SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.10 issue3The Notion of Author in and from M. Bakhtin's WorkTowards a New Ethics of Audio Description: Re-creation as a Procedure author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Journal

Article

Indicators

Related links

Share


Bakhtiniana: Revista de Estudos do Discurso

On-line version ISSN 2176-4573

Bakhtiniana, Rev. Estud. Discurso vol.10 no.3 São Paulo Sept./Dec. 2015

http://dx.doi.org/10.1590/2176-457322339 

Artigos Inéditos (2) Linguagem, filosofia e arte

Bakhtin e Heidegger: caminhos para a compreensão e interpretação do acontecimento do ser na linguagem

Maria Cristina Hennes Sampaio* 

Karla Daniele de Souza Araújo** 

Ezequiel Bezerra Izaias de Macedo*** 

*Universidade Federal de Pernambuco - UFPE, Recife, Pernambuco, Brasil; mc.hennes@hotmail.com

**Instituto Federal de Pernambuco - IFPE, Recife, Pernambuco, Brasil; karladani@hotmail.com

***Universidade Federal de Pernambuco - UFPE, Recife, Pernambuco, Brasil; e.bim@hotmail.com

RESUMO

O presente estudo tem como objetivo colocar em diálogo os caminhos sinalizados por Bakhtin e Heidegger para a compreensão e interpretação do acontecimento do ser na linguagem. Para esse fim examinamos a proposta comum, a ambos os filósofos, de instituir uma filosofia primeira, que pergunte acerca da origem do sentido, o que equivale a indagar sobre as vias de acesso à realidade que toda a linguagem e, por conseguinte, todo o discurso/texto/enunciado comportam. Foram examinados também o caráter ontológico do ser-aí (Dasein) e o papel do pensamento para a interpretação do ato ético concretizado no acontecimento do ser. Para fundamentar os caminhos de uma arquitetônica e hermenêutica da facticidade ontológicas, Bakhtin e Heidegger, respectivamente, revisitaram diversas tradições. Que papel restaria à filosofia para a compreensão e interpretação do acontecimento do ser? A resposta a esta questão parece apontar para uma compreensão/interpretação ontológico-hermenêutica cujos caminhos tentamos desvelar.

PALAVRAS-CHAVE: Bakhtin e Heidegger; Acontecimento do ser; Linguagem; Arquitetônica; Hermenêutica da facticidade

O presente estudo faz parte do projeto Origens da filosofia ética da linguagem em Bakhtin: re-leituras da Metafísica e da Fenomenologia ontológico-hermenêutica, no qual buscamos compreender os fundamentos filosóficos que estão na base da Teoria Dialógica, fonte de inspiração teórica e metodológica dos estudos desenvolvidos na abordagem da análise dialógica do discurso, bem como as bases teóricas e práticas de uma filosofia ética da linguagem para uma semântica enunciativo-discursiva.

Nessa perspectiva, nosso objetivo é colocar em diálogo os caminhos sinalizados por Bakhtin e Heidegger para a compreensão e a interpretação do acontecimento do ser, na linguagem, os quais se encontram esboçados nos fundamentos ético-filosóficos de suas obras, particularmente em Hacia una filosofia del acto ético. De los borradores y otros escritos (BAJTIN, 1997[1920-24]), El ser y el Tiempo (HEIDEGGER, [2010 [1927]), A caminho da linguagem (HEIDEGGER , 2011 [1959]), Aportes a la filosofia acerca del evento (HEIDEGGER, 2006 [1936-38]), Ontologia (Hermenêutica da facticidade), (HEIDEGGER, 2012 [1923]), Sobre a questão do pensamento (HEIDEGGER, 2009 [1969]) e Cartas sobre o humanismo (HEIDEGGER, 2005 [1947]).

Para esse fim, optamos por retomar dois temas que se destacam nas referidas obras: pensamento e linguagem e o acontecimento do ser.

1 O caminho em busca de uma filosofia primeira

Amorim (2009, p.20), em seu ensaio Para uma filosofia do ato: válido e inserido no contexto, sugere a necessidade de se identificar as origens filosóficas das ideias de Mikhail Bakhtin para que se possa examinar qual a sua contribuição original. Segundo a autora, o próprio Todorov já assinalara que a ideia de que o diálogo seria condição da linguagem teria sua origem em Heidegger, considerado como um autor-chave na intertextualidade bakhtiniana. Embora Heidegger tenha pouco publicado de 1915 até o aparecimento de sua obra Ser e Tempo, em 1927, sua reputação como professor, nas universidades de Marburg e Freiburg (Alemanha), foram espalhando-se para outros centros acadêmicos e os estudantes eram atraídos por suas preleções como jovem docente de Filosofia. Além disso, cabe destacar que Heidegger foi discípulo do filósofo e matemático alemão Edmund Husserl, tendo-lhe sucedido na cátedra, em Freiburg, no ano de 1929. Husserl costumava dizer que a Fenomenologia era ele e Heidegger. É de Heidegger a obra Einführung in die phänomenologische Forshung1 cuja preleção foi proferida na Universidade de Marburg entre 1923-24. Nesta obra, dizendo-se convencido de que a Filosofia teria chegado ao final, e reconhecendo que se estava diante de uma tarefa que nada tinha a ver com a Filosofia tradicional, o pensador vai elucidar a expressão Fenomenologia, remetendo-a a Aristóteles, revisitando a autointerpretação de Husserl, o retorno a Descartes e à Ontologia que a determina, demonstrando finalmente o descuido para com a questão do ser como demonstração da existência.

Quanto a Bakhtin, sabe-se que lia fluentemente o alemão, tendo sido leitor de Husserl e, conforme atestam seus escritos entre 1920-24, transitou por diversas tradições filosóficas, conforme já demonstramos em diversas publicações e estudos anteriores, apresentados em congressos nacionais e internacionais2. Em Por uma filosofia do ato, Bakhtin (1997) vai tecer uma rede conceitual em torno da vida, da arte e da ciência, nos quais se integram o ético, o estético e o cognoscitivo, e introduzir a categoria ética da responsabilidade.

