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Dental Press Journal of Orthodontics

On-line version ISSN 2176-9451

Dental Press J. Orthod. vol.16 no.6 Maringá Nov./Dec. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S2176-94512011000600014 

ARTIGOS INÉDITOS

 

Respiração bucal no contexto multidisciplinar: percepção de ortodontistas da cidade do Recife

 

 

Valdenice Aparecida de MenezesI; Luiza Laranjeira CavalcantiII; Tâmara Cavalcanti de AlbuquerqueII; Ana Flávia Granville GarciaIII; Rossana Barbosa LealIV

IDoutora em Odontopediatria pela Faculdade de Odontologia da FOP/UPE. Professora da Faculdade ASCES e Universidade de Pernambuco (UPE)
IIAluna de Graduação em Odontologia, Faculdade ASCES
IIIDoutora em Odontopediatria pela Faculdade de Odontologia da FOP/UPE. Professora do Departamento de Odontologia da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB)
IVProfessora Assistente da Faculdade ASCES

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: avaliar o conhecimento de cirurgiões-dentistas especialistas em Ortodontia da cidade de Recife/PE, Brasil, sobre respiração bucal, bem como verificar os seus protocolos de atendimento.
MÉTODOS: estudo transversal mediante entrevista individual e estruturada com 90 profissionais inscritos na Sociedade Pernambucana de Ortodontia e Ortopedia Facial. O formulário contendo 14 perguntas foi testado pelo método de validação de "face".
RESULTADOS: o sexo feminino foi prevalente (55,6%); para 78,9% dos pesquisados, a maior titulação foi a especialização; a maioria trabalhava apenas em clínica particular (67,8%) e 38,9% dos entrevistados eram docentes. Os critérios de diagnóstico mais utilizados foram: postura corporal (97,8), vedamento labial (96,7) e olheiras (86,7%), com percentuais semelhantes entre os grupos quanto ao tempo de graduado; o uso da placa metálica de Glatzel foi baixo (3,3%). Com relação às sequelas da respiração bucal, os maiores percentuais foram para as alterações craniofaciais 94,4% (más oclusões) e as corporais 37,8% (postura). O tempo de duração da respiração bucal (84,4%) foi o item mais citado pelos pesquisados como associado a sequelas. Para nenhum dos itens avaliados verificou-se associação significativa com o tempo de graduado, ao nível de significância de 5%. Para a maioria dos entrevistados, tanto do serviço público como privado, o protocolo de atendimento do respirador bucal deve ser realizado por uma equipe multidisciplinar.
CONCLUSÕES: a maioria dos entrevistados, independentemente da experiência profissional, tem conhecimento da síndrome do respirador bucal e da necessidade de um tratamento diferenciado dentro de uma visão abrangente de multidisciplinaridade.

Palavras-chave: Respiração bucal. Ortodontia. Percepção.


 

 

INTRODUÇÃO

A respiração bucal é um distúrbio respiratório comum na infância e um dos problemas mais preocupantes de saúde pública5. A sua duração prolongada pode ocasionar15,16,21 uma série de alterações estruturais e funcionais do sistema estomatognático, com repercussões nos contextos físico, psicológico e social. Os problemas advindos dessa síndrome e a sua complexidade têm sido motivo de preocupação de profissionais de várias áreas da saúde e, assim, contribuído para a realização de atendimentos e estudos multidisciplinares mais frequentes1,9,15,16,18.

O mecanismo de respiração normal ocorre com a entrada do ar pelo nariz, passando pela faringe, laringe e pulmões, onde são realizadas as trocas gasosas e, dessa forma, a umidificação, aquecimento e filtragem adequada do ar inspirado. Como função vital e inata do ser humano, a respiração deve ser realizada de modo fisiologicamente correto, para proteger as vias aéreas superiores e propiciar o desenvolvimento satisfatório do complexo craniofacial. Uma vez alterada a forma da respiração, o organismo sofre uma série de modificações para poder se adaptar a essa nova situação imposta. As alterações ocorrem em vários segmentos e sistemas do organismo, as quais podem trazer sérias consequências se não tratadas precocemente, pois geralmente acometem crianças no período de desenvolvimento3,8,13.

