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Bakhtiniana: Revista de Estudos do Discurso

versão On-line ISSN 2176-4573

Bakhtiniana, Rev. Estud. Discurso vol.10 no.3 São Paulo set./dez. 2015

https://doi.org/10.1590/2176-457322367 

Artigos Inéditos (2) Linguagem, filosofia e arte

A arena discursiva das ruas e a condição pós-moderna: da manifestação à metacarnavalização

Anderson Salvaterra Magalhães* 

Maria Elizabeth da Silva Queijo** 

*Universidade Federal de São Paulo - UNIFESP, Guarulhos, São Paulo, Brasil; asmagalhaes@unifesp.br

**Universidade Federal de São Paulo - UNIFESP, Guarulhos, São Paulo, Brasil; elizabeth.queijo@gmail.com


RESUMO

Neste artigo, o objetivo é rastrear, na emergência de enunciados realizados em cartazes nas séries de manifestações de rua no Brasil em 2013 e mobilizados em rede, movimentos discursivos que sinalizam relevante alteração ética e política. De um ponto de vista dialógico de linguagem, descrevem-se as manifestações como cadeia comunicativa discursiva inspirada pelo processo de carnavalização. O espaço da rua e da praça pública, a alteração momentânea da ordem social cotidiana e a tensão ideológica que pode fomentar mudanças sociais autorizam a comparação entre a natureza discursiva das manifestações e a do processo de carnavalização. A partir daí, articulam-se teoria enunciativa e conceitos da filosofia contemporânea, como metanarrativa e condição pós-moderna, para interpretar a mudança de perspectiva axiológica flagrada em cartazes das manifestações. A análise esboçada indica que, discursivamente, de uma manifestação com pauta múltipla encaminha-se um movimento ideologicamente fragmentado que permite emergirem enunciados sem sentido, sugerindo a metacarnavalização do evento.

PALAVRAS-CHAVE: Condição pós-moderna; Carnavalização; Dimensão ético-política e estética da linguagem

ABSTRACT

The aim of this article is to show discursive moves in utterances realized in posters in the series of demonstrations that took place in Brazil in 2013 and were mobilized on-line. These moves signalize relevant ethical and political change. From a dialogic point of view, the demonstrations are described as a discursive communicative chain inspired by the process of carnivalization. The scenario of the streets and of the public square, the momentary alteration in the ordinary social order and the ideological tension which can promote social changes authorize the comparison between the discursive nature of the demonstrations and the carnival process. From that standpoint, concepts of contemporary philosophy, such as metanarrative and the postmodern condition, and the theory of the utterance are articulated in order to interpret the axiological change expressed by the posters. The analysis developed indicates that what started as a multiple agenda demonstration seems to have discursively changed into an ideologically fragmented movement. This fragmented movement allows meaningless utterances to emerge, suggesting that a metacarnivalization takes place.

KEYWORDS Postmodern Condition; Carnivalization; Ethical, Aesthetical, and Political Dimension of Language

Introdução

Dentre as várias manifestações de rua que eventualmente mobilizaram a imprensa nacional e internacional a tematizar o Brasil desde o golpe militar de 1964, aquelas ocorridas em 2013, e retomadas em 2014, apresentaram uma característica que merece destaque. Na heterogeneidade de manifestantes, havia também heterogeneidade de reinvindicações. Sendo assim, o que estaria em jogo naqueles protestos?

Um evento marcante que teria contribuído para essa série de manifestações que se alastrou por todo o país seria o aumento, em São Paulo, de vinte centavos na tarifa do transporte público. O Movimento Passe Livre (MPL), cuja principal demanda é a gratuidade no transporte público, junto a diversos movimentos e partidos políticos que apoiam a pauta, convocou uma série de atos públicos, com início em 06 de junho, tendo o quarto ato, de 13 de junho, como ponto nevrálgico. Nesse quarto ato, a grande adesão da população e a repercussão da violência policial influenciaram os rumos das manifestações1. As imagens, vídeos e relatos que percorreram as redes sociais e a mídia acabaram por mudar a tônica das manifestações que estavam por vir.

Diante desse cenário, em 17 de junho, a indignação gerada mobiliza o país inteiro, levando às ruas da capital paulista e de diversas cidades do Brasil um número expressivo de pessoas com variadas reinvindicações. Desse modo, as demandas passam a ser profusas e diversas, desde as mais específicas - como as que envolviam a votação da Proposta de Emenda Constitucional 37/2011 (PEC 37), também conhecida como "PEC da impunidade", o projeto de lei apelidado de "cura gay" e, ainda, os gastos com Copa das Confederações ou com a Copa do Mundo - que, notadamente, demarcam um discurso efetivamente político, engajado, até pautas mais amplas, mas também políticas - como o fim da corrupção na esfera política, o repúdio aos partidos políticos e o encaminhamento de questões atinentes ao orçamento da União, entre outros aspectos. A mobilização se manteve nos dias que seguiram e, no centro velho de São Paulo, um novo ato ocorre na terça-feira, 18 de junho, outra vez marcado pela violência, dessa vez protagonizada por um grupo de manifestantes com saques e depredações.

Naquele momento, houve ganhos relevantes. Para mencionar o mínimo, o aumento no preço da tarifa do transporte público foi revogado na quarta-feira da mesma semana, 19 de junho. Em 20 de junho, o sétimo ato que já havia sido marcado foi mantido pelo MPL com o objetivo de comemorar a revogação do aumento. Mesmo assim, nessa quinta-feira, as manifestações se alastraram ainda mais pelo país, e o número de pessoas às ruas atinge seu ápice.

