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Bakhtiniana: Revista de Estudos do Discurso

On-line version ISSN 2176-4573

Bakhtiniana, Rev. Estud. Discurso vol.9 no.1 São Paulo Jan./July 2014

https://doi.org/10.1590/S2176-45732014000100007 

ARTIGOS

 

O encadeamento argumentativo como doador de sentido na análise dialógica do discurso e na semântica argumentativa

 

 

Telisa Furlanetto GraeffI; Rafael de Souza TimmermannII

IUniversidade de Passo Fundo - UPF, Passo Fundo, Rio Grande do Sul, Brasil; telisagraeff@yahoo.com.br
IIUniversidade de Passo Fundo - UPF, Passo Fundo, Rio Grande do Sul, Brasil; rafaeltimmermann@yahoo.com.br

 

 


RESUMO

Este trabalho tem por objetivo comparar a construção dos sentidos dos enunciados com base em ideias de Discourse in Life and Discourse in Art de Voloshinov (2012), e na teoria da Argumentação na Língua de Ducrot e Anscombre (1983), mais especificamente, na sua versão técnica atual - a Teoria dos Blocos Semânticos - proposta por Carel (1995) e desenvolvida hoje juntamente com Ducrot. Trata-se, na análise dialógica, de buscar a senha necessária para a compreensão do enunciado e, na análise argumentativa, de seguir a orientação argumentativa das entidades linguísticas, que indicam continuações possíveis, interditando outras. Nos dois casos, o enunciado pode ser respondido, quando constitui um encadeamento argumentativo, comparado por Voloshinov a um entimema cuja premissa principal foi explicitada, e entendido por Ducrot e Carel como dois predicados unidos por donc ou por pourtant, entre os quais se estabelece uma interdependência semântica que cria um sentido único, representação discursiva da realidade.

Palavras-chave: Dialogismo; Enunciado; Encadeamento argumentativo; Entimema; Semântica argumentativa


 

 

Introdução

Este artigo compara dois modos de construir o sentido de um enunciado. O primeiro, tomado de Discourse in Life and Discourse in Art - Concerning Sociological Poetics, de Voloshinov1, segundo o qual o dito deve ser complementado com uma pesquisa contextual/enunciativa, e o outro, proposto pela Teoria dos Blocos Semânticos (TBS), desenvolvida atualmente por Ducrot e Carel, considerada a forma mais radical da Teoria da Argumentação na Língua (ADL2) de Anscombre e Ducrot, cuja ideia central é que os sentidos são constituídos somente por tipos de argumentação.

Numa primeira parte, focalizaremos as ideias de Voloshinov sobre a construção do sentido de enunciados, que apontam para a compreensão de um entimema, produzido a partir do dito; na segunda, apresentaremos a ideia, cara à ADL, de que o sentido das entidades linguísticas são as continuações que elas permitem, isto é, que a construção do sentido deriva da relação sintagmática, discursiva que as entidades realizam. Mostraremos essa noção de encadeamento argumentativo como doador de sentido e as modificações por que passou durante as três fases da ADL, até chegar à sua descrição na TBS. Segundo esta última, todo enunciado é parafraseável por discursos argumentativos, ou seja, por encadeamentos sintáticos de duas frases, ligadas por um conector que pertence ou à família das conjunções consecutivas, como portanto (donc) (discursos normativos), ou à família das conjunções opositivas, como mesmo assim (pourtant) (discursos transgressivos).

A última parte deste artigo será dedicada à comparação das duas maneiras, tratadas aqui, de construir o sentido de enunciados: a baseada em ideias de Discourse in Life and Discourse in Art - Concerning Sociological Poetics, de Voloshinov; e outra com base na teoria da Argumentação na Língua de Ducrot e Anscombre, mais especificamente, na sua versão técnica atual - a Teoria dos Blocos Semânticos - , proposta por Carel e desenvolvida juntamente com Ducrot. Vai-se mostrar que, nos dois casos, o enunciado pode ser respondido, quando dele se pode evocar um encadeamento argumentativo, entendido por Voloshinov como um entimema, do qual se explicitou a premissa principal, e por Ducrot e Carel como dois predicados unidos por donc (=DC)3 ou por pourtant (=PT), entre os quais se estabelece uma interdependência semântica que cria um sentido único, isto é, um único julgamento argumentativo, que pode ser expresso por um predicado argumentativo.

 

1 A construção do sentido do enunciado na concepção dialógica de linguagem

O enunciado, que na proposta dialógica se funde aos conceitos de texto, enunciação e discurso, ganha vida e sentido em sua situação enunciativa real, composta não somente pelas escolhas linguísticas realizadas e expressas, mas também, principalmente, pelos fatores externos que compõem os horizontes dos participantes do diálogo, ou seja, locutor, interlocutor(es) direto(s) e/ou indireto(s), sócio-historicamente situados, e, ainda, o objeto (assunto) ao qual o locutor se refere. Para Voloshinov (2012, p.157), "o discurso verbal, tomado em seu sentido mais amplo como um fenômeno da comunicação cultural, deixa de ser alguma coisa autossuficiente e não pode mais ser entendido independentemente da situação social que o engendra"4.

