SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.14 issue1Lynching Network: Human Rights and Midiatic Effect author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Journal

Article

Indicators

Related links

Share


Bakhtiniana: Revista de Estudos do Discurso

On-line version ISSN 2176-4573

Bakhtiniana, Rev. Estud. Discurso vol.14 no.1 São Paulo Jan./Mar. 2019

https://doi.org/10.1590/2176-457339999 

EDITORIAL

O outro-para-mim e o eu-para-o-outro

Beth Brait* 
http://orcid.org/0000-0002-1421-0848

Maria Helena Cruz Pistori** 
http://orcid.org/0000-0003-0751-3178

Bruna Lopes-Dugnani*** 
http://orcid.org/0000-0001-9440-779X

Orison Marden Bandeira de Melo Júnior**** 
http://orcid.org/0000-0002-7592-449X

*Pontifícia Universidade Católica de São Paulo - PUCSP, São Paulo, São Paulo, Brazil; Faculdade de Filosofia, Comunicação e Artes - FAFICLA, Departamento de Linguística; Universidade de São Paulo - USP, São Paulo, São Paulo, Brazil; CNPq; https://orcid.org/0000-0002-1421-0848; bbrait@uol.com.br

**Pontifícia Universidade Católica de São Paulo - PUCSP/Associate Editor of Bakhtiniana. Revista de Estudos do Discurso, São Paulo, São Paulo, Brazil; https://orcid.org/0000-0003-0751-3178; mhcpist@uol.com.br

***Universidade Federal Rural de Pernambuco - UFRPE, Unidade Acadêmica de Serra Talhada, Serra Talhada, Pernambuco, Brazil; https://orcid.org/0000-0001-9440-779X; blopesdugnani@gmail.com

****Universidade Federal do Rio Grande do Norte - UFRN, Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes, Departamento de Línguas e Literaturas Estrangeiras Modernas, Natal, Rio Grande do Norte, Brazil; https://orcid.org/0000-0002-7592-449X; junori36@uol.com.br


Eu vivo em um mundo de palavras do outro. E toda a minha vida é uma orientação nesse mundo; é reação às palavras do outro [...]

Mikhail Bakhtin1

Ser significa ser para o outro e, através dele, para si. O homem não tem um território interior soberano, está todo e sempre na fronteira, olhando para dentro de si ele olha o outro nos olhos ou com os olhos do outro.

Mikhail Bakhtin2

Quem é o outro para mim? Quem sou eu para o outro? Como os discursos na vida, nas artes, nas ciências, nas mídias, impressas e digitais, nos auxiliam a entender e tentar responder essas perguntas especialmente na contemporaneidade? Considerando essa problemática, o número 14.1 de Bakhtiniana, primeiro de 2019, traz estudos discursivos, de diferentes vertentes teóricas e metodológicas, circunscrevendo importantes investigações. Algumas tomam seu objeto no meio digital, ora tendo como foco o reconhecimento e estudo de políticas identitárias - que envolvem as questões de reconhecimento, afirmação e valores do "eu-para-mim, do outro-para-mim e do eu-para-o-outro" (BAKHTIN, 2010, p.114), discutindo temas como feminismo, machismo, racismo, violência e opressão, pobreza...; ora questões de divulgação científica e propostas de ensino. Nesse sentido, o número expõe um momento sócio-político e cultural tenso, em que cada palavra revela-se como um "pequeno palco" de embates de orientação e valores contraditórios (cf. Volóchinov, 2017, p.140). Três artigos fogem à esfera virtual: um deles, porém, ao lidar com a temática literária, trata de "narrativas de dor", aproximando-se daqueles primeiros que, de alguma forma, abordam a dor e o trauma, mas o examinam na rede digital. Os dois outros discutem questões mais propriamente discursivas: a tênue fronteira entre o plágio e a originalidade na literatura (as palavras do outro...) (cf. Volóchinov, 2017, p.241-322; Bakhtin, 2008, 207-233), e a autoria num jornal escolar da década de 1950.