Em São Paulo, segundo a Polícia Militar, cerca de 100 mil pessoas reúnem-se na Avenida Paulista. Nessa noite, o clima tenso deu-se por conflitos entre os próprios manifestantes. Houve uma hostilidade contra os grupos partidários e movimentos sociais. Essa hostilidade partiu de um grupo de manifestantes, em sua maioria com algum símbolo ligado ao Brasil, fosse bandeira ou camiseta. Esse grupo "cívico" gritava aos manifestantes com bandeiras de partidos ou movimentos/entidades sociais frases como "sem partido." Algumas horas depois, a hostilidade e a intolerância tornam-se agressão física, bandeiras foram queimadas e o grupo de militantes retirou-se da Avenida Paulista. Segundo Viana (2013), via-se "de um lado, cenas verde-e-amarelas, de outro, cenas vermelhas" (p.57).

Os conflitos do dia 20 de junho de 2013 foram possíveis, dentre outras razões, graças a um novo tipo de ativismo que se coloca contra a classe política de forma ampla, recusando toda e qualquer forma de representação possível. Nesse sentido, Nogueira (2013) divide o ativismo das manifestações de junho de 2013 em dois tipos: o velho e o novo ativismo. Segundo o autor, de um lado encontra-se a militância tradicional, hierarquizada e pautada por uma causa coletiva. De outro, um ativista que "Não se referencia por líderes ou ideologias. Age festivamente e sem rotinas fixas, valendo-se muitas vezes da sátira e do deboche. É multifocal, abraça várias causas simultaneamente. Sua mobilização é intermitente" (p.54). Assim, importa reconhecer nesse novo tipo de ativismo alguns aspectos que acabam emergindo nos dizeres que atualizam as disputas nas manifestações.

Nesse cenário social, chamou a atenção, inclusive da mídia que os fez circular até mesmo em escala internacional, os cartazes que, por princípio, capturavam e capturam metonimicamente o(s) discurso(s) estruturantes dos eventos. Focando a dimensão metonímica desses dizeres da arena discursiva das ruas, questiona-se: de que modo a heterogeneidade da pauta de reinvindicações altera as condições de emergência de enunciados? E ainda: como a circulação em páginas da internet segmenta e altera a potencialidade semântica desses enunciados? Assim, o objetivo deste artigo é rastrear, no funcionamento da linguagem, mais especificamente nos dizeres que circularam em páginas de internet, como o processo de metonimização próprio dos cartazes em manifestações de rua mobilizam valores que funcionam como referencial político-ideológico que dá sentido ao que se enuncia nesse contexto de disputa.

Para tanto, segue-se um percurso argumentativo em duas etapas. Em primeiro lugar, as manifestações são comparadas ao processo de subversão momentânea de determinada ordem social que pode, eventualmente, levar a uma transformação de padrões sociais. Argumenta-se, com base no pensamento bakhtiniano, que a implicação entre o ideológico e semiótico é condição para compreender a possibilidade discursiva de carnavalização. Com base em postulados lyotardianos, argumenta-se, ainda, que a condição pós-moderna de fragmentação dos discursos reguladores da ordem social pode alterar a chave de produção e interpretação dos sentidos que emergem de dimensões coletivas, afetando, inclusive, as maneiras de reivindicar novos horizontes. Em segundo lugar, selecionam-se e analisam-se cartazes que circularam na rede e que evidenciam diferentes chaves de interpretação, contrastando enunciados que sinalizam engajamento político e outros que parecem "não fazer sentido".

1 A arena discursiva das ruas: o carnaval, sua linguagem e suas condições de emergência

O cenário de manifestações de rua em 2013 parece configurar um espaço de disputa ideológica marcado pela tensão entre discursivizações díspares. Baderna, confusão, bagunça, violência, truculência, manifestação, reinvindicação... variados e diferentes valores foram projetados sobre aqueles eventos, o que permite defini-los como arena discursiva. Como arena, por constituir espaço de disputa e de luta; de natureza discursiva porque, a despeito dos embates físicos ali travados, a matriz da tensão são os valores projetados sobre o evento. Nessa condição de arena discursiva, as manifestações guardam um caráter de tensão entre o discurso oficial e o não oficial, que permite identificar aspectos de carnavalização no modo como se articula.

Para entender essa comparação entre a discursivização das ruas e o processo de carnavalização, é mister considerar o conceito de grande tempoesboçado por Bakhtin (2003b) como chave de leitura da obra em que efetivamente discorre acerca do universo carnavalesco (BAKHTIN, 2013). Evidentemente, não se trata de uma leitura cronológica das fontes do pensamento bakhtiniano. Antes, trata-se de uma interpretação que coteja o todo da reflexão acerca de como o funcionamento da linguagem esbarra em diferentes referenciais de tempo.

Com a tarefa de transcorrer acerca dos estudos literários de então, Bakhtin (2003b) pondera que é importante levar em conta a história da cultura para o processamento das obras literárias. Como o pensador russo já defendia de longa data (BAKHTIN, 2003a; 2010), existe uma produtividade semântica que se dá na fronteira entre campos da cultura humana, de modo que é preciso rastrear aquilo que se processa na interseção da arte, da vida e do conhecimento (ou, dito de outro modo, do estético, do ético e do epistemológico). Assim, as grandes obras literárias se definiriam por escapar à sua singela temporalidade ao reacentuar aspectos de tempos passados e, ao mesmo tempo, projetar possibilidades de ressignificação desses aspectos. Aqui vale citar as palavras do pensador:

As obras dissolvem as fronteiras da sua época, vivem nos séculos, isto é, no grande tempo, e além disso levam frequentemente (as grandes obras, sempre) uma vida mais intensiva e plena que em sua atualidade [...] Entretanto, uma obra não pode viver nos séculos futuros se não reúne em si, de certo modo, os séculos passados. Se ela nascesse toda e integralmente hoje (isto é, em sua atualidade), não desse continuidade ao passado e não mantivesse com ele um vínculo substancial, não poderia viver no futuro. Tudo o que pertence apenas ao presente morre juntamente com ele (BAKHTIN, 2003b, p.362-363 - itálicos da edição consultada).