Os fatores extraverbais não atuam separadamente sobre o enunciado. Eles são parte intrínseca dele, uma vez que o sentido é construído apenas quando o conjunto componente de todos os fatores é compreendido, fazendo do enunciado concreto um evento único e irrepetível, portador de um único sentido, entendido pelos envolvidos na cena enunciativa. Aí se situa a diferença entre frase e enunciado no pensamento bakhtiniano: a frase, o conjunto de signos articulados e sintaticamente organizados, retirada de seu contexto enunciativo, é repetível e possui uma significação capaz de ser percebida pelos falantes do idioma ou de uma comunidade específica. Já o enunciado possui um sentido, unicamente revelado pelo contexto enunciativo e, por isso, é irrepetível. A respeito disso, Todorov (1981, p.69) comenta que "a diferença entre o enunciado e a frase (ou oração), unidade de língua, consiste no fato de que o primeiro é necessariamente produzido num contexto particular, e que é sempre social, enquanto a segunda não necessita de contexto"5.

Apesar de Bakhtin e Voloshinov diferirem quanto à efemeridade do enunciado, como ressalta Bubnova (2009) - para Voloshinov (2012) o enunciado nasce, vive e morre no processo de interação social da enunciação e para Bakhtin (2011) o enunciado renasce quando um novo interlocutor se apropria da enunciação, dando a este enunciado um novo sentido - , percebe-se a ênfase dada pela proposta do Círculo de Bakhtin à realidade social da linguagem e à construção dialógica do sentido dos enunciados. A respeito disso, Brait e Melo (2005, p.65) comentam que "a linguagem é concebida de um ponto de vista histórico, cultural e social que inclui, para efeito de compreensão e análise, a comunicação efetiva e os sujeitos nela envolvidos".

No texto Discourse in Life and Discourse in Art, assinado por Voloshinov e publicado originalmente em 1926, tem-se a visão do Círculo no que diz respeito à construção do sentido de um enunciado. O autor (2012) promove a discussão a partir do exemplo de dois homens em uma sala. Um deles, ao perceber que começara a nevar novamente, exprime seu pensamento com o enunciado monolexemático Bem. O outro homem não responde.

Isoladamente, o advérbio6 é praticamente vazio de significado. Entretanto, a partir desse exemplo, Voloshinov (2012) apresenta os fatores que, juntos, constroem o sentido concreto desse enunciado. Para ser compreendido de forma completa, deve-se levar em consideração o contexto extraverbal, que é composto por três fatores: o horizonte espacial comum dos interlocutores; o conhecimento e a compreensão comum da situação; e a avaliação comum da situação.

O horizonte espacial comum dos interlocutores refere-se ao que é visível pelos participantes do diálogo, no caso do exemplo, a janela, a sala e a neve eram vistas por ambos. O conhecimento/compreensão da situação é composto pelos fatores pré-concebidos pelos sujeitos.

No exemplo, supõe-se que ambos sabiam que já era época de a primavera iniciar-se e que estavam cansados do inverno rigoroso que perdurava mais do que deveria. A avaliação é dada, de forma unânime, pelos participantes do diálogo, no momento em que, desapontado, cansado e ansioso pela primavera, um deles exprime o discurso e o outro, com o silêncio, concorda com o sentido atribuído ao enunciado. De acordo com Voloshinov (2012, p.164), "Qualquer que seja a espécie, o enunciado concreto sempre une os participantes da situação como coparticipantes que conhecem, entendem e avaliam a situação de maneira igual"7.

A articulação dos fatores externos ao conteúdo verbal - os horizontes espaciais, tanto aquele mais direto, restrito, imediato, que diz respeito ao momento da enunciação, quanto o horizonte mais amplo, mediato, que reflete a relação que os participantes do enunciado possuem com os contextos sócio-histórico-ideológicos em que estão inseridos; a compreensão da situação em si e a avaliação comum do objeto ao qual se refere o enunciado, no caso, o fato de estar nevando em um início de primavera - conduz à compreensão do enunciado. A omissão verbal desses fatores, segundo Voloshinov (2012), assemelha o enunciado concreto a um entimema, entendido como um silogismo do qual se omitiu uma das premissas, que é, no entanto, conhecida e compreendida pela comunidade linguística em que a enunciação é realizada. De acordo com Todorov (1981, p.68), "a parte presumida do enunciado não é nada mais do que o horizonte comum dos locutores, composto por elementos espaço-temporais, semânticos e avaliativos"8.

