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Bakhtiniana: Revista de Estudos do Discurso

On-line version ISSN 2176-4573

Bakhtiniana, Rev. Estud. Discurso vol.6 no.1 São Paulo Aug./Dec. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S2176-45732011000200008 

ARTIGOS

 

A função transgressiva dos múltiplos sujeitos nos gêneros discursivos

 

The transgressive function of multiple subjects in speech genres

 

 

João Marcos Cardoso de SousaI; Ida Lucia MachadoII

IProfessor do Centro Universitário de Formiga - UNIFOR/MG, Formiga, Minas Gerais, Brasil; jcardososousa@gmail.com
IIProfessora da Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG, Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil; idalumac@yahoo. com.br

 

 


RESUMO

Este artigo propõe uma reflexão sobre o sujeito e sua funcionalidade no gênero. Busca refletir acerca do efeito polifônico na multiplicidade enunciativa que aponta para uma transgressão de gêneros. Para fundamentar nosso argumento, tomamos as ideias sobre gênero, polifonia e sujeito vindos dos teóricos M. Bakhtin (1988), J. Authier-Revuz (2001) e J. Lacan (1998), e apontamos que é o efeito da transgressão pela polifonia que permite a coabitação de diversos sujeitos linguageiros nos discursos.

Palavras-chave: Transgressão de gênero; Sujeito; Polifonia; Gêneros discursivos


ABSTRACT

This article proposes a reflection on subject and its functionality in the genre. We reflect on the polyphonic effect in multiple utterances which indicates a transgression of genres. Our arguments are based on ideas on genre, polyphony and subject found in the theories of M. Bakhtin (1988), J. Authier-Revuz (2001) and J. Lacan (1998), and we will demonstrate that the effect of such transgression, caused by polyphony, permits the cohabitation of various language subjects in the discourses.

Keywords: Genre transgression; Subject; Polyphony; Speech genres


 

 

Introdução

"Os extremos se tocam, as contradições vivem juntas" (DOSTOIÉVSKI, 2001, p. 123). Esse excerto da obra dostoievskiana representa bem aquilo que Mikhail Bakhtin (1988)1 apresentou e teorizou sobre os mecanismos e funções da linguagem na composição do todo social. É justamente nessa profusão de forças, que se atraem e se contradizem, existentes na e pela palavra, que a linguagem se desdobra numa complexidade de atuação e manifestação no cenário da subjetividade e da ideologia, apresentando e movimentando sujeito, língua e social. Portanto, ancorado nesse pensamento da complexidade da linguagem, o presente artigo propõe uma reflexão sobre a funcionalidade do efeito polifónico no discurso, articulando sujeito e gênero na construção de sentido. Tal funcionalidade pode ser compreendida como transgressão de gênero e, em diversos momentos do pensamento bakhtiniano, o elemento de transgressão genérica habita a noção do gênero discursivo.

O sentido mais próximo do que queremos tratar como transgressão de gênero encontra eco no questionamento promovido por Todorov (1988, p. 34) em seu texto El origem de los géneros em que o autor expressa: "Um novo gênero é sempre a transformação de um ou vários gêneros antigos: por inversão, por desprendimento, por combinação"2. Será nos efeitos de inversão, desprendimento e combinação, apontados por Todorov (1988) como fenómenos de transgressão que ocorrem na instância do gênero discursivo, que apontaremos na obra Os irmãos Karamázov, de Dostoiévski, um acontecimento repleto de significados próprios dessa manifestação com a função de organizar a diversidade de sujeito e gênero na imagem do um.

O efeito transgressivo do gênero se apresenta da seguinte maneira nessa obra: a fim de promover o jogo de sentido na comunicação, faz-se necessário, através da manifestação polifónica, conjugar forças contrárias e inversas num arranjo de desprendimento e combinações entre gênero e sujeito para possibilitar a construção de sentido que expresse "verdade" e "real" na e pela linguagem.

 

1 A natureza do gênero

Para uma visão nocional sobre gênero, conduzimos nosso estudo por meio do viés metodológico que se centra no curso do pensamento bakhtiniano, em que se prioriza fortemente a funcionalidade e a dinamicidade do gênero na ação da linguagem.

A concepção sobre gênero tem seus reflexos desde os primeiros escritos de Bakhtin (2003). Em sua obra Por uma filosofia do ato, escrita por volta de 1924, o teórico discute, de maneira bastante refinada, a cosmovisão de uma filosofia centrada na ação totalizante do agir do ser humano no mundo, contrapondo-se à filosofia segmentarista e cartesiana presente em sua época. Naquele texto, Bakhtin se preocupa em apresentar como ocorreria a transposição de uma realidade ou do recorte dessa realidade através da interação do homem por meio de sua responsabilidade frente ao acontecimento de algo no mundo. Assim, o termo "responsabilidade" invoca todo um complexo da filosofia da ética, o ethos, que, nesse texto, associa-se, em nossa interpretação, à instância ou existência do ser e aponta, dessa forma, para a leitura de Bakhtin da filosofia existencialista de Kant. Em um trecho, dentre muitos outros, Bakhtin diz que existem certos "planos" para que uma representação de algo do mundo passe a uma realidade de sentido no mundo. Em suas palavras:

Todas as tentativas de penetrar no acontecimento real a partir do interior do mundo teórico são sem esperança; é impossível abrir o mundo conhecido teoricamente do interior do conhecimento próprio até atingir o mundo real singular. No entanto, partir do ato-como-ato não das transcrições teóricas, há portanto uma saída que efetua seu conteúdo de sentidos, que é integralmente aceito e incluídos do interior deste ato, porque o ato realiza-se realmente no ser (BAKHTIN, 2003, p. 32)3.

