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Bakhtiniana: Revista de Estudos do Discurso

On-line version ISSN 2176-4573

Bakhtiniana, Rev. Estud. Discurso vol.11 no.3 São Paulo Sept./Dec. 2016

http://dx.doi.org/10.1590/2176-457322356 

ARTIGOS

Ética e estética na produção de sentidos no começo da vida: considerações sobre a simultaneidade do passado e futuro no presente

Nadja Maria Vieira* 

*Universidade Federal de Alagoas - UFAL, Maceió, Alagoas, Brasil; vieira.ufal@gmail.com

RESUMO

Este estudo é uma exploração de alguns pressupostos conceptuais da análise literária em situações cotidianas de produção de sentidos. Esta exploração foi realizada a partir de registros longitudinais videografados da interação de uma díade mãe-bebê. Os pressupostos focalizados foram concepções de linguagem, ética e estética. Em uma análise microgenética ilustraram-se, com dados empíricos, o funcionamento desses pressupostos na produção de sentidos. Nos resultados discutiram-se implicações da simultaneidade de experiências passadas e antecipações de suas possibilidades futuras na organização da interação no presente imediato. Concluiu-se que a produção de sentidos é uma forma de resolver tensões promovidas pela simultaneidade de diferentes tempos, em experiências marcadas pela factualidade, originalidade e pela estabilidade dinâmica de uma situação responsiva. Com essas características, a produção de sentidos foi considerada um exercício ético e estético das ações humanas. Então foi reconhecida a apropriação dos pressupostos discutidos na literatura para análise também de práticas cotidianas com a linguagem.

Palavras-chave: Produção de sentidos; Começo da vida; Ética e estética

Considerações gerais

Neste texto exploram-se, em situações cotidianas de práticas com a linguagem, pressupostos conceptuais sustentados na análise da literatura desenvolvida por Bakhtin (1993; 2003a; 2003b; 2003c; 2010). Esta iniciativa reflete previsões deste filósofo da linguagem acerca da possível verossimilhança entre a arquitetura dos processos psicológicos emergentes nas relações travadas entre autor e personagens de uma obra e os processos psicológicos atuantes na vida real, fora da literatura. Essas previsões se fundamentaram, inicialmente, em suas observações sobre a organização de processos psicológicos de personagens no enredo relacionado com a experiência da unidade tempo-espaço, levando-o a declarar que a configuração cronotópica potencializa a obra literária na provisão de metáfora para vida real.

Refletindo-se sobre essas observações, resgata-se aqui o potencial do conjunto da obra de Bakhtin para estudar o desenvolvimento humano no começo da vida. Nesse resgate, promove-se a ampla divulgação de uma expectativa que tem levado muitos pesquisadores da psicologia a fundamentarem empiricamente pressupostos defendidos por Bakhtin (HERMANS, 2001; BERTAU et al., 2013; SILVA; VASCONCELOS, 2013). O presente texto se alinha com essas iniciativas, apresentando uma abordagem dos processos da comunicação mãe-bebê, mais especificamente da produção de sentidos no começo da vida, fundamentada em parâmetros conceptuais de Bakhtin. Investe-se aqui, portanto, na força de suas palavras acerca da "[s]imultaneidade do vivenciamento da arte e do estudo da ciência" (BAKHTIN, 2003b, p.381).

A produção de sentidos no começo da vida foi concebida aqui como fenômeno emergente nas práticas cotidianas com a linguagem, com predominância de processos não verbais onde se refletiram uma assimetria entre os interlocutores. Considerou-se que este é um cenário fenomênico sugestivo e instigante para ativar as previsões de Bakhtin, que muito cedo já pontuava que "[...] não se deve temer que a filosofia do ato ou ação responsável volte-se ao psicologismo e ao subjetivismo" (1993, p.29)1. Assim, defendeu-se aqui, uma pertinência e consonância dos argumentos proferidos por sua filosofia com os fenômenos estudados na Psicologia do desenvolvimento relacionados com a comunicação no começo da vida. Além disso, na filosofia de Bakhtin, a produção de sentido foi considerada um aspecto eminentemente relevante tanto para o conhecimento artístico quanto para a ciência, visto que "[o] mundo tem um sentido" (BAKHTIN, 2003c, p.398). Referindo-se à índole dos sentidos, ele declarou: "Chamo de sentido às respostas a perguntas. Aquilo que não responde a nenhuma pergunta não tem sentido pra nós" (BAKHTIN, 2003b, p.381; grifo no original).

Nesta abordagem entrelaçaram-se as concepções de ética e estética tendo-se como cenário a produção de sentidos enquanto atos de responsividade configurados na comunicação mãe-bebê. Considerou-se que esses atos de responsividade pressupõem caráter ético pelo fato de serem configurações únicas de manifestações de intersubjetividades. Além disso, pressupõe-se também, nesses atos, uma experiência estética, considerando-se a participação do excedente de visão (como oferta de informação ainda não conhecida sobre e para o outro) aqui focalizada, sobretudo, nas ações da mãe (como poderá ser visto posteriormente), como condição interativa necessária, para emergência de intersubjetividades atuantes no diálogo ali configurado. A exploração que se propôs aqui consistiu na análise e discussão, sustentadas no cruzamento de observações oriundas de registros videografados de dados longitudinais da interação de uma díade mãe bebê, com conceitos e ideias apresentadas por Bakhtin (1993; 2003a; 2003b; 2003c; 2010) acerca da dimensão ética e estética nas práticas humanas com a linguagem.