Passemos à apresentação dos artigos. Em Justiçamento em rede: direitos humanos e efeito midiático, Viviane de Melo Resende (Universidade de Brasília - UnB, Departamento de Linguística, Português e Línguas Clássicas) e María del Pilar Tobar Acosta (Instituto Federal de Brasília) examinam, por meio da análise de discurso crítica, uma cadeia de eventos discursivos no Facebook e na televisão, em torno de um clamoroso caso de justiçamento, cuja vítima foi um adolescente de 15 anos, no Rio de Janeiro. A análise desses discursos aponta-nos novos olhares para o binômio pobreza-violência, o modo como essa relação é construída midiaticamente e sua repercussão nas ruas. As redes sociais também são o espaço de onde é retirado o corpus que serve para análise de A ironia como zona de confronto entre diferentes vozes/dizeres em comentários do Facebook. Redigido por André Cordeiro dos Santos (Instituto Federal de Alagoas - Campus Piranhas / Universidade Federal de Alagoas, Maceió), Girllaynne Gleyca Bezerra dos Santos Marques (Universidade Federal de Pernambuco, Centro de Artes e Comunicação, Departamento de Letras, Recife) e Siane Gois Cavalcanti Rodrigues (Universidade Federal de Pernambuco, Centro de Artes e Comunicação, Departamento de Letras, Recife), o texto analisa comentários postados em uma página anônima de FB (spotted). Fundamentado nos conceitos de linguagem hauridos na obra bakhtiniana, apresenta ainda uma boa resenha acerca do entendimento da ironia e da chamada cultura do estupro com seus mitos. De modo criativo, o artigo mostra o diálogo entre esses três marcos conceituais, evidenciando como a ironia, nas mensagens coletadas, instaura zonas de tensão entre os enunciados e serve ainda a um discurso de resistência da mulher contra discursos machistas.

No artigo Novos percursos da ciência: as modificações da divulgação científica no meio digital a partir de uma análise contrastiva, de Sheila Grillo (Universidade de São Paulo - USP/SP, Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas, São Paulo) e Beatriz Amorim de Azevedo e Silva (Universidade de São Paulo - USP/SP, Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas, São Paulo), novamente é a web que fornece às autoras o material de investigação. Elas realizam a análise de vídeos de divulgação científica transmitidos por dois canais do YouTube, um brasileiro - Nerdologia, e outro americano - Scishow, mostrando, por meio dos preceitos teóricos do Círculo de Bakhtin e das propostas teórico-metodológicas da análise contrastiva de discursos, como a transmissão do discurso alheio se apresenta em cada um deles. Ao levantar semelhanças e diferenças entre ambos, chegam às diferentes culturas discursivas a que cada um se destina, e a seus interlocutores presumidos.

É com grande satisfação que apresentamos o próximo artigo, o primeiro que recebemos diretamente na língua russa, mas que publicamos também em português e inglês, as línguas oficiais de Bakhtiniana. Trata-se de A formação da imagem do mundo russo como aspecto da adaptação cultural de cidadãos estrangeiros no processo de ensino de língua russa, escrito por Nina Kozlovtseva e Natália Tolstova, ambas da Universidade de Finanças do Governo da Federação Russa, Moscou, Rússia. O texto coloca importantes questões para o ensino do russo, com destaque para os estereótipos relativos ao que denominam "mundo russo", possibilitando tanto o conhecimento de problemas comuns ao ensino de língua estrangeira em qualquer parte como daqueles específicos do russo. Sabemos então da crescente afluência de estrangeiros em instituições russas de ensino superior, do papel das faculdades preparatórias e, dentre as estratégias de ensino utilizadas, o destaque é o uso do eduteinment (ensino por meio do entretenimento), que sugere a inclusão no processo de ensino de variados meios digitais técnicos e didáticos contemporâneos.

Distante da web, Memória, catástrofe e narrativas da dor: Primo Levi, Riobaldo e os fantasmas na experiência do trauma, de Rogério Borges (Pontifícia Universidade Católica de Goiás - PUC-Goiás, Escola de Comunicação, Goiânia, Goiás) e Gustavo Castro (Universidade de Brasília - UnB, Faculdade de Comunicação, Brasília, Distrito Federal) aproximam personagens de obras testemunhais - a de Primo Levi, e de trabalhos ficcionais - Riobaldo, de Grande serão: veredas, de Guimarães Rosa. Os autores buscam enriquecer a leitura dessas obras ao relacionar seus discursos por meio de uma abordagem multidisciplinar, da teoria da narrativa e dos conhecimentos sobre afetos e memória, para revelar os laços efetivos que os unem. E a literatura internacional, agora do quebequense Réjean Ducharme, canadense-francês, é o foco do artigo Como plagiar sem perder a originalidade. O discurso dialógico de Bakhtin e o estatuto do bastardo - Em memória de Réjean Ducharme, de Arnaldo Rosa Vianna Neto (Universidade Federal Fluminense, Centro de Estudos Gerais, Instituto de Letras, Niterói, Rio de Janeiro). Suas reflexões a respeito de originalidade e intertextualidade, envolvendo o trabalho do escritor canadense, partem de uma elaboração teórica do discurso literário por meio do conceito multidimensional e interdisciplinar bakhtiniano. Finalmente, Tânia M. Barroso Ruiz, assessora em Língua Portuguesa e doutora pela Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC, trata de um jornal escolar publicado entre 1945-1950 por um colégio de Florianópolis, SC, buscando sua autoria, no sentido bakhtiniano, para comprovar se foi ou não a expressão da voz dos estudantes, conforme enunciado em seu título Autoria institucional no jornal escolar O Colegial - órgão dos alunos do Colégio Catarinense (1945-50).