Podemos extrair, desse primeiro texto de Bakhtin, inúmeras incursões aos diversos conceitos propostos ao longo de sua obra. Mas aqui, para a concepção de gênero, ressaltamos a importância dada à relação apresentada entre o ser, a ação e a construção de sentido de algo no mundo. A compreensão do ser em Bakhtin é totalmente voltada ao que ele denomina de externo, de social; há aqui um jogo dialético estruturado entre a existência do ser que só se reconhece numa ação de responsabilidade, do ethos (como uma imagem), num dado acontecimento entre mundo e linguagem. Essa responsabilidade do ser, que pode ser compreendida por sua "intenção", é produtora da possibilidade de "criação" ou tomada de direção ao objeto de sentido no mundo, isso posto, claro, na relação de troca com o outro.

A partir desse ponto, parece que Bakhtin se inquietará ao tentar responder, na plenitude dos inúmeros atos de sentido no mundo, como se processa a cadeia de "criação" de sentido e qual a condição para seu reconhecimento, o que ele articulará com mais precisão nos seus próximos escritos que abrirão, de maneira mais translúcida, sua visão sobre a noção da linguagem. Dentro dessa perspectiva, a questão do gênero firma-se com pertinência na obra bakhtiniana como uma construção possível que levará em conta a esfera do ser e de sua direção intencional a algo e/ou alguém na própria caracterização do ato de linguagem como portador de marcas ou repetições para sustentação de um sentido no e do mundo. Mas, também, como algo que é testemunha de um exterior a esse acontecimento, ou seja, a própria dualidade do gênero.

Em 1929, em Marxismo e filosofia da linguagem, a noção sobre o gênero já desponta com mais veemência, pois no desenvolvimento do seu percurso teórico, embora muitos conceitos, caso de enunciado/enunciação (dentre outros), não apresentem, ainda, precisão teórica, a ideia sobre o gênero como uma "expressividade" para a ação (do ato comunicacional) começa a dar sinais. No trecho a seguir, Bakhtin (Voloshinov) explicita a necessidade de organizar um conceito acerca dos gêneros do discurso.

No entanto, essa questão das formas concretas tem uma significação imediata. Não se trata, é claro, nem das fontes de nosso conhecimento da psicologia do corpo social numa ou noutra época (por exemplo; memórias, cartas, obra literárias). Nem das fontes de nossa compreensão do 'espírito da época'. Trata-se, muito precisamente, das próprias formas de concretização deste espírito, isto é, das formas de comunicação no contexto da vida e através dos signos. A tipologia destas formas é um dos problemas vitais para o marxismo. [...] Mais tarde, em conexão com o problema da enunciação e do diálogo, abordaremos também o problema dos gêneros linguísticos. A esse respeito faremos simplesmente a seguinte observação: cada época e cada grupo social tem seu repertório de formas de discurso na comunicação sócio-ideológica (BAKHTJN/VOLOSHINOV, 1988, p. 43).

Observamos um aprofundamento no pensamento bakhtiniano em suas distinções entre vários segmentos teóricos para designar os atos - ações - no social. Assim, percebemos sua inquietação quanto ao fato de esses atos do social poderem ser entendidos ou categorizados por uma concepção contrária à sua visão dialógica, ou seja, uma concepção fechada numa visão de "espírito de época", a psicologização e a sociologização da vida no social, em categorias estanques e indissociáveis da vivacidade da palavra. Mas havia a incessante questão de como equacionar esse fenômeno da concretização e caracterização da ação no social que se manifesta de maneira tão sutil e com caráter tão efêmero. Pensamos que foi nesse contexto de produção que Bakhtin (VOLOSHINOV) concebeu a gênese do gênero e que, em suas obras, pode-se encontrar os termos "expressividade" e "expressão" como um fenômeno possível dentro do enunciado para responder, inicialmente, à questão acima.

Para melhor compreendermos o termo "expressividade" na obra de Bakhtin, pode-se partir da ideia de que este se organiza como um "campo" vivo e instrumentado que, ao ser utilizado pelo sujeito, conduz e orienta certa intenção (primeira) em direção ao objeto de sentido, na ação da comunicação. Ressaltamos que o termo não tem nenhum compromisso com categorizações de traços psíquicos ou comportamentais relativos às teorias psíquicas sobre o sujeito. Antes, trata-se de algo que poderíamos denominar de anterior ou paralelo ao sujeito, um campo que em sua dinâmica promove a interação do sujeito com o todo discursivo (ideológico) na ação da linguagem. Percebemos também no pensamento bakhtiniano, ainda no que se refere à questão da "expressividade", que esta é configurada com certa espacialidade para o movimento do sujeito na constituição do enunciado. Então, a "expressividade" parte de uma condição primeira (subjetiva) e interna da concepção do enunciado e estende-se até uma configuração externa do enunciado, ou seja, a objetividade do dito na relação de troca com o outro. A partir desse aporte, em que podemos refletir sobre a "expressividade" como algo que contorna o interno e externo do enunciado, promovendo espacialidade ao sujeito para sua manifestação de intenção na relação com o outro, é que podemos conceber a primeira noção de gênero e sua natureza dual. Isto é, a ação do sujeito na "expressividade" repete e recorta marcas de reconhecimento no enunciado para identificação e resposta do outro ao seu enunciado. Configura-se, desta maneira, a natureza do gênero, tanto na condição de seu reconhecimento na estrutura de um enunciado quanto em sua distinção realizada em relação aos inúmeros outros gêneros externos àquele enunciado, proposto numa dada comunicação.