1 Práticas humanas com a linguagem: tensão entre conservar e inovar

Na sua filosofia do ato, Bakhtin (1993) destacou a existência de uma expressividade fundamental e essencial do Ser-evento unitário e único. Todavia, ele já havia observado que seria muito difícil a atribuição de uma expressão adequada e plena para esse Ser, uma vez que ele sempre se manifesta como aquilo que está para ser alcançado. Destaca-se, portanto, tamanha complexidade e dinâmica, residindo numa quase intraduzível concepção de linguagem na filosofia de Bakhtin. Por outro lado, em torno dessa concepção de linguagem encontra-se a mola mestra do conjunto das preciosas revisões conceptuais que ele presenteou à humanidade como possibilidade de um projeto de investigação sobre si mesmo.

A situação polêmica em que se situa a linguagem, por um lado como função de difícil definição e tradução e, por outro, como aspecto central para o conhecimento sobre a experiência humana no mundo, tem levado filósofos e pesquisadores contemporâneos à árdua tarefa de conceituá-la e definir seu papel no desenvolvimento humano (HERMANS, 2001a; SILVA; VASCONCELOS, 2013; BERTAU et al., 2013). As palavras empenhadas por Holquist ao introduzir uma versão do texto de Dialogical Imagination, parecem reforçar a dificuldade dessa tarefa:

No centro de tudo o que Bakhtin já fez, pelo que sabemos dos muitos manuscritos (perdidos) até o trabalho mais recente (ainda não publicado), está um conceito altamente distintivo de linguagem. A concepção tem como sua possibilidade a priori um sentido quase maniqueísta de oposição e luta no coração da existência; uma batalha incessante entre as forças centrífugas que tentam manter as coisas separadas, e as forças centrípetas que se esforçam para tornar as coisas coerentes (HOLQUIST, 1981, p.xviii)2.

Foi propósito do presente estudo uma retomada da discussão sobre ética e estética tecida por Bakhtin (1993; 2003a), refletindo-se esse processo de busca, ora pela coerência, ora por constantes bifurcações e separação de objetos e ideias como expressão do desenvolvimento humano sustentado pelas práticas com a linguagem. Em outras palavras, aqui foram abordados processos relacionados com a responsabilidade de um ato ético que conhece "[...] um contexto unitário no qual é levado em conta sua validade teórica, sua factualidade histórica e seu tom emocional-volitivo configurado como momentos de uma só decisão ou resolução (BAKHTIN, 1993, p.28)3.

Esse contexto unitário foi interpretado aqui como situações de responsividade ou de produção de sentidos. Dessa forma, procurou-se preservar uma lógica das ciências sociais que, segundo Bakhtin, deve promover uma abordagem do sentido da eventicidade do ser, sem "[...] abstraí-lo do ato-ação real único e de seu autor, aquele que está pensando teoricamente, contemplando esteticamente e agindo eticamente" (1993, p.27-28)4.

2 Ética: a responsabilidade sem álibi

Na sua abordagem sobre ética, Bakhtin (1993; 2003a) remeteu-se ao espaço para a execução real e responsável de uma ação. Nas suas palavras, ética "[...] é uma categoria da individualidade, da unicidade de um ato realizado, de sua compulsão única, de sua historicidade, da impossibilidade de trocá-lo por nada ou de lhe fornecer um substituto" (1993, p.25)5. Na atualização de características do ato responsável, ele criticou o sistema que dividia a ética como material (do conteúdo) e formal, alegando que a consequência dessa divisão foi a anexação do dever ético às proposições teóricas, as quais não podem ser fundadas imediatamente em um ato realizado, nem mesmo em um ato pensado e, muito menos, em sua real execução. Outra falha apontada por Bakhtin nessa forma de conceber a ética por meio da norma foi acerca da universalidade, pois, em sua opinião, é um erro pensar que o dever pode ser estendido e aplicado a todos. A universalidade do dever é também um defeito da ética formal, na medida em que o conceito de legalidade, que lhe está subjacente, é completamente incompatível com o dever ético, pois, na função de legalidade "[...] transferem-se o ato realmente realizado à pura teoria [...] e a legalidade do imperativo categórico como universalmente válido consiste exatamente nessa justificação teórica" (BAKHTIN, 1993, p.26)6. Há, portanto, em sua opinião, um "[...] teoreticismo fatal (a abstração do meu único eu)" (BAKHTIN, 1993, p.27)7 na concepção de ética formal que não corresponde ao mundo no qual um ato ou ação é executado.

Bakhtin (1993; 2003a; 2003b; 2003c; 2010) arquitetou intercâmbios vigorosos com os interesses da ciência ao caracterizar sua filosofia com atributos que hoje são reconhecidos por sua elástica abrangência para o conhecimento sobre a existência humana. Nessa articulação, ele pontuou que a ética deve se tornar a lógica das ciências sociais, sendo necessário que nestas se alicercem o reconhecimento de que o ato executado pressupõe não o aspecto do conteúdo, mas um desempenho que, de algum modo, sustenta o ser da vida unitário e único realizando a sua integridade. Portanto, o interior desse ato "[...] refere-se ao seu próprio sentido e sua própria factualidade, e ao esforço para realizar responsavelmente a verdade única [Pravda]" (BAKHTIN, 1993, p.28, grifo no original)8, conferindo-lhe a sua concreta historicidade e individualidade que devem ser o objeto de conhecimento das ciências sociais e humanas.

3 Estética: ações que completam o outro nos aspectos em que este não pode completar-se

Um momento essencial (ainda que não o único) da contemplação estética, de acordo com Bakhtin (1993), é a empatia com o objeto individual da visão. O momento da empatia é sempre seguido pelo momento da objetivação; isto é, o ato de colocar do lado de fora a individualidade percebida pela empatia e retornar a si mesmo. Para ele, apenas esse retorno consciente dá forma, isto é, formata esteticamente de seu próprio lugar uma individualidade qualitativamente original.