Nesse contexto, há de se considerar as propostas de ambos os filósofos de instituir uma filosofia primeira, ou seja, de reconduzir a Filosofia ao caminho de sua verdadeira vocação: a de pensar a verdade do ser, como um acontecimento, na perspectiva da historicidade, o que equivale a retomar a pergunta acerca da origem do sentido e as vias de acesso à realidade que toda a linguagem e, por conseguinte, todo o discurso/texto/enunciado comportam. Como asseveram Bakhtin (1997) e Heidegger (2006), respectivamente:

[...] Daí que resulta claro que uma filosofia primeira que trate de analisar o acontecimento do ser tal como o conhece o ato responsável - quer dizer, não o mundo criado pelo ato, mas o mundo no qual o ato toma consciência de si mesmo e se desenvolve - não pode gerar conceitos, postulados e leis acerca deste mundo (a pureza teórica e abstrata do ato ético), como também não pode ser apenas uma descrição, uma fenomenologia do mundo do ato ético. [...] o ato ético vê não somente o contexto unitário, como também o contexto singular e concreto, o contexto último, e com ele relaciona também seu sentido e seu fato; é aí onde trata de realizar responsavelmente a única verdade do fato e do sentido em sua unidade concreta (BAJTIN, 1997, p.39; 36).3

A pergunta pelo "sentido", ou seja [...], pela verdade do ser [Seyn], é e permanece minha pergunta [...], pois ela remete ao único por excelência. [...] Realizada e concebida historicamente converte-se na pergunta fundamental, frente à pergunta vigente da filosofia pelo ente [...] A pergunta pelo ser é o salto ao ser [Seyn] que o homem realiza como aquele que busca o ser [Seyn], enquanto um fazedor pensante. [...] Este ser - a historicidade - nunca é, em cada época, o mesmo. [...] O que se inaugura, na fundação do ser-aí, é o evento. [...] O ser [Seyn] se essencia como evento. [...] O pensar o ser [Seyn], como evento, é o pensar inicial que, como confrontação com o primeiro começo, prepara o outro (HEIDEGGER, 2006, p. 24; 27; 41-43).4

Ora, se a compreensão da verdade do ser (BAJTIN, 1997; HEIDEGGER, 2006), deve ser buscada no acontecimento do ser na vida, é necessário refletir sobre a forma de seu aparecimento na existência. Para tanto, Bakhtin (1997) vai lançar a ideia de uma arquitetônica concreta do mundo do ato realizado, orientada pelo valor, contrapondo-a à análise da arquitetônica do mundo da visão estética, com a qual compartilha algumas características. Para Bakhtin (1997, p.60), se o acontecimento do ser é composto de momentos constituintes comuns em suas várias arquitetônicas concretas, uma

A filosofia moral deveria ocupar-se de descrever esta arquitetônica do mundo real do ato ético, não em forma de esquema abstrato, mas como um plano concreto do mundo do ato unitário e singular, dos momentos principais concretos de sua estruturação e de sua disposição recíproca. Estes momentos são: o eu-para mim, o outro para mim e o eu para-o-outro5.

Segue (BAJTIN, 1997, p.61) dizendo que todos os valores da vida real e da cultura encontram-se dispostos, espaço-temporalmente, em torno desses momentos emocionais e volitivos do mundo do ato ético: valores científicos, estéticos, políticos, éticos, sociais, religiosos, etc.

Heidegger (2009), na obra Sobre a questão do pensamento, ao lançar a questão acerca da tarefa que ainda estaria reservada para o pensamento, no fim da filosofia, reflete acerca da forma do aparecimento do ser, na existência, através da metáfora da clareira, enquanto um espaço aberto, livre para a incidência da claridade e da sombra, para a voz que soa e ressoa, para assim ilustrar que a verdade só pode presentar-se [aparecer], ou seja, ser trazida à existência, através da clareira inaugurada e tornada possível pelo ser. E esse trazer o ser à existência é uma tarefa do pensamento, pois é o pensar que possibilita o ser aproximar-se da clareira:

[...] o fim da filosofia é o lugar, é aquilo em que se reúne o todo de sua história, em sua extrema possibilidade. [...] o fim é, como acabamento, a concentração de suas possibilidades supremas. [...] uma tarefa do pensamento [...] que não pode ser nem metafísica nem ciência? [...] Impõe-se ao pensamento a tarefa de atentar para a questão aqui designada como clareira. A luz pode, efetivamente, incidir na clareira, em sua dimensão aberta, suscitando aí o jogo entre o claro e o escuro. Nunca, porém, a luz primeiro cria a clareira; aquela, a luz, pressupõe esta, a clareira. A clareira, no entanto, o aberto, não está apenas livre para a claridade e a sombra, mas também para a voz que ressoa e para o eco que se perde, para tudo que soa e ressoa e morre a distância. A clareira é o aberto para tudo o que se presenta e ausenta [...] Da clareira, todavia, a filosofia nada sabe. Não há dúvida que a filosofia fala da luz da razão, mas não atenta para a clareira do ser. [...] Pois a verdade mesma, assim como ser e pensar, somente pode ser o que é, no elemento da clareira [...] (HEIDEGGER, 2009, p.67;76-77; 80).

Mas é na obra Carta sobre o humanismo que o filósofo é preciso, ao afirmar que o pensar, ao qual ele se refere, "é o pensar do ser" (e não o pensar da razão), "que pertence ao ser e, a ele pertencendo, escuta o ser" (HEIDEGGER, 2005, p.12) para dizer a sua verdade.