Assim, Bakhtin (VOLOSHINOV) apresenta a temática da "expressividade" a partir de um questionamento sobre o que é a expressão:

Mas o que é afinal a expressão? Sua mais simples e grosseira definição é: tudo aquilo que, tendo se formado e determinado de alguma maneira no psiquismo do indivíduo, exterioriza-se objetivamente para outrem com a ajuda de algum código de signos exteriores.

A expressão comporta, portanto, duas facetas, o conteúdo (interior) e sua objetivação exterior para outrem ou também para si mesmo.

[...] A teoria da expressão supõe inevitavelmente um certo dualismo entre o que é interior e o que exterior, como primazia explícita do conteúdo interior, já que todo ato de objetivação (expressão) procede do interior para o exterior (BAKHTIN/V OLOSHINOV, 1988, p. 111).

Obviamente que tanto o interior quanto o exterior, citados pelo autor, são de composição sígnica, da ordem da palavra, compreendida dentro de uma totalidade acabada do enunciado. Então, a "expressividade" não é um mecanismo de ligação entre coisas (pensamento e objetos) e palavras, mas a vivacidade de ação do sujeito de significar a si mesmo, o outro e o mundo na linguagem. Como se pode perceber, em Bakhtin (Voloshinov) não há um interior ou exterior fora do ideológico social e, desta forma, a função da "expressividade" seria, também, ligar os componentes psíquicos ao externo, representado pelo ideológico social. A performance da "expressividade" passa, então, pelo rearranjo que ocorre no enunciado, no momento vivo da própria enunciação, numa ação de o sujeito dirigir sua intenção em direção ao tratamento exaustivo do objeto, recorrendo a um arsenal de memória discursiva para a "decoração genérica" do seu discurso, a fim de que ocorra sentido na comunicação com seu parceiro.

Dessa forma, entendemos que é essa a natureza do gênero: um lampejo ou dispositivo marcado no enunciado, cuja funcionalidade é de seleção e ordenação de um discurso em determinada cadeia discursiva em movimento, naquele instante mesmo de comunicar, em busca de reconhecimento, de sentido. E, conforme podemos observar no pensamento bakhtiniano, o autor ressalta o caráter de supremacia da natureza do gênero em detrimento a qualquer outro aspecto ou elemento teórico que participe da orientação discursiva num determinado processo comunicacional. Assim: "Não é a atividade mental que organiza a expressão, mas o contrário, é a expressão que organiza a atividade mental, que se modela e determina sua orientação" (BAKHTIN/V OLOSHINOV, 1988, p. 112).

 

2 Da estranheza ao reconhecimento: relações de forças entre as niodalizações autonímicas e os gêneros discursivos

Assegurada pelas marcas que sustentam a heterogeneidade da linguagem, Authier-Revuz (1982) apresenta na modalidade autonímica4 os quatro aspectos metaenunciativos5 que representam as "não-coincidências" do dizer. Essas nãocoincidências do dizer que funcionam sob a forma da heterogeneidade constitutiva se fundamentam, imprescindivelmente, na ausência, falta, que cinde a forma-sujeito da enunciação. Portanto, os quatros pontos de não-coincidência ou da própria heterogeneidade na linguagem falam do sujeito do dizer e marcam em seus desdobramentos a cisão que promove o delineamento de um outro sempre presente nesse dizer. O jogo da linguagem então passa por uma espécie de organização e balanceamento de forças que promove a economia ou justa-adequação enunciativa entre as não-coincidências constitutivas do dizer e as formas de reflexão das representações desse dizer. Ou seja, as formas de representações imprescindem da constituição primeira das não-coincidências do dizer que só se marcam ou se afetam no fio do discurso através dessas representações do dizer.

Se as representações do dizer elaboram ardilosamente a ideia do um, do proprietário e da unidade do discurso, as não-coincidências, neste mesmo processo de elaboração, marcam o não-um, destituem o enunciador e o discurso do seu efeito ou posição de domínio e unidade, indicando uma infinidade de planos e posições (imagens) sobre a verdade de quem e do que é falado.

Assim, as modalizações autonímicas, que se estruturam pela condição enunciativa, emergem nas e pelas representações das não-coincidências do dizer que, ao mesmo , as constituem. Por se tratar do espaço metaenunciativo, cuja descrição é inenarrável e irrepresentável, o acesso que temos à sua manifestação dar-se-á pelas representações desse dizer que fundamentam não a visão real dessa enunciação, mas as hipóteses teóricas sobre seu funcionamento a partir das afetações das quatro não-coincidências nesse dizer (AUTHIER-REVUZ, 2001).

