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Bakhtiniana: Revista de Estudos do Discurso

versão On-line ISSN 2176-4573

Bakhtiniana, Rev. Estud. Discurso vol.14 no.3 São Paulo jul./set. 2019  Epub 05-Ago-2019

https://doi.org/10.1590/2176-457343919 

EDITORIAL

Bakhtin e as artes do espetáculo

*Universidade Federal do Paraná - UFPR; Programa de Pós-Graduação em Educação; Campus Rebouças, Curitiba, Brasil; CNPq, Proc. 165927/2015-1; http://orcid.org/0000-0003-2826-3366; jeancarllosgoncalves@gmail.com

**Royal Holloway, University of London; Department of Drama, Theater and Dance. London, United Kingdom; https://orcid.org/0000-0001-5921-3519; dick.mccaw@rhul.ac.uk


Por Artes do Espetáculo compreende-se, hoje, um arsenal de investigações, experimentos e práticas, cujo espectro, já inominável, abriga os campos dos estudos em corpo, teatro, dança, performance, circo, dramaturgia e história, produção e tecnologias da cena (entre outros), por meio de diferentes correntes teórico-práticas e contextos de pesquisa. O pensamento artístico-conceitual, bem como os processos de criação, circulação e recepção vêm modificando a experiência artística de modo que já não é mais possível (nem preciso) restringir essa discussão a uma só perspectiva epistemológica ou a um campo do conhecimento.

Extrapolando seu próprio lugar construído historicamente, o universo das artes cênicas tende atualmente ao cruzamento entre inovação e dimensão estética, ou seja, com as modificações do interesse pelas formas de comunicação e expressão humanas, alteram-se, também, os modos de vivenciar e produzir a cena ao vivo - premissa ainda fundamental para a existência das Artes do Espetáculo na contemporaneidade.

A construção de um campo de conhecimento, no entanto, está relacionada a vozes que ressoam, ao longo do tempo e, de certa forma, delineiam a projeção discursiva de autores e intelectuais interessados em um determinado tema, o que, por sua vez, delimita e/ou expande possibilidades de sua compreensão em um processo responsável por, às vezes, visibilizar, e outras, por apagar reflexões que se encontram no “grande tempo” e em distintas “esferas” de comunicação. Poderia ser o caso, e não apenas como exemplificação, da relação entre os estudos das Artes do Espetáculo e a obra de Mikhail Bakhtin [1895-1975], Valentín Volóchinov [1895-1936] e Pável Nikolaievitch Medviédev [1982-1938], pensadores que integram o que tem sido denominado Círculo Bakhtiniano. Urge investigar, ao menos sob duas égides distintas, as malhas discursivas desta relação.

A primeira poderia estar vinculada à forma com que a convergência temática Artes do Espetáculo aparece nos escritos destes pensadores em variadas épocas, espaços e formas, resultando em diferentes possibilidades a partir das quais o teatro, a dança, o corpo e a performance constituem alvo de reflexão do grupo de intelectuais russos, mesmo quando as abordagens não se configuram de forma direta e pontual.

Uma segunda perspectiva de investigação, esta de caráter mais abrangente, consistiria na pesquisa da potencialidade da obra bakhtiniana para a análise dos espetáculos, incluindo aí os processos, contextos e tempos envolvidos.

Vale lembrar que, na obra do Círculo , é possível assinalar algumas questões relacionadas à análise da relação entre teatro, jogo, atuação e contemplação que, embora pouco conhecidas por estudiosos, tanto da perspectiva dialógica quanto dos estudos em Artes do Espetáculo, podem contribuir para uma melhor compreensão sobre o escopo de interesses abarcado pelo grupo bakhtiniano, o que certamente abriga as duas vertentes acima mencionadas.