Para a retórica clássica (BARTHES, 1975), há dois tipos não contrários de entimemas: um deles, de base aristotélica, é relacionado à verossimilhança contextual que possibilita a compreensão popular da premissa omitida no enunciado pelo povo (interlocutor). Para o autor (1975, p.188), esse tipo de entimema "é uma dedução de valor concreto, feita para uma apresentação (uma espécie de espetáculo aceitável), em oposição à dedução abstrata, feita unicamente para a análise". O outro tipo compreende a ideia do entimema como uma forma abreviada do silogismo (composto por uma premissa maior, uma menor, e uma conclusão), pois omite uma das premissas. Para Rifo e Alvarado (2002, p.35), o "entimema não explica, não demonstra, apenas cria um laço de sucessão dedutiva cujo questionamento passa pelo descobrimento de um enunciado subjacente"9. Analisemos o seguinte exemplo: Esta maçã é verde, portanto é ácida. A premissa maior, que é uma generalização apressada, está subentendida: Todas as maçãs verdes são ácidas.

O entimema é, nas palavras de Barthes (1975, p.189), "um silogismo truncado pela supressão (no enunciado) de uma proposição, cuja realidade parece incontestável aos olhos dos homens e que, por tal razão, fica simplesmente 'guardada no espírito' (em thymo)".

Depreende-se dessa definição que somente o social pode ser presumido. Relativamente ao individual, Voloshinov (2012, p.165) entende que "emoções individuais podem surgir apenas como sobretons, acompanhando o tom básico da avaliação social. O 'eu' pode realizar-se verbalmente apenas sobre a base do 'nós'10". Os elementos valorativos presumidos são do coletivo, reconhecidos por todos (ou, ao menos, pelos componentes de uma determinada comunidade linguística, por exemplo).

A palavra não articulada com sua realidade enunciativa concreta presumida é vazia. O fator sociológico, a entonação, não está presente naturalmente na palavra. A entonação aparece no enunciado como a fronteira entre os fatores verbais e os fatores extraverbais, conectando o locutor com o(s) interlocutor(es) na situação enunciativa, colocando em pauta a atmosfera social que os engendra (VOLOSHINOV, 2012). Ela é, nas palavras do autor, o apoio coral representativo do contexto social dos participantes da enunciação.

No exemplo dos dois homens que viam a neve tardia cair, a entonação parte da análise comum de ambos, locutor e interlocutor, de repúdio ao inverno que se prolongava e do desejo pela primavera. Essa avaliação presumida, de acordo com Voloshinov (2012), fornece a base evidente para a entonação. No entanto, a entonação poderia ter sido diferente caso o apoio social/contextual (que o autor chama de apoio coral) não fosse claro e não representasse a certeza do locutor de que o interlocutor avaliara a situação da mesma forma.

Diante da neve caindo em um inverno prolongado, o locutor, ao enunciar Bem, convida seu interlocutor a se aliar a ele na reprovação, na crítica ao tempo. No entanto, essa reprovação não é direcionada ao interlocutor, mas sim a um terceiro participante do diálogo que Voloshinov (2012) chama de herói. O herói pode ser compreendido como uma espécie de materialidade viva, presente no discurso. "Frequentemente, o 'herói' é meramente uma coisa inanimada, alguma ocorrência ou circunstância na vida"11 (VOLOSHINOV, 2012, p.172).

O enunciado, então, além de ser dirigido ao interlocutor, é dirigido ao herói. Nesse sentido, a respeito dessa dupla direção, Voloshinov (2012, p.173) esclarece que

cada instância de entonação é orientada em duas direções: com relação ao ouvinte como aliado ou testemunha, e outra em relação ao objeto do enunciado como um terceiro participante, vivo, a quem a entonação repreende ou agrada, denigre ou engrandece. Esta orientação social dupla é o que determina todos os aspectos da entonação e a torna compreensível 12.

Esse herói, no caso do exemplo, recebe a reprovação do homem. Expressa uma metáfora entonacional, ou seja, o sentido atribuído ao enunciado é constituído pela entonação apresentada com um tom irônico, conduzindo o interlocutor a apoiar a crítica ao responsável pela neve tardia.

A metáfora entonacional possui, em seu interior, a possibilidade de uma metáfora semântica usual (VOLOSHINOV, 2012). Para o autor, "se fosse para realizar esta possibilidade, a palavra 'bem' se expandiria em alguma expressão metafórica tal como: 'Que inverno teimoso! Ele não vai parar, e Deus sabe que é hora'"13 (2012, p.171).

O discurso, o enunciado, ao ser desarticulado dos fatores extraverbais perde seu caráter social, logo, seu sentido. "O discurso verbal é um evento social"14 (VOLOSHINOV, 2012, p.174). A substância real da língua não é composta pela abstração das formas linguísticas expressas ou pelo processo psicológico individual de sua formação. Para Todorov (1981, p.67), "a matéria linguística constitui apenas uma parte do enunciado: há também uma outra parte, não-verbal, que corresponde ao contexto da enunciação"15.