A relação entre as representações desse dizer e as modalizações autonímicas se afiguram a uma relação especular, em que num jogo de espelhamento ambas se reconhecem e sediam uma na outra suas manifestações. O objeto a ser refletido nessa relação especular é, justamente, a imagem do sujeito e, consequentemente, a imagem de um discurso possuído por uma identidade, ou seja, uma imagem de domínio do discurso por um sujeito externo à enunciação. Mas a figura desse processo não se traduz tão facilmente assim. Nesse jogo especular das modalizações autonímicas como um jogo de forças para montagem dessas representações, concebemos outros fatores teóricos de importância funcional para a realização desse fenômeno.

Então, a relação que pode ser estabelecida entre as modalizações autonímicas e os gêneros discursivos alcança certo ponto de reflexão teórica que nos auxilia na visão do processo de elaboração dessa imagem de sujeito e discurso na linguagem.

A força propulsora para manifestação das modalizações autonímicas centra-se na pulsão da própria natureza do dialogismo: um campo de forças que se organiza na expressividade dialética entre o ser e o outro, o um e o não-um. Esse irrepresentável da enunciação projeta-se, através das não-coincidências, nas representações dessa cisão que se desdobram no próprio locutor, o eu que, ao tomar a palavra, é atravessado pelo outro de si mesmo; pelo outro discurso no discurso, pois todo discurso é sulcado pelos inúmeros outros discursos; pelo estranhamento que ocorre entre as coisas e as palavras e pela inimizade que sedia a própria natureza da palavra. Tais marcações das não- coincidências que se apoderam dessa representação são denominadas por Authier-Revuz de glosas, compreendidas como um desdobramento que um sentido pode expressar num certo discurso. Isso implica necessariamente a questão do sentido, no qual o campo semântico, ao se posicionar na condição do enunciativo, relativiza o efeito de sentido de dado elemento X do dizer.

É passível a compreensão dessa força das modalizações autonímicas como algo insistente e contínuo no fluxo da linguagem, isto é, uma ruptura de desdobramento na ação automática da tomada da palavra pelo sujeito na enunciação. Mas o que determinaria a quantidade desse fluxo ou balancearia suas rupturas para que possibilitasse a existência da comunicação e organização dos sentidos? Se as glosas desdobram outros sentidos, estranhos e desconhecidos ao sujeito, qual a condição para o reconhecimento dos sentidos conscientes da comunicação e, consequentemente, seu parâmetro para desconhecimento dos demais?

A natureza do gênero, discutida em tópico anterior, traz a relevância da dinamicidade em sua organização dentro do enunciado. O gênero parte tanto do aspecto de sua expressividade no inenarrável da enunciação como promove nos elementos situacionais o acabamento social do enunciado. Promove, ainda, por meio do acionamento das memórias de seu registro nos discursos, a possibilidade da expressão e reconhecimento do sentido pelos parceiros de um ato comunicacional. Se as modalizações autonímicas evidenciam a dialogicidade viva no seio do dizer, as representações desse dizer ancoram-se na estrutura do gênero para marcar o efeito do um e do reconhecimento de certo discurso numa dada cadeia discursiva pelos parceiros da comunicação. Encontra-se, assim, a dialética das forças que partem de um mesmo centro de emergência da linguagem: a expressividade da subjetividade na linguagem que, além de marcar a possibilidade de imagem de um sujeito "real" e dono do seu discurso, glosa a representação dessa verdade para denunciar a falta originária desse sujeito e os desdobramentos que certa verdade pode afetar.

Pensamos então que, para encontrarmos uma justa-adequação no jogo de forças existentes entre a formação de unidade do sujeito e do discurso e as rupturas das glosas que representam a força da descontinuidade do metaenunciativo num dado enunciado, é necessário ancorar-nos na estreita relação de acordo que ocorre entre as funções do gênero e do sujeito. Isso traduz, em grande parte, a possibilidade da comunicação e, consequentemente, a formação de sentido, possibilidade e formação que levam em conta uma articulação e negociação de forças contrárias e conflituosas em suas manifestações de origem.

[...] esses outros sentidos, essas outras palavras que são a voz de um outro de nós mesmos; lá, no lapso, a outra voz, de modo conflituoso, suplanta a primeira ofuscando a sua coerência, e deixando facilmente o enunciador 'sem voz' diante do eu disse, lá os comentários metaenunciativos como 'se eu ouso dizer', 'sem jogo de palavra' representam uma enunciação 'alterada' por este 'intruso' do qual ela tem de se defender; aqui, festeja-se, para o sujeito dividido, um instante de íntima coincidência, na conciliação, pontual, para a graça do jogo de palavras entre as duas vozes de si mesmo (AUTHIER-REVUZ, 2001, p. 79).

O que se poderia traduzir desse instante de íntima coincidência e dessa conciliação pontual seria o encontro de uma imagem do sujeito com a expressividade de um gênero num enunciado, relação de equivalência das forças entre o um e o não-um para o acontecimento da comunicação. É nesse aspecto que também podemos compreender a formulação efetuada por Lacan sobre a relação entre sujeito e linguagem para evidenciar a atuação do inconsciente como linguagem. A identificação que o sujeito encontra no campo imaginário, de uma imagem de si mesmo para o reconhecimento do outro no campo comunicacional, tem acento em algo que sustenta e funciona como marcador (memórias e/ou arquivos) para a realização dessa imagem no discurso: o próprio gênero.

