ano de 1900, que viu o Dom Casmurro, também viu Minha formação".13 Muito mais se poderia dizer desse longo prefácio, cujo pêndulo se inclina mais em direção a Nabuco que a Machado. Apesar disso, louve-se nesse trabalho pioneiro de recolha da correspondência machadiana, no entanto, o aproveitamento que Graça Aranha faz do material, ainda que de modo modesto, como disse acima. Porque, ao contrário do que poderia ocorrer, dados o pioneirismo da iniciativa e a imaturidade desse tipo de pesquisa documental naquele momento, não serviram as cartas para escarafunchar a intimidade dos dois correspondentes. Serviram antes para delinear um perfil intelectual de Machado e de Nabuco, que saem bem-postos nesse contraste honroso, a despeito de eventuais desvios narrativos do ex-secretário de Nabuco em Londres14 e de certa retórica farfalhante, às vezes.

Em 1942, a F. Briguiet do Rio de Janeiro relançou essa edição, sem alterações. Em 2003, a TopBooks e a Academia Brasileira de Letras lançaram, em conjunto, uma terceira edição. Não lhe acrescentaram notas, mas, sim, dois cadernos internos de fotos e, à guisa de apresentação nova, um prefácio aliciante de José Murilo de Carvalho, denominado "As duas repúblicas". Nele, o historiador dos nossos mitos republicanos, tão bem delineados em A formação das almas (1990), retorna ao seu espaço favorito de reflexão e demonstra a cisão entre políticos e literatos no final do nosso XIX, bem perceptível na correspondência entre Nabuco e Machado. E sugere que duas instâncias congruentes operaram de modo eficaz no sentido de atenuar a efervescência política do cenário carioca de então: o ressurgimento da Revista Brasileira, em sua terceira fase, capitaneada por José Veríssimo, em 1895; a fundação da Academia Brasileira de Letras, criada em 1897, sob a égide de Machado e de Nabuco.

Em 1931, Renato Travassos publicou suas Cartas de Machado de Assis e Euclides da Cunha pela Waissman, Reis & Cia. Ltda. do Rio de Janeiro. O nome do organizador consta da capa, dentro de cercadura que ainda recende ao Art Nouveau, em plenos anos 30. Sua intenção, declarada logo no início, era a de prestar "uma desinteressada quão sincera homenagem à memória de dois mestres eminentes da nossa ainda mofina literatura, embora o muito que por esta hajam feito escritores de alto mérito".15

Confusa, oportunista, mal estruturada, desprovida de índice, com mancha tipográfica apertada e com anotações pífias, essa edição de Renato Travassos divide seu conteúdo entre cartas de Machado e de Euclides, sem nenhum critério relevante, exceto o dos nomes que as assinam e, eventualmente, o dos que as recebem, em tropel cronológico. Verdadeiro desastre editorial, essa edição junta, no mesmo segmento inicial, 34 cartas de Machado para Veríssimo, enviadas entre 19 de abril de 1883 e 1º de setembro de 1908, e, em seguida, sem mais nem menos, nem aviso prévio, cola outras quinze de Machado para Mário de Alencar, numa sarabanda cronológica, cuja sequência vale a pena reproduzir: 1908, 1902, 1904, 1906, 1907, 1908. Não bastasse isso, soma-se a esse lote, sem nenhuma cerimônia, uma carta de Machado (23 de agosto de 1900) a Henrique Chaves, redator da Gazeta de Notícias. Depois desta, vem um conjunto de outras cartas de Euclides da Cunha para os destinatários mais diversos – Alberto Sarmento, Francisco Escobar, Vicente de Carvalho, José Veríssimo, Araripe Junior, Coelho Neto, Domício da Gama, Max Fleiuss, Machado de Assis e outros – em novo torvelinho cronológico.

A explicação para essa travessura editorial não demorou. Em 1932, veio ela à tona através de um curto prefácio à Correspondência de Machado de Assis, coletânea da autoria de Fernando Nery, publicada por Américo Bedeschi, do Rio de Janeiro. Tratava-se do segundo livro dedicado às cartas machadianas. Sua origem elucida as raízes da edição afoita, cometida por Renato Travassos.

