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Fractal : Revista de Psicologia

On-line version ISSN 1984-0292

Fractal, Rev. Psicol. vol.22 no.2 Rio de Janeiro May/Aug. 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S1984-02922010000800002 

DOSSIÊ PSICANÁLISE: WORK IN PROGRESS

 

Passagem ao ato e acting-out: duas respostas subjetivas

 

Passage to the act and acting out: two subjective responses

 

 

Roberto CalazansI; Angélica BastosII

IPsicólogo pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Mestre em Teoria Psicanalítica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Doutor em Teoria Psicanalítica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Atualmente é professor adjunto 4 do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de São João del Rei. Membro do Núcleo de Pesquisa e Extensão em Psicologia. Endereço: Universidade Federal de São João del Rei, Departamento das Psicologias. Praça Dom Helvécio 74. Dom Bosco - São João Del Rei, MG - Brasil. CEP: 36301-160. E-mail: calazans@ufsj.edu.br
IIPsicanalista. Doutorado em Psicologia (Psicologia Clínica) pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Professor Associado II na Universidade Federal do Rio de Janeiro, no Programa de Pós-Graduação em Teoria Psicanalítica e na Graduação. Endereço: Universidade Federal do Rio de Janeiro, Instituto de Psicologia, Programa de Pós Graduação Em Teoria Psicanalítica. Avenida Pasteur, 250, fundos Praia Vermelha. - Rio de Janeiro, RJ - Brasil. CEP: 22290-240. E-mail: abastosg@terra.com.br

 

 


RESUMO

O presente artigo delimita o conceito de passagem ao ato em relação ao acting-out e distingue as respostas subjetivas que envolvem. A partir das distinções propostas por Lacan entre eles com base no conceito de objeto a, busca-se situar o sujeito em ambas as modalidades de ato, com os objetivos de submeter à discussão clínica as passagens ao ato discretas e de interrogar o papel de suplência que supostamente desempenham. Para tal, são retomados dois fragmentos de casos de anorexia discutidos na literatura psicanalítica; no primeiro, o objeto ao qual o sujeito se identifica é circunscrito, enquanto no segundo, trata-se do objeto posto em cena pelo sujeito.

Palavras-chave: acting-out; passagem ao ato; psicanálise; clínica.


ABSTRACT

This article defines the concept of passing to the act in relation to acting- out and distinguishes the subjective responses they involve. From the distinctions proposed by Lacan among them based on the concept of object a, we seek to situate the subject in both modes of act, aiming to put into the clinical discussion, the discrete passages to the act and to question the role of substitutive that they supposedly perform. To this end, two fragments cases of anorexia presented in psychoanalytic literature are discussed. In the first one, the object to which the subject identifies itself is circumscribed, while in the other one, the point is the object brought to the scene by the subject.

Keywords: acting-out; passage to the act; psychoanalysis; clinic.


 

 

INTRODUÇÃO

Além da tríade constituída pela inibição, pelo sintoma e pela angústia, as respostas do sujeito ao mal-estar traduzem-se em atos cuja estrutura e função são essenciais à clínica psicanalítica. Ao traçar a diferenciação entre duas modalidades de ato com as quais o psicanalista se defronta - acting-out e passagem ao ato - , o presente trabalho tem por objetivos discutir as passagens ao ato discretas, em oposição a suas manifestações clássicas e disruptivas.

A questão do ato introduz-se na literatura psicanalítica na figura dos atos sintomáticos interpretados por Freud tanto no caso "Dora" (1996[1905(1901)]) quanto em "Psicopatologia da Vida Quotidiana" (1996[1901]). São atos passíveis de interpretação no processo de uma análise, esquecimentos ou movimentos repetitivos em análise, como o ato de Dora ficar brincando com o anel na presença de Freud. Mas existem atos que se opõem à interpretação em uma análise; eles aparecem na obra de Freud com a noção de acting-out em "Recordar, Repetir e Rememorar" (1996[1914]). Além dessas duas dimensões do ato, o próprio Freud, no caso da "Jovem Homossexual" (1996[1920]), aponta para uma terceira modalidade de ato que não é um acting-out e muito menos um sintoma analítico. Ora, uma modalidade de resposta do sujeito que não passe pela cifração do sintoma implica em uma dificuldade na análise, se não for situada em seu devido lugar. E esta modalidade de atuação é chamada por Jacques Lacan de passagem ao ato, de acordo com a tradição psiquiátrica.