Quando o sujeito fala com seus semelhantes, ele fala na linguagem comum que toma os eu(s) (Moi) imaginários por coisas não simplesmente ex-sistentes, mas reais. Não podendo saber o que está no campo onde o diálogo concreto se passa, ele trata com um certo número de personagens, a, a'. Na medida em que os coloca em relação com suas próprias imagens, estes a quem o sujeito fala são também estes aos quais ele se identifica (LACAN, 1998, p. 285).

Acreditamos que não se pode compreender o jogo de identificação que ocorre entre sujeitos na linguagem simplesmente como um fenômeno que acontece apenas na condição de natureza e campo do sujeito, mas na relação que este estabelece com outros elementos no campo da linguagem, aqui, a natureza e funcionalidade dos gêneros discursivos.

Portanto, compreendemos, a partir dessa reflexão, que, nos entremeios dos arranjos de conciliação ou acordo existentes entre as forças das modalizações autonímicas e a funcionalidade dos gêneros, reside a possibilidade da organização da imagem do sujeito e de sua identificação com o outro para a realização do discurso, e isso só se torna possível pela emergência da polifonia. Isso quer dizer que o fenômeno polifônico só se realiza na probabilidade de refração de múltiplos sujeitos (vozes) como condição de possibilitar uma conciliação entre a força do descontínuo na linguagem, manifesta pelas modalizações autonímicas, e a força da unificação para realização tanto da identificação do sujeito, no campo imaginário, como do discurso, através do gênero.

 

3 O princípio da ação transgressiva no gênero

Para compreendermos o sentido de transgressão do gênero em outro gênero, isto é, por tratar-se de um efeito de princípio transgressivo que ocorre no e do próprio gênero do discurso, retomemos a ideia bakhtiniana da vivacidade constituinte da natureza do gênero.

Portanto, nisto consiste a vida do gênero. Por isto, não é morta nem archaica que se conserva no gênero; ela é eternamente viva, ou seja, é uma arcáica com capacidade de renovar-se. O gênero vive do presente mas sempre recorda o seu passado, o seu começo. É o representante da memória criativa no processo de desenvolvimento literário (BAKHTIN, 1981, p. 91).

Então, entendemos que o princípio transgressivo é constituinte e atuante da/na própria dinâmica do gênero, ou seja, não podemos conceber a ideia de gênero discursivo sem o germe da transgressão. Se, grosso modo, a função do gênero é fazer reconhecido certo discurso pelas marcas de repetição que ativam as memórias discursivas que, por si, já trazem o aparato de leis (discursivas) para tal reconhecimento, é também função do gênero violar ou romper essas leis. Assim, o efeito transgressivo toma um caráter dialético entre instâncias extremas como o velho e o novo, o passado e presente, a morte e a vida, a fim de equilibrar e sustentar, a partir dessas dicotomias extremas, uma realização/efetivação do gênero. Desse modo, a partir desse caráter dialético da transgressão do gênero, pode-se conceber a ideia de uma irreverência ou ironia como princípio dessa ação de transgressão, no efeito de aproximar, ligar extremos para renovação da natureza do próprio gênero.

 

4 A polifonia como função transgressiva do gênero

Não temos como desassociar a ideia do efeito polifônico com a multiplicidade de sujeitos que se manifestam no campo imaginário no seio de dado discurso. A heterogeneidade constituída e mostrada demonstra que nenhum ato de linguagem é puro, ou seja, contém apenas uma representação de sujeito e uma configuração de gênero. Antes: o enunciado é, fundamentalmente, sulcado por inúmeros sujeitos e gêneros que se conciliam num embate e acordo de forças para eleição do um no ato comunicacional para possibilitar sentido e comunicação. Todavia, o um não é puro, inteiro ou completo de si mesmo ou de sua imagem; trata-se do um impregnado do outro ou dos outros que já habitam a totalidade do campo subjetivo da enunciação e, consequentemente, do discurso.

Compreendemos que a manifestação dos múltiplos sujeitos, em diversas vozes no discurso, acontece no campo do imaginário, ou seja, é somente nesse espaço de ação que a subjetividade se fragmenta numa multiplicidade de imagens, orientando-se na imagem mais próxima possível para adequar-se a um discurso, um discurso do outro. Embora haja forte investimento para solidificação da imagem do um no discurso, para gerar a sensação de autenticidade e verdade de um alguém que profere aquele discurso, essa imagem ou voz eleita no fio discursivo é massiçamente povoada por inúmeras outras imagens de vozes. Mesmo que o efeito do um possa sustentar dado discurso na cadeia discursiva de certa comunicação, e isso é necessário, essa imagem ou voz que comanda, momentaneamente, aquele discurso é completamente sensível e afetada pelas outras múltiplas imagens de vozes que o povoam. Nesse sentido acreditamos no efeito polifônico exposto na linguagem, em que a ação do sujeito no campo discursivo é uma manifestação "nervosa", conflituosa, na qual imagens em vozes concorrem insistentemente por uma representação e, consequentemente, por uma organização de sentido e verdade de si no espelho da alteridade.

Lacan (1998) trata dessa dialética do sujeito e de como a imagem discursiva desse sujeito se certifica na relação de alteridade com o outro.

Esse desenvolvimento é vivido como uma dialética temporal que projeta decisivamente na história a formação do indivíduo: o estágio do espelho é um drama cujo impulso interno precipita-se da insuficiência para a precipitação - e que fabrica para o sujeito, apanhado no engodo da identificação espacial, as fantasias que se sucedem desde uma imagem despedaçada do corpo até uma forma de sua totalidade que chamamos de ortopédica - e para a armadura enfim assumida de uma identidade alienante, que marcará com sua estrutura rígida todo o seu desenvolvimento mental (LACAN, 1998, p. 100).