Na discussão e crítica às concepções de linguagem da época, o objetivismo abstrato e o subjetivismo individualista, Voloshinov (2009) comenta que o sentido de um enunciado não se encontra na materialidade verbal não articulada com a realidade exterior das palavras e, da mesma forma, a psiquê individual do locutor não é a base formadora de sentido para os enunciados: a realidade concreta da língua é a interação social realizada nos enunciados, que têm a função de comunicar e por isso o papel do ouvinte sempre deve ser considerado na realização da enunciação.

O interlocutor (ouvinte) é parte fundamental na construção do sentido, porque o locutor faz uma pré-avaliação do seu interlocutor para realizar determinado enunciado: a conclusão estará no outro. Nesse momento, o interlocutor passa a ser responsável pela continuação do diálogo (não necessariamente com outro enunciado, mas com uma ação, ou, até mesmo, um silêncio). Na alternância dada entre um enunciado e outro, pode-se compreender que uma das características do enunciado é sua capacidade de gerar a necessidade de uma resposta, é a atitude responsiva instigada pelo enunciado (BAKHTIN, 2011).

Assim, a totalidade do sentido do enunciado concretiza-se na inter-relação entre locutor/interlocutor e suas avaliações sobre determinado assunto/objeto, e o contexto extraverbal dos participantes do diálogo, tanto mais amplo, quanto mais restrito. A atitude responsiva do interlocutor, após a realização do enunciado pelo locutor, promove a conclusibilidade do enunciado.

Na sequência deste artigo, será tratada a construção do sentido dos enunciados segundo a Teoria da Argumentação na Língua em suas diferentes fases.

 

2 A construção do sentido do enunciado na teoria da Argumentação da Língua: da fase standard à TBS, fase atual

A Teoria dos Blocos Semânticos originou-se na Teoria da Argumentação na Língua, criada por Oswald Ducrot e Jean-Claude Anscombre (1983), resultado de reflexões sobre o sentido argumentativo das palavras, que descarta completamente o sentido informativo. Percorrendo suas três fases, podem-se acompanhar as modificações sofridas pela própria noção de encadeamento argumentativo.

Na primeira fase da ADL, conhecida como forma standard, é apresentada a ideia de que as palavras não têm sentido antes das conclusões delas tiradas, como se pode conferir nos enunciados: Faz sol, vamos sair. Faz sol, não vamos sair. Nesses dois enunciados, o valor semântico da expressão faz sol varia, conforme as conclusões que se tirem dela. Num caso, o sol é favorável ao passeio; em outro, desfavorável.

Uma das principais evidências desse valor argumentativo das palavras, em detrimento de seu valor informativo, é o fato percebido por Ducrot e Anscombre (1983) de que, em diversas línguas, existem pares de frases cujos enunciados designam o mesmo fato, quando o contexto é o mesmo, sendo as argumentações, possíveis a partir desses enunciados, completamente diferentes. Como exemplo, considere-se o par de enunciados: João comeu pouco no almoço e João comeu um pouco no almoço. Observe-se que, nos dois casos, trata-se da ingestão de uma pequena quantidade de alimento. No entanto, do primeiro pode-se concluir negativamente e, do segundo, positivamente, ou vice e versa.

A ideia de que as conclusões possíveis, a partir de enunciados como esses, são radicalmente opostas passa a ser contestada, principalmente com base na percepção de que os dois enunciados acima podem autorizar conclusões iguais, dependendo de como é vista a ingestão de alimentos, se como prejudicial ou benéfica. Ducrot (1990) e colaboradores perceberam, em outras palavras, que, com operadores como pouco e um pouco, por exemplo, podia-se chegar à mesma conclusão, bastando, para tanto, que fossem utilizados diferentes princípios argumentativos, os quais garantiriam a passagem do argumento para a conclusão. A esses princípios argumentativos Ducrot chama topoi, termo que toma de Aristóteles, modificando, contudo, seu sentido. Para Aristóteles, segundo Ducrot (1990, p.102), um topos é uma espécie de depósito no qual um orador pode encontrar toda classe de argumentos que servem para defender sua tese. Ducrot emprega o termo topos num sentido mais restrito, uma vez que, para ele, os topoi são crenças, lugares comuns argumentativos cuja função é orientar o argumento em direção à conclusão. Em outras palavras, são princípios argumentativos "comuns, coletivos e graduais" (p.102) que justificam a passagem do argumento para a conclusão, constituindo um trajeto argumentativo. A inclusão dos topoi determina a mudança da forma standard da ADL para a chamada forma standard ampliada.

Ducrot (1990, p.94) explicita a noção e o funcionamento dos topoi por meio dos exemplos que seguem:

(19) Trabalhou um pouco, vai ter êxito.

(Ha trabajado un poco, va a tener éxito.)

(20) Trabalhou pouco, vai fracassar.

(Ha trabajado poco, va a fracasar.)