Nessa primeira aproximação, distinguem-se três dimensões específicas em que podemos considerar os atos do sujeito a partir da psicanálise. O ato falho fixa a determinação inconsciente e pulsional dos atos. O acting-out, expressão derivada do agieren freudiano, indica a existência de algo que se furta à cadeia associativa para deixar-se mostrar em um fazer, um agir, enquanto a passagem ao ato, entendida pela psiquiatria como conduta imotivada, revela que a ação humana não visa o bem estar e não obedece ao programa do princípio do prazer.

Se tomarmos a questão pelo viés da história da psicanálise pós-freudiana, verificamos que a questão dos atos em psicanálise esteve atrelada durante muito tempo à questão dos atos criminosos. Sabemos que Lacan, na década de 1920-1930, comenta o crime das irmãs Papin e que em sua tese apresenta o caso Aimée (LACAN, 1987[1932]), que gira em torno de um ato criminoso: a tentativa de assassinato de uma atriz. Estes crimes, muitas vezes chocantes para opinião pública, têm uma característica comum que explica este choque: serem imotivados. Jean-Claude Maleval (2000) aponta que os crimes imotivados foram, da década de 1920 à década de 1950, um tema constante no debate psicanalítico por romperem com a estrutura clássica de resposta sintomática que possa ser interpretada à luz do desejo inconsciente. Muitas vezes recorreu-se à noção de acting-out para abordar ações que se apresentam de forma disruptiva e irracional; no entanto, nessa perspectiva, perdia-se a oportunidade de pensar a especificidade do ato em questão.

Encontramos um exemplo dessa confusão entre as diversas modalidades do ato no texto de Claude Balier (2005, online), um psicanalista que se dedica há bastante tempo a trabalhar com o tema da violência por ser psiquiatra em uma prisão na França. Ele faz um breve histórico sobre o que chama de agir e não considera a distinção entre acting-out e passagem ao ato, apontando apenas para uma ambiguidade no uso do termo acting-out e definindo o quadro nosográfico como "impreciso e extensivo, compreendendo diversas formas patológicas marcadas por uma falta de elaboração psíquica e o recurso a uma modificação na realidade externa" (BALIER, 2005, online, tradução nossa).

Para Maleval (2000), ao contrário, não se trata de uma imprecisão; com o conceito de passagem ao ato e sua diferenciação em relação ao acting-out, consegue-se não somente explicar, mas determinar a estrutura de tal categoria de ato. Desse modo, se nos valemos do conceito de passagem ao ato em sua diferenciação com os atos sintomáticos e com o acting-out, é para articularmos o conceito com esta dimensão de problemas, isto é, a estrutura do ato, o lugar que nela cabe ao sujeito, a modalidade de resposta que encerra e seus efeitos em termos de apaziguamento do gozo e da angústia.

No entanto, como afirma Alfredo Zenoni (1987), esta é uma distinção propriamente lacaniana, uma vez que muitos autores definem o acting-out na categoria do agir, em geral oposto à lembrança e ao pensar (BALIER, 2005); outros colocam o acting-out como um agir no lugar do lembrar, o que não permite distingui-lo da transferência; outros ainda o definem como um agir repetitivo, o que não permite distingui-lo do ato sintomático (como, por exemplo, a tosse de Dora) ou da passagem ao ato (PERRON-BORELLI; PERRON, 1987). Por essa razão, vamos ordenar o que entendemos por acting-out e passagem ao ato, principalmente porque nos defrontamos hoje com determinadas configurações clínicas em que essa distinção contribui para a condução do tratamento, como é o caso de algumas anorexias, bulimias e compulsões em geral.

 

ACTING-OUT E PASSAGEM AO ATO

Fazemos aqui um breve percurso desta distinção no ensino de Lacan. Em A direção do tratamento e os princípios de seu poder (LACAN, 1998[1958]), ele afirma que o acting-out demonstra que o campo da ação é, antes de tudo, simbólico. Esta afirmação é atrelada tanto ao movimento de enfatizar a psicanálise como campo da fala e da linguagem começado cinco anos antes com Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise (LACAN, 1998[1953]), quanto à proposição da primazia do simbólico em relação aos outros registros - imaginário e real. Neste sentido, o acting-out é considerado como uma insurreição do sujeito em relação ao analista que saiu de seu lugar simbólico, demitindo-se de sua função. Desse modo, o acting-out corresponde a uma demanda endereçada ao Outro, sob a forma de uma convocação ao analista.