Aqui interessa, de forma mais próxima, o sentido dado por Lacan (1998) aos termos ortopédica e alienante como ancoragem para pensar a função da polifonia na linguagem. O primeiro termo sugere a possibilidade de movimento que o sujeito teria no espaço do imaginário, embora a sugestão dada por Lacan seja que tal ortopédico já teria suas insuficiências de movimento. A insuficiência desse movimento está associada ao segundo termo - alienante - como uma ideia de prótese para a locomoção da subjetividade. Mas, mesmo sendo um movimento engessado ou assessorado por uma prótese, não se elimina a realidade de um movimento ou de um deslocamento para certa direção pelo sujeito. Mesmo num caminhar manco e aparelhado, o sujeito impulsiona-se em direção ou procura de algo que o impele sempre a navegar nas malhas dos discursos, pois a "função mais digna de ser enfatizada na fala que há de disfarçar o pensamento (quase sempre indefinível) do sujeito: a saber, a de indicar o lugar desse sujeito na busca da verdade" (LACAN, 1998, p. 508).

Podemos então dizer que a função da polifonia na linguagem é uma função ortopédica ou de movimentação do sujeito na diversidade discursiva. Se a condição dos inúmeros discursos se apresenta alienante pela função dos gêneros, a polifonia promove esse deslocamento ou movimento da subjetividade pela possibilidade de inúmeros sujeitos/vozes na incursão nos diversos discursos. Finalmente, pode ser dito que esse movimento é o efeito da própria transgressão do gênero, isto é, o efeito da polifonia é correlato ao substrato do efeito da transgressão do gênero. Assim, diríamos que a ação de transgressão do gênero pode ocorrer com maior frequência na comunicação do que podemos perceber ou detectar. Efetivamente, a produção da comunicação dar-se-á por esse constante movimento da e na linguagem em que, mesmo sujeitando-se à alienação das marcas de reconhecimento dos discursos - gêneros - , a ação de transgredir o engessamento dessas marcas constrói sentido e sustento para a subjetividade. A transgressão de um gênero é sempre promovida por uma ação (movimento) dos múltiplos sujeitos nos discursos, devido à própria natureza de constituição precipitada e inacabada da subjetividade. Entendemos que, na "ação de transgressão", ocorre tanto a possibilidade de manifestação dos múltiplos sujeitos/vozes - polifonia - na comunicação, como, também, são essas múltiplas vozes que promovem a transgressão do gênero discursivo, isto é, um efeito de ação dobrada sob si mesmo que origina os dois efeitos simultâneos.

Compreendemos que esse é o percurso que, notadamente, se apresentou no traço literário de Dostoiévski e que Bakhtin tanto ressaltou em suas análises da literatura daquele escritor russo: a capacidade de Dostoiévski de apresentar em seu estilo literário a polifonia e, consequentemente, a transgressão como seu percurso de escrita na literatura.

 

5 Da transgressão à transmutação genérica: em vias do sentido

Nas obras de Dostoiévski, quanto mais nos inclinamos à inquietação sobre o que é o fenômeno da transgressão, abre-se um leque tão diversificado sob nossos olhos que precisamos nos objetivar para não perder a direção daquilo que procuramos a princípio estudar. O que chama a atenção na literatura de Dostoiévski não é tanto sua capacidade de antecipar conceitos que só mais tarde seriam formalizados pela Psicanálise, mas sua capacidade de representar o efeito transgressivo em diversas categorias de saber, atuação e procedimento em campos diversos. Assim, temos a noção de transgressão pelo viés Psíquico, Sociológico, Jurídico, Religioso e, sobretudo, Linguístico e Literário.

Mas é a partir do viés linguístico, do ato de linguagem, que propomos investigar o fenômeno da transgressão do gênero como instrumento de análise para o corpus literário d'Os irmãos Karamázov de Dostoiévski. Na pesquisa (SOUSA, 2010), foram propostos e apresentados três tipos de ação ou efeito transgressivo que ocorrem nos gêneros discursivos na linguagem, a saber: transgressão simples; transgressão moderada ou intermediária; transgressão complexa ou transmutação de gênero. Neste artigo, propomos analisar, a partir da transgressão simples do gênero, a atuação tanto da função do herói quanto de outros personagens em suas imagens discursivas.

5.1 Transgressão simples

A ocorrência da transgressão simples no seio da comunicação tem uma frequência bem acima daquela que podemos perceber ou sentir num dado enunciado oral ou escrito. Assim, desde a troca de palavras e de pequenos referentes dêiticos, sobreposição de pequenos temas ao tema proposto na comunicação e, até mesmo a própria homonímia e a polissemia das palavras, configuram-se, em muitos casos, na ação da transgressão simples do gênero. Podemos perceber na obra dostoieviskiana inúmeros episódios de transgressão simples do gênero agenciados pelo autor ao longo da desenvoltura da narrativa. Por exemplo, no sutil ato falho provocado por Dimítri num diálogo com Kuzmá Kuzmitch ao pronunicar o nome de Grúchenhka:

- O respeitável Kuzmá Kuzmitch provavelmente ouviu falar mais de uma vez de minhas desavenças com meu pai, Fiódor Pávlovitch Karamázov, que me despojou da herança de minha mãe... porque isso é assunto de todas as conversas, as pessoas se metem naquilo que não lhes compete [...] pode também ter sido informado por Grúchenhka [...] perdoe, por Agrafiena6 Alieksándrovna [...] pela honradíssima e respeitadíssima Agripina Alieksándrovna.