Como secretário da Academia Brasileira de Letras, Fernando Nery tinha sido incumbido de reunir as cartas machadianas, a pedido de Afrânio Peixoto, ex-presidente da instituição. Resultou que essa incumbência se transformou na publicação periódica desse material na seção "Epistolário" da Revista da Academia Brasileira de Letras. Ato contínuo, coube a Fernando Nery nova tarefa: a de transformar essas publicações periódicas em livro, que ficou com o título de Correspondência de Machado de Assis.

Mais bem estruturada e mais responsável, essa edição de Fernando Nery trouxe cerca de 232 itens, assim divididos: 51 cartas de Machado para Nabuco; 82 para José Veríssimo; 59 para Mário de Alencar; 22 para Lúcio de Mendonça; 18 para diversos (Rodrigo Otávio, Henrique Chaves, Alcides Maia, Guilherme Ferrero, Francisco de Castro, Lafaiete Rodrigues Pereira, Barão do Rio Branco, Oliveira Lima e outros). Na capa dessa edição destaca-se foto solene de um Machado bem-posto e maduro. Na folha de rosto, informação adicional localiza melhor o leitor: Correspondência de Machado de Assis com Joaquim Nabuco, José Veríssimo, Lucio de Mendonça, Mario de Alencar e outros, seguida das respostas dos destinatários.

São cartas trocadas entre janeiro de 1882 e setembro de 1908. Embora modesta, sua anotação é compatível com o estado da arte de então. O que de peculiar existe nessa edição é sua motivação, confessada pelo organizador Fernando Nery. Depois de afirmar que o material havia sido coligido, anotado e publicado, "desde 1929, na Revista da Academia Brasileira de Letras", Fernando Nery afirma ter sido vítima de golpe:

[…] o sr. [Renato] Travassos, abusando da confiança que nele depositava o amigo; saltando por cima da amizade que os ligava um ao outro; esquecendo a gratidão que lhe devia, por favores prestados em horas difíceis e atormentadas; deslembrando-se de tudo isto, deu-se pressa em lhe tomar a dianteira; e, munindo-se de tesoura e goma, malamanhou, às carreiras, truncando-as, algumas cartas de Machado de Assis e as de Euclides da Cunha, coligidas e anotadas por mim; levou-as a um editor, e, ocultando solerte e cavilosamente o nome do colecionador e comentador dessas cartas, embolsou os trinta dinheiros de sua ganância e felonia.16

Em 1937, depois da edição malamanhada de Renato Travassos e da edição de Fernando Nery, foi a vez de a editora Jackson publicar a correspondência de Machado, cujos direitos tinham sido adquiridos da Briguiet, sucessora da Livraria Garnier, de acordo com informação que lemos em O livro no Brasil de Laurence Hallewell.17 Como a Briguiet não havia utilizado os direitos machadianos, coube à Jackson retomar o veio, em prospecção nova, uma vez que, é ainda Laurence Hallewell quem nos diz, essa editora de origem norte-americana vinha a ser a "pioneira das vendas de coleções a domicílio pelo sistema de crediário".18 Fica implícito nessa afirmação que as vendas do livro tendiam a aumentar, já que era o produto que procurava o comprador, mudança significativa rumo a novos hábitos de consumo do livro. Disso seja talvez evidência o número de edições machadianas publicadas pela Jackson: 1937, 1944, 1946 e 1951.

Essa alteração do perfil comercial das vendas não significava, no entanto, alteração interna do produto, porque, afora alguns acréscimos, a nova edição da Jackson reproduzia a de Fernando Nery, segundo nota introdutória, que diz o seguinte:

Com assentimento do autor, reunimos à edição completa das obras de Machado de Assis o volume publicado em 1932, sob o título Correspondência de Machado de Assis, coligida e anotada por Fernando Nery, e por este agora acrescentado de várias cartas não incluídas naquela coleção: a de José de Alencar, apresentando a Machado o poeta Castro Alves, a resposta de Machado; a carta a Quintino Bocaiúva e a respectiva resposta; a dirigida ao redator dos "Ecos Marítimos" do Diário do Rio de Janeiro; as enviadas a Belmiro Braga, Salvador de Mendonça, Figueiredo Pimentel, Valentim Magalhães, Alfredo Ellis, ao gerente do London Bank, a correspondência com Salvador de Mendonça.