No entanto, Alfredo Zenoni (1987) afirma que esta definição não é a única que encontramos no desenvolvimento do ensino de Lacan. Ele nos lembra que no seminário A lógica do fantasma Lacan (1966-1967) trará outra definição que coloca em primeiro plano a dimensão de ato na atuação simbólica do analista; a partir daí e, em especial, com o conceito de ato analítico (LACAN, 1967-1968) - que, como todo ato, possui uma dimensão significante, ao mesmo tempo em que encerra um corte real - passa a esclarecer o ato enquanto tal, fornecendo um denominador comum ao campo dos atos. Nesse caso, não temos mais a determinação acting-out/interpretação, mas a relação entre acting-out e transferência. A definição do acting-out como demanda é mantida, mas a primazia do simbólico em sua abordagem é deixada de lado, uma vez que não se pode deixar de pensar a transferência sem a articulação dos três registros.

Entre o texto de 1958 e o seminário de 1966-1967, temos a explicação dessa guinada de Lacan: o seminário sobre a Angústia (2005[1962-1963]), no qual se traça a distinção entre acting-out e passagem ao ato a partir das elaborações sobre o objeto a. Acreditamos que com este seminário os conceitos de acting-out e passagem ao ato ganham estatuto propriamente teórico, não se podendo mais confundir os dois. Lacan define o acting-out como um subir à cena do objeto, enquanto a passagem ao ato seria um deixar-se cair ou um sair de cena. A diferença entre os dois "é que no segundo haveria um curto-circuito do objeto com o sujeito, sendo o sujeito" quem cai, enquanto no primeiro haveria uma subida à cena do objeto, mas agora endereçado ao Outro. Desse modo Lacan irá dizer que o acting-out é uma transferência selvagem e que cabe ao analista, mediante seu ato, restituir ao objeto o seu lugar de causa de desejo.

Vejamos, então, como se chega a essas definições no seminário sobre a angústia. Em primeiro lugar, é necessário pensar os elementos colocados e a articulação proposta por ele para determinar a diferença entre a passagem ao ato e o acting-out:

 

 

Neste esquema, temos o sujeito ($), o Outro (A), o objeto (a) e a angústia (0). São com estes quatro elementos que Lacan irá situar tanto o sintoma, como o acting-out e a passagem ao ato. Afinal, podemos pensar tantos os atos quanto o sintoma como formas de resposta à angústia e de solucionar a crueza de deparar-se com o objeto sem um véu ou sem a sustentação de um discurso. Como dizem Álvarez, Esteban e Sauvagnat (2004, p. 268):

O papel do sintoma, estimava Freud, é o de proporcionar uma resposta à angústia. No entanto, existem casos em que, de forma temporária ou duradoura, a angústia não fica velada pelo sintoma e o sujeito se vê diretamente defrontado com ela. Em tais casos podemos descrever dois tipos de configuração sintomatológica: um em que a angústia é o sintoma dominante sem necessariamente encontrarmos saídas pelos atos, e outro no qual a angústia irá determinar ações, ainda que se trate de demandas veladas de ajuda (acting-out), ainda que seja que o sujeito periga com elas uma saída definitiva (passagem ao ato).

Como então definir a passagem ao ato? Lacan começa sua lição IX do seminário 10 lembrando a importância da função do objeto a como resto de uma operação de constituição da relação do sujeito com o Outro. Desse modo, temos a angústia como aquilo que o sujeito pretende contornar, o sujeito dividido pelo significante, trazendo a marca da falta como efeito desse contorno, o Outro como o lugar do discurso, ou seja, da possibilidade de laço social e do objeto como um resto fundamental para a manutenção desse mesmo discurso.