O respirador bucal é o indivíduo que por alguma razão, seja orgânica, funcional ou neurológica, desenvolveu um padrão inadequado de respiração16. Pode ser classificado como: insuficiente respirador nasal orgânico, devido à presença de obstáculos mecânicos nasais, retronasais ou bucais; insuficiente respirador nasal funcional, aqueles que precisam ser submetidos à cirurgia; respiradores bucais impotentes funcionais, como sequela de disfunção neurológica.

As implicações mais comuns da respiração bucal são alterações: craniofaciais e dentárias, dos órgãos fonoarticulatórios, corporais, comportamentais e das funções orais20. Do ponto de vista odontológico, o paciente respirador bucal apresenta características faciais peculiares, tais como: olheiras, olhar vago, lábio superior curto e incompetente, lábios ressecados, vedamento labial inadequado; hipotonia, hipofunção dos músculos elevadores da mandíbula, má oclusão, além de desequilíbrio funcional da deglutição, sucção e fonação26,29.

Considerando-se a importância do tratamento da respiração bucal dentro de uma filosofia multidisciplinar, o objetivo desse estudo foi avaliar o conhecimento dos ortodontistas/ortopedistas da cidade de Recife sobre a síndrome da respiração bucal, bem como verificar os seus protocolos de diagnóstico e atendimento.

 

METODOLOGIA

Foi realizada uma pesquisa transversal quantitativa junto a cirurgiões-dentistas especialistas em Ortodontia/Ortopedia inscritos em uma entidade de classe (Sociedade Pernambucana de Ortodontia e Ortopedia Facial) da cidade do Recife/PE. Para isso, solicitou-se à sociedade mencionada uma listagem dos profissionais inscritos até o ano de 2006. A partir dessa listagem, foram selecionados os profissionais que exerciam atividade clínica, em consultório particular ou serviço público, na cidade de Recife. De um total de 108 profissionais, 5 não foram localizados e 13 não quiseram participar do estudo. Os entrevistados, 90 no total - 40 do sexo masculino (44,4%) e 50 (55,6%) do feminino -, responderam a um formulário individual e padronizado. O formulário continha 15 perguntas, a fim de verificar o conhecimento desses profissionais sobre questões relacionadas à respiração bucal.

Num momento inicial, foi explicada a finalidade da pesquisa, sendo, então, solicitada a participação do entrevistado através de assinatura de Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. As respostas foram anotadas no momento da entrevista, assim permitindo uma maior fidelidade e veracidade das informações registradas.

A fidedignidade das respostas foi testada pelo método de validação da "face" em 10% dos entrevistados. Nesse método, o pesquisador solicita aos entrevistados que expliquem, com as suas próprias palavras, o que entenderam sobre cada pergunta.

As entrevistas foram realizadas no local de trabalho (consultório particular ou unidade básica de saúde) e, na medida do possível, procurou-se não interferir nas atividades cotidianas dos profissionais.

Para análise dos dados, foram obtidas distribuições absolutas e percentuais uni e bivariadas e as seguintes medidas estatísticas: média, desvio-padrão, coeficiente de variação, valor mínimo e valor máximo da variável idade (técnicas de estatística descritiva). Foram utilizados os testes Qui-quadrado de Pearson, ou o Teste Exato de Fisher, quando as condições para utilização do teste Qui-quadrado não foram verificadas (técnicas de estatística inferencial).

O nível de significância utilizado nos testes estatísticos foi de 5%. Os dados foram digitados em uma planilha Excel® e o software utilizado para a obtenção dos cálculos Estatísticos foi o SAS® versão 8 (Statistical Analysis System).

Esse trabalho foi encaminhado e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade de Pernambuco sob o número 020/07.

 

RESULTADOS

Para 78,9% dos pesquisados, o curso de maior titulação foi a especialização, a maioria trabalhava apenas em clínica particular (67,8%) e 38,9% eram docentes (Tab. 1).