As referências de Heidegger (2009) à metáfora da clareira e ao papel do pensamento, para fazer a escuta do ser, permitem-nos ainda fazer uma aproximação da imagem de uma floresta com a existência humana, a qual, à semelhança da primeira, oferece vários possíveis caminhos para se chegar à clareira. Nesse sentido, o caminho sinalizado por Heidegger é o de uma analítica existenciária a qual encontra seus fundamentos na pergunta pelo ser, em como este aparece no cotidiano do existir humano, distinguindo-se radicalmente de determinações ônticas do ente as quais, nas ciências, chamamos de categorias. Em Bakhtin (1997), o caminho para se chegar ao acontecimento do ser só pode se dar no plano concreto do mundo do ato unitário e singular, cujos momentos encontram-se dispostos em relação alteritária do eu e do outro, pressupondo os planos ético e estético, incluindo o da cognição, nos quais estão dispostos todos os valores da vida real e da cultura.

Observa-se, pois, que ambos os filósofos tecem considerações de cunho histórico-filosófico em torno de um projeto de uma Filosofia primeira, privilegiando o caráter ontológico do ser, o qual só pode ser encontrado na existência e no mundo concreto do ato, e o papel do pensamento para a compreensão e a interpretação do acontecimento do ser.

A tarefa de pensar o ser, nessa perspectiva, passa necessariamente pela linguagem: se através dela dá-se o acontecimento do ser, investigá-la é buscar compreender como se dá a própria abertura do ser no mundo. A abordagem da linguagem de Bakhtin e Heidegger como experiência pensante é o que veremos a seguir.

2 O caminho do pensamento: a linguagem como experiência pensante

O que significa pensar? Esta pergunta, fundamental para a Filosofia em geral e para filósofos como Bakhtin e Heidegger, remete à centralidade de uma questão: a de se pensar o ser, sem recorrer a uma fundamentação do ser a partir do ente. Tal premissa institui uma diferença entre as formas de conhecer e de conhecimento, originados no mundo da cognição, daqueles do mundo da vida de fato vivida, pois uma coisa são os conhecimentos científicos e filosóficos que detemos sobre a linguagem e outra são as experiências pensantes que fazemos com ela: "historicamente a linguagem cresceu a serviço do pensamento participativo"6 (BAJTIN, 1997, p.39) e "a linguagem é a casa do ser" (HEIDEGGER, 2005, p.38).

A segunda assertiva parece indicar que a linguagem encontra-se na vizinhança mais próxima do humano, o fato de que o homem encontra, na linguagem, a morada própria de sua presença no mundo, com a qual também concorda Bakhtin (1997) ao postular que o pensamento participativo se produz no seio da arquitetônica concreta do mundo do ato realizado, o qual não pode ser definido nas categorias de uma consciência teórica indiferente: a forma de habitar7 e exprimir a vida do ato ético e do evento único do ser é a palavra.

O que significaria, então, lidar de maneira pensante com a linguagem? Enquanto a Metafísica é calcada no modelo de ente, concebido como simples presença, considerando apenas aquilo que todos os entes têm em comum, o pensamento se move não diretamente onde está o homem, mas onde está o ser: o pensamento é o pensamento do ser, que compreende o ser (HEIDEGGER, 2010; 2005). Logo, percebe-se que uma das vias para se realizar o pensamento está na presença. O pensamento só vai à frente pelo fato de se fazer presente, de se questionar. É preciso, assim, perguntar. Esse questionamento será um mote para encontrarmos o caminho. Uma estrada do ser-no-mundo pavimentada de questões e respostas, porém abrindo clareiras que, aqui e ali, nos alçam a uma liberdade maior. Essa liberdade traduz-se na questão do pensamento.

A tarefa do pensamento deve caminhar juntamente com a Filosofia. Heidegger (2009) convida-nos a observar o fim da Filosofia como solução para a questão do pensamento. Reprova a cientificidade da Metafísica, valorizando o alargamento dos horizontes da Filosofia e do seu acabamento, ou seja, esse fim é um aperfeiçoamento, uma região. Como quer o filósofo: "O fim da filosofia é o lugar, é aquilo em que se reúne o todo de sua história, em sua extrema possibilidade. Fim, como acabamento, quer dizer esta reunião" (HEIDEGGER, 2009, p.67). Heidegger aponta para a Filosofia no sentido de saber. Saber como garantia do saber. Saber como suporte da verdade. Saber como uma espécie de pensamento antecipador. O filósofo reelabora, portanto, a questão do ser. Critica o fato de se ficar apenas repetindo os conceitos. É necessário, além de repetir, buscar o pensamento criador. O filósofo conclama-nos a sair do mesmo e buscar o múltiplo, o variado. A mesmice é frágil. É necessário procurar o pensamento criador. Assim sendo, pode-se perceber que a linguagem permeia os eventos criativos, uma vez que é condição básica para o pensamento.

Quanto a Bakhtin (1997), o valor do conhecimento (conteúdo) produzido através da teoria (cognição abstrata) é diferente de um conteúdo produzido pela experiência vivida: o primeiro corresponderia a um valor dado, presumido, e o segundo ao valor afirmado por aquele que pensa de uma maneira emocional-volitiva. Trata-se de um pensamento que age, que entona, circunscrevendo todo o conteúdo-sentido no ato executado, relacionando-o ao acontecimento único do ser. E, assim procedendo, procura expressar a verdade de um todo, de um dado momento, em sua unicidade irrepetível.

Isso significa que, para fazermos, de fato, uma experiência com a linguagem, devemos conduzir a nós mesmos para o seu modo de ser, para a sua essência, cujo sentido, na palavra alemã Wesen, significa a experiência de realizar o seu modo de ser, o seu vigor (HEIDEGGER, 2011, p.9): "a linguagem fala". Mas a fala não se resume ao dito: "os mortais falam à medida que escutam" e "toda a escuta autêntica sustenta-se na saga de um dizer próprio" (HEIDEGGER, 2011, p.25-26). Em contrapartida, para Bakhtin (1997), a palavra viva, a palavra completa, não designa meramente um objeto como uma entidade pronta, mas expressa a nossa atitude valorativa sobre ela, deixando em aberto aquilo que ainda está para ser determinado nela. Sendo assim, fazer uma experiência com a linguagem parece ser bem distinto de adquirir conhecimentos linguísticos sobre a linguagem pela ciência linguística, pela filologia ou pela psicologia.