(21) Trabalhou pouco, vai ter êxito.

(Ha trabajado poco, va a tener éxito.)

Caso se pense que o trabalho conduz ao êxito, os enunciados (19) e (20) são perfeitamente possíveis. Mas, se cremos que o trabalho é causa de fracasso, temos como possível o enunciado (21). Podemos tirar uma mesma conclusão do enunciado com pouco e um pouco. Tudo depende da ideia que o locutor tem de trabalho. Como é o caso dos exemplos (19) e (21) em que se tem a mesma conclusão, embora se chegue a ela por caminhos diferentes, os quais são justificados por meio de um topos, visto como o intermediário entre o argumento e a conclusão. Para chegar à mesma conclusão, a partir de dois argumentos distintos, manifestam-se dois topoi diferentes como o trabalho conduz ao êxito; o trabalho conduz ao fracasso.

Se, na forma standard, o potencial argumentativo era definido em termos de conclusões possíveis, nesta última, o potencial argumentativo é o conjunto de topoi que pode ser evocado por uma entidade determinada. No desenvolvimento da ADL, a noção de topos será substituída pela noção de bloco semântico, como se poderá acompanhar na sequência deste trabalho. Carel e Ducrot desenvolveram a Teoria dos Blocos Semânticos, proposta como uma nova versão técnica da teoria da Argumentação na Língua. Essa terceira fase da ADL radicaliza a rejeição à divisão tradicional entre semântica e pragmática, explicitando a concepção segundo a qual o caráter argumentativo de um encadeamento é definido pela interdependência entre os seus dois segmentos. Para Carel (2001), esse fenômeno é chamado de interdependência semântica, porque, em dois tipos de encadeamentos - consecutivos (em donc) e concessivos (em pourtant) -, se manifesta um mesmo fato fundamental, a saber, que cada um dos predicados encadeados toma somente seu sentido na relação com o outro. Observe-se, por exemplo, que tanto o enunciado Pedro trabalha, então tem dinheiro quanto Pedro trabalha mesmo assim não tem dinheiro expressam a ideia de que quem trabalha tem dinheiro. A diferença entre eles é que, enquanto o primeiro (normativo) representa a regra, o segundo (transgressivo) desobedece-a. Em discursos desses dois tipos, o sentido do primeiro segmento é determinado pelo segundo segmento e vice-versa, de modo tal que não há uma relação de inferência entre os segmentos, mas de interdependência semântica. Trata-se de um trabalho que conduz ao sucesso e de um sucesso que só é conseguido pelo trabalho. É o que explica Carel no trecho que segue:

Minha noção de argumentação nada tem a ver com aquela de inferência. Esta última, com efeito, repousa sobre uma ideia de passagem, ao fim da qual um enunciado (argumento) transmitiria sua veracidade a um novo enunciado (a conclusão). Minha noção de argumentação, ao contrário, supõe uma dependência de dois segmentos. Não há, para mim, num encadeamento argumentativo, qualquer progresso informativo. É um único ponto de vista que é desenvolvido, ou sob um ângulo normativo, ou sob um ângulo transgressivo (2001, p.7).

Essa nova proposta abre mão da noção de topos e introduz, entre outros conceitos, os de bloco semântico, de aspecto normativo e transgressivo, de argumentação interna e externa, como se verá a seguir.

Segundo Carel e Ducrot (2005), a principal ideia da teoria é que o sentido de uma expressão está dado pelos discursos argumentativos que podem ser encadeados a partir dessa expressão. Marion Carel (1995), ao propor a TBS, deu-se conta de que, na realidade, a Teoria dos Topoi contrariava a ADL, pois baseava a argumentação em elementos existentes no mundo exterior, enquanto o que se tentava estabelecer é que a argumentação era de ordem puramente linguística.

A TBS reitera que o sentido de uma entidade linguística não é constituído por coisas, fatos, crenças psicológicas, estando fundamentado por certos discursos que essa entidade linguística evoca. Discursos esses que constituem encadeamentos argumentativos, os quais se definem pela articulação de dois predicados ligados pelos conectores DC (portanto) e PT (mesmo assim). Essas duas partes do encadeamento constituem um único sentido. Como se pode perceber, nos enunciados João tem muito dinheiro DC (portanto) é feliz e João tem saúde DC (portanto) é feliz, não se trata da mesma felicidade. No primeiro enunciado, João é feliz devido à sua riqueza e, no segundo, é devido à sua saúde. A interpretação do primeiro e do segundo segmentos, nos dois enunciados, não é feita separadamente, pois a ideia é indecomponível. Há uma unidade semântica, ou seja, a sequência dos dois segmentos produz sentido somente se estiverem juntos. Constituem-se, desse modo, dois blocos semânticos distintos entre si: dinheiro/felicidade e saúde/felicidade, os quais, no exemplo em foco, estão em seu aspecto normativo, podendo ser expressos, também, em seu aspecto transgressivo: João tem muito dinheiro, PT não é feliz e João tem saúde PT não é feliz. Cada aspecto tem seu recíproco. No caso do enunciado João tem muito dinheiro DC é feliz, o aspecto normativo recíproco seria João não tem muito dinheiro DC não é feliz. Já aspectos transgressivos recíprocos seriam João não tem muito dinheiro PT é feliz e João tem muito dinheiro PT não é feliz. A relação semântica argumentativa que dinheiro e felicidade constroem solidariamente pode ser expressa pelo discurso: Quem tem dinheiro é feliz, o qual pode ser visto positiva ou negativamente. O fato de se poder generalizar não impede que se possam expressar as exceções pelo aspecto transgressivo (encadeamento em PT). Assim um bloco semântico apresenta vários aspectos: os recíprocos, positivo e negativo; os conversos, normativo e transgressivo, como se evidenciou nos enunciados anteriores, além dos aspectos transpostos, positivo normativo e negativo transgressivo, ou negativo normativo e positivo transgressivo.