Na análise de Bakhtin (1993; 2003a), estética é uma função subjacente e correlata ao ato ético responsável uma vez que:

[...] a responsabilidade estética de todo ser humano pela adequação do papel representado permanece na vida real, porque a representação de um papel como um todo é uma ação responsável executada por aquele que interpreta e não por quem é representado (1993, p.18; grifo original)9.

Há, assim, uma incorporação do mundo estético na ação responsável ética do Ser na sua eventicidade, na medida em que ao compreender um objeto o Ser compreende o seu dever em relação a ele (a atitude ou posição que ele deve tomar em relação a ele). Esse dever em relação ao objeto da contemplação estética foi denominado excedente de visão e considerado por Bakhtin (1993) como um aspecto constitutivo da condição única do ser. Ele destacou ainda que, no ato de contemplação de uma pessoa situada do lado de fora se revela uma diversificação de horizontes, pois quem contempla sempre verá e saberá algo que aquele que está sendo contemplado não alcança em sua visão ou sabedoria.

Referindo-se ao efeito do excedente de visão como posse de conhecimento na contemplação estética, ele destacou que o indivíduo contemplado está sempre condicionado pela singularidade e não possibilidade de substituição do lugar no mundo ocupado por quem o contempla. Nas suas palavras:

O excedente de minha visão em relação a outro indivíduo condiciona certa esfera do meu ativismo exclusivo; isto é, um conjunto daquelas ações internas ou externas que só eu posso praticar em relação ao outro, a quem elas são inacessíveis no lugar que ele ocupa fora de mim; tais ações completam o outro justamente naqueles elementos em que ele não pode completar-se (BAKHTIN, 2003a, p.22-23).

Comparando o excedente de visão a um broto, sobre o qual repousa uma forma e onde desabrocha como uma flor, Bakhtin (2003a) destacou que, para que esse broto efetivamente desabroche na flor de forma concludente, urge que o excedente de visão complete o horizonte do indivíduo contemplado sem perder a originalidade deste. Implica-se, então, nesse processo, o exercício axiológico do contemplador que, empaticamente, imprime valores (vontade, conhecimento, sentimento) para o objeto contemplado, tal qual ele o vê, colocando-se no lugar dele.

Resume-se então que, no percurso do dever ético e da contemplação estética, incidem empatia, axiologia e interpretação (enquanto ambiente concludente promovido no ato do contemplador de retornar a si mesmo). Se a interpretação é tomada aqui como constituinte da contemplação estética e do ato responsável, então se efetiva o entrelaçamento entre ética, estética e linguagem. Além disso, reconhecendo-se a interpretação como uma manifestação da linguagem exercida na redefinição de horizontes entre o 'eu' (do contemplador estético) e do 'outro' (objeto de contemplação), confere-se a função constitutiva da linguagem, apontada por Holquist (1981), ao referir-se à tensão que nela se sustenta, pela relação dialógica entre a conservação de aspectos preexistentes e a emergência do novo, enquanto arquitetura natural da existência humana.

Confirma-se então esse cenário conceptual e analítico, discutido até agora, como suporte para o estudo exploratório que se desenvolveu aqui, considerando-se que nele se reafirmou o interesse de Bakhtin por uma caracterização do psiquismo humano que supere o racionalismo imprimido nas condutas teóricas extremas, por um lado e, por outro, também supere o subjetivismo abstrato que aliena o funcionamento psíquico de sua historicidade.

No presente estudo, os processos psicológicos cuja análise foi ancorada nesse cenário conceptual foram empiricamente recortados a partir do funcionamento da atenção conjunta e dos processos que nela se deflagram. A justificativa para esse recorte residiu na relevância que têm os estudos da atenção conjunta, realizados com dados da comunicação mãe-bebê mediada por objetos, para o conhecimento sobre os processos psicológicos humanos no começo da vida. Nas suas pesquisas, Tomasello (1999) mencionou uma revolução dos nove meses relacionada com a intersubjetividade emergente no contexto da atenção conjunta que, segundo ele, marca o início da consciência humana sobre a sua semelhança com 'o outro' e sobre as manifestações da intencionalidade nas interações.

Uma avaliação sobre essas informações fomentou um investimento numa releitura dos processos subjacentes à intersubjetividade baseada nas discussões acerca do exercício ético e da contemplação estética nas ações humanas mediadas pela linguagem, tal como fundamentado filosoficamente por Bakhtin. A motivação para essa releitura foi uma insatisfação com as explicações tecidas por Tomasello (1999) acerca do comportamento intencional configurado nas situações de atenção conjunta. Acredita-se que há ainda, nessas explicações, resíduos de pressupostos racionalistas tradicionais - o caráter lógico seja de natureza empírica ou dedutiva. A expectativa que se investiu foi que o suporte conceptual acerca do ato ético e estético exercido nas práticas com a linguagem pode ascender explicações sobre as bases dialógicas desses processos no começo da vida.

Por fim, na realização deste estudo também se promoveu proposições de Bakhtin (2003c) sobre a apropriação de parâmetros que devem nortear as metodologias das ciências humanas e sociais. Entre essas proposições, destacam-se aqui: uma ampla vinculação da inter-relação entre o ambiente com o horizonte do 'eu' e do 'outro' e uma adoção do ser expressivo e falante enquanto objeto de conhecimento, e a interpretação cognitiva do sentido, sendo esta última, a questão central do presente estudo.

4 Metodologia

O objetivo geral deste estudo foi explorar os conceitos de ética e estética, originalmente relacionadas com a análise do texto literário, em situações cotidianas de práticas com a linguagem, focalizando-se aqui a produção de sentido no começo da vida enquanto fenômeno configurado nessas práticas. A exploração que se objetivou foi caracterizada por uma leitura da produção de sentidos enquanto processo intersubjetivo deflagrado na atenção conjunta, com base no funcionamento do ato ético e estético, de acordo com Bakhtin (1993; 2003a).