Duas resenhas encerram a publicação. A primeira, realizada Xoán Carlos Lagares (Universidade Federal Fluminense - UFF, Instituto de Letras, Niterói, Rio de Janeiro) apresenta a obra Para conhecer norma linguística, organizada por Carlos Alberto Faraco e Ana Maria Zilles. A segunda, sobre a coletânea Livro didático: olhares dialógicos, organizada por Anderson Silva e Elizangela Costa, foi redigida por Fernanda Taís Brignol Guimarães (Centro Universitário Ritter dos Reis - UniRitter, Porto Alegre).

Enfim, o número reuniu 13 autores, de 12 instituições diferentes (uma do exterior - Rússia e onze brasileiras). E antes de fecharmos o Editorial, uma importante notícia: a partir de 2019, Bakhtiniana será um periódico trimestral, com quatro números anuais. A justificativa é atender à demanda da pesquisa, verificada no alto número de submissões e, também, às expectativas dos indexadores.

Na promoção e divulgação de pesquisas produzidas no campo dos estudos do discurso, uma vez mais Bakhtiniana propõe a todos - leitores, autores, pesquisadores de modo geral -, o diálogo com os estudos aqui apresentados. O contexto não mudou, por isso novamente lembramos que, no difícil momento vivido pelo país, seria impossível chegar à publicação do número sem o auxílio do MCTI/CNPq/MEC/CAPES e da PUC-SP, por meio do Plano de Incentivo à Pesquisa (PIPEq) / Publicação de Periódicos (PubPer-PUCSP), 2018, a quem agradecemos imensamente. Reiteramos ainda que uma alta quantidade de submissões, assim como sua rigorosa seleção, realizada por competentes e colaborativos pareceristas do Conselho e ad hoc, permitiu chegar a um excelente resultado, como o leitor poderá constatar. Nesse momento em que a internacionalização e a visibilidade do periódico, exigência do SciELO e demais indexadores, parece mais próxima de ser alcançada, Bakhtiniana mantém-se firme no compromisso de sempre criar possibilidade dialógicas entre a pesquisa ligada aos estudos da linguagem, nacional e internacional.

12017, p.38.

22006, p.341.

REFERÊNCIAS

BAKHTIN, M. Fragmentos dos anos 1970-1971. In: BAKHTIN, M. Notas sobre literatura, cultura e ciências humanas. Organização, tradução, posfácio e notas de Paulo Bezerra; notas da edição russa de Serguei Botcharov. São Paulo: Editora 34, 2017, p.21-56. [ Links ]

BAKHTIN, M. Reformulação do livro sobre Dostoiévski. In: BAKHTIN, M. Estética da criação verbal. 4 ed. Introdução e tradução de Paulo Bezerra. São Paulo: Martins Fontes, 2006, p.337-357. [ Links ]

BAKHTIN, M. Para uma filosofia do ato responsável. Tradução aos cuidados de Valdemir Miotello e Carlos Alberto Faraco. São Carlos: Pedro & João Editores, 2010. [ Links ]

BAKHTIN, M. Problemas da poética de Dostoiévski. 4 ed. Tradução de Paulo Bezerra. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2008. [ Links ]

VOLÓCHINOV, V. Marxismo e filosofia da linguagem. Problemas fundamentais do método sociológico na ciência da linguagem. Tradução, notas e glossário de Sheila Grillo e Ekaterina Vólkova Américo. São Paulo: Editora 34, 2017. [ Links ]

Creative Commons License Este é um artigo publicado em acesso aberto (Open Access) sob a licença Creative Commons Attribution, que permite uso, distribuição e reprodução em qualquer meio, sem restrições desde que o trabalho original seja corretamente citado.