O conceito de grande tempo, dessa perspectiva, compreende tanto a dimensão temporal histórico-cultural que não se reduz à situacionalidade de determinado evento quanto o processo semântico-ideológico de ressignificação do passado. Pensar pelo viés do grande tempo implica atentar para as fronteiras entre os campos da cultura com o intuito de identificar o permanente processo de atualização semântica do que se produz no encontro dessas fronteiras, e a distância temporal, isto é, a não localização no passado, e sim uma revisitação ao passado, é o que permite o levantamento de questões novas para a cultura do outro (do passado) que ela mesma não se colocava. Esse distanciamento no tempo e, consequentemente, no espaço e na cultura gera o que Bakhtin (2003b, p.366) chama de compreensão criadora. Essa parece ser a chave para interpretação do que o pensador russo defende acerca da carnavalização.

De acordo com Popova (2007), a obra de Bakhtin acerca de Rabelais responde a preocupações metodológicas europeias, especialmente no âmbito franco-alemão, dos anos 1910 e 1920. Por essa razão, a pesquisadora sustenta que ali o pensador russo esboça um minucioso trabalho filológico, rastreando, no trabalho com a linguagem, em particular, com o léxico, a potencialidade de ressignificação de processos culturais via a carnavalização. Ainda conforme discute a autora, é isso que permite identificar o que Bakhtin (2013) efetivamente toma como objeto: a crise, a transição, a mudança, as fronteiras de épocas, de religião e de culturas (POPOVA, 2007). Trata-se de uma obra cuja tarefa se define pela compreensão criadora acerca do funcionamento do léxico, que produz conhecimento pautado em um grande tempo.

Partindo desse viés interpretativo, é possível dizer que, para Bakhtin (2013), na Idade Média o carnaval seria o núcleo de uma cultura que oferecia, por meio do riso, uma visão não oficial do mundo e das relações humanas. Desse modo, o carnaval contrapunha-se ao tom sério da cultura oficial, feudal e religiosa, situando-se na fronteira da arte e da vida. Essa ideia de uma esfera intermediária entre a arte e a vida permitia aos homens da época, em ocasiões determinadas, um segundo mundo onde se vivia uma segunda vida. O carnaval seria, portanto, vinculado à ideia de dualidade do mundo. Nesse segundo mundo temporário, havia espaço para ousadias, utopias. Assim, consequentemente, o carnaval proporcionava ao homem medieval uma visão de futuro, bem como o sentimento de renovação e mudança. A praça pública seria o lugar, sem que fosse possível distinguir atores de espectadores, onde se vivia um carnaval universal, isto é, para todo o povo.

Essa discussão é empreendida pelo pensador russo por meio do trabalho com a linguagem, especialmente com o léxico na obra de Rabelais, compreendendo o léxico como um dispositivo material de significação cultural no qual são instalados campos semânticos conforme o processo de ressignificação que se dá no grande tempo. O modo de significar o baixo corporal, a vida, a morte, as necessidades humanas são redesenhadas no tempo, e a compreensão criadora viabiliza o cotejo do que se produz através das fronteiras temporais.

Nesse viés e em consonância com a ponderação de Bernardi (2009), destacam-se dois motivos recorrentes nas imagens das festas estudadas por Bakhtin na obra de Rabelais e pertinentes à discussão feita neste artigo: o destronamento e as pancadarias. O destronamento é relevante por representar a utopia da inversão da ordem política, alternância das relações de poder e do regramento social. Já as pancadarias são pertinentes por sinalizarem que o ato físico não é determinante do valor semiótico-ideológico que engendram. O embate físico não é suficiente para uma valoração como ato de violência, embora seja índice, nessa discussão, de que há uma tensão em torno do que está em jogo na ordem social.

Bakhtin (2013) reconhece que, nos séculos XVII e XVIII, ocorrem mudanças na visão carnavalesca do mundo que, cada vez mais restrita, transforma-se no que chama de "simples humor festivo" (2013, p.30). Porém, como ressalta o autor, essa transformação não destrói o princípio da festa popular do carnaval: "Embora reduzido e debilitado, ele ainda assim continua a fecundar os diversos domínios da vida e da cultura" (2013, p.30). Bernardini (2009) comenta que o espírito de festa em Rabelais é marcado pelo que se refere às núpcias de mitene - costume em que, sem respeitar qualquer hierarquia social, durante um banquete nupcial podia-se desferir pancadas em qualquer indivíduo. Afirma a pesquisadora: "Esse direito simbolizava a ruptura de toda diferença entre os homens, instalados no reino de uma provisória utopia" (BERNARDINI, 2009, p.91). E autora complementa:

Na realidade, e é Bakhtin que nos diz, a intenção do autor ia muito além desse plano e se realizava na própria história da linguagem que, soberana, se impunha sobre os velhos valores, caracterizando-se como uma nova concepção de mundo. Da mesma forma, em relação aos chicaneiros, massacrados no mesmo episódio das núpcias de mitene, as pancadarias praticadas num ritmo solene, no melhor estilo cômico, também objetivavam destruir o mundo antigo representado pelos chicaneiros e, ao mesmo tempo, auxiliavam no nascimento de um novo mundo (BERNARDINI, 2009, p.91).

Nesse sentido, o embate físico era significado, apesar do ridículo, como esperança, como projeção de um novo horizonte, e o campo semântico mobilizado pelo léxico se apresentava - e ainda se apresenta - como materialidade das possíveis discursivizações, com variados acentos ideológicos.