Assim começou Mítia, que se atrapalhou desde as primeiras palavras [...] (Dostoiévski, p. 2001, 376, grifo nosso).

Além do tom irônico presente na cena, é percecptível a transgressão ocorrida na esfera da identidade que o sujeito comunicante propõe como enunciador do seu dizer. O preço por tal deslize foi o de, justamente, não ter êxito em sua negociação de empréstimo. Outro recurso intensamente utilizado por Dostoiévki para provocar o efeito de transgressão simples é o uso da locução adverbial talvez ao longo dos diálogos proferidos na trama. Reportamo-nos a alguns deles:

Liberal dos anos 40 e 50, livre pensador e ateu, teve neste caso uma participação extraordinária, por tédio, talvez, ou para se divertir. Foi tomado subitamente pelo desejo de ver o mosteiro e o 'santo' (p. 40) (fala do narrodor sobre a posição e interesse de Ivan no encontro no mosteiro.)

- Então, matarei. Não vou suportar isso. (Dimítri)

- Irmão quem matará? (Aliócha)

- O velho. Não tocarei nela.

- Irmão, que está dizendo?

- Não sei, não sei... Talvez mate, talvez não mate. [...]

Aliócha, pensativo, foi para a casa de seu pai. (2001, p. 136, grifo nosso).

- Ora, talvez eu não creia em Deus. (Aliócha)

(p. 2001, 234, grifo nosso).

-Talvez não tenha ainda perdoado - disse ela, com ar ameaçador, de olhos baixos, como que falando a si mesma. -Talvez meu coração pense somente em perdoar (Grúchenhka) (2001, p. 360, grifo nosso).

Apontamos para o efeito que tal trangressão provoca nos diálogos. Além de fomentar um estado de dúvida sobre a identidade ou caráter daquele que fala ou de quem se fala entre os pesonagens, provoca no leitor a sensação de desconstrução pela dúvida, ao longo da trama, acerca das intenções e de quem seria capaz de participar ou praticar um ato tão imoral como o assassinato.

Por conseguinte, observamos que grande parte da ação de transgressão simples ocorre ou tem seu efeito através da instância de identidade, imagens, dos parceiros na comunicação. Por isso, tratarmos do efeito polifônico como algo ou um acontecimento em constante ação no ato de linguagem. Dessa forma, verificamos como Dostoiévski utilizou-se desse recurso quando, ao longo de sua obra, a imagem discursiva do herói se pulveriza, polifonicamente, em inúmeras imagens, no funcionamento dos diversos discursos que povoam a trama. Assim, percebemos, a partir da imagem enuciativa de Aliócha, a ação de transgressão genérica no ato de linguagem pela multiplicidade enunciativa que o herói desempenha na trama: irmão; amigo; messias; puritano; amante; filho; ateu; religioso; revolucionário; noviço e assassino.

Nesse sentido, confirmamos a intensa atividade transgressiva que ocorre no ato comunicacional da qual Dostoiéviski, ao utilizar o recurso de desarranjo - transgressão da unidade do sujeito nos discursos, brinca com o não-um da subjetividade e cria na insuficiência e impotência da imagem do herói em cada discurso a possibilidade desse herói fazer percurso para a busca de certa verdade e saber que lhe falta.

A dicotomia já está implantada dentro de Aliócha, o assassinato, a acusação e absolvição se organizaram como elementos que fazem parte da estrutura de sujeito ou de sua função como herói. Todo o humano deverá passar por sua sentença para descobrir ou elaborar sua liberdade: "- Tem razão, é impossível decidir antes da sentença. Depois do julgamento, você mesmo verá; haverá em você um homem novo que decidirá" (fala de Aliócha a Dimitri) (Dostoiévski, 2001, p. 584). É necessário o encontro das contradições, a reunião das disjunções, o espírito carnavalesco para a criação de verdade como função de real num saber que liberta e opera sujeito. A imagem do herói é carnavalizada, o herói é satânico; messiânico; é o bobo da corte. Pura ironia que lampeja o efeito de verdade. Na montagem desse herói carnavalizado, que tem a transgressão por missão, Dostoiévski transgride o imaginário literário da figura do herói como uma pessoa possuída pela bondade; o herói é o assassino do pai, ama o crime, fomentou, e trabalhou, nos diversos diálogos o acontecimento da morte do pai, morte necessária para libertação e acontecimento de seu devir como herói. O assassino é amado e cortejado por todos. É assim que o leitor deverá trabalhar a construção de quem é esse herói, pois, além de não se tratar de um herói escrito e determinado por uma única voz de escritor, o efeito de verdade que será transmitido pelo herói na obra requer um estado de abertura, aceitação e participação (elaboração) da subjetividade da instância leitora.