À própria correspondência com Mário de Alencar acrescentam-se agora as cartas inéditas de 1 de janeiro de 1898, 16 e 29 (ou 30) de julho de 1908.19

Anos se passaram e só em 1962 deu-se nova tentativa de publicação das cartas machadianas, agora mais consistente e mais criteriosa, através da editora Nova Aguilar.

Sob a responsabilidade geral de Afrânio Coutinho, que organizou equipe com profissionais de relevo, a subsidiária brasileira da editora espanhola pôs a Obra completa de Machado de Assis na praça, em três volumes: 1) Romances; 2) Conto e Teatro; 3) Poesia, Crônica, Crítica, Miscelânea e Epistolário. Com eles dava-se salto editorial de qualidade. Os auxiliares que compuseram esse grupo são, hoje, de reconhecimento imediato. Sem distinguir funções, nessa produção, intervieram nomes de envergadura, tais como J. Galante de Sousa, Renard Pérez, Mário Mattos, Mário de Alencar, Manuel Bandeira, Alceu Amoroso Lima, Gustavo Corção e Eugênio Gomes.

No terceiro volume dessa Obra completa, Afrânio Coutinho assina curta introdução ao elenco das 197 cartas ali contidas e a ela dá o título de "Um Machado diferente".

Os critérios dessa coletânea, segundo Afrânio Coutinho, são muito próximos daqueles da Jackson, o que implica dizer que não há aumento substancial de cartas, nem acréscimo significativo de notas de pé de página. Operou-se, por outro lado, um deslocamento formal, ainda segundo o organizador: "As cartas-prefácios, por serem de cunho crítico, vão incluídas na seção de crítica. Por outro lado, algumas cartas de caráter público20 aparecem na seção 'Miscelânea'".21

Se parece discutível essa proposta metodológica de deslocamento que obedece a um critério mais formalista que temático e que mais dispersa que converge, há, por outro lado, um ganho nessa edição da José Aguilar. Um ganho que se traduz na superação dos limites rigorosamente biográficos que orientavam a epistolografia machadiana até então, sempre tendente a exaltar a vitória intelectual do escritor em detrimento das condições pessoais e sociais que o encurralavam. O prefácio de Graça Aranha exemplifica bem essa tendência vindicativa. Em outras palavras: Afrânio Coutinho alarga um pouco essa moldura e nela inclui, com cautela, "aspectos [das] ideias estéticas [de Machado de Assis]", bem como "suas atividades literárias", suas "aperturas financeiras", sua melomania.22 E, junto com isso, menção, sumária demais dada a qualidade do seu conteúdo, ao volume da Exposição Machado de Assis, comemorativa do centenário de nascimento do escritor e que teve lugar na Biblioteca Nacional, presidida, então, por Augusto Meyer, que assina a apresentação. Desse catálogo da exposição, realizada pelo Ministério Capanema do governo Getúlio Vargas, foram extraídas quarenta cartas, que se juntam às dessa edição da José Aguilar. Salvo melhor contagem, o catálogo da Exposição Machado de Assis contém 111 itens de correspondência ativa e passiva.