Investiu-se na possibilidade de construir informações sobre o desenvolvimento da comunicação do começo da vida imprimindo-se nessas informações o papel da historicidade e da ampla vinculação do ambiente às relações dialógicas e sentidos emergentes entre a mãe e o bebê participantes deste estudo.

Trata-se de um estudo longitudinal de caso. Os dados foram registros videografados da interação de uma díade. Os procedimentos para a videografia foram previamente apreciados por um comitê de ética que emitiu parecer favorável. Além disso, a participação voluntária da mãe foi confirmada, através da assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido - TCLE.

As sessões de videografia foram realizadas uma vez por semana, durante 11 meses, a partir da idade inicial de quatro semanas do bebê. O ambiente para a realização dos registros foi mantido imutável durante todo período da videografia (mesmo local e mesma disposição de brinquedos e mobília). Como instrução para o início da videografia, foi dito para a mãe que ela deveria se comportar naturalmente, satisfazendo as necessidades do bebê quando elas surgissem durante intervalo das gravações. Nenhuma instrução foi apresentada no que se refere ao manuseio dos brinquedos disponíveis no local.

O conjunto dos dados reuniu quarenta vídeos com duração média de 20 minutos. Para iniciar a análise assistiram-se por duas vezes aos referidos vídeos, tendo-se como postura investigativa o olhar para os processos que, de alguma forma, denunciavam o compartilhamento de atenção. Esse olhar refletiu a literatura voltada para o desenvolvimento infantil que destaca a emergência de processos de intersubjetivação relacionados com o compartilhamento de atenção (TOMASELLO, 1999). Nos dados, essas situações foram marcadas, principalmente, pela manutenção do contato do olhar do bebê com a mãe e do olhar conjunto para um mesmo objeto. O foco nas situações de compartilhamento também foi uma estratégia para se encontrar as situações potenciais de responsividade, parâmetro através do qual se capturou a produção de sentidos, alinhada com a perspectiva de Bakhtin quando destacou "[a] índole responsiva do sentido" (2003b, p.381).

Cumprida essa fase, assistiram-se aos vídeos uma terceira vez, delimitando-se, agora, o início e o fim das situações de compartilhamento de atenção. O procedimento posterior foram transcrições das situações delimitadas. As transcrições foram baseadas em discussões tecidas por Silva et al. (2014) acerca da transformação da imagem em texto. Nessas discussões as pesquisadoras avaliaram concepções de dado, definindo-o como uma construção do pesquisador, preterindo qualquer possibilidade de sua existência atemporal e alheia aos objetivos da pesquisa para qual ele se destina. Partindo desses pressupostos, um grupo de pesquisa realizou as transcrições e cada evento transcrito foi objeto de discussão entre os cinco integrantes desse grupo, durante reuniões regulares.

Nessas discussões tomavam-se como material o vídeo (ativado no momento das discussões) e a descrição das ações (o texto das imagens). O parâmetro central para as transcrições foi a dinâmica de alternação de turnos de ações, considerando-se características da comunicação mãe-bebê, onde essa dinâmica se configurou, sobretudo, por troca de ações não verbais. Essas ações não verbais foram detalhadamente transcritas, preservando-se a relação entre ação e resposta corresponde para essa ação.

Finalmente conduziu-se uma análise microgenética, definindo-se esta, de acordo com Sinha (2013), como método "[...] fenomenologicamente informado e estruturado, orientado para a descrição densa e elucidação das riquezas das vivências e recheado por significados da situação dialógica" (SINHA, 2013, p.149)10. Essa estruturação fenomenológica diz respeito ao alto grau de envolvimento do pesquisador para levantamento das relações entre os aspectos estudados a partir das configurações dos dados e das respectivas interpretações. Na opção pela análise microgenética considerou-se também que essa forma de abordagem dos dados seja apropriada e necessária para a apresentação de informações sobre a natureza dinâmica e sobre a dimensão dialógica dos processos investigados (LAVELLI, et al, 2002; SCORSI; LYRA, 2012).

Resultados e discussões

Os resultados aqui apresentados referem-se à descrição densa de três eventos selecionados. Para esta seleção considerou-se o potencial de informações para ilustrar situações de produção de sentidos relacionadas com a simultaneidade das experiências do passado e do futuro, no presente. A relação entre a produção de sentidos e a convergência simultânea de experiências passadas e expectativas de futuro na resolução de tensões configuradas na situação comunicativa imediata foi o aspecto mais relevante na interpretação dos dados nesta análise. Por essa razão, para cumprir com a exploração objetivada neste estudo, investiu-se na possibilidade de ancorar à análise dessa relação uma reflexão sobre a ação responsável ética e estética configurada nos processos comunicativos no começo da vida.

Evento, neste estudo, foi definido como um conjunto de ações nucleares inter-relacionadas, resgatadas do contínuo da interação mãe-bebê, onde se pode capturar, artificialmente, o início e o término de seu direcionamento para metas temporárias. Foram analisados eventos caracterizados por um conjunto de ações configuradas tanto num intervalo de tempo contínuo quanto por um conjunto de ações inter-relacionadas, embora configuradas em diferentes seguimentos de tempo descontínuo, as quais foram associadas para integrar uma composição do que foi definido como direcionamento para metas temporárias. Com base nesses pressupostos os eventos aqui selecionados foram denominados como: 1) Introdução de comunicação mediada por brinquedo, 2) Tensão entre conservar e inovar experiências e 3) Antecipação de possibilidades de experiências futuras. A definição, denominação e caracterização desses eventos estiveram fundamentalmente relacionadas com a configuração de ações responsivas.