 

Considerações finais

A dinâmica da transgressão de gênero na obra de Dostoiévski é polivalente e engloba por completo as três categorias de transgressão genérica mencionadas anteriormente. Mas, ressaltamos, a partir da transgressão simples de gênero, que a escrita dostoievskiana manifestou no seio literário de sua época toda uma desconstrução da cenografia literária ao apresentar uma composição de personagens povoados por múltiplos sujeitos num único ato de linguagem. Assim, o legado de Dostoiévski à literatura reside notadamente em sua capacidade de aproximar o dialogismo vivo da linguagem do seu projeto de escritura. Para isso, o autor utiliza o recurso da polifonia, pela manifestação das diversas imagens ou lugares vazios dos discursos, dos quais o sujeito se fragmenta e ocupa com a intenção de se reconstituir numa imagem a mais próxima possível que o represente. Mas essa imagem rapidamente se esvanece e logo o sujeito é fadado à incessante procura de si mesmo pelo eterno e inacabável jogo da linguagem em que, no espelho do outro, algo de si mesmo pode ser encontrado.

 

REFERÊNCIAS

AUTHIER-REVUZ, J. Hétérogénéité montrée et hétérogénéité constitutive, éléments pour une approche de l'autre dans le discours. DRLAV, Paris, n. 2, p. 90-150, 1982.         [ Links ]

______. Palavras incertas: as não coincidências do dizer. Trad. Mónica Zoppi-Fontana et al. Campinas: Editora da Unicamp, 2001.         [ Links ]

BAKHTIN, M. Problemas da poética de Dostoiévski. Trad. Paulo Bezerra. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1981.         [ Links ]

BAKHTIN, M. (VOLOSHINOV). Marxismo e filosofia da linguagem. Problemas fundamentais do método sociológico na ciência da linguagem. Trad. Michel Lahud e Yara F. Vieira. São Paulo: HUCITEC, 1988.         [ Links ]

BAKHTINE, M. Pour une philosophie de l'acte. Traduit du Russe par Ghislaine Capogna Bardet. Lausanne: L'Age D'homme, 2003.         [ Links ]

DOSTOIÉVSKI, F. M. Os irmãos Karamázov. 3. ed. Trad. Natália Nunes e Oscar Mendes. Rio de Janeiro: EDIOURO, 2001.         [ Links ]

LACAN, Jacques. El origen de los géneros. In: GALLARDO, Miguel A. Garrido (Org.). Teoría de los géneros literarios. Madrid: Lecturas, 1988. p. 31-48.         [ Links ]

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SOUSA, J. M. C. de. Uma análise da função transgressiva dos múltiplos sujeitos na obra Os irmãos Karamázov, de Fiódor M. Dostoiévski. Belo Horizonte, 2010, 273p. Tese de doutorado (Linguística) – Faculdade de Letras, Universidade Federal de Minas Gerais.         [ Links ]

 

 

Recebido em 24/04/2011
Aprovado em 21/09/2011

 

 

1 Acatamos o problema de reconhecimento da autoria de determinadas obras que foram dadas como produções de Bakhtin no contexto em que foi denominado de ciclo bakhtiniano. Contudo adotamos a postura de referenciar todas as obras como bakhtinianas, não por postura de defesa de uma ou outra posição, mas pelo simples fato de organizar e facilitar no texto uma orientação de nomenclatura mais uniforme. Também consideramos a obra/tradução brasileira utilizada, respeitando a autoria aí apresentada.
2 Tradução dos autores de: "Un nuevo género es siempre la transformación de uno o de varios géneros antiguos: por inversión, por desplazamiento, por combinación".
3 Tradução dos autores de: "Toutes les tentatives de pénétrer dans l'être-événement réel à partir de l'intérieur du monde théorique sont sans espoir; il est impossible d'ouvrir le monde connu théoriquement du dedans de la connaissance elle-même jusqu'à atteindre le monde réel singulier. Toutefois, à partir de l'acte-comme-acte et non de sa transcription théorique, il y a une issue que mène à son contenu de sens, qui est intégralement accepté et inclus de l'intérieur de cet acte, car l'acte s'accomplit réellement dans l'être".
4 O termo empregado por Authier-Revuz tem por consideração a estrutura descrita como "conotação autonímica", ou seja, uma forma de modalizar a reflexão que ocorre sobre o dizer de um locutor. Essa modalização que ocorre na estrutura do enunciado tem por finalidade marcar a divisão que opacifica o dizer. Essa manifestação pode ser apreendida na forma que o enunciador comenta seu próprio dizer, marcando e testemunhando, assim, um desdobramento da enunciação. Desta forma, a autora representa as quatro "não-coincidências" existentes no seio do discurso, a saber: a não coincidência interlocutiva; a não coincidência do discurso consigo mesmo; a não coincidência entre as palavras e as coisas; a não coincidência das palavras.
5 A metaenunciação é a forma com que o locutor pode, em seu dizer, comentar ou fazer referência a algo do seu dizer de sua própria enunciação. Esse retorno ou comentário que regulariza as modalidades autonímicas representa a enunciação como "não-coincidente consigo mesma". Isso denuncia a nãounicidade do enunciador no seu dizer, promovendo a clivagem nesse dizer e distanciando o enunciador de suas palavras, fazendo-o ser um autocomentador de si mesmo e daquilo que ele diz.
6 "Agripina", empregado por Mítia com intenção notadamente irônica, tem em russo um matiz mais distinto do que a forma habitual "Agrafiena" (nota em Dostoiévski, p. 2001, 376, grifo nosso).