O próximo passo em direção às cartas machadianas foi o de Carmelo Virgillo. Esse professor de línguas românicas da Arizona State University, na época, transcreveu, a seco, sem nota nenhuma, 137 cartas trocadas entre Machado de Assis e Carlos Magalhães de Azeredo (1872-1963), diplomata brasileiro lotado na Santa Sé, durante anos, como já se assinalou. Tais cartas atravessaram o oceano entre 1889 e 1908, com predominância numérica das que vieram do longevo diplomata, modelo irretocável de presunção e de autoestima quase descontrolada. Publicada pelo Instituto Nacional do Livro em 1969, essa Correspondência de Machado de Assis com Magalhães de Azeredo pouco contribui do ponto de vista de alargamento do quadro literário em que se inseriram Machado e Azeredo, uma vez que, conforme dissemos, carece de notas. É livro peco. O próprio organizador dessa coletânea escusa-se da tarefa de aumentar-lhe o porte crítico, quando afirma: "[…] o nosso propósito, aqui neste volume, não é o de interpretar essa correspondência".23 Considere-se, no entanto, que essa Correspondência de Machado de Assis com Magalhães de Azeredo é o primeiro livro inteiramente dedicado a um correspondente só, que foi capaz de abrir uma fenda, em vida, para o nosso romancista recluso. Porque, através dessas cartas vindas do Vaticano, extensas quase sempre, Machado espiava o mundo lá fora, embora deixasse claro, sempre que possível, que não pretendia sair do Rio. No seu tom melancólico habitual, Machado desvia-se de si mesmo e afirma, taxativo, em uma das cartas remetidas para o amigo diplomata, datada de 17 de novembro de 1896: "Aqui nasci, aqui morrerei; terei conhecido apenas duas cidades, a de minha infância e a atual, que na verdade são bem diversas; fora destas, alguns lugares do interior, poucos".24

Em suma: a virtude do livro de Carmelo Virgillo decorre não do trabalho de pesquisa e de anotação do organizador, mas das cartas que, recuperadas, funcionam como janelas escancaradas em quarto longamente fechado e escuro. Ou, em imagem correlata, funcionam como claraboia de frestas largas, por onde entram ar fresco e luz solar, propícios à revitalização dos objetos até então encapsulados. São cartas como estas de Magalhães de Azeredo que, de forma pioneira, desmancham a figura vetusta e oficial do escritor, invadem-lhe a privacidade e colaboram bastante para diminuir e suavizar o fosso entre o narrador e o cidadão, aberto com brutalidade e insistência pela teoria literária mais rente. Cartas como as de Magalhães de Azeredo, algumas bem álacres; de Mário de Alencar, sorumbáticas quase sempre; de José Veríssimo, focadas no assunto, mas intrometidas, vez ou outra; ou como as abusadas, humoradas e, vez ou outra, maliciosas de Miguel Xavier de Novais, irmão de Carolina, dissolvem a moldura engessada do quadro, removem-lhe a craca teimosa, retiram-lhe o pó e devolvem-nos um cenário mais vivo e mais dinâmico, refrescando a historiografia literária.

Mais recentemente, em 2009, com Empréstimo de ouro,25 livro de feição gráfica caprichada, vieram a público 22 Cartas de Machado de Assis a Mário de Alencar, pertencentes ao Centro de Estudos Afrânio Coutinho da Faculdade de Letras da UFRJ. Dessas 22, no entanto, apenas uma é inédita, como admitem os próprios organizadores: a carta de 10 de fevereiro de 1904, na qual Machado se mostra preocupado com o que acontecia com a Academia Brasileira de Letras. As outras 21 já eram de conhecimento público e já tinham sido publicadas, por exemplo, pela José Aguilar. Nada de novo, portanto. Taxa baixa de informação. O livro vale pelas fotografias que o ilustram. Some-se a esse baixo grau de informação uma ressalva de outra natureza: foram suprimidas as cartas de Mário de Alencar nessa edição da Ouro sobre Azul. Supressão que anula a dinâmica própria desse tipo de troca, em que as partes se revelam quando e quanto mais se escondem. Além disso, a supressão acarreta um desequilíbrio epistolar, na medida em que apenas uma das figuras, a mais óbvia, merece atenção. A outra não aparece nem como pano de fundo.