Para Heidegger (2011, p.97), a linguagem é aquilo "que prevalece e carrega a referência do homem na sua duplicidade ser e ente": ela decide a referência hermenêutica, significando "que o homem é recomendado à medida que pertence, como o ser que é, a uma recomendação que o requer e o reivindica" (HEIDEGGER, 2011, p.99). Cita como exemplo a própria língua, que repousa sobre a distinção metafísica entre o sensível e o não sensível, já que elementos fundamentais como fonema/grafema e significado/sentido sustentam a estrutura da língua.

Bakhtin (2006), no ensaio The Problem of the Text in Linguistics, Philolgy, and the Human Sciences: An Experiment in Philosophical Analysis 8, ao falar sobre o texto, vai fazer a distinção entre dois níveis articulados da palavra: tema e significação, indicando que o primeiro remete àquele elemento único, não reiterável da enunciação, ao seu sentido completo; já o segundo estaria no nível da língua, na qual os elementos da enunciação são reiteráveis e idênticos a cada vez que são repetidos, constituindo apenas um nível inferior da interpretação. Como já indicara Holquist (1993), tal discussão abre espaço para a noção de dialogismo, a qual viria a ser desenvolvida em suas obras posteriores.

Podemos dizer então que, enquanto nas ciências o caminho para o saber é subordinado ao método, o caminho da experiência pensante com a linguagem pressupõe a escuta da palavra que vem ao nosso encontro, em sua essência vigorosa, enquanto saga do dizer (HEIDEGGER, 2011) e do ato responsável (BAKHTIN, 1997). Para tanto, é preciso que percamos o hábito de só ouvir o que já compreendemos.

3 A escuta da linguagem como caminho e abertura

Se é através da linguagem, da fala, que o ser se presenta no mundo e compartilha sua experiência com os outros, então interessa-nos saber: como se escuta autenticamente a linguagem?

Para Bakhtin (1997) e Heidegger (2012), isso envolve, como já foi visto, uma nova forma de pensamento que se volte para o ser e se mova num espaço aberto; e um compromisso de assumir radicalmente a sua historicidade, ou seja, o ser, no seu acontecer, na singularidade do evento. Além disso, há de se considerar também que, para ambos os filósofos (BAKHTIN, 1997; HEIDEGGER, 2012), a linguagem possui seus significados e estruturas já dados, com os quais entramos em contato como seres lançados no mundo, mas estruturas que ainda não representam uma articulação do ser-com, nem constituem uma experiência da realidade.

Para falarmos em escuta da linguagem temos que pensar em termos de encontro e abertura. Encontro não no sentido de dirigir-se à coisa em si, o que remete à noção de palavra como instrumento através do qual chegamos ao mundo; também a abertura não pode ser vista como explicitação total. Trata-se mais de um abrir-se para aquele ser que se revela na fala, acolhendo-o e respondendo ao seu apelo.

Nas palavras de Heidegger (2012), o pensamento é Hermenêutica, isto é, encontro com a linguagem, um exercício de interpretar a palavra sem a esgotar. Essa Hermenêutica, por ele proposta, tem os seus fundamentos no acontecimento do ser, em sua eventicidade e singularidade; e no pensamento; é por ele chamada de Hermenêutica da facticidade9 (HEIDEGGER, 2012).

Embora Bakhtin possa não ter explicitado claramente, como fez Heidegger, a reivindicação de uma hermêutica da facticidade, ele o fez implicitamente ao estabelecer uma relação constitutiva entre o evento do ser, o ato responsável em sua unicidade, com o mundo da experiência, da vida vivida, abrindo um novo caminho para se pensar as formas de conhecimento da vida humana via linguagem. Com sugere Vattimo (1999), na obra Para além da interpretação: o significado da hermenêutica para a filosofía, a Hermenêutica da facticidade heideggeriana é um pensamento motivado preponderantemente por razões éticas, em que está em jogo o valor do diálogo, da compreensão e do acolhimento do outro através da escuta. Pode-se dizer, então, que a escuta autêntica da palavra que vem ao nosso encontro é parte fundamental no caminho da experiência pensante com a linguagem.

4 Os caminhos do acontecimento do ser

Em Toward a Philosophy of the Act 10, na passagem na qual Bakhtin (1993) inicia o texto dizendo que "A atividade estética é também incapaz de tomar posse daquele momento do Ser que é constituído pela transitividade e aberta a eventicidade do Ser" (p.1), lê-se a nota de rodapé de S.Averintesev, traduzida por Vadim Liapunov, do russo para o inglês:

(1) A atividade estética é incapaz de apoderar-se do Ser enquanto Ser como evento em processo, enquanto Ser em trânsito, em processo de real devir. É nesse sentido que Bakhtin fala abaixo de sobytie bytiia -"o evento em devir do ser", "Ser como evento", "Ser-evento" (cf. o alemão Seinsgeschehen). Observe-se a clarificação de Bakhtin em Art and Answerability (Austin: University of Texas Press, 1990p.188 (nota de rodapé): "O evento do ser é um conceito fenomenológico, por estar presente ele mesmo em uma consciência viva como um evento [em processo], e uma consciência viva orienta-se ativamente e vive nele como em um evento [em processo] (p.78; trad. nossa)11.

Na nota pode-se observar o esforço de Averintesev em esclarecer, em Por uma Filosofia do Ato, o significado da expressão russa sobytie bytiia - "o evento em devir do ser", "Ser como evento" e confirmar a sua filiação à Fenomenologia, indo buscar no texto Art and Answerability (BAKHTIN, 1990 as evidências de que de fato esta relação encontra fundamento, na medida em que o evento remete à ideia de uma consciência viva como um evento, nele vivendo e orientando-se ativamente.

