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Bakhtiniana: Revista de Estudos do Discurso

versão On-line ISSN 2176-4573

Bakhtiniana, Rev. Estud. Discurso vol.14 no.4 São Paulo out./dez. 2019  Epub 14-Nov-2019

https://doi.org/10.1590/2176-457345407 

APRESENTAÇÃO

Lotman e Bakhtin: vozes no grande diálogo cultural

Beth Brait* 
http://orcid.org/0000-0002-1421-0848

Maria Helena Cruz Pistori** 
http://orcid.org/0000-0003-0751-3178

Bruna Lopes-Dugnani*** 
http://orcid.org/0000-0001-9440-779X

Orison Marden Bandeira de Melo Júnior**** 
http://orcid.org/0000-0002-7592-449X

*Pontifícia Universidade Católica de São Paulo - PUCSP, São Paulo, São Paulo, Brasil; Faculdade de Filosofia, Comunicação e Artes - FAFICLA, Departamento de Linguística; Universidade de São Paulo - USP, São Paulo, São Paulo, Brasil; CNPq; https://orcid.org/0000-0002-1421-0848; bbrait@uol.com.br

**Pontifícia Universidade Católica de São Paulo - PUCSP/Editora Associada Bakhtiniana. Revista de Estudos do Discurso, São Paulo, São Paulo, Brasil; https://orcid.org/0000-0003-0751-3178; mhcpist@uol.com.br

***Universidade Federal Rural de Pernambuco - UFRPE, Unidade Acadêmica de Serra Talhada, Serra Talhada, Pernambuco, Brasil; https://orcid.org/0000-0001-9440-779X; blopesdugnani@gmail.com

****Universidade Federal do Rio Grande do Norte - UFRN, Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes, Departamento de Línguas e Literaturas Estrangeiras Modernas, Natal, Rio Grande do Norte, Brasil; https://orcid.org/0000-0002-7592-449X; junori36@uol.com.br


Em vez do decantado “choque de culturas”, o grande tempo

bakhtiniano postula o diálogo de culturas, “o diálogo de diferentes

épocas e culturas no grande tempo universal”.

Paulo Bezerra

Este é um número dedicado a Iúri Lotman e à semiótica cultural elaborada a partir da Escola de Tartu - Estônia, com a colaboração especial de Irene Machado (USP - Brasil) e Silvia Barei (UNC - Argentina) como editoras ad hoc. Os artigos aqui publicados certamente propiciam um profundo diálogo entre as ideias do Círculo de Bakhtin e a semiótica lotmaniana. Na realidade, porém, como verão os leitores, mais do que esse diálogo primeiro, trata-se de artigos que tanto nos colocam em contato direto com a dinâmica literária e cultural do pensamento russo ao longo do séc. XX como nos propiciam reflexões enriquecedoras sobre a contemporaneidade. E é de Peeter Torop, discípulo de Lotman, a citação abaixo que situa, de modo muito claro, o trabalho a que se propôs aquela escola:

A Escola de Tártu-Moscou aceitou, como atitude profissional, reconstruir a tradição e ligar-se com as realizações - esquecidas ou reprimidas cultural e cientificamente - das primeiras décadas do séc. XX. Uma missão de Lotman como um de seus líderes foi conhecer e mediar a herança esquecida. Na situação de censura muitos contatos entre Lotman e a teoria russa não estavam visíveis. Dessa forma, a síntese de Lotman, Tynianov, Bakhtin, Vygotsky, Eisenstein e outros, num intenso diálogo implícito, pode ser a base para a formação da próxima etapa da semiótica da cultura (2019a, p.18).

O mesmo importante artigo destaca a visível complementaridade entre as escolas, mostrando a inter-relação entre a história do formalismo russo, a teoria russa e a história da semiótica cultural, destacando, entre outros aspectos, um dos princípios fundamentais da concepção semiótica da cultura - o conceito bakhtiniano de cronotopo.