O que de atraente existe nas 128 páginas desse caderno fotográfico, no entanto, são as sedutoras fotos urbanas e grupais, que competem com as cartas autógrafas, mas destas nos distraem e esvaziam-nas mais ainda. Com o título de Empréstimo de ouro, essa preciosidade mais gráfica que editorial, mais visual que documental, cujo formato oblongo ou alongado (28 cm. x 21 cm.) é o de um indisfarçável álbum fotográfico, foi publicada pela editora Ouro sobre Azul do Rio de Janeiro. O forte apelo visual dessa edição por pouco não soterra a peculiaridade da desajeitada caligrafia machadiana, que muito se debate para manter certa regularidade sobre o papel escolhido. Às letras quase sempre trêmulas opõem-se as fotos, de composições harmoniosas e de ordem quase hierática na sua grande maioria, quando se trata de agrupamento humano. Até mesmo as de instantâneo ou as que flagram o cotidiano mais pedestre concorrem para reforçar o tortuoso da escrita. Um beau livre, enfim, marcante pelas fotos, eloquentes algumas delas. Decorativas todas, em detrimento das cartas, simples chamarizes.

Antonio Candido assina uma "Nota inicial", cuja tônica é a importância do afeto pessoal e institucional que movia quem as escreveu. Daí que, do ponto de vista rigoroso da informação literária em geral, diz Antonio Candido, a carta machadiana seja de relevância menor: "[…] ela importa pouco para conhecer a sua criação ficcional e as suas ideias, mas vale muito para ampliar o conhecimento de sua contida personalidade".26

A introdução e as notas que acompanham as cartas são da autoria de Eduardo F. Coutinho e Teresa Cristina Meireles de Oliveira.

As notas, diga-se logo, pouco acrescentam. São notas consecutivas, quando deveriam ser individualizadas, carta por carta, um expediente técnico que reforça a identidade e a unidade do documento. São notas que não avançam muito na contextualização histórica, porque, de preferência, elucidam logradouros ou outros itens que fazem parte da geografia urbana tais como jornais, chácaras, o cais, os largos, as praças e as ruas, os bairros, as farmácias, os remédios, as frutas, o mítico perfil montanhoso do aglomerado urbano carioca, as qualidades terapêuticas das cidades ao redor do Rio de Janeiro ou o fascínio da Europa distante, mas encravada no nosso imaginário, desde sempre. Uma delas, exemplo concreto de anotação equivocada, ajuda pouco. Porque, ao garantir que J. V. Dias de Matos identifica José Veríssimo,27 abafa-se o nome histórico, tornando-o inane por força de uma onomástica cartorial.

Nada que exija esforço interpretativo de monta, nessas notas. Nem mesmo momentos fugidios – bem de acordo com a índole econômica, quase usurária, de Machado – despertaram a atenção dos comentadores. Em carta de 18 de março de 1907, por exemplo, já nas suas linhas finais, Machado pede a Mário de Alencar que lhe escreva mais. "Por que não escreve alguma cousa?", interroga Machado, e insiste: "Ideias fugitivas, quadros passageiros, emoções de qualquer espécie, tudo são cousas que o papel aceita, e a que mais tarde se dá método, se lhes não convier o próprio desalinho".28

Ora, a menos que a cisão entre pessoa e narrador seja definitiva, radical e irreversível, a ponto de gerar total antinomia entre as duas instâncias, como se fossem de embriões antagônicos, é difícil não enxergar, neste misto de pedido com conselho, o gesto operacional de um escritor, que, em romance fundamental de nossa literatura mais inventiva, já pregara a balbúrdia como princípio narrativo; a falsa desordem no lugar da ordem submissa. O Machado desta carta de 1907, que insinua o desalinho como método, é o mesmo narrador resmungão que, mais de vinte e cinco anos antes, já se vangloriava de sua incontinência narrativa quando desafiava o leitor pacato, plácida e fofamente instalado na linearidade romântica. É o mesmo narrador que, nas Memórias póstumas de Brás Cubas (1881), se punha à vontade para atiçar seu leitor, forçando-o a se deslocar da continuidade sonolenta da ação. Que narrador insolente é esse que, logo no começo de sua estória, interrompe-a para se pavonear de sua "destreza"? Será que, ao advogar um método "sem gravata nem suspensório", esse narrador estava querendo emular o percurso acidentado de dona Plácida, de nome tão avesso ao seu próprio percurso existencial? Quando, sem pudor nenhum, esse narrador prega a desordem como princípio ativo de sua estória, não estaria ele, de novo, escamoteando a realidade ficcional? Sua lição, em passagem bem inicial do romance, é clara:

Nenhuma juntura aparente, nada que divirta a atenção pausada do leitor: nada. De modo que o livro fica assim com todas as vantagens do método, sem a rigidez do método. Na verdade, era tempo. Que isto de método, sendo, como é, uma cousa indispensável, todavia é melhor tê-lo sem gravata nem suspensórios, mas um pouco à fresca e à solta, como quem não se lhe dá da vizinha fronteira, nem do inspector de quarteirão.29

Quem diz isso não é adepto do desalinho, do percurso errático, das ideias fugitivas?

Parece.

* * * * *

Em suas cartas, mais uma vez Machado elide e ilude. Seu leitor que se vire se quiser se saciar de um gole só. Seu filete é intermitente e irregular como o de um provedor, ora discreto, ora forreta. Disso decorre a necessidade de termos de atravessar páginas e páginas – literalmente, no caso dessa correspondência organizada com tanta competência – para pescarmos aqui e ali uma frase assertiva, uma pista menos escorregadia, um indício menos frouxo da atuação machadiana, que há anos movimenta a crítica brasileira.

Neste sentido, meia razão tem Antonio Candido quando, na apresentação de Empréstimo de ouro, argumenta que "a correspondência escassa de Machado de Assis jamais poderia constituir uma obra, como são a de Flaubert ou a de Mário de Andrade".30 De fato, que ninguém espere de Machado cartas caudalosas como as que recebia uma Louise Colet, testemunha paciente das aflições que cercaram a criação de Madame Bovary. Nem a que recebeu, um dia, Álvaro Lins, lisonjeado pelas "vinte folhas de carta, e de crítica muito arguta, muito sincera e muito sugestiva"31 que Mário lhe mandou, algum tempo depois do lançamento do segundo volume do Jornal de crítica (1943), livro de artigos críticos de Álvaro Lins, publicados no Correio da Manhã.

Cartas caudalosas não contam quando entra em conta Machado. Não é porque estivesse no recanto íntimo que sua pena se desbordaria. Seu instrumento de trabalho era um só. Ele não ficava trocando-o diante do romance, do conto, da crítica, da crônica ou da carta. Era pena de ponta aguda e curta. E, sobretudo, econômica. Quase sempre, manhosa. Daí que jamais se esparramasse sobre o assunto em curso; daí que seu tino não se mostre fácil; daí que se redobre o esforço do leitor, de quem se exigem perseverança e fôlego para atravessar um catatau de cartas, que desmente a proverbial e falaciosa usura desse escritor, perito na arte do despistamento, não só ficcional, mas epistolográfico também.

Não faltam exemplos dessa capacidade de indução ardilosa nas tantas páginas dos cinco volumes desta coleção, doravante inevitável. Exemplos de vária natureza; ora social, ora política, ora afetiva, ora familiar, ora governamental, ora burocrática, ora... Capazes todos de nos regalar com um retrato menos esquemático, menos construído, menos direcionado do autor dessas cartas. Um retrato menos escolar e mais ajustado a quem tanto escarafunchou os becos humanos. Como se o gostinho secreto desse papelório tão disperso – e agora ordenado pelo princípio racional, neutro e indiscutível da cronologia – fosse o de saborear, por antecipação trêfega, o espanto do leitor, condicionado pela modelagem exclusiva da figura severa do marido de Carolina. Esse mesmo leitor que já se esqueceu – e isso é compreensível e natural – de uma ligeira advertência solta do narrador de Memórias póstumas, quando se dispôs a discutir seu método narrativo: "Às vezes vinha o arrufo temperar o nímio adocicado da situação".32 Cumpre lembrar que esse alerta vem logo depois das primeiras manifestações de arrependimento do narrador, lá pela metade do romance. Quando ele vacila diante do método escolhido e figura sua estória como vítima da própria embriaguez, passagem que a crítica não se cansa de lembrar: "[…] este livro e o meu estilo são como os ébrios, guinam à direita e à esquerda, andam e param, resmungam, urram, gargalham, ameaçam o céu, escorregam e caem…".33 Descontada a ênfase controlada desse narrador escabreado, o arrufo que desmancha a ordem e a embriaguez que ele suspeita modelar seu discurso pode ser entendido como função acessória, mas não secundária, desta massa epistolar, em boa hora recuperada pelo tato de um acadêmico e pela perícia de duas pesquisadoras de escol. São eles os responsáveis – me parece – pela reabilitação do arrufo, da arrelia, da controvérsia, de novo.