Outro caso de nota explicativa que esclarece o sentido mais originário e a filiação filosófica da expressão responsabilidade moral é aquela encontrada na primeira nota de rodapé (p.8) da tradução de Por uma filosofia do ato, do russo para o espanhol, por Tatiana Bubnova, referente à passagem em que Bakhtin refere-se à projeção do ato como um Jano Bifronte, olhando para a unidade objetiva da área cultural e para a unicidade irrepetível da vida vivida:

[...] esta unidade única pode ser tão somente o acontecimento único do ser que se produz, de modo que todo o teórico e todo o estético há de definir-se como um de seus aspectos e, desde logo, não em termos teóricos ou estéticos. Para poder projetar-se para ambos os aspectos - em seu sentido e em seu ser - o ato deve encontrar um plano unitário, adquirindo a unidade da responsabilidade bilateral, tanto em seu conteúdo (responsabilidade especializada) como em seu ser (responsabilidade moral), de modo que a responsabilidade especializada deve aparecer como um momento adjunto da responsabilidade moral única e unitária. É a única maneira como poderia ser superada a incompatibilidade e a impermeabilidade recíproca entre a cultura e a vida (BAJTIN, 1997, p.8)12

No texto acima, junto à expressão responsabilidade moral, lê-se a seguinte nota de rodapé da tradutora:

Evidentemente, aqui se refere à responsabilidade ontológica, inerente ao mesmo fato de ser, porque ser (bytie) em sua qualidade de acontecer (sbytie) não é senão "ser juntos", o eu e o outro; ser no mundo compromete [TB]. (BAJTIN, 1997, p.8)13

Nesse caso, a tradutora remete a expressão responsabilidade moral à tradição da Ontologia (responsabilidade ontológica). Ora, a Ontologia, na tradição clássica, significa a doutrina do ser enquanto tal, em suas determinações gerais. Na modernidade, seu emprego equivale a uma teoria de caráter formal, aplicando-se à objetualidade de um ente, podendo coincidir com a Ontologia antiga (Metafísica) ou ainda manter uma relação com a Fenomenologia em sentido estrito, limitado às vivências (HEIDEGGER, 2012). Não obstante, como observa Heidegger, as Ontologias tradicional e moderna são duplamente insuficientes, pois ao se aplicarem a um ser objetual e a "um pensar teórico indiferente", acabam por bloquear o acesso ao ente, o qual é decisivo para a problemática filosófica do ser-aí (Dasein):

[...] um pensar teórico indiferente ou o ser objetual material para determinadas ciências que se ocupam com ele, da natureza e da cultura; e o mundo, mas não considerado a partir do ser-aí e das possibilidades do ser-aí, porém sempre através das diversas regiões objetuais [...]. O que resulta disso: a ontologia bloqueia o acesso ao ente que é decisivo para a problemática filosófica, isto é, ao ser-aí, a partir do qual e para a qual a filosofia é (HEIDEGGER, 2012, p.8-9).

Desse ponto de vista decorre que a expressão Ontologia resultará insuficiente para dar conta do acontecimento do ser, na medida em que seu questionamento e investigação estão dirigidos apenas ao ser objetual.

No entanto, quando a tradutora agrega à palavra acontecimento um valor moral, de uma responsabilidade que lhe é inerente, em sua qualidade de acontecer, que não é, senão, ser juntos, o eu e o outro, não se trata mais de um ser objetual que coincide com o ente. Por conseguinte, não podemos mais falar em Ontologia numa acepção genérica e nem numa Fenomenologia restrita às vivências.

Mais adiante Bakhtin (BAJTIN, 1997, p.39-40) esclarece que "este mundo-acontecimento não é tão somente o mundo do ser, do que é dado: nem apenas um objeto [...] como algo completamente existente, mas que sempre se apresenta em virtude do ser alcançado [zadannoie], associado ao dado"14, já que não é possível tomar consciência de um objeto indiferente e acabado.

Assim, quando estamos vivendo um objeto, ainda que em forma de pensamento, ele se constitui em um dos momentos mutáveis do acontecimento dessa vivência-pensamento em seu vir-a-ser. Isso significa que ele se dá a conhecer em uma certa unidade deste acontecer, cujos momentos, daquilo que está para ser alcançado, do que já está dado, do ser e do dever, do ser e do valor, são inseparáveis.

Nesse sentido, Heidegger (2006, p.23) vai mais longe ao referir que a transitoriedade do pensamento "institui um projeto fundador da verdade do ser [Seyen] como meditação histórica"15 na medida em que "o pensar em trânsito coloca em diálogo aquilo, da verdade, que o ser [Seyen] foi, pela primeira vez, e o extremo futuro da verdade, conduzindo, nele, a palavra até agora não perguntada do ser [Seyen] "16. Assim sendo, abre-se espaço para a expressão da singularidade da verdade do ser. O ser não pode ser pensado a partir do ente. Tem de ser pensado de si mesmo: "O essenciar-se do mesmo ser [Seyn]; [...] deixar surgir o ser-ahí, [...] o chamamos de evento"17(HEIDEGGER, 2006, p.24-25).

Ao longo de Por uma filosofia do ato a expressão acontecimento do ser (traduzida do russo para o espanhol) ou ser-evento (traduzida do inglês para o português) aparece em inúmeros outros contextos, como a intenção de pensar o dever ser e da verdade como dever do pensamento (BAJTIN, 1997, p.10-11): "porque, se é que eu penso, devo pensar veridicamente [istinno]18?19" Essa verdade [istinno], segue dizendo Bakhtin (1997), do ponto de vista de uma definição teórico-cognitiva, só pode adquirir significado nos planos estético, científico e sociológico; em contrapartida, a verdade, no dever ser, só adquire significado na unidade da minha singular e responsável vida, já que "o dever ser é uma categoria peculiar de proceder enquanto ato [postuplenie-postupok] (tudo, incluindo o pensamento e o sentimento, representa um ato), é uma orientação da consciência cuja estrutura temos de manifestar fenomenologicamente20" (BAJTIN, 1997, p.12).