No Brasil, temos estudado, especialmente no âmbito do Laboratório de estudos em Educação Performativa, Linguagem e Teatralidades (ELiTe/UFPR/CNPq), as relações entre Bakhtin e as Artes do Espetáculo por diferentes prismas, investigando discursos e práticas cênicas a partir da Análise Dialógica do Discurso e pesquisando, também, apontamentos sobre as artes encontrados na obra bakhtiniana (GONÇALVES, 2019). As investigações por nós realizadas têm sido discutidas em congressos, grupos, projetos de pesquisa e adentrado eventos de importantes associações de pesquisa do país (Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Letras e Linguística [ANPOLL - GT Estudos Bakhtinianos], Associação Brasileira de Pesquisa e Pós-Graduação em Artes Cênicas [ABRACE - GT Pedagogia das Artes Cênicas] e Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação [ANPED - GT Educação e Arte]). Tal inserção resulta, hoje, em um amplo conjunto de publicações científicas ao redor do tema Bakhtin e as Artes do Espetáculo, na forma de artigos em periódicos, capítulos de livro, relatórios de Iniciação Científica, Dissertações de Mestrado, Teses de Doutorado e Relatórios de Estágio Pós-Doutoral .

Mais recentemente, na importante obra Bakhtin and Theatre: Dialogues with Stanislavsky, Meyerhold and Grotowski (McCAW, 2016), Dick McCaw, professor da Royal Holloway - Universidade de Londres e um dos colaboradores estrangeiros do ELiTe/UFPR/CNPq, “examina as conexões entre o pensamento do autor russo Mikhail Bakhtin (1895-1975) e a produção teatral de diretores e pesquisadores teatrais contemporâneos de Bakhtin: Konstantin Stanislavsky (1863- 1938), Vsevelod Meyerhold (1879-1940) e Jerzy Grotowski (1933-1999)” (GONÇALVES & SANTOS, 2016, p.214). A obra em muito contribui para a construção do conhecimento na área, já que não são muitos, ainda, os teatrólogos que têm se dedicado ao tema.

Ressaltamos, assim, a parceria entre dois pesquisadores em teatro, de países diferentes (Brasil e Inglaterra), e interessados na mesma lente teórica (os estudos bakhtinianos), no desafio de construir este número de Bakhtiniana: Revista de Estudos do Discurso, com o intuito de, ao mesmo tempo, retomar/relembrar possibilidades de pesquisa entre Bakhtin e as Artes do Espetáculo já estudadas e com resultados apresentados à comunidade científica e ainda vislumbrar, a partir daqui, outras poéticas de investigação, trazendo à luz a merecida visibilidade das relações dos estudos realizados por Bakhtin e o Círculo com a área das Artes (da cena, do corpo, da educação).

Destacamos também que Caryl Emerson, professora da Princeton University - Canadá, reconhecida por sua trajetória nos estudos bakhtinianos, escreveu, em 2015, o artigo Bakhtin and the Actor (with Constant Reference to Shakespeare) (EMERSON, 2015), que aborda a compreensão de Bakhtin sobre o jogo do ator e a arte de atuar/interpretar um papel/personagem.

E é preciso rememorar, ainda, que Marvin Carlson, reconhecido teatrólogo norte-americano e intelectual das Artes do Espetáculo, em seu ensaio Teatro e Dialogismo, publicado em 1992, sinalizou a teoria bakhtiniana como importante estudo para as artes da cena, incentivando, especialmente, o uso dos conceitos de heteroglossia e dialogismo para a compreensão das vozes que constituem a experiência teatral (CARLSON, 1992).

Sabemos hoje que os membros do Círculo eram frequentadores da cena espetacular russa. De acordo com Brait (2019), os membros do Círculo, mesmo tendo vivido um difícil período político e social na União Soviética, conviveram com a cultura russa, especialmente em sua formação e início de carreira, tendo sido frequentadores, apreciadores e conhecedores de arte “ainda que o conjunto da obra não apresente estudos diretamente ligados ao teatro, às teorias do teatro e da dança” (BRAIT, 2019, p.13).

Podemos citar, por exemplo, Iván Ivanovich Sollertinski (1902-1944), que embora tenha sido reconhecido por suas contribuições ao campo da música, foi também um especialista nas artes da cena e chegou, inclusive, a lecionar na área de História do Teatro (BRAIT, 2009). Shatskikh (2007), em sua pesquisa sobre a vida intelectual e cultural de Vitebsk na primeira metade do século XX, descreve a importância de Iván Sollertinski para o crescimento cultural e teatral da cidade, apontando contribuições do intelectual russo a diversos campos do saber, incluídas aí as artes da cena.