Na citação a seguir, Carel destaca uma questão fundamental para o estabelecimento da diferença entre os aspectos normativos e transgressivos:

Em particular, segundo minha terminologia, o encadeamento Pedro é rico, portanto é infeliz (...) é normativo. Por certo, ele é contrário às crenças sociais. Mas isso não faz dele o que eu chamo de encadeamento transgressivo. Ele é, ao contrário, normativo, porque, tanto quanto Pedro é rico, portanto é feliz (...), ele vê a regra (a riqueza traz infelicidade) como uma prescrição. O encadeamento Pedro é rico, portanto é infeliz deve, então, ser bem diferenciado de Pedro é rico, mesmo assim é infeliz: o primeiro contradiz a regra segundo a qual a riqueza traz felicidade; o segundo se contenta em desobedecê-la (2005, p.4).

Cumpre referir, ainda, que se deve considerar a existência dos dois modos de argumentar de uma entidade linguística: o externo e o interno. Segundo Carel e Ducrot (2005), a argumentação externa é tida como a pluralidade dos aspectos constitutivos do sentido da entidade na língua, e que são a ela ligados de modo externo. Em outras palavras, refere-se aos encadeamentos argumentativos que podem anteceder ou seguir essa entidade. Por isso a argumentação externa (AE) pode ser AE à direita e AE à esquerda.

Confiram-se os exemplos:

AE à direita de prudente: É prudente DC (portanto) não terá acidentes. É prudente PT (mesmo assim) terá acidentes.

AE à esquerda de prudente: Revisa o carro DC (portanto) é prudente. Não revisa o carro PT é prudente.

Note-se que as argumentações externas de uma entidade linguística são pares formados por um encadeamento normativo e outro transgressivo, o que permite distinguir definitivamente uma argumentação normativa de uma inferência lógica. Carel e Ducrot (2008, p.10-11) explicam que os dois encadeamentos - o normativo e o transgressivo correspondente - "(...) estão igualmente inscritos, ao menos como possibilidades, na significação da frase realizada pelo enunciado - o que impede de apresentar este último como uma justificativa que impõe uma conclusão".

Já, relativamente à argumentação interna (AI) de uma entidade linguística, esclarecem os referidos autores tratar-se de encadeamentos em DC ou em PT que "constituem equivalentes mais ou menos próximos dessa expressão, eventualmente paráfrases ou reformulações" (CAREL; DUCROT, 2008, p.11). Sublinham que a entidade em questão não pode ser um segmento do encadeamento que a parafraseia, nem comportar também o aspecto converso. Assim, a AI de prudente poderia conter o aspecto perigo DC precaução ou outro como perigo DC desistir. Já os aspectos transgressivos correspondentes - perigo PT não precaução e perigo PT não desistir - seriam AI de imprudente.

Ducrot (in CAREL; DUCROT, 2005, p.14-16) mostra que a oposição entre transgressivo e normativo encontra-se no interior das próprias palavras, inclusive daquelas que não parecem ter essa significação. Compara os enunciados (1) e (2):

(1) Ih! Pedro está aí.

[Tiens! Pierre est là.]

(2) É evidente, Pedro está aí.

[Bien sûr, Pierre est là.]

Mostra que, ao se dizer Ih! Pedro está aí, deixa-se entender que há razões para se pensar que ele não deveria estar, o que, esquematicamente, poderia ser representado por X MESMO ASSIM Pedro está aí. De outra parte, É evidente, Pedro está aí, permite entender que havia razões para se pensar que Pedro estaria ali, o que poderia ser representado, esquematicamente, por X PORTANTO Pedro está aí. Em síntese, Ih participaria de um encadeamento argumentativo transgressivo, enquanto É evidente participaria de um encadeamento argumentativo normativo.