É importante lembrar que os dados empíricos referidos aqui possibilitaram um enfoque na produção de sentidos sustentada num diálogo exclusivamente não verbal; isto é, na ausência de fala, tanto da mãe quanto do bebê. Características dessa díade, onde a mãe era ainda uma adolescente, com dezessete anos de idade, talvez possa justificar a ausência do manhês (SCORSI; LYRA, 2012), considerando-se a sua completa imaturidade ainda na função materna.

Evento 1: Introdução da comunicação mediada por um brinquedo

O início desse evento foi marcado quando o bebê estava com quatro semanas e seu termino quando ele estava por volta de dez semanas. Trata-se, portanto, de um evento constituído pela integração de ações ocorridas em intervalos de tempo descontínuo. O direcionamento para metas temporárias foi o aspecto que fundamentou a integração dessas ações descontínuas caracterizando-as como um evento.

No início do evento em questão, a mãe tinha o bebê nos braços enquanto apresentava-lhe um brinquedo que se tornará referência constante, enquanto mediador da comunicação dessa díade. Era um brinquedo de plástico resistente e de cor rosa, conhecido como chocalho. Na apresentação a mãe colocava o brinquedo na frente da visão do bebê, por longos intervalos de tempo (algumas vezes ultrapassaram os 30 segundos). Outras vezes ela deslizava o brinquedo no braço do bebê, fazendo-o sentir na pele a textura do brinquedo. Enquanto situação responsiva, o bebê sustentava fixamente o olhar para o brinquedo quando este estava em frente aos seus olhos e sustentava o contato com o olhar da mãe nas situações em que esta deslizava o brinquedo no seu braço.

A comunicação mediada por esse brinquedo tornou-se característica em todos os registros. Contudo, ao longo do tempo, foram observadas pequenas variações. Observou-se, por exemplo, que com o passar do tempo a mãe começou a colocar o brinquedo diretamente na mão do bebê e, segurando o objeto na mão dele, fazia movimentos, possibilitando a produção do som do chocalho. Por diversas vezes essas tentativas resultaram na queda do objeto da mão do bebê, pois o bebê ainda não conseguia segurar o chocalho sozinho. No entanto, a mãe sempre apanhava o chocalho caído e recolocava-o na mão do bebê. Essas variações foram acompanhadas por respostas do bebê, que olhava atentamente para o objeto e para os movimentos da mãe quando ela apanhava o chocalho no chão. Por volta da décima semana de vida do bebê, esse ciclo se fechou quando o bebê, pela primeira vez, segurou e balançou o chocalho sozinho enquanto a mãe olhava para essa realização sorrindo.

Na análise desse evento, o propósito principal foi construir um fundamento empírico-argumentativo para demonstrar, em nível microgenético, como o sentido se constituiu nas ações responsivas, considerando-se as declarações de Bakhtin (2003b; 2003c) sobre a relação entre sentido e situação de responsividade. No evento em questão observou-se, em momentos recorrentes, a relação entre sentido e resposta para o desenvolvimento da comunicação que, na história dessa díade, foi marcado principalmente pela mediação do objeto. A comunicação mediada por objeto é um tópico relevante na literatura voltada para o desenvolvimento humano no começo da vida (LYRA, 2007). No entanto, para a manutenção do principal foco conceptual do presente artigo, considera-se não ser necessária uma maior extensão desse tópico aqui e agora.

A produção de sentido foi regulada pelas respostas do bebê às ações iniciais recorrentes da mãe com o objeto, ora explorando o contato visual do bebê, ora explorando suas impressões táteis. As respostas do bebê para as repetições foram, principalmente, a manutenção do contato com o olhar da mãe. Sugere-se que era essa manutenção que incentivava a mãe para continuar e ser recorrente nas suas ações. Além disso, elevando o nível de complexidade da interpretação para contemplar um olhar para as relações dialógicas, aspecto bastante proferido nas análises de Bakhtin, argumenta-se que, dentro dessa dinâmica, as respostas do bebê podem também ser consideradas como ações que provocaram as respostas da mãe; isto é, na medida em que o bebê sustentava o contato com o olhar, a mãe respondia tornando suas ações mais frequentes e duradouras.

Essa dinâmica, onde os papéis de agente e de respondente foram constantemente alternados, favoreceu a emergência de variações microgenéticas na configuração tanto da ação quanto da resposta correspondente. Um exemplo de variação microgenética no evento analisado foi o momento em que a mãe começou a colocar o chocalho diretamente na mão do bebê, segurando e balançando com ele, para possibilitar que o bebê experimentasse o som que o chocalho fazia. Essas pequenas alterações imprimiram novas características ao evento. Observou-se que a falta de sucesso do bebê para segurar o chocalho e o seu olhar para o objeto caído tiveram como resposta a ação da mãe, ao apanhar o objeto no chão e recolocá-lo na mão do bebê.

O sentido, então, funcionou como um direcionamento das ações, do passado para futuro, tendo-se como cenário único a organização de um presente imediato. Nesse direcionamento, foi possível marcar momentos em que se sugere um fechamento de uma perspectiva (uma meta temporária). No evento analisado, por exemplo, esse fechamento pode ser ilustrado pelo momento em que o bebê conseguiu segurar e balançar sozinho o chocalho.