Não houve associação significativa entre o tempo de graduado e qualquer uma das variáveis apresentadas (p>0,05); a maioria dos entrevistados no grupo total realiza o diagnóstico do padrão respiratório durante a anamnese (70%) (Tab. 2). Quanto aos métodos de diagnóstico, destacaram-se o da postura corporal (97,8%) e o vedamento labial (96,7%), com percentuais semelhantes entre os grupos quanto ao tempo de graduado; o uso da placa metálica de Glatzel foi baixo e só mencionado por 9,4% dos profissionais com maior tempo de graduação (Tab. 2).

Na Tabela 3, destacam-se as maiores diferenças percentuais para os ortodontistas que citaram "deficiência de aprendizagem" (alterações comportamentais) como sequelas provocadas pela respiração bucal, com percentual mais elevado entre os que tinham de 11 a 20 anos de graduado em relação aos que tinham 21 anos ou mais de graduado (37,9% x 12,5%). O tempo de duração da respiração bucal foi o item mais citado pelos pesquisados como associado a sequelas. Para nenhum dos itens foi verificada associação significativa com o tempo de graduado, ao nível de significância de 5%.

Todos os 29 pesquisados que trabalham em local público informaram que encaminham os seus pacientes ao otorrinolaringologista e ao fonoaudiólogo. Para os outros itens citados, verifica-se (Tab. 4) que a maior diferença percentual entre as faixas de tempo ocorreu para os que encaminham para o psicólogo no grupo com 21 anos ou mais de graduado (7,7%) e as outras duas faixas de tempo (37,5%). Em relação ao protocolo de atendimento no serviço privado, a maior diferença percentual entre as faixas de tempo de graduado foi registrada para os que encaminham para o pediatra, que foi mais elevada na faixa de 11 a 20 anos de graduado do que na faixa de até 10 anos. Entretanto, entre os pesquisados que trabalhavam em serviço público e privado, não se comprovou associação significativa entre o tempo de graduado e os itens relativos ao encaminhamento.

Dois pesquisados consideraram o tratamento multidisciplinar como sem importância nos casos de respiração bucal, sendo que ambos tinham 21 anos ou mais de graduados, sem associação significativa (p>0,05) (Tab. 5).

 

DISCUSSÃO

A alteração do padrão respiratório pode repercutir na saúde geral do indivíduo1,9,15,16,18 e, portanto, não se restringe à ocorrência de distúrbios apenas de interesse ortodôntico. Para a maioria dos profissionais (70%), o diagnóstico da respiração é feito na fase da anamnese, momento em que os ortodontistas, em especial os com formação mais recente (p<0,05), procuram investigar outros transtornos associados à respiração bucal27.

De maneira geral, a seleção dos métodos e critérios clínicos de diagnóstico está diretamente relacionada com os objetivos das diferentes especialidades de saúde. Um dos maiores problemas no diagnóstico da respiração é a ausência de uma definição precisa sobre o respirador bucal, já que a respiração nasal pode ocorrer em graus variados26,28.

Os principais parâmetros de diagnóstico do padrão respiratório foram: vedamento labial, postura corporal e presença de olheiras, sendo a placa metálica de Glatzel (3,3%), a espátula (6,7%) e o tempo de água na boca (14,4%) por 3 minutos (p>0,05) critérios pouco utilizados pelos profissionais (Tab. 2). O uso desses métodos é mais frequente para a determinação do modo respiratório, e não do fator causal. O uso do espelho bucal (56,7%) e de radiografias (38,9%) também foi citado com percentuais elevados.

Em virtude da complexidade da respiração bucal e da diversidade de órgãos e estruturas comprometidas10, o diagnóstico deve ser realizado pelo otorrinolaringologista (radiografia de cavum e nasofibroscopia), ortodontista (telerradiografia) e fonoaudiólogo11,13. É essencial a determinação do fator etiológico, para não se indicar condutas terapêuticas errôneas20,29, bem como a análise de outras alterações nos contextos físico, emocional e social que comprometem a saúde e a qualidade de vida do indivíduo15,16,21.

