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Bakhtiniana: Revista de Estudos do Discurso

On-line version ISSN 2176-4573

Bakhtiniana, Rev. Estud. Discurso vol.14 no.2 São Paulo Apr./June 2019  Epub Apr 15, 2019

https://doi.org/10.1590/2176-457342022 

EDITORIAL

O pesquisador do discurso aqui e agora

Beth Brait* 
http://orcid.org/0000-0002-1421-0848

Maria Helena Cruz Pistori** 
http://orcid.org/0000-0003-0751-3178

Bruna Lopes-Dugnani*** 
http://orcid.org/0000-0001-9440-779X

Orison Marden Bandeira de Melo Júnior**** 
http://orcid.org/0000-0002-7592-449X

*Pontifícia Universidade Católica de São Paulo - PUCSP, São Paulo, São Paulo, Brasil; Faculdade de Filosofia, Comunicação e Artes - FAFICLA, Departamento de Linguística; Universidade de São Paulo - USP, São Paulo, São Paulo, Brasil; CNPq; https://orcid.org/0000-0002-1421-0848; bbrait@uol.com.br

**Pontifícia Universidade Católica de São Paulo - PUCSP/Editora Associada Bakhtiniana. Revista de Estudos do Discurso, São Paulo, São Paulo, Brasil; https://orcid.org/0000-0003-0751-3178; mhcpist@uol.com.br

***Universidade Federal Rural de Pernambuco - UFRPE, Unidade Acadêmica de Serra Talhada, Serra Talhada, Pernambuco, Brasil; https://orcid.org/0000-0001-9440-779X; blopesdugnani@gmail.com

****Universidade Federal do Rio Grande do Norte - UFRN, Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes, Departamento de Línguas e Literaturas Estrangeiras Modernas, Natal, Rio Grande do Norte, Brasil; https://orcid.org/0000-0002-7592-449X; junori36@uol.com.br


O cronotopo como categoria de conteúdo e forma determina (em grande medida) também a imagem do homem na literatura: essa imagem sempre é essencialmente cronotópica.

Mikhail Bakhtin

A obra de Bakhtin e o Círculo, nos dias de hoje, é compreendida predominantemente como uma filosofia da linguagem; no entanto, sabemos que, ao longo dos anos, um dos importantes focos dos estudos de Mikhail Bakhtin foi a literatura. E uma das categorias fundamentais de análise levantadas por ele para a compreensão do romance é a do cronotopo. Na literatura, diz ele, tempo e espaço são inseparáveis, e é na unidade deles que se insere o homem histórico e real, “de forma complexa e descontínua”: “O cronotopo como categoria de conteúdo e forma determina (em grande medida) também a imagem do homem na literatura: essa imagem sempre é essencialmente cronotópica” (2018, p.12).

A área de apreensão do funcionamento do cronotopo pode ser ampliada, ultrapassando os contornos do romance: tempo e espaço na vida também são inseparáveis, e é neles que habita, “de forma complexa e descontínua”, o pesquisador dos discursos. Este número de Bakhtiniana (14.2) é um exemplo de como ele se insere no cronotopo contemporâneo, enquanto indivíduo atento e atuante em relação à realidade que o circunda, problematizando-a e buscando sua compreensão por meio dos discursos que nela circulam e que a constituem. Também observa a recepção dos discursos pela sociedade, com eles dialogando. Na interação comunicativa, expressa nos sete artigos e duas resenhas aqui publicados, esse pesquisador trata de diferentes aspectos de nossa realidade social, cultural e política, levando-nos a refletir sobre ela e a compreendê-la melhor.

Isso ocorre por meio de estudos que focalizam o discurso da ciência, o discurso político, o discurso literário, o discurso feminino, de migrantes, das redes sociais, das séries televisivas. Nesse conjunto, cada palavra revela-se como um “pequeno palco” de embates de orientação e valores contraditórios (cf. Volóchinov, 2017, p.140). Os autores, pesquisadores de discurso, buscam responder, sob diferentes perspectivas teóricas, aos temas de nosso tempo-espaço, colocando-nos em diálogo com eles. E se “a realidade do conhecimento não é acabada e está sempre aberta” (BAKHTIN, 1993, p.32), a publicação dos artigos, abre novas possibilidades de diálogo com as questões abordadas, com os autores, com nós mesmos - leitores e novos pesquisadores.

Vejamos como se configuram essas produções científicas nos artigos e resenhas apresentados a seguir. Num momento em que as migrações são vistas como problema crescente em todo mundo, o primeiro texto trata de A escrita feminina entre a fronteira e o não lugar: discursos femininos em ascensão na Literatura Italiana de Migração. Redigido por Laura Gherlone, da Universidad Nacional de Córdoba - Argentina, toma como perspectiva teórica os ensinamentos de Y. Lotman, importante semioticista russo que, tendo testemunhado migrações em massa, expulsões forçadas e reconfigurações etnogeográficas sem precedentes, assim como variações nas políticas linguístico-culturais que podiam integrar ou não o “estrangeiro”, refletiu sobre o conceito de fronteira durante o processo da Perestroika soviética. Gherlone trata da produção literária de duas escritoras “intrusas” (provenientes das antigas colônias) na Itália, que escolhem escrever suas obras na língua “estrangeira”, o italiano. Tal hibridismo cultural cria um espaço discursivo que revela ao leitor, de modo singular, o olhar da mulher migrante.