Em Vitebsk temos, segundo Shatskikh (2007), a presença de um Bakhtin espectador e participante de teatro. A autora, ao relatar os resultados da pesquisa sobre a vida cultural de Vitebsk, nos lembra das práticas cênicas denominadas julgamentos de palco, modalidades populares de espetáculo nas quais as personagens históricas e fictícias eram levadas a julgamento com a participação do público. É nesses espetáculos de caráter didático que Mikhail Bakhtin explorava, a partir do papel de advogado de defesa, a dualidade espectador-intérprete.

Pável Medviédev, um dos intelectuais mais conhecidos do Círculo Bakhtiniano, no outono de 1922, “a convite do diretor, ator e poeta P. P. Gaidebúrov e da atriz N. F. Skárskaia (irmã de Vera Komissarjévskaia), entrou na “Irmandade” do Teatro Itinerante” (MEDVIÉDEV & MEDVIÉDEVA, 2014, p.40), tornando-se diretor de repertório e depois redator da revista Notas de um Teatro Itinerante (Zapísski peredvijnógo teatra).

Há ainda, como nos conta McCaw (2016), a partir da biografia de Bakhtin elaborada por Clark e Holquist, um Bakhtin professor que dirigiu um seminário sobre estética e história do teatro no Mordovia Theatre for Music and Drama enquanto esteve em Nevel e Vitebsk (McCAW, 2016, p.28).

Rule (2015), em sua menção à passagem do Círculo Bakhtiniano por Vitebsk, aponta que, embora se saiba que os intelectuais hoje denominados bakhtinianos tenham mergulhado em várias áreas de estudo, incluindo a cultura e a arte como um centro convergente de interesses, existem apagamentos históricos e situacionais que impediram seu reconhecimento e vinculação direta a determinados campos de conhecimento. Nos estudos teatrais, por exemplo, há notada ausência da produção intelectual do Círculo. Nesse sentido, Medviédev & Medviédeva (2014) apontam para possíveis conexões entre o trabalho científico realizado por membros do Círculo Bakhtiniano e o teatro, defendendo, inclusive, que alguns nomes deveriam figurar, historicamente, ao lado de Constantin Stanislávky e Vsevolod Meyerhold .

Não podemos deixar de citar, ainda, o interesse de Bakhtin pela obra de Shakespeare, especialmente pelas tragédias: “Quando analisamos as tragédias de Shakespeare, também observamos a transformação sucessiva de toda a realidade - que age sobre suas personagens - em contexto semântico dos atos, pensamentos e vivências dessas personagens” (BAKHTIN, 2017, p.71 [1975]). No texto Adições e alterações para Rabelais (BAKHTIN, 2014 [1944/1992]), escrito em 1944 e publicado pela primeira vez em 1992, Bakhtin dedica uma boa parte de seus escritos ao estudo do teatro shakespeariano. Tal interesse pode ser observado também em diversas referências a Shakespeare que podem facilmente ser encontradas ao longo das obras bakhtinianas.

Já em O autor e a personagem na atividade estética (BAKHTIN, 2003 [1920-22]), encontramos um Bakhtin que discute aspectos relacionados à interpretação teatral e relaciona a arte do ator ao campo da análise literária. A estética expressiva na arte dramática também é um dos temas discutidos por Bakhtin, quando coloca em diálogo as particularidades da interpretação, da ilusão e da contemplação que se encontram no jogo da atuação (BAKHTIN, 2003, p.59).

No texto Fragmentos dos anos 70-71, Bakhtin faz uma referência explícita a Constantin Stanislávski, o mais conhecido pesquisador de teatro no mundo: “Stanislávski sobre a beleza da representação de uma imagem negativa pelo ator. É inaceitável a divisão mecânica: feiura - personagem negativa, beleza - ator que a representa” (BAKHTIN, 2017, p.56 [1970-71]). Tal referência nos leva a imaginar que Bakhtin, para fazer esta afirmação, devesse conhecer, ao menos minimamente, os pilares da arte do ator postulados pelo diretor teatral russo.