Como Lacan (1985[1964]) irá desenvolver no seminário seguinte sobre os conceitos fundamentais da psicanálise, para que haja a constituição do sujeito, duas operações são necessárias: a alienação e a separação. Alienação e separação são pensadas a partir do momento em que não temos mais a primazia do simbólico sobre os outros registros e que não se considera mais o Outro como um todo. Enquanto a alienação é um sujeitar-se ao campo da linguagem, a separação é a operação complementar que permite ao sujeito aceder à condição de desejante. Nessas operações, ocorre uma extração de objeto que nem é colocada no campo do sujeito, nem no campo do Outro, mas justamente em uma interseção que aponta para o objeto como aquilo que falta a ambos, possibilitando por esta falta mesma a instalação de um laço com o Outro; ou seja, em psicanálise, a possibilidade de um discurso não se dá por aquilo que se tem ou que se é, mas justamente pela possibilidade da falta. As dimensões do ato emergem justamente em uma questão com o discurso: quando a falta falta, aparece a angústia, deixando o sujeito sem as marcas e o circuito que até então possibilitavam o discurso.

Desse modo, a separação refere-se tanto ao movimento do sujeito em relação ao desejo caprichoso do Outro - que na fórmula da metáfora paterna é situado como Desejo da Mãe - quanto ao movimento do sujeito em relação ao objeto como causa de seu desejo. Nos casos de psicose, podemos pensar em alienação; porém, por conta da ausência da metáfora paterna, temos num primeiro caso - a paranóia - uma ausência de referências ao Outro como desejante, que não permite ao sujeito os meios de interrogar a falta entre o par significante (S1 e S2); num segundo - a esquizofrenia - há ocorrência de holófrase, na qual o desejo do Outro não aparece, faltando, inclusive, um significante que se destaque dos outros como na paranóia. Desse modo, a operação de separação na psicose, por não ter havido a extração do objeto, torna-se extremamente complicada.

O esquema da alienação é a submissão a um significante que vem do Outro:

 

 

Já a separação possibilita a invenção do sujeito por se separar deste significante e apontar para a falta no Outro:

 

 

Não encontramos na passagem ao ato as distinções entre os lugares do sujeito, do objeto, do Outro e da angústia. Duas passagens no texto de Lacan permitem esta nossa interpretação. Em primeiro lugar, ele entende a passagem ao ato como um largar de mão, um deixar-se cair que, segundo ele, concerne ao objeto a em sua "conotação mais característica, uma vez que está ligada diretamente à função de resto" (LACAN, 2005[1962-1963], p. 129); a segunda é a resposta que dá ao precisar de que lado esse resto deve ser visto na passagem ao ato: "ele é visto do lado do sujeito" (LACAN, 2005[1962-1963], p. 129). A passagem ao ato não situa a quadripartição que permite uma estrutura e um discurso; ao contrário, ela indica que esta estrutura de ficção não se sustenta mais por haver um curto-circuito entre sujeito e o objeto. A passagem ao ato é uma solução a este curto-circuito: uma vez que o sujeito passa a estar não mais em um campo distinto do Outro, mas juntamente no lugar de interseção com o Outro. Duas consequências podemos tirar: o sujeito é identificado com o lugar do resto e, por sua vez, fica sem uma intermediação com o Outro.

O mesmo não podemos dizer em relação ao acting-out: ele não tem o caráter resolutivo da passagem ao ato, por manter o lugar da demanda e da transferência. Podemos avaliar isso com base tanto no esquema da separação, quanto na função desempenhada pelo objeto. No que concerne ao primeiro aspecto, não se trata de situar o sujeito no mesmo lugar do objeto e sim situar a interseção vazia pelo objeto se colocar no campo do sujeito. Assim, temos contemplados aqui vários aspectos: em primeiro lugar o sujeito continua de certo modo mantendo distância do campo do Outro; por outro lado, este lugar que fica vazio acaba sendo invadido pelo Outro. Deste modo podemos mesmo pensar o acting-out em análise como um modo de endereçar-se ao analista quando este, em vez de se situar como objeto causa do desejo, coloca-se aí como Outro. Por essa razão, não se pode dizer que se trata de um modo de romper com o Outro no acting-out e sim de um modo de responder a este Outro, quando o sujeito não tem mais um hiato que o separe dele.