Interpretou-se que experiência do sentido na interação da díade se caracterizou pela emergência de acontecimentos alinhados com a historicidade das ações e respostas que eles suscitaram. O ato da conquista, por exemplo, em que o bebê segurou e balançou sozinho o chocalho, refletiu mudanças ocorridas ao longo do tempo. Dessa forma, essa conquista foi uma concretização do passado, fortemente vinculado com o presente. Sobre isso, Bakhtin, ao discutir o funcionamento da produção de sentidos, comentou que "[...] percebemos e interpretamos o lembrado no contexto de um passado inacabado" (2003c, p.399). Considerando-se a arquitetura da produção de sentidos destacam-se, então, duas dimensões de um funcionamento sistêmico: aquela marcada pela relação entre resposta e sentido (ilustrada pelos momentos da alternação imediata entre ação e resposta), e outra marcada pela relação entre historicidade e sentido (ilustrada aqui pela conquista ou não de perspectivas ou meta temporárias. No evento em questão, mãe e bebê conseguiram que o objeto fosse sustentado e balançado com a autonomia do bebê).

Evento 2: Tensão entre conservar e inovar: o passado inacabado no presente

Este evento foi constituído a partir de uma situação interativa configurada em um intervalo contínuo de tempo, com duração aproximada de cinco minutos. Nesta situação o bebê estava com a idade vinte e cinco semanas. A mãe estava agachada no tapete com almofadas. O bebê estava sentado no mesmo tapete ao seu lado. A mãe colocou no tapete, em frente ao bebê, três brinquedos que emitiam som: um boneco do Mickey, um telefone de borracha e o chocalho já conhecido por ele (que foi referido na descrição do evento anterior). A mãe, então, passou a apertar os brinquedos para mostrar como eles emitiam sons. O bebê olhava para os movimentos da mãe e, em determinado momento, ele levou a mão em direção ao chocalho que já conhecia e que estava entre os outros brinquedos. Então a mãe demonstrou-lhe o som do telefone, outro brinquedo, com o qual ele ainda não havia brincado. Mas o bebê insistiu e pegou o chocalho que já conhecia (ilustrando mais um desfecho de metas temporárias), passando a balançá-lo e a escutar o som que ele produzia na sua mão.

A organização desse evento foi bastante apropriada para fomentar a análise da característica marcante na concepção de linguagem que atravessa toda obra de Bakhtin: uma permanente tensão entre forças centrípetas, agindo em prol da integração e coerência com experiências já conhecidas e forças centrífugas, agindo em prol da inovação de experiências. Na análise que se fez aqui, essa tensão pressupõe duas dimensões do funcionamento sistêmico, mencionadas nas discussões sobre o evento anterior. As forças centrífugas se configuram no nível da relação entre resposta e sentido, onde há maior arbitrariedade e vulnerabilidade para inovações ou descontinuidade; as forças centrípetas se configuram no nível da relação entre historicidade e sentido, onde há um maior apelo para coerência e continuidade.

Acredita-se que esse funcionamento sistêmico está relacionado à simultaneidade das experiências do passado e do futuro, ativada no presente, veiculadas nas práticas com a linguagem. Argumenta-se que essa simultaneidade seja uma condição necessária para a historicidade enquanto parâmetro fundamental na análise da produção de sentidos e do seu impacto para o desenvolvimento humano.

Alinhando-se esses pressupostos teóricos com a configuração dos dados empíricos no evento em questão ilustraram-se, como expressão da experiência de simultaneidade, as ações da mãe ao disponibilizar diferentes brinquedos para o bebê, pois ali se refletiram as ações passadas compartilhadas, quando a mãe introduziu apenas um chocalho na sua comunicação com o bebê e investiu para que aquele brinquedo mediasse os sentidos naquele momento da história da díade. Agora, na disponibilização de três brinquedos refletiu-se também nas ações da mãe (enquanto configuração de metas temporárias) uma antecipação de possibilidades futuras nesse novo presente. Em resumo, nessa disponibilização sinalizou-se, por um lado, um resgate do passado da relação entre a díade, quando a mãe propiciou o interesse do bebê pelo chocalho e, por outro, a introdução de uma nova expectativa: que o bebê venha a conhecer outros objetos.

O funcionamento sistêmico entre historicidade e sentido pode então ser ilustrado, nesse evento, quando o bebê decidiu pelo brinquedo que já conhecia, preterindo, naquele momento, os investimentos da mãe sobre a possibilidade de que ele brincasse com os outros. Interpretou-se que uma experiência de simultaneidade do passado e do presente também sustentou a decisão do bebê; na sua decisão estava subjacente uma tensão entre conservar e inovar experiências. Nesse funcionamento, emergiu o sentido das ações apontando uma direção: de um passado inacabado e ainda presente para um futuro antecipado.

Evento 3: Antecipação de possibilidades futuras

Este evento teve uma duração contínua de quatro minutos. Na situação o bebê estava com a idade de vinte e sete semanas. Ele estava sentado no tapete e brincava com o chocalho já conhecido, enquanto sua mãe estava sentada numa poltrona e o observava. Em dado momento, ela deitou-o com a barriga para o tapete e retirou-lhe o chocalho da mão. Depois a mãe colocou o chocalho no tapete um pouco afastado, mas bem posicionado na frente da visão do bebê. Em resposta, o bebê fez movimentos intensos com os braços, com as pernas e com a cabeça, tentando alcançar o brinquedo que lhe fora retirado.

Através da análise deste evento, intensificou-se a caracterização da simultaneidade do passado e do futuro no presente. No alinhamento entre elementos empíricos e pressupostos conceptuais para a análise desse evento destacou-se que a ação da mãe de retirar o brinquedo da mão do bebê quando ele brincava, colocando-o um pouco afastado, mas preservando a possibilidade de que o bebê o visualizasse, sinalizou uma antecipação de possibilidades futuras do bebê: de que ele se movimentasse para alcançar o brinquedo, de que ele despertasse para a própria locomoção. A produção de sentidos, também nesse cenário, foi considerada na medida em que o bebê atuou responsivamente, sinalizando seu empenho para buscar o objeto, embora ainda não tenha conseguido alcançá-lo. Mas a intensidade progressiva dos movimentos de todos os seus membros e a manutenção da cabeça erguida com o olhar preservado fixamente para o chocalho colocado em sua frente foi indicativo seguro de sua resposta à ação da mãe.