Referindo-se à Crítica a razão pura de Kant, Bakhtin observa também que "a descoberta de um elemento transcendente, a priori, em nossa cognição", não possibilitou encontrar uma saída para um ato cognoscitivo real e historicamente individual. Ao contrário, para esta atividade transcendental "criou-se um sujeito puramente teórico e historicamente inválido, uma consciência em geral, uma consciência científica, um sujeito gnoseológico"21 (BAJTIN, 1997, p.13). A tradutora colocou uma nota de rodapé no enunciado historicamente inválido, observando que a palavra histórico[istoricheskii] é usada, neste contexto, de forma inabitual para a língua russa, como uma expressão próxima ao termo com caráter de acontecimento (sobytiinyi), que lembra a palavra alemã geschitlich, termo importante na Filosofia alemã, que se distingue semanticamente da palavra historisch, que é tomada por Heidegger e seus seguidores como antônimo em relação à primeira. Bubnova observa também que, nas coletâneas alemãs de Bakhtin, Geschichte significa "a corrente do acontecer concretamente existencial, irreversível e irrepetível, diferentemente da esquematizada Historie"22 (BAJTIN, 1997, p.13).

Os exemplos acima discutidos nos auxiliam a recuperar, no plano linguístico, o sentido mais originário, como diria Heidegger, de ideias-chave contidas na filosofia bakhtiniana, tais como unicidade irrepetível da vida vivida, responsabilidade moral, acontecimento único do ser, verdade como dever do pensamento e, sobremaneira, suas filiações em termos de tradições filosóficas. É nesse ponto que a leitura de Heidegger é sempre esclarecedora, já que, ao instituir seu ponto de vista, o faz revisitando e questionando exaustivamente as tradições filosóficas que o nutriram, desde a Metafísica, a Ontologia, a Fenomenologia, até a Hermenêutica.

5 À guisa de considerações finais: caminhos abertos na clareira do ser

Esta reflexão, longe de esgotar a complexidade do tema proposto, pretendeu trazer à luz alguns fundamentos filosóficos que indiciam a dimensão ontológico-hermenêutica contida no pensamento bakhtiniano e no heideggeriano acerca da linguagem e do acontecimento-do-ser/Ser-aí (Dasein). Ontológica porque a compreensão (sentido) da existência humana passa necessariamente pela abertura histórica que somente o ser, enquanto acontecimento e projeto de poder-ser, na vida de fato vivida, pode propiciar ao ente: o ser é existência. Hermenêutica porque a compreensão (sentido) do ato responsável e do Ser-aí (Dasein), no acontecimento do ser-no-mundo, passa necessariamente por um outro tipo de compreensão que não se reduz e nem se confunde com uma mera explicação que se possa encontrar em algum sistema fundante universal regido pela razão, a exemplo dos métodos racionais (de fundar e explicar) da ciência. Fazer uma experiência hermenêutica não pode ser permanecer numa pré-compreensão de um mundo já dado, conhecido, explicado, de um sentido estabilizado. A compreensão que se pretende é aquela que só pode ser encontrada no dever-ser do ato responsavelmente vivido e na facticidade do Ser-aí (Dasein), ou seja, trata-se daquilo que a própria vida dá a entender, um mundo impregnado por tonalidade emocional/afetiva e volitiva.

Como podemos perceber, Bakhtin e Heidegger convocam-nos a trilhar o caminho da linguagem no acontecimento do ser. Para tanto, é preciso ir além da relação coisa e palavra, procurando-se o ser e o dizer. Ou seja: "É a linguagem que detém a guarda tanto do ser das coisas, enquanto presença, como também do modo de acontecer do evento, na medida em que ela circunscreve o campo da nossa possível experiência no mundo" (SAMPAIO, 2013, p.5).

Assim, pode-se dizer que o ser é o princípio, a abertura para o mundo. Por outro lado, verifica-se que o ente é a simples presença, aquilo que é passível de conhecimento, manipulação ou transformação. Dessa forma, o olhar sobre o ser, e não sobre o ente, possibilita a experiência pensante com a linguagem, dando um novo sentido para investigações que busquem observar seus fenômenos. O modo de nos aproximarmos desses fenômenos também deve ser repensado, mantendo-se o olhar sobre o que é dito, preservando-se o espaço do não dito, acolhendo-se a fala na medida em que se revela, tal como ela é, e não como gostaríamos que fosse, ou como queremos compreendê-la.

É preciso ainda considerar cada experiência como singular, pertencente a uma comunidade histórica, que vive na língua, e só a partir desse lugar singular procurar os nexos, os ecos que ressoam em infinitas conexões. O exercício da escuta atenta há de ser priorizado, pois só através dela podemos chegar ao ser que se pronuncia na fala, possibilitando que nosso dizer seja também transformado e desvele o conhecimento que se abre no espaço da clareira. Nesse sentido, podemos afirmar, com Heidegger (2010), que a presença do ser-no-mundo pronuncia-se através da fala, já que é ela que possibilita a articulação da compreensibilidade, razão pela qual a fala encontra-se na base da interpretação de todo o enunciado.

Para finalizar, ao nos confrontarmos com a compreensão e a interpretação do acontecimento do ser, na linguagem, somos convocados, pela nossa responsabilidade moral com o pensamento e o ato ético participativo, a procurar pelo espaço da clareira. Os caminhos privilegiados dessa busca de conhecimento, sinalizados por Bakhtin e Heidegger, interessam a todos aqueles que se proponham a ir além das estruturas lógicas das línguas naturais, pois, se só através da linguagem podemos chegar ao acontecimento do ser, investigá-la significa buscar compreender como se dá a própria abertura do ser no mundo.