Mais que dois exemplos de pepitas inesperadas não cabem nesta apreciação superficial do conjunto, quero crer.

Um desses exemplos, de ordem funcional, pode ser uma carta aberta de Machado de Assis em defesa do ministro da Marinha, publicada no Diário do Rio de Janeiro em 8 de fevereiro de 1862.

O motivo que a provocava era a disputa em torno da fabricação de um barco, em andamento nos arsenais cariocas. Pela imprensa, alguém sugerira que a demora da produção poderia ser resolvida desde que fossem dilatadas as horas de trabalho dos operários. Em resposta aberta de extensão incomum, Machado repele a sugestão e, em tom pedagógico, explica a inconveniência dessa dilatação:

O trabalho ordinário começa nos nossos arsenais ao nascer do sol e termina às 4 horas da tarde, apenas com interrupção de 1/2 hora concedida para o almoço; o extraordinário em sesta prolonga-se até o anoitecer.

Assim o sistema que preconizas exige do operário um esforço continuado de 13 horas!

E acreditas que um homem possa, no nosso clima, e durante a estação calmosa, trabalhar com a mesma atividade e perfeição por tão dilatado espaço de tempo, exposto aos raios do sol, que os gigantescos refletores de granito formados pelas paredes do dique tornam ainda mais abrasador?34

Defesa tão serena e concatenada a favor da salubridade do trabalho poderia induzir o leitor politicamente inflamado a supor um intelectual empenhado no bem-estar da classe operária, sobretudo se nos lembrarmos de que obras capitais, de cunho literário e social, estavam sendo gestadas na Europa nessa metade do século, data dessa carta em apreço. Pista falsa! Quem escreveu essas linhas cumpria dever funcional, mas, ao mesmo tempo, distanciava-se da linguagem protocolar e genérica, preferindo a concretude da minúcia como recurso de persuasão rápida, pois que sabia estar destinando seu texto a um veículo também mais rápido de comunicação, já em pleno florescimento. Sem apelar para o estardalhaço da retórica imediatista, o discurso machadiano mais inquiria que afirmava; mais ponderava que advertia. Seria descabido, pois, enxergar nessa argumentação cautelosa e pragmática o germe de uma narrativa explosiva, tão ao gosto dos realistas e naturalistas que apareceram em seguida, no Brasil. De uma narrativa que acabou optando pelo caminho do "menos enfático",35 expressão feliz que repiso e que tomo emprestada de Rouanet para qualificar o romance de Machado. Não cabem, portanto, ilações apressadas, que poderiam levar a imaginá-lo escrevendo romances candentes, do naipe daqueles que, em breve, viriam esbravejar contra a insalubridade e a promiscuidade dos cortiços ou a volúpia incontida da carne.

A movimentação do seu romance é de outra natureza. Não é social. É interna como, aliás, é o movimento de seu narrador, que adora circular em torno de questões de aparência menor. Tal como nas cartas, que entrelaçam momentos criativos diferentes, formas diversificadas para veiculação do texto e motivações narrativas diversas, sem que se perca de vista o leitor a quem se dirige. De novo a enganosa imobilidade social do narrador se repete nas cartas. Para elas convergem e delas divergem informações as mais diferenciadas e preciosas. E seu centro é um só: o escritor Machado de Assis, que, mais uma vez, finge-se de estacionário, mas em torno de quem a ciranda roda.