Quando indagados sobre os fatores que contribuem para o agravamento da respiração bucal, os mais citados foram duração, fator etiológico e idade, sendo a diferença do tempo de graduado não significativa (p>0,05). Salienta-se que a amamentação natural, nos primeiros meses de vida, estimula a respiração nasal23 e, além de suprir as necessidades nutritivas e emocionais, faz com que a criança desenvolva, de maneira adequada, as estruturas faciais e bucais, evitando a instalação de hábitos de uso de chupeta e mamadeira, sucção digital e onicofagia6,14,29.

Assim, são de grande importância o diagnóstico e o encaminhamento precoce aos especialistas, quando ainda não foram desenvolvidas deformações ósseas na face, alterações cardiorrespiratórias, imunológicas e comportamentais22,26. No presente estudo, 87 profissionais (96,5%) consideram o tratamento multidisciplinar imprescindível e apenas 2,2% (2) dos que tinham 21 ou mais anos de graduado avaliam esse aspecto como irrelevante, sem associação significativa (p>0,05) (Tab. 5).

Os profissionais foram unânimes em afirmar que a respiração bucal provoca várias sequelas, sendo as mais comuns, segundo a literatura: face alongada27, narinas estreitas, vedamento labial inadequado, falta de tônus na musculatura facial17,24, olhos caídos ou inclinados, olheiras, fechamento dos ombros, desequilíbrio da coluna, e nariz pequeno. Verificou-se que os itens mais citados foram: o vedamento labial (97,8%), a postura corporal (96,7%) e olheiras (86,7%). Esses dados são concordantes com os de outros estudos2,17,28.

Dentre as características bucais, destacam-se: lábios hipotônicos, ressecados, evertidos, palato estreito e profundo, boca entreaberta, arcada superior atrésica, Classe II, más oclusões (assimetria facial, mordida aberta e cruzada posterior)24,26,29 e alterações da deglutição, sucção e fonação4,13,22,23. O maior percentual de sequelas citado pelos profissionais foi no grupo das alterações craniofaciais e dentárias, sendo a má oclusão apontada por 94,4%, dados similares aos de outros estudos13,21.

Com frequência, os respiradores bucais apresentam alterações comportamentais como: irritação, mau humor, sonolência, inquietude, desconcentração, agitação, ansiedade, medo, depressão, desconfiança, impulsividade6,19 e dificuldades de aprendizagem20,30. Esses dados confirmam a opinião dos entrevistados e de outros autores1,7, para os quais é fundamental a prevenção e o diagnóstico precoce da respiração bucal, objetivando reduzir o comprometimento do ajuste psicossocial.

A maioria dos profissionais pesquisados reconhece o respirador bucal como um paciente especial, portador de uma série de afecções e sequelas, que necessita de um tratamento diferenciado e interdisciplinar, dentro de uma visão abrangente de multidisciplinaridade (Tab. 4, 5). Esse fato pode ser justificado pela ênfase dada ao problema nos últimos anos, reconhecendo-se a importância do atendimento integrado para a melhoria da qualidade de vida do indivíduo16,21. Contudo, a dificuldade de acesso aos serviços públicos e o desconhecimento da população sobre as sequelas provocadas pela patologia em si podem interferir nesse contexto.

 

CONCLUSÕES

» Um percentual elevado de profissionais tem conhecimento da síndrome da respiração bucal e de suas sequelas para o paciente.

» O tratamento multidisciplinar é imprescindível para a reabilitação integral do indivíduo de acordo com a maioria dos ortodontistas/ortopedistas pesquisados.

 

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Endereço para correspondência
Valdenice Aparecida de Menezes
Rua Carlos Pereira Falcão 811/602 - Boa Viagem
CEP: 51.021-350 - Recife/PE
E-mail: valdmenezes@hotmail.com

Enviado em: 13 de novembro de 2007
Revisado e aceito: 4 de dezembro de 2008

 

 

» Os autores declaram não ter interesses associativos, comerciais, de propriedade ou financeiros que representem conflito de interesse, nos produtos e companhias descritos nesse artigo.