Atestando ainda as relações entre a obra do Círculo e as Artes do Espetáculo, o texto O método formal nos estudos literários. Introdução crítica a uma poética sociológica, de Medviédev (MEDVIÉDEV, 2012 [1928]), traz menções ao enredo de Édipo Rei (p.61), e também fala da “‘sinceridade’ de um ator” (p.213), ao retomar as reflexões do formalista russo Bóris Eikhenbáum (1886-1959) sobre o poeta Nicolai Nekrássov (1921-1978).

Emerson (2015) lamenta, no entanto, o fato de Bakhtin e os membros do Círculo não terem se dedicado de forma mais aprofundada aos estudos do espetáculo. Não há, no legado bakhtiniano conhecido até agora, vestígios de um mergulho nos discursos e práticas dos mestres do teatro de sua época como, por exemplo, Meyerhold, Brecht, Nicolai Evreinov, Edward Gordon Craig, Mei Lanfang, e nem mesmo notas mais detalhadas sobre o teatro russo do século XX.

É preciso considerar, porém, que a perspectiva bakhtiniana conversa com aspectos de teatro/dança/artes do corpo que, mesmo no campo dos estudos da cena, ficam por vezes subjugados ou tidos como desnecessários à formação do artista, como, por exemplo, a autoria e a relação entre tempo e espaço. Aqui entramos em outra possibilidade de relação dialógica entre as Artes do Espetáculo e a produção intelectual do Círculo: as contribuições do pensamento bakhtiniano para a compreensão do fenômeno cênico e seu funcionamento.

Como já discutido por McCaw (2016, p.238), importa que a pesquisa das relações entre Bakhtin e as Artes do Espetáculo se constituam enquanto exercício para explorar a inter-iluminação entre teoria e prática, já que de ao menos duas expectativas vive o universo da cena: uma própria do mundo prático (fazer teatro/experimentar processos) e outra do mundo dito acadêmico (escritas/teorizações).

E é nas entrelinhas desses horizontes de possibilidades que os textos que compõem este número de Bakhtiniana: Revista de Estudos do Discurso pautam um tema ainda pouco explorado tanto pelos estudos da linguagem quanto dos estudos teatrais: Bakhtin e as Artes do Espetáculo.

Antes de elencar resumidamente o escopo de cada artigo, aproveitamos para agradecer a equipe editorial de Bakhtiniana: Revista de Estudos do Discurso, pareceristas, tradutores e revisores (de língua portuguesa e inglesa, sem os quais seria impossível reunir, nesta edição, tantas produções de qualidade e excelência. Destacamos também a participação de autores de diferentes instituições de ensino superior, nacionais e internacionais, muitos deles apoiados por agências de fomento que financiaram grande parte das pesquisas aqui representadas, a saber: FAPESP, CNPq e CAPES, às quais agradecemos imensamente. Não poderíamos deixar de mencionar, ainda, que este número só se tornou possível graças à participativa colaboração e apoio de grande parte dos membros do Laboratório de estudos em Educação Performativa, Linguagem e Teatralidades (ELiTe/UFPR/CNPq), grupo de pesquisa que agrega pesquisadores e estudantes do Brasil: Paraná, Santa Catarina, São Paulo, Acre, Amazonas, e do exterior: Inglaterra, Paris, Portugal e Colômbia, e que tem, como um de seus propósitos, investigar as relações entre Bakhtin e as Artes do Espetáculo.

Passamos, assim, à apresentação dos textos.

Abrem o número, os nossos artigos Laboratório, espetáculo, desmontagem: experimentos teatro[dia]lógicos do Carmen Group em A serpente, de Nelson Rodrigues (Jean Carlos Gonçalves) e Corpos em Bakhtin (Dick McCaw). O primeiro tem seu foco nos processos vivenciados desde a construção de um espetáculo teatral até os diferentes formatos de apresentação da obra diante do público. O segundo apresenta algumas concepções de corpo na obra bakhtiniana, defendendo, a partir de uma visita a seus primeiros e últimos textos, uma filosofia do corpo.

Na esteira da relação entre obra e público, Robson Rosseto e Patrícia Pluschkat contribuem com o texto A percepção sensorial do espectador na teatralidade contemporânea: diálogos com Bakhtin, no qual propõem reflexões sobre alteridade e interação nas artes cênicas.