11a. Impressão por Vittorio Klostermann, Frankkfurt, 1994. Tradução, para o espanhol, de Juan José Garcia Norro, Editorial Sintesis,(s.d.), sob o título Introducción a la investigación fenomenológica.

2Origens filosóficas da Ética em Bakhtin: releituras da Metafísica e da Fenomenologia ontológico-hermenêutica, apresentado em 2011 na 14th International Bakhtin Conference, na Itália, e publicado em 2013, em livro organizado por Ana Zandwais, História das ideias. Diálogos entre linguagem, cultura e história, pela Editora da Universidade de Passo FundoBakhtin e Heidegger: a linguagem como experiência pensante, texto apresentado, em 2014, no 13th International Conference on the History on the Languages Sciences, na Universidade de UTAD, Vila Real, Portugal; Dimensão ontológico-hermenêutica no pensamento ético bakhtiniano e heideggeriano e construção do sentidotexto apresentado na VIII Jornada do GP/CNPq Linguagem, Identidade e Memória, por ocasião do 19o. InPLA, São Paulo, outubro de 2013.

3No original em espanhol: "De ahí que resulte claro: la primera filosofía que trate de analizar el acontecimiento del ser tal y como lo conoce el acto responsable - es decir, no el mundo creado por el acto, sino un mundo en el que el acto toma conciencia de sí mismo y en el que se lleva a cabo - no puede generar conceptos, postulados y leyes generales acerca de este mundo (la pureza teórica y abstrata del acto ético), sino que tan sólo puede ser una descripción, una fenomenologia del mundo del acto ético. [...] el acto ético ve no sólo el contexto unitario, sino también el contexto singular y concreto, el contexto último, y con él relaciona también su sentido así como su hecho; es ahí donde trata de realizar responsablemente la única verdad del hecho e del sentido en su unidad concreta." (BAJTIN, 1997, p.39;36)

4No original em espanhol: "La pregunta por el "sentido", es dicir [...] por la verdad del Ser [Seyn] es y permanece mi pregunta [...], pues ella rige para lo único por excelencia. [...] Realizada y concebida históricamente se convierte en la pregunta fundamental, frente a la pregunta vigente de la filosofia por el ente[...] La pregunta por el ser es el salto al ser [Seyen], que el hombre cumple como buscador del ser [Seyen], en tanto es un hacedor pensante. [...] Este ser - la historicidad - nunca es en cada época el mismo.[...] Lo que se inaugura en la fundación del ser-ahí es el evento[...] El ser [...] se esencia como el evento. [...] El pensar del ser [Seyen] como evento es el pensar inicial, que como confrontación con el primer comienzo prepara al otro". (HEIDEGGER, 2006, p.24; 27; 41-43)

5No original em espanhol: "La filosofía moral deberia ocuparse de describir esta arquitectónica del mundo real del acto ético, no en forma de un esquema abstracto, sino como un plano concreto del mundo del acto unitario y singular, de los momentos principales concretos de su estructuración y su disposición recíproca. Estos momentos son: yo-para-mí, otro-para-mí y yo-para-otro". (BAJTIN, 1997, p.60)

6No original em espanhol: "Históricamente, el lenguaje iba formándose en el servicio del pensamiento participativo". (BAJTIN, 1997, p.39)

7A referência ao verbo habitar, na relação da vida do ato ético e a palavra, deve ser entendida como pensar a essência dessa última em sua correspondência ao ser, como habitação da essência do homem.

8O ensaio The Problem of the Text in Linguistics, Philology, and the Human Sciences: An Experiment in Philosophical Analysis, foi publicado na coletânea intitulada Speech Genres and Other Late Essays, publicada pela University of Texas Press. Diferentemente, no Brasil, foi publicado na coletânea intitulada Estética da criação verbal [Aesthetics of Verbal Creation], cujo original foi publicado na Rússia in 1979. Ver as Referências no final deste artigo.

9Heidegger chama de facticidade o modo pelo qual o Dasein dá-se a cada vez. O conceito de facticidade inclui o ser-no-mundo de um ente intramundano capaz de se compreender como lugar no seu destino para o ser do ente que se encontra no interior de seu próprio mundo.

10A referida nota de rodapé de S.Averintesev, traduzida por Vadim Liapunov, do russo para o inglês, não consta na edição espanhola, op.cit., razão pela qual utilizamos, nesse caso, a edição inglesa: BAKHTIN, M. M. Toward a Philosophy of the Act. Translation and notes by Vadim Liapunov. Austin, TX: University of Texas Press, 1993.

11No original em inglês: 1. Aesthetic activity is powerless to take hold of Being insofar as Being is an ongoing event, insofar as Being is in transit, in process of actual becoming. It is in this sense that Bakhtin speaks below of sobytie bytiia - "the ongoing event of Being," "Being-as-event," "Being-event" (cf. German Seinsgeschehen). Note Bakhtin's clarification in M. M. Bakhtin, Art and Answerability (Austin: University of Texas Press, 1990), p.188 (footnote): "The event of being is a phenomenological concept, for being presents itself to a living consciousness as an [ongoing] event, and a living consciousness actively orients itself and lives in it as in an [ongoing] event" (p.78).