Pelo viés da compreensão criadora gerada pelo distanciamento próprio do grande tempo, é pertinente articular as ideias de carnavalização sustentadas por Bakhtin com o contexto das manifestações de junho de 2013 se posta em evidência a distinção entre "simples humor festivo" e o processo carnavalização propriamente dito.

Na transposição da noção carnavalesca do mundo proposta por Bakhtin às manifestações de junho de 2013, algumas convergências parecem possíveis. As pessoas deixavam sua rotina, sua vida habitual, para estarem nas manifestações. Ao saírem do trabalho não iam para faculdade ou retornavam para casa. As manifestações eram um desvio temporário no cotidiano, onde qualquer um podia transformar-se em manifestante. Por um tempo determinado, a vida comum estava suspensa.

Essa mesma suspensão da vida comum transformou também o espaço urbano, subvertendo-o de sua finalidade tida como oficial. Em São Paulo, vias importantes como a Marginal Pinheiros, a Ponte Estaiada e a Avenida Faria Lima foram ocupadas por pessoas de toda sorte, além da Avenida Paulista, que no dia 13 de junho tinha servido de justificativa para a ação truculenta da polícia. Espaços habitualmente designados aos carros em uma metrópole como a capital paulista haviam se tornado uma grande praça pública, em atos cujo mote, a princípio, era o preço do transporte público. Nas ruas, as pessoas que caminhavam não eram transeuntes, mas manifestantes, que não se contentavam mais com as calçadas, tomando o asfalto reservado aos carros para transformá-lo em um lugar de todos, aberto para ser ocupado pelo povo; um espaço "universal" e de livre-contato. Assim, a espacialidade oficial e suas restrições também haviam sido temporariamente suspensas durante as manifestações. Nas palavras de Bakhtin, "o direito de violar regras habituais da vida em sociedade" (2013, p.174) é "um luxo, permitido somente em período de festa" (2013, p.82).

Outros dois pontos que parecem produtivos relacionar são a possibilidade de mudança social e a ideia de utopia próprios da visão carnavalesca de mundo. Uma semana antes da revogação do aumento, o comentarista Arnaldo Jabor atribuía aos manifestantes a pecha de revoltosos de classe média que não valiam sequer vinte centavos. No dia 20 de junho, o MPL decide manter o ato marcado para acontecer na Avenida Paulista, mas, desta vez, para comemorar a conquista do que um dia havia sido dado como impossível, como fantasia inatingível ou sonho inalcançável, uma "ilusão," como defendeu o próprio comentarista em rede nacional.

Os limites rígidos e intransponíveis impostos sob a alegação de restrição de custos por parte do governo municipal e estadual haviam sido rompidos pela mobilização social, motivada por uma espécie de esperança no devir, por uma visão, mesmo que limitada, de futuro. Pode-se dizer que a vitória dos vinte centavos é parte daquilo que Peschanski (2013) nomeou como "utopia real." Assim, através da visão de futuro, a transformação e a renovação tornam-se possíveis. Nas palavras de Bakhtin, a essência carnavalesca permite:

aproximar o que está distante, ajuda a libertar-se do ponto de vista dominante sobre o mundo, de todas as convenções e dos elementos banais e eventuais, comumente admitidos; permite olhar o universo com novos olhos, compreender até que ponto é relativo tudo o que existe, e, portanto, permite compreender a possibilidade de uma ordem totalmente diferente do mundo (2013, p.30).

Em especial no dia 20 de junho, vislumbrou-se não só a conquista de um movimento contestatório, mas também a celebração dessa conquista em um ato festivo, nos moldes carnavalescos. Nesse espaço histórico e cultural, os dizeres que ali circulam espelham e alteram os discursos que mobilizam os eventos pelos diferentes tons que neles - nos eventos - imprimem.

A comparação entre a arena discursiva das ruas e o processo de carnavalização, sempre à luz da compreensão criadora gerada pelo distanciamento garantido pelo grande tempo, parece ainda mais desafiadora e produtiva se considerados os índices de uma orientação histórico-cultural própria da contemporaneidade que, nos termos de Lyotard (1979; 1986) se identificam como condição pós-moderna. O desafio e a produtividade se devem a dois fatores preponderantes: 1) o pensamento bakhtiniano se inscreve num acabamento moderno e, portanto, não necessariamente prevê, em sua formulação teórico-metodológica, as demandas que se consolidariam adiante; 2) a teorização de Lyotard (1979; 1986) resulta de sua reflexão acerca das sociedades ocidentais industrializadas e tecnologicamente desenvolvidas, já que, para que se instale o que chama de condição pós-moderna, é preciso aparato técnico. Assim, pensar numa esfera de discursivização de rua na contemporaneidade num país em desenvolvimento implica articular aspectos para além daqueles previstos pelos textos base da reflexão teórica aqui desenvolvida.

Metodologicamente, no caso das manifestações brasileiras de 2013 em análise aqui, são focados fragmentos da manifestação não in loco, por assim dizer, mas numa dimensão rediscursivizada na internet. Isso porque interessa demonstrar aquilo que a captura do evento em formato pós-moderno pode propiciar semântico-ideologicamente. Isso requer pensar em como a circulação em rede - aparato técnico - altera os dizeres - dimensão narrativa cotidiana de enunciados concretos - com ares carnavalescos - dimensão metanarrativa, que se dá no grande tempo.