No artigo seguinte, Drummond e Stella: experiências poéticas, de Nathaly Felipe Ferreira Alves (UNICAMP), a autora-mulher também é o foco de estudo, mas agora uma significativa poeta brasileira, Stella Leonardos, cuja extensa obra poética filia-se à terceira geração do Modernismo. O texto recupera o modo como Stella se relaciona com a tradição, ao mesmo em tempo que revela as relações entre leitura/escrita na reescritura metapoética, especialmente no modo como a poeta se apropria do poema A bomba, de Carlos Drummond de Andrade. No artigo seguinte, Discurso de memes: (des)memetizando ideologia antifeminista, de Dina Maria Martins Ferreira e Marco Antônio Vasconcelos, ambos da Universidade Estadual do Ceará - UECE, os autores questionam um meme das redes sociais, mostrando seus diálogos com a ideologia feminista por meio dos conceitos de multiletramentos, de letramento visual crítico, da Teoria Social Crítica e das metafunções da linguagem visual.

Seguindo uma senda política, Roberto Leiser Baronas (UFSCAR), com o artigo Agrotóxico versus pesticida: notas de leitura sobre polêmica e amemória discursiva, toma como objeto de estudo a Lei dos Agrotóxicos e analisa aspectos da polêmica que o envolveu, alguns entendendo-o como uma lei sobre Agrotóxicos, e outros como Pacote do Veneno. O autor recupera discursos recentes acerca da lei na mídia e analisa-os a partir de recentes contribuições de Ruth Amossy sobre o caráter argumentativo da polêmica; a seguir, questiona a denominação da lei, a partir de proposições de Marie-Anne Paveau sobre as relações entre linguagem e moral, especialmente no tocante ao conceito de amemória discursiva.

O próximo artigo aborda o discurso científico e sua proximidade com a retórica. Tomando como objeto de análise a clássica obra de Charles Darwin, A origem das espécies, de 1859, Gustavo Piovezan, da Universidade Federal de Rondônia - UNIR, em O argumento analógico de Darwin: a função da retórica entre o artificial e o natural, busca mostrar como a analogia fundamenta a argumentação do cientista sobre a lei seletiva da natureza, questionando o caráter lógico do argumento darwiniano. O autor apresenta uma perspectiva de análise advinda da tradição retórica, particularmente da teoria da argumentação de Chaim Perelman.

A seguir, Jaqueline Stefani e Natalie Oliveira da Cruz, ambas da Universidade de Caxias do Sul - UCS, apresentam-nos Compreensão e linguagem em Heidegger: ex-sistência, abertura ontológica e hermenêutica. De modo bastante claro, as autoras investigam a hermenêutica heideggeriana como uma abordagem da linguagem além de mero instrumento comunicativo. E, finalmente, a sociossemiótica é a fundamentação teórica de análise do bizarro episódio Hino nacional, da série televisiva Black Mirror. O artigo, Entre o sensível e o inteligível: uma leitura semiótica do episódio Hino nacional, do Seriado Black Mirror, é redigido por Conrado Moreira Mendes, da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais - PUC/MG.

Duas excelentes resenhas encerram o número. A primeira, escrita por Maria Elizabeth da Silva Queijo (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo - PUC/SP), faz uma apresentação analítica da nova tradução do ensaio As formas do tempo e do cronotopo no romance (Teoria do romance II), realizada por Paulo Bezerra, parte do projeto da Editora 34, que tem como base o mais recente estabelecimento deste texto, realizado por Serguei Botcharov e Vadim Kójinov. A segunda, redigida por Anderson Salvaterra Magalhães, Universidade Federal de São Paulo - UNIFESP, aborda a obra de João Kogawa, Vozes em fragmentos na poesia de Chico: uma arquitetura polifônica?, apresentando aspectos do texto que nos levam a querer conhecê-la.

O número reuniu 11 autores, de 09 instituições diferentes (uma do exterior - Argentina, e oito brasileiras). Na promoção e divulgação de pesquisas produzidas no campo dos estudos do discurso, uma vez mais Bakhtiniana propõe a todos - leitores, autores, pesquisadores de modo geral -, o diálogo com os estudos aqui apresentados. Sem o auxílio do MCTI/CNPq/MEC/CAPES e da PUC-SP, por meio do Plano de Incentivo à Pesquisa (PIPEq) / Publicação de Periódicos (PubPer-PUCSP) - 2019, a quem agradecemos imensamente, seria impossível a publicação deste volume. Reiteramos ainda que uma alta quantidade de submissões, assim como sua rigorosa seleção, realizada por competentes e colaborativos pareceristas do Conselho e ad hoc, permitiu chegar a um excelente resultado, como o leitor poderá constatar. Nesse momento em que buscamos alargar a internacionalização e a visibilidade do periódico, exigência do SciELO e também da PUC-SP, Bakhtiniana mantém-se firme no compromisso de sempre criar possibilidades dialógicas entre a pesquisa ligada aos estudos da linguagem, nacional e internacional.

REFERÊNCIAS

BAKHTIN, M. Teoria do romance II. As formas do tempo e do cronotopo. Tradução, posfácio e notas Paulo Bezerra; organização da edição russa de Serguei Botcharov e Vadim Kójinov. São Paulo: Editora 34, 2018. [ Links ]

BAKHTIN, M. O problema do conteúdo, do material e da forma na criação literária. In: Questões de literatura e de estética. A teoria do romance. Tradução de Aurora Fornoni Bernadini et al. 3.ed. São Paulo: Editoria UNESP, 1993, p.13-70. [ Links ]

VOLÓCHINOV, V. Marxismo e filosofia da linguagem. Problemas fundamentais do método sociológico na ciência da linguagem. Tradução, notas e glossário de Sheila Grillo e Ekaterina Vólkova Américo. São Paulo: Editora 34, 2017. [ Links ]

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