Em Dialogismo, polifonia, cronotopo e grotesco em A última gravação de Krapp: uma leitura bakhtiniana, Felipe Augusto de Souza Santos apresenta uma análise da peça de Samuel Beckett, mobilizando conceitos bakhtinianos. O conceito de carnavalização é discutido por Carlos Gontijo Rosa, no texto Carnavalização no teatro ibérico barroco, cujo foco são os embates de classe e os artifícios discursivos da narrativa tragicômica do Século de Ouro espanhol.

A relação entre a Educação e as Artes do Espetáculo é encontrada nos seguintes textos: Corpos dançantes na escola: diálogos entre a educação performativa e a perspectiva bakhtiniana, de Michelle Bocchi Gonçalves, Thais Castilho e Jair Mário Gabardo Jr. e Protagonismo teatral e protagonismo educacional: quais deslocamentos fazem surgir um a(u)tor?, de Claudia Cavalcante e José Luiz de Souza Santos. Esses dois artigos destacam-se por sua abordagem dialógica de práticas, espaços e políticas educacionais.

Em A peça Mãe de Alencar e as vozes sociais sobre a questão afro-brasileira, de Angela Rubel Fanini e Maria Domingos Pereira Ventura, temos acesso a uma discussão sobre a cultura escravocrata a partir da análise da peça Mãe, de José de Alencar. O artigo Iuri Lótman e a semiótica do teatro, de Rodrigo Alves Nascimento, explora as contribuições do semioticista russo Iúri Lótman para a semiótica do teatro.

Carolina Fernandes Rodrigues Fomin finaliza este número com a resenha do livro Teatro e universidade: Cena. Pedagogia. [Dialogismo], lançado em 2019 pela Editora Hucitec. Na obra, que contém o excelente prefácio Entre a cena e a pedagogia, o dialogismo, escrito por Beth Brait e a apresentação de capa assinada por Dick McCaw, analisamos, a partir dos estudos bakhtinianos, processos de montagem teatral na universidade.

Os artigos publicados neste número de Bakhtiniana: Revista de Estudos do Discurso apresentam, assim, um panorama de estudos desenvolvidos atualmente no que tange às diferentes frentes de investigação abarcadas pelo diálogo entre Bakhtin e as Artes do Espetáculo, atestando o recente interesse no tema, advindo de pesquisadores de diversos centros de investigação. Este número contribui, dessa forma, para a construção do conhecimento em Linguística, Letras e Artes, trazendo reflexões que, esperamos, possam se traduzir em outros anseios de pesquisa correlacionados, já que vivemos tempos nos quais falar de arte (ou assumir-se artista) parece requerer cuidado e puritanismo (o que não combina, em nada, com a essência dos questionamentos e reflexões que a articulação proposta neste número pretende provocar).

1Ver Dialogismo e polifonia em Bakhtin e o Círculo (Dez obras fundamentais) (BRAIT, 2016)

2Para maior compreensão das pesquisas desenvolvidas no grupo de pesquisa, ver os cadernos de resumo da II Jornada Nacional de estudos em Educação Performativa, Linguagem e Teatralidades, disponíveis em: http://proxy.furb.br/ojs/index.php/oteatrotranscende/issue/view/440

3Constantin Stanislávsky (1863-1938) é um dos mais importantes intelectuais do teatro mundial, conhecido pelo desenvolvimento do seu método das ações físicas que influencia, desde a Rússia czarista até hoje, a pedagogia do ator em diferentes contextos de formação em interpretação teatral.

4Vsevolod Meyerhold (1874-1940), diretor e teórico do teatro na primeira metade do século XX, é reconhecido por seus estudos de biomecânica na formação do ator e por se contrapor a algumas concepções estéticas de Stanislávsky.

5O mundo de Édipo também é alvo de análise no texto O autor e a personagem na atividade estética, de Mikhail Bakhtin (BAKHTIN, 2003, p.62-65. [1920-22]), o que demonstra um interesse do Círculo com relação ao estudo do texto teatral.

REFERÊNCIAS

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