Seguindo a leitura da história da cultura ocidental, especialmente das sociedades providas de aparato tecnológico, proposta por Lyotard (1979), há dois planos discursivos que funcionam como diretrizes para o desenho de grandes temporalidades (nesta discussão, grande tempo). Há o plano da situacionalidade, das interações concretas, das relações imediatas do dia a dia que constitui, segundo o filósofo francês, o plano das narrativas. Nesse plano, dão-se as relações sociais/institucionais das mais variadas. Em contrapartida, há o plano em que um discurso regulador baliza os valores que autorizam o dizer no plano narrativo. Esse seria o plano metanarrativo. Historicamente é possível cotejar, por exemplo, o lugar da divindade no regramento das relações na Idade Média e no Renascimento na Europa, apenas para ficar nos limites das temporalidades focadas por Bakhtin (2013). Enquanto na Idade Média o catolicismo regrou e regulou o funcionamento cultural europeu praticamente sem contrapartida, no Renascimento a revisitação a valores clássicos permitiu outros modos de ordenar a cultura.

Em sociedades ditas tradicionais, é o divino que funciona como referencial axiológico que fomenta a potencialidade semântica das relações travadas na cultura. É pelo divino que se justificam valores morais, regras, leis, senso de justiça etc. Em contrapartida, nas sociedades ditas modernas, o lugar regulamentador da divindade é compartilhado por uma profusão de outros referenciais axiológicos: a Razão, o Estado, entre outros (DUFOUR, 2003).

Entre o que se pode classificar como pré-moderno e o moderno não existe, nessa linha argumentativa, uma cisão cronológica, mas uma alteração de valor relacional. A metanarrativa unirreferencial da divindade que regula o funcionamento chamado de pré-moderno dá lugar, no funcionamento moderno, a uma rede multirreferencial. De todo modo, mantém-se uma hierarquia discursiva em que se distinguem planos narrativos: o regulador e ordenador que autoriza o dizer e a significação; e o cotidiano, situacional que atualiza singularmente os valores autorizados pelo discurso regulador. Segundo Lyotard (1979), é condição pós-moderna o esmaecimento da metanarrativa de modo que as relações deixam de ser reguladas por um discurso ordenador do funcionamento cultural. Isso provoca, entre outras alterações, a fragmentação do sujeito - resultando na individuação - e certo caos enunciativo (AMORIM, 2007).

Para que se estabeleça tal condição, é preciso que haja o aparato tecnológico que altere a validação do saber e das relações por ele mediadas de maneira a reposicionar os sujeitos. Novamente, se se pensar as relações na esfera Medieval, o discurso católico apostólico romano, em condição metanarrativa, ordena os ritos da cultura feudal, justifica as relações sociais e projeta para os indivíduos lugares socioculturais específicos. Nesse funcionamento, a escrita representa importante vetor de cultura, uma vez que o saber sagrado era por ela mediado e, consequentemente, o acesso a esse saber estratificava o coletivo: havia os que sabiam ler, e os que não; havia aqueles que podiam acessar os textos sagrados, e os que não; havia aqueles que consultavam diretamente a fonte escrita, e aqueles que a acessavam pelos outros; e assim por diante. Nas relações propriamente modernas, como as práticas científicas, por exemplo, outros vetores foram articulados. As condições materiais de pesquisa e verificação empírica configuram condição para validação do dizer. Em suma, entre o regramento metanarrativo e a realização narrativa, valida-se o saber que fomenta e fundamenta as relações sociais admitidas em determinada cultura. Mas como fica esse processamento cultural num contexto em que o saber valorado não se recupera de um discurso regulador, mas de relações técnicas?

O aparato técnico que permite tal alteração pode ser metonimizado pelo computador e pelas relações por ele mediadas. Para que se engaje numa relação mediada pelo computador, o conhecimento, o saber, precisa ser traduzido em bytes. Uma vez habilitado em bytes, o saber pode alcançar uma esfera de circulação em rede. Porém, nesse processamento, não está previsto um discurso regulador e ordenador, mas uma condição técnica, que atenderá a variadas nuanças discursivas. Assim, é possível afirmar que a condição pós-moderna emerge das relações tecnicamente viabilizadas e simbolicamente desprendidas de um referencial que norteie aquilo que pode ser dito e que faz sentido ao ser dito.

Para a presente discussão, essa condição interessa pelo impacto que produz na possibilidade de carnavalizar e/ou transformar a realidade. Nesse ponto, vale reformular a pergunta que orienta este artigo: a emergência e a circulação em rede de enunciados díspares na arena discursiva das ruas estabelecida nas manifestações de 2013 seriam índices da condição pós-moderna?

2 É possível carnavalizar o carnaval? Uma leitura dialógica do que se manifesta nas manifestações

A repercussão das manifestações demonstra de diferentes modos o tom carnavalesco em que se conduziram os eventos. Para pontuar a questão levantada neste artigo, são recolhidas de diferentes páginas citações verbo-visuais dos atos nas ruas para destacar como a pluralidade ideológica flagrada no evento gerou discursivizações díspares quanto ao que, em tese, deveria sustentar e fomentar aqueles atos. O foco não recai sobre a circunscrição dos enunciados em cada página, mas sobre as condições de emergência dos enunciados que as páginas fazem circular e sobre o efeito de fragmentação discursiva que esse modo de circulação produz. São visitadas páginas de naturezas distintas: Portal Bramare, mantido pela arquiteta e designer Bia Lombardi, que visa à discussão de temas do cotidiano; uma página de imagens da USP, em que constam listadas como manchetes uma sequência randômica de fotos das manifestações; um blog da Veja SP, Pop! Pop! Pop!, em que também consta uma sequência randômica de fotos; uma notícia veiculada pelo site de notícias Terra; e o portal de notícias Portal G1, especificamente uma página destinada ao registro dos cartazes das manifestações. Nas quatro primeiras páginas, as fotos são apresentadas com legendas, ao passo que na última, as fotos são precedidas por uma espécie de título que retoma os dizeres dos cartazes apresentados. No cenário político tão simultaneamente contingente e contundente, o que se recupera desse modo de enunciar e fazer circular enunciados?