Mas esta análise fica prejudicada se não pensarmos o segundo aspecto: que função o objeto desempenha no acting-out. Em vez de efetuar um curto-circuito com o objeto em sua função de resto, o objeto aí é tomado em sua face agalmática, de brilho como pontua Lacan em seus desenvolvimentos sobre a transferência. Daí Lacan (2005[1962-1963], p. 128) dizer na lição IX do seminário sobre a angústia duas coisas importantes para o que nos interessa: define o acting-out como um subir à cena - o que explica a atuação do sujeito como um endereçamento ao outro e não um deixar-se cair junto com o objeto na passagem ao ato - e o denomina como transferência selvagem (LACAN, 2005[1962-1963], p.140), ou seja, uma transferência que precisa ser domesticada, colocando cada um dos elementos em questão em seu lugar: desfazer esse laço agalmático entre o sujeito e o objeto e situar o Outro em seu campo.

Ora, aqui o acting-out não comporta uma destituição do lugar do Outro, mas uma demanda para que o Outro mantenha-se em seu campo. Já na passagem ao ato, temos a dissolução desses lugares. Lacan (2005[1962-1963], p. 130) chega mesmo a dizer que o sujeito evade-se da cena em uma fuga para o mundo puro. O que seria este mundo puro senão um mundo não mediado pela falta? Temos então uma passagem da cena - em que o sujeito mantém a relação com o Outro pela via da fantasia - para um mundo em que o real da angústia sobrevém sem véus.

Algumas questões podem, contudo, ser colocadas a partir da distinção entre a passagem ao ato e o acting-out. A passagem ao ato, por ser um ato em que o discurso como laço social é deixado de lado, costuma ser ruidosa - como sugere a noção de crimes imotivados. No entanto, conforme indicam alguns autores, ela pode ter como consequências a pacificação do sujeito e, por conseguinte, uma estabilização. Podemos, então, colocar a seguinte questão: será a passagem ao ato uma suplência? Ou antes, será que a estabilização alcançada pela via da passagem ao ato se encarna como suplência, articulando real, simbólico e imaginário e, por conseguinte, circunscrevendo o gozo? Isto dependerá de como considerarmos a suplência. De acordo com Alain Menard (1994) uma suplência se caracterizaria por ser uma invenção singular que opera a pacificação de gozo e, sublinhamos, que conserva o traço da falha à qual remedia.

Com esta definição podemos dizer que não cremos que a passagem ao ato possa ser definida como uma suplência. Podemos considerar, por exemplo, o caso Aimée (LACAN, 1987[1932]): ela chega a uma passagem ao ato homicida, diz em um primeiro momento que somente falaria em presença do comissário de polícia - o que entendemos como um modo de recuperar, por outros meios, a relação com o Outro -, emerge o posterior sentimento de vergonha em relação ao ocorrido e ocorre uma pacificação das ideias delirantes que a acossavam até então: a de que todos estavam conspirando para roubar seu filho. Por essa razão não se deve, na clínica, estimular o delírio ou apostar que a suplência ao Nome-do-pai, forcluído na psicose, deva ser obtida pela via do delírio: a construção da metáfora delirante não deve ser confundida com uma idéia delirante. Uma é o resultado de um longo trabalho do sujeito; a outra é uma tentativa inicial de elaboração do gozo deslocalizado, mas sem a sistematização da primeira, sem a produção de uma significação alternativa àquela induzida pelo Nome-do-pai na metáfora paterna, vale dizer, sem a significação delirante que corresponda a um artifício de domesticação do gozo, ou sem uma invenção subjetiva que alcance o estatuto de suplência. Para Aimée, não parece ter sido o ato o agente estabilizador, mas as conseqüências que dele advieram, pois a passagem ao ato em si não encerra uma dimensão de invenção ou de suplência.

Outro aspecto essencial é que não se pode considerar a passagem ao ato apenas pela via dos atos que chamaremos de escandalosos.

Não seria pertinente à clínica psicanalítica, conforme aponta Zenoni (2009, p. 280), uma extensão do conceito de passagem ao ato a atos repetitivos que implicam uma duração e não somente uma ruptura? São passagens ao ato que chamamos de discretas, como em casos de anorexia e bulimia. Será que em relação a elas poderemos falar em suplência ou em invenção subjetiva? Será então que podemos considerar a passagem ao ato como uma modalidade de suplência que indica também um apaziguamento do gozo por localizá-lo de certo modo? É o que veremos na próxima seção.

 

PACIFICAÇÃO E PASSAGEM AO ATO DISCRETA

Podemos colocar a questão por outro prisma: vimos na seção anterior que a passagem ao ato, por seu caráter resolutivo, pode ter por efeito uma pacificação. Mas temos exemplos de sujeitos que comentam sistematicamente passagens ao ato que não são discretas, e que não trazem qualquer pacificação.