Em resumo, nesta análise da história do desenvolvimento da comunicação mediada pelo brinquedo destacou-se, com ilustrações de dados empíricos, como a simultaneidade das experiências do passado e do futuro atuou para a organização das ações numa situação interativa imediatamente presente e se refletiu na responsividade que sustentou a produção de sentidos.

Implicações da simultaneidade, passado e futuro no presente para a ética e estética na produção de sentidos

Retomando os objetivos deste estudo para balizar as informações até agora produzidas, uma questão se faz pertinente: quais as implicações da experiência de simultaneidade aqui referida para o exercício ético responsável e para a estética das ações na produção de sentidos no começo da vida? À primeira vista, acredita-se que para essa pergunta não cabe uma resposta definitivamente precisa e encerrada. Todavia é possível discutir acerca de uma ampla irradiação dos efeitos dessa experiência de simultaneidade sobre o exercício do dever ético e sobre o desempenho da contemplação estética na comunicação no começo da vida.

Numa discussão voltada para a irradiação da experiência de simultaneidade sobre o exercício do dever ético e sobre a estética das ações na comunicação no começo das, destaca-se que a predominância das ações não verbais, típicas da comunicação no começo da vida, fomenta uma maior imprecisão na caracterização de uma fronteira entre o 'eu' e o 'outro', no caso, entre a mãe e o bebê. Isso porques a fala favorece ao falante um distanciamento do ambiente imediato (VIGOTSKI, 2010). Isto é, na ausência da fala, o individuo está muito mais dependente do ambiente. Então, considerando-se que a mãe e o bebê em interação partilhavam um ambiente comum, as ações não verbais não lhes possibilitavam uma clara definição de fronteira entre eles.

Nessas condições, uma caracterização do ato responsável como categoria de individualidade pressupõe a assimetria entre a mãe e o bebê. Isto significa que há um predomínio das experiências da mãe para a organização e direcionamento do sentido, embora não se defenda aqui a ideia de um bebê passivo. Com base nos dados, esse predomínio pode ser observado quando foi a mãe quem apresentou o chocalho e propiciou que este fosse tomado como um mediador frequente da comunicação entre ela e o bebê.

Acredita-se que a possibilidade do ato responsável na interação em condições assimétricas refletiu um diálogo da mãe com sua própria história e com seu conhecimento precedente de mundo, aspecto determinante para suas decisões na interação, no presente imediato com o bebê. A manifestação desse diálogo necessário da mãe com sua própria história foi, portanto, uma implicação da experiência da simultaneidade do passado no presente para o exercício da responsabilidade ética na produção de sentidos no começo da vida.

A necessidade de um diálogo com a própria história para o agir ético da mãe na sua relação com o bebê também esteve implicada na caracterização da estética das práticas com a linguagem no começo da vida. Para essa caracterização pressupõem-se aqui dois aspectos da contemplação estética segundo Bakhtin (1993; 2003a): a função do excedente de visão e a dimensão axiológica dos atos realizados. É possível conceber todas as ações da mãe voltadas para o bebê como um exercício do excedente de visão, pois, através de suas ações, ela informou ao bebê como ele fora percebido por ela. Dessa forma, as ações da mãe funcionaram completando o bebê nos aspectos que ele ainda não conhecia. Considerando-se que o agir responsável da mãe na interação com o bebê refletiu um diálogo que ela manteve com sua própria história e com o conhecimento cultural precedente, então, todas as suas ações, enquanto excedente de visão, refletiram uma avaliação que ela procedeu sobre suas próprias experiências e conhecimentos. Dessa forma se revelou uma dimensão axiológica nos atos que ela realizou.

O reflexo do diálogo que a mãe precisou manter com a própria história nas ações com o bebê pode ser ilustrado com diferentes situações configuradas nos eventos analisados. A ação de colocar o chocalho e segurar junto com o bebê (primeiro evento), a disposição de três brinquedos ao mesmo tempo, em contraste com situações anteriores, quando se concentrava repetição de ações com o mesmo brinquedo (segundo evento) e a retirada do chocalho da mão do bebê para lhe provocar o deslocamento (terceiro evento) foram situações que pressupunham o impacto de um conhecimento precedente acerca do desenvolvimento humano que incluiu experiências passadas em família ou ciclo de pessoas próximas, pois esse é o processo da constituição social das histórias pessoais.

Foi, portanto, esse universo de conhecimento que caracterizou a assimetria das ações da mãe sobre o bebê, com implicações nas suas ações éticas naquelas situações. Para as ações éticas foram relevantes escolhas e decisões sobre a pertinência ou não dos conhecimentos precedentes, assim como uma constante avaliação dos atos realizados. Nos dados, nuances da postura e atitudes da mãe sinalizaram esse processo de avaliação. A incidência de situações recorrentes observadas, sobretudo, no primeiro evento, quando a mãe introduziu o brinquedo como mediador da comunicação, foram exemplos. Naquelas ocasiões, foram muito frequentes repetições de uma mesma ação (movimentar o brinquedo diante dos olhos do bebê, deslizar o brinquedo no braço dele e recolocar o brinquedo caído na mão do bebê). A grande frequência de repetições pressupôs um grau elevado de determinação e escolha (um grau elevado de expectativa e um claro investimento em metas temporárias); sobre o aspecto escolhido (objeto, ação) incidiu o valor que lhe fora atribuído.