No caso do exemplo proposto por Voloshinov no texto Discourse in Life and Discourse in Art, em que o autor sugere um enunciado simples, composto apenas pelo advérbio Bem, seria necessário analisar os encadeamentos possíveis, uma vez que sozinho esse lexema nada significa, pois, na TBS, são unidades semânticas básicas apenas os encadeamentos em DC e em PT.

Para tanto, vamos tomar a metáfora semântica da palavra Bem que, conforme Voloshinov (2012, p.171) está latente dentro dela, no berço e que, se fosse realizada, expandiria a palavra bem em expressões metafóricas como Que inverno teimoso! Ele não vai parar e Deus sabe que é hora16.

Para analisar o sentido desses enunciados, é necessário que se explicite o encadeamento argumentativo em DC ou em PT que eles permitem evocar. A análise de Bem, que inverno teimoso! exige que se busque a argumentação interna de teimoso, isto é, um encadeamento em PT ou em DC que parafraseie teimoso, como [não dever continuar x PT continuar x]. O encadeamento argumentativo que se pode evocar pela leitura de Bem, que inverno teimoso! é [o inverno não dever continuar PT continuar].

Já o discurso Ele não vai parar e Deus sabe que é hora, permite evocar dois encadeamentos como segue:

Ele não vai parar [o inverno deveria parar PT não parar]

Deus sabe que é hora de o inverno parar! [é hora de o inverno parar PT o inverno não parar]

Note-se que a orientação argumentativa do advérbio bem, em todos os casos analisados, é transgressiva, isto é, desobedece à norma de que o inverno tem época para terminar. Daí o tom de reprovação/indignação, e de certa ironia, contido nesses usos de bem. Caso a ele se seguisse a expressão que inverno obediente, em que a argumentação interna de obediente fosse [não dever continuar x DC não continuar x], de forma que a Bem, que inverno obediente! correspondesse o encadeamento [o inverno não dever continuar DC não continuar], bem teria uma orientação argumentativa normativa banal e perderia seu tom irônico.

Essas duas possibilidades correspondem a argumentações externas das entidades linguísticas, constituídas sempre por pares de encadeamentos normativos e transgressivos. Sublinhe-se que os encadeamentos argumentativos constroem, por sua própria existência, representações do mundo de que se fala, sendo, entretanto, restritos pela semântica intrínseca das palavras utilizadas, isto é, pela sua argumentação interna. Nessa perspectiva, o encadeamento argumentativo da TBS distancia-se, definitivamente, do sentido retórico de entimema.

 

Conclusões

Tanto na perspectiva de Voloshinov quanto na de Ducrot e Carel, o lexema bem não teria sentido sozinho, visto que, nas duas abordagens, é negada a existência de um sentido literal, independente do uso da palavra no discurso. Em lugar desse sentido fixo, dicionarizado, a TBS propõe que as entidades linguísticas isoladas sejam descritas por encadeamentos argumentativos em DC ou em PT, que constituem suas argumentações internas. Essa argumentação interna vai conferir orientação argumentativa para seu uso no discurso, isto é, para a formação de novos encadeamentos pelas continuações possíveis e pela interdição de outras. Nas palavras de Carel (2012, p.43-44), "A ideia fundamental é que um enunciado 'significa' encadeamentos argumentativos, mais precisamente encadeamentos prefigurados pelos aspectos inscritos na significação das palavras que os constituem"17.

No caso da análise de Bem, apresentada por Voloshinov, a busca de fatores extralinguísticos permite a compreensão conjunta do enunciado pelo locutor e interlocutor. Essa busca produz um saber aceito por ambos que, então, concordam com o tom com que o advérbio é enunciado. Esse conhecimento partilhado, que Voloshinov (2012) chama de presumido, ou senha, para que a compreensão dos enunciados possa se realizar, guarda muita semelhança com o topos, definido na fase da ADL standard ampliada, como um princípio argumentativo que garantia a passagem de um argumento a uma conclusão. No caso em foco, garantiria a passagem de Bem para as continuações apresentadas por Voloshinov como metáfora semântica usual.

É de se crer que a ideia da ADL standard ampliada de que o encadeamento argumentativo é unidade semântica básica possa ser aplicada à compreensão de enunciados na perspectiva da Análise Dialógica do Discurso (ADD), quando a entidade linguística é vivificada e transformada num encadeamento argumentativo passível de ser respondido, cujos predicados são garantidos por um princípio argumentativo comum, partilhado pelos participantes do enunciado verbal concreto. Nessa fase da ADL, enunciado era entendido como uma unidade constituída por um argumento cuja conclusão era possibilitada por um princípio argumentativo (topos).

Da TBS, que não faz concessão nenhuma à ideia de passagem, de princípio que garante, de movimento argumentativo, uma vez que entende enunciado como uma unidade argumentativa de sentido formada pela interdependência semântica entre dois segmentos que constituem o encadeamento argumentativo, se poderia tomar a ideia de que são duas as unidades semânticas básicas: os encadeamentos em DC e os encadeamentos em PT, especialmente porque esses últimos se prestam à descrição da transgressão, da concessão, enquanto os primeiros se prestam a descrever discursos doxais, banais.

