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Revista Brasileira de Parasitologia Veterinária

On-line version ISSN 1984-2961

Rev. Bras. Parasitol. Vet. (Online) vol.18 no.3 Jaboticabal July/Sept. 2009

https://doi.org/10.4322/rbpv.01803015 

NOTA DE PESQUISA

 

Detecção de anticorpos anti-Toxoplasma gondii em suínos criados e abatidos no Estado da Bahia, Brasil

 

Detection anti-Toxoplasma gondii antibodies in swines bred and abated in the Bahia State, Brazil

 

 

Rodrigo A. BezerraI; Elisson B. ParanhosII; Ana Elisa Del’ArcoIII; George R. AlbuquerqueIV

IPrograma de Pós-Graduação em Ciência Animal, Universidade Estadual de Santa Cruz – UESC / Bolsista CAPES
IIGraduação em Medicina Veterinária, Universidade Estadual de Santa Cruz – UESC / Bolsista PIBIC/CNPq
IIICentro de Ciências Agrárias, Ambientais e Biológicas, Universidade Federal do Recôncavo da Bahia – UFRB
IVDepartamento de Ciências Agrárias e Ambientais, Universidade Estadual de Santa Cruz – UESC

Autor para correspondência

 

 


RESUMO

Objetivou-se verificar a ocorrência de anticorpos anti-Toxoplasma gondii em suínos criados e abatidos no Estado da Bahia. Foram coletadas e examinadas 465 amostras de sangue de suínos provenientes de criações de diferentes locais desse estado. Para a pesquisa de anticorpos anti-T. gondii, foi utilizada a técnica de Imunoadsorção Enzimática (ELISA) e considerados positivos todos os animais com títulos iguais ou maiores que 1:16. Desses, 18,27% (85/465) foram positivos para anticorpos anti-T. gondii, sendo 30,76% (24/78) em Ilhéus, 18,10% (21/116) em Itabuna e 14,76% (40/271) em Simões Filho. Foram observadas diferenças significativas quanto ao sexo dos animais (p = 0,0171), ao sistema de criação (p = 0,0002) e à procedência dos animais (p = 0,0278) no município de Itabuna. Anticorpos anti-T. gondii foram encontrados nos animais estudados, podendo ser estes animais fonte de infecção para a população humana local.

Palavras-chave: ELISA,Toxoplasma gondii, suínos, zoonose.


ABSTRACT

This study was performed to verify the occurrence of anti-Toxoplasma gondii antibodies in swine raised and slaughtered in the state of Bahia, Brazil. Four hundred sixty five swine blood samples from farms of different cities had been collected and examined. Anti-T. gondii antibodies was detected by the enzyme-linked immunosorbent assay (ELISA) and considered positive all the animals with equal or bigger headings than 1:16. From these, 18.27% (85/465) of total sample were positive for T. gondii, 30.76% (24) in Ilhéus, 18.10% (21/116) in Itabuna and 14.76% (40/271) in Simões Filho. Significant differences were observed regarding animal sex (p = 0.0171), raising system (p = 0.0002) and origin of the animals (p = 0.0278) in the city of Itabuna. The occurrence of anti-T. gondii antibodies shows that swine can be a source of infection for the local human population.

Keywords: ELISA,Toxoplasma gondii, pigs, zoonosis.


 

 

A toxoplasmose é uma zoonose de distribuição mundial que acomete o homem e outros animais de sangue quente (mamíferos e aves), sendo causada pelo protozoário Toxoplasma gondii (DUBEY; BEATTIE, 1988).

Em animais de produção, cistos teciduais de T. gondii são frequentemente observados em tecidos de suínos, ovinos e caprinos infectados (TENTER et al., 2000). Os problemas causados por T. gondii nesses animais são morte, reabsorção e mumificaçãoembrionária, assim como aborto (DUBEY, 2004). Particularmente em suínos, a infecção pelo T. gondii provoca alterações clínicas como hipertermia, anorexia, prostração e corrimento nasal, entretanto o principal problema é de ordem reprodutiva (VIDOTTO et al., 1987). No Brasil, a soroprevalência em suínos varia de 0% (BRANDÃO et al., 2006) a 90% (GUIMARÃES et al., 1992) e não foram encontrados estudos de toxoplasmose em suínos no Nordeste do Brasil.

Os humanos podem adquirir a toxoplasmose pelo consumo de carne crua ou mal cozida contaminada com cistos teciduais viáveis ou pela ingestão de comida ou água contaminada com oocistos esporulados de fezes de gatos (TENTER et al., 2000; DUBEY; JONES, 2008).

Devido aos prejuízos causados para os animais de produção, por estes atuarem como fonte de infecção ao homem, e à falta de informações sobre a ocorrência do agente em suínos no Estado da Bahia, objetivou-se com este estudo verificar a ocorrência de anticorpos anti-T. gondii em suínos criados e abatidos nesse estado.