Neste estudo, interpretou-se que todas as ações da mãe funcionaram como excedente de visão uma vez que, através delas, estavam subjacentes informações para o bebê sobre como ele estava sendo percebido. Nos dados, esse funcionamento também pode ser ilustrado com diferentes exemplos. Nas situações em que a mãe recolocava o chocalho na mão do bebê (primeiro evento) ela informava-lhe sua capacidade de segurar e balançar sozinho aquele chocalho. Supõe-se que, sobre essa informação, o bebê ainda não tinha consciência. De forma semelhante, quando a mãe retirou-lhe o chocalho da mão, posicionando-o um pouco afastado, mas no campo de visão do bebê, ela informou-lhe que com o seu deslocamento ele poderia alcançá-lo. Considerando-se o excedente de visão como atributo da ação estética (BAKHTIN, 1993; 2003a), interpretou-se que a experiência de simultaneidade também esteve implicada no desempenho da ação estética na comunicação no começo da vida. Isto porque foi observado nos dados que o excedente de visão possibilitado pela mãe para o bebê favorecia, sobretudo, a antecipação de suas habilidades futuras.

Considerações finais

As situações de atenção conjunta foram bastante favoráveis à construção das informações sobre o ato ético-estético na comunicação mãe-bebê, visto que nelas o 'eu' e o 'outro' estiveram fisicamente, psicologicamente e linguisticamente unidos por um mesmo objeto, que neste estudo foi um brinquedo.

Os resultados da exploração conceptual aqui objetivada revelaram a simultaneidade de experiências passadas e de antecipações de possibilidades futuras na situação imediata no presente, bem marcada na análise da literatura, como aspecto relevante na caracterização de tensões típicas das práticas cotidianas com a linguagem.

Também se ilustraram com dados empíricos a índole responsiva dos sentidos, como forma momentânea de resolver as tensões promovidas pela experiência de simultaneidade. Argumentou-se que, na medida em que a produção de sentidos resolveu momentaneamente tensões, ela se revelou como ato estético por onde se viabilizaram uma forma de estruturação temporariamente estável do funcionamento psicológico que ancorou uma vinculação dos horizontes do 'eu' e do 'outro' numa situação imediatamente presente. Revelada enquanto ato estético, a produção de sentidos também se traduziu como um exercício da responsabilidade ética, na medida em que o principal aspecto da produção de sentidos é a originalidade, factualidade e a individualidade da situação responsiva.

Assim, a análise da produção de sentidos, enquanto processos intersubjetivos, abordados aqui no contexto da atenção conjunta, tendo-se como base os conceitos de ética e estética, revelaram processos microgenéticos conflitantes com pressupostos racionalistas, onde se desconsidera a função da historicidade. O papel do excedente de visão na constituição de um 'si mesmo' eminentemente dependente da oferta do olhar do 'outro' pode ser, por exemplo, uma forte razão para se preterir o racionalismo e se considerar as implicações das relações dialógicas no funcionamento psicológico humano.

Além disso, a convergência simultânea das experiências passadas e de antecipações das possibilidades futuras para a situação comunicativa imediata, observada aqui como funcionamento característico do desenvolvimento humano no começo da vida (talvez porque sempre se olhe para um bebê pensando que ele logo crescerá), pode agregar propriedades à caracterização do ato ético responsável. Acredita-se que nessa simultaneidade incida uma sobrecarga de tensões para as decisões na situação imediata e, por essa razão, ela torna um ato realizado impossível de se repetir, na forma como Bakhtin tanto se esforçou para esclarecer.

Finalmente, a análise aqui conduzida, com o apoio de situações bastante comuns na comunicação mãe-bebê, pode ser um fomento á diversificação de abordagens sobre o papel das práticas com a linguagem para o desenvolvimento humano, na perspectiva de um melhor alcance sobre a ampla inter-relação entre o ambiente, os horizontes do 'eu' e do 'outro'.

1Na versão em inglês: "What we should fear least of all is that the philosophy of the answerable act or deed will revert to psychologism and subjectivism".

2Na versão em inglês: "At the heart of everything Bakhtin ever did - from what we know of his very earliest (lost) manuscripts to very latest (still unpublished) work - is a highly distinctive concept of language. The conception has as its enabling a priori an almost Manichean sense of opposition and struggle at the heart of existence, a ceaseless battle between centrifugal forces that seek to keep things apart, and centripetal forces that strive to make things cohere".

3Na versão em inglês: "[...] a unitary plane, a unitary context in which this taking-into-account is possible - in which its theoretical validity, its historical factuality, and its emotional-volitional tone figure as moments in a single decision or resolution".

4Na versão em inglês: "[...] taken in abstraction from the once occurrent actual act/deed and its author - the one who is thinking theoretically, contemplating aesthetically, and acting ethically".

5Na versão em inglês: "[...] it is a category of the individuality, of the uniqueness of a performed act, of its once-occurrent compellentness, of its historicity, of the impossibility to replace in with anything else or to provide a substitute for it".

6Na versão em inglês: "[...] surrender the actually performed act to pure theory [...] and the legality of the categorical imperative as universal and universally valid consists precisely in this theoretical justification of it".

7Na versão em inglês: "[...] fatal theoreticism (the abstracting from my unique self)".

8Na versão em inglês: "[...] it refers both its own sense and its own factuality, and within which it attempts to actualize answerably the unique truth [Pravda]".

9Na versão em inglês: "[...]the aesthetic answerability of the actor and the whole human being for the appropriateness of the role played remains in actual life, for the playing of a role as a whole is an answerable deed performed by the one playing, and not the one represented".

10Na versão em inglês: "[...] in the employment of phenomenologically informed, structured microanalytic methods. By phenomenologically informed, I mean that they are oriented to the thick description and elucidation of the experiential richness and meaning-fullness of the dialogical situation".

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Recebido: 10 de Março de 2015; Aceito: 12 de Maio de 2016

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