Na década de 1970, nos anos finais de sua vida, Mikhail Bakhtin expressa sua consideração e respeito em relação a Iúri Lotman em alguns momentos. No texto A ciência da literatura1 hoje (Resposta a uma pergunta da revista Novi Mir)2, de 1970, ao discutir as condições de uma ciência da literatura naquele momento, refere-se a Lotman duas vezes. Na primeira, ele afirma:

[...] em nossos dias se publicam, evidentemente, livros razoáveis e úteis (sobretudo de história da literatura), aparecem artigos interessantes e profundos, por último há grandes fenômenos aos quais a minha caracterização absolutamente não se estende. Tenho em vista o livro de N. Conrad O Ocidente e o Oriente, o livro de Likhatchóv A poética da literatura russa antiga e os quatro números de Trabalhos Sobre Sistemas de Signos, produzidos por uma corrente de jovens pesquisadores liderados por Iúri M. Lotman. São fenômenos sumamente agradáveis dos últimos anos (BAKHTIN, 2017, p.10-11).

Na mesma página, a nota nº. 4, do tradutor Paulo Bezerra, explica: “A revista Trabalhos Sobre Sistemas de Signos [citada por Bakhtin] (Trudi po Znakovim Sisteman), da Universidade de Tartu, é o mais antigo periódico internacional sobre semiótica, sendo publicado até hoje (desde 1998 em língua inglesa, sob o título Sign Systems Studies) (BAKHTIN, 2017, p.11)3. O diálogo com a Escola de Tartu continua em outro trecho, nesta mesma resposta à revista Novi Mir, quando Bakhtin considera:

Os notáveis trabalhos sobre literatura que mencionei - Conrad, Likhatchóv, Lotman e sua escola -, a despeito de toda diferença de sua metodologia, têm em comum o fato de não separarem literatura de cultura, procurando interpretar os fenômenos literários na unidade diferenciada de toda a cultura de uma época (BAKHTIN, 2017, p.13).

Em outros dois textos do final da vida, Bakhtin cita Lotman novamente. Nos Fragmentos dos anos 1970-1971, destacando a importância de se compreender a literatura num “nível mais alto de unidade orgânica” - a cultura, remete ao pensador da Escola de Tartu: “A concepção da pluralidade de estilos de IevguêniOniéguin (cf. Lotman) acarreta a supressão do elemento dialógico mais importante e a transformação do diálogo de estilos em simples realização de diferentes versões da mesma coisa” (2017, p.26). E Paulo Bezerra nos esclarece, na nota de rodapé nº. 3, que Bakhtin está se referindo a um trabalho de Iúri M. Lotman, “O problema dos significados nos sistemas modelares secundários”, Trabalhos sobre Sistemas de Signos, nº. 2, Tartu, 1965, p.22-37”. E ainda aduz que isso se deve à “discordância de Bakhtin com o recente estruturalismo soviético”, crítica que “continua nas notas a ‘Por uma metodologia das ciências humanas’” (BEZERRA, 2017, p.26):

Minha posição em relação ao estruturalismo. É contra o fechamento no texto. As categorias mecanicistas de “oposição e alternância de códigos” (a pluralidade de estilos em Ievguêni Onéguin, na interpretação de Lotman e na minha interpretação) (BAKHTIN, 2017, p.78).

As possibilidades dialógicas oferecidas nos diferentes artigos são inúmeras, e abarcam variados objetos de estudos, aprofundamento teórico e mesmo comparações entre diferentes teorias semióticas. É, portanto, dentro dessa perspectiva dialógica e interdisciplinar que Bakhtiniana 14.4 oferece 12 textos de 14 autores representantes das seguintes universidades: ESPM-SP (1); UFF-RJ (1); UFRB-BA (1); USP (3 e uma das editoras ad hoc); UNC - Argentina (2 e a outra editora ad hoc); Escuela Nacional de Antropologia e Historia - México (1); Université de Limoges - France (1); Università di Bologna - Italia (1); Umeå University - Sweden (1); Universidade de Tartu - Estonia (1); quatro universidades brasileiras e seis universidades estrangeiras. Convidamos, pois, os leitores a saborear e incluir em suas pesquisas esse conjunto que, mais uma vez, dá ao periódico Bakhtiniana a oportunidade de participar ativamente da vida cultural e acadêmica brasileira e internacional