Assim, podemos pensar em passagens ao ato pontuais e que geralmente trazem alguma estabilização - caso Aimée -; podemos pensar em passagens ao ato muitas vezes contínuas que não podemos dizer que tragam alguma estabilização - caso dos ditos homicídios imotivados -; e  podemos falar de passagens ao ato discretas, nas quais podemos nos perguntar se trazem ou não estabilização.

Como pensar então essas passagens ao ato discretas? Comecemos com alguns fenômenos. Massimo Recalcati (2005) não coloca a questão diretamente em termos dos atos do sujeito; somente em um momento posterior de suas formulações levanta o problema dos casos graves em que os anoréxicos ou bulímicos cometem o suicídio. Ao tratar da questão das anorexias e toxicomanias, o autor lembra, em primeiro lugar, que elas são trans-clínicas, ou seja, podem ocorrer em qualquer estrutura subjetiva. Não se trata nesses quadros clínicos de uma nova estrutura, mas de novas apresentações do sujeito, levando em consideração a deslocalização do gozo e o curto-circuito sujeito-objeto como resposta a uma falha constitutiva do Outro.  Ora, os atos - acting-out e passagem ao ato - também são trans-estruturais, irredutíveis a uma ou outra estrutura clínica, como demonstra Lacan ao analisar acting-outs e passagens ao ato dentro de alguns casos tratados por Freud - embora Zenoni (1987) hesite em falar de acting-out em psicose, devido ao fato de não ter havido a extração de objeto nesses casos.

Desse modo podemos encontrar uma articulação por analogia entre os casos de anorexia-toxicomania e as atuações e, a partir daí, recolocar a questão que tem guiado nosso texto desde o início: será que podemos pensar a extensão da passagem ao ato, como faz Zenoni (2009), ao falar de atos repetitivos que implicam uma duração e não somente uma ruptura? E ainda: será que podemos dizer que as passagens ao ato sejam no nível da duração/repetição, seja no da ruptura, podem ser consideradas suplências uma vez que encontramos em ambas a dimensão de um apaziguamento?

No desenvolvimento de sua elaboração, Recalcati (2005) destaca a noção de separação. Para ele, nos casos de anorexia, "a exigência de separação é o que, com efeito, situa a anorexia do sujeito como resposta à demanda asfixiante do Outro" (RECALCATI, 2005, p. 115). É claro que esta não é a única forma de advir um tipo clínico anoréxico, mas serve aos nossos propósitos pelos termos utilizados nessa definição.  Em primeiro lugar o termo resposta: ele é indicado já na questão dos atos, uma vez que o ato opera no real uma resposta frente à angústia, mas de modo a não dividir o sujeito - o que ocorre também nos casos de anorexia em que há uma identificação imaginária com o sintoma, propiciando o que é conhecido como o pertencimento ou a participação em um grupo monossintomático.

Se associarmos o termo resposta à "exigência de separação", encontramos aqui o caráter resolutivo presente nos atos, principalmente nas passagens ao ato. E se considerarmos, primeiramente, que na anorexia temos um curto-circuito sujeito-objeto  e, segundo, que a "demanda asfixiante do Outro" é condicionada pela falta de mediação com este mesmo Outro, o que propicia o advento da angústia, dispomos aqui de elementos para abordar alguns casos de anorexia como uma modalidade atuação. A modalidade do ato, é claro, irá depender da estrutura e do caso, mas reunimos elementos para discutir a extensão do conceito proposta por Zenoni (2009).

Para dar sustentação a esta tese, vejamos dois casos clínicos apresentados por Recalcati (2005). Mas antes, uma nota: estes casos são situados no que ele chama de conjuntura de desencadeamento, fazendo a ressalva de que desencadeamento é um conceito forjado no campo das psicoses, mas utilizado nos casos em questão para especificar um desgarramento dramático em que a relação do sujeito ao Outro é problematizada. Aqui poderia ser vislumbrada certa afinidade entre a ideia de remédio que comporta a suplência e os modos de resposta resolutivo das passagens ao ato, mas a suplência, que, por função, dá um lugar ao sujeito e ao gozo, não se resume a este aspecto. Os casos destacados são situados também no que ele chama de realização de separação:

Em Georgia, por exemplo, a anorexia se desencadeia algumas semanas depois do encontro, no hospital, com sua mãe moribunda. O corpo delgado e marcado pelo sofrimento de sua mãe produz uma identificação radical com o objeto de amor: Georgia se assimila ao Outro materno para impedir a separação do mesmo e conter a angústia relativa à possibilidade de perder de modo irreparável o objeto de amor (RECALCATI, 2005, p. 121, grifo nosso).