Na página da USP dedicada às imagens das manifestações, sob o título "Manifestação na Avenida Paulista I," dispõem-se randomicamente em duas colunas variadas fotogramas com legendas. A primeira listada à esquerda (Fig. 1) apresenta marca clara de uma esfera de reinvindicação política. A legenda orienta: "Manifestantes colocam fogo em cartazes e faixas de partidos políticos na Avenida Paulista dia 20 de junho. Foto: Marcos Santos/USP Imagens"2(grifo nosso). Na imagem, um jovem manifestante portando uma máscara do V de Vingança 3 sustenta um cartaz no qual se lê: "O Brasil não tem seguro [sem vírgula] se der PT... quem paga é a gente."4 O enunciado manuscrito em azul tem destacado apenas o termo PT, escrito em vermelho. A sigla usada apresenta sentido dúbio. Por um lado, remete à expressão "perda total", isto é, a impossibilidade de reparar um veículo que, quando segurado, dá ao proprietário o direito a receber indenização integral equivalente ao valor do bem. Por outro lado, também se refere ao Partido do Trabalhadores (PT), partido que ocupa o cargo presidencial desde 2003. Nesse sentido, o enunciado pode ser compreendido como uma metáfora que tem como objetivo alertar quem lê o cartaz dos riscos envolvidos caso a presidente fosse reeleita nas eleições que ocorreriam no ano seguinte. Trata-se de um posicionamento político claro de oposição à Presidência da República e ao Partido dos Trabalhadores.

Figura 1 Fonte: Marcos Santos/USP Imagens. Disponível: <http://www.imagens.usp.br/?p=18621

No canto esquerdo do cartaz, um círculo vermelho cruzado por dois traços em forma de X expressa a ideia de proibido e, no seu interior, é possível ler PEC 37. A imagem captura dizeres de insatisfação com o cenário político brasileiro, com índices precisos de pauta: seja um repúdio direcionado a um partido específico, seja uma refuta ao que se discute no Congresso.

Também na parte inferior do cartaz, mas ao centro, as expressões #semviolência e #ogiganteacordou. À frente do cartaz uma mão ateia fogo em algumas faixas e bandeiras brancas e vermelhas, juntamente com uma lata amassada de cerveja. Na totalidade da imagem, destaca-se a relação entre o enunciado #semviolência e a violência evidenciada pelas bandeiras sendo queimadas. A imagem retrata parte da discussão feita por Arantes (2014) a respeito do discurso pacifista e a noção de "paz armada" (p.413). Como lembra o autor, "tais manifestantes pacíficos bateram sem dó nem piedade nos vermelhos" (p.356). A menção ao Brasil - gigante que acorda - é recorrentemente tomada na discursivização das manifestações, embora nem sempre se guarde o mesmo tom apreciativo.

No Portal Bramare, a postagem de onde se recupera a discussão em torno das manifestações alerta, em maiúsculas: "CUIDADO: #VEMPRARUA MAS SAIBA POR QUE SE NÃO AQUELE #OGIGANTEACORDOU VAI ACABAR VOLTANDO A DORMIR... MAIS RÁPIDO DO QUE VOCÊ GOSTARIA"5 A oposição acordar/dormir aponta para dois estados de atividade política da população brasileira; a referência direta ao Brasil - gigante - o localiza entre a possibilidade latente ou patente de posicionamento político. Nesse enquadre, é postada a Fig. 2, com a seguinte legenda: "Até agora tento entender a absurda repressão praticada pela polícia contra esses manifestantes..."6. Na figura, não é patente a violência. Ali visualiza-se, em segundo plano, uma placa de trânsito amarela, com uma intervenção: em um balão no qual é possível ler 3,20 - uma referência ao valor da tarifa refutado. Em primeiro plano, um manifestante com o rosto pintado com dois traços, um verde e outro amarelo, usando terno e gravata ao mesmo tempo em que porta um nariz de palhaço, carrega um cartaz. O homem está acima do nível dos transeuntes e, sorrindo com a face inclinada para baixo, parece interagir com alguém que passa pela rua. Mais ao fundo, em terceiro plano, manifestantes caminham, destacando-se uma bandeira do Brasil usada como capa.

Figura 2 Fonte: Portal Bramare. Disponível: <http://www.bramare.com.br/2013/06/24/vemprarua/

No cartaz é possível ler: "HADDAD, ALCKIMIN, DILMA EU NÃO ANDO DE BUSÃO PELO MESMO MOTIVO QUE VOCÊS NÃO USAM O SUS"; na parte inferior do cartaz, "#NãoSouSardinha" e "#NemBurro!" Os nomes do prefeito de São Paulo HADDAD e da presidenta DILMA estão em vermelho, enquanto o nome do governador ALCKIMIN está em azul. Dilma Roussef e Fernando Haddad são do Partido dos Trabalhadores (PT), cuja cor de referência é o vermelho, enquanto Geraldo Alckimin é do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), cuja cor de referência é o azul. Ao elencar o nome de políticos de partidos que ocupam posições diferentes na conjuntura política brasileira, o enunciado expressa o descontentamento com a classe política de forma generalizada, sem direcionar-se a um único partido.

O enunciado remete ainda a um sentimento de insatisfação com a qualidade do transporte, bem como com outros serviços públicos, como o sistema de saúde. Ambas pautas políticas e de interesse social. As expressões #NãoSouSardinha e #NemBurro! podem ser interpretadas como uso livre da palavra, como "vocabulário de praça pública" (BAKHTIN, 2013, p.125), marcando o registro não oficial de interação, o tom carnavalesco que sustenta o enunciado.