Uma alta quantidade de submissões, assim como sua rigorosa seleção, realizada por competentes e colaborativos pareceristas do Conselho e ad hoc, permitiu chegar a esse excelente resultado. Internacionalização e visibilidade são exigências das agências de fomento, da PUC-SP e do Scielo e, por isso, Bakhtiniana mantém-se firme no compromisso de sempre criar possibilidades dialógicas entre a pesquisa ligada aos estudos da linguagem, nacional e internacional. Nesse sentido, agradecemos imensamente o inestimável apoio, auxílio e reconhecimento do MCTI/CNPq/MEC/CAPES e da PUC-SP, por meio do Plano de Incentivo à Pesquisa (PIPEq) / Publicação de Periódicos (PubPer-PUCSP) - 2019, neste dificílimo momento pelo qual passa a pesquisa brasileira, as agências de fomento, o CNPq, de maneira particular, e a educação como um todo.

1Segundo o tradutor Paulo Bezerra, em sua nota número 2: “O termo russo (literturoviédenie), aqui traduzido como ciência da literatura, sintetiza história da literatura, teoria da literatura e crítica literária, três áreas correlatas da investigação literária. Ademais, o próprio Bakhtin chama de ciência a investigação literária profunda e abrangente” (BAKHTIN, 2017, p.9).

2Originalmente publicado na Novi Mir, n. 11, 1970, p.237-240 (N. do T. Paulo Bezerra inBAKHTIN, 2017, p.9).

3Como Bakhtin, vários dos autores deste número também citaram o periódico Sign Systems Studies. Cf. Américo, Gherlone, Lorusso, Nakagawa, Semenenko, Torop.

REFERÊNCIAS

BAKHTIN, M. A ciência da literatura hoje (Resposta a uma pergunta da revista Novi Mir). In: BAKHTIN, M. Notas sobre literatura, cultura e ciências humanas. Org., trad., posfácio e notas Paulo Bezerra. Notas da edição russa Serguei Botcharov. São Paulo: Editora 34, p.9-19. [ Links ]

BAKHTIN, M. Fragmentos dos anos 1970-1971. In: BAKHTIN, M. Notas sobre literatura, cultura e ciências humanas. Org., trad., posfácio e notas Paulo Bezerra. Notas da edição russa Serguei Botcharov. São Paulo: Editora 34, p.21-56. [ Links ]

BAKHTIN, M. Por uma metodologia das ciências humanas. In: BAKHTIN, M. Notas sobre literatura, cultura e ciências humanas. Org., trad., posfácio e notas Paulo Bezerra. Notas da edição russa Serguei Botcharov. São Paulo: Editora 34, p.81-96. [ Links ]

BEZERRA, P. Bakhtin: remate final. In: BAKHTIN, M. Notas sobre literatura, cultura e ciências humanas. Org., trad., posfácio e notas Paulo Bezerra. Notas da edição russa Serguei Botcharov. São Paulo: Editora 34, p.81-96. [ Links ]

TOROP, P. Teoria russa e semiótica da cultura: história e perspectivas. Bakhtiniana. Revista de Estudos do Discurso. São Paulo, n.14.4, p.18-41, 2019a. [ Links ]

TOROP, P. Russian Theory and Semiotics of Culture: History and Perspectives. Bakhtiniana. Revista de Estudos do Discurso. São Paulo, n.14.4, p.19-39, 2019b. [ Links ]

Translated by Bruna Lopes-Dugnani - blopesdugnani@gmail.com; https://orcid.org/0000-0001-9440-779X

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