Pensa-se na análise de um enunciado, na perspectiva da ADD, como a realização de um movimento que, partindo do linguístico (argumento), vai ao mundo buscar um princípio argumentativo, na acepção que Ducrot lhe deu na ADL standard ampliada, de que ele é constituído de crenças, lugares comuns compartilhados por uma comunidade, cuja função é orientar o argumento em direção à conclusão, do que resultaria a compreensão do enunciado. Parece-nos que esse movimento argumentativo para constituição do sentido de um enunciado encontra-se como um esboço no texto Discourse in Life and Discourse in Art, de Voloshinov.

 

REFERÊNCIAS

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Recebido 20/11/2013
Aprovado 20/04/2014

 

 

1 Ambas as versões consultadas, realizadas por Todorov em francês e por Titunik em inglês, bem como a versão russa original, de 1926, são atribuídas a Voloshinov. De acordo com Faraco (2003), há dúvidas quanto à autoria das obras do Círculo. Neste trabalho, consideramos a autoria de Voloshinov em Discourse in Life and Discourse in Art - Concerning Sociological Poetics (anexo de Freudianism: a Marxist Critique) e Marxismo e filosofia da linguagem; e de Bakhtin em Estética da criação verbal.
2 ADL é a sigla correspondente ao nome da teoria da Argumentação na Língua em francês, isto é, L'argumentation dans la langue.
3 Na sequência deste artigo, será usada a sigla DC, para referir conectores do tipo de donc (portanto, em português), que constroem encadeamentos argumentativos normativos, e a sigla PT para referir conectores do tipo de pourtant (mesmo assim, em português), que constroem encadeamentos argumentativos transgressivos.
4 Verbal discourse, taken in the broader sense as a phenomenon of cultural communication, ceases to be something self-contained and can no longer be understood independently of the social situation that engenders it (tradução de Faraco e Tezza, cf. nota 6 adiante).
5 La differénce entre l'énoncé et la proposition (ou la phrase), unité de langue, consiste en ceci que le premier est nécessairement produit dans un contexte particulier, et que est toujours social, alors que la seconde n'a pas besoin de contexte (tradução nossa).
6 A tradução do texto realizada por Titunik apresenta o signo well enunciado no exemplo como um advérbio. No entanto, Todorov (1981), na versão em francês, entende tratar-se de uma interjeição. Neste trabalho, baseamo-nos na tradução de Titunik para o inglês e na tradução do inglês para o português, feita por Carlos Alberto Faraco e Cristóvão Tezza, que, embora não publicada, é bastante conhecida no meio acadêmico brasileiro. Há uma versão em português, publicada por Pedro e João Editores, em 2011, no apêndice do livro de Bakhtin, Palavra própria e palavra outra na sintaxe da enunciação, organizado por Valdemir Miotello. Essa versão em português foi realizada a partir da versão do russo para o italiano, feita por Luciano Ponzio.
7 Whatever kind it be, the behavioral utterance always joins the participants in the situation together as co-participants who know, understand, and evaluate the situation in like manner (tradução de Faraco e Tezza).
8 A part sous-entendue de l'énoncé n'est rien d'autre que cet horizon commun aux locuteurs, composé d'éléments spatio-temporels, sémantiques et évaluatifs (tradução nossa).
9 El entimema no explica, no demuestra, sólo funda un lazo de sucesión deductiva cuyo cuestionamiento pasa por el descubrimiento de un enunciado subyacente (tradução nossa).
10 Individual emotions can come into play only as overtons accompanying the basic tone of social evaluation. 'I' can realize itself verbally only on the basis of 'we' (tradução de Faraco e Tezza).
11 Often, the "hero" is merely some inanimate thing, some occurance or circumstance in life (tradução de Faraco e Tezza).
12 with respect to the listener as ally or witness and with respect to the object of the utterance as the third, living participant whom the intonation scolds or caresses, denigrates or magnifies. This double social orientation is what determines all aspects of intonation and makes it intelligible (tradução nossa).
13 Were this possibility to be realized, the word well would expand into some such metaphorical expression as: "What a stubborn winter! It just won't give up, though goodness knows it's time" (tradução de Faraco e Tezza).
14 Verbal discourse is a social event (tradução de Faraco e Tezza).
15 la matière linguistique ne constitue qu'une partie de l'énoncé; il existe aussi une autre partie, non verbale, qui correspond au contexte d'énonciation (tradução nossa).
16 What a stubborn winter! It just won't give up, though goodness knows it's time. (Tradução de Faraco e Tezza)
17 L'idée fondamentale est qu'un énoncé "signifie" des enchaînements argumentatifs, plus précisément des enchaînements préfigures par les aspects inscrits dans la signification des mots qui les constituent. (tradução nossa)

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