Em ambas as imagens, sujeitos travestidos, mascarados simulam as alterações indumentárias autorizadas no carnaval. A ocupação do espaço público de outra perspectiva, subvertendo as vias para transeuntes não previstos no funcionamento ordinário, parece outro indício. Também em ambas as figuras são identificados símbolos nacionalistas, como a bandeira, a utilização das cores da bandeira, menções diretas ao país, entre outros. Entretanto, a figura 1 marca distintamente posicionamento político específico e aponta uma pauta orientada, ao passo que a figura 2parece capturar uma generalização que acaba mitigando seu potencial semântico. De fato, qual a objeção feita? Qual a luta empreendida? Não está claro qual o vínculo metanarrativo que garante as condições daquele dizer. Sendo assim, o que esse enunciado carnavaliza? O cotejo com outras imagens encaminha a discussão.

Na blog da Veja SP, Pop! Pop! Pop!, o título deixa evidente o tom não oficial nem sério da postagem: "Veja 10 cartazes divertidos da manifestação de terça (18)."7 Com a legenda "Até Jesus Cristo deu um pulinho na Paulista," a terceira imagem postada8 captura um enunciado que se constitui evidentemente pelo tom carnavalesco. A legenda já anuncia a dessacralização do discurso religioso, próprio do processo de carnavalização. Na imagem, um homem loiro, de barba e cabelos longos, vestindo uma espécie de túnica branca, segura o cartaz. Sua indumentária, como a dos outros sujeitos retratados nas Figuras 1 e 2, também configura uma fantasia. No lado esquerdo do cartaz, lê-se: "Eu voltei para apoiar o povo!!!," impresso em letras maiúsculas e em vermelho. A noção de volta e de apoio ao seu povo convoca o discurso judaico-cristão. Por um lado, a volta de Jesus Cristo marca, do ponto de vista cristão, o fim dos tempos, o apocalipse. Por outro lado, o apoio ao seu povo parece retomar, ainda de acordo com o discurso cristão, a expectativa judaica da primeira vinda de Jesus; a expectativa de apoio político para a libertação do domínio de Roma. Nessa imagem, seja pela profanação e pela descida do céu à terra, seja pelo livre contato com o outro, visto que o homem no momento da foto abraça outros dois manifestantes, que posam para a câmera, "Jesus" parece ter voltado para aderir a um programa político, embora a imagem não evidencie qual, articulando, jocosamente, a primeira e a segunda vindas de Cristo nessa enunciação carnavalizada.

Na parte direita do cartaz, lê-se "PAZ/AMOR" e, na linha abaixo, "JUSTIÇA!!", seguido de "pra cima deles BRA" (na imagem o cartaz tem o canto inferior ligeiramente dobrado, mas, ao que parece, está escrito BRASIL, em verde e amarelo). A menção à ideologia hippie tão em voga na década de 1960 adjungida ao pedido de justiça mostra que o cartaz se constrói de fato sobre o sincretismo ideológico, cujo eixo estruturante é o tom não oficial, nem sério. Outra vez o uso das cores verde e amarelo no termo Brasil e o enunciado pra cima deles Brasil apontam para uma perspectiva nacionalista e reiteram a tensão e o conflito entre os manifestantes que podem ser observado nas ruas.

Fazendo uma leitura dessas três figuras, parece que há uma gradação quanto à rigidez da pauta e, portanto, da natureza político-ideológica dos enunciados. Enquanto na primeira imagem (Fig. 1) é possível recuperar uma postura política específica, na segunda (Fig. 2) e na terceira imagens o tom carnavalesco parece subverter a própria proposta de subversão da ordem, e a circulação desses enunciados na rede cria discursivizações tão variegadas que se dissolvem os possíveis vínculos metanarrativos. A exposição dessas múltiplas reinvindicações, afinal, significa o quê? Qual o saber que valida os sentidos potenciais desses enunciados?

Nessa cadeia discursiva, a quarta imagem9parece metonimizar o ápice dessa resistência intransitiva sem reinvindicação aparente. Na imagem, um senhor de costas carregando em uma das mãos um cartaz feito aparentemente de madeira e em um formato semelhante a um hexágono, lê-se: "CONTRA TUDO," escrito em preto sob um fundo verde.

Da insatisfação generalizada e da profusão de pautas, desponta uma espécie de indignação geral, resultando em uma "mobilização em torno do nada" (VIANA, 2013, p.56). Assim, o enunciado CONTRA TUDO não permite recuperar qualquer pauta, o tudo acaba sendo muita coisa e, ao mesmo tempo, nada. Esse cenário parece ser terreno fértil para que, discursivamente, surjam enunciados quase sem sentido ou sem sentido, como os que seguem.

No portal de notícias G1, as figuras são listadas também randomicamente numa página específica com imagens das manifestações, sem legenda, mas precedidas pelo destaque daquilo que consta nos cartazes. Na quinta imagem selecionada10, uma menina segura o cartaz com o seguinte enunciado: "QUERO BOLSA 'LOUIS VUITTON,'" seguido de "#VEMPRARUA. "Louis Vuitton é uma marca de luxo francesa que vende bolsas e malas de viagem. Embora o enunciado recupere e ironize os programas de auxílio do governo como o Bolsa Família, programa de transferência direta de renda que beneficia famílias em situação de pobreza, nessa arena discursiva há nele uma crítica aos programas de governo que ainda dialoga com a insatisfação política, mas de forma descomprometida; há uma oposição ao governo sem adesão a um lugar político outro marcado. O enunciado descola-se quase que por completo do sentido da manifestação. Distanciando-se cada vez mais dos discursos que mobilizam a arena discursiva das ruas, na sexta imagem11praticamente não se recupera mais a dimensão político-ideológica.