Foram coletadas amostras de sangue de 465 suínos, acima de quatro meses de idade, em pequenos criatórios no município de Ilhéus, em um matadouro clandestino no município de Itabuna e no matadouro frigorífico sob Inspeção Federal no município de Simões Filho. Os suínos foram provenientes de distintos criadores de municípios do Estado da Bahia. Para os animais abatidos nos matadouros, a amostragem populacional foi obtida utilizando-se o programa Epi-Info Versão 3.4, com expectativa de prevalência de 20% da infecção por T. gondii; e para os suínos criados no município de Ilhéus, a população estudada foi de todos os animais encontrados nas sete propriedades analisadas.

O sangue foi coletado por punção da veia cava, ou no momento da sangria dos animais, e transportado ao Laboratório de Parasitologia Veterinária da Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC). Os soros foram separados, identificados e armazenados a –20ºC até o momento das análises sorológicas.

Para a pesquisa de anticorpos anti-T. gondii, foi utilizado o teste de Imunoadsorção Enzimática (ELISA), conforme Suaréz-Aranda et al. (2000) com algumas modificações. Utilizou-se a antígeno na diluição de 50 µg.mL–1, todas as lavagens foram feitas com PBS contendo 0,1% de Tween 20 (PBS-T), o bloqueio foi feito com PBS-T contendo 5% de leite desnatado e a reação foi interrompida com 50 µL/poço de H2SO4 2N. O antígeno solúvel foi obtido do exsudato peritoneal de camundongos infectados com a cepa RH de T. gondii, conforme Silva et al. (2005).

Para análise das variáveis sexo, sistema de criação e procedência dos animais foi usado o teste Qui-quadrado (χ2) com nível de significância de 5%, utilizando-se o programa EPI INFO versão 3.4. Os sistemas de criação foram caracterizados como granjas comerciais ou criações rústicas.

Dos 465 soros testados, 18,27% (85/465) (IC 95% = 21,7%-14,7%) foram positivos para anticorpos anti- T. gondii, sendo 30,76% (24/78) (IC 95% = 40,9%-20,5%) de positividade em Ilhéus, 18,10% (21/116) (IC 95% = 25,1%-11,1%) em Itabuna e 14,76% (40/271) (IC 95% = 10,7%-18,7%) em Simões Filho.

Os valores encontrados neste estudo são semelhantes aos de Tsutsui et al. (2003) e Santos et al. (2005). Já Suarez-Aranda et al. (2000) e Moura et al. (2007) encontraram resultados inferiores aos observados neste estudo, com positividade de 9,6 e 8,54%. Por outro lado, Guimarães et al. (1992) e Cavalcante et al. (2006) obtiveram resultados superiores, com positividade de 90 e 37,5%, respectivamente, mostrando a grande diferença das prevalências observadas em diferentes regiões do Brasil.

Quando se analisa a variável sexo frente à positividade do total de suínos (Tabela 1), não se encontra diferença (p = 0,0773), corroborando os resultados de Garcia et al. (1999) e Millar et al. (2008) no Paraná, Brasil. Contudo, quando se analisa cada município individualmente (Tabela 2), observa-se que, entre os animais de Itabuna, existe diferença significativa (p = 0,0171) e isso pode ser explicado pelo abate de algumas matrizes neste município, que apresentaram uma alta positividade (4/7-57,1%). As matrizes, por serem animais mais velhos, têm uma maior chance de se infectarem. O mesmo foi obtido por Moura et al. (2007), que verificaram uma maior ocorrência de sororreagentes entre as fêmeas adultas.

 

 

 

O sistema de criação foi determinante na soropositividade dos suínos (p = 0,0002). Os animais confinados em granjas apresentaram menor soropositividade que aqueles criados de maneira rústica (Tabela 1), possivelmente devido a uma menor exposição dos animais aos oocistos presentes no solo e na água. Resultados semelhantes foram obtidos por Tsutsui et al. (2003) e Giessen et al. (2007).

Houve diferença entre os animais provenientes de abate clandestino, que apresentaram valores de ocorrência mais altos, quando comparados aos abatidos em Sistema de Inspeção Federal (SIF) (p = 0,0278). Tais resultados podem ser explicados porque os suínos abatidos com inspeção foram todos oriundos de granjas comerciais, enquanto os de abate clandestino foram provenientes também de criações rústicas.

 

Agradecimentos

Aos Doutores Italmar Teodorico Navarro, da Universidade Estadual de Londrina (UEL) e Francisco Carlos Rodrigues de Oliveira, da Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF), pelo fornecimento dos soros controles.

 

Referências

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Recebido em 15 de Dezembro de 2008
Aceito em 23 de Março de 2009

 

 

Autor para correspondência:
George R. Albuquerque
Departamento de Ciências Agrárias e Ambientais
Universidade Estadual de Santa Cruz – UESC, BA 415, km 16,
CEP 45662-000 Salobrinho, Ilhéus - BA, Brasil; e-mail: gralbu@uesc.br
Apoio:
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