Ora, encontramos nessa vinheta clínica os elementos que podemos destacar na passagem ao ato: em primeiro lugar o curto-circuito do sujeito ao objeto não erotizado - o corpo delgado - ao qual o sujeito se identifica.1 Mas reconhecemos também a anorexia como uma resposta, uma resolução para deter a angústia frente à possibilidade de perda do objeto do amor: ora, verifica-se aqui um sair de cena, um deixar-se cair que não envolve o estrondo de uma passagem ao ato clássica, mas uma passagem ao ato com certa duração. Invocamos a passagem ao ato pelo fato de não haver demanda endereçada ao Outro, nem pela via de uma formação sintomática, nem pela via de um acting-out. Para evitar a perda do objeto de amor, o sujeito renuncia a qualquer movimento.

Já em um segundo caso constata-se, por outro lado, um movimento de acting-out:

Em Evelina, por sua vez, a anorexia se desencadeia aos 14 anos, depois da decisão de seus pais de mudar para outra cidade. Esta decisão lhe é comunicada bruscamente sem consultá-la nem dar-lhe tempo para elaborar este passo. Em poucos dias se vê obrigada a deixar para trás "seu mundo". A anorexia é pois, para ela, um modo de recuperar o "direito à palavra", para "dizer que não" ao Outro familiar e, portanto, para produzir uma separação efetiva da vontade do Outro, para adquirir estatuto de sujeito (RECALCATI, 2005, p. 121, grifo do autor).

A anorexia aqui também não cifra o gozo de maneira sintomática, mas, ao contrário do que depreendemos no caso anterior, também não se caracteriza por um sair de cena; ao contrário, ela é uma encenação marcada pela fantasia e pela demanda endereçada ao Outro. É uma resposta em ato a uma questão que não está além do limite do discurso e sim uma maneira de o sujeito tentar conseguir, na dinâmica familiar, re-encontrar o seu lugar de sujeito endereçando aos pais uma demanda. Como diz Lacan, trata-se de uma transferência selvagem, atuada. Mas ainda assim, trata-se de uma transferência e de um acting-out que também não deixa de ter uma duração.

Estes atos são repostas que não re-situam a posição do sujeito. Por um lado, há estabilização - uma vez que o sujeito não cai mais em uma errância. Por outro lado, não parece haver nem uma idealização da identificação imaginária - como no caso de Georgia, em que a identificação não se efetua com o nada erotizado, mas com um resto do que foi sua mãe -; nem uma metáfora delirante, como indica a ausência de referência a delírios ou ideias delirantes; nem mesmo uma nomeação em que o gozo seria escrito por uma invenção.

 

PARA CONCLUIR

O refreamento do gozo que invade o sujeito e o tratamento da angústia pela via dos atos é capaz de proporcionar apaziguamento, mas isso não implica a elaboração de uma suplência no sentido de uma ação que, ao enlaçar os registros, conferem uma nova posição ao sujeito.

As passagens ao ato não ruidosas a que se assiste nos casos de anorexia constituem, sem dúvida, uma resposta ao mal-estar, resposta situada além do princípio do prazer, com pregnância de uma dimensão mortífera. Nelas, não se verifica uma localização do real do gozo por meio de uma invenção suscetível de modificar a relação do sujeito com o resto a que se mantém identificado. Essa ausência de mudança subjetiva esclarece o caráter repetitivo, reiterado dos atos, que devem se reproduzir justamente por não lograrem ciframento do gozo.

Acreditamos que o uso da distinção lacaniana entre acting-out e passagem ao ato pode ser profícuo para a análise destes casos discretos e concluímos que nem sempre um apaziguamento comporta a construção de uma suplência.

 

NOTA

1 Nesse caso, podemos mesmo pensar em uma certa identificação melancólica do sujeito com o objeto perdido.

 

REFERÊNCIAS

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Recebido em: fevereiro de 2010
Aceito em: maio de 2010