Na imagem, o manifestante usa um nariz de palhaço e porta um cartaz no qual se lê "QUEREMOS KINDER OVO A PREÇO DE 1 REAL!," também seguido de "#VEMPRARUA," assim como a imagem anterior. No Brasil, desde o início do século XXI, uma série de ações do governo voltadas às camadas populares tem como emblema o valor de R$ 1,00. Em São Paulo, alguns restaurantes populares servem refeições a esse preço - os restaurantes Bom Prato. Aos poucos, todas as medidas dessa natureza têm sido associadas ao valor de R$ 1,00. Se o valor retoma uma conjuntura política, o Kinder Ovo, um chocolate voltado para o público infantil que oferece além do produto alimentar um brinquedo, subverte a chave de leitura, carnavalizando o próprio contexto de reinvindicação. O que simboliza e implica, politicamente, o Kinder Ovo? A emergência de enunciados sem pauta evidente num cenário tão contundente sinaliza que as coerções metanarrativas, a essa altura, parecem fluidas e pouco efetivas. Sendo assim, que sentido fazem? Cumprem qual agenda nessa arena, senão a de carnavalizar o espaço já carnavalizado? A sétima e última imagem selecionada12 corrobora essa interpretação.

Nesse roteiro de leitura, essa figura consolida o movimento de perda de sentido ou horizonte nas pautas reivindicadas durante a manifestação. Na imagem, o manifestante segura um cartaz com o enunciado VENDO PALIO 98, como se faz ao anunciar um carro para venda. Diante do surgimento desse tipo de enunciado e ao compreender a manifestação como uma forma de carnavalização, considerando os elementos descritos anteriormente, advoga-se que a divulgação em rede de fragmentos metonímicos das manifestações promove a carnavalização da manifestação, isto é, a metacarnavalização.

Nesse sentido, a inversão da ordem promovida por esses discursos é a inversão da ordem da própria manifestação. O deboche, a sátira e a profanação típicas da visão carnavalesca do mundo parecem voltar-se em direção à própria arena discursiva, alterando as coerções metanarrativas que a deflagraram.

Conclusão

Neste artigo, o que se problematiza é a possibilidade de emergência e circulação, num contexto de intensa luta política, de enunciados aparentemente tão desprendidos de acabamento ideológico e, por isso, sem sentido na esfera discursiva das manifestações de rua. Assim, sem negar a complexidade histórica, cultural e política do que está implicado nos eventos tomados como mote da discussão deste artigo, focam-se os cartazes como mecanismos linguageiros metonímicos da questão que se levanta: a emergência de enunciados de natureza ideológica tão díspar em uma mesma esfera discursiva resulta da condição pós-moderna?

Tomando o processo de carnavalização como chave de interpretação das transformações discursivas em jogo, a análise aqui empreendida mostra que há um movimento não linear que vai da enunciação com pauta politicamente engajada, ainda que manifesta pela carnavalização, a um questionamento transgressor sem coerção metanarrativa aparente, gerando uma espécie de metacarnavalização que altera o próprio agente mobilizador daquela arena. Essa parece ser uma das realizações discursivas do novo ativismo (NOGUEIRA, 2013).

Diante disso, destaca-se uma importante contribuição deste estudo. A articulação teórica entre o pensamento bakhtiniano e os postulados de Lyotard - apesar de terem sido formulados para descrever e analisar aspectos culturais distintos -, funciona como chave de interpretação profícua para os fenômenos que se apresentam na atualidade na dinâmica cultural brasileira.

CAPES, Brasília, Brasil

1Nessa quinta-feira, a ação desmedida da polícia resultou em diversos feridos, dentre esses, alguns profissionais da impressa, incluindo uma repórter e um fotógrafo atingidos por bala de borracha na região dos olhos, além da detenção de cerca de 200 manifestantes, muitos sob a acusação de porte de vinagre - utilizado para minimizar os efeitos do gás lacrimogêneo.

2Disponível em: < http://www.imagens.usp.br/?p=18621> Acesso em 09 mar 2015.

3Sobre a relevância discursiva da máscara nessa série de manifestações, ver BRAIT & DUGNANI (2014).

4Disponível em: < http://www.imagens.usp.br/?p=18621> Acesso em 09 mar 2015.

5Disponível em: < http://www.bramare.com.br/2013/06/24/vemprarua/> Acesso em: 09 mar 2015.

6Disponível em: < http://www.bramare.com.br/2013/06/24/vemprarua/> Acesso em: 09 mar 2015.

8Por questões de direito de imagem, a figura não pode ser apresentada aqui.

9Disponível em: <http://noticias.terra.com.br/brasil/cidades/com-batalha-ideologica-e-sem-foco-manifestantes-se-dividem-em-sp,69b46ce74956f310VgnVCM10000098cceb0aRCRD.html> Acesso em 09 mar 2015. Por questões de direito de imagem, a figura não pode ser apresentada aqui.

10Disponível em: <http://g1.globo.com/brasil/cartazes-das-manifestacoes/platb/> Acesso em 09 mar 2015. Por questões de direito de imagem, a figura não pode ser apresentada aqui.

11Disponível em: <http://g1.globo.com/brasil/cartazes-das-manifestacoes/platb/> Acesso em 09 mar 2015. Por questões de direito de imagem, a figura não pode ser apresentada aqui.

12Disponível em: <http://g1.globo.com/brasil/cartazes-das-manifestacoes/platb/page/2/> Acesso em 09 mar 2015. Por questões de direito de imagem, a figura não pode ser apresentada aqui.

CAPES, Brasília, Brasil

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Recebido: 11 de Março de 2015; Aceito: 30 de Agosto de 2015

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