Todas essas camadas e outras mais que surgirem estão à espera de quem se habilite a atravessar estes itens epistolares – quase 1.200! – que ficamos devendo à função principal da Academia Brasileira de Letras, isto é, o cultivo da historicidade desse segmento da nossa inteligência. Mas não apenas a ela. Também à pertinácia e à disposição física e intelectual de Sergio Paulo Rouanet, de Irene Moutinho e de Sílvia Eleutério, nunca demais lembrados – nenhum deles! – neste final deliberadamente enfático. Sem pudor nenhum.

Referências

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1 ASSIS, Correspondência de Machado de Assis, tomo IV – 1901-1904, p. 9.

2 ASSIS, Correspondência de Machado de Assis, tomo I – 1860-1869; tomo II – 1870-1889; Correspondência de Machado de Assis tomo III – 1890-1900; tomo IV – 1901-1904; tomo V – 1905-1908.

3 ASSIS, Correspondência de Machado de Assis, tomo V – 1905-1908, p. VII.

4 Idem, tomo III – 1890-1900, p. 188.

5 Ibidem.

6 Idem, tomo I – 1860-1869, p. IX.

7Idem, tomo I – 1860-1869, p. IX.

8Idem, tomo II – 1870-1889, p. VIII.

9 Idem, p. VIII-IX.

10 ROUANET, Riso e melancolia.

11ARANHA, Machado de Assis e Joaquim Nabuco.

12 Idem, p. 11.

13 Idem, p. 48.

14 Para as relações pessoais e profissionais entre Nabuco e Graça Aranha, ver VIEIRA, Joaquim Nabuco e Graça Aranha. Entre a palavra e a ação: apontamentos para uma correspondência.

15TRAVASSOS, Cartas de Machado de Assis a Euclides da Cunha, p. 5.

16NERY, Correspondência de Machado de Assis, p. 8.

17 HALLEWELL, O livro no Brasil: sua história, p. 194.

18Ibidem.

19ASSIS, Correspondência, Organização de Fernando Nery.

20 Isto é: aquelas que foram publicadas em jornais.

21 ASSIS, Obra completa, vol. III, p. 1025.

22 Idem, p. 1027.

23VIRGILLO, Correspondência de Machado de Assis com Magalhães de Azeredo, p. 96.

24Idem, p. 96.

25ASSIS, Empréstimo de ouro. Cartas de Machado de Assis a Mário de Alencar, p. 23.

26 Idem, p. 11.

27 Idem, p. 23 (Cf. nota 9).

28Idem, p. 51.

29 ASSIS, Memórias póstumas de Brás Cubas, p. 126.

30ASSIS, Empréstimo de ouro. Cartas de Machado de Assis a Mário de Alencar, p. 11.

31 Estas palavras de Álvaro Lins estão em carta de Álvaro Lins de 10 de outubro de 1943, depositada no Acervo Mário de Andrade do Instituto de Estudos Brasileiros da USP, sob o registro MA-C-CPL, n. 4075 ou n. 4213, em recontagem posterior. A sequência dessa troca é a seguinte: Álvaro Lins publicou crítica sobre Poesias (1941) de Mário de Andrade, no Correio da Manhã (RJ), em 24 mar. 1942. Em 1943, esse artigo sai republicado em Jornal de crítica, 2ª série, de Álvaro Lins. Em 22 de maio de 1943, Mário envia longa carta para Álvaro Lins, agradecendo-lhe o artigo. A carta de Mário está publicada em Cartas de Mário de Andrade a Álvaro Lins, p. 74-87.

32ASSIS, Memórias póstumas de Brás Cubas, p. 216.

33 Idem, p. 214.

34 ASSIS, Correspondência de Machado de Assis, tomo I – 1860-1869, p. 4.

35 Idem, tomo V – 1905-1908, p. VII.

Recebido: 21 de Março de 2017; Aceito: 23 de Maio de 2017

ANTONIO DIMAS é professor titular de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, FFLCH-USP, e autor de Bilac, o jornalista (Edusp/Imprensa Oficial/Unicamp, 2006), entre outros. E-mail: adimas@usp.br.

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