12No original em espanhol: "Esta unidad única puede ser tan sólo el acontecimiento único de ser que se produce, de modo que todo lo teórico y todo lo estético ha de definirse como uno de sus aspectos y, desde luego, ya no en términos teóricos o estéticos. Para poder proyectarse hacia ambos aspectos - en su sentidoy en su ser - el acto debe encontrar un plano unitario, adquiriendo la unidad de la responsabilidad bilateral tanto en su contenido (responsabilidad especializada) como en su ser (responsabilidad moral), de modo que la responsabilidad especilizada debe aparecer como momento adjunto de la responsabilidad moral única y unitaria. Es la única manera como podría ser superada la incompatibilidad y la impermeabilidad recíproca viciosa entre la cultura y la vida." (BAJTIN, 1997, p.8)

13No original em espanhol: Nota (1). Evidentemente, aqui se refiere a la responsabilidade ontológica, inherente al mismo hecho de ser, porque ser (bytie) em su calidad del acontecer (sobytie) nos es sino <ser juntos> el yo y el outro; ser en el mundo compromete [TB].

14No original em espanhol: "este mundo-acontecimiento no es tan sólo el mundo del ser, de la dación: ni un solo objeto [...] como algo completamente existente, sino que siempre se presenta en virtud de lo planteado [zadannoie] asociado a lo dado." (BAJTIN, 1997, p.39,40)

15No original em espanhol:"El pensar en transito produce el proyecto fundante de la verdad del ser [Seyen] como meditación histórica ". (HEIDEGGER, 2006, p.23)

16No original em espanhol: "El pensar en tránsito pone en diálogo lo primero sido del Ser [Seyen] y lleva en él a la palabra la hasta ahora im-preguntada esencia del Ser [Seyen]".(HEIDEGGER, 2006, p.23)

17No original em espanhol: "Es el esenciar-se del mismo ser [Seyen]; [...] dejar surgir al ser-ahí, [...] lo llamos el evento" (HEIDEGGER, 2006, p.24-25).

18Bakhtin (1997), em Por uma filosofia do ato, ao fazer a distinção entre duas formas de verdade, utiliza-se de dois vocábulos russos: istinno, referindo-se à verdade teórico-cognitiva, com suas leis universais: esta forma de verdade seria insuficiente para dar conta do ato ético, já que de uma definição teórica abstrata não pode resultar nenhum dever-ser ético; pravda, refere-se à verdade decorrente do ato de pensar, de um sujeito, em sua unicidade e singularidade, que se engaja e compromete, eticamente, na busca da verdade do acontecimento do ser.

19No original em espanhol: "¿Por qué, si es que yo pienso, yo debo pensar verídicamente [istinno]?" (BAJTIN, 1997, p.11)

20No original em espanhol: "El deber ser es una peculiar categoría del proceder en cuanto acto [postuplenie-postupok] (todo, incluso el pensamiento y el sentimiento, representa un acto), es una orientación de la conciencia cuya estructura hemos de poner de manifiesto fenomenológicamente." (BAJTIN, 1997, p.12)

21No original em espanhol: "El encuentro de un elemento transcendente a priori en nustra cognición" [...]"hubo que ingeniar [izmyslit] un sujeto puramente teórico, históricamente inválido, una conciencia en general, una conciencia científica, un sujetognoseológico. " (BAJTIN, 1997, p.13)

22No original em espanhol: Nota (5): "[...] la corriente del acontecer concretamente existencial, irreversible e irrepetible, a diferencia de la esquematizada Historie".

REFERÊNCIAS

AMORIM, M. Para uma filosofia do ato: "válido e inserido no contexto". In: BRAIT. B. (Org.). Bakhtin, dialogismo e polifonia. São Paulo: Contexto, 2009, p.17-43. [ Links ]

BAJTIN, M. Hacia uma filosofia del acto ético. De los borradores y otros escrito Trad. Tatiana Bubnova. Barcelona: Anthropos; San Juan: Universidade de Puerto Rico. 1997. [ Links ]

BAKHTIN, M. M. Toward a Philosophy of the Act. Translation and notes by Vadim Liapunov. Austin, TX: University of Texas Press, 1993. [ Links ]

BAKHTIN, M. M. The problem of the text in Linguistics, Philology, and the Human Sciences: An Experiment in Philosophical Analysis. In: Speech Genres and Other Late EssaysTrad. Vern W. McGee. Austin: University of Texas Press, 2006, p.103-131. [ Links ]

BAKHTIN, M. Art and Answerability: Early Philosophical Essays by M. M. Bakhtin., Austin: University of Texas Press 1990. [ Links ]

HEIDEGGER, M. Ontologia. Hermenêutica da facticidade Trad. Renato Kirchner. Petrópolis: Vozes, 2012. [ Links ]

_______. A caminho da linguagem. Trad. Márcia Sá Cavalcante Schuback. Petrópolis: Vozes, 2011. [ Links ]

_______. El ser y el tiempo. Trad. José Gaos. El Salvador/Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica, 2010 [ Links ]

_______. Sobre a questão o pensamento. Trad. de Ernildo Stein. Petrópolis: Vozes, 2009. [ Links ]

_______. Aportes a la filosofia acerca del evento.Trad. Dina V. Picotti C. Buenos Aires: Editorial Biblos, [1989] 2006. [ Links ]

_______. Carta sobre o humanismo. Trad. Rubens Eduardo Frias. São Paulo: Centauro, 2005. [ Links ]

HOLQUIST, M. Prefácio. In: BAKHTIN, M. M. Para uma filosofia do ato. Trad. Carlos Alberto Faraco e Cristovão Tezza (para fins didáticos), 1993. [ Links ]

SAMPAIO, M. C. H. Bakhtin e Heidegger: a linguagem como experiência pensante. In: 13th International Conference on the History on the Languages Sciences, 2014, Conference Handbook of the 13th International Conference on the History on the Languages Sciences. Vila Real, Portugal: Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro 2014: 235-236. [ Links ]

VATTIMO, G. Para além da interpretação: o significado da hermenêutica para a filosofía. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1999. [ Links ]

Recebido: 09 de Março de 2015; Aceito: 26 de Agosto de 2015

Creative Commons License Este é um artigo publicado em acesso aberto (Open Access) sob a licença Creative Commons Attribution, que permite uso, distribuição e reprodução em qualquer meio, sem restrições desde que o trabalho original seja corretamente citado.